segunda-feira, março 10, 2008

É, eu sei disso que você tá me falando...

É, eu sei disso que você tá me falando. Não, isso é porque no fundo eu também cresci dentro de um quarto que tinha videogame, aparelho de som três em um, revista de História em quadrinhos, tv a cores, videocassete, uma porrada de revista de mulher pelada e um tênis nike sujo e esburacado jogado em cima de um canto. Não tem nada a ver com eu ser ou não ser filhinho de papai, tem coisas que eu cuido da cabeça pra dentro e não é porque neguinha saia por aí falando que eu pareço com isso ou parecço com aquilo que na verdade eu sou. Eu sei muito bem de que São-Paulo-Palanque eu tô falando, sei que a realidade do Brasil é outra, sei que eu não pertenço aos pobres e os ricos e os burgueses e os classe média do caralho tão cagando e andando pra cima de mim. Assim como eu estou cagando e andando pra cima deles também, quer saber. Porque meu negócio é viver meu eu e tudo o que está ao redor dele - inclusive você, meu. Viver as experiências que dá pra viver vivendo à margem e ao mesmo tempo dentro da parada, circulando por dentro e por fora do padrão. Brincando de esconde-esconde com a polícia, no Brasil todo mundo que brinca de polícia e ladrão prefere mil vezes ser ladrão, por que será? Um dia eu ainda vou ter minha carabina calibre doze e um canhão no quintal de casa que nem o Serafim Ponte Grande. Pena que eu moro em Alphaville e se eu atirasse não ia ter pra onde errar.

Fun, babe, fun!

Só eu sei o quanto é difícil penetrar nesse universo paralelo e estranho em que as garotas pensam, vivem e me julgam. Sim, porque a questão toda no fundo é julgamento e por mais que eu também seja um cara normalzinho e viva dando opiniões a torto e a direito sobre o modo de existir de qualquer fulano ou fulana que cruze o meu caminho, pelo menos eu tento me policiar. Não saio armado por aí etiquetando rótulos e disparando contra as tribos a troco de me sentir mais poderoso e mais in do que esses pobres adolescentes com camisetinhas de banda de rock neo-gótico. Eu cresci. E desde muito novo já circulava por entre as várias tendências e estranhezas que uma sociedade anárquica e pós-moderna pode oferecer pra alguém que tinha naquela época não mais do que quinze anos e adorava subir e descer pelas escadas rolantes (que não rolavam) da galeria do rock do centrão de São Paulo, ali ao lado do teatro municipal (seu burguês otário). Porque no teatro municipal mesmo eu só fui entrar lá depois de muito mais velho, já com a pose do intelectual decadente que não conseguiu ter saco pra aturar toda a enxurrada de burocracia que precede o solene ritual de entrega dos diplomas de graduação em letras e ciências anti-sociais. No colégio eu era amigo dos hippies, comia uma tiazinha com pinta de pin-up, tinha amigos entre os punks, freqüentava as festas da gaviões da fiel e pagava um pau pra turminha do black. Mas em lugar algum eu me sentia bem, sempre deslocado e blasé, com as latas todas de cerveja circulando pelo meu corpo entre um gole e outra gorfada na fila do banheiro –nunca tive pinta pra ser amante latino, desses que arrasam com o baile e ganham todas as loiras com um golpe bem dado de tacape na cabeça e depois carregam suas vítimas dentro de uma caçamba de pick-up rumo ao motel mais barato da rodovia raposo tavares. Meu negócio vai muito além de ter ou não ter estilo, de estar ou não estar na sua modinha, de seguir ou não seguir seus conselhozinhos de bacana que lê folha ilustrada. Comigo você vai ter que aprender novos idiomas, novos costumes, novos jeitos de fazer cada mínima coisa que você está acostumada a fazer nessa sua vidinha confortável e medíocre. Uh babe... Uh babe... Me dá um acorde em lá e se prepare pra se reinventar completamente. Bem-vinda ao mundo encantado dos que não consomem literatura por lazer. Dos que são feitos de tinta e papel e são literatura mais do que carne. Marquei uma reuniãozinha nas quebradas da rua augusta pra você conhecer minha galerinha e ir se enturmando logo no começo pra depois não dizer que eu faço você se sentir uma estranha. Porque pra ficar comigo vai ser desse jeito, por mais que doa e incomode. Estou aqui nesse mundo pra fazer doer e fazer incomodar. Fazer doer e fazer incomodar... Três e quarenta então? Naquela esquina suja entre as putas e os playboys da zona leste que se entopem oito ou nove dentro de um fiat um quatro sete e ainda racham a grana pra conseguir um mísero boquete de travesti sem dente? E no fim ainda fazem um sorteio (roleta russa com trinta e dois enferrujado de numeração raspada) pra saber quem será o felizardo desta noite. Estarei lá com meu compadre Artur, o junkie. E com o gordo do Jack. E com a piranha da Anais, com o velhinho do condomínio do Rubem, com o Leminksi, com o imbecil do Truman Capote, com a minha querida Clarice, com o deus supremo Oswaldo, com Cortazar, com Caio Fernando Abreu, com o pai do Luis Fernando Veríssimo. Estaremos ali ouvindo um violão do Kurt Cobain, quem sabe vendo um filme do Kubrick ou escrevendo e-mails com vírus pra algum Jean-Luc Godard que não saiba ler. Punhetando intelectualidades, como é característico dos autores que se escrevem por São Paulo. Entre um pico e outro de droga, pedir pro Iggy Pop dixavar mais um baseado, dar uns amassos e umas dedadas na mulher do Bowie e lamber a orelha da minha ex-atriz preferida: podia ser Anna Karina, podia ser Isabelle Huppert (por isso nos amamos e trepamos e fodemos em francês, língua porca e depravada). Sempre preferi a baixa boemia, sempre admirei como o maior dom divinal ou humano que se pode conceder a alguém essa capacidade de se manter invisível por detrás de uma coluna, só espiando e remoendo risadinhas sarcásticas. Mas voltarei ao palco pra fazer aquela cena de sexo explícito que o Nelson Rodrigues guardou só pra mim e pra você. Com direito a sangue e mordidas e manchas roxas sobre tua pele branca. Vem comigo por esse buraco, vamos escavar subterrâneos e vasculhar as passagens secretas e calabouços que nos levem para muito além desse mundo de ratos que se amontoam num sofá velho e rasgado pra assistir a novela das oito por detrás do reflexo da vitrine da loja de tevê. Eu odeio o seu amor, odeio essa sua maneira panaca de ser fina e meiga. Mas desejo seu corpo, preciso de um corpo jovem para dar prosseguimento ao macabro ritual – quero sobre o capô de um carro, encostada contra o poste toda arreganhada, seu bum-bum apoiadinho no mictório de uma balada podre, brutalidade e cheiros sobre o tampo do esgoto, eu, você e o que sobrar de nossas almas quando a aurora finalmente amanhecer. Quero conhecer na minha veia o HIV. Saltar etapas e me santificar por uma editora de pequeno porte, deixando aqui pra vocês somente uma pequena amostra (grátis o caralho) do que eu poderia fazer se tivesse vontade de ser um escritor que escreve pra qualquer rede globo. Só uma trepada assim (é, como você ta imaginando e querendo, assim mesmo, garota: uma trepada do caralho) e depois repouso eterno e o tédio enlatado pra curar da ressaca. Que venha o tiro e o pico e o carro desgovernado e a cama do hospital público senador nove de junho com sondas e cabos e tubos entrando e saindo pelo meu corpo magro. Que me amarrem e me amordacem e me mumifiquem ao lado do Lênin. Nunca fui mesmo mais do que um cadáver quando examinado do ponto de vista das garotas. Mas assim como as desprezo, queridas, as amo todas vocês. Nem só das noites de desamparo e solidão vive o desejo de um homem divergente pelas mulheres convencionais. Até porque agora a essa hora do ano tudo o que eu não quero é que você me convença. Beija primeiro e reclama depois.

DIÁRIO SEM DATA - II

Ainda dessa vez eu tomaria aquele ônibus Jardim Jamorítimo e não eram nem nove e meia da noite, meu corpo cheirava a óleo de cozinha. Celulares tocavam sem parar e meninas que vinham de qualquer periferia atendiam: alô, meu amor, onde cê tá, já tô chegando, tô aqui na faria lima. Eu olhava pela janelinha embaçada de suja aquela paisagem repetida que eu sabia inteirinha de cor: uma vez eu comentei com uma amiga que eu tinha a impressão que se um dia eu virasse por uma outra rua qualquer que saísse do itinerário eu me sentiria completamente desamparado. E naquela hora eu me sentia exatamente assim e minha consciência voava até o dia longínquo e esfumaçado da minha infância em que ainda existia em mim o germe de um ser humano que poderia vingar na vida. Não sei bem quando, mas essa promessa falhou e hoje só recolho cacos e junto objetos miúdos numa caixa como quem acorda de um sonho ruim numa manhã de quinta-feira e se dá conta de que se passaram vinte anos desde a noite em que você foi dormir. E o mais triste é que eu me esqueci como eu sou quando não estou bêbado nem chapado ou a procura de e que jamais terei coragem de mudar minha postura e encontrar qualquer ponto de equilíbrio que me garanta um mínimo de harmonia com as pessoas que estão ao meu redor. Me engano com pequenos prazeres e conversas meramente superficiais, mas em breve nem isso minha saúde frágil me permitirá mais. Sinto lá no fundo uma necessidade palidamente humana de me aproximar e compartilhar minha vida com alguém, mas fraqujo e desconfio de todos. Sou tenso e incapaz de me relacionar afetivamente, portador assumido de neuroses para as quais não vejo possibilidade de solução. Minha doença, dizem, chama-se depressão. Antes de descer deste ônibus eu quero muito me matar.

DIARIO SEM DATA - I

A velhice vem vindo e o tesão acabou. Só fui me dar conta de que o saldo de uma adolescência saudável é ter construído uma máscara de personagem de si mesmo tarde demais. Agora já não se pode reconhecer qualquer expressão humana nas rugas precoces que enfeiam a minha face. Cativo em denso casulo, sou insensível a todo e qualquer apelo, do racional ao afetivo. Me esquivo passageiro de ônibus nas multidões de São Paulo e maquino silenciosamente planos de ataques terroristas que matassem Motoristas de automóvel. Explodir uma ponte, uma dessa pontes da marginal, quem sabe. A fraqueza me paraliza e o medo me impede de começar o dia. Momentos felizes? Certas noites de orgia, cocaína e bebedeira. Disso eu entendo, entendo tanto que até já enjoei e agora eu queria o controle do meu destino de volta. Sonharam meus sonhos enquanto eu hibernava? Reconheço que em 99% do tempo me faltou força de vontade e amor no coração, mas só agora, depois de velho, é que eu consegui aceitar que o papel que eu vim representar aqui neste planeta não é o de ser um cara bonzinho. Vou dizer e fazer e escrever coisas que incomodam muita gente, mas eu não perco a chance de experimentar uma maneira de pensar o destino e a vida que seja original, transgressiva e perversa. Meu lugar é um pouco para lá da linha que separa as pessoas que se dão bem na vida e se guiam pelo bom senso do resto: os fodidos, bandidos, drogados, loucos e excêntricos. Meu grande defeito até agora foi conspirar em silêncio e acumular toda a energia ruim que eu recolho do mundo no meu corpo, mas agora eu estou finalmente aprendendo a me lavar. Quero me banhar na fonte mais límpida, mergulhar com os peixinhos do rio, secar sob o sol do Equador. Das águas emergiu um homem.

quinta-feira, março 06, 2008

ANÚNCIO

Sou um homem com desejo de engravidar
Apelo ao pai-de-santo, apelo à ciência
Perco a paciência, quero ter outro corpo
Quero um corpo loiro e alto e forte e de olhos azuis
Que transmita logo de cara a mensagem do que eu sou.

Sou um homem não tão sadio mas em idade de procriar
Por isso botei um anúncio no jornal de domingo:
"Pai solteiro e branco procura mãe de aluguel adolescente".

A mulher ideal que está tão longe agora...
Talvez no interior da Escócia, com uma atriz de cinema
Eu seria mais feliz se morasse num outro país.

Eu seria mais feliz mesmo se voltasse aos dezesseis
Agora é que eu não tenho mais chances
Porque encontrar a mulher com quem eu sonho há mais de dez anos
Tornou-se uma questão de honra, uma questão de sobrevivência.

MULHER

Mulher: você é uma invenção do poeta.
Você é o que está além dos adjetivos e metáforas
Aquilo que escapa às previsões e cartas de tarot
O impondeerável transfigurado em enigma e redenção.

Mulher: você é a autora dos meus sonhos mais contundentes.
É a muralha defronte a qual eu paro e me deparo
Seu jeito de ser e andar que me desvia do acordado
E meus olhos só imploram por um olhar de compreensão.

Mulher: você é a desrazão de todas as minhas insônias.
É o que em mim palpita gaita em desespero
Você é a certeza definitiva de que não sou deste mundo.

Mulher: você é o tempero secreto em meu caldeirão.
Você é a insegurança que assegura a minha ereção,
Você é a paixão, você é o tesão, você é o que eu queria ser, por que não?

terça-feira, março 04, 2008

DESEJO E OBJETO

Tire o objeto do lugar. Jogue-o contra a parede, para que se espatife todo em cacos. Tire-a do lugar de objeto. Você pode brincar e manipular, mas a pessoa ali nunca será seu objeto. Reconheça a dialética e você se verá como a engrenagem mais fraca. Uma peça menor de um mecanismo que é muito mais do que mecânico. Veja-se no pôster de sunguinha, colorindo a parede de uma oficina onde se consertam estranhos veículos automotores. Veículos sem espelhos, sem fumaça, sem motor, sem óleo, sem graxa, veículos que circulam movidos a perfume de flores. Em uma oficina mecânica onde as mulheres trabalham de bermuda e não se importam de ficar de pernas abertas nem se algum otário está olhando pra minha bunda. Reinvente seu discurso político sem mexer nos pronomes pessoais. Somente troque as pessoas de lugar, burguês vestido de padre, pobre vestido de terno de linho branco, drag queen vestida de tomara-que-caia, vale qualquer carne em qualquer carnaval, desde que não seja fevereiro. Jogue os livros de marketing e administração de empresas nas mãos do traficante e comece a escrever poesia, sem esquecer de pixá-las nos muros e prédios onde ainda houver espaço. Diga não ao seu país, ao senhor seu presidente, ao síndico, ao guarda, ao banqueiro, ao cara de sucesso, ao pobre coitado que toma pinga no bar e espanca a esposa, ao idiota que você foi um dia, ao que resta de rambo em você, diga não ao deputado, ao padre, ao juiz, ao playboy, ao filhinho do playboy, ao punheteiro que assina a playboy, ao cantor, ao diretor de cinema, ao escritor, ao pai, ao irmão. Tenha coragem, faça o que ninguém nunca quis fazer. Tenha orgulho se alguém te apontar na rua e disser: “olha, lá vai outro homossexual”. O riso desse que aponta é a maior prova de que você está no caminho certo. E pra amar uma mulher de verdade ninguém mais precisa de tacape – ninguém precisa divulgar estupidez e provas de força física e violência gratuita. Fique em casa e prepare o almoço dessa vez, porque ela está combatendo uma outra guerra. Deixe de querer viver em casal e se envolva com todas as elas, com todos os eles, com todos os gêneros, cheiros, tipos, raças, classes, castas. A vida neste século é Dionísio. Não seja um porco no jantar das bacantes. Eu fiz tudo errado na minha vida, mas ganho meu pão fabricando conselhos. A maioria provoca, mas espero que algum desperte ou faça pensar. Queria nascer mulher e ser lésbica. Quem inventou a poesia foi Safo.