terça-feira, fevereiro 21, 2006

Em vez de flores: o poema

Era óbvio demais. Uma soma de desejos rarefeitos, carências sinuosas, carinhos com esse olhar insinuante, risadas de boca cheia e outros tantos apelos cifrados (indiretas?) que jamais poderiam levar a outra conclusão. Incrível o poder que um sofá tem de absorver e aconchegar, me atirando pra cima de você como se eu fosse uma almofada bordada numa brincadeira de criança. Eu diria que se trata de algo entre a sua pele e seus pelos, de uma finíssima camada de energia luminosa e térmica que aquece, ilumina e liga meu corpo como se fosse uma tomada de duzentos e vinte volts. Dá arrepio de lembrar, mas é inevitável não associar os sentimentos bons que se guardam na lembrança com essas sensações estranhas e no começo um tanto incômodas de arrepio, aflição e ligeiro desconforto. A cena das garras da felina raspando, lixando e polindo a minha pele que era tão branca. Porque gestos assim, quando vem de você para mim, me fazem ser vermelho e vermelho. O sangue se aquece, se alvoroça, circula em alta velocidade acionando todos os mecanismos mirabolantes que gritam pro meu cérebro e guiam meu corpo com a força irrefreável da vontade que surge íntegra à luz do dia sem dar nem tempo de pensar em conseqüências. Porque a conseqüência desses casos todo mundo sabe que nome tem, embora a cada vez que eu experimente coisas assim junto contigo sempre role algo de inédito e inacreditável que me faz sentir adolescendo outra vez. Gosto disso, de como ficar com você me faz experimentar meu ser menino outra vez, pairando sobre um céu muito além das meras convenções adultas, rotineiras e banais. Te entrego meu controle remoto, te entrego meu controle próximo, só eu é que não me controlo mais. Um quilo de coração embrulhado em papel prateado: todinho pra vc, meu amor.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

O Amor e a Cidade

Mas como do amor na hora de pagar a conta
Nenhum trocado ou bala de hortelã interessa
Pedimos outra xícara de café sem leite condensado
E fumamos gostoso mais um cigarro sem pressa.

Porque em horas assim a cidade toda reza ajoelhada
Implorando por sinais de fumaça na linha do horizonte
E vê o grande felino que desponta urrando sobre o monte
Enquanto as senhoras católicas lamentam tantas catástrofes.

E os mendigos se arrastam aos nossos pés, maltrapilhos
Porque os burgueses sempre se escondem atrás de vidros
E avançam apressados por sobre os meus velhos esconderijos.

Nessa hora tão fria eu admiro a sua falta de diplomacia
E o seu jeito de caminhar seguro me vem e me vale uma tarde
Sim: eu sou o lado escuro e você a aurora que me invade.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Escritos Parisienses - I

Uma cidade que se mede pelo esplendor dos seus cemitérios. Um lugar em que as casas são tão velhas e feitas de pedra que saindo pela rua de noite a gente tem a viva impressão de estar mesmo dentro de um cemitério. E nas lápides de mármore lêem-se meus nomes familiares: Baudelaire, Oscar Wilde, Proust, Sartre, James Douglas Morrison, Simone de Beauvoir. Mas onde a maioria dos túmulos e casas pertence à gente anônima e sem nenhum significado literário que me evoque alguma genealogia torta. Nunca em minhas veias se encontrará qualquer miligrama perverso do sangue francês, nenhum resquício de qualquer passado europeu ou ocidental. Minha raça é índia e mestiça – não me reduzirei depois de morto e desenterrado a nenhum monumento babaca de mármore com letras em alto relevo que ficam parecendo com a fachada de um condomínio de classe média – antes almejo a destruição total dos tecidos que resulta em alguns litros de sangue e um resto de osso em pó. Ou menos que isso, quem sabe por que não num desastre imbecil de avião. Me dá preguiça de viver quando o mundo faz tão frio. E o silêncio dos cemitérios que se espalham pelas ruas e tomam conta da velha capital é antes um prelúdio para o vento cortante que te fatia em cada esquina. Alguém esqueceu uma cova aberta no meio da noite: caberá nela uma lua ao avesso?