PRÓLOGO
Compreender a natureza e as características da função de habitar é de grande valia para aqueles que se interessam pelos assuntos humanos. É possível pensar a casa que abriga o homem e a mulher como um duplo da psique, na medida em que se podem reconstituir certos elementos da vida espiritual humana a partir de uma análise de seu habitat e das marcas inscritas nele ao longo do tempo. A casa possui a capacidade de materializar aspectos da mente e da existência humanas, ao torna-los sensíveis para aqueles que se empenham em decifrá-la: preserva vestígios do cotidiano e do jeito de ser do habitante mesmo tempos depois do ser humano em questão ter deixado de ocupar o espaço doméstico. Isso explica o porquê de tantas casas habitadas por pessoas célebres e importantes do passado virem a ser tombadas, transformadas em museus e locais de peregrinação. Aquele que visita à casa de alguém que admira, espera lá encontrar preservados alguns traços da pessoa admirada.
É importante frisar que a função de habitar nem sempre se confunde com o ato de habitar a casa concretamente. Vai além dele, na medida em que não pressupõe a presença física e nem se reduz aos momentos em que efetivamente estamos habitando a casa: podemos exercer a função de habitar sonhando com uma casa que gostaríamos de ter, evocando uma casa passada que não existe mais ou compartilhando da experiência de alguém que habitou uma casa através de narrativas, filmes, histórias, etc. Desse modo, devemos entender a função de habitar como a faculdade do espírito humano responsável por tudo aquilo que se refere ao ser em seu espaço de intimidade: sejam as ações e sensações envolvidas nos atos de administrar, governar, gerir, desfrutar e “usar” a casa, sejam os devaneios, sonhos, recordações, narrativas ou pensamentos que evoquem o ser em seu espaço de intimidade ou tratem de aspectos da casa entendida como um arquétipo, ou seja, um ser constituído ao mesmo tempo por uma face concreta, visível, localizada no tempo e no espaço e uma outra face intangível, a qual muitas vezes nos remete ao imemorial e ao eterno.
Tratar dos aspectos sensíveis da casa e de como estes se transformam ao longo do tempo é tarefa para arquitetos, antropólogos e historiadores. Nesse tipo de estudo, caberia uma análise comparativa entre diferentes civilizações e épocas para se compreender como cada uma delas materializou, sob a forma de habitações, aspectos de seu imaginário, de sua organização social e de sua cultura, levando em conta fatores geográficos, tecnológicos, econômicos, climáticos e outros que possam vir a interferir na constituição da casa. Trataremos desses assuntos de passagem e somente a título de contextualização, já que o foco de nossas pesquisas é compreender a função de habitar sob a perspectiva do sujeito, ou seja, de como o habitante pensa, sonha, deseja, convive e cria raízes na casa. Entendida antes de tudo como um ser complexo e múltiplo, a casa também pode ser interpretada levando em conta suas implicações para a psicologia dos seres que a habitam – e é justamente isso que intentamos. Assim, buscaremos compreender a casa enquanto espelho da alma humana e pouca importância daremos às variáveis que distinguem uma casa da outra, buscando entre essas diferenças uma síntese capaz de dar conta da função universal de habitar.
Mas afinal: o que é a casa? Ou melhor dizendo em outras palavras: o que a casa significa? Como aprender a decifrá-la? Podemos olhá-la, fotografa-la, medi-la, toca-la, escuta-la, passear por ela, estudar sua história, seus diversos proprietários, seu projeto ou sua escritura, mas nada disso, por si só, responderá às questões colocadas acima. A primeira parte deste estudo se constituirá de um breve apanhado histórico a respeito dos habitats humanos e suas transformações ao longo do tempo. A seguir, buscaremos definir o conceito de espaço da intimidade, recolhendo materiais da mitologia grega e da análise que Jean Pierre Vernant faz das figuras de Hermes e Héstia, duas divindades relacionadas, cada uma a sua maneira, ao espaço doméstico. Por fim, a discussão do que venha a ser a função de habitar se dará tomando como base estudos publicados pelo filósofo Gaston Bachelard em seu livro “A Poética do Espaço”.
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
terça-feira, julho 19, 2005
DA FUNÇÃO DE HABITAR - I
I
A função de habitar precede a própria existência da espécie homo sapiens sapiens. Nossos antepassados, caçadores-coletores nômades, já se refugiavam em cavernas e outros abrigos naturais durante o período em que se estabeleciam num determinado local. Cada comunidade autônoma era responsável pela confecção de seus próprios utensílios e ferramentas, se valendo das matérias-primas disponíveis na região, em geral madeira, argila, pedra, palha, ossos e chifres.
A revolução agrícola, que propiciaria o nascimento de uma humanidade sedentária, se deu por volta de 10.000 anos atrás, primeiramente na região de Jericó, na Cisjordânia, num grande oásis junto ao Mar Morto e depois se espalhou, através de difusão ou de movimentos independentes, para a Índia (há 8.000 anos), China (7.000), Europa (6.500), África Tropical (5.000) e Américas (4.500). Foi um processo longo e que não se deu da maneira uniforme e definitiva, num primeiro momento, como o uso dos termos “revolução agrícola” ou “revolução neolítica” faz supor: “Com o advento da agricultura, os grupos podiam ser maiores, desde que dentro de limites estabelecidos pela fertilidade do solo, quantidade de terra disponível e estrutura organizacional da tribo. Quando o crescimento do grupo entrava em contradição com qualquer um desses fatores, ocorria uma cissiparidade, procurando a tribo derivada - e às vezes até a de origem - outro local. Este processo intenso de subdivisões e deslocamentos iria provocar uma onda de difusão da agricultura e da atividade pastoril. Acredita-se, portanto, que durante muito tempo a atividade agrícola não fixou em definitivo o homem ao solo; apenas o deixou mais sedentário do que quando coletor e caçador”.
Durante a pré-História surgem os primeiros monumentos e o homem começa a dominar a técnica de trabalhar as pedras. O nascimento da arquitetura está associado à idéia de abrigo. O abrigo, construção predominante nas sociedades primitivas, será o elemento principal da organização espacial de diversos povos. Este tipo de construção ainda pode ser observado em sociedades não totalmente integradas à civilização ocidental, como os povos ameríndios, africanos, aborígenes, etc. A presença do abrigo no inconsciente coletivo destes povos é tão forte que ela marcará a cultura de diversas sociedades posteriores: vários teóricos da arquitetura, em momentos diversos da história (Vitrúvio, na Antiguidade, Alberti na Renascença, Joseph Rykwert, mais recentemente) evocarão o mito da cabana primitiva. Este mito, variando de acordo com a fonte, conta que o ser humano recebeu dos deuses a sabedoria para a construção de seu abrigo, configurado como uma construção de madeira composta por quatro paredes e um telhado de duas águas.
A necessidade de empenhar uma grande parte da força de trabalho da comunidade para realizar ações como construção de canais, diques, reservatórios de água e alimentos, é apontada como o fator mais importante para explicar o surgimento das primeiras cidades, no sul do Egito e na Mesopotâmia, há 5.000 anos. Aos poucos, surgem funções cada vez mais especializadas: guerreiros, administradores, sacerdotes e comerciantes, esses últimos sendo diretamente responsáveis pela difusão da urbanização no Oriente Próximo, ao estabelecerem redes comerciais e expandirem as culturas egípcia e mesopotâmica para regiões antes ocupadas por aldeias e tribos de agricultores e pastores. As principais construções remanescentes das civilizações egípcia e mesopotâmica são de caráter religioso: assim os templos babilônios conhecidos como zigurates (dos quais a Torre de Babel bíblica é um exemplo) e as famosas pirâmides do Egito, apontadas, já na Antiguidade, como uma das sete maravilhas do mundo.
A arquitetura e o urbanismo praticados pelos gregos e romanos destacava-se bastante dos egípcios e babilônios, na medida em que a vida cívica passava a ganhar importância. A cidade tornara-se o elemento principal da vida política e social destes povos: os gregos desenvolveram-se em cidades-estado e o Império Romano surgiu a partir da expansão de uma única cidade. O arquiteto grego Hipódamo de Mileto é considerado o primeiro urbanista da história. Enquanto os povos anteriores desenvolveram apenas as arquiteturas militar, religiosa e residencial, os gregos e romanos foram responsáveis pelo desenvolvimento de espaços próprios à manifestação da cidadania e dos afazeres cotidianos: assim, a ágora grega definia-se como um grande espaço livre e público, destinado à realização de assembléias.
Do ponto de vista da constituição dos espaços da intimidade, o surgimento das cidades e seu posterior desenvolvimento em Grécia e Roma foi um acontecimento capital. Se antes o habitat era sobretudo um refúgio contra as intempéries da natureza, com a urbanização o espaço da casa passa a ser considerado por oposição ao espaço público. Ainda que na Antiguidade não houvesse um sujeito autônomo e senhor de seus próprios destino e escolhas (tal qual se configurará na Modernidade), é durante esse período que assistimos ao nascimento da família e da propriedade privada. Do Egito e Mesopotâmia, passando pelos Gregos e chegando aos Romanos, podemos acompanhar o surgimento de instituições e práticas cada vez mais sofisticadas para garantir a diferenciação entre o que é próprio à comunidade como um todo e o que pertence ao grupamento familiar, destacado e isolado.
A função de habitar precede a própria existência da espécie homo sapiens sapiens. Nossos antepassados, caçadores-coletores nômades, já se refugiavam em cavernas e outros abrigos naturais durante o período em que se estabeleciam num determinado local. Cada comunidade autônoma era responsável pela confecção de seus próprios utensílios e ferramentas, se valendo das matérias-primas disponíveis na região, em geral madeira, argila, pedra, palha, ossos e chifres.
A revolução agrícola, que propiciaria o nascimento de uma humanidade sedentária, se deu por volta de 10.000 anos atrás, primeiramente na região de Jericó, na Cisjordânia, num grande oásis junto ao Mar Morto e depois se espalhou, através de difusão ou de movimentos independentes, para a Índia (há 8.000 anos), China (7.000), Europa (6.500), África Tropical (5.000) e Américas (4.500). Foi um processo longo e que não se deu da maneira uniforme e definitiva, num primeiro momento, como o uso dos termos “revolução agrícola” ou “revolução neolítica” faz supor: “Com o advento da agricultura, os grupos podiam ser maiores, desde que dentro de limites estabelecidos pela fertilidade do solo, quantidade de terra disponível e estrutura organizacional da tribo. Quando o crescimento do grupo entrava em contradição com qualquer um desses fatores, ocorria uma cissiparidade, procurando a tribo derivada - e às vezes até a de origem - outro local. Este processo intenso de subdivisões e deslocamentos iria provocar uma onda de difusão da agricultura e da atividade pastoril. Acredita-se, portanto, que durante muito tempo a atividade agrícola não fixou em definitivo o homem ao solo; apenas o deixou mais sedentário do que quando coletor e caçador”.
Durante a pré-História surgem os primeiros monumentos e o homem começa a dominar a técnica de trabalhar as pedras. O nascimento da arquitetura está associado à idéia de abrigo. O abrigo, construção predominante nas sociedades primitivas, será o elemento principal da organização espacial de diversos povos. Este tipo de construção ainda pode ser observado em sociedades não totalmente integradas à civilização ocidental, como os povos ameríndios, africanos, aborígenes, etc. A presença do abrigo no inconsciente coletivo destes povos é tão forte que ela marcará a cultura de diversas sociedades posteriores: vários teóricos da arquitetura, em momentos diversos da história (Vitrúvio, na Antiguidade, Alberti na Renascença, Joseph Rykwert, mais recentemente) evocarão o mito da cabana primitiva. Este mito, variando de acordo com a fonte, conta que o ser humano recebeu dos deuses a sabedoria para a construção de seu abrigo, configurado como uma construção de madeira composta por quatro paredes e um telhado de duas águas.
A necessidade de empenhar uma grande parte da força de trabalho da comunidade para realizar ações como construção de canais, diques, reservatórios de água e alimentos, é apontada como o fator mais importante para explicar o surgimento das primeiras cidades, no sul do Egito e na Mesopotâmia, há 5.000 anos. Aos poucos, surgem funções cada vez mais especializadas: guerreiros, administradores, sacerdotes e comerciantes, esses últimos sendo diretamente responsáveis pela difusão da urbanização no Oriente Próximo, ao estabelecerem redes comerciais e expandirem as culturas egípcia e mesopotâmica para regiões antes ocupadas por aldeias e tribos de agricultores e pastores. As principais construções remanescentes das civilizações egípcia e mesopotâmica são de caráter religioso: assim os templos babilônios conhecidos como zigurates (dos quais a Torre de Babel bíblica é um exemplo) e as famosas pirâmides do Egito, apontadas, já na Antiguidade, como uma das sete maravilhas do mundo.
A arquitetura e o urbanismo praticados pelos gregos e romanos destacava-se bastante dos egípcios e babilônios, na medida em que a vida cívica passava a ganhar importância. A cidade tornara-se o elemento principal da vida política e social destes povos: os gregos desenvolveram-se em cidades-estado e o Império Romano surgiu a partir da expansão de uma única cidade. O arquiteto grego Hipódamo de Mileto é considerado o primeiro urbanista da história. Enquanto os povos anteriores desenvolveram apenas as arquiteturas militar, religiosa e residencial, os gregos e romanos foram responsáveis pelo desenvolvimento de espaços próprios à manifestação da cidadania e dos afazeres cotidianos: assim, a ágora grega definia-se como um grande espaço livre e público, destinado à realização de assembléias.
Do ponto de vista da constituição dos espaços da intimidade, o surgimento das cidades e seu posterior desenvolvimento em Grécia e Roma foi um acontecimento capital. Se antes o habitat era sobretudo um refúgio contra as intempéries da natureza, com a urbanização o espaço da casa passa a ser considerado por oposição ao espaço público. Ainda que na Antiguidade não houvesse um sujeito autônomo e senhor de seus próprios destino e escolhas (tal qual se configurará na Modernidade), é durante esse período que assistimos ao nascimento da família e da propriedade privada. Do Egito e Mesopotâmia, passando pelos Gregos e chegando aos Romanos, podemos acompanhar o surgimento de instituições e práticas cada vez mais sofisticadas para garantir a diferenciação entre o que é próprio à comunidade como um todo e o que pertence ao grupamento familiar, destacado e isolado.
DA FUNÇÃO DE HABITAR - II
II
Na religião da Grécia Antiga, dois deuses eram celebrados dentro do espaço da casa: Héstia e Hermes. A primeira se confundia com a própria lareira-altar que se situava no centro de cada habitação, enquanto que o segundo estava localizado junto à porta que separava a casa do espaço público. Jean Pierre Vernant, em seu ensaio “Héstia-Hermes. Sobre a expressão religiosa do espaço e do movimento entre os gregos” analisa a relação entre essas duas divindades e sua importância para a concepção arcaica do espaço. Da nossa perspectiva, interessa sobretudo compreender que, na raiz da distinção das funções complementares de Héstia e Hermes, pode-se vislumbrar o que viria a ser a separação entre o espaço da intimidade (a casa) em oposição ao espaço público (a rua, o universo).
No início de seu ensaio, J.P. Vernant se debruça sobre a representação dos doze deuses que compõem o panteão grego, agrupados em casais, pelo escultor Fídias. O autor, a seguir, se debruça sobre um casal específico, Hermes e Héstia, que parece não obedecer à mesma lógica que preside o emparelhamento dos outros casais: não são marido e mulher (como Zeus e Hera, Posidão e Anfitrite), nem irmão e irmã (como Apolo e Ártemis), nem tampouco mãe e filho (como Afrodite e Eros), assim como não são protetora e protegido (como Atena e Héracles). Por que então agrupar Hermes e Héstia como um casal? “Não se poderia alegar uma fantasia pessoal do escultor. Quando executa uma obra sagrada, o artista antigo empenha-se em conformar-se a certos modelos: sua iniciativa se exerce no quadro dos esquemas impostos pela tradição”. Ficando descartada a hipótese de arbitrariedade do escultor, resta-nos buscar uma teoria capaz de explicar o agrupamento dessas duas divindades. “Héstia – nome próprio de uma deusa, mas também nome comum que designa a lareira, prestava-se menos que os outros deuses à representação antropomórfica. Raramente nós a vemos figurada. Quando ela é figurada, aparece frequentemente formando par com Hermes (...) A associação Hermes-Héstia, regular na arte plástica, reveste-se, pois, de um significado propriamente religioso. Ela deve exprimir uma estrutura definida do panteão grego”.
Se são raras as representações de Héstia nas artes plásticas, mais raras ainda são suas aparições nas narrativas míticas. Isso se deve à sua imobilidade, já que a deusa permanece fixa no centro de cada lar, de cada cidade (a chamada Héstia comum) e do próprio Olimpo, assim como opta por manter-se em estado virginal. O que se conhece sobre ela e suas relações com Hermes se deve, em grande parte, aos poucos versos conservados do Hino Homérico a Héstia, o qual remonta ao século VIII a.C.. “Por duas vezes o poeta insiste nos sentimentos de amizade que Hermes e Héstia nutrem um em relação ao outro. (...) Essa afeição recíproca não se baseia nos laços de sangue, nem do casamento, nem de dependência pessoal. Ela corresponde a uma afinidade de função: as duas forças divinas, presentes nos mesmos lugares, desenvolvem lado a lado funções complementares. (...) Com efeito, tanto um como outro referem-se à extensão terrestre, ao hábitat de uma humanidade sedentária”.
A associação de Héstia ao universo do lar nos parece bastante evidente. Situada “no meio do mégaron quadrangular, a lareira micênica, de forma arredondada, marca o centro do hábitat humano. (...) Fixada no solo, a lareira circular é como que o umbigo que enraíza a casa na terra. (...) Ponto fixo, centro a partir do qual o espaço humano se orienta e organiza, Héstia pode, para os poetas e filósofos, identificar-se com a terra imóvel no centro do cosmo”. Já Hermes está ligado ao hábitat humano e, de um modo mais geral, à extensão da superfície terrestre, de uma maneira diferente. Trata-se de um deus próximo, que freqüenta este mundo e serve de intermediário entre o Olimpo e os mortais. “Mas, se ele se manifesta assim na superfície da terra, se habita, com Héstia, as casas dos mortais, Hermes o faz à maneira de mensageiro, como um viajante que vem de longe e que já se apressa a partir. (...) Ele representa, no espaço e no mundo humano, o movimento, a passagem, a mudança de estado, as transições, os contatos entre elementos estranhos. Na casa, o seu lugar é junto à porta, protegendo a soleira, afastando os ladrões porque ele próprio é o Ladrão”. Resumindo: “a Héstia, o interior, o recinto, o fixo, a intimidade do grupo em si mesmo; a Hermes, o exterior, a abertura, a mobilidade, o contato com o outro. Pode-se dizer que o casal Hermes-Héstia exprime, em sua polaridade, a tensão que se observa na representação arcaica do espaço: o espaço exige um centro, um ponto fixo, com valor privilegiado, a partir do qual se possam orientar e definir direções, todas diferentes qualitativamente, o espaço porém se apresenta, ao mesmo tempo, como lugar do movimento, o que implica uma possibilidade de transição e de passagem de qualquer ponto a um outro”.
Mais adiante, o autor se aprofunda na caracterização da polaridade expressa pela relação Hermes-Héstia: “o espaço doméstico, espaço fechado, com um teto (protegido), tem, para os gregos, uma conotação feminina. O espaço de fora, do exterior, tem conotação masculina. (...) Essa “permanência” de Héstia não é de natureza apenas espacial. Como ela confere a casa o centro que a fixa no espaço, Héstia assegura ao grupo doméstico a sua perenidade no tempo”.
O ponto central da investigação de Jean Pierre Vernant está situado nas seguintes linhas: “em cada etapa da nossa análise, reconhecemos, entre o fixo e o móvel, o fechado e o aberto, o interior e o exterior, uma polaridade que não só é atestada no jogo das instituições domésticas (divisão das tarefas, casamento, filiação, refeição), mas que se inscreve até na natureza do homem e da mulher. Encontramos essa mesma polaridade, ao nível das forças divinas, em uma estrutura do panteão. Com efeito, nem Hermes nem Héstia podem ser colocados isoladamente. Eles assumem as suas funções sob a forma de um casal, a existência de um implicando a do outro, na qual ele repercute como a sua contrapartida necessária. Mais ainda, essa própria complementação das duas divindades pressupõe, em cada uma delas, uma oposição ou uma tensão interior que confere à sua personalidade de deus um caráter fundamental de ambigüidade”.
Algumas páginas adiante, Vernant desenvolve esse tema da ambigüidade enraizada na personalidade de Héstia: “Para exercer sua função de força que confere ao espaço doméstico o seu centro, sua permanência, sua delimitação, Héstia, como já dissemos, deve enraizar a casa humana na terra. Tal é o significado da lareira micênica, esse altar-lareira fixo. Daí um aspecto propriamente ctônico na deusa “epictônica” que reside na superfície da terra. Por meio dela, a casa e o grupo familiar entram em contato com o mundo subterrâneo.(...) E há mais ainda. No mégaron micênico, a lareira circular soldada ao solo inscreve-se no centro de um espaço retangular delimitado por quatro colunas. Elevando-se até o alto da peça, essas pilastras dispõem no teto uma clarabóia aberta por onde sai a fumaça. Quando se queima o incenso na lareira, quando se consome a carne das vítimas ou se assa, durante a refeição, a porção dos alimentos consagrada aos deuses, na chama acesa sobre o seu altar doméstico, Héstia faz com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos. (...) Para o grupo doméstico, o centro que Héstia patrocina representa também, e solidariamente, o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”.
Como pudemos perceber da análise comparativa entre Hermes e Héstia, a mitologia grego já fazia a distinção entre aquilo que no espaço é permanência e imobilidade daquilo que é movimento e transição. Mais tarde, diversos filósofos viriam a se ocupar dessas questões, tais como Anaximandro, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Zenão, Platão e Aristóteles – alguns tomando partido do movimento como o princípio fundamental de organização do espaço (é o caso de Heráclito), outros da permanência (Zenão, Parmênides) e outros ainda buscando uma síntese entre os dois princípios.
Do ponto de vista de nosso estudo, o mais importante é perceber que, para os gregos, já havia a distinção entre o espaço privado, reservado à intimidade, cujos principais atributos são o fechado, o feminino, a sombra e a imutabilidade e o espaço público, caracterizado por elementos como o masculino, a luz do sol, a perpétua transformação e o aberto. No mundo clássico, a oposição já não era (como em sociedades mais primitivas) entre a casa e a natureza, mas sim entre a casa e a rua – ou seja, a diferenciação já não se dava mais entre o plano humano e o plano natural, mas entre um plano humano-familiar e um plano humano não-familiar. Tal caracterização persiste até os dias de hoje e é importante na medida em que impõe a cada grupamento familiar o dever de se diferenciar dos demais, os quais são vistos ora como concidadãos, aliados e companheiros, ora como competidores, hostis e estranhos. Para além da cultura comum que agrega todos os habitantes da polis sob os mesmos costumes, existem também elementos que caracterizam cada grupamento familiar em oposição aos demais. A partir daí, o espaço da intimidade se tornou cada vez mais reduzido e restrito às dependências da casa da família, ao mesmo tempo em que se tornou mais complexo e singular. Na modernidade, com a emancipação do sujeito burguês e a decadência da instituição familiar, tal processo viria a se intensificar ainda mais, de modo que hoje o espaço da casa se confunde cada vez mais com o espaço ocupado por um único indivíduo em sua solidão.
Na religião da Grécia Antiga, dois deuses eram celebrados dentro do espaço da casa: Héstia e Hermes. A primeira se confundia com a própria lareira-altar que se situava no centro de cada habitação, enquanto que o segundo estava localizado junto à porta que separava a casa do espaço público. Jean Pierre Vernant, em seu ensaio “Héstia-Hermes. Sobre a expressão religiosa do espaço e do movimento entre os gregos” analisa a relação entre essas duas divindades e sua importância para a concepção arcaica do espaço. Da nossa perspectiva, interessa sobretudo compreender que, na raiz da distinção das funções complementares de Héstia e Hermes, pode-se vislumbrar o que viria a ser a separação entre o espaço da intimidade (a casa) em oposição ao espaço público (a rua, o universo).
No início de seu ensaio, J.P. Vernant se debruça sobre a representação dos doze deuses que compõem o panteão grego, agrupados em casais, pelo escultor Fídias. O autor, a seguir, se debruça sobre um casal específico, Hermes e Héstia, que parece não obedecer à mesma lógica que preside o emparelhamento dos outros casais: não são marido e mulher (como Zeus e Hera, Posidão e Anfitrite), nem irmão e irmã (como Apolo e Ártemis), nem tampouco mãe e filho (como Afrodite e Eros), assim como não são protetora e protegido (como Atena e Héracles). Por que então agrupar Hermes e Héstia como um casal? “Não se poderia alegar uma fantasia pessoal do escultor. Quando executa uma obra sagrada, o artista antigo empenha-se em conformar-se a certos modelos: sua iniciativa se exerce no quadro dos esquemas impostos pela tradição”. Ficando descartada a hipótese de arbitrariedade do escultor, resta-nos buscar uma teoria capaz de explicar o agrupamento dessas duas divindades. “Héstia – nome próprio de uma deusa, mas também nome comum que designa a lareira, prestava-se menos que os outros deuses à representação antropomórfica. Raramente nós a vemos figurada. Quando ela é figurada, aparece frequentemente formando par com Hermes (...) A associação Hermes-Héstia, regular na arte plástica, reveste-se, pois, de um significado propriamente religioso. Ela deve exprimir uma estrutura definida do panteão grego”.
Se são raras as representações de Héstia nas artes plásticas, mais raras ainda são suas aparições nas narrativas míticas. Isso se deve à sua imobilidade, já que a deusa permanece fixa no centro de cada lar, de cada cidade (a chamada Héstia comum) e do próprio Olimpo, assim como opta por manter-se em estado virginal. O que se conhece sobre ela e suas relações com Hermes se deve, em grande parte, aos poucos versos conservados do Hino Homérico a Héstia, o qual remonta ao século VIII a.C.. “Por duas vezes o poeta insiste nos sentimentos de amizade que Hermes e Héstia nutrem um em relação ao outro. (...) Essa afeição recíproca não se baseia nos laços de sangue, nem do casamento, nem de dependência pessoal. Ela corresponde a uma afinidade de função: as duas forças divinas, presentes nos mesmos lugares, desenvolvem lado a lado funções complementares. (...) Com efeito, tanto um como outro referem-se à extensão terrestre, ao hábitat de uma humanidade sedentária”.
A associação de Héstia ao universo do lar nos parece bastante evidente. Situada “no meio do mégaron quadrangular, a lareira micênica, de forma arredondada, marca o centro do hábitat humano. (...) Fixada no solo, a lareira circular é como que o umbigo que enraíza a casa na terra. (...) Ponto fixo, centro a partir do qual o espaço humano se orienta e organiza, Héstia pode, para os poetas e filósofos, identificar-se com a terra imóvel no centro do cosmo”. Já Hermes está ligado ao hábitat humano e, de um modo mais geral, à extensão da superfície terrestre, de uma maneira diferente. Trata-se de um deus próximo, que freqüenta este mundo e serve de intermediário entre o Olimpo e os mortais. “Mas, se ele se manifesta assim na superfície da terra, se habita, com Héstia, as casas dos mortais, Hermes o faz à maneira de mensageiro, como um viajante que vem de longe e que já se apressa a partir. (...) Ele representa, no espaço e no mundo humano, o movimento, a passagem, a mudança de estado, as transições, os contatos entre elementos estranhos. Na casa, o seu lugar é junto à porta, protegendo a soleira, afastando os ladrões porque ele próprio é o Ladrão”. Resumindo: “a Héstia, o interior, o recinto, o fixo, a intimidade do grupo em si mesmo; a Hermes, o exterior, a abertura, a mobilidade, o contato com o outro. Pode-se dizer que o casal Hermes-Héstia exprime, em sua polaridade, a tensão que se observa na representação arcaica do espaço: o espaço exige um centro, um ponto fixo, com valor privilegiado, a partir do qual se possam orientar e definir direções, todas diferentes qualitativamente, o espaço porém se apresenta, ao mesmo tempo, como lugar do movimento, o que implica uma possibilidade de transição e de passagem de qualquer ponto a um outro”.
Mais adiante, o autor se aprofunda na caracterização da polaridade expressa pela relação Hermes-Héstia: “o espaço doméstico, espaço fechado, com um teto (protegido), tem, para os gregos, uma conotação feminina. O espaço de fora, do exterior, tem conotação masculina. (...) Essa “permanência” de Héstia não é de natureza apenas espacial. Como ela confere a casa o centro que a fixa no espaço, Héstia assegura ao grupo doméstico a sua perenidade no tempo”.
O ponto central da investigação de Jean Pierre Vernant está situado nas seguintes linhas: “em cada etapa da nossa análise, reconhecemos, entre o fixo e o móvel, o fechado e o aberto, o interior e o exterior, uma polaridade que não só é atestada no jogo das instituições domésticas (divisão das tarefas, casamento, filiação, refeição), mas que se inscreve até na natureza do homem e da mulher. Encontramos essa mesma polaridade, ao nível das forças divinas, em uma estrutura do panteão. Com efeito, nem Hermes nem Héstia podem ser colocados isoladamente. Eles assumem as suas funções sob a forma de um casal, a existência de um implicando a do outro, na qual ele repercute como a sua contrapartida necessária. Mais ainda, essa própria complementação das duas divindades pressupõe, em cada uma delas, uma oposição ou uma tensão interior que confere à sua personalidade de deus um caráter fundamental de ambigüidade”.
Algumas páginas adiante, Vernant desenvolve esse tema da ambigüidade enraizada na personalidade de Héstia: “Para exercer sua função de força que confere ao espaço doméstico o seu centro, sua permanência, sua delimitação, Héstia, como já dissemos, deve enraizar a casa humana na terra. Tal é o significado da lareira micênica, esse altar-lareira fixo. Daí um aspecto propriamente ctônico na deusa “epictônica” que reside na superfície da terra. Por meio dela, a casa e o grupo familiar entram em contato com o mundo subterrâneo.(...) E há mais ainda. No mégaron micênico, a lareira circular soldada ao solo inscreve-se no centro de um espaço retangular delimitado por quatro colunas. Elevando-se até o alto da peça, essas pilastras dispõem no teto uma clarabóia aberta por onde sai a fumaça. Quando se queima o incenso na lareira, quando se consome a carne das vítimas ou se assa, durante a refeição, a porção dos alimentos consagrada aos deuses, na chama acesa sobre o seu altar doméstico, Héstia faz com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos. (...) Para o grupo doméstico, o centro que Héstia patrocina representa também, e solidariamente, o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”.
Como pudemos perceber da análise comparativa entre Hermes e Héstia, a mitologia grego já fazia a distinção entre aquilo que no espaço é permanência e imobilidade daquilo que é movimento e transição. Mais tarde, diversos filósofos viriam a se ocupar dessas questões, tais como Anaximandro, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Zenão, Platão e Aristóteles – alguns tomando partido do movimento como o princípio fundamental de organização do espaço (é o caso de Heráclito), outros da permanência (Zenão, Parmênides) e outros ainda buscando uma síntese entre os dois princípios.
Do ponto de vista de nosso estudo, o mais importante é perceber que, para os gregos, já havia a distinção entre o espaço privado, reservado à intimidade, cujos principais atributos são o fechado, o feminino, a sombra e a imutabilidade e o espaço público, caracterizado por elementos como o masculino, a luz do sol, a perpétua transformação e o aberto. No mundo clássico, a oposição já não era (como em sociedades mais primitivas) entre a casa e a natureza, mas sim entre a casa e a rua – ou seja, a diferenciação já não se dava mais entre o plano humano e o plano natural, mas entre um plano humano-familiar e um plano humano não-familiar. Tal caracterização persiste até os dias de hoje e é importante na medida em que impõe a cada grupamento familiar o dever de se diferenciar dos demais, os quais são vistos ora como concidadãos, aliados e companheiros, ora como competidores, hostis e estranhos. Para além da cultura comum que agrega todos os habitantes da polis sob os mesmos costumes, existem também elementos que caracterizam cada grupamento familiar em oposição aos demais. A partir daí, o espaço da intimidade se tornou cada vez mais reduzido e restrito às dependências da casa da família, ao mesmo tempo em que se tornou mais complexo e singular. Na modernidade, com a emancipação do sujeito burguês e a decadência da instituição familiar, tal processo viria a se intensificar ainda mais, de modo que hoje o espaço da casa se confunde cada vez mais com o espaço ocupado por um único indivíduo em sua solidão.
DA FUNÇÃO DE HABITAR - III
III
Estudar fenomenologicamente os valores de intimidade do espaço interior é a meta de Gaston Bachelard no capítulo “A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana”, contido no livro “A poética do espaço”. Para tanto, a casa é eleita como objeto privilegiado de pesquisa, desde que tomada em sua complexidade e em sua unidade, buscando integrar os valores particulares num valor fundamental: a função de habitar. “Através das lembranças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas em que já desejamos morar, podemos isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificativa para o valor singular que atribuímos a todas as nossas imagens de intimidade protegida? Eis o problema central”. Recusando o ponto de vista que toma a casa como mero objeto para uma descrição objetiva, o autor quer “encontrar a concha inicial em toda moradia, mesmo no castelo (...) A casa nos permitirá evocar luzes fugidias de devaneio que clareiam a síntese do imemorial e da lembrança. Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar”. Mais adiante, afirma que “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz” e, mais do que isso, “os lugares onde se viveu o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio”. Os aspectos acolhedor e centralizador da casa se expressam em passagens como: “a casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. (...) Antes de ser “atirado no mundo”, como o professam os metafísicos apressados, o homem é colocado no berço da casa”.
Qual o papel dos espaços privilegiados que abrigam a intimidade para a constituição da memória? “É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas e se a casa se complica um pouco, se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. (...) Às vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando vai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. O espaço serve para isso. (...) Todos os espaços de nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são em nós indeléveis. E é o ser precisamente que não quer apagá-los. Ele sabe por instinto que os espaços da sua solidão são constitutivos. (...) Esses redutos têm valor de concha”.
A seguir, Bachelard busca separar seu objeto de pesquisa daquele da psicanálise, afirmando que para esta última interessa, sobretudo, o ser que se projeta para fora de si mesmo e exterioriza sua intimidade, enquanto que para o primeiro, trata-se de flagrar o ser e o inconsciente “tranquilamente instalados”, desfrutando da intimidade em seu refúgio mais perfeito. “O inconsciente normal sabe estar à vontade em qualquer lugar. A psicanálise ajuda os inconscientes deslocados, inconscientes brutalmente ou insidiosamente deslocados. Mas a psicanálise prefere colocar o ser em movimento a tranqüilizá-lo. Ela convida o ser a viver fora dos abrigos do inconsciente, a entrar nas aventuras da vida, a sair de si. E, naturalmente, sua ação é salutar. Uma vez que também é preciso dar um destino de exterior ao ser do interior. Para acompanhar a psicanálise nessa ação salutar, seria preciso empreender uma topoanálise de todos os espaços que nos chamam fora de nós mesmos”. Porém, o autor reafirma que “é à região da intimidade que consagramos nossas pesquisas. Ao poder de atração de todas as regiões de intimidade. Não há intimidade verdadeira que afaste. Todos os espaços de intimidade se caracterizam por uma atração. Repitamos uma vez mais que seu ser é o bem-estar”.
Na passagem seguinte, o autor se debruça mais atentamente sobre a evocação da casa natal pelo devaneio, não sem antes comentar a representação dos espaços de intimidade pela poesia e pela literatura. “Os valores de abrigo são tão simples, tão profundamente enraizados no inconsciente, que os encontramos mais facilmente por uma simples evocação do que por uma descrição minuciosa. (...) A casa primeira e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra. (...) Só eu, nas minhas lembranças de outro século, posso abrir o armário que guarda ainda, só para mim, o cheiro único, o cheiro das uvas que secam sobre a sebe. O cheiro das uvas! Cheiro-limite, é preciso muita imaginação para senti-lo. Mas já falei demais sobre ele. Se eu disser mais, o leitor não abriria, em seu quarto de novo revelado, o armário único, o armário com cheiro único, que assinala sua intimidade. Para evocar os valores da intimidade, é preciso, paradoxalmente, induzir o leitor ao estado de leitura suspensa. É no momento em que os olhos do leitor deixam o livro que a evocação do meu quarto pode transformar-se num limite de onirismo para outrem. (...) Há um sentido em dizer, no plano de uma filosofia da literatura e da poesia em que nos colocamos, que se “escreve um quarto”, que se “lê um quarto”, que se “lê uma casa”. Assim, rapidamente, desde as primeiras palavras, à primeira abertura poética, o leitor que “leu meu quarto” suspende sua leitura e começa a pensar em qualquer antiga morada. (...) Os valores de intimidade são tão absorventes que o leitor não lê mais meu quarto: revê o quarto dele”.
O que é a casa natal? “A casa natal está fisicamente inscrita em nós. (...) As casas sucessivas que habitamos mais tarde tornaram banais os nossos gestos. Mas ficamos surpreendidos quando voltamos à velha casa, depois de décadas de odisséia, com que os gestos mais hábeis, os gestos primeiros fiquem vivos, perfeitos para sempre. Em suma, a casa natal inscreveu em nós a hierarquia das diversas funções de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa e todas as outras não são mais que variações de um tema fundamental. (...) A casa natal, mais que um protótipo de casa, é um corpo de sonhos. (...) Se damos a todos esses retiros sua função que foi abrigar sonhos, podemos dizer que existe em cada um de nós uma casa onírica, uma casa de lembrança-sonho, perdida na sombra de um além do passado verdadeiro. Essa casa onírica é, dizia eu então, a cripta da casa natal. (...) Para explicar, pela vida afora, nossa atração pela casa natal, o sonho é mais poderoso que o pensamento. (...) Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança, é viver na casa desaparecida como nós sonhamos. (...) Assim, além de todos os valores positivos de proteção, na casa natal se estabelecem valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais”.
No trecho seguinte, Gaston Bachelard enuncia: “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. (...) Para por em ordem essas imagens, é preciso, acreditamos, enfocar dois temas principais de ligação: 1-) A casa é imaginada como um ser vertical. Ela se eleva. Ela se diferencia no sentido de sua verticalidade. 2-) A casa e imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade”.
Para tratar do tema da verticalidade da casa, o autor se vale da polaridade que se estabelece entre o sótão e o porão: “pode-se opor a racionalidade do telhado à irracionalidade do porão. (...) O telhado revela imediatamente sua razão de ser: cobre o homem que tem medo da chuva e do sol. (...) Todos os pensamentos que se ligam ao telhado são claros”. Em contrapartida, o porão “é, em primeiro lugar, o ser obscuro da casa, o ser que participa das potências subterrâneas”. Mas adiante, o autor toma de empréstimo uma imagem de C. G. Jung, contida no livro O Homem na Descoberta de Sua Alma: “a consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se no porão”. Continuando com Bachelard: “no sótão, os medos se “racionalizam” facilmente. No porão, mesmo para um ser mais corajoso que o homem evocado por Jung, a “racionalização” é menos rápida e menos clara; não é nunca definitiva”.
Adiante, o autor trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. (...) Nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. (...) A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. (...) À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.
O trecho final desse capítulo é dedicado à investigação da casa imaginada como um ser concentrado: “é preciso procurar na casa múltipla centros de simplicidade. (...) Em sua própria casa, na sala familiar, um sonhador dos refúgios sonha com a cabana, com o ninho, com os cantos em que gostaria de se encolher como um animal em seu buraco”. A seguir, o autor transcreve um trecho do livro Le Serviteur, de Henri Bachelin, que lança luzes sobre o tema da cabana inscrita na casa: “Eram horas em que com força, juro, eu nos sentia como que eliminados da cidadezinha, da França e do mundo. E eu me enchia de prazer – guardava para mim as minhas sensações – quando nos imaginava vivendo no meio dos bosques numa cabana de carvoeiros bem aquecida: eu gostaria de ter ouvido os lobos aguçarem as unhas no granito sem fim da soleira da nossa porta. Nossa casa fazia para mim as vezes de cabana. Nela eu me sentia seguro contra a fome e contra a sede. Se eu tremia, era só de bem-estar”. E Bachelard comenta: “a cabana, na página de Bachelin, aparece como a raiz que sustenta a função de habitar. Ela é a planta humana mais simples, aquela que não precisa de ramificações para subsistir. É tão simples que não pertence mais às lembranças, às vezes demasiadamente cheias de imagens. Pertence às lendas. É um centro de lendas. Diante de uma luz longínqua, perdida na noite, quem não sonhou com a palhoça, quem não sonhou, mais comprometido ainda com as lendas, com a cabana do eremita? (...) A cabana é uma solidão centrada. (...) Ela tem uma feliz intensidade de pobreza. A cabana do eremita é uma glória da pobreza. De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio”. E, tecendo considerações mais gerais sobre o devaneio e as imagens, acrescenta: “as grandes imagens têm ao mesmo tempo uma história e uma pré-história. São sempre lembrança e lenda ao mesmo tempo. (...) No reino da imaginação absoluta, somos jovens muito tarde. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo verdadeiramente, para vivê-lo na realidade de suas imagens, na sublimação absoluta que transcende qualquer paixão”.
Das análises de Bachelard, é importante retermos cinco pontos fundamentais:
1-) a casa é um ser evocado e sonhado, logo não redutível a uma análise fria e racional;
2-) a casa é o espaço do refúgio, da intimidade e da solidão; do ponto de vista fenomenológico, seu ser é o bem-estar;
3-) todas as casas que habitamos ao longo da vida repercutem a casa natal e é a partir das lembranças oriundas dela que elaboramos a casa sonhada;
4-) A casa é imaginada como um ser vertical;
5-) A casa é imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade.
Os pontos 4 e 5 nos remetem a dois temas que abordamos no primeiro capítulo, quando tratamos da figura de Héstia. Assim, a afirmação de Bachelard de que a casa é um ser vertical, desdobrada na análise que o autor faz do sótão e do porão, corresponde, em certo sentido, ao que Jean Pierre Vernant chamou de “caráter fundamental de ambigüidade” presente na figura de Héstia. Essa divindade, ao mesmo tempo em que permanece fixa e imóvel sobre a superfície terrestre, no centro da casa (ponto 5), atua também como o “o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”, de um lado ligando a casa com as potências subterrâneas e “enraizando a casa no mundo” e de outro, fazendo com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos, na forma da fumaça que sai da lareira (ponto 4). Sótão e porão, Olimpo e deuses ctônicos – a associação entre esses dois grupos de imagens, tiradas da mitologia grega e do que poderíamos chamar de uma filosofia da imaginação, nos leva a caracterizar a casa ao mesmo tempo como o refúgio, abrigo isolado que protege a solidão e o repouso, que confere um centro à existência humana e como o local privilegiado que une a superfície terrestre tanto ao mundo das profundezas subterrâneas, quanto ao mundo celestial, morada dos deuses. Não seria nenhum absurdo afirmar que a casa é dotada de um id e de um ego, assim como os seres humanos.
Estudar fenomenologicamente os valores de intimidade do espaço interior é a meta de Gaston Bachelard no capítulo “A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana”, contido no livro “A poética do espaço”. Para tanto, a casa é eleita como objeto privilegiado de pesquisa, desde que tomada em sua complexidade e em sua unidade, buscando integrar os valores particulares num valor fundamental: a função de habitar. “Através das lembranças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas em que já desejamos morar, podemos isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificativa para o valor singular que atribuímos a todas as nossas imagens de intimidade protegida? Eis o problema central”. Recusando o ponto de vista que toma a casa como mero objeto para uma descrição objetiva, o autor quer “encontrar a concha inicial em toda moradia, mesmo no castelo (...) A casa nos permitirá evocar luzes fugidias de devaneio que clareiam a síntese do imemorial e da lembrança. Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar”. Mais adiante, afirma que “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz” e, mais do que isso, “os lugares onde se viveu o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio”. Os aspectos acolhedor e centralizador da casa se expressam em passagens como: “a casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. (...) Antes de ser “atirado no mundo”, como o professam os metafísicos apressados, o homem é colocado no berço da casa”.
Qual o papel dos espaços privilegiados que abrigam a intimidade para a constituição da memória? “É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas e se a casa se complica um pouco, se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. (...) Às vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando vai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. O espaço serve para isso. (...) Todos os espaços de nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são em nós indeléveis. E é o ser precisamente que não quer apagá-los. Ele sabe por instinto que os espaços da sua solidão são constitutivos. (...) Esses redutos têm valor de concha”.
A seguir, Bachelard busca separar seu objeto de pesquisa daquele da psicanálise, afirmando que para esta última interessa, sobretudo, o ser que se projeta para fora de si mesmo e exterioriza sua intimidade, enquanto que para o primeiro, trata-se de flagrar o ser e o inconsciente “tranquilamente instalados”, desfrutando da intimidade em seu refúgio mais perfeito. “O inconsciente normal sabe estar à vontade em qualquer lugar. A psicanálise ajuda os inconscientes deslocados, inconscientes brutalmente ou insidiosamente deslocados. Mas a psicanálise prefere colocar o ser em movimento a tranqüilizá-lo. Ela convida o ser a viver fora dos abrigos do inconsciente, a entrar nas aventuras da vida, a sair de si. E, naturalmente, sua ação é salutar. Uma vez que também é preciso dar um destino de exterior ao ser do interior. Para acompanhar a psicanálise nessa ação salutar, seria preciso empreender uma topoanálise de todos os espaços que nos chamam fora de nós mesmos”. Porém, o autor reafirma que “é à região da intimidade que consagramos nossas pesquisas. Ao poder de atração de todas as regiões de intimidade. Não há intimidade verdadeira que afaste. Todos os espaços de intimidade se caracterizam por uma atração. Repitamos uma vez mais que seu ser é o bem-estar”.
Na passagem seguinte, o autor se debruça mais atentamente sobre a evocação da casa natal pelo devaneio, não sem antes comentar a representação dos espaços de intimidade pela poesia e pela literatura. “Os valores de abrigo são tão simples, tão profundamente enraizados no inconsciente, que os encontramos mais facilmente por uma simples evocação do que por uma descrição minuciosa. (...) A casa primeira e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra. (...) Só eu, nas minhas lembranças de outro século, posso abrir o armário que guarda ainda, só para mim, o cheiro único, o cheiro das uvas que secam sobre a sebe. O cheiro das uvas! Cheiro-limite, é preciso muita imaginação para senti-lo. Mas já falei demais sobre ele. Se eu disser mais, o leitor não abriria, em seu quarto de novo revelado, o armário único, o armário com cheiro único, que assinala sua intimidade. Para evocar os valores da intimidade, é preciso, paradoxalmente, induzir o leitor ao estado de leitura suspensa. É no momento em que os olhos do leitor deixam o livro que a evocação do meu quarto pode transformar-se num limite de onirismo para outrem. (...) Há um sentido em dizer, no plano de uma filosofia da literatura e da poesia em que nos colocamos, que se “escreve um quarto”, que se “lê um quarto”, que se “lê uma casa”. Assim, rapidamente, desde as primeiras palavras, à primeira abertura poética, o leitor que “leu meu quarto” suspende sua leitura e começa a pensar em qualquer antiga morada. (...) Os valores de intimidade são tão absorventes que o leitor não lê mais meu quarto: revê o quarto dele”.
O que é a casa natal? “A casa natal está fisicamente inscrita em nós. (...) As casas sucessivas que habitamos mais tarde tornaram banais os nossos gestos. Mas ficamos surpreendidos quando voltamos à velha casa, depois de décadas de odisséia, com que os gestos mais hábeis, os gestos primeiros fiquem vivos, perfeitos para sempre. Em suma, a casa natal inscreveu em nós a hierarquia das diversas funções de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa e todas as outras não são mais que variações de um tema fundamental. (...) A casa natal, mais que um protótipo de casa, é um corpo de sonhos. (...) Se damos a todos esses retiros sua função que foi abrigar sonhos, podemos dizer que existe em cada um de nós uma casa onírica, uma casa de lembrança-sonho, perdida na sombra de um além do passado verdadeiro. Essa casa onírica é, dizia eu então, a cripta da casa natal. (...) Para explicar, pela vida afora, nossa atração pela casa natal, o sonho é mais poderoso que o pensamento. (...) Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança, é viver na casa desaparecida como nós sonhamos. (...) Assim, além de todos os valores positivos de proteção, na casa natal se estabelecem valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais”.
No trecho seguinte, Gaston Bachelard enuncia: “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. (...) Para por em ordem essas imagens, é preciso, acreditamos, enfocar dois temas principais de ligação: 1-) A casa é imaginada como um ser vertical. Ela se eleva. Ela se diferencia no sentido de sua verticalidade. 2-) A casa e imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade”.
Para tratar do tema da verticalidade da casa, o autor se vale da polaridade que se estabelece entre o sótão e o porão: “pode-se opor a racionalidade do telhado à irracionalidade do porão. (...) O telhado revela imediatamente sua razão de ser: cobre o homem que tem medo da chuva e do sol. (...) Todos os pensamentos que se ligam ao telhado são claros”. Em contrapartida, o porão “é, em primeiro lugar, o ser obscuro da casa, o ser que participa das potências subterrâneas”. Mas adiante, o autor toma de empréstimo uma imagem de C. G. Jung, contida no livro O Homem na Descoberta de Sua Alma: “a consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se no porão”. Continuando com Bachelard: “no sótão, os medos se “racionalizam” facilmente. No porão, mesmo para um ser mais corajoso que o homem evocado por Jung, a “racionalização” é menos rápida e menos clara; não é nunca definitiva”.
Adiante, o autor trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. (...) Nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. (...) A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. (...) À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.
O trecho final desse capítulo é dedicado à investigação da casa imaginada como um ser concentrado: “é preciso procurar na casa múltipla centros de simplicidade. (...) Em sua própria casa, na sala familiar, um sonhador dos refúgios sonha com a cabana, com o ninho, com os cantos em que gostaria de se encolher como um animal em seu buraco”. A seguir, o autor transcreve um trecho do livro Le Serviteur, de Henri Bachelin, que lança luzes sobre o tema da cabana inscrita na casa: “Eram horas em que com força, juro, eu nos sentia como que eliminados da cidadezinha, da França e do mundo. E eu me enchia de prazer – guardava para mim as minhas sensações – quando nos imaginava vivendo no meio dos bosques numa cabana de carvoeiros bem aquecida: eu gostaria de ter ouvido os lobos aguçarem as unhas no granito sem fim da soleira da nossa porta. Nossa casa fazia para mim as vezes de cabana. Nela eu me sentia seguro contra a fome e contra a sede. Se eu tremia, era só de bem-estar”. E Bachelard comenta: “a cabana, na página de Bachelin, aparece como a raiz que sustenta a função de habitar. Ela é a planta humana mais simples, aquela que não precisa de ramificações para subsistir. É tão simples que não pertence mais às lembranças, às vezes demasiadamente cheias de imagens. Pertence às lendas. É um centro de lendas. Diante de uma luz longínqua, perdida na noite, quem não sonhou com a palhoça, quem não sonhou, mais comprometido ainda com as lendas, com a cabana do eremita? (...) A cabana é uma solidão centrada. (...) Ela tem uma feliz intensidade de pobreza. A cabana do eremita é uma glória da pobreza. De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio”. E, tecendo considerações mais gerais sobre o devaneio e as imagens, acrescenta: “as grandes imagens têm ao mesmo tempo uma história e uma pré-história. São sempre lembrança e lenda ao mesmo tempo. (...) No reino da imaginação absoluta, somos jovens muito tarde. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo verdadeiramente, para vivê-lo na realidade de suas imagens, na sublimação absoluta que transcende qualquer paixão”.
Das análises de Bachelard, é importante retermos cinco pontos fundamentais:
1-) a casa é um ser evocado e sonhado, logo não redutível a uma análise fria e racional;
2-) a casa é o espaço do refúgio, da intimidade e da solidão; do ponto de vista fenomenológico, seu ser é o bem-estar;
3-) todas as casas que habitamos ao longo da vida repercutem a casa natal e é a partir das lembranças oriundas dela que elaboramos a casa sonhada;
4-) A casa é imaginada como um ser vertical;
5-) A casa é imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade.
Os pontos 4 e 5 nos remetem a dois temas que abordamos no primeiro capítulo, quando tratamos da figura de Héstia. Assim, a afirmação de Bachelard de que a casa é um ser vertical, desdobrada na análise que o autor faz do sótão e do porão, corresponde, em certo sentido, ao que Jean Pierre Vernant chamou de “caráter fundamental de ambigüidade” presente na figura de Héstia. Essa divindade, ao mesmo tempo em que permanece fixa e imóvel sobre a superfície terrestre, no centro da casa (ponto 5), atua também como o “o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”, de um lado ligando a casa com as potências subterrâneas e “enraizando a casa no mundo” e de outro, fazendo com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos, na forma da fumaça que sai da lareira (ponto 4). Sótão e porão, Olimpo e deuses ctônicos – a associação entre esses dois grupos de imagens, tiradas da mitologia grega e do que poderíamos chamar de uma filosofia da imaginação, nos leva a caracterizar a casa ao mesmo tempo como o refúgio, abrigo isolado que protege a solidão e o repouso, que confere um centro à existência humana e como o local privilegiado que une a superfície terrestre tanto ao mundo das profundezas subterrâneas, quanto ao mundo celestial, morada dos deuses. Não seria nenhum absurdo afirmar que a casa é dotada de um id e de um ego, assim como os seres humanos.
DA FUNÇÃO DE HABITAR - IV
IV
O capítulo seguinte do livro de Bachelard, “Casa e Universo” tem como propósito fundamental “ler” alguns quartos e casas escritos por grandes autores da literatura universal, embora também dê continuidade ao estudo de alguns dos temas presentes no capítulo anterior.
Num dado trecho, o autor retoma a discussão da adequação de uma abordagem racional para se apreender a casa e relaciona as dimensões humanas às formas da casa: “com efeito, a casa é, à primeira vista, um objeto que possui uma geometria rígida. Somos tentados a analisá-la racionalmente. Sua realidade primeira é visível e tangível. É feita de sólidos bem talhados, de vigas bem encaixadas. A linha reta é dominante. O fio de prumo deixa-lhe a marca de sua sabedoria, de seu equilíbrio. Tal objeto geométrico deveria resistir a metáforas que acolhem o corpo humano, a alma humana. Mas a transposição ao humano se faz imediatamente, desde que se tome a casa como um espaço de conforto e intimidade, como um espaço que deve condensar e defender a intimidade. Abre-se então, fora de toda racionalidade, o campo do onirismo”.
A problemática da dialética entre o castelo e a cabana é retomada na seqüência: “George Sand diz que se podem classificar os homens segundo queiram viver numa choupana ou num palácio. Mas a questão é mais complexa: quem tem um palácio sonha com uma choupana, quem tem uma choupana sonha com um palácio. Melhor, cada um de nós tem suas horas de choupana e suas horas de palácio. Descemos para morar perto da terra, sobre o solo da choupana e depois, em alguns castelos da Espanha, desejaríamos dominar o horizonte. E, quando a leitura nos deu tantos lugares habitados, sabemos fazer ecoar em nós a dialética da choupana e do castelo”.
Na continuação, Gaston Bachelard fala a respeito dos “devaneios que acompanham a ação de governar a casa”. “Assim, quando um poeta limpa um móvel, quando põe um paninho de lã, que esquenta tudo que toca, um pouco de cera aromática em sua mesa, cria um objeto novo, aumenta a dignidade humana de um objeto, inscreve o objeto no estado civil da casa humana. (...) Os objetos assim acariciados nascem realmente de uma luz íntima; chegam a um nível de realidade mais elevado que os objetos indiferentes, que os objetos definidos pela realidade geométrica. Propagam uma nova realidade do ser. Tomam lugar não só numa ordem, mas numa comunhão de ordens. (...) Se vamos até o limite em que o sonho se exagera, sentimos uma espécie de consciência de construir a casa nos cuidados que temos em mantê-la em vida, em dar-lhe toda a claridade do ser. Parece que a casa luminosa de cuidados é reconstituída pelo seu interior, que é nova pelo interior”. E o autor evoca algumas passagens de Rilke que dizem respeito aos pequenos atos de limpar, conservar e arrumar a casa, se detendo longamente nas sugestões e devaneios suscitados por tal matéria. “Chegamos aqui ao paradoxo que tem o começo de uma ação muito costumeira. Pelos cuidados com a casa, é dada a casa não tanto a sua originalidade, mas sua origem. Ah, que vida longa se, na casa, cada manhã, todos os objetos pudessem ser refeitos por nossas próprias mãos, “sair” de nossas mãos!”.
Finalizando esse capítulo, Bachelard nos conta algo a respeito dos desenhos de casa feitos por crianças: “toda grande imagem é reveladora de um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é um “estado de alma”. Mesmo reproduzida em seu aspecto exterior, fala de uma intimidade. Psicólogos, em particular Françoise Minkowska, e os trabalhadores que ela soube treinar, estudaram os desenhos de casa feitos por crianças. (...) Quando a casa é feliz, a fumaça alegre paira docemente sobre o telhado. Se a criança é infeliz, a casa traz a marca das angústias do desenhista. Françoise Minkowska expôs uma coleção particularmente comovente de desenhos de crianças polonesas ou judias que sofreram as sevícias da ocupação alemã durante a última guerra. A criança que viveu escondida, ao menor grito de alerta, num armário, desenha por muito tempo depois das horas malditas casas estreitas, frias e fechadas. (...) É medindo essas sutilezas que nos transformamos, como Françoise Minkowska, em psicólogo da casa”.
Esse último parágrafo é especialmente importante, pois nos mostra a grande importância que a casa e tudo o que a ela se relaciona têm para a psicologia humana. As lembranças, representações, evocações, devaneios, projetos, sonhos e recordações ligados a casa constituem o que Bachelard chama de um “corpo de sonhos” e não há exagero nenhum em afirmar, como ele o faz, que sem a casa o homem seria “um ser disperso”. O poder de concentração e a noção de centralidade conferidos pela existência da casa na vida de todos nós, garantem que nosso ser permaneça íntegro e em harmonia com o cosmos, mesmo em meio às tempestades e catástrofes que ameaçam o processo de individuação e a própria existência. Mais do que isso: como afirmamos no prólogo, a casa pode ser imaginada como um duplo do homem, na medida em que, pela sua própria conformação e organização, é capaz de dizer algo sobre nós mesmos que jamais tomaríamos conhecimento de outra forma. Encontrar correspondências entre determinados lugares privilegiados da casa e elementos da nossa constituição psíquica, como fazem Bachelard e C. G. Jung ao comparar o sótão ao ego e o porão ao id, não é somente elaborar uma metáfora ou um modelo para se compreender a mente humana. Assim, podemos dizer que ao vasculhar os confins da mente humana, lá encontraremos imagens provenientes da casa, da mesma maneira que quando nos debruçamos sobre a casa, nos deparamos com elementos da mente humana. São grandezas intercambiáveis.
O capítulo seguinte do livro de Bachelard, “Casa e Universo” tem como propósito fundamental “ler” alguns quartos e casas escritos por grandes autores da literatura universal, embora também dê continuidade ao estudo de alguns dos temas presentes no capítulo anterior.
Num dado trecho, o autor retoma a discussão da adequação de uma abordagem racional para se apreender a casa e relaciona as dimensões humanas às formas da casa: “com efeito, a casa é, à primeira vista, um objeto que possui uma geometria rígida. Somos tentados a analisá-la racionalmente. Sua realidade primeira é visível e tangível. É feita de sólidos bem talhados, de vigas bem encaixadas. A linha reta é dominante. O fio de prumo deixa-lhe a marca de sua sabedoria, de seu equilíbrio. Tal objeto geométrico deveria resistir a metáforas que acolhem o corpo humano, a alma humana. Mas a transposição ao humano se faz imediatamente, desde que se tome a casa como um espaço de conforto e intimidade, como um espaço que deve condensar e defender a intimidade. Abre-se então, fora de toda racionalidade, o campo do onirismo”.
A problemática da dialética entre o castelo e a cabana é retomada na seqüência: “George Sand diz que se podem classificar os homens segundo queiram viver numa choupana ou num palácio. Mas a questão é mais complexa: quem tem um palácio sonha com uma choupana, quem tem uma choupana sonha com um palácio. Melhor, cada um de nós tem suas horas de choupana e suas horas de palácio. Descemos para morar perto da terra, sobre o solo da choupana e depois, em alguns castelos da Espanha, desejaríamos dominar o horizonte. E, quando a leitura nos deu tantos lugares habitados, sabemos fazer ecoar em nós a dialética da choupana e do castelo”.
Na continuação, Gaston Bachelard fala a respeito dos “devaneios que acompanham a ação de governar a casa”. “Assim, quando um poeta limpa um móvel, quando põe um paninho de lã, que esquenta tudo que toca, um pouco de cera aromática em sua mesa, cria um objeto novo, aumenta a dignidade humana de um objeto, inscreve o objeto no estado civil da casa humana. (...) Os objetos assim acariciados nascem realmente de uma luz íntima; chegam a um nível de realidade mais elevado que os objetos indiferentes, que os objetos definidos pela realidade geométrica. Propagam uma nova realidade do ser. Tomam lugar não só numa ordem, mas numa comunhão de ordens. (...) Se vamos até o limite em que o sonho se exagera, sentimos uma espécie de consciência de construir a casa nos cuidados que temos em mantê-la em vida, em dar-lhe toda a claridade do ser. Parece que a casa luminosa de cuidados é reconstituída pelo seu interior, que é nova pelo interior”. E o autor evoca algumas passagens de Rilke que dizem respeito aos pequenos atos de limpar, conservar e arrumar a casa, se detendo longamente nas sugestões e devaneios suscitados por tal matéria. “Chegamos aqui ao paradoxo que tem o começo de uma ação muito costumeira. Pelos cuidados com a casa, é dada a casa não tanto a sua originalidade, mas sua origem. Ah, que vida longa se, na casa, cada manhã, todos os objetos pudessem ser refeitos por nossas próprias mãos, “sair” de nossas mãos!”.
Finalizando esse capítulo, Bachelard nos conta algo a respeito dos desenhos de casa feitos por crianças: “toda grande imagem é reveladora de um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é um “estado de alma”. Mesmo reproduzida em seu aspecto exterior, fala de uma intimidade. Psicólogos, em particular Françoise Minkowska, e os trabalhadores que ela soube treinar, estudaram os desenhos de casa feitos por crianças. (...) Quando a casa é feliz, a fumaça alegre paira docemente sobre o telhado. Se a criança é infeliz, a casa traz a marca das angústias do desenhista. Françoise Minkowska expôs uma coleção particularmente comovente de desenhos de crianças polonesas ou judias que sofreram as sevícias da ocupação alemã durante a última guerra. A criança que viveu escondida, ao menor grito de alerta, num armário, desenha por muito tempo depois das horas malditas casas estreitas, frias e fechadas. (...) É medindo essas sutilezas que nos transformamos, como Françoise Minkowska, em psicólogo da casa”.
Esse último parágrafo é especialmente importante, pois nos mostra a grande importância que a casa e tudo o que a ela se relaciona têm para a psicologia humana. As lembranças, representações, evocações, devaneios, projetos, sonhos e recordações ligados a casa constituem o que Bachelard chama de um “corpo de sonhos” e não há exagero nenhum em afirmar, como ele o faz, que sem a casa o homem seria “um ser disperso”. O poder de concentração e a noção de centralidade conferidos pela existência da casa na vida de todos nós, garantem que nosso ser permaneça íntegro e em harmonia com o cosmos, mesmo em meio às tempestades e catástrofes que ameaçam o processo de individuação e a própria existência. Mais do que isso: como afirmamos no prólogo, a casa pode ser imaginada como um duplo do homem, na medida em que, pela sua própria conformação e organização, é capaz de dizer algo sobre nós mesmos que jamais tomaríamos conhecimento de outra forma. Encontrar correspondências entre determinados lugares privilegiados da casa e elementos da nossa constituição psíquica, como fazem Bachelard e C. G. Jung ao comparar o sótão ao ego e o porão ao id, não é somente elaborar uma metáfora ou um modelo para se compreender a mente humana. Assim, podemos dizer que ao vasculhar os confins da mente humana, lá encontraremos imagens provenientes da casa, da mesma maneira que quando nos debruçamos sobre a casa, nos deparamos com elementos da mente humana. São grandezas intercambiáveis.
DA FUNÇÃO DE HABITAR - EPÍLOGO
EPÍLOGO
Numa das passagens do ensaio de Bachelard, o filósofo afirma que o surgimento das grandes metrópoles acarretou um decréscimo dos valores de intimidade. Retomemos o trecho, que trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. Em caixas superpostas vivem os habitantes da grande cidade: “Nosso quarto parisiense”, diz Paul Claudel, “entre suas quatro paredes, é uma espécie de lugar geométrico, um buraco convencional que mobiliamos com imagens, com bibelôs e armários dentro de um armário”. O número da rua, o algarismo do andar, fixam a localização de nosso “buraco convencional”, mas nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. “Sobre o solo, as casas se fixam com o asfalto para não afundarem na terra”. A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. Da calçada até o teto, os cômodos se acumulam e a tenda de um céu sem horizontes encerra a cidade inteira. Os edifícios só têm na cidade uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já quase não há mérito em morar perto do céu. E o em nossa casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta aos diferentes cômodos um abrigo num canto do andar, um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores de intimidade. À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.
Diante dos obstáculos enumerados por Bachelard, coloca-se a questão: como estabelecer e criar espaços de intimidade numa metrópole? Será que seremos obrigados a recorrer aos livros e ao pouco que restou das residências do passado e da zona rural para empreender nossos devaneios e sonhos da casa? Sabemos que a exigüidade de espaços para grandes construções e o alto valor dos terrenos nas grandes cidades inviabilizariam qualquer tentativa de retorno à arquitetura de casas com porão, sótão, quintal, jardim, escadarias e longos corredores. E ainda mais preocupante do que isso: nos dias de hoje o espaço da intimidade se vê cada vez mais invadido por aparelhos e tecnologias que prometem trazer o mundo para dentro de casa, como o rádio, o jornal, a televisão e a internet. É comum as pessoas realizarem suas refeições diante da TV e a decadência da instituição familiar pode ser auferida a partir de qualquer estatística que mostre o crescimento vertiginoso do número de divórcios. O panorama, para os defensores do valor dos espaços de intimidade, é definitivamente desalentador.
Mas existe uma outra face dessa questão. Parece consenso entre uma corrente de sociólogos que o tempo gasto pelos seres humanos com atividades relacionadas ao trabalho tende a diminuir no futuro – o que implicaria num acréscimo de tempo dedicado a atividades de construção dos espaços de intimidade. Outro fenômeno bastante atual é o loft: trata-se de uma edificação que conjuga o espaço doméstico ao espaço de trabalho, o que evita o desgaste causado pelos longos deslocamentos automobilísticos tão comuns nas metrópoles. O conceito de loft surgiu nos Estados Unidos, quando alguns artistas optaram por alugar antigos galpões para transformá-los em moradias e ateliês. Não que o loft seja um caminho para se retomar os valores perdidos dos antigos espaços de intimidade: pelo contrário, o que seu conceito propõe é uma reavaliação da idéia de intimidade levando em conta parâmetros dos dias de hoje.
E se durante o século XX vimos os chamados eletrodomésticos tomarem conta das habitações, povoando-as de máquinas, luzes, fios, plástico e metal, hoje já se nota a preferência de boa parte dos consumidores por objetos que carreguem em si marcas humanizadoras, dotados da aura e da beleza que falta inteiramente aos utensílios high-tech. E certamente povoar nossa casa com objetos mais humanos é uma forma de erigir nosso espaço de intimidade como uma barreira frente à onipresença das máquinas que ameaçam nos transformar em coisas e dos noticiários e estatísticas que nos reduzem a números e casos particulares. Acreditamos que cada ser humano é único e insubstituível: assim devem ser também nossas casas e os objetos que a povoam, seja no nosso dia-a-dia, em nossos devaneios ou em nossos sonhos.
Numa das passagens do ensaio de Bachelard, o filósofo afirma que o surgimento das grandes metrópoles acarretou um decréscimo dos valores de intimidade. Retomemos o trecho, que trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. Em caixas superpostas vivem os habitantes da grande cidade: “Nosso quarto parisiense”, diz Paul Claudel, “entre suas quatro paredes, é uma espécie de lugar geométrico, um buraco convencional que mobiliamos com imagens, com bibelôs e armários dentro de um armário”. O número da rua, o algarismo do andar, fixam a localização de nosso “buraco convencional”, mas nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. “Sobre o solo, as casas se fixam com o asfalto para não afundarem na terra”. A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. Da calçada até o teto, os cômodos se acumulam e a tenda de um céu sem horizontes encerra a cidade inteira. Os edifícios só têm na cidade uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já quase não há mérito em morar perto do céu. E o em nossa casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta aos diferentes cômodos um abrigo num canto do andar, um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores de intimidade. À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.
Diante dos obstáculos enumerados por Bachelard, coloca-se a questão: como estabelecer e criar espaços de intimidade numa metrópole? Será que seremos obrigados a recorrer aos livros e ao pouco que restou das residências do passado e da zona rural para empreender nossos devaneios e sonhos da casa? Sabemos que a exigüidade de espaços para grandes construções e o alto valor dos terrenos nas grandes cidades inviabilizariam qualquer tentativa de retorno à arquitetura de casas com porão, sótão, quintal, jardim, escadarias e longos corredores. E ainda mais preocupante do que isso: nos dias de hoje o espaço da intimidade se vê cada vez mais invadido por aparelhos e tecnologias que prometem trazer o mundo para dentro de casa, como o rádio, o jornal, a televisão e a internet. É comum as pessoas realizarem suas refeições diante da TV e a decadência da instituição familiar pode ser auferida a partir de qualquer estatística que mostre o crescimento vertiginoso do número de divórcios. O panorama, para os defensores do valor dos espaços de intimidade, é definitivamente desalentador.
Mas existe uma outra face dessa questão. Parece consenso entre uma corrente de sociólogos que o tempo gasto pelos seres humanos com atividades relacionadas ao trabalho tende a diminuir no futuro – o que implicaria num acréscimo de tempo dedicado a atividades de construção dos espaços de intimidade. Outro fenômeno bastante atual é o loft: trata-se de uma edificação que conjuga o espaço doméstico ao espaço de trabalho, o que evita o desgaste causado pelos longos deslocamentos automobilísticos tão comuns nas metrópoles. O conceito de loft surgiu nos Estados Unidos, quando alguns artistas optaram por alugar antigos galpões para transformá-los em moradias e ateliês. Não que o loft seja um caminho para se retomar os valores perdidos dos antigos espaços de intimidade: pelo contrário, o que seu conceito propõe é uma reavaliação da idéia de intimidade levando em conta parâmetros dos dias de hoje.
E se durante o século XX vimos os chamados eletrodomésticos tomarem conta das habitações, povoando-as de máquinas, luzes, fios, plástico e metal, hoje já se nota a preferência de boa parte dos consumidores por objetos que carreguem em si marcas humanizadoras, dotados da aura e da beleza que falta inteiramente aos utensílios high-tech. E certamente povoar nossa casa com objetos mais humanos é uma forma de erigir nosso espaço de intimidade como uma barreira frente à onipresença das máquinas que ameaçam nos transformar em coisas e dos noticiários e estatísticas que nos reduzem a números e casos particulares. Acreditamos que cada ser humano é único e insubstituível: assim devem ser também nossas casas e os objetos que a povoam, seja no nosso dia-a-dia, em nossos devaneios ou em nossos sonhos.
Assinar:
Postagens (Atom)