terça-feira, dezembro 13, 2005

Fun, Babe, Fun!

Só eu sei o quanto é difícil penetrar nesse universo paralelo e estranho em que as garotas pensam, vivem e me julgam. Sim, porque a questão toda no fundo é julgamento e por mais que eu também seja um cara normalzinho e viva dando opiniões a torto e a direito sobre o modo de existir de qualquer fulano ou fulana que cruze o meu caminho, pelo menos eu tento me policiar. Não saio armado por aí etiquetando rótulos e disparando contra as tribos a troco de me sentir mais poderoso e mais in do que esses pobres adolescentes com camisetinhas de banda de rock neo-gótico. Eu cresci. E desde muito novo já circulava por entre as várias tendências e estranhezas que uma sociedade anárquica e pós-moderna pode oferecer pra alguém que tinha naquela época não mais do que quinze anos e adorava subir e descer pelas escadas rolantes (que não rolavam) da galeria do rock do centrão de São Paulo, ali ao lado do teatro municipal (seu burguês otário). Porque no teatro municipal mesmo eu só fui entrar lá depois de muito mais velho, já com a pose do intelectual decadente que não conseguiu ter saco pra aturar toda a enxurrada de burocracia que precede o solene ritual de entrega dos diplomas de graduação em letras e ciências anti-sociais. No colégio eu era amigo dos hippies, comia uma tiazinha com pinta de pin-up, tinha amigos entre os punks, freqüentava as festas da gaviões da fiel e pagava um pau pra turminha do black. Mas em lugar algum eu me sentia bem, sempre deslocado e blasé, com as latas todas de cerveja circulando pelo meu corpo entre um gole e outra gorfada na fila do banheiro –nunca tive pinta pra ser amante latino, desses que arrasam com o baile e ganham todas as loiras com um golpe bem dado de tacape na cabeça e depois carregam suas vítimas dentro de uma caçamba de pick-up rumo ao motel mais barato da rodovia raposo tavares. Meu negócio vai muito além de ter ou não ter estilo, de estar ou não estar na sua modinha, de seguir ou não seguir seus conselhozinhos de bacana que lê folha ilustrada. Comigo você vai ter que aprender novos idiomas, novos costumes, novos jeitos de fazer cada mínima coisa que você está acostumada a fazer nessa sua vidinha confortável e medíocre. Uh babe... Uh babe... Me dá um acorde em lá e se prepare pra se reinventar completamente. Bem-vinda ao mundo encantado dos que não consomem literatura por lazer. Dos que são feitos de tinta e papel e são literatura mais do que carne. Marquei uma reuniãozinha nas quebradas da rua augusta pra você conhecer minha galerinha e ir se enturmando logo no começo pra depois não dizer que eu faço você se sentir uma estranha. Porque pra ficar comigo vai ser desse jeito, por mais que doa e incomode. Estou aqui nesse mundo pra fazer doer e fazer incomodar. Fazer doer e fazer incomodar... Três e quarenta então? Naquela esquina suja entre as putas e os playboys da zona leste que se entopem oito ou nove dentro de um fiat um quatro sete e ainda racham a grana pra conseguir um mísero boquete de travesti sem dente? E no fim ainda fazem um sorteio (roleta russa com trinta e dois enferrujado de numeração raspada) pra saber quem será o felizardo desta noite. Estarei lá com meu compadre Artur, o junkie. E com o gordo do Jack. E com a piranha da Anais, com o velhinho do condomínio do Rubem, com o Leminksi, com o imbecil do Truman Capote, com a minha querida Clarice, com o deus supremo Oswaldo, com Cortazar, com Caio Fernando Abreu, com o pai do Luis Fernando Veríssimo. Estaremos ali ouvindo um violão do Kurt Cobain, quem sabe vendo um filme do Kubrick ou escrevendo e-mails com vírus pra algum Jean-Luc Godard que não saiba ler. Punhetando intelectualidades, como é característico dos autores que se escrevem por São Paulo. Entre um pico e outro de droga, pedir pro Iggy Pop dixavar mais um baseado, dar uns amassos e umas dedadas na mulher do Bowie e lamber a orelha da minha ex-atriz preferida: podia ser Anna Karina, podia ser Isabelle Huppert (por isso nos amamos e trepamos e fodemos em francês, língua porca e depravada). Sempre preferi a baixa boemia, sempre admirei como o maior dom divinal ou humano que se pode conceder a alguém essa capacidade de se manter invisível por detrás de uma coluna, só espiando e remoendo risadinhas sarcásticas. Mas voltarei ao palco pra fazer aquela cena de sexo explícito que o Nelson Rodrigues guardou só pra mim e pra você. Com direito a sangue e mordidas e manchas roxas sobre tua pele branca. Vem comigo por esse buraco, vamos escavar subterrâneos e vasculhar as passagens secretas e calabouços que nos levem para muito além desse mundo de ratos que se amontoam num sofá velho e rasgado pra assistir a novela das oito por detrás do reflexo da vitrine da loja de tevê. Eu odeio o seu amor, odeio essa sua maneira panaca de ser fina e meiga. Mas desejo seu corpo, preciso de um corpo jovem para dar prosseguimento ao macabro ritual – quero sobre o capô de um carro, encostada contra o poste toda arreganhada, seu bum-bum apoiadinho no mictório de uma balada podre, brutalidade e cheiros sobre o tampo do esgoto, eu, você e o que sobrar de nossas almas quando a aurora finalmente amanhecer. Quero conhecer na minha veia o HIV. Saltar etapas e me santificar por uma editora de pequeno porte, deixando aqui pra vocês somente uma pequena amostra (grátis o caralho) do que eu poderia fazer se tivesse vontade de ser um escritor que escreve pra qualquer rede globo. Só uma trepada assim (é, como você ta imaginando e querendo, assim mesmo, garota: uma trepada do caralho) e depois repouso eterno e o tédio enlatado pra curar da ressaca. Que venha o tiro e o pico e o carro desgovernado e a cama do hospital público senador nove de junho com sondas e cabos e tubos entrando e saindo pelo meu corpo magro. Que me amarrem e me amordacem e me mumifiquem ao lado do Lênin. Nunca fui mesmo mais do que um cadáver quando examinado do ponto de vista das garotas. Mas assim como as desprezo, queridas, as amo todas vocês. Nem só das noites de desamparo e solidão vive o desejo de um homem divergente pelas mulheres convencionais. Até porque agora a essa hora do ano tudo o que eu não quero é que você me convença. Beija primeiro e reclama depois.

segunda-feira, novembro 28, 2005

No fun, my babe, no fun!

Ele veio. Ato, presença e atitude – nada de poses pra sua fotografia amarela. Gestos de feiticeiro, imprevisivelmente hipnótico, o senhor de todas as festas. Que ninguém mais se atreva a subir num palco impunemente e tomar o microfone do rock n´roll pra berrar suas letrinhas de criança. O microfone é dele, o palco é dele, louvemos e profanemos. A energia escorre e nenhum recipiente, nenhuma área delimitada, nenhum espaço aberto ou fechado entre o céu e os infernos é capaz de conter e dar forma a essa explosão de sentidos e cores e sons. Um homem que dança. O homem que canta sobre um palco, o mesmo palco em cada país, em cada geração, em cada universo paralelo. Ele que com um olhar ou um sussurro já seria capaz de cometer um assassinato em massa, mas que grita, se acaba, rola pelo chão e atropela qualquer protocolo, qualquer lembrança fugaz daquele mundo capitalista ou daqueles valores burgueses que existiam antes de eu me deparar, numa noite palidamente mágica, com tal ser iluminado. A ordem existe enquanto pretexto para desfragmentar, fazer ruínas, passar por cima e erigir a fúria. Um monumento a fúria, ao Dionísio reencarnado e imortal que no breve intervalo de uma hora bombardeou São Paulo e transformou tudo em chamas de purificação. Um ritual sem hierarquia, todas as bacantes reunidas em comunhão com o sacerdote. Toda uma multidão paralisada e inerte dentro da palma da mão de um semi-deus. Semi-satã. Porque cada iniciado que deixou o templo após aquela noite de orgia sabe que não se trata de diversão. Os casais convencionais e as pessoas sempre corretas que fiquem com seu entretenimento babaca, alinhados em filas monótonas pra entupir cada lugar que poderia ser habitável num fim de semana. Trata-se de algo além. Vida ou morte. Ouvir Iggy & Stooges tocando tão perto é algo pra mudar sua vida e te fazer ser outra pessoa. Ou algo mais que uma pessoa. Muito mais que religião, que ideologia, que paixão ou passatempo, muito, mas muito mais do que uma mente normal e domesticada poderia conceber. É olhar a morte nos olhos, é abraçar a vida inteira de uma vez, é querer congelar o tempo e deixar as pulsões represadas ao longo de uma existência extravasarem num único gesto definitivo e contundente. É o rock n´roll (sinto ter de ser eu a lhe dizer isso, babe) e vale bem mais do que a soma de todo o resto.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Claro que não é só o rock

O primeiro que chegou foi o boato. Como em todo início de ano pop, vestindo trajes tropicais e usando óculos de sol com lentes enormes e castanhas, ele veio desde o hemisfério norte a bordo de seu hidroavião da década de 1940, que, como quase sempre, teve que fazer um pouso forçado de emergência à beira do Rio Paraguai. Boato sentou-se à mesa do nosso bar particular e soprou-nos nos ouvidos adolescidos sete nomes de conjuntos de rock: três da Grã-Bretanha, três dos Estados-Unidos da América e um da Austrália. Boato fala inglês com um sotaque forte de eslavo, mas tampouco nós, jovens educados em escolas públicas de classe média e que já passáramos com louvor pelo muro do vestibular, saberíamos decifrar alguma sílaba ou fonema do tal idioma anglo-saxão em meio à gritaria e ao barulho das faixas do CD gravado e sujo de cinzas e manchas de bebida.

E assim ele se foi, levando nossas drogas, nossa fé e nosso amor-próprio.

E o tempo passou sem sobressaltos sobre São Paulo. Dias de trabalho e dias de lazer noturno, poucas novidades tecnológicas e nenhum apoio a tendências estéticas ou políticas que pudessem porventura se mostrar ideológicas. E ao show se sucedia outro show, outra discotecagem, outro DJ. Eu e ela nos sentimos envelhecidos e fora do contexto em algumas ocasiões e Mário de Andrade já dizia que todo apogeu já é o início do declínio. Eu e ela que não damos certo juntos e nos amamos aos coices e cenas sem ciúmes, desfilando com cara de monstro e hálito de absinto pelas imediações da Paulista, às X e pouco da manhã. Porque foram tantas as manhãs abortadas em sono profundo sobre o sofá de um apartamento, que sempre foi tão útil pra absorver meus fracassos, esquecimentos e outros foras (de mim comigo mesmo: eu, eu, eu). Eu e ela que sempre nos embananamos ao cantar as letras berradas daquele triste dinossauro e entramos fora do tempo e fomos à aula de geometria só pra perder o compasso.

Um dia de bobeira, com certeza devia ser domingo e fazia algum sol: a gente tinha acabado de acordar. Eu, ela e outros eles sentados à volta de uma mesinha de boteco, almoçando cerveja e sanduíche, alguns x-salada outros x-frango com salada. Foi quando nossa amiga chegou. Sempre sorrisos e pernas de fora, elegante mesmo despenteada e de maquiagem borrada, ela veio, beijou um por um, puxou uma cadeira de plástico amarela e também se sentou. Nossa amiga Notícia. Acabara de vir do aeroporto após uma longa e sexual temporada em Paris. Notícia não queria saber de nada do Brasil nem fez muito suspense, daí logo entregou: sim, as sete bandas de rock, três dos Estados Unidos da América, uma da Austrália e três do Reino Unido, sim, as sete bandas que por toda vida esperávamos; nós, pobres fãs de música com guitarra num país de terceiro mundo, as sete bandas anunciadas pelas profecias impressas nos papiros do Egito, as sete bandas malditas viriam fazer um orgiástico festival na zona oeste de São Paulo. Notícia até confirmou as datas e tomou um copo americano e meio de cerveja com a gente (não lembrou de pagar a conta), mas partiu sem se despedir transformando-se numa ave de médio porte que alçou vôo pelos céus de São Paulo e se perdeu na imensidão cor de ferrugem do horizonte que não víamos, pois havia muitos prédios tapando nosso campo de visão.

No dia seguinte fomos à fila, compramos ingresso e entramos para uma nova seita tibetana que estava abrindo uma franquia no Brasil. Hoje, esperamos inertes e trocamos arquivos mp3, numa tentativa de aliviar a angústia de uma inútil contagem regressiva. Aprendi de cor quatro letras de música, mas espero não poder cantá-las no dia do festival porque, até esse show que eu tanto sonhei ver começar, eu já quero estar completamente sem voz. Eu e ela, tão incongruentes e assimétricos, um dia da nossa vida quem sabe desaguaremos num mínimo divisor comum. Sem voz, em êxtase, em comunhão. Eu e ela, sempre tão avessos ao padrão médio dessa sociedade burguesa, um dia estaremos ali junto a toda a meia dúzia de outros que pensam e sentem como nós. Seremos, de alguma forma, uma maioria por algumas horas e com certeza vamos aproveitar cada instante desse dia mágico pra desafogar tantos rios de opressão e tédio. Eu, ela, nosso palco calcado na grama do chão e o barulho capaz de preencher toda a imensidão do céu (jamais azul) de São Paulo. Seremos feitos de rock & roll. Amor é uma palavra pequena e insignificante. Pro nosso caso, só mesmo uma terapia a base de doses cavalares de morfina com paixão. Definitivamente, é algo além.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Sobre o Referendo do Desarmamento

Não entrarei aqui no mérito da discussão de mocinhos e bandidos nem nos argumentos patéticos e superficiais mostrados na televisão. Assumo aqui um ponto de vista outro.

*

O Brasil discute o fetiche de um objeto estritamente relacionado a morte: uma arma de fogo. Ao longo do século XX, as tecnologias e variedades desse gênero de artefatos proliferaram de forma prodigiosa e as máquinas de matar gente assumiram um papel cada vez mais relevante na cultura e no imaginário dos povos. Três dentre tal classe de objetos alcançaram praticamente todos os confins do planeta e desempenham uma função determinante para a reprodução da dominação social: as armas de fogo (desde o rojão até a bomba atômica), o automóvel e o cinema. Por razões de ordem prática, este ensaio abordará somente as armas.
A finalidade assassina do porte, comercialização ou uso de qualquer arma de fogo é clara e evidente, porém mascara o essencial: um revólver ou uma espingarda são, antes de tudo, instrumentos de intimidação, ou seja, a simples presença de um ser humano com uma arma, em qualquer recinto ou ambiente, já estabelece por si uma situação de temor e apreensão e confere a tal indivíduo um poder que alguns ingênuos crêem ser absoluto. Brincar de ser o poderoso - é o que exclama o cidadão que empunha um trinta e oito carregado e o depoista com macheza sobre o balcão de um boteco de periferia. Ou depois de uma fechada num cruzamento de avenidas em São Paulo, ou num bar de playboy na Vila Olímpia. Instrumento de intimidação por excelência, a arma é um prato cheio pra pessoas (sem muita psicanálise) com problemas para se afirmarem e portadoras de alguma carência emotiva que transborda e grita pelos seus subconscientes (embora elas finjam que não a reconheçam).
A arma de fogo também está relacionada ao campo semântico do masculino, remete ao arquétipo do guerreiro, embora Rambo aponte para uma ruptura se comparado a figuras como Aquiles ou o rei Artur. Infelizmente ruptura pra pior: diluição e empobrecimento do arquétipo. Apesar disso, o fascínio exercido pela arma de fogo e o espetáculo de destruição que ela pode proporcionar deram origem a um sem número de manifestações artísticas de primeira grandeza, dos futuristas italianos ao cinema de Hollywood.
No caso específico da formação histórica dos povos do continente americano, a arma de fogo foi o fator decisivo que permitiu a invasão e o posterior estabelecimento de populações de origem européia ou sob o domínio de europeus.
Em todos os casos se pode detectar que a arma de fogo é uma das principais ferramentas que os grupos dominantes utilizam para se reproduzirem enquanto classe e se perpetuarem no poder. Sua manipulação ou comercialização por indivíduos desimportantes e individualistas, o ponto central desse reverendo feito por e para engravatados, passa ao largo da questão fundamental, que é o monopólio da violência pelo estado burguês (polícia, exército, segurança particular, advogado, traficante) como forma de garantia da manutenção do status quo. No Brasil, status quo quer dizer níveis crônicos de desigualdade econômica, estado de direito, democracia representativa, dependência cultural, atraso tecnológico, guerra civil, ignorância, miséria, luta de classes, hipocrisia, crueldade, cinismo e confusão entre ação, palavra e pensamento. E isso tudo se articula em torno de nosso processo de formação histórica de povo colonizado e escravagista, de uma sociedade fundada sobre a violência e imensos abismos separando grupos de indivíduos (que ontem se diferenciavam pela cor da pele e hoje pode ser que pela roupa ou pelo saldo da conta bancária). Daí advém o inevitável retorno do reprimido, todas as pulsões e traumas convergindo num gigantesco manancial de energia represada e acumulada ao longo dos séculos e varrida para debaixo do tapete como um efeito colateral da constituição da eterna e desigual configuração social brasileira. O que explica porque aqui no Brasil se morra mais por arma de fogo do que no Iraque ou nos EUA. Apelar para um revólver para resolver seus problemas psíquicos é uma solução fácil e covarde. E como um gesto mínimo (muito mais simbólico do que efetivo), eu votarei sim, votarei contra a comercialização de armas de fogo nesse tal reverendo. Quero a reversão de certas engrenagens que estruturam essa máquina chamada civilização brasileira e penso que podemos liquidar algumas questões legadas por nosso passado e inventar um outro país sobre bases bem diferentes das aque até aqui nos sustentaram. Banir as armas e optar por canalizar o instinto de morte para atividades artísticas, lúdicas ou intelectuais seria um bom começo. Sem querer imitar a Europa nem os Estados Unidos nem ninguém, o Brasil pode inventar. Inventar ao invés de imitar. E é pra desamarrar meu país de certas obsessões de seu passado que eu voto sim e ficaria muito feliz se esse tal estatuto fosse aprovado e (o que é uma pena, mas infinitamente mais difícil) posto em prática.

sexta-feira, setembro 30, 2005

segunda-feira, setembro 26, 2005

CEREBRIDADE

Sou avesso ao método:
detesto me compartimentar em rotinas
não sirvo para tomar conta de nada
nem me preocupo comigo mesmo a ponto de.

Sou um artista, logo preciso de um empresário
de uma secretária (bilíngue / gostosa)
que me organize como uma agenda
de alguém que faça minha faxina
preciso de uma musa inspiradora
e é imprescindível que me deixem dormir até mais tarde
e que não me atormentem com assuntos mundanos (leia-se: prosaicos).

Quero ser um artista famoso, dos que chocam a burguesia
portanto não vou poder ir ao shopping
e nem fazer as coisas que uma pessoa normal faz
porque um guarda-costas me acompanhará 24 horas por dia
e só circularei pelas ruas a bordo de um carro blindado
ou na pior das hipóteses de um helicóptero com insulfilm
porque atualmente é consenso que artista que se preza vive na ponte aérea LONDRES - SÃO PAULO - LAS VEGAS - CASABLANCA

Mas no ano passado e por enquanto
eu só sei que sou (e sempre serei)
uma estrela do rock n´ roll
ho-ho-ho

Diário sem data - II

A velhice vem vindo e o tesão acabou. Só fui me dar conta de que o saldo de uma adolescência saudável é ter construído uma máscara de personagem de si mesmo tarde demais. Agora já não se pode reconhecer qualquer expressão humana nas rugas precoces que enfeiam a minha face. Cativo em denso casulo, sou insensível a todo e qualquer apelo, do racional ao afetivo. Me esquivo passageiro de ônibus nas multidões de São Paulo e maquino silenciosamente planos de ataques terroristas que matassem motoristas de automóvel. Explodir uma ponte, uma dessa pontes da marginal, quem sabe. A fraqueza me paraliza e o medo me impede de começar o dia. Momentos felizes? Certas noites de orgia, cocaína e bebedeira. Disso eu entendo, entendo tanto que até já enjoei e agora eu queria o controle do meu destino de volta. Sonharam meus sonhos enquanto eu hibernava? Reconheço que em 99% do tempo me faltou força de vontade e amor no coração, mas só agora, depois de velho, é que eu consegui aceitar que o papel que eu vim representar aqui neste planeta não é o de ser um cara bonzinho. Vou dizer e fazer e escrever coisas que incomodam muita gente, mas eu não perco a chance de experimentar uma maneira de pensar o destino e a vida que seja original, transgressiva e perversa. Meu lugar é um pouco para lá da linha que separa as pessoas que se dão bem na vida e se guiam pelo bom senso do resto: os fodidos, bandidos, drogados, loucos e excêntricos. Meu grande defeito até agora foi conspirar em silêncio e acumular toda a energia ruim que eu recolho do mundo no meu corpo, mas agora eu estou finalmente aprendendo a me lavar. Quero me banhar na fonte mais límpida, mergulhar com os peixinhos do rio, secar sob o sol do Equador. Das águas emergiu um homem.

Diário sem data - I

Ainda dessa vez eu tomaria aquele ônibus Jardim Jamorítimo e não eram nem nove e meia da noite, meu corpo cheirava a óleo de cozinha. Celulares tocavam sem parar e meninas que vinham de qualquer periferia atendiam: alô, meu amor, onde cê tá, já tô chegando, tô aqui na faria lima. Eu olhava pela janelinha embaçada de suja aquela paisagem repetida que eu sabia inteirinha de cor: uma vez eu comentei com uma amiga que eu tinha a impressão que se um dia eu virasse por uma outra rua qualquer que saísse do itinerário eu me sentiria completamente desamparado. E naquela hora eu me sentia exatamente assim e minha consciência voava até o dia longínquo e esfumaçado da minha infância em que ainda existia em mim o germe de um ser humano que poderia vingar na vida. Não sei bem quando, mas essa promessa falhou e hoje só recolho cacos e junto objetos miúdos numa caixa como quem acorda de um sonho ruim numa manhã de quinta-feira e se dá conta de que se passaram vinte anos desde a noite em que você foi dormir. E o mais triste é que eu me esqueci como eu sou quando não estou bêbado nem chapado ou a procura de e que jamais terei coragem de mudar minha postura e encontrar qualquer ponto de equilíbrio que me garanta um mínimo de harmonia com as pessoas que estão ao meu redor. Me engano com pequenos prazeres e conversas meramente superficiais, mas em breve nem isso minha saúde frágil me permitirá mais. Sinto lá no fundo uma necessidade palidamente humana de me aproximar e compartilhar minha vida com alguém, mas fraqujo e desconfio de todos. Sou tenso e incapaz de me relacionar afetivamente, portador assumido de neuroses para as quais não vejo possibilidade de solução. Minha doença, dizem, chama-se depressão. Antes de descer deste ônibus eu quero muito me matar.

terça-feira, setembro 20, 2005

O Fazer

Fazer é um verbo coringa. O significado de fazer é qualquer verbo, todos os verbos, tudo aquilo que seja ação, isto é, fazer é uma palavra que descreve todo e qualquer acontecimento, transformação ou abalo que modifique a configuração atual do espaço-tempo. Tanto é assim que em português podemos substituir praticamente qualquer verbo de ação pelo verbo fazer, da seguinte maneira: comprar = fazer compra, caminhar = fazer uma caminhada, telefonar = fazer um telefonema, limpar = fazer uma limpeza, construir = fazer uma construção, etc. Nesse sentido, o fazer pode ser entendido como a expressão verbal de toda ação do sujeito humano sobre o meio e sobre si mesmo. E uma das marcas da ação do sujeito humano sobre o mundo e sobre si mesmo é que, antes de agir, tal sujeito projeta, ou seja, antecipa as conseqüências, obstáculos e custos que a realização da ação acarretará, seja para si mesmo seja para o mundo. Projetar a ação significa pesar de um lado o desejo, ou seja, o fazer configurado enquanto intencionalidade e vontade de consumar a ação, e, de outro, as conseqüências, quer dizer, as re-ações e contra-ações que a ação inicial pode causar no tecido do espaço/tempo e das relações inter-pessoais e que, vez por outra, podem se voltar contra o próprio sujeito ou frustrar as expectativas iniciais. Projetar também implica realizar a melhor escolha possível dos meios, do modo, dos instrumentos empregados, do lugar, da hora, do ritmo e da intensidade, visando à exeqüibilidade e a maior margem de probabilidade de sucesso possível para a ação.
A semiótica de Greimas afirma que o sujeito se constitui enquanto tal a partir do momento em que efetivamente faz, atua. A função do actante sujeito é partir em busca do objeto e essa busca tem o nome de ação, fazer ou performance. Para tanto, o sujeito necessariamente precisa estar de posse das competências para fazer, a saber: querer-fazer, poder-fazer, dever-fazer e saber-fazer.
Exemplos:
1) Final de uma copa do mundo de futebol. Pênalti para o Brasil. De nada vale a seleção brasileira contar com um centroavante talentoso, em plenas condições físicas (poder-fazer), que durante os treinos sempre acerta suas cobranças (saber-fazer) e que foi escolhido pelo treinador para ser o cobrador oficial (dever-fazer), se na hora de realizar a cobrança esse centroavante olhar para a bola, olhar para o goleiro, olhar para o resto do time e não se sentir confiante para realizar o chute, não manifestar vontade alguma de cobrar o pênalti (querer-fazer).
2) Uma cantora lírica tem uma apresentação marcada para dali a algumas horas, mas durante a passagem de som percebe que está sem voz. Apesar de normalmente possuir todas as competências para executar a ação (saber cantar, querer cantar e dever cantar), a cantora não se apresentará porque não dispõe, nesse dia em especial, de seu instrumento de trabalho em plenas condições, ou seja, não pode fazer a ação de cantar música lírica, pois lhe faltam os meios (poder-fazer).
3) Um funcionário de um alto ministério descobre que seu superior está por trás de um esquema de corrupção. Mesmo sendo amigo de um jornalista que poderia divulgar o caso e tendo vontade de conceder uma entrevista bombástica (saber-fazer, poder-fazer e querer-fazer), esse funcionário decide manter-se calado para não trair a confiança de uma pessoa que o ajudou em outros momentos e que lhe colocou no cargo que ele hoje ocupa. Em seu íntimo, tal funcionário sabe que denunciar seu chefe seria violar o código de honra em vigor no tal ministério e causaria o mal de uma pessoa próxima, a quem ele está ligado por um contrato de confiança. Assim, ao recusar a entrevista, ele o faz para não violar um compromisso de honra (dever-fazer).
4) Um técnico em informática é contratado para solucionar um problema num computador de uma empresa. Ao chegar ao local, munido de todas as ferramentas necessárias para o conserto, (poder-fazer, querer-fazer, dever-fazer) ele se dá conta de que não domina a linguagem de programação usada na configuração da máquina avariada. Nesse caso, o técnico não pode realizar o conserto, pois lhe falta a competência saber-fazer.
Resumindo: o verbo fazer é capaz de cumprir a função de qualquer outro verbo de ação. Na semiótica de Greimas, o sujeito só se constitui enquanto tal a partir do momento em que faz e, para fazer, ele precisa possuir as seguintes quatro competências: querer-fazer, poder-fazer, dever-fazer e saber-fazer. Em outras palavras: o fazer pressupõe um sujeito possuidor dessas quatro competências. O fazer também pode ser descrito como o momento da busca do objeto pelo sujeito e, nesse sentido, é sinônimo de ação e performance.

terça-feira, julho 19, 2005

DA FUNÇÃO DE HABITAR - PRÓLOGO

PRÓLOGO

Compreender a natureza e as características da função de habitar é de grande valia para aqueles que se interessam pelos assuntos humanos. É possível pensar a casa que abriga o homem e a mulher como um duplo da psique, na medida em que se podem reconstituir certos elementos da vida espiritual humana a partir de uma análise de seu habitat e das marcas inscritas nele ao longo do tempo. A casa possui a capacidade de materializar aspectos da mente e da existência humanas, ao torna-los sensíveis para aqueles que se empenham em decifrá-la: preserva vestígios do cotidiano e do jeito de ser do habitante mesmo tempos depois do ser humano em questão ter deixado de ocupar o espaço doméstico. Isso explica o porquê de tantas casas habitadas por pessoas célebres e importantes do passado virem a ser tombadas, transformadas em museus e locais de peregrinação. Aquele que visita à casa de alguém que admira, espera lá encontrar preservados alguns traços da pessoa admirada.
É importante frisar que a função de habitar nem sempre se confunde com o ato de habitar a casa concretamente. Vai além dele, na medida em que não pressupõe a presença física e nem se reduz aos momentos em que efetivamente estamos habitando a casa: podemos exercer a função de habitar sonhando com uma casa que gostaríamos de ter, evocando uma casa passada que não existe mais ou compartilhando da experiência de alguém que habitou uma casa através de narrativas, filmes, histórias, etc. Desse modo, devemos entender a função de habitar como a faculdade do espírito humano responsável por tudo aquilo que se refere ao ser em seu espaço de intimidade: sejam as ações e sensações envolvidas nos atos de administrar, governar, gerir, desfrutar e “usar” a casa, sejam os devaneios, sonhos, recordações, narrativas ou pensamentos que evoquem o ser em seu espaço de intimidade ou tratem de aspectos da casa entendida como um arquétipo, ou seja, um ser constituído ao mesmo tempo por uma face concreta, visível, localizada no tempo e no espaço e uma outra face intangível, a qual muitas vezes nos remete ao imemorial e ao eterno.
Tratar dos aspectos sensíveis da casa e de como estes se transformam ao longo do tempo é tarefa para arquitetos, antropólogos e historiadores. Nesse tipo de estudo, caberia uma análise comparativa entre diferentes civilizações e épocas para se compreender como cada uma delas materializou, sob a forma de habitações, aspectos de seu imaginário, de sua organização social e de sua cultura, levando em conta fatores geográficos, tecnológicos, econômicos, climáticos e outros que possam vir a interferir na constituição da casa. Trataremos desses assuntos de passagem e somente a título de contextualização, já que o foco de nossas pesquisas é compreender a função de habitar sob a perspectiva do sujeito, ou seja, de como o habitante pensa, sonha, deseja, convive e cria raízes na casa. Entendida antes de tudo como um ser complexo e múltiplo, a casa também pode ser interpretada levando em conta suas implicações para a psicologia dos seres que a habitam – e é justamente isso que intentamos. Assim, buscaremos compreender a casa enquanto espelho da alma humana e pouca importância daremos às variáveis que distinguem uma casa da outra, buscando entre essas diferenças uma síntese capaz de dar conta da função universal de habitar.
Mas afinal: o que é a casa? Ou melhor dizendo em outras palavras: o que a casa significa? Como aprender a decifrá-la? Podemos olhá-la, fotografa-la, medi-la, toca-la, escuta-la, passear por ela, estudar sua história, seus diversos proprietários, seu projeto ou sua escritura, mas nada disso, por si só, responderá às questões colocadas acima. A primeira parte deste estudo se constituirá de um breve apanhado histórico a respeito dos habitats humanos e suas transformações ao longo do tempo. A seguir, buscaremos definir o conceito de espaço da intimidade, recolhendo materiais da mitologia grega e da análise que Jean Pierre Vernant faz das figuras de Hermes e Héstia, duas divindades relacionadas, cada uma a sua maneira, ao espaço doméstico. Por fim, a discussão do que venha a ser a função de habitar se dará tomando como base estudos publicados pelo filósofo Gaston Bachelard em seu livro “A Poética do Espaço”.

DA FUNÇÃO DE HABITAR - I

I

A função de habitar precede a própria existência da espécie homo sapiens sapiens. Nossos antepassados, caçadores-coletores nômades, já se refugiavam em cavernas e outros abrigos naturais durante o período em que se estabeleciam num determinado local. Cada comunidade autônoma era responsável pela confecção de seus próprios utensílios e ferramentas, se valendo das matérias-primas disponíveis na região, em geral madeira, argila, pedra, palha, ossos e chifres.
A revolução agrícola, que propiciaria o nascimento de uma humanidade sedentária, se deu por volta de 10.000 anos atrás, primeiramente na região de Jericó, na Cisjordânia, num grande oásis junto ao Mar Morto e depois se espalhou, através de difusão ou de movimentos independentes, para a Índia (há 8.000 anos), China (7.000), Europa (6.500), África Tropical (5.000) e Américas (4.500). Foi um processo longo e que não se deu da maneira uniforme e definitiva, num primeiro momento, como o uso dos termos “revolução agrícola” ou “revolução neolítica” faz supor: “Com o advento da agricultura, os grupos podiam ser maiores, desde que dentro de limites estabelecidos pela fertilidade do solo, quantidade de terra disponível e estrutura organizacional da tribo. Quando o crescimento do grupo entrava em contradição com qualquer um desses fatores, ocorria uma cissiparidade, procurando a tribo derivada - e às vezes até a de origem - outro local. Este processo intenso de subdivisões e deslocamentos iria provocar uma onda de difusão da agricultura e da atividade pastoril. Acredita-se, portanto, que durante muito tempo a atividade agrícola não fixou em definitivo o homem ao solo; apenas o deixou mais sedentário do que quando coletor e caçador”.
Durante a pré-História surgem os primeiros monumentos e o homem começa a dominar a técnica de trabalhar as pedras. O nascimento da arquitetura está associado à idéia de abrigo. O abrigo, construção predominante nas sociedades primitivas, será o elemento principal da organização espacial de diversos povos. Este tipo de construção ainda pode ser observado em sociedades não totalmente integradas à civilização ocidental, como os povos ameríndios, africanos, aborígenes, etc. A presença do abrigo no inconsciente coletivo destes povos é tão forte que ela marcará a cultura de diversas sociedades posteriores: vários teóricos da arquitetura, em momentos diversos da história (Vitrúvio, na Antiguidade, Alberti na Renascença, Joseph Rykwert, mais recentemente) evocarão o mito da cabana primitiva. Este mito, variando de acordo com a fonte, conta que o ser humano recebeu dos deuses a sabedoria para a construção de seu abrigo, configurado como uma construção de madeira composta por quatro paredes e um telhado de duas águas.
A necessidade de empenhar uma grande parte da força de trabalho da comunidade para realizar ações como construção de canais, diques, reservatórios de água e alimentos, é apontada como o fator mais importante para explicar o surgimento das primeiras cidades, no sul do Egito e na Mesopotâmia, há 5.000 anos. Aos poucos, surgem funções cada vez mais especializadas: guerreiros, administradores, sacerdotes e comerciantes, esses últimos sendo diretamente responsáveis pela difusão da urbanização no Oriente Próximo, ao estabelecerem redes comerciais e expandirem as culturas egípcia e mesopotâmica para regiões antes ocupadas por aldeias e tribos de agricultores e pastores. As principais construções remanescentes das civilizações egípcia e mesopotâmica são de caráter religioso: assim os templos babilônios conhecidos como zigurates (dos quais a Torre de Babel bíblica é um exemplo) e as famosas pirâmides do Egito, apontadas, já na Antiguidade, como uma das sete maravilhas do mundo.
A arquitetura e o urbanismo praticados pelos gregos e romanos destacava-se bastante dos egípcios e babilônios, na medida em que a vida cívica passava a ganhar importância. A cidade tornara-se o elemento principal da vida política e social destes povos: os gregos desenvolveram-se em cidades-estado e o Império Romano surgiu a partir da expansão de uma única cidade. O arquiteto grego Hipódamo de Mileto é considerado o primeiro urbanista da história. Enquanto os povos anteriores desenvolveram apenas as arquiteturas militar, religiosa e residencial, os gregos e romanos foram responsáveis pelo desenvolvimento de espaços próprios à manifestação da cidadania e dos afazeres cotidianos: assim, a ágora grega definia-se como um grande espaço livre e público, destinado à realização de assembléias.
Do ponto de vista da constituição dos espaços da intimidade, o surgimento das cidades e seu posterior desenvolvimento em Grécia e Roma foi um acontecimento capital. Se antes o habitat era sobretudo um refúgio contra as intempéries da natureza, com a urbanização o espaço da casa passa a ser considerado por oposição ao espaço público. Ainda que na Antiguidade não houvesse um sujeito autônomo e senhor de seus próprios destino e escolhas (tal qual se configurará na Modernidade), é durante esse período que assistimos ao nascimento da família e da propriedade privada. Do Egito e Mesopotâmia, passando pelos Gregos e chegando aos Romanos, podemos acompanhar o surgimento de instituições e práticas cada vez mais sofisticadas para garantir a diferenciação entre o que é próprio à comunidade como um todo e o que pertence ao grupamento familiar, destacado e isolado.

DA FUNÇÃO DE HABITAR - II

II

Na religião da Grécia Antiga, dois deuses eram celebrados dentro do espaço da casa: Héstia e Hermes. A primeira se confundia com a própria lareira-altar que se situava no centro de cada habitação, enquanto que o segundo estava localizado junto à porta que separava a casa do espaço público. Jean Pierre Vernant, em seu ensaio “Héstia-Hermes. Sobre a expressão religiosa do espaço e do movimento entre os gregos” analisa a relação entre essas duas divindades e sua importância para a concepção arcaica do espaço. Da nossa perspectiva, interessa sobretudo compreender que, na raiz da distinção das funções complementares de Héstia e Hermes, pode-se vislumbrar o que viria a ser a separação entre o espaço da intimidade (a casa) em oposição ao espaço público (a rua, o universo).
No início de seu ensaio, J.P. Vernant se debruça sobre a representação dos doze deuses que compõem o panteão grego, agrupados em casais, pelo escultor Fídias. O autor, a seguir, se debruça sobre um casal específico, Hermes e Héstia, que parece não obedecer à mesma lógica que preside o emparelhamento dos outros casais: não são marido e mulher (como Zeus e Hera, Posidão e Anfitrite), nem irmão e irmã (como Apolo e Ártemis), nem tampouco mãe e filho (como Afrodite e Eros), assim como não são protetora e protegido (como Atena e Héracles). Por que então agrupar Hermes e Héstia como um casal? “Não se poderia alegar uma fantasia pessoal do escultor. Quando executa uma obra sagrada, o artista antigo empenha-se em conformar-se a certos modelos: sua iniciativa se exerce no quadro dos esquemas impostos pela tradição”. Ficando descartada a hipótese de arbitrariedade do escultor, resta-nos buscar uma teoria capaz de explicar o agrupamento dessas duas divindades. “Héstia – nome próprio de uma deusa, mas também nome comum que designa a lareira, prestava-se menos que os outros deuses à representação antropomórfica. Raramente nós a vemos figurada. Quando ela é figurada, aparece frequentemente formando par com Hermes (...) A associação Hermes-Héstia, regular na arte plástica, reveste-se, pois, de um significado propriamente religioso. Ela deve exprimir uma estrutura definida do panteão grego”.
Se são raras as representações de Héstia nas artes plásticas, mais raras ainda são suas aparições nas narrativas míticas. Isso se deve à sua imobilidade, já que a deusa permanece fixa no centro de cada lar, de cada cidade (a chamada Héstia comum) e do próprio Olimpo, assim como opta por manter-se em estado virginal. O que se conhece sobre ela e suas relações com Hermes se deve, em grande parte, aos poucos versos conservados do Hino Homérico a Héstia, o qual remonta ao século VIII a.C.. “Por duas vezes o poeta insiste nos sentimentos de amizade que Hermes e Héstia nutrem um em relação ao outro. (...) Essa afeição recíproca não se baseia nos laços de sangue, nem do casamento, nem de dependência pessoal. Ela corresponde a uma afinidade de função: as duas forças divinas, presentes nos mesmos lugares, desenvolvem lado a lado funções complementares. (...) Com efeito, tanto um como outro referem-se à extensão terrestre, ao hábitat de uma humanidade sedentária”.
A associação de Héstia ao universo do lar nos parece bastante evidente. Situada “no meio do mégaron quadrangular, a lareira micênica, de forma arredondada, marca o centro do hábitat humano. (...) Fixada no solo, a lareira circular é como que o umbigo que enraíza a casa na terra. (...) Ponto fixo, centro a partir do qual o espaço humano se orienta e organiza, Héstia pode, para os poetas e filósofos, identificar-se com a terra imóvel no centro do cosmo”. Já Hermes está ligado ao hábitat humano e, de um modo mais geral, à extensão da superfície terrestre, de uma maneira diferente. Trata-se de um deus próximo, que freqüenta este mundo e serve de intermediário entre o Olimpo e os mortais. “Mas, se ele se manifesta assim na superfície da terra, se habita, com Héstia, as casas dos mortais, Hermes o faz à maneira de mensageiro, como um viajante que vem de longe e que já se apressa a partir. (...) Ele representa, no espaço e no mundo humano, o movimento, a passagem, a mudança de estado, as transições, os contatos entre elementos estranhos. Na casa, o seu lugar é junto à porta, protegendo a soleira, afastando os ladrões porque ele próprio é o Ladrão”. Resumindo: “a Héstia, o interior, o recinto, o fixo, a intimidade do grupo em si mesmo; a Hermes, o exterior, a abertura, a mobilidade, o contato com o outro. Pode-se dizer que o casal Hermes-Héstia exprime, em sua polaridade, a tensão que se observa na representação arcaica do espaço: o espaço exige um centro, um ponto fixo, com valor privilegiado, a partir do qual se possam orientar e definir direções, todas diferentes qualitativamente, o espaço porém se apresenta, ao mesmo tempo, como lugar do movimento, o que implica uma possibilidade de transição e de passagem de qualquer ponto a um outro”.
Mais adiante, o autor se aprofunda na caracterização da polaridade expressa pela relação Hermes-Héstia: “o espaço doméstico, espaço fechado, com um teto (protegido), tem, para os gregos, uma conotação feminina. O espaço de fora, do exterior, tem conotação masculina. (...) Essa “permanência” de Héstia não é de natureza apenas espacial. Como ela confere a casa o centro que a fixa no espaço, Héstia assegura ao grupo doméstico a sua perenidade no tempo”.
O ponto central da investigação de Jean Pierre Vernant está situado nas seguintes linhas: “em cada etapa da nossa análise, reconhecemos, entre o fixo e o móvel, o fechado e o aberto, o interior e o exterior, uma polaridade que não só é atestada no jogo das instituições domésticas (divisão das tarefas, casamento, filiação, refeição), mas que se inscreve até na natureza do homem e da mulher. Encontramos essa mesma polaridade, ao nível das forças divinas, em uma estrutura do panteão. Com efeito, nem Hermes nem Héstia podem ser colocados isoladamente. Eles assumem as suas funções sob a forma de um casal, a existência de um implicando a do outro, na qual ele repercute como a sua contrapartida necessária. Mais ainda, essa própria complementação das duas divindades pressupõe, em cada uma delas, uma oposição ou uma tensão interior que confere à sua personalidade de deus um caráter fundamental de ambigüidade”.
Algumas páginas adiante, Vernant desenvolve esse tema da ambigüidade enraizada na personalidade de Héstia: “Para exercer sua função de força que confere ao espaço doméstico o seu centro, sua permanência, sua delimitação, Héstia, como já dissemos, deve enraizar a casa humana na terra. Tal é o significado da lareira micênica, esse altar-lareira fixo. Daí um aspecto propriamente ctônico na deusa “epictônica” que reside na superfície da terra. Por meio dela, a casa e o grupo familiar entram em contato com o mundo subterrâneo.(...) E há mais ainda. No mégaron micênico, a lareira circular soldada ao solo inscreve-se no centro de um espaço retangular delimitado por quatro colunas. Elevando-se até o alto da peça, essas pilastras dispõem no teto uma clarabóia aberta por onde sai a fumaça. Quando se queima o incenso na lareira, quando se consome a carne das vítimas ou se assa, durante a refeição, a porção dos alimentos consagrada aos deuses, na chama acesa sobre o seu altar doméstico, Héstia faz com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos. (...) Para o grupo doméstico, o centro que Héstia patrocina representa também, e solidariamente, o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”.
Como pudemos perceber da análise comparativa entre Hermes e Héstia, a mitologia grego já fazia a distinção entre aquilo que no espaço é permanência e imobilidade daquilo que é movimento e transição. Mais tarde, diversos filósofos viriam a se ocupar dessas questões, tais como Anaximandro, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Zenão, Platão e Aristóteles – alguns tomando partido do movimento como o princípio fundamental de organização do espaço (é o caso de Heráclito), outros da permanência (Zenão, Parmênides) e outros ainda buscando uma síntese entre os dois princípios.
Do ponto de vista de nosso estudo, o mais importante é perceber que, para os gregos, já havia a distinção entre o espaço privado, reservado à intimidade, cujos principais atributos são o fechado, o feminino, a sombra e a imutabilidade e o espaço público, caracterizado por elementos como o masculino, a luz do sol, a perpétua transformação e o aberto. No mundo clássico, a oposição já não era (como em sociedades mais primitivas) entre a casa e a natureza, mas sim entre a casa e a rua – ou seja, a diferenciação já não se dava mais entre o plano humano e o plano natural, mas entre um plano humano-familiar e um plano humano não-familiar. Tal caracterização persiste até os dias de hoje e é importante na medida em que impõe a cada grupamento familiar o dever de se diferenciar dos demais, os quais são vistos ora como concidadãos, aliados e companheiros, ora como competidores, hostis e estranhos. Para além da cultura comum que agrega todos os habitantes da polis sob os mesmos costumes, existem também elementos que caracterizam cada grupamento familiar em oposição aos demais. A partir daí, o espaço da intimidade se tornou cada vez mais reduzido e restrito às dependências da casa da família, ao mesmo tempo em que se tornou mais complexo e singular. Na modernidade, com a emancipação do sujeito burguês e a decadência da instituição familiar, tal processo viria a se intensificar ainda mais, de modo que hoje o espaço da casa se confunde cada vez mais com o espaço ocupado por um único indivíduo em sua solidão.

DA FUNÇÃO DE HABITAR - III

III

Estudar fenomenologicamente os valores de intimidade do espaço interior é a meta de Gaston Bachelard no capítulo “A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana”, contido no livro “A poética do espaço”. Para tanto, a casa é eleita como objeto privilegiado de pesquisa, desde que tomada em sua complexidade e em sua unidade, buscando integrar os valores particulares num valor fundamental: a função de habitar. “Através das lembranças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas em que já desejamos morar, podemos isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificativa para o valor singular que atribuímos a todas as nossas imagens de intimidade protegida? Eis o problema central”. Recusando o ponto de vista que toma a casa como mero objeto para uma descrição objetiva, o autor quer “encontrar a concha inicial em toda moradia, mesmo no castelo (...) A casa nos permitirá evocar luzes fugidias de devaneio que clareiam a síntese do imemorial e da lembrança. Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar”. Mais adiante, afirma que “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz” e, mais do que isso, “os lugares onde se viveu o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio”. Os aspectos acolhedor e centralizador da casa se expressam em passagens como: “a casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. (...) Antes de ser “atirado no mundo”, como o professam os metafísicos apressados, o homem é colocado no berço da casa”.
Qual o papel dos espaços privilegiados que abrigam a intimidade para a constituição da memória? “É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas e se a casa se complica um pouco, se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. (...) Às vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando vai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. O espaço serve para isso. (...) Todos os espaços de nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são em nós indeléveis. E é o ser precisamente que não quer apagá-los. Ele sabe por instinto que os espaços da sua solidão são constitutivos. (...) Esses redutos têm valor de concha”.
A seguir, Bachelard busca separar seu objeto de pesquisa daquele da psicanálise, afirmando que para esta última interessa, sobretudo, o ser que se projeta para fora de si mesmo e exterioriza sua intimidade, enquanto que para o primeiro, trata-se de flagrar o ser e o inconsciente “tranquilamente instalados”, desfrutando da intimidade em seu refúgio mais perfeito. “O inconsciente normal sabe estar à vontade em qualquer lugar. A psicanálise ajuda os inconscientes deslocados, inconscientes brutalmente ou insidiosamente deslocados. Mas a psicanálise prefere colocar o ser em movimento a tranqüilizá-lo. Ela convida o ser a viver fora dos abrigos do inconsciente, a entrar nas aventuras da vida, a sair de si. E, naturalmente, sua ação é salutar. Uma vez que também é preciso dar um destino de exterior ao ser do interior. Para acompanhar a psicanálise nessa ação salutar, seria preciso empreender uma topoanálise de todos os espaços que nos chamam fora de nós mesmos”. Porém, o autor reafirma que “é à região da intimidade que consagramos nossas pesquisas. Ao poder de atração de todas as regiões de intimidade. Não há intimidade verdadeira que afaste. Todos os espaços de intimidade se caracterizam por uma atração. Repitamos uma vez mais que seu ser é o bem-estar”.
Na passagem seguinte, o autor se debruça mais atentamente sobre a evocação da casa natal pelo devaneio, não sem antes comentar a representação dos espaços de intimidade pela poesia e pela literatura. “Os valores de abrigo são tão simples, tão profundamente enraizados no inconsciente, que os encontramos mais facilmente por uma simples evocação do que por uma descrição minuciosa. (...) A casa primeira e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra. (...) Só eu, nas minhas lembranças de outro século, posso abrir o armário que guarda ainda, só para mim, o cheiro único, o cheiro das uvas que secam sobre a sebe. O cheiro das uvas! Cheiro-limite, é preciso muita imaginação para senti-lo. Mas já falei demais sobre ele. Se eu disser mais, o leitor não abriria, em seu quarto de novo revelado, o armário único, o armário com cheiro único, que assinala sua intimidade. Para evocar os valores da intimidade, é preciso, paradoxalmente, induzir o leitor ao estado de leitura suspensa. É no momento em que os olhos do leitor deixam o livro que a evocação do meu quarto pode transformar-se num limite de onirismo para outrem. (...) Há um sentido em dizer, no plano de uma filosofia da literatura e da poesia em que nos colocamos, que se “escreve um quarto”, que se “lê um quarto”, que se “lê uma casa”. Assim, rapidamente, desde as primeiras palavras, à primeira abertura poética, o leitor que “leu meu quarto” suspende sua leitura e começa a pensar em qualquer antiga morada. (...) Os valores de intimidade são tão absorventes que o leitor não lê mais meu quarto: revê o quarto dele”.
O que é a casa natal? “A casa natal está fisicamente inscrita em nós. (...) As casas sucessivas que habitamos mais tarde tornaram banais os nossos gestos. Mas ficamos surpreendidos quando voltamos à velha casa, depois de décadas de odisséia, com que os gestos mais hábeis, os gestos primeiros fiquem vivos, perfeitos para sempre. Em suma, a casa natal inscreveu em nós a hierarquia das diversas funções de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa e todas as outras não são mais que variações de um tema fundamental. (...) A casa natal, mais que um protótipo de casa, é um corpo de sonhos. (...) Se damos a todos esses retiros sua função que foi abrigar sonhos, podemos dizer que existe em cada um de nós uma casa onírica, uma casa de lembrança-sonho, perdida na sombra de um além do passado verdadeiro. Essa casa onírica é, dizia eu então, a cripta da casa natal. (...) Para explicar, pela vida afora, nossa atração pela casa natal, o sonho é mais poderoso que o pensamento. (...) Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança, é viver na casa desaparecida como nós sonhamos. (...) Assim, além de todos os valores positivos de proteção, na casa natal se estabelecem valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais”.
No trecho seguinte, Gaston Bachelard enuncia: “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. (...) Para por em ordem essas imagens, é preciso, acreditamos, enfocar dois temas principais de ligação: 1-) A casa é imaginada como um ser vertical. Ela se eleva. Ela se diferencia no sentido de sua verticalidade. 2-) A casa e imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade”.
Para tratar do tema da verticalidade da casa, o autor se vale da polaridade que se estabelece entre o sótão e o porão: “pode-se opor a racionalidade do telhado à irracionalidade do porão. (...) O telhado revela imediatamente sua razão de ser: cobre o homem que tem medo da chuva e do sol. (...) Todos os pensamentos que se ligam ao telhado são claros”. Em contrapartida, o porão “é, em primeiro lugar, o ser obscuro da casa, o ser que participa das potências subterrâneas”. Mas adiante, o autor toma de empréstimo uma imagem de C. G. Jung, contida no livro O Homem na Descoberta de Sua Alma: “a consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se no porão”. Continuando com Bachelard: “no sótão, os medos se “racionalizam” facilmente. No porão, mesmo para um ser mais corajoso que o homem evocado por Jung, a “racionalização” é menos rápida e menos clara; não é nunca definitiva”.
Adiante, o autor trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. (...) Nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. (...) A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. (...) À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.
O trecho final desse capítulo é dedicado à investigação da casa imaginada como um ser concentrado: “é preciso procurar na casa múltipla centros de simplicidade. (...) Em sua própria casa, na sala familiar, um sonhador dos refúgios sonha com a cabana, com o ninho, com os cantos em que gostaria de se encolher como um animal em seu buraco”. A seguir, o autor transcreve um trecho do livro Le Serviteur, de Henri Bachelin, que lança luzes sobre o tema da cabana inscrita na casa: “Eram horas em que com força, juro, eu nos sentia como que eliminados da cidadezinha, da França e do mundo. E eu me enchia de prazer – guardava para mim as minhas sensações – quando nos imaginava vivendo no meio dos bosques numa cabana de carvoeiros bem aquecida: eu gostaria de ter ouvido os lobos aguçarem as unhas no granito sem fim da soleira da nossa porta. Nossa casa fazia para mim as vezes de cabana. Nela eu me sentia seguro contra a fome e contra a sede. Se eu tremia, era só de bem-estar”. E Bachelard comenta: “a cabana, na página de Bachelin, aparece como a raiz que sustenta a função de habitar. Ela é a planta humana mais simples, aquela que não precisa de ramificações para subsistir. É tão simples que não pertence mais às lembranças, às vezes demasiadamente cheias de imagens. Pertence às lendas. É um centro de lendas. Diante de uma luz longínqua, perdida na noite, quem não sonhou com a palhoça, quem não sonhou, mais comprometido ainda com as lendas, com a cabana do eremita? (...) A cabana é uma solidão centrada. (...) Ela tem uma feliz intensidade de pobreza. A cabana do eremita é uma glória da pobreza. De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio”. E, tecendo considerações mais gerais sobre o devaneio e as imagens, acrescenta: “as grandes imagens têm ao mesmo tempo uma história e uma pré-história. São sempre lembrança e lenda ao mesmo tempo. (...) No reino da imaginação absoluta, somos jovens muito tarde. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo verdadeiramente, para vivê-lo na realidade de suas imagens, na sublimação absoluta que transcende qualquer paixão”.
Das análises de Bachelard, é importante retermos cinco pontos fundamentais:
1-) a casa é um ser evocado e sonhado, logo não redutível a uma análise fria e racional;
2-) a casa é o espaço do refúgio, da intimidade e da solidão; do ponto de vista fenomenológico, seu ser é o bem-estar;
3-) todas as casas que habitamos ao longo da vida repercutem a casa natal e é a partir das lembranças oriundas dela que elaboramos a casa sonhada;
4-) A casa é imaginada como um ser vertical;
5-) A casa é imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade.
Os pontos 4 e 5 nos remetem a dois temas que abordamos no primeiro capítulo, quando tratamos da figura de Héstia. Assim, a afirmação de Bachelard de que a casa é um ser vertical, desdobrada na análise que o autor faz do sótão e do porão, corresponde, em certo sentido, ao que Jean Pierre Vernant chamou de “caráter fundamental de ambigüidade” presente na figura de Héstia. Essa divindade, ao mesmo tempo em que permanece fixa e imóvel sobre a superfície terrestre, no centro da casa (ponto 5), atua também como o “o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”, de um lado ligando a casa com as potências subterrâneas e “enraizando a casa no mundo” e de outro, fazendo com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos, na forma da fumaça que sai da lareira (ponto 4). Sótão e porão, Olimpo e deuses ctônicos – a associação entre esses dois grupos de imagens, tiradas da mitologia grega e do que poderíamos chamar de uma filosofia da imaginação, nos leva a caracterizar a casa ao mesmo tempo como o refúgio, abrigo isolado que protege a solidão e o repouso, que confere um centro à existência humana e como o local privilegiado que une a superfície terrestre tanto ao mundo das profundezas subterrâneas, quanto ao mundo celestial, morada dos deuses. Não seria nenhum absurdo afirmar que a casa é dotada de um id e de um ego, assim como os seres humanos.

DA FUNÇÃO DE HABITAR - IV

IV

O capítulo seguinte do livro de Bachelard, “Casa e Universo” tem como propósito fundamental “ler” alguns quartos e casas escritos por grandes autores da literatura universal, embora também dê continuidade ao estudo de alguns dos temas presentes no capítulo anterior.
Num dado trecho, o autor retoma a discussão da adequação de uma abordagem racional para se apreender a casa e relaciona as dimensões humanas às formas da casa: “com efeito, a casa é, à primeira vista, um objeto que possui uma geometria rígida. Somos tentados a analisá-la racionalmente. Sua realidade primeira é visível e tangível. É feita de sólidos bem talhados, de vigas bem encaixadas. A linha reta é dominante. O fio de prumo deixa-lhe a marca de sua sabedoria, de seu equilíbrio. Tal objeto geométrico deveria resistir a metáforas que acolhem o corpo humano, a alma humana. Mas a transposição ao humano se faz imediatamente, desde que se tome a casa como um espaço de conforto e intimidade, como um espaço que deve condensar e defender a intimidade. Abre-se então, fora de toda racionalidade, o campo do onirismo”.
A problemática da dialética entre o castelo e a cabana é retomada na seqüência: “George Sand diz que se podem classificar os homens segundo queiram viver numa choupana ou num palácio. Mas a questão é mais complexa: quem tem um palácio sonha com uma choupana, quem tem uma choupana sonha com um palácio. Melhor, cada um de nós tem suas horas de choupana e suas horas de palácio. Descemos para morar perto da terra, sobre o solo da choupana e depois, em alguns castelos da Espanha, desejaríamos dominar o horizonte. E, quando a leitura nos deu tantos lugares habitados, sabemos fazer ecoar em nós a dialética da choupana e do castelo”.
Na continuação, Gaston Bachelard fala a respeito dos “devaneios que acompanham a ação de governar a casa”. “Assim, quando um poeta limpa um móvel, quando põe um paninho de lã, que esquenta tudo que toca, um pouco de cera aromática em sua mesa, cria um objeto novo, aumenta a dignidade humana de um objeto, inscreve o objeto no estado civil da casa humana. (...) Os objetos assim acariciados nascem realmente de uma luz íntima; chegam a um nível de realidade mais elevado que os objetos indiferentes, que os objetos definidos pela realidade geométrica. Propagam uma nova realidade do ser. Tomam lugar não só numa ordem, mas numa comunhão de ordens. (...) Se vamos até o limite em que o sonho se exagera, sentimos uma espécie de consciência de construir a casa nos cuidados que temos em mantê-la em vida, em dar-lhe toda a claridade do ser. Parece que a casa luminosa de cuidados é reconstituída pelo seu interior, que é nova pelo interior”. E o autor evoca algumas passagens de Rilke que dizem respeito aos pequenos atos de limpar, conservar e arrumar a casa, se detendo longamente nas sugestões e devaneios suscitados por tal matéria. “Chegamos aqui ao paradoxo que tem o começo de uma ação muito costumeira. Pelos cuidados com a casa, é dada a casa não tanto a sua originalidade, mas sua origem. Ah, que vida longa se, na casa, cada manhã, todos os objetos pudessem ser refeitos por nossas próprias mãos, “sair” de nossas mãos!”.
Finalizando esse capítulo, Bachelard nos conta algo a respeito dos desenhos de casa feitos por crianças: “toda grande imagem é reveladora de um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é um “estado de alma”. Mesmo reproduzida em seu aspecto exterior, fala de uma intimidade. Psicólogos, em particular Françoise Minkowska, e os trabalhadores que ela soube treinar, estudaram os desenhos de casa feitos por crianças. (...) Quando a casa é feliz, a fumaça alegre paira docemente sobre o telhado. Se a criança é infeliz, a casa traz a marca das angústias do desenhista. Françoise Minkowska expôs uma coleção particularmente comovente de desenhos de crianças polonesas ou judias que sofreram as sevícias da ocupação alemã durante a última guerra. A criança que viveu escondida, ao menor grito de alerta, num armário, desenha por muito tempo depois das horas malditas casas estreitas, frias e fechadas. (...) É medindo essas sutilezas que nos transformamos, como Françoise Minkowska, em psicólogo da casa”.
Esse último parágrafo é especialmente importante, pois nos mostra a grande importância que a casa e tudo o que a ela se relaciona têm para a psicologia humana. As lembranças, representações, evocações, devaneios, projetos, sonhos e recordações ligados a casa constituem o que Bachelard chama de um “corpo de sonhos” e não há exagero nenhum em afirmar, como ele o faz, que sem a casa o homem seria “um ser disperso”. O poder de concentração e a noção de centralidade conferidos pela existência da casa na vida de todos nós, garantem que nosso ser permaneça íntegro e em harmonia com o cosmos, mesmo em meio às tempestades e catástrofes que ameaçam o processo de individuação e a própria existência. Mais do que isso: como afirmamos no prólogo, a casa pode ser imaginada como um duplo do homem, na medida em que, pela sua própria conformação e organização, é capaz de dizer algo sobre nós mesmos que jamais tomaríamos conhecimento de outra forma. Encontrar correspondências entre determinados lugares privilegiados da casa e elementos da nossa constituição psíquica, como fazem Bachelard e C. G. Jung ao comparar o sótão ao ego e o porão ao id, não é somente elaborar uma metáfora ou um modelo para se compreender a mente humana. Assim, podemos dizer que ao vasculhar os confins da mente humana, lá encontraremos imagens provenientes da casa, da mesma maneira que quando nos debruçamos sobre a casa, nos deparamos com elementos da mente humana. São grandezas intercambiáveis.

DA FUNÇÃO DE HABITAR - EPÍLOGO

EPÍLOGO

Numa das passagens do ensaio de Bachelard, o filósofo afirma que o surgimento das grandes metrópoles acarretou um decréscimo dos valores de intimidade. Retomemos o trecho, que trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. Em caixas superpostas vivem os habitantes da grande cidade: “Nosso quarto parisiense”, diz Paul Claudel, “entre suas quatro paredes, é uma espécie de lugar geométrico, um buraco convencional que mobiliamos com imagens, com bibelôs e armários dentro de um armário”. O número da rua, o algarismo do andar, fixam a localização de nosso “buraco convencional”, mas nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. “Sobre o solo, as casas se fixam com o asfalto para não afundarem na terra”. A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. Da calçada até o teto, os cômodos se acumulam e a tenda de um céu sem horizontes encerra a cidade inteira. Os edifícios só têm na cidade uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já quase não há mérito em morar perto do céu. E o em nossa casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta aos diferentes cômodos um abrigo num canto do andar, um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores de intimidade. À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.
Diante dos obstáculos enumerados por Bachelard, coloca-se a questão: como estabelecer e criar espaços de intimidade numa metrópole? Será que seremos obrigados a recorrer aos livros e ao pouco que restou das residências do passado e da zona rural para empreender nossos devaneios e sonhos da casa? Sabemos que a exigüidade de espaços para grandes construções e o alto valor dos terrenos nas grandes cidades inviabilizariam qualquer tentativa de retorno à arquitetura de casas com porão, sótão, quintal, jardim, escadarias e longos corredores. E ainda mais preocupante do que isso: nos dias de hoje o espaço da intimidade se vê cada vez mais invadido por aparelhos e tecnologias que prometem trazer o mundo para dentro de casa, como o rádio, o jornal, a televisão e a internet. É comum as pessoas realizarem suas refeições diante da TV e a decadência da instituição familiar pode ser auferida a partir de qualquer estatística que mostre o crescimento vertiginoso do número de divórcios. O panorama, para os defensores do valor dos espaços de intimidade, é definitivamente desalentador.
Mas existe uma outra face dessa questão. Parece consenso entre uma corrente de sociólogos que o tempo gasto pelos seres humanos com atividades relacionadas ao trabalho tende a diminuir no futuro – o que implicaria num acréscimo de tempo dedicado a atividades de construção dos espaços de intimidade. Outro fenômeno bastante atual é o loft: trata-se de uma edificação que conjuga o espaço doméstico ao espaço de trabalho, o que evita o desgaste causado pelos longos deslocamentos automobilísticos tão comuns nas metrópoles. O conceito de loft surgiu nos Estados Unidos, quando alguns artistas optaram por alugar antigos galpões para transformá-los em moradias e ateliês. Não que o loft seja um caminho para se retomar os valores perdidos dos antigos espaços de intimidade: pelo contrário, o que seu conceito propõe é uma reavaliação da idéia de intimidade levando em conta parâmetros dos dias de hoje.
E se durante o século XX vimos os chamados eletrodomésticos tomarem conta das habitações, povoando-as de máquinas, luzes, fios, plástico e metal, hoje já se nota a preferência de boa parte dos consumidores por objetos que carreguem em si marcas humanizadoras, dotados da aura e da beleza que falta inteiramente aos utensílios high-tech. E certamente povoar nossa casa com objetos mais humanos é uma forma de erigir nosso espaço de intimidade como uma barreira frente à onipresença das máquinas que ameaçam nos transformar em coisas e dos noticiários e estatísticas que nos reduzem a números e casos particulares. Acreditamos que cada ser humano é único e insubstituível: assim devem ser também nossas casas e os objetos que a povoam, seja no nosso dia-a-dia, em nossos devaneios ou em nossos sonhos.

terça-feira, junho 28, 2005

LAR

Ao redor do fogo, cercado por paredes, coberto por um teto: o lar. Verdadeiro refúgio num mundo hostil, garantia de que todas as ameaças permaneçam trancadas para o lado de fora – nos primórdios eram os animais selvagens e as catástrofes da natureza, hoje são os outros homens, o barulho da cidade, os automóveis. Habitar um lar é dotá-lo de personalidade, fazer de uma casa qualquer a sua casa específica, dar cara e voz para os objetos inanimados e para os cantos e espaços mais escondidos. Habitar é preencher. Povoar a casa com meus objetos: essa minha vida que cabe nessas tantas caixas de papelão. Objetos que também contam a minha história da mesma forma que a soma de todas as casas que morei: são presentes, achados e escolhas que semeiam lembranças de tudo aquilo que eu fui e que vim a me tornar.
Me deito sobre o chão e sinto que esses objetos querem me dizer algo. Essa mesa grande e antiga que passou por outras tantas casas e absorveu de cada pessoa que um dia se sentou ao seu redor (para comer, escrever ou jogar cartas) alguma coisa de indefinível, mas palpável. Essa mesa que me olha com autoridade e parece querer me dizer que é capaz de resistir e durar muito mais do que esses frágeis e apressados humanos que se servem dela sem lhe render as devidas homenagens. No máximo um banho de lustra-móveis uma vez por semana. Me aproximo e a toco, observo detalhes na madeira que nunca tinha visto, a olho de baixo, subo e me deito sobre ela: a mesa. Dialogo com ela, pergunto sobre seu passado de árvore, os tempos de madeireira, de vitrine de loja, quero saber das crianças que desenhavam e dos objetos que com ela conviveram mais intimamente. Será o verniz que te faz tão macia? Ou a velhice que te deixou tão rígida? Encosto meu rosto sobre o tampo e apalpo com meus dedos os caminhos abertos pelos nós da madeira. Logo mais ela se cala, estática e ereta.
No canto da sala, o pobre criado-mudo – em cima dele o abajur. Na parede, os quadros abstratos não me mostram paisagens. Uma mulher esteve aqui. Sobre a mesinha repousam estatuetas, máscaras, castiçais, flores, pequenos animais de vidro, um incenso apagado, representações vulgares de deuses hindus. Dois sofás dispostos em L, no centro um tapete e sobre o tapete um pufe. Mais além o aparelho de som, o dvd, a televisão – encaixados e dispostos de um jeito que destoa do restante do aposento. Não sou de vasculhar gavetas. Gosto da cor e do tecido das cortinas, do porta-chaves pregado na parede e do capacho escrito “bem-vindo”. No mais são só almofadas, de diversas cores, formatos e tamanhos.
Me aquieto e fico a escutar a sala. Habitar é usar – pensar e conversar podem nos levar longe demais. A garantia de intimidade e conforto vem do domínio dessa linguagem silenciosa e oblíqua que não pára nem diz, simplesmente faz. Me recuso a evocar lembranças, desisti de saber de mim pelos outros – quero me apegar aos cheiros, as formas, as cores, as marcas do tempo e do desgaste engastados nessas coisas que me cercam num afago familiar, mas não dramático. Os objetos ao meu redor desconhecem a precariedade do universo humano feito de maquiagem e teatro. Existem, são úteis na medida do possível e isso basta.
Sou feito de recortes e retalhos. Das coisas que compro, das coisas que escolho, das coisas que guardo com carinho e só mostro pra pessoas especiais em ocasiões de gala. Receber alguém em casa é como se despir: mostramos partes de nós mesmos que ficam ocultas para o mundo. É preciso saber receber presentes, saber dispor os objetos com proporção e método, de modo que eles sejam fiéis à anatomia do meu espírito e digam algo de novo para as pessoas. Que os pobres objetos sussurrem para quem ousar profanar meu recinto sagrado: EU ESTOU AQUI EM TODAS AS PARTES.

sexta-feira, junho 10, 2005

NOVIDADES

Gilberto esqueceu de acordar de manhã. Maria Cláudia sabia de tudo desde o começo, mas preferiu omitir certas passagens picantes da narrativa para não molestar a saúde frágil do velho patriarca. Luis Flávio comprou um par de algemas, duas caixas de calcinhas comestíveis, um pote de cinco litros de gel ky, inúmeras camisinhas com sabores sortidos de frutas e um par de óculos com lentes cor-de-rosa. Samara percorreu setenta e dois quilômetros montada no lombo de um jumento só para ser a primeira a chegar à grande liquidação de queima de estoques das casas afonso josé. Quinze manifestantes palestinos foram presos quando faziam algazarra e guerra de comida dentro da praça de alimentação de um shopping center de São Paulo. O avô da senhorita Cathy teve alta do pronto-socorro após engolir um coelho vivo. Maria Cláudia não está, pois foi fazer depilação com cera quente e tratar da cutícula infeccionada. Leonardo Braga arrematou uma cobertura com heliponto nos jardins após fazer um lance que deixou todos na sala de leilão boquiabertos: quatrocentos e vinte e sete milhões trezentos e vinte e dois mil e quarenta e sete reais à vista. E quinze centavos, fora a caixinha. Um amigo meu que mora na Bahia perdeu as chaves do apartamento e teve que dormir na casinha do cachorro. A Coréia do Norte foi parar no meio do oceano índico após uma revisão nos atlas da sociedade britânica de geografia política e terrorismo. A literatura universal completou ontem seis mil, oitocentos e vinte e três anos de idade em grande estilo, numa festança que se estendeu madrugada a dentro e reuniu a nata da marginalidade suburbana numa casa de massagens na rua augusta, esquina com a )...(. Maria Cláudia arremessou o telefone celular no vaso sanitário após uma crise de histeria. Gilberto se esqueceu dos compromissos do período vespertino e preferiu continuar a dormir.

A INTRÉPIDA FAMÍLIA

A família toda reunida para o jantar, coisa que não acontecia desde o enterro de tia Ildegarda e acho que isso foi em 91, se não me engano. A mais velha das filhas, Elizabete, foi morar nos Estados Unidos e era a primeira vez que voltava para o Brasil – pelo menos era o que o pai pensava – e o Joca, sobrinho da Rute, dava risadinhas para o primo quando a Bete se punha a falar daquele jeito engraçado, com um sotaque esquisito, puxando todos os erres e colocando as palavras mais estranhas no meio das frases mais triviais:
- Como é mesmo que chama aquele negócio que a gente põe no coffe pra ficar doce?
O cachorro não dava sossego para a avó, se esfregando pelas pernas dela com o rabo como se fosse um gatinho siamês. O tio Wilson, como sempre, implicava com a televisão e dizia todo bravinho que não tinha cabimento todos desperdiçarem a primeira (e talvez a última) oportunidade de se encontrarem depois de quase vinte anos assistindo essas porcarias de programas de auditório. A avó não escutava, mas Rute respondia que ele era um exagerado, ora essa, afinal não tinha nada demais e ajudava a distrair as crianças e além do mais daqui a pouco ia começar o seriado que a avó gostava de assistir, aquele com o homem que tinha uma capa azul e uma mulher que ficava invisível. E a mãe logo vinha correndo lá do fogão com o avental todo desbotado, empunhando uma escumadeira e querendo apartar toda e qualquer rusga que pudesse comprometer o sucesso daquele almoço, que um dia antes ela qualificara com o adjetivo de histórico. Mas no que ela virava as costas, as piadinhas todas voltavam.
Rubens lia o jornal e fazia caretas para as notícias de economia, as crianças corriam atrás do cachorro tentando grudar um pedaço de fita crepe no rabo dele e o pai fumava cachimbo e tentava atrair a atenção do tio Wilson com comentários sobre a última rodada do futebol. O marido da Rute quis se meter no meio deles, mas o pai não levava minimamente a sério suas opiniões – o marido da Rute era palmeirense roxo e não tinha nenhum interlocutor para assuntos futebolísticos naquela sala de jantar que parecia pequena demais pra tanta gente ali naquele momento. Os homens se serviram de um aperitivo: vodca sem limão e uns canapezinhos para beliscar enquanto a comida não saía. O Joca-sobrinho-da-Rute reclamava para todas as mulheres da sala que estava com fome, mas não tinha coragem de ir até a cozinha e expor seu drama diretamente à mãe. Ninguém tinha pena dele e depois de insistir (mas nem tanto assim) desistiu e foi olhar a sessão de quadrinhos do jornal.
Elizabete se queixou do calor. Rubens se queixou do dólar. Tio Wilson reclamou da zaga do Corinthians. A Rute, coitada, teve que repreender o sobrinho duramente em público pela oitava vez em menos de vinte minutos porque ele queria jogar os bibelôs da avó dentro do aquário. O pai não se queixava de nada específico, mas fazia cara feia cada vez que alguém falava alguma coisa sem esperar o consentimento dos olhos e do intelecto privilegiado dele. O primo do Joca queria puxar o pano que cobria a mesa sem derrubar os copos nem os pratos, que nem ele tinha visto num filme na noite anterior. A mãe queimou o dedo de leve na panela de arroz.
E o almoço, enfim, foi servido.
Almoço não: jantar.
Durante a entrada, Elizabete teve um infarto e quatro pessoas se encarregaram de tentar reanima-la e leva-la com vida até o hospital mais próximo, que na realidade ficava bem longe. As crianças, depois de uma meia-hora, foram as primeiras a sentirem os sintomas da intoxicação alimentar. Tio Rubens morreu ali mesmo na rede, cochilando e ninguém nem deu bola até o dia seguinte. A Rute, coitada, pegou uma infecção hospitalar nisso de levar a Elizabete e depois já voltar, pegar as crianças, ir pro hospital de novo, perceber que não tem mais vagas, ir pra outro hospital ainda mais longe, etc. A mãe morreu de desgosto umas poucas horinhas depois e o cachorro fugiu pelo portão da frente, que ficou aberto no meio daquela correria toda. A avó morreu de causas naturais, segundo o relatório do médico legista.
E o pai, verdadeiro herói grego, herdou todos os bens da família: quatro notas promissórias e a conta de tantos caixões, velórios e jazigos.

quinta-feira, abril 28, 2005

Encontros Improváveis

Encontros improváveis: da janela do meu msn te vejo peladinha derramando iogurte desnatado sobre certos pêlos que se confundem com as estampas traiçoeiras do sofá, cantando uma antiga balada provençal que eu te ensinei numa noite dessas de bebedeira sem fim pelas ruas mais negras do quase-centro de são paulo. Em vão eu vomito caracteres e dedilho meu mouse querendo chamar sua atenção. Como você mesma me ensinou num desses domingos cor de açafrão de miséria e ressaca, para mulheres como você a questão não se resume a saber teclar um botão. São todas essas palavras inúteis que não se confundem com nossos gestos e na hora H geram toda aquela confusão: falar pra quê? Inútil eu ficar te olhando e desejando esses pontos luminosos sobre a tela, mais vale a modelo nua do que o pintor com a brocha na mão. Só te peço duas coisas por hoje: uma filha menina com o seu jeito safada-mas-santinha de olhar e que, pelo amor de D, você jogue essa webcam no chão (nada mais cruel prum homem do que ficar iludindo com miragens essa louca tentação).

segunda-feira, abril 18, 2005

Gramado e piscina

Gramado e piscina (valem mais que um jardim nos jardins): crianças, nada de jogar bituca de cigarro no chão. Uma ponta ou outra, ok, afinal papel de seda é biodegradável. Eu pelo menos degrado umas várias por noite de balada. Latinhas, latinhas, latinhas que se juntar tudo valem uma puta grana. Ou não. Vale mais o líquido dentro do corpo, se acumulando mais de um lado que do outro, quem sabe por isso que eu tombo e tropeço e tropico tanto quando ando cambaleante em direção ao isopor. Como assim não tem mais uma? Sempre tem mais (bocas). E pelas bocas e bocadas é que nós vivemos e bebemos e nos batemos e beijamos. Sim, podis crer. Bebeijamos.

sábado, abril 16, 2005

Vila das Marias e Madalenas

Vila das Marias e Madalenas, pontuais penteadas aos bandos, tantas mesas feitas de calçada, alegria feita de vinho e os outros tantos engradados (engraçados) de cervejas esquecidas de pagar, penduradas insuspensas debaixo de qualquer cadeiramesa plástica pixada qual a parede oblíqua de um banheiro improvisado entre os fumadores de beques e pontas e meias camisa dez escorre o líquido mijosanguebrejaporrababa. Alucinígenas.
É, nada além de uma mesma sexta-feira.

segunda-feira, março 21, 2005

Receita de Milênio

É preciso confiar menos nos cálculos
Não inferir verdades de gráficos e estatísticas
Ler menos jornal, deixar de freqüentar a igreja

É preciso escutar menos os professores
Não se deixar enganar pelo encanto da publicidade
Ir menos ao shopping, andar mais a pé
Comer menos comida pronta, parar de olhar tanto pro espelho

É preciso desconfiar dos médicos, tomar menos cuidados
Anular seu voto, abandonar o emprego
Dar mais ouvidos ao que dizem as crianças
Rasgar dinheiro, apedrejar agências bancárias

É preciso lutar contra a fabricação de armas de fogo
Pela desmobilização dos exércitos e contingentes policiais
Abolir fronteiras, demolir muralhas, facilitar acessos
Acabar com o sistema judiciário e com a democracia representativa

É preciso ser menos obsessivo, menos compulsivo
Menos mesquinho e menos autoritário com nossos parceiros
Aprender a lição do amor que não é posse
Em busca de algum valor humanista no embate diário contra a barbárie

No mundo de hoje

No mundo de hoje
A Razão só existe como racionalização:
As velhas e as novas desculpas
Embora a culpa não seja nem do pensamento
nem da linguagem
Mas no que eles têm de limitado e de redução.

Os cientistas querem ver no raciocínio abstrato o grande ápice da evolução
Mas a gente que aprendeu do poeta sabe
Que existe o reverso sombrio em cada boa intenção
O irracional é a madeira podre e a razão é o verniz
De nada valem doutorados e tecnologias sofisticadas
Se a ciência só faz fomentar miséria e alienação.

No plano pessoal, fechamos os olhos e nos enganamos voluntariamente
E das esferas coletivas nos omitimos desde sempre
- Ah, como o ser humano gosta de ser pisado!
- E viva o mercado e viva o ministério da boa educação!

quinta-feira, março 17, 2005

MANIFESTO, O FILME

Teatro filmado.
Calcado no exagero e na poesia.
O grotesco dos berros despropositados, vida que pulsa para além do aparato, cenas gigantes que não cabem no olho da câmera.
A falta de acabamento e precisão apontando para aquilo que não tem medida nem fim.
O lugar do feio, da dicção confusa e truncada, da fala errada sem ninguém pra editar.
O vídeo caseiro, a webcam e as filmagens de batizado e casamento.
Experimentar o tremor do cinegrafista e se regozijar no que não foi filmado mas estava logo ali ao lado.
Multidão, bagunça e auê.
Político e jocoso.
A busca do momento que não se repete, lamento monótono da arte.
O ato de filmar em primeiro lugar.
O filme pronto e o bem-estar do telespectador em último.
Rompendo o tecido do bom-gosto só pra não perder a piada.
O trash com conteúdo.
O prazer de estar junto e fazer arte do happening, da balada e das estréias na vida.
Teatro falado mas bem feito.
Mal filmado mas direto ao ponto.
A poesia, o teatro e o cinema em pé de igualdade no filme.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O BRASIL E A VIOLÊNCIA

O discurso sobre a violência é hegemônico em nossos dias. Domina a retórica dos políticos de todos os partidos, as páginas dos jornais, a ação das ONGs, a conversa dos pastores, das donas de casa e mesmo o imaginário dos cineastas; influencia até na escolha do lugar onde o cidadão almeja morar: os objetos de desejo nos dias de hoje são carros blindados e mansões de muros altos em condomínios fechados protegidas por mercenários muito bem armados.
Porém, quando invoca a violência como justificativa para tais atos insanos de paranóia e auto-defesa, o brasileiro médio faz uso de uma fraseologia oca, bastante cara às camadas dominantes do país, a qual supõe o comportamento violento como algo inerente e exclusivo a determinados maus indivíduos. Um grupo, aliás, não muito fácil de definir, já que nem todos são oriundos da miséria, tiveram poucos anos de escolaridade ou uma estrutura familiar precária. Genericamente denominados como bandidos e marginais, esses “outros” seriam em tudo distinto de “nós”, cidadãos de bem. Embora não sejam os únicos responsáveis pela onda avassaladora de violência que assola a cidade e o campo, são de fato os únicos que podem ser culpados e presos, já que não convém supor que fatores abstratos, tais como a desigualdade social e a falta de educação, cultura e infra-estrutura material, possam ser resolvidos da noite para o dia (aliás, esses fatores são vistos em nosso país mais como fenômenos da natureza do que como assuntos pertinentes aos políticos, juizes, desembargadores e policiais).
Tal raciocínio simplista mascara o fundamental: em nosso contexto histórico e social, a violência não é uma disputa de faroeste entre mocinhos e bandidos, mas sim a face mais visível de um enfrentamento de classes inconciliáveis e antagônicas, o qual se perpetua e renova desde as primeiras tentativas de expandir a civilização européia para este continente. É a velha história: de um lado, o punhado de possuídos com todo o aparato de um estado feito desde sempre por e para eles, além de um vasto arsenal bélico e ideológico de dominação, que vai da polícia e da justiça até o sistema educacional e a novela das oito. Do outro lado, nos deparamos com a massa de despossuídos, que conta com pouco mais do que seu instinto abnegado de sobrevivência e a força de ser uma gigantesca maioria, da qual os movimentos situados na outra margem da lei, como o tráfico de drogas e o MST, recrutam seus pequenos exércitos subversivos.
Uma luta desigual e com resultados previsíveis, mas que nem por isso deixa de ser travada diariamente, inclusive porque a dominação de classes precisa ser reafirmada a cada instante num ambiente hostil como o terceiro mundo, no qual a ordem capitalista e a correspondente ideologia burguesa (que hoje atende pelo nome de instituições democráticas), nunca se consolidaram plenamente e sem contestação.
Desse modo, podemos compreender a violência, para além da esfera jurídica e individual estabelecida, como o produto de um embate entre sujeitos históricos coletivos, que se dá nos mais variados campos da sociedade civil. A proliferação das relações humanas pautadas pelo autoritarismo e pela vontade de poder sádica e ilimitada, é um sintoma que pode ser verificado não só na esfera do trabalho e da política, mas também na família, nas relações amorosas, no convívio entre vizinhos, na arquitetura da exclusão que monopoliza a paisagem dos grandes centros urbanos, na indústria cultural e do lazer, no sistema educacional, na mídia, nas relações entre cidadão e estado intermediadas por uma monstruosa burocracia, nas seitas, nas igrejas, na relação do homem com o meio-ambiente e praticamente em qualquer outro nicho social para o qual voltemos nossa atenção.
Assim, chegamos a uma definição de violência bastante próxima daquela proposta pela filósofa Marilena Chauí: violento é o comportamento que transforma o outro em objeto e lhe nega a autonomia de agir como um sujeito livre. Disseminado por todos os indivíduos e presente nos menores atos cotidianos, o mal não pode ser identificado como um atributo exclusivo de um determinado grupo, que deve ser trancafiado em penitenciárias para expurgar o corpo social dos seus elementos nocivos. Devemos transferir o problema do mal da esfera da moral para a esfera da política, esta última entendida aqui como a arena dos debates públicos e de largo alcance e não como a comédia parlamentar-presidencialista-democrática encenada a cada quatro anos pelos eleitores para consolidar e legitimar uma ordem já de antemão estabelecida.
Tratar do problema com aqueles que se guiam pela religiosidade cega é mais complicado. De nada valem argumentos racionais para quem se orienta pelo irracional e pela revelação divina intermediada pelos pastores, médiuns e padres e que crêem sinceramente que o Mal é um problema relacionado com a influência do Demônio nesse planeta tão mal-criado por Deus. Aqui não vejo outra solução a não ser o enfrentamento aberto e escancarado: iluminismo ou morte.
Politizar o discurso da violência, de um modo que ele possa acolher suas diferentes nuances e modalidades, é desmascarar ideologias e inventar alternativas novas para organizar os homens e mulheres em sociedade. Não abriremos mão de nossas utopias de igualdade, justiça social, liberdade e não-violência. O discurso do conformismo e do fim da história, que sempre caíram tão bem para os poderosos e estão muito em voga desde 1989, não se sustentam quando defrontados com uma análise racional honesta e que leve em conta a urgência dos fatos que maltratam nossos olhos cada vez que damos dois passos pela calçada e nos deparamos com a miséria humana espalhada por todos os lados. A história evolui em espirais e em breve a energia vital represada pela violência de cima para baixo pode de explodir numa convulsão social que derramará muito sangue. E não é isso o que queremos para o nosso futuro.

sábado, fevereiro 19, 2005

O Deserto

Mais três passos e eu vou cair – foi o que ela pensou assim que cruzou a linha que dividia o deserto ao MEIO. O céu de puro azul que ocupava exatamente metade do seu campo de visão muito pouco significava no instante em que se ouviu o primeiro disparo, mas pouco a pouco ele passou a se tingir das cores mais improváveis – única testemunha, embora incapaz de ver, das asas do anjo que estrebuchava vermelho ali no chão. O crime sim era um desfecho razoável para a vida dela, que terminara ali: três passos adiante. A morte nivela tudo por baixo.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Havia flores no quarto

Havia flores no quarto, pétalas brancas se esparramando pela cama, refletindo suaves as luzes foscas do abajur. Os instrumentos de sopro, a percussão leve ao ritmo do vento, o laranja apocalíptico do céu noturno da cidade grande: a janela abria, fechava, rangia em suas juntas velhas, perdida toda memória da infância. A blusa azul que vestia a cadeira, inquieta girando a bailarina do quadro na parede, suja das manchas de vinho no tapete. O cigarro repousava no cinzeiro. E os livros que se quedavam mudos nas estantes dialogavam telepaticamente com os discos na vitrola. O homem estava morto.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

A menina

A menina espremida no meio da multidão mal teve tempo de olhar para trás. Por todos os lados do ar chegavam partículas de som e os canhões tingiam de colorido a espessa fumaça, tudo atuando na mente de maneira complementar aos aditivos químicos. Tudo fabricado para desorientá-la e livrá-la, por uma noite que fosse, do tormento de pensar e existir. Será que alguém lúcido poderia confundir aqueles movimentos desordenados e caóticos do seu corpo com a arte da dança ? Pouco provável mas o fato é que seus olhos brilhavam mortos antes de estender seu pescoço e me oferecer aquele beijo com hálito de cerveja.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

História singela

Quando ela entrou pela porta da cozinha de maquiagem borrada e roupa amassada e me flagrou tomando café em plena manhã de terça feira eu tive a prova definitiva. Nunca fui de ser ciumento ou fazer cena, de modo que procurei ajeitar as coisas da maneira o mais diplomática possível. Ela chorava mas logo se via que era fingimento, um efeito secundário do whisky e da cocaína que ela ingerira durante a madrugada na casa do amante. Ainda tive tempo de comer os últimos sucrilhos amolecidos pelo leite no fundo da tigela. Caminhei pela sala lentamente e pude ver pela janela seu corpo despencando do vigésimo terceiro andar.

sábado, fevereiro 05, 2005

Carnaval

Ela sorriu satisfeita quando o pierrot apareceu: depois de tantos anos já se fazia senhora no jeito de olhar e nos cabelos grisalhos. A orquestra executava a peça com impaciência, tropeçando as notas e maltratando a velha canção: os bêbados fantasiados, no entanto, pouco ligavam. Um ou outro escorregava no vômito que se espalhava pelo chão e mal se podia dançar no pouco espaço do salão: a cocaína era cheirada aos montes nos banheiros escuros e promíscuos que se enchiam, monopolizando a atenção. Gritos se ouviam do lado de fora e um princípio de incêndio chegou a preocupar a população. Colombina agarrou pierrot pela gola e deu-lhe um longo beijo de língua.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

História de praia

Os crustáceos nervosos davam muito pouca importância aos dois amantes que transavam ali desconfortavelmente em cima da pedra. Os moralistas diriam que o sol ficara vermelho de vergonha mas prefiro acreditar que tal fenômeno decorria da proximidade iminente do crepúsculo. Os gemidos estridentes dela não eram de todo abafados pelas ondas, mas dizer que os mariscos se importunavam com isso seria forçar a verossimilhança da narrativa. O que se viu realmente foi a gargalhada sarcástica do grande siri uns poucos segundos antes da onda arrastar os dois amantes para os abismos da morte.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

o homem e a máquina

O homem inventou a máquina que escravizou o homem que projetou a máquina que mudou o homem que desmontou a máquina que mutilou o homem que consertou a máquina que desempregou o homem que desligou a máquina que auxiliou o homem que quebrou a máquina que revolucionou o homem que dirigiu a máquina que traiu o homem que comprou a máquina que educou o homem que programou a máquina que salvou o homem que perdeu a máquina que transportou o homem que chutou a máquina que enriqueceu o homem que alimentou a máquina que alienou o homem que destruiu a máquina que assassinou o homem que pariu a máquina que oprimiu o homem que partiu a máquina que libertou o homem.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

SEXTA-FEIRA COM CHUVA

A menina em questão e eu, no apartamento, tinha mais gente, tinha vinho e tinha pizza, tinha cartas na mesa. Pirei, chapei, passei mal. Normal, tipo, era como se a gente entrasse no castelo dos destinos cruzados (ou nem tão cruzados assim) eu e a menina em questão – de repente ela tava ali e jogava também. Jogar é como brincar, mas nesse caso envolvia pesos e balanças, sutilezas anti-gravitacionais que tavam ali pairando no espaço instantâneo de um olho até o outro. E eu fiquei mesmo ali jogado, tipo, sabia muito bem que podia ser muito mais, mas na minha cabeça tinha a questão da menina. Você já foi pra Vênus? Acho que lá deve ter gente com boca cor-de-rosa e olhos com a dimensão de galáxias... Mas não sei se cheguei mesmo a ir até Vênus, talvez tenha chegado até a porta e, tipo, dado meia volta. Onde estava minha força toda? Eu escorria que nem tinta fresca diluída em água de tempestade, me desfigurava entre uma menina e uma questão. Lembro que havia muita fumaça, era difícil enxergar os meio-tons na meia escuridão do abajur, meus olhos mesmo eram uma alucinação encarnada. Sei também que a intimidade em certas horas invadiu a sala, mas jamais chegou a se sentar no sofá. É possível tocar só com os olhos, sem dizer nada, sem pôr as mãos no braço da menina? Mas essa já é uma outra questão. E enquanto a noite chovia eu ia me encolhendo (cadê minha entrega? cadê minha presença?), tipo, pensava no ontem que tinha sido tão melhor – sorrisos, cervejas, risadas, vozes altas – e agora de novo eu de repente tinha perdido toda graça outra vez. Meu jeito torto de amar as pessoas. Fingir alegria se ainda havia a questão, fingir interesse seria escancarar demais meu coração. E se ela achar que eu não quero? Mas eu quero demais e sabia que não podia ser assim tão apático e medroso, cristal que cai e se espatifa em mil pedaços no chão. Transcende o lance das impressões, tá muito além do beijar ou não beijar, é muito mais a coisa de enxergar o ser amado como o ponto para o qual converge todo o nosso desejo. Toda a nossa insegurança. Comigo então nem se fala, será que depois de tanto tempo sozinho eu desaprendi? Amo e preciso arder. Amo e meu dever é conquistar. Aí tá a questão, aí tá a menina (olhos que lêem minhas letrinhas no papel). A menina em questão.
21/10/2001

segunda-feira, janeiro 31, 2005

UM QUADRO NA PAREDE

Depois de sete anos e três meses, eu consegui me formar na faculdade. Não digo que fui um aluno exemplar, mas sobrevivi a quatro greves, três reitores e cinco mudanças radicais na estrutura ou na grade curricular do curso. Estudei dois anos e meio de húngaro e depois resolvi me mudar para o sânscrito, embora para a universidade conste que eu tenha me formado em neurolingüística. Pouco importa, aliás nada mais me importa agora que eu concluí meu terceiro grau.
Fui buscar o diploma ontem. Confesso que senti uma ponta de tristeza, algo como uma saudade por antecipação por estar visitando pela última vez um lugar que por tanto tempo fez parte do meu dia-a-dia. Mas era uma tristeza boa, misturada com a felicidade por estar encerrando mais um ciclo na trajetória do meu destino e partindo para horizontes mais largos, ou seja, o resto dos meus dias daqui pra frente. Claro que eu pretendo fazer mestrado, mas isso já vai ser uma outra história.
Depois que cheguei em casa, quando estava na cama pronto para dormir, fiquei olhando fixamente por um longo tempo para aquele papel e me admirava de poder ler nele o meu nome escrito. As imagens todas que eu guardo da minha vida passaram pela minha cabeça naquela hora. Sonho misturado com lembranças, sei que rolei muito pela cama antes de conseguir adormecer.
Hoje fui mandar pôr o papel do meu diploma numa moldura para poder pendurá-lo na parede da sala de casa. Procurei na internet uma empresa que me prestasse esse serviço e que fosse próxima de casa e não tive dificuldades para encontrá-la: Molduras Artísticas Cambará, rua Nelson Manequinho, 1654. Logo depois do almoço, coloquei o diploma numa pastinha de elástico azul-marinho, tomei um ônibus, caminhei uns cinco quarteirões e enfim cheguei ao tal endereço. Numa rua tranqüila e arborizada, entre imóveis residenciais e um pequeno comércio de bairro de classe média aburguesada, localizei um sobradinho pintado de rosa e salmão, no qual uma tabuleta retangular com erros de ortografia e uma vitrine mixuruca com uma grade na frente, indicavam se tratar da loja de molduras que eu procurava.
Entrei e logo dei de cara com um balcão, que estava vazio. Procurei por um sininho ou algo do gênero para chamar a atenção, mas não encontrei nada. Notei os diversos modelos de molduras pendurados e espalhados pelo recinto, de todas as variedades, formatos e tamanhos que você possa imaginar. Do outro lado do balcão, havia uma estante de madeira com uns objetos de decoração toscos, alguns livros, cadernos e talões de nota fiscal; além disso, uma porta branca entreaberta ligava a sala com um outro cômodo que eu não podia ver, mas do qual vinham alguns barulhos de martelada esporadicamente. Um telefone tocou e uma voz de homem atendeu: Cambará Molduras Artísticas, boa tarde. Sem que eu percebesse muito bem de onde, uma mulher muito nova e sorridente surgiu e de pronto me disse: pois não, em que posso ajudá-lo? Respondi que queria uma moldura para o meu diploma e fui abrindo a pastinha de plástico azul-turquesa. Depois, entreguei a folha de papel para a moça, que tinha dedos fortes e roliços, um nariz muito bem esculpido e uns olhos deslumbrantes, embora o corpo e a estatura não fossem lá muito proporcionais ao conjunto. Ela mal se deu ao trabalho de ler o que estava escrito no meu certificado e logo sacou um fichário preto com a capa descascando que estava embaixo do balcão, me dizendo assim:
- Que tipo de moldura o senhor deseja? Temos aqui diversos modelos, veja só.
E começou a folhear o fichário, comentando e descrevendo os diferentes materiais, cores, comprimentos e texturas disponíveis. Sinceramente, eu não conseguia distinguir bulhufas e nem demonstrei empatia por nenhuma das molduras em particular, até porque estava ocupado demais tentando olhar para os peitos da mulher pelo decote quando ela se abaixava ligeiramente para virar as páginas moles com as figuras do fichário. Só me recordo que no final ela disse algo como:
- E temos aqui um produto que é uma exclusividade da loja, uma novidade no mercado que promete revolucionar o conceito de design de molduras, incorporando uma tecnologia inovadora, que o meu patrão mandou trazer da China.
- Mas do que se trata especificamente? – eu disse.
- Se eu te contar você vai achar que é mentira, que eu estou querendo tirar uma com a sua cara, você não vai acreditar.
- Conta logo. Fiquei curioso.
- Bom, trata-se de uma moldura super prática e moderna que, pasmem, dispensa o uso de pregos e adere sozinha à parede, podendo inclusive ser pendurada de ponta-cabeça ou mesmo no teto! – disse ela extasiada.
- E como funciona isso? – eu disse
- Funciona por um processo de reversão de íons à vácuo, que ocorre quando se desencadeia uma reação entre um certo componente químico da tinta e a parte detrás da moldura, que é revestida com um material todo especial fabricado numa base militar chinesa num arquipélago do oceano Índico e vem importado diretamente para cá. Somos os primeiros distribuidores a trabalhar com esse produto na América Latina. – ela falou, toda empolgada
- E que material todo especial é esse? – eu disse sem muito entusiasmo, mais para manter a conversa
- A composição exata é segredo industrial e nem o meu patrão sabe, mas o que eu posso te dizer é que é uma fibra sintética a base de ironia.
- Você quer dizer que essa moldura que não precisa de pregos é feita de ironia?
- Exatamente. Uma moldura de ironia nas cores café, bege e hortelã.
Olhei com mais atenção para o fichário e me decidi:
- Vou levar essa aí mesmo, café. Quando posso vir buscar?
- Olha, se o senhor preferir a gente pode estar entregando o produto na sua residência no prazo de dois dias úteis.
- Não, não. Não precisa, não. Eu mesmo venho buscar. Será que até amanhã no final da tarde fica pronto?
- Claro, isso com certeza. O senhor você vindo nesse horário que veio hoje já estará prontinha a sua moldura, eu posso garantir.
- Então tá ótimo. E quanto custa essa moldura feita de irenia? É irenia que fala?
Ela mudou um pouco de tom ao dizer:
- Eu vou ser sincera com você: o custo da moldura de ironia é um pouquinho maior do que o das outras, porque o senhor entende, trata-se de um produto importado e a cotação do iene subiu.
- Não tem importância. Pode encomendar essa daí mesma que eu gostei. Bom, então vou indo, muito obrigado e até amanhã.
- Eu que agradeço. Volte sempre. Tchau. – ela sorriu gostoso e fez um aceno com a mão.
- Tchau.
Não sei se ela compreendeu bem que eu queria voltar amanhã para poder vê-la de novo, mas tudo bem. O que importa é que a partir de amanhã eu serei um homem com um diploma na parede.