Ao redor do fogo, cercado por paredes, coberto por um teto: o lar. Verdadeiro refúgio num mundo hostil, garantia de que todas as ameaças permaneçam trancadas para o lado de fora – nos primórdios eram os animais selvagens e as catástrofes da natureza, hoje são os outros homens, o barulho da cidade, os automóveis. Habitar um lar é dotá-lo de personalidade, fazer de uma casa qualquer a sua casa específica, dar cara e voz para os objetos inanimados e para os cantos e espaços mais escondidos. Habitar é preencher. Povoar a casa com meus objetos: essa minha vida que cabe nessas tantas caixas de papelão. Objetos que também contam a minha história da mesma forma que a soma de todas as casas que morei: são presentes, achados e escolhas que semeiam lembranças de tudo aquilo que eu fui e que vim a me tornar.
Me deito sobre o chão e sinto que esses objetos querem me dizer algo. Essa mesa grande e antiga que passou por outras tantas casas e absorveu de cada pessoa que um dia se sentou ao seu redor (para comer, escrever ou jogar cartas) alguma coisa de indefinível, mas palpável. Essa mesa que me olha com autoridade e parece querer me dizer que é capaz de resistir e durar muito mais do que esses frágeis e apressados humanos que se servem dela sem lhe render as devidas homenagens. No máximo um banho de lustra-móveis uma vez por semana. Me aproximo e a toco, observo detalhes na madeira que nunca tinha visto, a olho de baixo, subo e me deito sobre ela: a mesa. Dialogo com ela, pergunto sobre seu passado de árvore, os tempos de madeireira, de vitrine de loja, quero saber das crianças que desenhavam e dos objetos que com ela conviveram mais intimamente. Será o verniz que te faz tão macia? Ou a velhice que te deixou tão rígida? Encosto meu rosto sobre o tampo e apalpo com meus dedos os caminhos abertos pelos nós da madeira. Logo mais ela se cala, estática e ereta.
No canto da sala, o pobre criado-mudo – em cima dele o abajur. Na parede, os quadros abstratos não me mostram paisagens. Uma mulher esteve aqui. Sobre a mesinha repousam estatuetas, máscaras, castiçais, flores, pequenos animais de vidro, um incenso apagado, representações vulgares de deuses hindus. Dois sofás dispostos em L, no centro um tapete e sobre o tapete um pufe. Mais além o aparelho de som, o dvd, a televisão – encaixados e dispostos de um jeito que destoa do restante do aposento. Não sou de vasculhar gavetas. Gosto da cor e do tecido das cortinas, do porta-chaves pregado na parede e do capacho escrito “bem-vindo”. No mais são só almofadas, de diversas cores, formatos e tamanhos.
Me aquieto e fico a escutar a sala. Habitar é usar – pensar e conversar podem nos levar longe demais. A garantia de intimidade e conforto vem do domínio dessa linguagem silenciosa e oblíqua que não pára nem diz, simplesmente faz. Me recuso a evocar lembranças, desisti de saber de mim pelos outros – quero me apegar aos cheiros, as formas, as cores, as marcas do tempo e do desgaste engastados nessas coisas que me cercam num afago familiar, mas não dramático. Os objetos ao meu redor desconhecem a precariedade do universo humano feito de maquiagem e teatro. Existem, são úteis na medida do possível e isso basta.
Sou feito de recortes e retalhos. Das coisas que compro, das coisas que escolho, das coisas que guardo com carinho e só mostro pra pessoas especiais em ocasiões de gala. Receber alguém em casa é como se despir: mostramos partes de nós mesmos que ficam ocultas para o mundo. É preciso saber receber presentes, saber dispor os objetos com proporção e método, de modo que eles sejam fiéis à anatomia do meu espírito e digam algo de novo para as pessoas. Que os pobres objetos sussurrem para quem ousar profanar meu recinto sagrado: EU ESTOU AQUI EM TODAS AS PARTES.
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
terça-feira, junho 28, 2005
sexta-feira, junho 10, 2005
NOVIDADES
Gilberto esqueceu de acordar de manhã. Maria Cláudia sabia de tudo desde o começo, mas preferiu omitir certas passagens picantes da narrativa para não molestar a saúde frágil do velho patriarca. Luis Flávio comprou um par de algemas, duas caixas de calcinhas comestíveis, um pote de cinco litros de gel ky, inúmeras camisinhas com sabores sortidos de frutas e um par de óculos com lentes cor-de-rosa. Samara percorreu setenta e dois quilômetros montada no lombo de um jumento só para ser a primeira a chegar à grande liquidação de queima de estoques das casas afonso josé. Quinze manifestantes palestinos foram presos quando faziam algazarra e guerra de comida dentro da praça de alimentação de um shopping center de São Paulo. O avô da senhorita Cathy teve alta do pronto-socorro após engolir um coelho vivo. Maria Cláudia não está, pois foi fazer depilação com cera quente e tratar da cutícula infeccionada. Leonardo Braga arrematou uma cobertura com heliponto nos jardins após fazer um lance que deixou todos na sala de leilão boquiabertos: quatrocentos e vinte e sete milhões trezentos e vinte e dois mil e quarenta e sete reais à vista. E quinze centavos, fora a caixinha. Um amigo meu que mora na Bahia perdeu as chaves do apartamento e teve que dormir na casinha do cachorro. A Coréia do Norte foi parar no meio do oceano índico após uma revisão nos atlas da sociedade britânica de geografia política e terrorismo. A literatura universal completou ontem seis mil, oitocentos e vinte e três anos de idade em grande estilo, numa festança que se estendeu madrugada a dentro e reuniu a nata da marginalidade suburbana numa casa de massagens na rua augusta, esquina com a )...(. Maria Cláudia arremessou o telefone celular no vaso sanitário após uma crise de histeria. Gilberto se esqueceu dos compromissos do período vespertino e preferiu continuar a dormir.
A INTRÉPIDA FAMÍLIA
A família toda reunida para o jantar, coisa que não acontecia desde o enterro de tia Ildegarda e acho que isso foi em 91, se não me engano. A mais velha das filhas, Elizabete, foi morar nos Estados Unidos e era a primeira vez que voltava para o Brasil – pelo menos era o que o pai pensava – e o Joca, sobrinho da Rute, dava risadinhas para o primo quando a Bete se punha a falar daquele jeito engraçado, com um sotaque esquisito, puxando todos os erres e colocando as palavras mais estranhas no meio das frases mais triviais:
- Como é mesmo que chama aquele negócio que a gente põe no coffe pra ficar doce?
O cachorro não dava sossego para a avó, se esfregando pelas pernas dela com o rabo como se fosse um gatinho siamês. O tio Wilson, como sempre, implicava com a televisão e dizia todo bravinho que não tinha cabimento todos desperdiçarem a primeira (e talvez a última) oportunidade de se encontrarem depois de quase vinte anos assistindo essas porcarias de programas de auditório. A avó não escutava, mas Rute respondia que ele era um exagerado, ora essa, afinal não tinha nada demais e ajudava a distrair as crianças e além do mais daqui a pouco ia começar o seriado que a avó gostava de assistir, aquele com o homem que tinha uma capa azul e uma mulher que ficava invisível. E a mãe logo vinha correndo lá do fogão com o avental todo desbotado, empunhando uma escumadeira e querendo apartar toda e qualquer rusga que pudesse comprometer o sucesso daquele almoço, que um dia antes ela qualificara com o adjetivo de histórico. Mas no que ela virava as costas, as piadinhas todas voltavam.
Rubens lia o jornal e fazia caretas para as notícias de economia, as crianças corriam atrás do cachorro tentando grudar um pedaço de fita crepe no rabo dele e o pai fumava cachimbo e tentava atrair a atenção do tio Wilson com comentários sobre a última rodada do futebol. O marido da Rute quis se meter no meio deles, mas o pai não levava minimamente a sério suas opiniões – o marido da Rute era palmeirense roxo e não tinha nenhum interlocutor para assuntos futebolísticos naquela sala de jantar que parecia pequena demais pra tanta gente ali naquele momento. Os homens se serviram de um aperitivo: vodca sem limão e uns canapezinhos para beliscar enquanto a comida não saía. O Joca-sobrinho-da-Rute reclamava para todas as mulheres da sala que estava com fome, mas não tinha coragem de ir até a cozinha e expor seu drama diretamente à mãe. Ninguém tinha pena dele e depois de insistir (mas nem tanto assim) desistiu e foi olhar a sessão de quadrinhos do jornal.
Elizabete se queixou do calor. Rubens se queixou do dólar. Tio Wilson reclamou da zaga do Corinthians. A Rute, coitada, teve que repreender o sobrinho duramente em público pela oitava vez em menos de vinte minutos porque ele queria jogar os bibelôs da avó dentro do aquário. O pai não se queixava de nada específico, mas fazia cara feia cada vez que alguém falava alguma coisa sem esperar o consentimento dos olhos e do intelecto privilegiado dele. O primo do Joca queria puxar o pano que cobria a mesa sem derrubar os copos nem os pratos, que nem ele tinha visto num filme na noite anterior. A mãe queimou o dedo de leve na panela de arroz.
E o almoço, enfim, foi servido.
Almoço não: jantar.
Durante a entrada, Elizabete teve um infarto e quatro pessoas se encarregaram de tentar reanima-la e leva-la com vida até o hospital mais próximo, que na realidade ficava bem longe. As crianças, depois de uma meia-hora, foram as primeiras a sentirem os sintomas da intoxicação alimentar. Tio Rubens morreu ali mesmo na rede, cochilando e ninguém nem deu bola até o dia seguinte. A Rute, coitada, pegou uma infecção hospitalar nisso de levar a Elizabete e depois já voltar, pegar as crianças, ir pro hospital de novo, perceber que não tem mais vagas, ir pra outro hospital ainda mais longe, etc. A mãe morreu de desgosto umas poucas horinhas depois e o cachorro fugiu pelo portão da frente, que ficou aberto no meio daquela correria toda. A avó morreu de causas naturais, segundo o relatório do médico legista.
E o pai, verdadeiro herói grego, herdou todos os bens da família: quatro notas promissórias e a conta de tantos caixões, velórios e jazigos.
- Como é mesmo que chama aquele negócio que a gente põe no coffe pra ficar doce?
O cachorro não dava sossego para a avó, se esfregando pelas pernas dela com o rabo como se fosse um gatinho siamês. O tio Wilson, como sempre, implicava com a televisão e dizia todo bravinho que não tinha cabimento todos desperdiçarem a primeira (e talvez a última) oportunidade de se encontrarem depois de quase vinte anos assistindo essas porcarias de programas de auditório. A avó não escutava, mas Rute respondia que ele era um exagerado, ora essa, afinal não tinha nada demais e ajudava a distrair as crianças e além do mais daqui a pouco ia começar o seriado que a avó gostava de assistir, aquele com o homem que tinha uma capa azul e uma mulher que ficava invisível. E a mãe logo vinha correndo lá do fogão com o avental todo desbotado, empunhando uma escumadeira e querendo apartar toda e qualquer rusga que pudesse comprometer o sucesso daquele almoço, que um dia antes ela qualificara com o adjetivo de histórico. Mas no que ela virava as costas, as piadinhas todas voltavam.
Rubens lia o jornal e fazia caretas para as notícias de economia, as crianças corriam atrás do cachorro tentando grudar um pedaço de fita crepe no rabo dele e o pai fumava cachimbo e tentava atrair a atenção do tio Wilson com comentários sobre a última rodada do futebol. O marido da Rute quis se meter no meio deles, mas o pai não levava minimamente a sério suas opiniões – o marido da Rute era palmeirense roxo e não tinha nenhum interlocutor para assuntos futebolísticos naquela sala de jantar que parecia pequena demais pra tanta gente ali naquele momento. Os homens se serviram de um aperitivo: vodca sem limão e uns canapezinhos para beliscar enquanto a comida não saía. O Joca-sobrinho-da-Rute reclamava para todas as mulheres da sala que estava com fome, mas não tinha coragem de ir até a cozinha e expor seu drama diretamente à mãe. Ninguém tinha pena dele e depois de insistir (mas nem tanto assim) desistiu e foi olhar a sessão de quadrinhos do jornal.
Elizabete se queixou do calor. Rubens se queixou do dólar. Tio Wilson reclamou da zaga do Corinthians. A Rute, coitada, teve que repreender o sobrinho duramente em público pela oitava vez em menos de vinte minutos porque ele queria jogar os bibelôs da avó dentro do aquário. O pai não se queixava de nada específico, mas fazia cara feia cada vez que alguém falava alguma coisa sem esperar o consentimento dos olhos e do intelecto privilegiado dele. O primo do Joca queria puxar o pano que cobria a mesa sem derrubar os copos nem os pratos, que nem ele tinha visto num filme na noite anterior. A mãe queimou o dedo de leve na panela de arroz.
E o almoço, enfim, foi servido.
Almoço não: jantar.
Durante a entrada, Elizabete teve um infarto e quatro pessoas se encarregaram de tentar reanima-la e leva-la com vida até o hospital mais próximo, que na realidade ficava bem longe. As crianças, depois de uma meia-hora, foram as primeiras a sentirem os sintomas da intoxicação alimentar. Tio Rubens morreu ali mesmo na rede, cochilando e ninguém nem deu bola até o dia seguinte. A Rute, coitada, pegou uma infecção hospitalar nisso de levar a Elizabete e depois já voltar, pegar as crianças, ir pro hospital de novo, perceber que não tem mais vagas, ir pra outro hospital ainda mais longe, etc. A mãe morreu de desgosto umas poucas horinhas depois e o cachorro fugiu pelo portão da frente, que ficou aberto no meio daquela correria toda. A avó morreu de causas naturais, segundo o relatório do médico legista.
E o pai, verdadeiro herói grego, herdou todos os bens da família: quatro notas promissórias e a conta de tantos caixões, velórios e jazigos.
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