literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
segunda-feira, julho 10, 2006
Nunca Um Dia Nasceu Tão Belo Em São Paulo
A conclusão é que temos cara de mau. Expulsos do bar, barrados na festa, excluídos do fuzuê da high-society, só o que nos restava mesmo era aquele mesmo abrigo entre os jovens bêbados num cômodo enfumaçado, em pé e sem direito a sentar, naquele velho imóvel com leâo-de-chácara à porta na Rua Augusta. Mas nem assim nada nos desgusta ou desgosta: na minha língua de atleta somente o gosto da sua suave boca, que é a mesma e é a outra, misturadas entre o vão e a parede. Dessa vez D.J. acertou ao mandar uma sequência eletronificada para bem viajar: estávamos e não estávamos, ali e mais além, eu não sou eu nem sou o outro. Sherazade e água-viva, corpo com corpo em ritual de transfusão almada, viagem acelarada ao ritmo insano do desejo. Era chão e era parede, espuma anti-ruído escorando as costas tuas, perdidas as leis da gravidez e embaralhadas as oito dimensões do espaço. Que nesse espaço entre os inertes passos de mim rumo ao centro já nem tão intangível de você liquidificava tudo na penumbra, vez ou outra fugazmente iluminada pela chama de algum isqueiro aceso pelos zumbis que celebravam em volta alguma coreografia que talvez lembrasse thriller e Michael Jackson. Beijo sem fim. Vagando em grude seu até as cinco da manhã, quando finalmente os mortos embalsamados de cachaça despertaram de seus sofás-tumbas e rumaram em bando incerto até a fila do caixa para pagar suas comandas, o singelo óbulo de Caronte. Naquela altura o sofá parecia uma piscina neón e cristalina, maciez necessária aos corpos que lutaram tanto e que então já podiam se encaixar com perfeita comodidade, como um herói no colo da mãe ao retornar de Tróia. Não fossem os últimos remanescentes das gangues barra-pesada que circulam pelo centro ali em volta da gente (ameaçando atirar pelo ar cadeiras, garrafas, pedaços de madeira, dentes de animais selvagens ou o que mais estivesse ao alcance de sua fúria animal) e tudo seria silêncio com ruídos de beijos. A sobriedade me permitia enxergar o reverso sombrio desses espécimes juvenis em tudo iguais ao mim de outrora. Mas ali eu tinha um escudo, um porto e a minha salvação: amor de menina crescida. Boca, bochecha e o resto de um corpo que eu podia vestir como se fosse o meu. Os últimos cocainômanos atenderam ao chamado do galo e também rumaram para esse sótão onírico às seis horas da manhâ: era hora da gente partir. Dessa vez sem café-da-mahã, muito melhor levar na boca o seu gosto, F. E o dia nasceu de sol azul, feliz por causa da gente. O mundo inteiro acordou sem inveja enquanto, cheio de poesia, eu adormecia outra vez pensando na maravilha que é compartilhar pedações da minha vida com, para e por você. Nasceu paixão, de parto normal, três quilos e quatrocentas gramas e uma vontade irresistível de morrer e renascer a cada minuto em seu ventre esplêndido, oh flor das madrugadas. Aventuras assim, dessas que só acontecem comigo e com você, F.
quinta-feira, julho 06, 2006
uma casa muito engraçada
“Você sempre surge em minha mente
Sempre você e ninguém mais”
- Wander Wildner
Vamos inventar um lugar. Feito de música, de cor, de fumaça cheirosa, de parede pintada, de almofada no chão, de tapete felpudo pra gente rolar em cima. Um lugar cheio de amigos, eletricidade pingando das tomadas, espelhos antigos, flores escuras e narcisos. Onde se possa simplesmente pegar um livro qualquer na estante de mármore e começar a recitar uma poesia pornográfica pela janela como quem estoura um rojão em dia de jogo do Brasil. Um lugar cheio de gatos vira-latas. Com vizinhos libertários e a rua Augusta passando no meio da sala. Que o chão seja de areia, mas que essa areia venha dos cinco continentes e se misture com a água do mar que na maré cheia encharca o batente da porta. Uma casa com uma televisão quebrada: Buda e Krishna convivendo lado a lado em cima da geladeira. A ordem de cada dia será: amor amor amor. Ninfas e faunos fazem mitologia ao vivo sobre a cama. Dionisio: nosso dj particular e jardineiro do absoluto. E que a casa seja um mundo, seja um templo, seja de planta e aberta para quase todo mundo.
Sempre você e ninguém mais”
- Wander Wildner
Vamos inventar um lugar. Feito de música, de cor, de fumaça cheirosa, de parede pintada, de almofada no chão, de tapete felpudo pra gente rolar em cima. Um lugar cheio de amigos, eletricidade pingando das tomadas, espelhos antigos, flores escuras e narcisos. Onde se possa simplesmente pegar um livro qualquer na estante de mármore e começar a recitar uma poesia pornográfica pela janela como quem estoura um rojão em dia de jogo do Brasil. Um lugar cheio de gatos vira-latas. Com vizinhos libertários e a rua Augusta passando no meio da sala. Que o chão seja de areia, mas que essa areia venha dos cinco continentes e se misture com a água do mar que na maré cheia encharca o batente da porta. Uma casa com uma televisão quebrada: Buda e Krishna convivendo lado a lado em cima da geladeira. A ordem de cada dia será: amor amor amor. Ninfas e faunos fazem mitologia ao vivo sobre a cama. Dionisio: nosso dj particular e jardineiro do absoluto. E que a casa seja um mundo, seja um templo, seja de planta e aberta para quase todo mundo.
segunda-feira, julho 03, 2006
Um Sonho
No meu sonho o objetivo era voltar pra casa. Me encontrava do outro lado do rio (um rio Pinheiros de água e sonho), daquele outro lado onde estão guardadas as lembranças todas da infância perdida e dos anos de aprendizados incompletos no monastério do saber. Além de mim, um casal de amigos (o rapaz é cabeludo) me acompanhava na jornada, porém nenhum de nós possuía automóvel, o que impossibilitava o uso da avenida marginal, já que fatalmente seríamos atropelados caso tentássemos transitar por onde não havia acostamento nem calçada, como de fato é a pista ali pela região do Jóquei Clube. Assim, precisávamos inventar um outro e novo caminho, trilhando nosso trajeto pelas pedras e pela mata que ainda cobriam aquela região da São Paulo do sonho. A primeira parte da aventura transcorreu sem maiores sobressaltos, porém ao aproximarmo-nos da ponte que daria acesso ao outro lado do rio, o caminho se tornava impossível. Subi na frente dos outros uma grande parede de pedra que terminava num abismo íngreme, pois de lá podia-se observar todo o entorno para melhor avaliar as possibilidades de continuidade da empreitada. Do lado esquerdo havia água e mais além somente mata fechada. Um dos meus companheiros tentou entrar na água para testar se dava pé, porém constatou que era funda, como o poço de uma cachoeira. Para meu desespero, minha amiga que chegava ao local onde estávamos não sabia dessa informação e caiu com tudo dentro desse poço, mergulhando em pé e de uma vez só. Não a vi emergir novamente, mas sei que ela não morreu afogada. Sentei sobre uma pedra grande, porém a mesma estava solta e rolou na direção de um de meus amigos que se encontrava logo abaixo de mim. Tentei avisá-lo, mas a comunicação não chegou a tempo e a pedra passou por cima da cabeça dele. Felizmente, não morreu nem se feriu. Depois sentei sobre uma pedra menor, a qual também estava solta e rolou perigosamente sobre a minha gatinha branca de estimação, Molly. A pedra chegou a curvar sua frágil coluna vertebral e encobrir o felino por inteiro. Temi por ela e já entrava em desespero, quando percebi que ela também sobrevivera ao acidente sem maiores danos e que sua coluna vertebral podia facilmente voltar a posição original, como se fosse um elástico. Naquele ponto, decidi que eu deveria tentar descer a escarpa sozinho e deixei minha mochila com meus companheiros. A descida nem era assim tão perigosa quanto eu imaginava, porém exigia cuidados. Continuei pelo caminho e notei que do outro lado da avenida marginal, entre a via e o rio, pessoas bem vestidas realizavam importantes trabalhos junto com mendigos e catadores de papelão que ali habitavam e que todos estavam felizes e entusiasmados com a empreitada solidária. A sensação que me veio foi de que não se tratava de um mero trabalho assistencialista e interessado, mas que as pessoas estavam realmente envolvidas com a coisa e trocando experiências valiosíssimas. Me deu vontade de ir até lá e participar, porém era impossível atravessar a avenida. Continuei e cheguei até a ponte, porém ali também era impossível continuar, pois o terreno era acidentado e havia uma pedra muito grande obstruindo a passagem dos pedestres. Nesse momento, meu telefone celular tocou e era minha avó materna. Ela então passou a enumerar todos os meus erros, segredos, mentiras e tramóias cometidas desde o fim da minha adolescência, como se minha máscara tivesse caído toda de uma vez só e ela pudesse me ver tal qual eu sou. Eu tentava me justificar desesperadamente, relatando todas as iniciativas que eu venho tomando recentemente para corrigir o curso da minha vida, porém nada parecia acalmá-la. Me senti completamente desamparado e comecei a voltar para trás, em busca da minha mochila e de meus companheiros, porém sem o mesmo entusiasmo de antes, sem a confiança que eu tinha de que conseguiríamos encontrar o caminho de casa. Nesse caminho de volta, optei por seguir pela mata e notei um grupo de homens primitivos, cabeludos e sem camisa do meu lado esquerdo, numa clareira. A primeira impressão que eu tive foi a de que se tratavam de hippies (alguns tinham mostruários de pano toscos com anéis, colares e bijuterias) e logo me vi no meio deles, tentando entender o que faziam ali, pois alguns deles dançavam e entoavam cânticos misteriosos em alguma linguagem estranha. Porém, pareceu que eles nem deram pela minha presença e todas as tentativas que eu fiz para estabelecer comunicação foram inúteis. Resignado, prossegui até a alta parede de pedra onde estavam meus companheiros e pedi que jogassem minha mochila. Eu me sentia confuso e sabia que já não podia mais liderar aquele grupo. Vesti a mochila, desliguei o telefone celular e acordei.
Café com Angústia
Carrego um pequeno recipiente de plástico, com formato de garrafa de água mineral. A transparência do líquido que está contido não é capaz de disfarçar o peso do objeto, que olhado contra a luz possui certos tons azulados. É no peito que as angústias humanas habitam? Nessas horas de crise, sinto angústia escorrer por cada fibra, pedaço de mim, pele ou tecido que sou eu. Tenho amigos, música agradável, ambiente à meia-luz, a mulher que eu quero próxima, entorpecentes à vontade, travesseiros e almofadas. Tenho o emprego e o título do consórcio, todos os certificados e papéis que passaportam um ser humano para a ilha felicidade. Tenho, possuo, acumulo e me orgulho. Mas não enlaço, não abraço, não desfaço os nós e o script de um destino que era meu já não me flui, estanca e atravanca. O líquido espesso transborda da garrafa e os olhos não estão mais secos. Sofro por ser e estar e habitar. E a angústia que me toma faz o veludo da cortina se fechar e eu sonhar com a sensação de morrer. Mas existe um você. Remédio mesmo seria viver de te amar, F.
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