Automóvel não é meio de transporte
Telefone celular não é meio de comunicação
Hospital não diz respeito à saúde
Escola não é o futuro da nação
Democracia não é a melhor forma de governo
Para o meio ambiente, tecnologia não é solução
Pátria não é motivo de orgulho e respeito
Fábrica não é aquilo que pertence ao patrão
Arma de fogo não traz paz nem segurança
Cor da pele não é critério de seleção
Mulher não é objeto de consumo
Amor não precisa ser Eva + Adão
Bicicleta não é brinquedo de domingo
Aborto não é matéria de religião
Indígenas e africanos não são povos primitivos
Terrorismo não é ameaça à sua civilização
Dinheiro não é sinônimo de sucesso
Rede Globo não é só mais um canal da televisão
A ciência não é neutra e nem procura a verdade
Abandone a zona de conforto e repita: não, não, não...!
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
quarta-feira, abril 18, 2012
sexta-feira, abril 13, 2012
ADEUS PLANETA
Os militares e suas bombas... Deixo o planeta Terra para eles e para tia Berta – ela que por nada nesse mundo abandonaria a velha casa na montanha. Só mesmo um yankee veterano do Vietnã para acreditar que um foguete é a melhor forma de viajar pelo espaço: Apolo 11 está muito mais para Dr. Fantástico do que para 2001. Assim eu parti, com minhas próprias asas, contornado a órbita de asteroides tão viscosos que pareciam feitos de musgo; assim eu cruzei o grande cinturão de meteoritos e embarquei na gravidade dos gigantes gasosos.
Vistas daqui, as luas são infinitamente mais brilhantes do que esses longínquos planetas. Se algum dia eu voltar a abraçar o sedentarismo, construirei minha choupana por esses lados. Como se fosse o sonho de todo latino-americano: encontrar uma Europa vazia de gente e cheia de espaço para a gente anarquizar à vontade, cavar buracos, queimar fogueiras e professar religiões obscuras. Mas, por ora, voar ainda me dá um baita prazer. E não é um prazer fútil de aventureiro sedento por novidade a todo custo: as estrelas são iguais, aqui e nas outras galáxias o vazio entre uma e outra entendia tanto que é um repetir-se sem fim nem começo. Trata-se de outra coisa. O prazer de voar é o prazer do abandonar-se à vertigem indescritível de uma estrada sem chão, de um navegar sem água, de um sonhar sem precisar de rede ou colchão. Quem voa não precisa de vigília nem de sono: a vida é cinema, lusco-fusco, entardecer na praia. Geografias, cartas astronômicas e coordenadas cartesianas são para os fracos – os fenícios cruzaram o Atlântico sem nada disso e seu contramestre não era parente de Ulisses, como até outro dia diziam as más línguas portuguesas. Ainda divago em linguagem do planeta Terra, ora bolas... De agora em diante, somente referenciais culturais de Saturno, no máximo alguma citação filológica do classicismo uraniano. Incas venusianos e aerolitos mexicanos fazem a gente sorrir, mas são cultura pop descartável: existem de verdade enquanto duram e só.
Questão matemática: o número de objetos discretos que existem no universo é vertiginosamente maior do que o somatório das possíveis combinações de caracteres, fonemas, números e símbolos que as linguagens humanas já criaram no passado, no presente e que poderiam vir a criar no futuro, caso um futuro humano existisse ainda que como um somatório de todas as possibilidades concebíveis. Olho para o que vejo e sou incapaz de definir o que és: planeta não, rochedo também não pode ser, não é troço, nem coisa, muito menos galáxia, buraco negro, buraco de minhoca. Não sendo coisa, não posso traduzi-la em linguagem, não posso pensá-la, não posso concebê-la nem mesmo como alguma estranha combinação de dados sensoriais. Foi, é, está sendo? O não-coisa é avesso a toda aproximação humana. X.
Em breve, raios de luz em código morse serão meu modo de dizer o que descobri. Por ora, a luz é cara e demora muito para ir de uma galáxia até a outra. Não espere.
Vistas daqui, as luas são infinitamente mais brilhantes do que esses longínquos planetas. Se algum dia eu voltar a abraçar o sedentarismo, construirei minha choupana por esses lados. Como se fosse o sonho de todo latino-americano: encontrar uma Europa vazia de gente e cheia de espaço para a gente anarquizar à vontade, cavar buracos, queimar fogueiras e professar religiões obscuras. Mas, por ora, voar ainda me dá um baita prazer. E não é um prazer fútil de aventureiro sedento por novidade a todo custo: as estrelas são iguais, aqui e nas outras galáxias o vazio entre uma e outra entendia tanto que é um repetir-se sem fim nem começo. Trata-se de outra coisa. O prazer de voar é o prazer do abandonar-se à vertigem indescritível de uma estrada sem chão, de um navegar sem água, de um sonhar sem precisar de rede ou colchão. Quem voa não precisa de vigília nem de sono: a vida é cinema, lusco-fusco, entardecer na praia. Geografias, cartas astronômicas e coordenadas cartesianas são para os fracos – os fenícios cruzaram o Atlântico sem nada disso e seu contramestre não era parente de Ulisses, como até outro dia diziam as más línguas portuguesas. Ainda divago em linguagem do planeta Terra, ora bolas... De agora em diante, somente referenciais culturais de Saturno, no máximo alguma citação filológica do classicismo uraniano. Incas venusianos e aerolitos mexicanos fazem a gente sorrir, mas são cultura pop descartável: existem de verdade enquanto duram e só.
Questão matemática: o número de objetos discretos que existem no universo é vertiginosamente maior do que o somatório das possíveis combinações de caracteres, fonemas, números e símbolos que as linguagens humanas já criaram no passado, no presente e que poderiam vir a criar no futuro, caso um futuro humano existisse ainda que como um somatório de todas as possibilidades concebíveis. Olho para o que vejo e sou incapaz de definir o que és: planeta não, rochedo também não pode ser, não é troço, nem coisa, muito menos galáxia, buraco negro, buraco de minhoca. Não sendo coisa, não posso traduzi-la em linguagem, não posso pensá-la, não posso concebê-la nem mesmo como alguma estranha combinação de dados sensoriais. Foi, é, está sendo? O não-coisa é avesso a toda aproximação humana. X.
Em breve, raios de luz em código morse serão meu modo de dizer o que descobri. Por ora, a luz é cara e demora muito para ir de uma galáxia até a outra. Não espere.
terça-feira, abril 03, 2012
Quatro Encontros
Da primeira vez que aconteceu, o que o atingiu logo após o ocorrido foi uma rápida sucessão de sensações contundentes: ódio de si mesmo, perplexidade ante a injustiça fundamental das coisas deste mundo, desejo de vingança e vontade de morrer. Como que anestesiado ou embriagado pela adrenalina no sangue, ele mal tinha forças para se sustentar em pé. Um tanto atabalhoado e aos tropeções, conseguiu se agachar apoiando as mãos na calçada suja e sentou-se junto ao meio-fio. Ao levantar a vista, contemplou vagamente a vida cotidiana dos pombos e amaldiçoou o universo por tê-lo feito vir ao mundo sob a forma de um ser humano. Devagar, o ódio parecia, de algum modo, ir embora de seu corpo e escorrer pelas sarjetas até a boca de lobo mais próxima – o que veio depois foi uma calma preenchida por sobriedade, ao que logo sucedeu uma lógica formalista e rigorosa empregada na fabulação de uma versão do ocorrido que fosse verossímil para os outros e escondesse qualquer componente de covardia, imprudência ou culpa da sua parte. Tarefa ingrata, cujo resultado ele nunca tivera ser certeza de ser um completo e absoluto sucesso. Convenceu?
Na segunda vez, ele já era o que chamamos de um homem feito. Soube cultivar, por meio de leituras selecionadas, aparência desleixada e doses regulares de entorpecentes, uma carapaça de segurança e fleugma que parecia funcionar para afastá-lo de certas situações perigosas. Ledo engano. Na hora em que aconteceu de novo, tudo se repetiu: batimentos cardíacos acelerados, suor nas mãos, desespero por não vislumbrar uma saída, medo de morrer de repente. Ainda que tenha durado não mais do que alguns minutos, pareceram horas – pelo menos é assim que ele tinha visto alguém que passara pela mesma situação descrever essa sensação estranha para um repórter da televisão. Inquieto consigo mesmo, ele optou por evitar dramatizações: não seria como da primeira vez, agora ele era um homem feito. Sabia que ao final ele teria de contar alguma versão para fazer convencer os outros de que as marcas no seu rosto tinham uma explicação razoável. Mas como narrar uma situação assim sem atuar no papel da vítima ou, o que poderia ser ainda pior a médio prazo, sem ser considerado mentalmente perturbado? A verossimilhança ainda dessa vez prevaleceu e as pequenas mentiras superficiais se encaixaram perfeitamente nos buracos da sua narrativa. Buracos esses que nem mesmo ele tinha a convicção de serem verdades, alucinações ou esquecimentos involuntários operados pelo subconsciente.
E a vida continuou. O terceiro encontro sucedeu em um ambiente que ele jamais havia imaginado: tratava-se de um cenário fechado por quatro paredes brancas e coberto por um teto tão mais branco que as paredes que só poderia ser um forro de gesso. Bem que poderia ser um hospital ou talvez um consultório. Por conta disso, as sensações confusas e cheias de sombras dos dois primeiros encontros lhe vieram somente nos primeiros instantes – surpreendentemente, o que veio depois foi calma, relaxamento e um certo prazer íntimo e fugaz de quem consegue abandonar o corpo à própria sorte e voar para bem longe. Era um filme que ele vira alguns meses antes, ou quem sabe um seriado, extraterrestres vestidos de médicos legistas dissecando as vísceras de um corpo humano em uma maca suspensa por um disco voador. Exagero. Ele nunca saíra daquela sala, aliás nunca nem entrara naquela sala, estava todo desde sempre ali, à espera – GH e a barata. O ambiente fechado ainda lhe dava uma vantagem adicional: as testemunhas que um dia poderiam vir a desmentir a sua versão estavam já de antemão todas trancadas do lado de fora, a mentira dessa vez poderia ir muito mais longe, ilimitada, literatura-tura. Mas ainda era necessária? Os outros já tinham partido há tempos, não havia necessidade de alarmar a família por coisa pouca. Na ocasião, ele já morava sozinho e o maior obstáculo seria dizer duas ou três palavras para o chefe e depois para o porteiro. Contente, caminhou para casa debaixo de chuva.
Da quarta vez, não foi o encontro que veio ao encontro dele, mas ele que foi de encontro ao encontro. Vestiu-se como de costume e garantiu que a vizinha alimentasse o gato durante a sua ausência que não deveria – mas poderia – se prolongar mais do que o previsto. A cidade era o brilho artificial das intermitentes luzes natalinas. Ele precisou caminhar bastante, madrugada adentro e manhã afora, mas cumpriu o combinado. Ao seu lado, pressentia procissões e romarias: Abraão, uma ovelha e Isaac, o automóvel de Camus capotando ribanceira abaixo e submergindo no oceano absurdo, filósofos medievais armados com lanças e galopando corcéis negros de tamanho desproporcional. Ao chegar ele encontrou: ar fresco, cheiro de capim, cogumelos e muitos pedregulhos. Passado algum tempo, um outro homem veio determinado, caminhando em linha reta na sua direção. Esse outro era igual ao primeiro em tudo: jeito de andar, aparência, altura e voz. Foram longos e detalhistas os preparativos e os jogos preliminares: sobre o que conversaram não sei dizer, ignoro completamente o idioma em que poderiam de alguma forma se comunicar. Do beijo entre os dois, um homem sobreviveu e o outro, como era de esperar, sucumbiu morto. Naquele momento, estavam ambos muito distantes de toda e qualquer civilização.
Na segunda vez, ele já era o que chamamos de um homem feito. Soube cultivar, por meio de leituras selecionadas, aparência desleixada e doses regulares de entorpecentes, uma carapaça de segurança e fleugma que parecia funcionar para afastá-lo de certas situações perigosas. Ledo engano. Na hora em que aconteceu de novo, tudo se repetiu: batimentos cardíacos acelerados, suor nas mãos, desespero por não vislumbrar uma saída, medo de morrer de repente. Ainda que tenha durado não mais do que alguns minutos, pareceram horas – pelo menos é assim que ele tinha visto alguém que passara pela mesma situação descrever essa sensação estranha para um repórter da televisão. Inquieto consigo mesmo, ele optou por evitar dramatizações: não seria como da primeira vez, agora ele era um homem feito. Sabia que ao final ele teria de contar alguma versão para fazer convencer os outros de que as marcas no seu rosto tinham uma explicação razoável. Mas como narrar uma situação assim sem atuar no papel da vítima ou, o que poderia ser ainda pior a médio prazo, sem ser considerado mentalmente perturbado? A verossimilhança ainda dessa vez prevaleceu e as pequenas mentiras superficiais se encaixaram perfeitamente nos buracos da sua narrativa. Buracos esses que nem mesmo ele tinha a convicção de serem verdades, alucinações ou esquecimentos involuntários operados pelo subconsciente.
E a vida continuou. O terceiro encontro sucedeu em um ambiente que ele jamais havia imaginado: tratava-se de um cenário fechado por quatro paredes brancas e coberto por um teto tão mais branco que as paredes que só poderia ser um forro de gesso. Bem que poderia ser um hospital ou talvez um consultório. Por conta disso, as sensações confusas e cheias de sombras dos dois primeiros encontros lhe vieram somente nos primeiros instantes – surpreendentemente, o que veio depois foi calma, relaxamento e um certo prazer íntimo e fugaz de quem consegue abandonar o corpo à própria sorte e voar para bem longe. Era um filme que ele vira alguns meses antes, ou quem sabe um seriado, extraterrestres vestidos de médicos legistas dissecando as vísceras de um corpo humano em uma maca suspensa por um disco voador. Exagero. Ele nunca saíra daquela sala, aliás nunca nem entrara naquela sala, estava todo desde sempre ali, à espera – GH e a barata. O ambiente fechado ainda lhe dava uma vantagem adicional: as testemunhas que um dia poderiam vir a desmentir a sua versão estavam já de antemão todas trancadas do lado de fora, a mentira dessa vez poderia ir muito mais longe, ilimitada, literatura-tura. Mas ainda era necessária? Os outros já tinham partido há tempos, não havia necessidade de alarmar a família por coisa pouca. Na ocasião, ele já morava sozinho e o maior obstáculo seria dizer duas ou três palavras para o chefe e depois para o porteiro. Contente, caminhou para casa debaixo de chuva.
Da quarta vez, não foi o encontro que veio ao encontro dele, mas ele que foi de encontro ao encontro. Vestiu-se como de costume e garantiu que a vizinha alimentasse o gato durante a sua ausência que não deveria – mas poderia – se prolongar mais do que o previsto. A cidade era o brilho artificial das intermitentes luzes natalinas. Ele precisou caminhar bastante, madrugada adentro e manhã afora, mas cumpriu o combinado. Ao seu lado, pressentia procissões e romarias: Abraão, uma ovelha e Isaac, o automóvel de Camus capotando ribanceira abaixo e submergindo no oceano absurdo, filósofos medievais armados com lanças e galopando corcéis negros de tamanho desproporcional. Ao chegar ele encontrou: ar fresco, cheiro de capim, cogumelos e muitos pedregulhos. Passado algum tempo, um outro homem veio determinado, caminhando em linha reta na sua direção. Esse outro era igual ao primeiro em tudo: jeito de andar, aparência, altura e voz. Foram longos e detalhistas os preparativos e os jogos preliminares: sobre o que conversaram não sei dizer, ignoro completamente o idioma em que poderiam de alguma forma se comunicar. Do beijo entre os dois, um homem sobreviveu e o outro, como era de esperar, sucumbiu morto. Naquele momento, estavam ambos muito distantes de toda e qualquer civilização.
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