Não eram rios de lágrimas e nem correntezas de chuva
os primeiros sinais que precederam a chegada da morte vinda do horizonte.
Para conquistadores desterrados a vida é que é cor de cinza
o manto que veste a morte cheira muito mais multicolorido.
Canções cuja melodia havia se perdido na poeira do tempo
ainda ontem ressurgiam repaginadas em sinfonias de assovios.
Numa sala de cinema completamente deserta
o homem de chapéu preto na primeira fileira cai em convulsão.
Ainda ontem, naquela esquina ali, existia um casarão de 1919 que,
por abrigar moradores de rua e sem-tetos, foi demolido a marretadas.
Com a morte de alguém, vai embora uma maneira singular de ver a vida:
ou vai pra nenhum lugar ou pode ser que volte pro caos d´onde tudo isso veio.
São as cidades oníricas que compõem a minha alucinação
num transporte pleno às dimensões paralelas que não são ficção.
De uma paisagem do meu tempo de infância, da rua onde eu morava
somente restaram algumas manchas opacas na memória de uma velha cega.
Para melhorar a circulação dos vapores na zona urbana
convém transpôr os cemitérios para além dos muros da cidade.
Quando a moça fantasiada de enfermeira vier de novo ao quarto
peça-lhe que cubra o meu rosto e ponha um chumaço de algodão nas minhas narinas.
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
quinta-feira, dezembro 23, 2010
sexta-feira, dezembro 17, 2010
Dever Ser
O telejornal prescreve detalhadamente
a maneira como a vida do consumidor deve ser:
poupar sempre parte do salário para as eventualidades
investir no sonho da casa própria financiada em suaves 300 prestações
trocar o modelo do automóvel velho todo fim de ano
só gastar o mínimo necessário para ser considerado consumista
não ter mais do que dois cartões de crédito
separar uma grana pras despesas fixas de se sobreviver
e cortar tudo o que for supérfluo, dos vinhos importados
a toda e qualquer forma transgressiva de lazer.
O chefe prescreve detalhadamente
a maneira como a vida do escravo deve ser:
o homem que mora na rua não escreve
a tia vende suas entranhas cruas pra se sustentar
são as cerimônias públicas de suplício e expiação
em nome de um ideal de higiene e pseudo-moralidade
hoje pra ver um enforcamento bom, só mesmo se for pela televisão
pastores evangélicos berram salmos cuspidos em plena praça
nessa cidade os exorcistas também têm seu próprio sindicato
catequese, pelourinho, pãozinho de queijo e a santa inquisição.
O poder público prescreve minuciosamente
a maneira como a vida do cidadão deve ser:
em busca da concessão de um cartório vitalício
é direito e dever defender o princípio da democracia
reconhecer que existiria em tese um estado de direito
saber que as instituições saem fortalecidas dos escândalos de corrupção
bater palmas pra polícia que invade o morro
não se pode ser contra o interesse nacional e a liberdade de expressão
o que resta é escolher entre dois que já foram escolhidos
nada de desobediência civil nem de tentar fazer justiça com as próprias mãos.
O imperialismo cultural prescreve minuciosamente
a maneira como a vida do espectador deve ser:
sentado e quieto torna-se mais poroso e conformado
vitrines de shopping que também funcionam como espelhos
o legal do cinema é se lambuzar de pipocas e dar uns amassos
não saber se está sendo filmado para um curta ou para um documentário
as câmeras do circuito interno estavam dormindo quando o crime sucedeu
na rede mundial de computadores sua existência foi deletada
e agora é questão de tempo para a sua geração ser suplantada
o velho método de se inventar histórias jamais se perdeu.
a maneira como a vida do consumidor deve ser:
poupar sempre parte do salário para as eventualidades
investir no sonho da casa própria financiada em suaves 300 prestações
trocar o modelo do automóvel velho todo fim de ano
só gastar o mínimo necessário para ser considerado consumista
não ter mais do que dois cartões de crédito
separar uma grana pras despesas fixas de se sobreviver
e cortar tudo o que for supérfluo, dos vinhos importados
a toda e qualquer forma transgressiva de lazer.
O chefe prescreve detalhadamente
a maneira como a vida do escravo deve ser:
o homem que mora na rua não escreve
a tia vende suas entranhas cruas pra se sustentar
são as cerimônias públicas de suplício e expiação
em nome de um ideal de higiene e pseudo-moralidade
hoje pra ver um enforcamento bom, só mesmo se for pela televisão
pastores evangélicos berram salmos cuspidos em plena praça
nessa cidade os exorcistas também têm seu próprio sindicato
catequese, pelourinho, pãozinho de queijo e a santa inquisição.
O poder público prescreve minuciosamente
a maneira como a vida do cidadão deve ser:
em busca da concessão de um cartório vitalício
é direito e dever defender o princípio da democracia
reconhecer que existiria em tese um estado de direito
saber que as instituições saem fortalecidas dos escândalos de corrupção
bater palmas pra polícia que invade o morro
não se pode ser contra o interesse nacional e a liberdade de expressão
o que resta é escolher entre dois que já foram escolhidos
nada de desobediência civil nem de tentar fazer justiça com as próprias mãos.
O imperialismo cultural prescreve minuciosamente
a maneira como a vida do espectador deve ser:
sentado e quieto torna-se mais poroso e conformado
vitrines de shopping que também funcionam como espelhos
o legal do cinema é se lambuzar de pipocas e dar uns amassos
não saber se está sendo filmado para um curta ou para um documentário
as câmeras do circuito interno estavam dormindo quando o crime sucedeu
na rede mundial de computadores sua existência foi deletada
e agora é questão de tempo para a sua geração ser suplantada
o velho método de se inventar histórias jamais se perdeu.
quarta-feira, dezembro 15, 2010
O que eu produzo?
O que eu produzo do meu dia em vinte e quatro horas?
fezes e arrotos
mercadorias materiais e imateriais
por que tanta pressa
se já não há o que fazer?
Camisas de colarinho e salto alto desfilam no passeio
a reprodução mecânica dos gestos de almoçar
embrulha-se o estômago de quem passa fome
e se serve com molho branco na mesa de jantar.
Capitalistas suspenderam os benefícios da classe trabalhadora
o sistema financeiro quebrou
uma bolha de bosta estourou a tubulação de esgoto
terroristas-traficantes comemoraram o ramadã com rajadas de fuzil.
A rua augusta não oculta os conflitos:
cidades sobrepostas se confrontam dos dois lados da muralha
cercas eletrificadas, molotov e lacrimogênio
um banho de banha fervente deforma o rosto de mais uma travesti.
O que eu produzo do meu dia em vinte e quatro horas?
repetição e paranoia
literatura é trabalho voluntário
servidão voluntária e mais-valia não paga
glória post-mortem pode render algum direito autoral.
fezes e arrotos
mercadorias materiais e imateriais
por que tanta pressa
se já não há o que fazer?
Camisas de colarinho e salto alto desfilam no passeio
a reprodução mecânica dos gestos de almoçar
embrulha-se o estômago de quem passa fome
e se serve com molho branco na mesa de jantar.
Capitalistas suspenderam os benefícios da classe trabalhadora
o sistema financeiro quebrou
uma bolha de bosta estourou a tubulação de esgoto
terroristas-traficantes comemoraram o ramadã com rajadas de fuzil.
A rua augusta não oculta os conflitos:
cidades sobrepostas se confrontam dos dois lados da muralha
cercas eletrificadas, molotov e lacrimogênio
um banho de banha fervente deforma o rosto de mais uma travesti.
O que eu produzo do meu dia em vinte e quatro horas?
repetição e paranoia
literatura é trabalho voluntário
servidão voluntária e mais-valia não paga
glória post-mortem pode render algum direito autoral.
sábado, outubro 16, 2010
GEORGE W. BUSH, OU O PRÓXIMO PRESIDENTE DO BRASIL
A política oficial, que se torna visível à força no aparelho midiático na iminência de uma eleição, é o espetáculo mais deprimente em um tempo em que os espetáculos deprimentes mais diversos se sucedem e se copiam ininterruptamente diante das nossas retinas. Passada a euforia do dever cívico dominical feito de qualquer jeito e mais por ser obrigatório do que por parecer uma coisa legal, a eleição para presidente foi cooptada pelos setores fundamentalistas e mais hipocritamente conservadores de uma sociedade desde sempre messiânica e cuja maioria da população é ainda moralmente mais sugestionável do que uma horda de cordeiros hipnotizados. Em face da desconfiança silenciosa perante uma candidata situacionista de perfil tecnocrata e gerencial e das similaridades programáticas das duas coalizões que pleiteiam a mudança para manter a continuidade em todos os pontos críticos da agenda estatal, as pessoas que poderiam pensar uma solução inovadora qualquer sentem que não fazem a menor diferença no cálculo final (e suspeitosamente tão rápido) da manipulação das cifras democráticas que a justiça eleitoral executa por meio das urnas eletrônicas.
É hora de reconhecer que as igrejas – evangélicas e católicas, todas elas – tornaram-se os atores políticos que pretendem levar adiante o legado dos militares e clientes do regime político que vigorou por aqui entre 1964 e 2002. Detentoras de um quase monopólio da reprodução cultural e donas únicas das verdades mais contundentes e absolutas nas periferias das grandes cidades, nos centros das cidades pequenas e em outros tantos recantos do interior e das capitais, as igrejas possuem um projeto de nação próprio e, sob os rótulos mentirosos de “família” e “defesa da vida” , propõem uma agenda que consegue ser ainda mais reacionária do que os lemas do Estado liberal democrático de direito cientificista-positivista-tecnocrata-competentista-elitista-racista-patriarcal-escravista-burguês que desde 1800 e pouco foi hegemônico em nosso hemisfério. São rótulos mentirosos por quê? Porque defender que um punhado de células embrionárias grudado na parede do útero de uma mulher negra e pobre – coisa que a “ciência” cristã tão caracteristicamente século XX e tão caracteristicamente norte-americana da pior estirpe hoje costuma chamar de “embrião”, mas que os judeus e depois monges copistas que escreveram as bíblias durante a Idade Média não eram capazes de saber que existia e chamavam simplesmente de “sangue menstrual” – defender que “embriões” e “sangues menstruais” são pessoas de verdade como eu e você é como confundir merda com cu. Por trás dessa mentira se esconde o óbvio: a igreja cristã tem como razão de ser e objetivo último reprimir, condenar e classificar na categoria de “pecado” o prazer sexual e toda e qualquer sensação de tesão que venha do corpo, do toque ou da excitação pela imaginação, qualquer tentativa de compartilhamento de uma experiência de plenitude por meio do sexo. Lembre-se: trata-se de uma instituição organizada transnacionalmente a coisa de 1500 anos na Europa e 500 anos nas Américas e com larga tradição de espancamentos, assassinatos, castrações, pedofilia, massacres de minorias e tortura em nome da repressão da sexualidade, especialmente repressão das mulheres e segregação dos “pervertidos”.
Os debates com perguntas e respostas já pré-determinadas e devidamente ensaiadas, o horário eleitoral gratuito produzido pelos marketeiros (maconheiros?!), a cobertura estapafúrdia da nossa mídia umbilicalmente conectada nessas mesmas igrejas, assim como a conversa sobre eleições que a gente ouve no bar, na padaria e no elevador, parece que tudo já foi programado cronometricamente para acontecer do jeito medíocre que essas coisas vem acontecendo e se repetindo. E aí, o que fazer afinal? Aquela arma meio enferrujada e engatilhada para o tiro na testa desde sempre esteve à disposição, embora votar num voto nulo seja outra coisa bacana de se fazer. Que na verdade entre votar um voto que não vai valer nada em alguém e votar um outro voto que não vale nada mesmo em ninguém, de repente seria mesmo muito melhor ser governado por ninguém. Anarquia já! Embora os nossos cientistas políticos estejam sim é trabalhando numa outra modalidade de utopia pós-moderna: uma máquina de governar, capaz de cálculos precisos e instantâneos para distribuir a renda, coletar os impostos, construir as estradas, intervir no estrangeiro, gerenciar os burocratas, fazer a taxa do câmbio flutuar, administrar a previdência, a taxa de juros, conter os distúrbios no campo e urbanizar as favelas por meio da internet sem fio. Serra e Dilma existem em carne e osso ou serão já uma primeira geração, mesmo que ainda com defeitos de projeto e fabricação, desses fabulosos robôs? Ainda hoje, há quem não acredite em televisão. Utilitarismo consumista democrático direto da fábrica, versão 2.01.0.
A utilidade do seu voto é ser um número, se abstrair numa quantidade decifrada pela análise estatística. Se ir a política é como ir ao mercado, logo compra-se o direito de abstenção, um pacote de alienação e se distancia serena das paixões políticas, deixando que os ciborgues do poder se digladiem numa luta que no fundo não tem nenhum significado maior, lutas alheias ao fundamento ético da conduta humana. A opção é não participar de um falso processo político, da renovação periódica de um ritual aleatório e coletivamente suicida, um outro teatro do absurdo. O engajamento, da nossa parte, não irá para pessoas, nem para partidos, facções, coletivos, talvez nem mesmo para células terroristas islâmicas. O engajamento será pelas identidades negadas, pelas plantinhas da Amazônia, pelos direitos dos fetos, das fadas, dos santos, dos deuses, dos estelionatários, dos incorruptíveis, mas jamais para os bons administradores, nem para as figuras da mídia portadora de celebridades. Vote George W. Bush 69 e seja mais um fundamentalista cristão.
É hora de reconhecer que as igrejas – evangélicas e católicas, todas elas – tornaram-se os atores políticos que pretendem levar adiante o legado dos militares e clientes do regime político que vigorou por aqui entre 1964 e 2002. Detentoras de um quase monopólio da reprodução cultural e donas únicas das verdades mais contundentes e absolutas nas periferias das grandes cidades, nos centros das cidades pequenas e em outros tantos recantos do interior e das capitais, as igrejas possuem um projeto de nação próprio e, sob os rótulos mentirosos de “família” e “defesa da vida” , propõem uma agenda que consegue ser ainda mais reacionária do que os lemas do Estado liberal democrático de direito cientificista-positivista-tecnocrata-competentista-elitista-racista-patriarcal-escravista-burguês que desde 1800 e pouco foi hegemônico em nosso hemisfério. São rótulos mentirosos por quê? Porque defender que um punhado de células embrionárias grudado na parede do útero de uma mulher negra e pobre – coisa que a “ciência” cristã tão caracteristicamente século XX e tão caracteristicamente norte-americana da pior estirpe hoje costuma chamar de “embrião”, mas que os judeus e depois monges copistas que escreveram as bíblias durante a Idade Média não eram capazes de saber que existia e chamavam simplesmente de “sangue menstrual” – defender que “embriões” e “sangues menstruais” são pessoas de verdade como eu e você é como confundir merda com cu. Por trás dessa mentira se esconde o óbvio: a igreja cristã tem como razão de ser e objetivo último reprimir, condenar e classificar na categoria de “pecado” o prazer sexual e toda e qualquer sensação de tesão que venha do corpo, do toque ou da excitação pela imaginação, qualquer tentativa de compartilhamento de uma experiência de plenitude por meio do sexo. Lembre-se: trata-se de uma instituição organizada transnacionalmente a coisa de 1500 anos na Europa e 500 anos nas Américas e com larga tradição de espancamentos, assassinatos, castrações, pedofilia, massacres de minorias e tortura em nome da repressão da sexualidade, especialmente repressão das mulheres e segregação dos “pervertidos”.
Os debates com perguntas e respostas já pré-determinadas e devidamente ensaiadas, o horário eleitoral gratuito produzido pelos marketeiros (maconheiros?!), a cobertura estapafúrdia da nossa mídia umbilicalmente conectada nessas mesmas igrejas, assim como a conversa sobre eleições que a gente ouve no bar, na padaria e no elevador, parece que tudo já foi programado cronometricamente para acontecer do jeito medíocre que essas coisas vem acontecendo e se repetindo. E aí, o que fazer afinal? Aquela arma meio enferrujada e engatilhada para o tiro na testa desde sempre esteve à disposição, embora votar num voto nulo seja outra coisa bacana de se fazer. Que na verdade entre votar um voto que não vai valer nada em alguém e votar um outro voto que não vale nada mesmo em ninguém, de repente seria mesmo muito melhor ser governado por ninguém. Anarquia já! Embora os nossos cientistas políticos estejam sim é trabalhando numa outra modalidade de utopia pós-moderna: uma máquina de governar, capaz de cálculos precisos e instantâneos para distribuir a renda, coletar os impostos, construir as estradas, intervir no estrangeiro, gerenciar os burocratas, fazer a taxa do câmbio flutuar, administrar a previdência, a taxa de juros, conter os distúrbios no campo e urbanizar as favelas por meio da internet sem fio. Serra e Dilma existem em carne e osso ou serão já uma primeira geração, mesmo que ainda com defeitos de projeto e fabricação, desses fabulosos robôs? Ainda hoje, há quem não acredite em televisão. Utilitarismo consumista democrático direto da fábrica, versão 2.01.0.
A utilidade do seu voto é ser um número, se abstrair numa quantidade decifrada pela análise estatística. Se ir a política é como ir ao mercado, logo compra-se o direito de abstenção, um pacote de alienação e se distancia serena das paixões políticas, deixando que os ciborgues do poder se digladiem numa luta que no fundo não tem nenhum significado maior, lutas alheias ao fundamento ético da conduta humana. A opção é não participar de um falso processo político, da renovação periódica de um ritual aleatório e coletivamente suicida, um outro teatro do absurdo. O engajamento, da nossa parte, não irá para pessoas, nem para partidos, facções, coletivos, talvez nem mesmo para células terroristas islâmicas. O engajamento será pelas identidades negadas, pelas plantinhas da Amazônia, pelos direitos dos fetos, das fadas, dos santos, dos deuses, dos estelionatários, dos incorruptíveis, mas jamais para os bons administradores, nem para as figuras da mídia portadora de celebridades. Vote George W. Bush 69 e seja mais um fundamentalista cristão.
quarta-feira, maio 05, 2010
A Procura da Poesia
Em que canto da cidade posso encontrar poesia?
Já não há quartos de hotel baratos
e mesmo nos caros e luxuosos da alameda santos
impossível seria uma maçã sobre a mesa.
Poesia?
Ao meio-dia são os escritórios que vomitam gentes
o espetáculo dos esbarrões na calçada
mas nos restaurantes por quilo e redes de fast-food ela não está.
Onde achar poesia?
Nos semblantes severinos desde sempre retirantes
(hoje de ônibus, do largo treze ao itaim bibi)
morte e vida já não entram no cálculo da estatística.
Quem é que pode me emprestar uma poesia?
De espumas flutuantes fizeram canudo pra cheirar cocaína
Cruz e Souza, coitado, virou marca de cigarro
O escarro, amigo, é a véspera do outro escarro.
Em que boca, em que beco se vende poesia?
Paulicéia mercadológica já sei teu fim:
oswaldiandradiando pela rua augusta
me mariodeandradearei no anhangabau.
Já não há quartos de hotel baratos
e mesmo nos caros e luxuosos da alameda santos
impossível seria uma maçã sobre a mesa.
Poesia?
Ao meio-dia são os escritórios que vomitam gentes
o espetáculo dos esbarrões na calçada
mas nos restaurantes por quilo e redes de fast-food ela não está.
Onde achar poesia?
Nos semblantes severinos desde sempre retirantes
(hoje de ônibus, do largo treze ao itaim bibi)
morte e vida já não entram no cálculo da estatística.
Quem é que pode me emprestar uma poesia?
De espumas flutuantes fizeram canudo pra cheirar cocaína
Cruz e Souza, coitado, virou marca de cigarro
O escarro, amigo, é a véspera do outro escarro.
Em que boca, em que beco se vende poesia?
Paulicéia mercadológica já sei teu fim:
oswaldiandradiando pela rua augusta
me mariodeandradearei no anhangabau.
segunda-feira, abril 19, 2010
Sobre o Mesmo Tema
Uma vez por mês, invariavelmente num sábado, me proponho o problema do bilhete do suicida. Me aflige pensar nas imensas gavetas do instituto médico legal e imaginar mais uma etiqueta banal amarrada ao meu tornozelo (morto) contendo, sumariamente, uma identificação civil com nome completo, data de nascimento e óbito, cor da pele e causa mortis. Etiqueta esta escrita com desdém e garranchos por uma auxiliar de papiloscopista, assitente incompetente de um insignificante médico legista, que não se dá ao mísero trabalho de dar um nó decente no barbante cinzento usado para atar o bilhete amarelo ao tornozelo esquerdo (morto) - corre-se o risco de não ligar o nome à pessoa. Muito embora a pessoa em questão (morta) já não se ligasse em nomes, números ou identidades desde uma data incerta, o conteúdo do bilhete (etiqueta?) sintetizava em quatro belas palavras um conceito chave tanto para a sociedade civil hodierna quanto para o princípio do Estado de direito. No verso da etiqueta amarela (caída ao acaso no chão frio do instituto médico legal), um sociólogo forense que fazia pesquisa de campo para a conclusão de sua rídicula tese de doutorado leu o seguinte: dignidade da pessoa humana. Tipificado como crime, o direito de morrer a própria morte subsiste à letra morta da lei humana que condena o suicídio de acordo com a cláusula ypsylon do código penal brasileiro e subsiste à lei católica que reserva alguns hectares do inferno a este e outros suicidas nem tão hereges assim. Aos mortos que se matam é reservado o direito amplo e irrestrito de se justificar por escrito. Aos que julgam, aos que choram, aos que sentem pena, aos que se danam, aos que esperavam, aos que nem suspeitavam, aos que já sabiam mesmo antes de acontecer, aos que não se conformam, aos que queriam, aos que lamentam, aos que vivem a vida, aos que se apegam ao passado e as lembranças boas, aos que enterraram, aos que descobriram o corpo, aos que só conheciam de vista, aos que alertaram as autoridades, aos que fizeram o sinal da cruz, aos que repartiram a herança, aos que vão sentir saudades, aos que seguirão o exemplo - não. Na ausência de toda poesia que a minha morte exala, a etiqueta amarela jogada no chão serve de boa antologia.
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