IV
O capítulo seguinte do livro de Bachelard, “Casa e Universo” tem como propósito fundamental “ler” alguns quartos e casas escritos por grandes autores da literatura universal, embora também dê continuidade ao estudo de alguns dos temas presentes no capítulo anterior.
Num dado trecho, o autor retoma a discussão da adequação de uma abordagem racional para se apreender a casa e relaciona as dimensões humanas às formas da casa: “com efeito, a casa é, à primeira vista, um objeto que possui uma geometria rígida. Somos tentados a analisá-la racionalmente. Sua realidade primeira é visível e tangível. É feita de sólidos bem talhados, de vigas bem encaixadas. A linha reta é dominante. O fio de prumo deixa-lhe a marca de sua sabedoria, de seu equilíbrio. Tal objeto geométrico deveria resistir a metáforas que acolhem o corpo humano, a alma humana. Mas a transposição ao humano se faz imediatamente, desde que se tome a casa como um espaço de conforto e intimidade, como um espaço que deve condensar e defender a intimidade. Abre-se então, fora de toda racionalidade, o campo do onirismo”.
A problemática da dialética entre o castelo e a cabana é retomada na seqüência: “George Sand diz que se podem classificar os homens segundo queiram viver numa choupana ou num palácio. Mas a questão é mais complexa: quem tem um palácio sonha com uma choupana, quem tem uma choupana sonha com um palácio. Melhor, cada um de nós tem suas horas de choupana e suas horas de palácio. Descemos para morar perto da terra, sobre o solo da choupana e depois, em alguns castelos da Espanha, desejaríamos dominar o horizonte. E, quando a leitura nos deu tantos lugares habitados, sabemos fazer ecoar em nós a dialética da choupana e do castelo”.
Na continuação, Gaston Bachelard fala a respeito dos “devaneios que acompanham a ação de governar a casa”. “Assim, quando um poeta limpa um móvel, quando põe um paninho de lã, que esquenta tudo que toca, um pouco de cera aromática em sua mesa, cria um objeto novo, aumenta a dignidade humana de um objeto, inscreve o objeto no estado civil da casa humana. (...) Os objetos assim acariciados nascem realmente de uma luz íntima; chegam a um nível de realidade mais elevado que os objetos indiferentes, que os objetos definidos pela realidade geométrica. Propagam uma nova realidade do ser. Tomam lugar não só numa ordem, mas numa comunhão de ordens. (...) Se vamos até o limite em que o sonho se exagera, sentimos uma espécie de consciência de construir a casa nos cuidados que temos em mantê-la em vida, em dar-lhe toda a claridade do ser. Parece que a casa luminosa de cuidados é reconstituída pelo seu interior, que é nova pelo interior”. E o autor evoca algumas passagens de Rilke que dizem respeito aos pequenos atos de limpar, conservar e arrumar a casa, se detendo longamente nas sugestões e devaneios suscitados por tal matéria. “Chegamos aqui ao paradoxo que tem o começo de uma ação muito costumeira. Pelos cuidados com a casa, é dada a casa não tanto a sua originalidade, mas sua origem. Ah, que vida longa se, na casa, cada manhã, todos os objetos pudessem ser refeitos por nossas próprias mãos, “sair” de nossas mãos!”.
Finalizando esse capítulo, Bachelard nos conta algo a respeito dos desenhos de casa feitos por crianças: “toda grande imagem é reveladora de um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é um “estado de alma”. Mesmo reproduzida em seu aspecto exterior, fala de uma intimidade. Psicólogos, em particular Françoise Minkowska, e os trabalhadores que ela soube treinar, estudaram os desenhos de casa feitos por crianças. (...) Quando a casa é feliz, a fumaça alegre paira docemente sobre o telhado. Se a criança é infeliz, a casa traz a marca das angústias do desenhista. Françoise Minkowska expôs uma coleção particularmente comovente de desenhos de crianças polonesas ou judias que sofreram as sevícias da ocupação alemã durante a última guerra. A criança que viveu escondida, ao menor grito de alerta, num armário, desenha por muito tempo depois das horas malditas casas estreitas, frias e fechadas. (...) É medindo essas sutilezas que nos transformamos, como Françoise Minkowska, em psicólogo da casa”.
Esse último parágrafo é especialmente importante, pois nos mostra a grande importância que a casa e tudo o que a ela se relaciona têm para a psicologia humana. As lembranças, representações, evocações, devaneios, projetos, sonhos e recordações ligados a casa constituem o que Bachelard chama de um “corpo de sonhos” e não há exagero nenhum em afirmar, como ele o faz, que sem a casa o homem seria “um ser disperso”. O poder de concentração e a noção de centralidade conferidos pela existência da casa na vida de todos nós, garantem que nosso ser permaneça íntegro e em harmonia com o cosmos, mesmo em meio às tempestades e catástrofes que ameaçam o processo de individuação e a própria existência. Mais do que isso: como afirmamos no prólogo, a casa pode ser imaginada como um duplo do homem, na medida em que, pela sua própria conformação e organização, é capaz de dizer algo sobre nós mesmos que jamais tomaríamos conhecimento de outra forma. Encontrar correspondências entre determinados lugares privilegiados da casa e elementos da nossa constituição psíquica, como fazem Bachelard e C. G. Jung ao comparar o sótão ao ego e o porão ao id, não é somente elaborar uma metáfora ou um modelo para se compreender a mente humana. Assim, podemos dizer que ao vasculhar os confins da mente humana, lá encontraremos imagens provenientes da casa, da mesma maneira que quando nos debruçamos sobre a casa, nos deparamos com elementos da mente humana. São grandezas intercambiáveis.
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