sexta-feira, fevereiro 24, 2012

SÃO PAULO, CIDADE SITIADA

Ao estender o braço esquerdo e observar os ponteiros do relógio de pulso, Saulo notou que ainda lhe restavam trinta e três minutos do seu horário de almoço. Com uma certa pressa, subiu o último quarteirão da Pamplona e dobrou a esquerda na Avenida Paulista, com muita dificuldade para caminhar entre o grande fluxo de pedestres que vinham em sentido contrário. Não eram bem pedestres os que atrapalhavam seu caminho, mas sim trabalhadores de escritório em pequenos bandos andando em ritmo formidavelmente lento e arrastado após o almoço, chupando sorvetes com algum cuidado para não deixar cair respingos nas abas do paletó.

Era um dia especialmente quente e Saulo desejava somente abrigar-se sob alguma sombra para fumar um ou dois cigarros e fazer com que os trinta e três minutos que lhe restavam do horário de almoço transcorressem sem nenhum grande incidente ou pensamento perigoso. No íntimo, ele sabia que também não convinha retornar mais cedo para o escritório, já que teria de atender não só os próprios telefonemas como também anotar os recados dos clientes da dona Rosa, que sairia para almoçar tão logo ele voltasse. Assim, Saulo andou uma ou duas quadras em busca de sua sombra e de alguma solidão relativa – concluiu, portanto, que o local ideal seria o vão livre do MASP.

Ao atravessar a esquina da Alameda Casa Branca, ele percebeu que havia uma concentração de sindicalistas, estudantes ou professores justamente onde ele desejava repousar – parecia haver um sujeito negro a grunhir palavras de ordem absolutamente incompreensíveis num megafone e, definitivamente, havia muito pouca gente disposta a ouvi-lo. Inquieto, Saulo fez meia volta sobre a faixa de pedestres e, se esquivando com alguma dificuldade de um batalhão de policiais que exibiam suas armas, capacetes e coletes à prova de balas, entrou no parque Trianon.

Embora já trabalhasse na região da Paulista há mais de cinco anos, ele jamais pusera os pés naquele lugar. Ficou satisfeito com a atmosfera que encontrou, já que as copas das árvores tapavam a luz do sol quase que por completo. Andando pelas alamedas do parque, Saulo percebeu, com raiva, que para lugar algum onde fosse dentro daquele ambiente seria possível abstrair a passagem frenética dos automóveis pela avenida nem deixar de ouvir os ruídos monstruosos da Paulista. Frustrado com essa constatação, se deu conta de que havia uma passarela que conduzia a uma outra parte do parque - “quem será o imbecil que projetou um espaço tão medonho quanto este? Por que não unir as duas partes do parque em um terreno só, uma vez que sua área verde total é absolutamente insignificante quando confrontada ao concreto que envolve todo esse bairro?”. Pensando coisas assim, Saulo atravessou vagarosamente a passarela e viu automóveis acelerando e buzinando sob os seus pés. Com um certo embrulho no estômago, pensou que poderia se desequilibrar, mas, segurando firme no corrimão, conseguiu atravessar para o outro lado. Chegou a conclusão de que o imbecil que construíra um parque assim tão ridículo, mutilado pelo império do automóvel e cercado por altas grades de ferro, haveria de ser alguém indicado por algum membro da elite política paulistana. Elite essa que, no período da sua vida, brindara a sociedade com flores tão malcheirosas quanto aquelas que atendem pelos nomes de Olavo Setúbal, Paulo Maluf, Jânio Quadros, Gilberto Kassab, Franco Montoro, Adhemar de Barros, Mário Covas e Celso Pitta.

No geral, o parque Trianon estava vazio naquele horário e Saulo depressa encontrou um banco para se abrigar e fumar. Fechou os olhos por um breve instante e inclinou a cabeça para cima: ao reabri-los, pensou enxergar um sagui saltitando entre dois galhos de árvore. Sua mente logo rejeitou esse dado sensorial e inventou uma explicação plausível, por exemplo que se tratasse de um pombo ou outro animal urbano qualquer. Tentando se situar firmemente no chão outra vez, Saulo olhou o relógio e notou que, dos trinta e três minutos que lhe restavam do horário de almoço outrora, agora sobravam somente vinte e seis. Acendeu o cigarro e fumou sem muita vontade.

Distraído por pensamentos sobre o trabalho que lhe aguardava no escritório, Saulo não percebera que, a poucos passos do banco onde estava, havia uma garota também sentada. E lendo. Dali onde estava não conseguia distinguir as letras na capa do livro, mas, como quem não quer nada, ele perscrutou atentamente a fisionomia da moça e logo fez anotações mentais do tipo: é baixa, é feia, seu nariz não tem um formato agradável, pernas bonitas, aparelho nos dentes, não usa anéis nem alianças, deve ter entre quinze e dezessete anos, usa camiseta preta de banda de rock, tem um tique estranho com a sobrancelha toda vez que vira as páginas do livro, não está nem aí para mim. Nisso consumira-se metade do cigarro e Saulo teve todo o cuidado do mundo para não deixar transparecer que observava e analisava a tal garota. Para seu espanto, ela, num ímpeto um tanto brusco, fechou a capa do livro, ajeitou a postura em que estava sentada no banco de cimento e começou a olhar fixa e incisivamente na direção dele. Como convém aos machos covardes, ele fez que olhou para trás, como que procurando atrás de si algum objeto para o olhar da garota que, levando em consideração todas as probabilidades do mundo, não poderia nem deveria estar olhando desse jeito descarado para ele. O que viu foi só uma moita espessa, suja e escura.

O olhar dela durou cinco, depois dez... quarenta segundos, que pareceram duas horas. A situação, de embaraçosa e sem importância, tornara-se insustentável e invasiva. Ele não conseguia sustentar o olhar na direção dos olhos dela nem tampouco articular uma palavra engraçada para aliviar o clima, muito menos levantar-se daquele banco e simplesmente ir embora. A garota olhava para Saulo que, já um tanto hipnotizado, como que se deixava engolir pelo olhar dela, quem sabe em busca de alguma resposta plausível e conveniente para um comportamento assim tão estranho e incomum. Nisso ele foi salvo por um carrinho de sorvete que passou entre os dois e distraiu sua atenção por um momento. O vendedor de sorvete, porém, não pronunciou qualquer palavra nem pareceu surpreendido com a cena que presenciava entre os dois desconhecidos. Simplesmente passou e, um instante antes de sair do campo de visão de Saulo, esboçou uma espécie de sorriso cínico de cumplicidade, como que querendo dizer para ele ir com tudo que a mina já estava na dele.

Saulo terminou de fumar e ficou em dúvida sobre o que fazer com a bituca do cigarro. Se a jogasse simplesmente no cesto de lixo ao seu lado, teria uma oportunidade única de desviar de uma vez e para sempre seu olhar e pensamento daquela menina e fugir sorrateiramente dali sem jamais se voltar para trás. Se jogasse a bituca no chão e a pisoteasse com escárnio, poderia fazer com que ela demonstrasse alguma indignação com seu ato bruto e terminasse de uma vez por todas com essa tentativa pueril de desestabilizá-lo. Indeciso, o calor da chama do cigarro já incidia sobre os seus dedos e ele, meio que instintivamente, jogou a bituca no chão, mas não a apagou. O olhar e a expressão da garota continuavam exatamente os mesmos. Saulo procurou se acalmar, respirar mais devagar e, assim, tentar readquirir o controle da situação. Ergueu um pouco o rosto e a encarou com seu melhor olhar malicioso. Nisso, sua mente calculou rapidamente as explicações mais cabíveis sobre o que estava se passando: a possibilidade mais óbvia era a de que ela estava testando os limites dele, se divertindo às suas custas, brincando de ser mulher sedutora. Uma outra hipótese era a de que, embora o olhar dela estivesse voltado para os olhos dele, ela, na verdade, estaria com a mente vagando por outras dimensões, quem sabe refletindo sobre alguma passagem do livro que estava lendo. Por fim, aquilo podia ser uma encenação, um exercício teatral ou simplesmente uma alucinação visual dele próprio, trabalhador paulistano e estressado, algo parecido com o que ocorrera há pouco quando ele tivera a certeza de enxergar um macaco. O certo é que ele já não podia desgrudar os olhos do olhar dela e, se se tratava mesmo de um jogo de sedução, ela o havia arrebatado por nocaute logo no primeiro soco do primeiro round. Não que estivesse seguramente apaixonado, mas certamente a atração por ela era já algo irrefutável, irresistível e sem possibilidade de retorno.

Embora experiente das coisas da vida, Saulo era um cético. Entre os amigos, fazia considerações do tipo: não acredito nem um pouco nessa de revolução sexual ou de amor livre. O amor na nossa sociedade é a coisa menos livre que existe, todos os seus gestos são rigorosamente codificados, o amor e seus rituais de acasalamento são totalmente contaminados pelas mais estúpidas das convenções sociais. Para ficar com uma mulher, o cara tem que seguir a risca esse manualzinho estúpido de aproximação e conquista, senão termina sozinho. E a mulher então? Muito mais importante do que as conquistas feministas, do que maio de 68, é a concepção de amor medieval que se incute nas meninas e meninos desde que nascem. No que diz respeito ao amor, estamos ainda na Idade Média! E isso vale para todas as classes sociais, vale para as pessoas que se acham descoladas, modernas, sem preconceitos... Chegar em alguém, demonstrar amor por alguém, dizer que sente desejo só faz sentido se seguir tintim por tintim aquilo que os adolescentes nos colégios fazem e que os seus pais faziam na faculdade e que seus avós fazem nos bailes da terceira idade: o cara tem que chegar na menina, se portar como o protótipo de cavaleiro medieval, tem que ser engraçado, fingir dizer coisas inteligentes, tem que ele mesmo chegar perto da menina e falar com ela e convencê-la de que vale a pena ela dar um beijo nele. Sempre ele, nunca ela. E ela faz o quê? Age como uma princesinha de merda que tivesse algum tesouro oculto no meio das pernas e, por mais vadia que seja, precisar fingir esse pudor imbecil e se conformar com o papel de objeto. E a ordem do amor no fundo é sempre a mesma: primeiro cantada, depois beijo na boca, depois beijo na orelha, depois pegar na bunda, depois trepar, mas só se realmente valer a pena. Daí em diante era ladeira abaixo.

Num outro gesto imprevisto, a garota ergueu os braços para cima, se espreguiçou e abriu um enorme bocejo. Quando fechou a boca, ele teve a impressão de que ela ria para ele. Saulo retribuiu e inclinou o tronco para frente. Teve a coragem de se desviar um instante e olhar ao redor, mas, no íntimo, tinha a certeza de que não podia existir mais ninguém ao redor deles. O barulho dos carros da Paulista também cessara e só se ouvia, de quando em vez, o canto inconfundível de um ou outro passarinho. Foi quando ela falou pela primeira vez: quanto mais próximo da grande arte, mais distante das coisas deste mundo. A voz dela tinha um quê de recitativa, mas encantou Saulo e contribuiu ainda mais para a certeza da necessidade de uma aproximação contundente para junto do corpo dela. Por orgulho, ceticismo e convicção, ele não daria esse primeiro passo. Fez que sim com a cabeça, mas com os ombros deu um sinal de pouco caso. Será que ela queria seduzi-lo? E se não quisesse, o que ele faria com a quantidade incomensurável de desejo que se acumulara ao longo desses últimos minutos? Como poderia voltar para o escritório e encarar a dona Rosa depois de tudo o que estava rolando?

Inquieto e confuso, Saulo olhou uma terceira vez para o seu relógio de pulso. O horário de almoço já havia terminado e pior: ele estava sete minutos atrasado. Saulo sabia que sua tarde estava arruinada e que agora precisava de uma resolução definitiva: se levantou do banco, andou em direção à menina e fez menção de segurar as mãos dela. Como ela resistisse, Saulo declarou que a amava e que já não poderia sobreviver um minuto sequer sem seu olhar. Assustada, a garota recuou e tentou se defender com o livro. Não disse nada. Saulo a segurou pelos ombros e se aproximou tentando beijar na boca: a garota olhou com ódio profundo no centro dos olhos dele e disse: não, nem hoje nem nunca, me deixe em paz. Transtornado e se sabendo derrotado, ele a soltou.

Arrancou o relógio do pulso sem desafrouxar a pulseira e atirou o objeto no meio da moita espessa. Olhou ao redor e o barulho dos carros da Paulista tinha voltado, só que agora num volume infinitamente maior. Era uma britadeira dentro de seu cérebro. Saulo virou as costas para a garota e correu desesperadamente pelas alamedas do parque. Atravessou a passarela e em poucos segundos já estava na calçada da Avenida Paulista. Continuou correndo em direção ao meio da rua e, por pura sorte, não foi atingido por um motoqueiro que, com a freada brusca que tivera de fazer para não atropelá-lo, perdeu o controle e bateu no para-brisas de um carro. Saulo correu e atravessou a Paulista com o sinal fechado, passou pelo meio da manifestação dos sindicalistas e, sem querer, chutou o fio de um microfone. A polícia mal teve tempo de gritar e atirar para o alto com balas de borracha. Saulo subiu no parapeito da parte de trás do vão livre do MASP, pulou e se estabacou no chão vinte metros abaixo. Morreu antes do socorro chegar.

Naquela tarde, dona Rosa não almoçou.