segunda-feira, janeiro 31, 2005

UM QUADRO NA PAREDE

Depois de sete anos e três meses, eu consegui me formar na faculdade. Não digo que fui um aluno exemplar, mas sobrevivi a quatro greves, três reitores e cinco mudanças radicais na estrutura ou na grade curricular do curso. Estudei dois anos e meio de húngaro e depois resolvi me mudar para o sânscrito, embora para a universidade conste que eu tenha me formado em neurolingüística. Pouco importa, aliás nada mais me importa agora que eu concluí meu terceiro grau.
Fui buscar o diploma ontem. Confesso que senti uma ponta de tristeza, algo como uma saudade por antecipação por estar visitando pela última vez um lugar que por tanto tempo fez parte do meu dia-a-dia. Mas era uma tristeza boa, misturada com a felicidade por estar encerrando mais um ciclo na trajetória do meu destino e partindo para horizontes mais largos, ou seja, o resto dos meus dias daqui pra frente. Claro que eu pretendo fazer mestrado, mas isso já vai ser uma outra história.
Depois que cheguei em casa, quando estava na cama pronto para dormir, fiquei olhando fixamente por um longo tempo para aquele papel e me admirava de poder ler nele o meu nome escrito. As imagens todas que eu guardo da minha vida passaram pela minha cabeça naquela hora. Sonho misturado com lembranças, sei que rolei muito pela cama antes de conseguir adormecer.
Hoje fui mandar pôr o papel do meu diploma numa moldura para poder pendurá-lo na parede da sala de casa. Procurei na internet uma empresa que me prestasse esse serviço e que fosse próxima de casa e não tive dificuldades para encontrá-la: Molduras Artísticas Cambará, rua Nelson Manequinho, 1654. Logo depois do almoço, coloquei o diploma numa pastinha de elástico azul-marinho, tomei um ônibus, caminhei uns cinco quarteirões e enfim cheguei ao tal endereço. Numa rua tranqüila e arborizada, entre imóveis residenciais e um pequeno comércio de bairro de classe média aburguesada, localizei um sobradinho pintado de rosa e salmão, no qual uma tabuleta retangular com erros de ortografia e uma vitrine mixuruca com uma grade na frente, indicavam se tratar da loja de molduras que eu procurava.
Entrei e logo dei de cara com um balcão, que estava vazio. Procurei por um sininho ou algo do gênero para chamar a atenção, mas não encontrei nada. Notei os diversos modelos de molduras pendurados e espalhados pelo recinto, de todas as variedades, formatos e tamanhos que você possa imaginar. Do outro lado do balcão, havia uma estante de madeira com uns objetos de decoração toscos, alguns livros, cadernos e talões de nota fiscal; além disso, uma porta branca entreaberta ligava a sala com um outro cômodo que eu não podia ver, mas do qual vinham alguns barulhos de martelada esporadicamente. Um telefone tocou e uma voz de homem atendeu: Cambará Molduras Artísticas, boa tarde. Sem que eu percebesse muito bem de onde, uma mulher muito nova e sorridente surgiu e de pronto me disse: pois não, em que posso ajudá-lo? Respondi que queria uma moldura para o meu diploma e fui abrindo a pastinha de plástico azul-turquesa. Depois, entreguei a folha de papel para a moça, que tinha dedos fortes e roliços, um nariz muito bem esculpido e uns olhos deslumbrantes, embora o corpo e a estatura não fossem lá muito proporcionais ao conjunto. Ela mal se deu ao trabalho de ler o que estava escrito no meu certificado e logo sacou um fichário preto com a capa descascando que estava embaixo do balcão, me dizendo assim:
- Que tipo de moldura o senhor deseja? Temos aqui diversos modelos, veja só.
E começou a folhear o fichário, comentando e descrevendo os diferentes materiais, cores, comprimentos e texturas disponíveis. Sinceramente, eu não conseguia distinguir bulhufas e nem demonstrei empatia por nenhuma das molduras em particular, até porque estava ocupado demais tentando olhar para os peitos da mulher pelo decote quando ela se abaixava ligeiramente para virar as páginas moles com as figuras do fichário. Só me recordo que no final ela disse algo como:
- E temos aqui um produto que é uma exclusividade da loja, uma novidade no mercado que promete revolucionar o conceito de design de molduras, incorporando uma tecnologia inovadora, que o meu patrão mandou trazer da China.
- Mas do que se trata especificamente? – eu disse.
- Se eu te contar você vai achar que é mentira, que eu estou querendo tirar uma com a sua cara, você não vai acreditar.
- Conta logo. Fiquei curioso.
- Bom, trata-se de uma moldura super prática e moderna que, pasmem, dispensa o uso de pregos e adere sozinha à parede, podendo inclusive ser pendurada de ponta-cabeça ou mesmo no teto! – disse ela extasiada.
- E como funciona isso? – eu disse
- Funciona por um processo de reversão de íons à vácuo, que ocorre quando se desencadeia uma reação entre um certo componente químico da tinta e a parte detrás da moldura, que é revestida com um material todo especial fabricado numa base militar chinesa num arquipélago do oceano Índico e vem importado diretamente para cá. Somos os primeiros distribuidores a trabalhar com esse produto na América Latina. – ela falou, toda empolgada
- E que material todo especial é esse? – eu disse sem muito entusiasmo, mais para manter a conversa
- A composição exata é segredo industrial e nem o meu patrão sabe, mas o que eu posso te dizer é que é uma fibra sintética a base de ironia.
- Você quer dizer que essa moldura que não precisa de pregos é feita de ironia?
- Exatamente. Uma moldura de ironia nas cores café, bege e hortelã.
Olhei com mais atenção para o fichário e me decidi:
- Vou levar essa aí mesmo, café. Quando posso vir buscar?
- Olha, se o senhor preferir a gente pode estar entregando o produto na sua residência no prazo de dois dias úteis.
- Não, não. Não precisa, não. Eu mesmo venho buscar. Será que até amanhã no final da tarde fica pronto?
- Claro, isso com certeza. O senhor você vindo nesse horário que veio hoje já estará prontinha a sua moldura, eu posso garantir.
- Então tá ótimo. E quanto custa essa moldura feita de irenia? É irenia que fala?
Ela mudou um pouco de tom ao dizer:
- Eu vou ser sincera com você: o custo da moldura de ironia é um pouquinho maior do que o das outras, porque o senhor entende, trata-se de um produto importado e a cotação do iene subiu.
- Não tem importância. Pode encomendar essa daí mesma que eu gostei. Bom, então vou indo, muito obrigado e até amanhã.
- Eu que agradeço. Volte sempre. Tchau. – ela sorriu gostoso e fez um aceno com a mão.
- Tchau.
Não sei se ela compreendeu bem que eu queria voltar amanhã para poder vê-la de novo, mas tudo bem. O que importa é que a partir de amanhã eu serei um homem com um diploma na parede.

domingo, janeiro 30, 2005

8 - Me sinto um princípio ativo

Me sinto um princípio ativo
em órbita dentro de uma cápsula
prestes a iniciar uma reação em cadeia
que irá reagir contra os sintomas da peste
e repercutir no curto espaço entre os neurônios
causando efeitos colaterais irreversíveis no sistema nervoso pára-simpático
e abalando a estrutura comportamental do sujeito como um todo
feito um tranquilizante, um anti-depressivo ou um estimulante sintético
uns poucos miligramas a mais de mim na sua corrente sanguínea
podem muito bem ser fatais.

Contra-indicado para crianças, mulheres grávidas e pessoas com idéias convencionais

7 - Poesia feita de desamparo e ócio

Poesia feita de desamparo e ócio
Ausência de vocação para o trivial
Os desajustados e os desajeitados
Que desconhecem os caminhos para o outro
São incapazes de um gesto de decisão
E vacilam e erram e desviam os olhos
Quando qualquer bobagem engraçada
Seria suficiente para consumar uma cena banal de amor
E no fim sofrem calados pelo resto da vida
O montante da culpa depositado num demoníaco fundo de investimentos
Engordando mágoa em dólar a cada dia
Pra deixar como herança e karma
Praquela minúscula parcela maluca da humanidade
Que consome livros de poema
E outras mercadorias made in underground

Poesia que repete a sina triste
Do poeta que não prestava pra nada nesta vida.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

6 - A podridão é a matéria prima do poema

A podridão é a matéria-prima do poema
Usina de reciclagem dos odores fétidos
Antídoto pro gosto amargo da náusea de ver
E tocar com os dedos a miséria que te pede um cigarro,
Dinheiro prum lanche, um trocado, uma atenção, um gole de cachaça
Ou às vezes muito menos do que isso porque ele ou ela
Que ninguém nem se importa em saber se tem nome ou existe
Muitas vezes já não pode nem falar
Porque desaprendeu ou nunca aprendeu
Essa linguagem do apelo e da ameaça
E não tomou café nem almoçou hoje
Sendo incapaz sequer de erguer um braço
Nem mesmo o olhar desde as sarjetas
Ninhos de barata, aterros sanitários
Nem mesmo um brado retumbante bastaria pra acordar essa gente
E fazê-los tomar as ruas e marchar pelas estradas
Com o pé no barro e o olhar do morto-vivo,
Do indigente, do mendigo, do catador de papelão
Nem mesmo um tal exército severino obteria êxito
Tentando fazer a revolução no Brasil.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

5 - Civilização

Na parede do museu
A civilização é uma grande tapeçaria
Tecida com falsos fios
E toda roída pelas traças.

Camadas de pó e sujeira
Impedem o reconhecimento de qualquer figura
Só se vêem buracos e manchas
Pedaços de sílaba e caracteres esparsos
Que um estudioso filipino garantiu se tratar de aramaico
Embora as universidades polinésias contestem a descoberta
Que já é apontada pelas mais renomadas revistas científicas da Oceania
Como a vigésima sétima mais importante do milênio
Podendo render inclusive uma premiação internacional inédita
Aos obstinados e não menos heróicos e bravos arqueólogos
Da pequena república transistocrática
Do arquipélago do pelicano
Um punhado de ilhotas de formação vulcânica
Localizado a oeste dos caudalosos mares do sul.

4 - Poesia a toda velocidade

Poesia a toda velocidade
De olhos fechados pela contramão
Sinal vermelho, motor potente
Ditando estrofes pelo celular
Completamente chapada e bêbada
Procurando uma velhinha pra atropelar
Subir na calçada e estraçalhar tudo
Carrinho de bebê voando pelos ares
Muito sangue e marcas de pneu no asfalto.

Que juventude mais irresponsável
Vê se pode, seu Gumercindo,
Eles passam a noite inteira nessas tal de balada aí
Só fumando droga e enchendo a cara
E depois querem voltar pra casa dirigindo
Só podia dar nisso mesmo
Esse mundo está perdido.

A mina deu PT no carrinho novo do papai.

3 - A Poética do Assombro

A poética do assombro
Em tempos de guerras e ruas escuras
O poeta é pequeno para ver
E fica menor ainda se comparado ao documentário

E ainda que o poeta não disponha do fabuloso aparato tecnológico
Dos helicópteros e das ilhas de edição
De tudo que custa uma puta grana
E tem que mandar vir do Japão

Mesmo que o poeta não tenha um aparelho mágico em cada domicílio brasileiro
Sempre sintonizado e piscando sua luz azul

Não obstante o poeta não ter sequer quinze segundos
Pra recitar sua poesia no fantástico
E nem no horário eleitoral gratuito

Mesmo assim, contra tudo e apesar de todos
O poeta tem algo a dizer
E não é por favor.

2 - a palavra no limiar da não-palavra

A palavra no limiar da não-palavra
Se transmudando em carne viva
Imagem do que não existia
Inventando encontros novos
Palavra diabólica, pervertida ou casamenteira
Trazendo das profundezas do nada
Certos monstros pavorosos à tona
Com a curiosidade do cientista maluco
Que uma madrugada, só por passatempo,
Criou moléculas terríveis e invisíveis à olho nu
Que se por ventura caíssem em mãos erradas
Poderiam muito bem pulverizar a população
De um continente do tamanho da América Latina
Ou quem sabe até maior
Dependendo da pureza do plutônio
Palavra de urânio.

1 - Ouverture

Desligue seu aparelho-consciência
Aperte bem os sentidos
Jogue fora pela janela toda fumaça do cigarro
Vá no banheiro antes
E se prepare
Porque nós vamos decolar
Numa missão mais que ultra-secreta
Rumo às longínquas galerias do inferno
Cruzando todas as linhas de ônibus
E meridianos latitudinais imaginários
Vamos somente eu, você meu amor,
E a pequena tripulação alienígena
Que cuida da limpeza e da arrumação
E que cá entre nós, sabe preparar uma berinjela recheada de primeira
Imagina só, meu bem,
Porque a viagem ainda mal começou.