terça-feira, julho 19, 2005

DA FUNÇÃO DE HABITAR - III

III

Estudar fenomenologicamente os valores de intimidade do espaço interior é a meta de Gaston Bachelard no capítulo “A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana”, contido no livro “A poética do espaço”. Para tanto, a casa é eleita como objeto privilegiado de pesquisa, desde que tomada em sua complexidade e em sua unidade, buscando integrar os valores particulares num valor fundamental: a função de habitar. “Através das lembranças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas em que já desejamos morar, podemos isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificativa para o valor singular que atribuímos a todas as nossas imagens de intimidade protegida? Eis o problema central”. Recusando o ponto de vista que toma a casa como mero objeto para uma descrição objetiva, o autor quer “encontrar a concha inicial em toda moradia, mesmo no castelo (...) A casa nos permitirá evocar luzes fugidias de devaneio que clareiam a síntese do imemorial e da lembrança. Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar”. Mais adiante, afirma que “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz” e, mais do que isso, “os lugares onde se viveu o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio”. Os aspectos acolhedor e centralizador da casa se expressam em passagens como: “a casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. (...) Antes de ser “atirado no mundo”, como o professam os metafísicos apressados, o homem é colocado no berço da casa”.
Qual o papel dos espaços privilegiados que abrigam a intimidade para a constituição da memória? “É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas e se a casa se complica um pouco, se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. (...) Às vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando vai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. O espaço serve para isso. (...) Todos os espaços de nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são em nós indeléveis. E é o ser precisamente que não quer apagá-los. Ele sabe por instinto que os espaços da sua solidão são constitutivos. (...) Esses redutos têm valor de concha”.
A seguir, Bachelard busca separar seu objeto de pesquisa daquele da psicanálise, afirmando que para esta última interessa, sobretudo, o ser que se projeta para fora de si mesmo e exterioriza sua intimidade, enquanto que para o primeiro, trata-se de flagrar o ser e o inconsciente “tranquilamente instalados”, desfrutando da intimidade em seu refúgio mais perfeito. “O inconsciente normal sabe estar à vontade em qualquer lugar. A psicanálise ajuda os inconscientes deslocados, inconscientes brutalmente ou insidiosamente deslocados. Mas a psicanálise prefere colocar o ser em movimento a tranqüilizá-lo. Ela convida o ser a viver fora dos abrigos do inconsciente, a entrar nas aventuras da vida, a sair de si. E, naturalmente, sua ação é salutar. Uma vez que também é preciso dar um destino de exterior ao ser do interior. Para acompanhar a psicanálise nessa ação salutar, seria preciso empreender uma topoanálise de todos os espaços que nos chamam fora de nós mesmos”. Porém, o autor reafirma que “é à região da intimidade que consagramos nossas pesquisas. Ao poder de atração de todas as regiões de intimidade. Não há intimidade verdadeira que afaste. Todos os espaços de intimidade se caracterizam por uma atração. Repitamos uma vez mais que seu ser é o bem-estar”.
Na passagem seguinte, o autor se debruça mais atentamente sobre a evocação da casa natal pelo devaneio, não sem antes comentar a representação dos espaços de intimidade pela poesia e pela literatura. “Os valores de abrigo são tão simples, tão profundamente enraizados no inconsciente, que os encontramos mais facilmente por uma simples evocação do que por uma descrição minuciosa. (...) A casa primeira e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra. (...) Só eu, nas minhas lembranças de outro século, posso abrir o armário que guarda ainda, só para mim, o cheiro único, o cheiro das uvas que secam sobre a sebe. O cheiro das uvas! Cheiro-limite, é preciso muita imaginação para senti-lo. Mas já falei demais sobre ele. Se eu disser mais, o leitor não abriria, em seu quarto de novo revelado, o armário único, o armário com cheiro único, que assinala sua intimidade. Para evocar os valores da intimidade, é preciso, paradoxalmente, induzir o leitor ao estado de leitura suspensa. É no momento em que os olhos do leitor deixam o livro que a evocação do meu quarto pode transformar-se num limite de onirismo para outrem. (...) Há um sentido em dizer, no plano de uma filosofia da literatura e da poesia em que nos colocamos, que se “escreve um quarto”, que se “lê um quarto”, que se “lê uma casa”. Assim, rapidamente, desde as primeiras palavras, à primeira abertura poética, o leitor que “leu meu quarto” suspende sua leitura e começa a pensar em qualquer antiga morada. (...) Os valores de intimidade são tão absorventes que o leitor não lê mais meu quarto: revê o quarto dele”.
O que é a casa natal? “A casa natal está fisicamente inscrita em nós. (...) As casas sucessivas que habitamos mais tarde tornaram banais os nossos gestos. Mas ficamos surpreendidos quando voltamos à velha casa, depois de décadas de odisséia, com que os gestos mais hábeis, os gestos primeiros fiquem vivos, perfeitos para sempre. Em suma, a casa natal inscreveu em nós a hierarquia das diversas funções de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa e todas as outras não são mais que variações de um tema fundamental. (...) A casa natal, mais que um protótipo de casa, é um corpo de sonhos. (...) Se damos a todos esses retiros sua função que foi abrigar sonhos, podemos dizer que existe em cada um de nós uma casa onírica, uma casa de lembrança-sonho, perdida na sombra de um além do passado verdadeiro. Essa casa onírica é, dizia eu então, a cripta da casa natal. (...) Para explicar, pela vida afora, nossa atração pela casa natal, o sonho é mais poderoso que o pensamento. (...) Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança, é viver na casa desaparecida como nós sonhamos. (...) Assim, além de todos os valores positivos de proteção, na casa natal se estabelecem valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais”.
No trecho seguinte, Gaston Bachelard enuncia: “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. (...) Para por em ordem essas imagens, é preciso, acreditamos, enfocar dois temas principais de ligação: 1-) A casa é imaginada como um ser vertical. Ela se eleva. Ela se diferencia no sentido de sua verticalidade. 2-) A casa e imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade”.
Para tratar do tema da verticalidade da casa, o autor se vale da polaridade que se estabelece entre o sótão e o porão: “pode-se opor a racionalidade do telhado à irracionalidade do porão. (...) O telhado revela imediatamente sua razão de ser: cobre o homem que tem medo da chuva e do sol. (...) Todos os pensamentos que se ligam ao telhado são claros”. Em contrapartida, o porão “é, em primeiro lugar, o ser obscuro da casa, o ser que participa das potências subterrâneas”. Mas adiante, o autor toma de empréstimo uma imagem de C. G. Jung, contida no livro O Homem na Descoberta de Sua Alma: “a consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se no porão”. Continuando com Bachelard: “no sótão, os medos se “racionalizam” facilmente. No porão, mesmo para um ser mais corajoso que o homem evocado por Jung, a “racionalização” é menos rápida e menos clara; não é nunca definitiva”.
Adiante, o autor trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. (...) Nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. (...) A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. (...) À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.
O trecho final desse capítulo é dedicado à investigação da casa imaginada como um ser concentrado: “é preciso procurar na casa múltipla centros de simplicidade. (...) Em sua própria casa, na sala familiar, um sonhador dos refúgios sonha com a cabana, com o ninho, com os cantos em que gostaria de se encolher como um animal em seu buraco”. A seguir, o autor transcreve um trecho do livro Le Serviteur, de Henri Bachelin, que lança luzes sobre o tema da cabana inscrita na casa: “Eram horas em que com força, juro, eu nos sentia como que eliminados da cidadezinha, da França e do mundo. E eu me enchia de prazer – guardava para mim as minhas sensações – quando nos imaginava vivendo no meio dos bosques numa cabana de carvoeiros bem aquecida: eu gostaria de ter ouvido os lobos aguçarem as unhas no granito sem fim da soleira da nossa porta. Nossa casa fazia para mim as vezes de cabana. Nela eu me sentia seguro contra a fome e contra a sede. Se eu tremia, era só de bem-estar”. E Bachelard comenta: “a cabana, na página de Bachelin, aparece como a raiz que sustenta a função de habitar. Ela é a planta humana mais simples, aquela que não precisa de ramificações para subsistir. É tão simples que não pertence mais às lembranças, às vezes demasiadamente cheias de imagens. Pertence às lendas. É um centro de lendas. Diante de uma luz longínqua, perdida na noite, quem não sonhou com a palhoça, quem não sonhou, mais comprometido ainda com as lendas, com a cabana do eremita? (...) A cabana é uma solidão centrada. (...) Ela tem uma feliz intensidade de pobreza. A cabana do eremita é uma glória da pobreza. De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio”. E, tecendo considerações mais gerais sobre o devaneio e as imagens, acrescenta: “as grandes imagens têm ao mesmo tempo uma história e uma pré-história. São sempre lembrança e lenda ao mesmo tempo. (...) No reino da imaginação absoluta, somos jovens muito tarde. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo verdadeiramente, para vivê-lo na realidade de suas imagens, na sublimação absoluta que transcende qualquer paixão”.
Das análises de Bachelard, é importante retermos cinco pontos fundamentais:
1-) a casa é um ser evocado e sonhado, logo não redutível a uma análise fria e racional;
2-) a casa é o espaço do refúgio, da intimidade e da solidão; do ponto de vista fenomenológico, seu ser é o bem-estar;
3-) todas as casas que habitamos ao longo da vida repercutem a casa natal e é a partir das lembranças oriundas dela que elaboramos a casa sonhada;
4-) A casa é imaginada como um ser vertical;
5-) A casa é imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade.
Os pontos 4 e 5 nos remetem a dois temas que abordamos no primeiro capítulo, quando tratamos da figura de Héstia. Assim, a afirmação de Bachelard de que a casa é um ser vertical, desdobrada na análise que o autor faz do sótão e do porão, corresponde, em certo sentido, ao que Jean Pierre Vernant chamou de “caráter fundamental de ambigüidade” presente na figura de Héstia. Essa divindade, ao mesmo tempo em que permanece fixa e imóvel sobre a superfície terrestre, no centro da casa (ponto 5), atua também como o “o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”, de um lado ligando a casa com as potências subterrâneas e “enraizando a casa no mundo” e de outro, fazendo com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos, na forma da fumaça que sai da lareira (ponto 4). Sótão e porão, Olimpo e deuses ctônicos – a associação entre esses dois grupos de imagens, tiradas da mitologia grega e do que poderíamos chamar de uma filosofia da imaginação, nos leva a caracterizar a casa ao mesmo tempo como o refúgio, abrigo isolado que protege a solidão e o repouso, que confere um centro à existência humana e como o local privilegiado que une a superfície terrestre tanto ao mundo das profundezas subterrâneas, quanto ao mundo celestial, morada dos deuses. Não seria nenhum absurdo afirmar que a casa é dotada de um id e de um ego, assim como os seres humanos.

Nenhum comentário: