terça-feira, julho 19, 2005

DA FUNÇÃO DE HABITAR - II

II

Na religião da Grécia Antiga, dois deuses eram celebrados dentro do espaço da casa: Héstia e Hermes. A primeira se confundia com a própria lareira-altar que se situava no centro de cada habitação, enquanto que o segundo estava localizado junto à porta que separava a casa do espaço público. Jean Pierre Vernant, em seu ensaio “Héstia-Hermes. Sobre a expressão religiosa do espaço e do movimento entre os gregos” analisa a relação entre essas duas divindades e sua importância para a concepção arcaica do espaço. Da nossa perspectiva, interessa sobretudo compreender que, na raiz da distinção das funções complementares de Héstia e Hermes, pode-se vislumbrar o que viria a ser a separação entre o espaço da intimidade (a casa) em oposição ao espaço público (a rua, o universo).
No início de seu ensaio, J.P. Vernant se debruça sobre a representação dos doze deuses que compõem o panteão grego, agrupados em casais, pelo escultor Fídias. O autor, a seguir, se debruça sobre um casal específico, Hermes e Héstia, que parece não obedecer à mesma lógica que preside o emparelhamento dos outros casais: não são marido e mulher (como Zeus e Hera, Posidão e Anfitrite), nem irmão e irmã (como Apolo e Ártemis), nem tampouco mãe e filho (como Afrodite e Eros), assim como não são protetora e protegido (como Atena e Héracles). Por que então agrupar Hermes e Héstia como um casal? “Não se poderia alegar uma fantasia pessoal do escultor. Quando executa uma obra sagrada, o artista antigo empenha-se em conformar-se a certos modelos: sua iniciativa se exerce no quadro dos esquemas impostos pela tradição”. Ficando descartada a hipótese de arbitrariedade do escultor, resta-nos buscar uma teoria capaz de explicar o agrupamento dessas duas divindades. “Héstia – nome próprio de uma deusa, mas também nome comum que designa a lareira, prestava-se menos que os outros deuses à representação antropomórfica. Raramente nós a vemos figurada. Quando ela é figurada, aparece frequentemente formando par com Hermes (...) A associação Hermes-Héstia, regular na arte plástica, reveste-se, pois, de um significado propriamente religioso. Ela deve exprimir uma estrutura definida do panteão grego”.
Se são raras as representações de Héstia nas artes plásticas, mais raras ainda são suas aparições nas narrativas míticas. Isso se deve à sua imobilidade, já que a deusa permanece fixa no centro de cada lar, de cada cidade (a chamada Héstia comum) e do próprio Olimpo, assim como opta por manter-se em estado virginal. O que se conhece sobre ela e suas relações com Hermes se deve, em grande parte, aos poucos versos conservados do Hino Homérico a Héstia, o qual remonta ao século VIII a.C.. “Por duas vezes o poeta insiste nos sentimentos de amizade que Hermes e Héstia nutrem um em relação ao outro. (...) Essa afeição recíproca não se baseia nos laços de sangue, nem do casamento, nem de dependência pessoal. Ela corresponde a uma afinidade de função: as duas forças divinas, presentes nos mesmos lugares, desenvolvem lado a lado funções complementares. (...) Com efeito, tanto um como outro referem-se à extensão terrestre, ao hábitat de uma humanidade sedentária”.
A associação de Héstia ao universo do lar nos parece bastante evidente. Situada “no meio do mégaron quadrangular, a lareira micênica, de forma arredondada, marca o centro do hábitat humano. (...) Fixada no solo, a lareira circular é como que o umbigo que enraíza a casa na terra. (...) Ponto fixo, centro a partir do qual o espaço humano se orienta e organiza, Héstia pode, para os poetas e filósofos, identificar-se com a terra imóvel no centro do cosmo”. Já Hermes está ligado ao hábitat humano e, de um modo mais geral, à extensão da superfície terrestre, de uma maneira diferente. Trata-se de um deus próximo, que freqüenta este mundo e serve de intermediário entre o Olimpo e os mortais. “Mas, se ele se manifesta assim na superfície da terra, se habita, com Héstia, as casas dos mortais, Hermes o faz à maneira de mensageiro, como um viajante que vem de longe e que já se apressa a partir. (...) Ele representa, no espaço e no mundo humano, o movimento, a passagem, a mudança de estado, as transições, os contatos entre elementos estranhos. Na casa, o seu lugar é junto à porta, protegendo a soleira, afastando os ladrões porque ele próprio é o Ladrão”. Resumindo: “a Héstia, o interior, o recinto, o fixo, a intimidade do grupo em si mesmo; a Hermes, o exterior, a abertura, a mobilidade, o contato com o outro. Pode-se dizer que o casal Hermes-Héstia exprime, em sua polaridade, a tensão que se observa na representação arcaica do espaço: o espaço exige um centro, um ponto fixo, com valor privilegiado, a partir do qual se possam orientar e definir direções, todas diferentes qualitativamente, o espaço porém se apresenta, ao mesmo tempo, como lugar do movimento, o que implica uma possibilidade de transição e de passagem de qualquer ponto a um outro”.
Mais adiante, o autor se aprofunda na caracterização da polaridade expressa pela relação Hermes-Héstia: “o espaço doméstico, espaço fechado, com um teto (protegido), tem, para os gregos, uma conotação feminina. O espaço de fora, do exterior, tem conotação masculina. (...) Essa “permanência” de Héstia não é de natureza apenas espacial. Como ela confere a casa o centro que a fixa no espaço, Héstia assegura ao grupo doméstico a sua perenidade no tempo”.
O ponto central da investigação de Jean Pierre Vernant está situado nas seguintes linhas: “em cada etapa da nossa análise, reconhecemos, entre o fixo e o móvel, o fechado e o aberto, o interior e o exterior, uma polaridade que não só é atestada no jogo das instituições domésticas (divisão das tarefas, casamento, filiação, refeição), mas que se inscreve até na natureza do homem e da mulher. Encontramos essa mesma polaridade, ao nível das forças divinas, em uma estrutura do panteão. Com efeito, nem Hermes nem Héstia podem ser colocados isoladamente. Eles assumem as suas funções sob a forma de um casal, a existência de um implicando a do outro, na qual ele repercute como a sua contrapartida necessária. Mais ainda, essa própria complementação das duas divindades pressupõe, em cada uma delas, uma oposição ou uma tensão interior que confere à sua personalidade de deus um caráter fundamental de ambigüidade”.
Algumas páginas adiante, Vernant desenvolve esse tema da ambigüidade enraizada na personalidade de Héstia: “Para exercer sua função de força que confere ao espaço doméstico o seu centro, sua permanência, sua delimitação, Héstia, como já dissemos, deve enraizar a casa humana na terra. Tal é o significado da lareira micênica, esse altar-lareira fixo. Daí um aspecto propriamente ctônico na deusa “epictônica” que reside na superfície da terra. Por meio dela, a casa e o grupo familiar entram em contato com o mundo subterrâneo.(...) E há mais ainda. No mégaron micênico, a lareira circular soldada ao solo inscreve-se no centro de um espaço retangular delimitado por quatro colunas. Elevando-se até o alto da peça, essas pilastras dispõem no teto uma clarabóia aberta por onde sai a fumaça. Quando se queima o incenso na lareira, quando se consome a carne das vítimas ou se assa, durante a refeição, a porção dos alimentos consagrada aos deuses, na chama acesa sobre o seu altar doméstico, Héstia faz com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos. (...) Para o grupo doméstico, o centro que Héstia patrocina representa também, e solidariamente, o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”.
Como pudemos perceber da análise comparativa entre Hermes e Héstia, a mitologia grego já fazia a distinção entre aquilo que no espaço é permanência e imobilidade daquilo que é movimento e transição. Mais tarde, diversos filósofos viriam a se ocupar dessas questões, tais como Anaximandro, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Zenão, Platão e Aristóteles – alguns tomando partido do movimento como o princípio fundamental de organização do espaço (é o caso de Heráclito), outros da permanência (Zenão, Parmênides) e outros ainda buscando uma síntese entre os dois princípios.
Do ponto de vista de nosso estudo, o mais importante é perceber que, para os gregos, já havia a distinção entre o espaço privado, reservado à intimidade, cujos principais atributos são o fechado, o feminino, a sombra e a imutabilidade e o espaço público, caracterizado por elementos como o masculino, a luz do sol, a perpétua transformação e o aberto. No mundo clássico, a oposição já não era (como em sociedades mais primitivas) entre a casa e a natureza, mas sim entre a casa e a rua – ou seja, a diferenciação já não se dava mais entre o plano humano e o plano natural, mas entre um plano humano-familiar e um plano humano não-familiar. Tal caracterização persiste até os dias de hoje e é importante na medida em que impõe a cada grupamento familiar o dever de se diferenciar dos demais, os quais são vistos ora como concidadãos, aliados e companheiros, ora como competidores, hostis e estranhos. Para além da cultura comum que agrega todos os habitantes da polis sob os mesmos costumes, existem também elementos que caracterizam cada grupamento familiar em oposição aos demais. A partir daí, o espaço da intimidade se tornou cada vez mais reduzido e restrito às dependências da casa da família, ao mesmo tempo em que se tornou mais complexo e singular. Na modernidade, com a emancipação do sujeito burguês e a decadência da instituição familiar, tal processo viria a se intensificar ainda mais, de modo que hoje o espaço da casa se confunde cada vez mais com o espaço ocupado por um único indivíduo em sua solidão.

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