segunda-feira, agosto 06, 2012

Dois Poemas

1.
Aurora se ergue sem nuvens e diz: “eu sou brutal”
Ilumina garrafas de vidro verde aos cacos
Decompõe licores fedorentos sobre o pavimento da calçada
São panos grossos sobre a nudez do mendigo insone
São cânticos que circulam, informações entrecortadas
Bigodes sujos, tranças feitas com barba, assepsia amargurada
Uma gota de sangue coagulado: é a navalha do assassino impune
É a água que desenha pequenos fios na superfície de um espelho embaçado
Em que uma pessoa viva enxerga máquina em lugar de seu próprio reflexo.


2.
No refúgio de um escritório em que o ar se recusa a ser condicionado
Os computadores pessoais trocam correspondências frias e impessoais
Já não há gravações para recepcionar os muitos telefonemas que gritam
E o calor escapa ileso pelas frestas da garrafa térmica mal lacrada
O relógio de ponto disse que vai atrasar por conta do tráfego na ponte
Ao tempo em que o gestor do setor de pessoal manda avisar que está numa pior
Funcionários de baixo escalão irão se encarregar dos próprios velórios
Tanto o solicitaram que o dono da firma se metamorfoseou em máquina de calcular
São as metas não cumpridas, de tão compridas que as semanas são.