sexta-feira, setembro 30, 2005

segunda-feira, setembro 26, 2005

CEREBRIDADE

Sou avesso ao método:
detesto me compartimentar em rotinas
não sirvo para tomar conta de nada
nem me preocupo comigo mesmo a ponto de.

Sou um artista, logo preciso de um empresário
de uma secretária (bilíngue / gostosa)
que me organize como uma agenda
de alguém que faça minha faxina
preciso de uma musa inspiradora
e é imprescindível que me deixem dormir até mais tarde
e que não me atormentem com assuntos mundanos (leia-se: prosaicos).

Quero ser um artista famoso, dos que chocam a burguesia
portanto não vou poder ir ao shopping
e nem fazer as coisas que uma pessoa normal faz
porque um guarda-costas me acompanhará 24 horas por dia
e só circularei pelas ruas a bordo de um carro blindado
ou na pior das hipóteses de um helicóptero com insulfilm
porque atualmente é consenso que artista que se preza vive na ponte aérea LONDRES - SÃO PAULO - LAS VEGAS - CASABLANCA

Mas no ano passado e por enquanto
eu só sei que sou (e sempre serei)
uma estrela do rock n´ roll
ho-ho-ho

Diário sem data - II

A velhice vem vindo e o tesão acabou. Só fui me dar conta de que o saldo de uma adolescência saudável é ter construído uma máscara de personagem de si mesmo tarde demais. Agora já não se pode reconhecer qualquer expressão humana nas rugas precoces que enfeiam a minha face. Cativo em denso casulo, sou insensível a todo e qualquer apelo, do racional ao afetivo. Me esquivo passageiro de ônibus nas multidões de São Paulo e maquino silenciosamente planos de ataques terroristas que matassem motoristas de automóvel. Explodir uma ponte, uma dessa pontes da marginal, quem sabe. A fraqueza me paraliza e o medo me impede de começar o dia. Momentos felizes? Certas noites de orgia, cocaína e bebedeira. Disso eu entendo, entendo tanto que até já enjoei e agora eu queria o controle do meu destino de volta. Sonharam meus sonhos enquanto eu hibernava? Reconheço que em 99% do tempo me faltou força de vontade e amor no coração, mas só agora, depois de velho, é que eu consegui aceitar que o papel que eu vim representar aqui neste planeta não é o de ser um cara bonzinho. Vou dizer e fazer e escrever coisas que incomodam muita gente, mas eu não perco a chance de experimentar uma maneira de pensar o destino e a vida que seja original, transgressiva e perversa. Meu lugar é um pouco para lá da linha que separa as pessoas que se dão bem na vida e se guiam pelo bom senso do resto: os fodidos, bandidos, drogados, loucos e excêntricos. Meu grande defeito até agora foi conspirar em silêncio e acumular toda a energia ruim que eu recolho do mundo no meu corpo, mas agora eu estou finalmente aprendendo a me lavar. Quero me banhar na fonte mais límpida, mergulhar com os peixinhos do rio, secar sob o sol do Equador. Das águas emergiu um homem.

Diário sem data - I

Ainda dessa vez eu tomaria aquele ônibus Jardim Jamorítimo e não eram nem nove e meia da noite, meu corpo cheirava a óleo de cozinha. Celulares tocavam sem parar e meninas que vinham de qualquer periferia atendiam: alô, meu amor, onde cê tá, já tô chegando, tô aqui na faria lima. Eu olhava pela janelinha embaçada de suja aquela paisagem repetida que eu sabia inteirinha de cor: uma vez eu comentei com uma amiga que eu tinha a impressão que se um dia eu virasse por uma outra rua qualquer que saísse do itinerário eu me sentiria completamente desamparado. E naquela hora eu me sentia exatamente assim e minha consciência voava até o dia longínquo e esfumaçado da minha infância em que ainda existia em mim o germe de um ser humano que poderia vingar na vida. Não sei bem quando, mas essa promessa falhou e hoje só recolho cacos e junto objetos miúdos numa caixa como quem acorda de um sonho ruim numa manhã de quinta-feira e se dá conta de que se passaram vinte anos desde a noite em que você foi dormir. E o mais triste é que eu me esqueci como eu sou quando não estou bêbado nem chapado ou a procura de e que jamais terei coragem de mudar minha postura e encontrar qualquer ponto de equilíbrio que me garanta um mínimo de harmonia com as pessoas que estão ao meu redor. Me engano com pequenos prazeres e conversas meramente superficiais, mas em breve nem isso minha saúde frágil me permitirá mais. Sinto lá no fundo uma necessidade palidamente humana de me aproximar e compartilhar minha vida com alguém, mas fraqujo e desconfio de todos. Sou tenso e incapaz de me relacionar afetivamente, portador assumido de neuroses para as quais não vejo possibilidade de solução. Minha doença, dizem, chama-se depressão. Antes de descer deste ônibus eu quero muito me matar.

terça-feira, setembro 20, 2005

O Fazer

Fazer é um verbo coringa. O significado de fazer é qualquer verbo, todos os verbos, tudo aquilo que seja ação, isto é, fazer é uma palavra que descreve todo e qualquer acontecimento, transformação ou abalo que modifique a configuração atual do espaço-tempo. Tanto é assim que em português podemos substituir praticamente qualquer verbo de ação pelo verbo fazer, da seguinte maneira: comprar = fazer compra, caminhar = fazer uma caminhada, telefonar = fazer um telefonema, limpar = fazer uma limpeza, construir = fazer uma construção, etc. Nesse sentido, o fazer pode ser entendido como a expressão verbal de toda ação do sujeito humano sobre o meio e sobre si mesmo. E uma das marcas da ação do sujeito humano sobre o mundo e sobre si mesmo é que, antes de agir, tal sujeito projeta, ou seja, antecipa as conseqüências, obstáculos e custos que a realização da ação acarretará, seja para si mesmo seja para o mundo. Projetar a ação significa pesar de um lado o desejo, ou seja, o fazer configurado enquanto intencionalidade e vontade de consumar a ação, e, de outro, as conseqüências, quer dizer, as re-ações e contra-ações que a ação inicial pode causar no tecido do espaço/tempo e das relações inter-pessoais e que, vez por outra, podem se voltar contra o próprio sujeito ou frustrar as expectativas iniciais. Projetar também implica realizar a melhor escolha possível dos meios, do modo, dos instrumentos empregados, do lugar, da hora, do ritmo e da intensidade, visando à exeqüibilidade e a maior margem de probabilidade de sucesso possível para a ação.
A semiótica de Greimas afirma que o sujeito se constitui enquanto tal a partir do momento em que efetivamente faz, atua. A função do actante sujeito é partir em busca do objeto e essa busca tem o nome de ação, fazer ou performance. Para tanto, o sujeito necessariamente precisa estar de posse das competências para fazer, a saber: querer-fazer, poder-fazer, dever-fazer e saber-fazer.
Exemplos:
1) Final de uma copa do mundo de futebol. Pênalti para o Brasil. De nada vale a seleção brasileira contar com um centroavante talentoso, em plenas condições físicas (poder-fazer), que durante os treinos sempre acerta suas cobranças (saber-fazer) e que foi escolhido pelo treinador para ser o cobrador oficial (dever-fazer), se na hora de realizar a cobrança esse centroavante olhar para a bola, olhar para o goleiro, olhar para o resto do time e não se sentir confiante para realizar o chute, não manifestar vontade alguma de cobrar o pênalti (querer-fazer).
2) Uma cantora lírica tem uma apresentação marcada para dali a algumas horas, mas durante a passagem de som percebe que está sem voz. Apesar de normalmente possuir todas as competências para executar a ação (saber cantar, querer cantar e dever cantar), a cantora não se apresentará porque não dispõe, nesse dia em especial, de seu instrumento de trabalho em plenas condições, ou seja, não pode fazer a ação de cantar música lírica, pois lhe faltam os meios (poder-fazer).
3) Um funcionário de um alto ministério descobre que seu superior está por trás de um esquema de corrupção. Mesmo sendo amigo de um jornalista que poderia divulgar o caso e tendo vontade de conceder uma entrevista bombástica (saber-fazer, poder-fazer e querer-fazer), esse funcionário decide manter-se calado para não trair a confiança de uma pessoa que o ajudou em outros momentos e que lhe colocou no cargo que ele hoje ocupa. Em seu íntimo, tal funcionário sabe que denunciar seu chefe seria violar o código de honra em vigor no tal ministério e causaria o mal de uma pessoa próxima, a quem ele está ligado por um contrato de confiança. Assim, ao recusar a entrevista, ele o faz para não violar um compromisso de honra (dever-fazer).
4) Um técnico em informática é contratado para solucionar um problema num computador de uma empresa. Ao chegar ao local, munido de todas as ferramentas necessárias para o conserto, (poder-fazer, querer-fazer, dever-fazer) ele se dá conta de que não domina a linguagem de programação usada na configuração da máquina avariada. Nesse caso, o técnico não pode realizar o conserto, pois lhe falta a competência saber-fazer.
Resumindo: o verbo fazer é capaz de cumprir a função de qualquer outro verbo de ação. Na semiótica de Greimas, o sujeito só se constitui enquanto tal a partir do momento em que faz e, para fazer, ele precisa possuir as seguintes quatro competências: querer-fazer, poder-fazer, dever-fazer e saber-fazer. Em outras palavras: o fazer pressupõe um sujeito possuidor dessas quatro competências. O fazer também pode ser descrito como o momento da busca do objeto pelo sujeito e, nesse sentido, é sinônimo de ação e performance.