sábado, outubro 21, 2006

sem título

Um dia eu saí de casa
e lá fora tinha uma mulher
me agarrei nas pernas dela
e decidi que não ia mais soltar.

Até que bateu a fome.

Mas por sorte, bem diante
tinha um simpático restaurante
que parecia ser chinês.

De lá fomos direto para o aeroporto
despachamos a bagagem
e nos mandamos sem nem falar tchau.

Conhecemos todas as nações com as quais o Brasil mantem relações diplomáticas.

Na volta, eu e ela costuramos os umbigos
e decidimos nunca mais desgrudar.

quarta-feira, outubro 11, 2006

um Não ao amor

De manhã sou tom pastel. Convido passarinhos pro rolê, chacoalho aeronaves barulhentas e me sinto maior do que qualquer telão armado na praça em dia de jogo da seleção. Mudo de cor em cor e a melodia faz-me lembrar que o tom foi muito mais que a bossa-nova. Mais tarde fumo cigarros e corro pra feira em busca do sacro pastel de palmito pingando óleo. Meu café da manhã ao meio-dia. A fumaça na tela ouvi dizer que é carvão e automóvel. Mas eu sou mais pintura à óleo, adoro arrebentar as molduras com os dentes e me esparramar pelas paisagens mais líquidas do que qualquer débil imaginação é capaz de rascunhar. Um som pra essas horas: temple of love e os sisters of mercy. Tem dias que eu também acordo uma sister, de maquiagem roxa borrada na cara e a testa franzida de ressaca e culpa. Sou pau e sou buceta e se você me encontrar no busão e quiser vir me olhar de atravessado digo-lhe logo um foda-se e te cuspo porra na cara. Também sei chover. Pra foder a vida dos pobres formiguinhas que fogem que nem baratas alucinógenas pra debaixo da marquise. E quando tô com raiva de verdade os ratos bóiam pra fora dos bueiros. Louvo o caos: louros aos cais. Sou branco e sou preto e colorido inclusive de cinzas. Sim, assumo que já nadei num cinzeiro sujo e fui um golfinho americano a fazer passos de ballet num grande copo de cerveja meio quente e sem colarinho. Odeio canções de amor e poetas contemplativos, acredito na subversão e na inevitabilidade iminente da oitava leva da revolu. São do signo de libra as melhores e as piores almas a arder nas chamas crepitantes da estação paraíso do metrô. Além de mim, vejo Alices e diamantes.

quinta-feira, outubro 05, 2006

um terceiro dia de outubro

O ambiente do bar como um todo é que era um palco. De fora era um restaurante. De dentro possuía: plantas de mentira, teto de vidro, detalhes em madeira e bambu e um banheiro que era completamente nojento. E ainda ficava meio que debaixo de uma escada e a privada era daquelas antigas, com uma caixa de plástico pendurada na parede e aquela tradicional cordinha pra você puxar ao dar a descarga. Mas esse palco também tinha um cenário, que até que era organizado – cadeiras e mesas estrategicamente dispostas, um balcão (idéia de um arquiteto) que usava fundos de garrafa de vidro de cores diferentes encravadas no meio de cimento, mas que não funcionava muito bem; havia um espelho grande, as manjadas cortinas, um ou outro sofá e os cinzeiros de motel e os copos de --->>> cerveja, vinho, tequila, catuaba, caipirinha, whisky, guaraná schincariol, água com gás, absinto, cheios e vazios, alternadamente. A iluminação era de primeira: spots potentes de várias cores, principalmente vermelho, que era uma exigência do músico e tinha a ver com o contexto do show que ele ia fazer. Os personagens eram as pessoas mais incríveis do mundo.