Sábado, Agosto 01, 2009

UMA CARTA DE SUICIDA

Psicodelia e cervejas, estamos indo embora dos anos dois mil. Astronauta e libertário, o futuro parece mais uma massa cinzenta de desejos por eletro-eletrônicos, coisas, coisas, coisas inúteis como a prestação da casa própria e o oficial de justiça que nos flagrou nus naquele dia de trabalho pouco após o pico de morfina. Troco o LCD pela vitrola, agulha, 76 rotações por minuto e o que meu vizinho tem de ouvir as quatro e quatorze da manhã quando me dá na telha é mutantes, jupiter maçã e raul seixas. As coisas por aqui vão mal, se enchendo de pó e lodo por culpa dos cupins. Os mesmos cupins que buzinam e dirigem automóveis colocando minha vida em risco todos os dias pela necessidade de parecerem burgueses. Celular e automóvel: não se dá dois brinquedos que não podem ser brincados ao mesmo tempo para crianças de seis anos. Porque elas vão rir de você e tentar te atropelar. E a vida escorre cinco vezes por semana, das dez às seis, já segredei bem alto para todos que eu não quero interpretar esse papel de ser o chefe. Dos trinta aos oito em dois milissegundos, essa nostalgia do que eu julgava podre (eu dos sete aos dezoito) faz deprimir meu sábado de faxina e reflexão. Ô ô ô seu moço, do disco voador – por algum motivo a música me diz alguma coisa de essencial e por dentro dá aquela vontade de chorar e encher a cara. Por que não fui ser artista? Por que não fui raul seixas, por que não fui arnaldo baptista, por que não fui oswald de andrade, por que nasci em mil novecentos e oitenta? Alguém haveria de estar aqui neste apartamento agora, provavelmente um arquiteto ou publicitário, e não haveria a iminência do vencimento do aluguel e essas lamentações idiotas de quem se desiludiu até com o poder dessa fonte da juventude – rua augusta. As discussões sobre a revolução e o poder público perderam a graça. Os direitos humanos e o combate à homofobia perderam a graça. A gana de lutar pelo mundo se foi, talvez numa transfusão para o menino de dezessete anos que quer fazer ciências sociais na puc, mas não consigo deixar de olhar pra ele com aquela cara de esse filme eu já vi e isso não vai dar em nada. Odiar os pais e evitar por todos os métodos anticoncepcionais a possibilidade de fazer filhos. Somos o ponto final de um sonho? Morreremos e os nossos pequenos segredos não estarão gravados nem nos nossos túmulos nem nos nossos livros jamais editados. O cheiro de feijão cozinhando no apartamento de baixo me abriu o apetite mas a coisa aqui tá feia. Necessidade de fazer a barba, cortar a costeleta e comprar uma roupa de adulto nova. Aproveito que a cerveja acabou e saio por aí torrando esse dinheiro colorido que terá a cara do fernando henrique bordada numa cédula do futuro, antes fossem keynes e marshall a sumir dos livros de história pra não ter de me aporrinhar numa aula de macroeconomia sexta-feira as onze e tanto da noite. Troco meu cartão do banco com você, se quiser também posso te dar meu título de eleitor e errigê – vai lá e vive essa vida bandida por mim. Quer meu salário, meu sexo, meu status, meu diploma de contabilidade? Pega e leva tudo com você pra mil novecentos e noventa e três. Eu vou morar no ar. Abra que eu quero voar o mais alto que eu puder. Um dia eu vou sair – vou morar no ar. Digo adeus aos anos dois mil: adeus velha utopia. Adeus juventude. Adeus rimbaud. Dentro do mambo e da consciência está o segredo do universo. Hoje eu sou cantor de mambo. Mam-bô.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

le dejeuner sur l´herbe

do bolo ainda mastigo o glacê
como a faca de viés na laringe
soro na lata é o creme de leite
confabulação de amoras
como fio de metal ao redor dos rins
a pata da mosca repousa
sobre porcelana, caco de louça,
morango mofado e chantili
como uma lâmina amolada
a consistência é láctea
e a confeitaria da esquina logo ali
nesta fresta o ninho de formigas
que trucidaram meu último gomo de kiwi
como a espada do arcano de tarô
cerejas em calda gotejam do céu
orbitando o vermelho mariposas
colher de pau a bater claras em neve
como o canivete na mão do menino
mistura de geleia de framboesa e vespa
bolor que transborda do frasco semi-aberto
como o talher a retalhar carne macia
ainda mastigo o bolo de glacê



Quarta-feira, Julho 01, 2009

Loki

Loki, na wikipedia, é descrito como um deus ou gigante da mitologia nórdica. Em outras acepções, loki é caracterizado como um gênio: e é sobre o gênio que trata o filme em cartaz atualmente nos cinemas de São Paulo. Vale ressaltar que o significado dessa palavra diluiu-se muito em nosso idioma, hoje em dia associado mais a variações de humor e a sujeitos cdfs e anti-sociais do que ao significado que a palavra tinha à época do Romantismo. Portanto, o filme trata do gênio (enquanto substância singular, universal e não encarnada) no sentido usado por Goethe: tem muito mais a ver com um certo tipo de dom, uma capacidade inquestionável de se aproximar do Universal, da Ideia hegeliana com I maiúsculo, seja por meio da arte refinada e atemporal, seja por meio de reflexões de clareza e objetividade, com mensagens de longo alcance no tempo e no espaço.

O filme é um documentário biográfico organizado em ordem cronológica e recheado de entrevistas sobre a trajetória do músico Arnaldo Baptista. Para os aficcionados pelo cara e pelos Mutantes, como é o meu caso, somente a oportunidade de ter acesso as imagens e depoimentos raros das décadas de 1960 e 1970 já vale por si só cem vezes o preço do ingresso. Mas muito além, novas luzes e perspectivas sobre a vida de Arnaldo são dádivas emanadas dos depoimentos mais atuais do cantor. Da simplicidade das suas pinturas, palavras, do lado de lá desse mundo à parte onde ele vive isolado ouvimos uma versão ligeiramente diferente sobre quem é essa figura mítica Arnaldo. Do senso comum católico e yuppie desses fãs um pouco mais velhos do que a minha geração o que se costuma ouvir é “o Arnaldo foi um cara que foi longe demais nas drogas, que não soube esquecer a Rita, que viajou no LSD e nunca mais voltou e que, de certa forma, o acidente e a vida precária que ele vem levando desde o fim dos anos 1970 é uma compensação, um castigo pela vida de excessos e ácidos dessa época dos Mutantes”. Nessa concepção, sente-se um pouco de pena (como em todo sentimento de pena: desprezo puro) por ele, que não soube virar burguês e “adaptar-se” aos novos tempos como aconteceu com a maioria daquela geração (aqui podemos enumerar a Rita Lee casada com aquele marido idiota, Gilberto Gil de gravata no ministério de Lula, Caetano cantando “sozinho” e até o Tom Zé se apresentando no programa do Raul Gil como eu vi um dia desses).

O meu amor pelo Arnaldo é enorme e com certeza distorce e influencia qualquer crítica. Mas a sensação que eu tive durante o filme e ao sair da sala misturava choro, vontade de entrar num ônibus pra Juiz de Fora, um desejo de sair pela avenida Paulista cantando “cê tá pensando que e sou lóki, bicho?” e uma necessidade urgente de embarcar numa nave espacial rumo a São Paulo de 1967, nessa mesma Rua Augusta onde eu moro e cujos tijolos das calçadas vibram melodias dos Mutantes. E afinal de contas, se eu ou você vamos a um cinema e assistimos a um filme o que buscamos não é isso mesmo – emoção, emocionar-se? Hoje fui trabalhar ainda inebriado com essa coisa toda. Nem quero entrar em muitos detalhes ou polêmicas sobre o filme (só pra constar: a melhor coisa é a ausência de qualquer entrevista da Rita Lee atual), vá você mesmo e tire suas próprias conclusões. Porque eu vou correndo. Buscar a glória.

Sábado, Junho 13, 2009

Filho Da

Eu e meus amigos causamos naquele bar. Bebi, falei alto, cantei marchinha de carnaval, criei mal-estar entre os garçons. Gatei os tubos. Segundo uma certa corrente da psiquiatria contemporânea, tudo isso porque eu não extravaso as minhas energias libidinais onde deveria extravasar. Discordo de toda psiquiatria, psicologia, psicossociopatia e também de toda “ciência” contemporânea. São meia-noite agora e lá fora faz um frio de mais ou menos onze graus: beber álcool e fumar nicotina a quatro reais e vinte e cinco o maço foram as válvulas de escape que me sobraram. Arranco o filtro do cigarro e penso nos surrealistas fugindo da SS em direção aos Pirineus – será que existiu essa outra Europa tão pior que a nossa América Cretina? Porque tudo se diluiu em consumo, vontade de ter um automóvel, a casa própria e procriar por meio de inseminação artificial? Tiraram das crianças a capacidade de imaginar, de ler Hans Cristian Andersen, de ouvir alguém narrar As Reinações de Narizinho e a Formiga e a Cigarra naqueles dez minutinhos antes de dormir. Crianças de colo embaladas por i-pods não são crianças nem são objetos orgânicos que mereçam ser carregados em qualquer colo. Fiquem longe de mim, vocês e seus filhos pequenos.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Leituras

As leituras de juventude são descobertas. Aos dezenove, vinte ou vinte e poucos eu desejava conhecer o que de melhor existia em literatura, teatro, cinema, na vida. E li bastante: quase sempre o acaso. As épocas, línguas e estilos fundiam-se numa maçaroca ininteligível e fascinante: era o desbravar de novos continentes. Faltavam mapas, faltava dinheiro, faltava esperar a estação do ano certa. E todo mundo tem que transar uma primeira vez, tem que usar droga por uma primeira vez, tem que se perder na augusta de madrugada uma primeira vez. E uma segunda, e uma terceira, e uma infinidade de eiras sem beiras...
As segundas leituras são orientadas pelo método. Já sei que livro eu gosto, já sei as cenas preferidas, já sei os autores que me falam algo essencial. Munido de mapas traço rotas muito mais precisas: posso passar seis meses convivendo com um autor, pensando seus pensamentos, conhecendo os bares onde ele ainda bebe, viajo com muito mais calma para as cidades visíveis/invisíveis que ele inventou.
E foi assim que mudei meu jeito de ler. Metade do ano passado – 2008 – convivi com a mulher Hannah Arendt e neste 2009 estou dado a ler Franz Kafka. Sim, eu já havia lido a metamorfose, o castelo, o processo, mas a perspectiva é outra quando se lê um livro na sequência do outro. E assim as impressões de uma leitura-mergulho dia-a-dia vão se consolidando em outras descobertas. Assim, como Rimbaud, abandonei a literatura desde algum tempo e pretendo continuar a preencher este espaço relatando impressões de minhas segundas leituras. Nada de exercícios de crítica, tudo de exercícios de leitura. Em voz alta: outras descobertas.

Terça-feira, Outubro 21, 2008

O INTESTINO E A GLOBALIZAÇÃO

Quem pode evitar o massacre? Dêem-me munição, um fuzil, um cantil, a mira do canhão. Branco e católico, você faz tempo já perdeu o seu poder de convencer. Homem de gravata, discurso ponderado e pausado, a velha retórica do democrata. O coronel que é filho do banqueiro, o soldado raso, sargento da PM, morreu sem lápide e todo baleado, ele era negro e era favelado, marginal, maconheiro. Quem quer fazer cessar a matança? Dê-me três por cento de comissão, taxa de juros mais correção, dê-me um alvará de soltura que eu te invisto meu capital e te faço aparecer na televisão. O velho democrata e sua falaciosa fala, lágrima de crocodilo e marqueteiro porque esse ano é ano de eleição. Um banquete regado a champanhe: vereador da base governista, promotor do ministério público, representante da bancada evangélica, investidor estrangeiro, industrial e empresário, jovens homens de negócio, um brinde ao holocausto. Quem pode legalizar o aborto, criminalizar a escravidão e a tortura, distribuir a renda, acabar com o racismo, combater a fome, diminuir a mortalidade infantil? Dê-me o controle remoto. Não existe tempo para o livro num mundo em que existem automóveis. Quero o cofre transbordante, todo o dinheiro do mundo (controle acionário marjoritário do Planeta Terra S/A). Pra comprar a força de trabalho do proletariado. Pago à vista e faço feriado, faço a suruba e o carnaval, sob o totalitarismo libertador de Orfeu e Dionisio.

Éolo

Para onde aponta o vento, com o vento bem forte batendo na cara. Assumir o fracasso e se resignar com uma vida de pobre. O rei dos pobres no país dos miseráveis. O quarto e sala, a geladeira de segunda mão, um fogão que mal funciona. Porque a pose continua a mesma, proliferaram foram as rugas. A completa falta de destino e a ausência de perspectivas, reproduzidas geração após geração. Para mergulhos na loucura não existe qualquer referencial. De noite posso ter a campainha dos iniciados, cumprindo o ritual da bebida e feitas as devidas honras aos deuses da camaradagem. Porque as pessoas que andam pela rua já perderam completamente a audição, entupidas que estão com seus fones de ouvido de playboy ou camelô. E nessas eu corro, mas a cidade e a velha náusea me perseguem. Eu olho pro céu cor de cinza e juro que por dentro dou um grito, porém o barulho do carro que passa é mais alto e me abafa. E desse absurdo silencioso me dá medo de morrer assim desse jeito, pelo meio do caminho. É hora de extravasar cometendo um reles e vil ato de crueldade gratuito contra alguém que não tem nada a ver com a história. Só a rotina impontual do amor pode dar tempero ao personagem. Eu sou corpo ela. Ao acordar o susto pode ser muito mais grave do que não lembrar.

O teatro, seu Zé Pelintra e o samba

O teatro, Zé Pelintra e o samba: bolinho de bacalhau e cerveja - arrancar a pessoa dessa letargia. Me sinto cansado de argumentar, negociar, racionalizar, opinar, contabilizar. O fim do mundo é o meio da rua, a multidão que devora o tirano, pipoco e morteiro que fazem o céu de repente clarear. A vida que não acontece, um tapa na cara, dívida em avalanche na fatura do cartão de crédito. Os referenciais perdidos, antecedências revogadas, a tribo é que não aceita mais a transmissão de bens e direitos por sucesão, herança ou doação entre parentes consanguíneos, tendo ou não a mesma origem étnica. São esses os cadernos do que escrevei em mais um lugar que habitei só de passagem. Sonhei as tapeçarias e os corredores do Kastelo, mas amanheci com gosto de vinho na boca mais uma vez, sempre a mesma vez, a mesma cama dura no quarto da estalagem. Os balcões e as bancadas, névoa milk-shake de neve, um misto-quente sem nada pra beber na padaria são paulo. Impessoal é a expressão do meu rosto, um espectro de i-pod, absolutamente alheio ao frenesi das buzinas e sirenes de ambulância, a audição deficiente e perdido mais um ouvido por causa das bombas da guerra. Sonhei um helicóptero que batia e explodia quando ia pousar bem no topo daquele prédio ali.

Eros

Desejo interrompido ao olhar para onde não devia, ao pensar o que naquela hora não convinha. Pudor não é o nome do tapa na cara. As camadas do tecido que encobrem (que recortam) a pele. O sangue e os dejetos do amor (amor entre aspas) dão a feição algo burlesca das flores em roxo e carmim, bordado furado com bituca de cigarro em um lençol alheio. Poesia é linguagem cifrada dessa e daquela outra pequena perversão, desejo que não transgride os olhos, não ganha voz em garganta, não canta, não vaza oríficio, desejo cínico impresso em tatuagem e caligrafia gótica. Frestas entre peitos, calor de um corpo suposto (quando não imaginado), noite que se faz tão úmida que escorre pelas pernas, pelo ralo do chuveiro, pelo alçapão. Olhos que já não são mais linhas de defesa, censura que potencializa a vontade de sacanagem, daqui em diante já não se fala mais em tesão. Boca não fala: boca chupa - não assopra e arranha - boca que morde. Eu sou um corpo inteiro. Na hora da ação a vida fica devendo tanto, mas mesmo assim os vampiros voam montados nas vassouras e as bruxas e os brochas, todo mundo se reúne pontualmente na fila pra comprar um ingresso pro parque de diversão. Em literaturalândia (ou) em literaturaworld. O mundo durante o dia não existe. E eu te prometo a satisfação e o gozo. Ou dessa vez não.

Solar

O que de dia é pacato. Certa tonalidade de verde no muro do prédio que se ergue a minha frente só pode ser enxergada com nitidez quando a luz do sol passa por essa outra fresta, exatamente às quatorze e quarenta e sete da tarde do dia sete de setembro de dois mil e oito na rua augusta - coração e ânus de são paulo. Os carrinhos de feira parecem resquícios de uma outra época, manobrando espaços no vão entre duas paredes altas de supermercado. Só o Iggy Pop é que berra na vastidão tão pouco ruidosa do apartamento do sétimo andar. A minha mente é que fotografa, sem lente nem máquina: paisagens interiores. O que de noite mostra seu lado malvado, em busca do corpo de alguém que morreu tão jovem e sem nem ser avisado. Ou a busca de outro corpo que faça cessar o instinto: serotonina, a difusão atômica do neurotransmissor. A tentação é o desapego de todo passado, nascimento a partir do dia em que fui conclusivamente declarado louco pelo parecer dos médicos. Por isso ainda me deixam dançar rock n´ roll sozinho no meio da sala e limpar os restos de comida cravados em minha gengiva quando as visitas estão presentes. Pela linha de sucessão da empresa, serei o próximo manager-presidente com a morte do Alberto.

Segunda-feira, Outubro 20, 2008

Vital

A vida é o que não estaca diante de uma bifurcação: arrisca. É o que se lança ao abismo, adolescente em fuga, pacto com o demônio: volúpia, calafrio e irresponsabilidade. Vida é o que caminha. O que confia no que vê é o que há de mais morto, na cama se confundem choro de bebê com gemidos de prazer da mamãe: arranca teus olhos com teus próprios dedos. Líquido é o que não seca, é o que escorre pelas frestas entre o assoalho e goteja qual provocação na careca do síndico que mora no andar de baixo. Vida é o que atravessa paredes e mergulha no vazio de uma queda, vertigem multiplicada pelos seis pavimentos do edifício residencial. Porque vida ainda são os golpes de um corpo escavando o chão do jardim, vida é essa capacidade de uma cabeça entrar dentro de outras cabeças, inventar misérias, conspirar em segredo e formular estratégias para evitar a pena pelos assassinatos cometidos. Vida não é a fome, vida não é o sexo, vida não é o repetido. Antes guinadas bruscas, antes cautelas inúteis, vida é o trem sem trilhos, a nostalgia das noites estreladas, o melancólico final de um alcoólatra com câncer. Conter a pulsão anárquica que palpita no escuro da vida é já estar do lado de lá. Vida é o querer morrer muitas vezes.

Diário

A escolha se resumia entre voltar a morar nas cavernas ou marchar com minhas próprias pernas para o campo de concentração. Cinzas cobriam a terra ainda úmida do sereno da manhã - o encontro dos que acordam cedo demais para ir trabalhar com aqueles que viraram a noite na balada. Os policiais cercaram o prédio e eu fugi rastejando pelo esgoto. Meu desleixo com a higiene e a falta de cuidado com a aparência denotam pouco caso, logo subversão. O caso é que o terror está nas coisas mais banais, rotina, absurdo e os mesmos movimentos repetidos. A cidade sitiada: o setor de inteligência do exército mandou reforçar o armamento dos sentinelas que fazem a ronda sobre a muralha. Vista de fora, pela legião dos refugiados que nunca fizeram questão de aprender nosso idioma, era realmente um campo de concentração. Faço parte desses que por dentro sabem que estão mortos, mas por fora continuam a viver mecanicamente. A fumaça espessa e fedida parecia que saía das entranhas do próprio asfalto. Sinto a cama girar e o teto deretendo, efeito da morfina. Me penduro de ponta-cabeça na marquise para piXar motivos psicodélicos.

Terça-feira, Junho 10, 2008

RAPSÓDIA

Não existe. Trama emaranhada, raras evidências, lógica truncada. Memória repetida em prateleiras de supermercado. O grotesco de uma terça-feira, uma aparição repentina, como num filme de David Lynch: um passarinho, a estrada, roupas penduradas em cabide de osso, barbatanas fósseis de seres de outras eras geológicas, arqueologia dos baús, mapa-tesouro de piratas, a tesoura eutanásia, arma do crime, censura velada. Natural que a ordem se subvertesse em anarquia. Filmograma, cinematógrafo, o oculto criptografado, função catártica da linguagem, ressonância magnética e transição pulmonar intravenosa parassintética. Um menino pequeno mas tão... tão extrovertido, debochando do palco, debochando da câmera, ridicularizando a coisa escrita. O gesto nem é tão decisivo. Brilho nos olhos, sorriso no rosto de quem sabe querer dizer com precisão o que uma perspectiva parcial de conceber o mundo que se chama indivíduo quiser dizer. Eu pus um caderno na saída do público para que eles escrevessem suas impressões a respeito do espetáculo. Sou daquele tipo de ator pra quem um trabalho bem feito vale mais do que mil vidas vulgares que eu ou qualquer outro pudesse ter tido. Não existe. Mas faço faíscas, coisas tão palpáveis quanto essa boca que eu beijo. O corpo que eu incorporo ao meu próprio corpo, incorpóreo, pó e poros. Descobrir que as pessoas são de verdade, na hora do vamu vê, ir pra cama e transar. Gozo que neutraliza essa poesia, o tecido das palavras, mas que inaugura outras poesias, o caldo e a carne.

A volta do boêmio...

Eu acordo de manhã no cruzamento mais barulhento da cidade. O dever e a náusea, não necessariamente nessa ordem, fazem o corpo levantar, vestir, sair caminhando. No trabalho as horas que passam, repetição. No meu caso nem chega a ser alienação. A cabeça é o anexo do windows, eu tenho pensamentos de computador. Saio exausto e de algum modo misterioso a alma entra em mim junto com a fumaça do cigarro. Na hora qualquer em que como o almoço ou ao final do expediente, os pensamentos perigosos que me perseguem. O ódio cozido aos poucos e em silêncio, a vontade de exterminar certas humanidades - a começar por mim. Daí o medo do saco de ter que encontrar no elevador um fulano que vai te achar com cara e jeito de louco e você ter que vomitar pelo menos um bom dia, os últimos dois vocábulos que sobreviveram da solidariedade e da civilização que outrora existiram. Ou pior ainda, o ódio destilado e mudo voltado integralmente contra um desses folgados com quem se tem o prazer de deparar ao menos duzentas e quinze vezes por dia. Que diferença quando um rosto já antes visto se aproxima e tudo faz sentido, um convite pra beber, conversar, o mundo e suas cores. Perefeição é o recolhimento, a solidão com livros, a hora em que sou eu, minhas caretas mais secretas. Viver o sentido ritual da vida, a carne e a cerveja, por mais que os rituais vazios de uma vida tão banal sejam desprovidos de todo sentido.

Segunda-feira, Março 10, 2008

É, eu sei disso que você tá me falando...

É, eu sei disso que você tá me falando. Não, isso é porque no fundo eu também cresci dentro de um quarto que tinha videogame, aparelho de som três em um, revista de História em quadrinhos, tv a cores, videocassete, uma porrada de revista de mulher pelada e um tênis nike sujo e esburacado jogado em cima de um canto. Não tem nada a ver com eu ser ou não ser filhinho de papai, tem coisas que eu cuido da cabeça pra dentro e não é porque neguinha saia por aí falando que eu pareço com isso ou parecço com aquilo que na verdade eu sou. Eu sei muito bem de que São-Paulo-Palanque eu tô falando, sei que a realidade do Brasil é outra, sei que eu não pertenço aos pobres e os ricos e os burgueses e os classe média do caralho tão cagando e andando pra cima de mim. Assim como eu estou cagando e andando pra cima deles também, quer saber. Porque meu negócio é viver meu eu e tudo o que está ao redor dele - inclusive você, meu. Viver as experiências que dá pra viver vivendo à margem e ao mesmo tempo dentro da parada, circulando por dentro e por fora do padrão. Brincando de esconde-esconde com a polícia, no Brasil todo mundo que brinca de polícia e ladrão prefere mil vezes ser ladrão, por que será? Um dia eu ainda vou ter minha carabina calibre doze e um canhão no quintal de casa que nem o Serafim Ponte Grande. Pena que eu moro em Alphaville e se eu atirasse não ia ter pra onde errar.

Fun, babe, fun!

Só eu sei o quanto é difícil penetrar nesse universo paralelo e estranho em que as garotas pensam, vivem e me julgam. Sim, porque a questão toda no fundo é julgamento e por mais que eu também seja um cara normalzinho e viva dando opiniões a torto e a direito sobre o modo de existir de qualquer fulano ou fulana que cruze o meu caminho, pelo menos eu tento me policiar. Não saio armado por aí etiquetando rótulos e disparando contra as tribos a troco de me sentir mais poderoso e mais in do que esses pobres adolescentes com camisetinhas de banda de rock neo-gótico. Eu cresci. E desde muito novo já circulava por entre as várias tendências e estranhezas que uma sociedade anárquica e pós-moderna pode oferecer pra alguém que tinha naquela época não mais do que quinze anos e adorava subir e descer pelas escadas rolantes (que não rolavam) da galeria do rock do centrão de São Paulo, ali ao lado do teatro municipal (seu burguês otário). Porque no teatro municipal mesmo eu só fui entrar lá depois de muito mais velho, já com a pose do intelectual decadente que não conseguiu ter saco pra aturar toda a enxurrada de burocracia que precede o solene ritual de entrega dos diplomas de graduação em letras e ciências anti-sociais. No colégio eu era amigo dos hippies, comia uma tiazinha com pinta de pin-up, tinha amigos entre os punks, freqüentava as festas da gaviões da fiel e pagava um pau pra turminha do black. Mas em lugar algum eu me sentia bem, sempre deslocado e blasé, com as latas todas de cerveja circulando pelo meu corpo entre um gole e outra gorfada na fila do banheiro –nunca tive pinta pra ser amante latino, desses que arrasam com o baile e ganham todas as loiras com um golpe bem dado de tacape na cabeça e depois carregam suas vítimas dentro de uma caçamba de pick-up rumo ao motel mais barato da rodovia raposo tavares. Meu negócio vai muito além de ter ou não ter estilo, de estar ou não estar na sua modinha, de seguir ou não seguir seus conselhozinhos de bacana que lê folha ilustrada. Comigo você vai ter que aprender novos idiomas, novos costumes, novos jeitos de fazer cada mínima coisa que você está acostumada a fazer nessa sua vidinha confortável e medíocre. Uh babe... Uh babe... Me dá um acorde em lá e se prepare pra se reinventar completamente. Bem-vinda ao mundo encantado dos que não consomem literatura por lazer. Dos que são feitos de tinta e papel e são literatura mais do que carne. Marquei uma reuniãozinha nas quebradas da rua augusta pra você conhecer minha galerinha e ir se enturmando logo no começo pra depois não dizer que eu faço você se sentir uma estranha. Porque pra ficar comigo vai ser desse jeito, por mais que doa e incomode. Estou aqui nesse mundo pra fazer doer e fazer incomodar. Fazer doer e fazer incomodar... Três e quarenta então? Naquela esquina suja entre as putas e os playboys da zona leste que se entopem oito ou nove dentro de um fiat um quatro sete e ainda racham a grana pra conseguir um mísero boquete de travesti sem dente? E no fim ainda fazem um sorteio (roleta russa com trinta e dois enferrujado de numeração raspada) pra saber quem será o felizardo desta noite. Estarei lá com meu compadre Artur, o junkie. E com o gordo do Jack. E com a piranha da Anais, com o velhinho do condomínio do Rubem, com o Leminksi, com o imbecil do Truman Capote, com a minha querida Clarice, com o deus supremo Oswaldo, com Cortazar, com Caio Fernando Abreu, com o pai do Luis Fernando Veríssimo. Estaremos ali ouvindo um violão do Kurt Cobain, quem sabe vendo um filme do Kubrick ou escrevendo e-mails com vírus pra algum Jean-Luc Godard que não saiba ler. Punhetando intelectualidades, como é característico dos autores que se escrevem por São Paulo. Entre um pico e outro de droga, pedir pro Iggy Pop dixavar mais um baseado, dar uns amassos e umas dedadas na mulher do Bowie e lamber a orelha da minha ex-atriz preferida: podia ser Anna Karina, podia ser Isabelle Huppert (por isso nos amamos e trepamos e fodemos em francês, língua porca e depravada). Sempre preferi a baixa boemia, sempre admirei como o maior dom divinal ou humano que se pode conceder a alguém essa capacidade de se manter invisível por detrás de uma coluna, só espiando e remoendo risadinhas sarcásticas. Mas voltarei ao palco pra fazer aquela cena de sexo explícito que o Nelson Rodrigues guardou só pra mim e pra você. Com direito a sangue e mordidas e manchas roxas sobre tua pele branca. Vem comigo por esse buraco, vamos escavar subterrâneos e vasculhar as passagens secretas e calabouços que nos levem para muito além desse mundo de ratos que se amontoam num sofá velho e rasgado pra assistir a novela das oito por detrás do reflexo da vitrine da loja de tevê. Eu odeio o seu amor, odeio essa sua maneira panaca de ser fina e meiga. Mas desejo seu corpo, preciso de um corpo jovem para dar prosseguimento ao macabro ritual – quero sobre o capô de um carro, encostada contra o poste toda arreganhada, seu bum-bum apoiadinho no mictório de uma balada podre, brutalidade e cheiros sobre o tampo do esgoto, eu, você e o que sobrar de nossas almas quando a aurora finalmente amanhecer. Quero conhecer na minha veia o HIV. Saltar etapas e me santificar por uma editora de pequeno porte, deixando aqui pra vocês somente uma pequena amostra (grátis o caralho) do que eu poderia fazer se tivesse vontade de ser um escritor que escreve pra qualquer rede globo. Só uma trepada assim (é, como você ta imaginando e querendo, assim mesmo, garota: uma trepada do caralho) e depois repouso eterno e o tédio enlatado pra curar da ressaca. Que venha o tiro e o pico e o carro desgovernado e a cama do hospital público senador nove de junho com sondas e cabos e tubos entrando e saindo pelo meu corpo magro. Que me amarrem e me amordacem e me mumifiquem ao lado do Lênin. Nunca fui mesmo mais do que um cadáver quando examinado do ponto de vista das garotas. Mas assim como as desprezo, queridas, as amo todas vocês. Nem só das noites de desamparo e solidão vive o desejo de um homem divergente pelas mulheres convencionais. Até porque agora a essa hora do ano tudo o que eu não quero é que você me convença. Beija primeiro e reclama depois.

DIÁRIO SEM DATA - II

Ainda dessa vez eu tomaria aquele ônibus Jardim Jamorítimo e não eram nem nove e meia da noite, meu corpo cheirava a óleo de cozinha. Celulares tocavam sem parar e meninas que vinham de qualquer periferia atendiam: alô, meu amor, onde cê tá, já tô chegando, tô aqui na faria lima. Eu olhava pela janelinha embaçada de suja aquela paisagem repetida que eu sabia inteirinha de cor: uma vez eu comentei com uma amiga que eu tinha a impressão que se um dia eu virasse por uma outra rua qualquer que saísse do itinerário eu me sentiria completamente desamparado. E naquela hora eu me sentia exatamente assim e minha consciência voava até o dia longínquo e esfumaçado da minha infância em que ainda existia em mim o germe de um ser humano que poderia vingar na vida. Não sei bem quando, mas essa promessa falhou e hoje só recolho cacos e junto objetos miúdos numa caixa como quem acorda de um sonho ruim numa manhã de quinta-feira e se dá conta de que se passaram vinte anos desde a noite em que você foi dormir. E o mais triste é que eu me esqueci como eu sou quando não estou bêbado nem chapado ou a procura de e que jamais terei coragem de mudar minha postura e encontrar qualquer ponto de equilíbrio que me garanta um mínimo de harmonia com as pessoas que estão ao meu redor. Me engano com pequenos prazeres e conversas meramente superficiais, mas em breve nem isso minha saúde frágil me permitirá mais. Sinto lá no fundo uma necessidade palidamente humana de me aproximar e compartilhar minha vida com alguém, mas fraqujo e desconfio de todos. Sou tenso e incapaz de me relacionar afetivamente, portador assumido de neuroses para as quais não vejo possibilidade de solução. Minha doença, dizem, chama-se depressão. Antes de descer deste ônibus eu quero muito me matar.

DIARIO SEM DATA - I

A velhice vem vindo e o tesão acabou. Só fui me dar conta de que o saldo de uma adolescência saudável é ter construído uma máscara de personagem de si mesmo tarde demais. Agora já não se pode reconhecer qualquer expressão humana nas rugas precoces que enfeiam a minha face. Cativo em denso casulo, sou insensível a todo e qualquer apelo, do racional ao afetivo. Me esquivo passageiro de ônibus nas multidões de São Paulo e maquino silenciosamente planos de ataques terroristas que matassem Motoristas de automóvel. Explodir uma ponte, uma dessa pontes da marginal, quem sabe. A fraqueza me paraliza e o medo me impede de começar o dia. Momentos felizes? Certas noites de orgia, cocaína e bebedeira. Disso eu entendo, entendo tanto que até já enjoei e agora eu queria o controle do meu destino de volta. Sonharam meus sonhos enquanto eu hibernava? Reconheço que em 99% do tempo me faltou força de vontade e amor no coração, mas só agora, depois de velho, é que eu consegui aceitar que o papel que eu vim representar aqui neste planeta não é o de ser um cara bonzinho. Vou dizer e fazer e escrever coisas que incomodam muita gente, mas eu não perco a chance de experimentar uma maneira de pensar o destino e a vida que seja original, transgressiva e perversa. Meu lugar é um pouco para lá da linha que separa as pessoas que se dão bem na vida e se guiam pelo bom senso do resto: os fodidos, bandidos, drogados, loucos e excêntricos. Meu grande defeito até agora foi conspirar em silêncio e acumular toda a energia ruim que eu recolho do mundo no meu corpo, mas agora eu estou finalmente aprendendo a me lavar. Quero me banhar na fonte mais límpida, mergulhar com os peixinhos do rio, secar sob o sol do Equador. Das águas emergiu um homem.

Quinta-feira, Março 06, 2008

ANÚNCIO

Sou um homem com desejo de engravidar
Apelo ao pai-de-santo, apelo à ciência
Perco a paciência, quero ter outro corpo
Quero um corpo loiro e alto e forte e de olhos azuis
Que transmita logo de cara a mensagem do que eu sou.

Sou um homem não tão sadio mas em idade de procriar
Por isso botei um anúncio no jornal de domingo:
"Pai solteiro e branco procura mãe de aluguel adolescente".

A mulher ideal que está tão longe agora...
Talvez no interior da Escócia, com uma atriz de cinema
Eu seria mais feliz se morasse num outro país.

Eu seria mais feliz mesmo se voltasse aos dezesseis
Agora é que eu não tenho mais chances
Porque encontrar a mulher com quem eu sonho há mais de dez anos
Tornou-se uma questão de honra, uma questão de sobrevivência.

MULHER

Mulher: você é uma invenção do poeta.
Você é o que está além dos adjetivos e metáforas
Aquilo que escapa às previsões e cartas de tarot
O impondeerável transfigurado em enigma e redenção.

Mulher: você é a autora dos meus sonhos mais contundentes.
É a muralha defronte a qual eu paro e me deparo
Seu jeito de ser e andar que me desvia do acordado
E meus olhos só imploram por um olhar de compreensão.

Mulher: você é a desrazão de todas as minhas insônias.
É o que em mim palpita gaita em desespero
Você é a certeza definitiva de que não sou deste mundo.

Mulher: você é o tempero secreto em meu caldeirão.
Você é a insegurança que assegura a minha ereção,
Você é a paixão, você é o tesão, você é o que eu queria ser, por que não?