quinta-feira, junho 14, 2007

CONCEBA E EXECUTE

CONCEBA E EXECUTE
SAIA POR AÍ E VIVA
CONHEÇA AS PESSOAS
GOSTE DELAS PELO QUE ELAS PENSAM
AME E DISCORDE DO QUE ELAS FALAM
ESCOLHA ALGUÉM PARA TRANSAR HOJE A NOITE
VIVA TUDO O QUE PUDER VIVER NESSAS HORAS
TESÃO É A COISA PRINCIPAL NA NOSSA VIDA
CONSCIÊNCIA TAMBÉM É ALGO QUE É IMPORTANTE TER POR PERTO.
MAS NA HORA LÁ QUEM FALA MAIS ALTO É O DESEJO
EU E VOCÊ PODEMOS TRANSAR E CORRER CERTOS RISCOS
DE ENGRAVIDAR OU DE CONTRAIR UM DESSES VÍRUS QUE TEM POR AÍ
TODO MUNDO JÁ DEU ALGUMA VACILADA E FICOU COM CULPA DEPOIS
CONTRA O DESEJO NÃO EXISTE NENHUM REMÉDIO
E AINDA BEM QUE É ASSIM
MAS PRA CERTAS VACILADAS E RELAÇÕES SEXUAIS DESPROTEGIDAS
SAIBA QUE AGORA JÁ INVENTARAM UMA PÍLULA
USE A CAMISINHA E A PÍLULA DO DIA SEGUINTE

DIÁRIO DE UM BANCÁRIO

Cláudio César Baptista, matrícula 1984-1977, logo pela manhã se dirigiu para a agência do banco onde ele trabalha. Logo pela manhã atendeu a uma porção de telefonemas: trinta e sete pessoas físicas, sete pessoas jurídicas e uma instituição religiosa sem fins não-lucrativos.
As dez e dezenove, exatos vinte e sete minutos após a abertura da agência para o público comum, uma mulher morena alta e que parecia ter origem sírio-libanesa, vestindo óculos escuros de lentes enormes, um lenço lilás com bolinhas prateadas de tamanhos diversos ao redor do rosto e um vestido despudoradamente curto e decotado, sentou-se à mesa de Cláudio César. Ela recusou água e café e disse eu preciso urgentemente de cem mil reais. Dividido entre o dever profissional e a atração física que ele sentia por aquela mulher naquele momento, Cláudio César Baptista ofereceu uma contraproposta de sete mil, trezentos e noventa e cinco reais e onze centavos à vista e o restante em suaves prestações a perder de vista e entregou para ela um desses cartões de visita onde antes ele tinha escrito atrás uns garranchos obcenos e escrito um número determinado de telefone celular. A mulher aceitou somente o cartão e foi embora com um jeito mais do que especial de dizer tchau.
Cláudio César Baptista, matrícula 1759-1969, parecia invadido por um furor de fazer coisas com a mão: carimbou duzentos versos de cheques endossados, assinou seu nome porcamente em setecentos e oitenta e dois formulários, contratos, duplicatas, ofícios, comunicados, relatórios, dossiês, entre tantos outros papéis timbrados ou não, carregou pilhas de processos para o arquivo morto escada acima, trocou componentes de hardware de seu próprio terminal de computador e se comunicou por gestos com a colega que estava do lado de lá do guichê do caixa.
Voltando ao seu posto, Cláudio se deu conta de que os montes de pastas e papéis sobre a sua mesa se erguiam como uma verdadeira muralha e que do lado de lá alguém chamava pelo seu nome, embora ele não tivesse muita certeza disso. O funcionário cuja matrícula é 8419-7719 levantou de sua mesa e notou um microempresário bem rente ao chão. O filho do ilustre seu Baptista da vila nova cachoeirinha deu a volta e se agachou, já que o seu interlocutor não tinha mais do que quarenta e dois centímetros de altura; o microempresário foi direto ao ponto e dali em diante passou a metralhar todo um arsenal de impropérios e imprecações direcionados ao senhor seu Cláudio César Baptista e a senhora sua mãe. César havia feito um negócio de risco com o anão alguns meses atrás, porém a queda das ações dos fabricantes de playmobil e comandos-em-ação na bolsa de valores de Pequim levou a bancarrota todo esse ramo de atividade da indústria nacional. O bancário escutou em silêncio tudo o que o seu cliente disse e ao final pronunciou – num tom de voz entre jocoso, dionisíaco e sarcástico – a palavra não. A cena que acabamos de presenciar foi apontada pelo psiquiatra forense dr reginaldo do cu da cunha como a deflagradora direta do acesso de demência e insanidade que se abateu sobre o senhor juvenal moreira, o microempresário do ramo de bonecos de plástico em miniatura que descrevemos a pouco. Embora nesse meio tempo Cláudio César ainda tenha conseguido vender um seguro de vida, um plano de previdência privada e um título de capitalização para o senhor juvenal moreira, seu cliente de tantos anos.
Cláudio César Baptista almoçou num restaurante por quilo e fumou dois cigarros seguidos.
Ao retornar deparou com o diabo. Cláudio César estava sereno, porém intrigado, mas logo sacou sua adaga em formato de caneta momblã e o diabo fez aparecer pilhas de notas de cédulas de dinheiros. O diabo molhava a pena no tinteiro de nanquim, quando Cláudio César lhe ofereceu em troca uma polpuda soma como adiantamento. Assim que assinaram, o diabo se desmaterializou numa nuvem de fumaça preta, deixando no arum cheiro ruim de enxofre. As câmeras do circuito interno de tevê chegaram a flagrar a figura diabólica em pessoa, porém ninguém jamais soube do paradeiro daquela fita vhs.
Dois minutos inteiros se passaram sem que nada de mais extraordinário sucedesse, até que um toque diferenciado no ramal do telefone de Cláudio César indicava – sem sombra de dúvida – que ele estava sendo convocado a comparecer junto às instâncias superiores da corporação. Cláudio subiu os degraus da escada que levavam até o andar de cima e se encaminhou para a mesa onde trabalhava a chefa daquela repartição. Conversou com ela de uma maneira amena e ponderada e pôde inclusive expor com calma algumas situações delicadas de sua vida pessoal que estavam interferindo de forma negativa em sua rotina diária de trabalho. A chefa ouviu tudo com atenção e ofereceu doses generosas de conselhos sábios e palavras de conforto. Cláudio César sentiu que era exatamente essa a motivação que ele precisava para prosseguir, ainda retornou para o seu posto de sentinela, fez alguns telefonemas e mandou uma porção de e-mails.
Foi embora.