Aurora se ergue sem nuvens e diz: “eu sou brutal”
Ilumina garrafas
de vidro verde aos cacos
Decompõe licores
fedorentos sobre o pavimento da calçada
São panos
grossos sobre a nudez do mendigo insone
São cânticos
que circulam, informações entrecortadas
Bigodes
sujos, tranças feitas com barba, assepsia amargurada
Uma gota de
sangue coagulado: é a navalha do assassino impune
É a água que
desenha pequenos fios na superfície de um espelho embaçado
Em que uma
pessoa viva enxerga máquina em lugar de seu próprio reflexo.
2.
No refúgio de
um escritório em que o ar se recusa a ser condicionado
Os
computadores pessoais trocam correspondências frias e impessoais
Já não há gravações
para recepcionar os muitos telefonemas que gritam
E o calor escapa
ileso pelas frestas da garrafa térmica mal lacrada
O relógio de ponto disse que vai atrasar por conta do tráfego na ponte
Ao tempo em que o gestor do
setor de pessoal manda avisar que está numa pior
Funcionários
de baixo escalão irão se encarregar dos próprios velórios
Tanto o solicitaram que o dono da firma se metamorfoseou em máquina de calcular
São as metas não cumpridas, de tão compridas que as semanas são.