Adoro conversar sobre livros, compartilhar descobertas e releituras com as poucas pessoas queridas que se importam. Escrever sobre livros, porém, é difícil e custoso, afinal – para citar o Ítalo Calvino do Por Que Ler os Clássicos? – nenhum outro livro é capaz de dizer mais sobre o livro em si do que o próprio livro. Ante a futilidade e pretensão ocultas e implícitas em toda tentativa de crítica literária (ou não-literária), o que proponho aqui é muito mais um convite, um texto dialogado com o objetivo claro e imediato de persuadir meu leitor a me acompanhar nesse caminho, a entrar por essa porta sem saída nem retorno – um livro.
O que estou lendo neste momento chama-se O Paraíso Na Outra Esquina e foi publicado no ano de 2003 por Mário Vargas Llosa. Confesso que antes deste, nunca havia lido nenhum outro livro do autor, muito em função de um certo preconceito fundado nas convicções políticas de Vargas-Llosa. Aliás, talvez não só dele, mas da besta-humana do seu filho, que escreveu junto com dois outros paspalhões uma das obras mais cínicas da onda neoliberal que assolou este continente no final da década retrasada (vejam só, como o neoliberalismo se tornou algo datado e digno de ser catalogado por historiadores de um outro tempo... não era pra menos), um tal de O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano. Ler esse tosco manual hoje em dia chega a ser até engraçado, é um livro pretensioso, cheio de verdades prontas, de desmentidos categóricos, de citações deslocadas e de ódio profundo ao As Veias Abertas da América Latina. Nesse exercício de latino-americanice que é ler os dois em sequencia, percebi que, embora quase trinta anos mais antigo, o livro do Galeano continua dizendo muita coisa de importante ao nosso tempo, enquanto que o pobre livro do filho do Vargas-Llosa soa datado, ingênuo e mal-intencionado. Mas voltemos ao pai, já que o filho tratou de se enterrar no lodo da mediocridade em plena vida e jogar na lama o nome da família. No fim das contas, é um direito (dever?) que todo filho tem.
O Paraíso Na Outra Esquina é um livro que, bem ao feitio de uma certa literatura contemporânea nossa, busca misturar pesquisa histórica e literatura para compor um romance cujos personagens “existiram de verdade”. A trama alterna passagens do final da vida de duas pessoas muito representativas do Século XIX: Flora Tristán e Paul Gauguin. Ela avó dele, embora não tenham se conhecido em vida, já que ambos morreram relativamente cedo. Flora, a feminista e socialista utópica avant la lettre, pintada pelo autor quase como uma ativista de maio de 1968 que viajou no tempo e apareceu num repente na Paris dos anos 1840. O Gauguin criado por Vargas-Llosa é o artista que fugiu da civilização moderna e da Europa decadente da belle époque para encontrar refúgio no Taiti e na Polinésia Francesa.
Feitas as apresentações, vem a explicação sobre o título da obra, que encontro logo nas primeiras páginas do romance: trata-se de uma brincadeira infantil que muito apetecia Flora Tristán e que, basicamente, envolve um grupo de crianças que correm até uma certa esquina (ou lugar) pré-determinado como “paraíso” e que, ao chegar no tal lugar, ouvem uma certa voz jocosa gritar: - O paraíso não é aí, é na outra esquina! Se põem a correr até a outra esquina e lá a cena se repete e se repete. A leitura da metáfora é bastante imediata: paraíso é a utopia, que Flora representa como uma sociedade em que não existam relações de exploração e violência entre homem e mulher nem entre patrão e empregado e que Paul Gauguin vislumbra como um lugar exótico nos trópicos em que a “civilização” (civilização é uma dessas palavras que o dicionário deveria obrigar as pessoas a sempre grafarem com aspas, alô seu Aurélio, alô seu Houaiss) europeia ainda não tivesse contaminado a vitalidade e a autenticidade dos povos dito primitivos. Para nós, geração cujos heróis morreram de overdose e nossos inimigos (militares ou civis, tanto faz) tomaram o poder, o título dado ao romance definitivamente é de uma ironia amarga e profunda. Quase um tapa na cara. Não posso dizer se é ou não uma citação incidental da famosa passagem do Galeano... “Eu dou um passo, ela dá dois passos. Eu dou dois passos, ela dá quatro passos. Eu dou quatro passos, ela dá oito passos. Para isso serve a utopia, para eu seguir caminhando” (não sei se é exatamente isso – peguei da internet – mas o espírito da frase é esse). Para mim, a associação foi imediata e certeira.
Vamos ao enredo. A construção é simples: são capítulos intercalados, um contando a trajetória de Flora e outro a de Paul. A narração sobre Flora a acompanha por uma viagem pelo Sul da França, em que a cada cidade que ela visita, contam-se seus encontros com os operários e núcleos de socialistas utópicos com o objetivo de difundir sua União Operária. Basicamente, trata-se de um programa político pacifista que almeja mudar a sociedade por meio da aliança entre mulheres e operários. Em cada cidade que Flora passa, a narração dos acontecimentos é mesclada com suas memórias e, dessa forma, reconstruímos sua trajetória de vida, marcada por rompimentos drásticos com as convenções sociais de sua época. O primeiro desses rompimentos é com o marido, figura sinistra e violenta que a persegue por todos os lugares, sequestra e estupra seus filhos e filha e a obriga a se exilar, primeiro na Inglaterra e depois no Peru, terra de alguns de seus ancestrais. Na América Latina, Flora conhece o horror da escravidão e, na Inglaterra, ela vê de perto as horrendas consequências sociais da Revolução Industrial, experiências determinantes para seu engajamento sem limites. Toda a narração ainda inclui passagens em que são descritas as imensas dificuldades que uma mulher solteira enfrentava (enfrenta?) ao se mover em uma sociedade em que o machismo está em todas as partes, arraigado profundamente até mesmo entre aqueles que professam ideais revolucionários e igualitários. É uma Europa em que a estupidez e a violência não conseguem sequer ser escondidas debaixo do finíssimo tapete de cultura e civilização.
Por sua vez, a narração da trajetória de Gauguin dá conta de suas duas viagens ao Taiti, quando, já corroído pela sífilis terminal, ele enfim consegue realizar o plano que elaborara junto com Van Gogh de viver nos trópicos longe da decadência da “civilização” europeia. Da mesma maneira que com Flora, os acontecimentos são misturados com lembranças que, peça após peça, permitem ao leitor reconstituir a trajetória de vida do artista. Muito resumidamente, fico sabendo que, até os trinta e cinco anos, ele era um mero corretor da bolsa de valores, com tudo de burguês e medíocre que isso implica. Após se tornar pintor, a obsessão de Paul é se afastar dos grandes centros urbanos em busca da vitalidade e da espontaneidade que a arte europeia perdera desde muito tempo. A cada novo refúgio, uma nova decepção: primeiro na Bretanha, depois, com Van Gogh, na Provença, depois no Caribe, Taiti, Ilhas Marquesas... Nessa busca incessante de um ponto de fuga da civilização, Gauguin se depara com administradores coloniais e missões religiosas que, por terem chegado antes dele, trataram de devastar e contaminar com sua cultura decadente até mesmo as regiões mais inóspitas e longínquas do planeta. Sim, já se tratava do mundo burguesificado até o osso em que nos arrastamos como vermes até hoje.
Contado mal e porcamente o que o livro conta, vamos ao que interessa. A leitura me arrebatou desde a primeira página... Identificação com os personagens e seus sonhos? Sem dúvida. Fascínio, muito mais do que identificação, eu ousaria dizer. Extrapolando um pouco, diria que Flora e Paul são personagens que simbolizam as duas principais faces dessas espécies tão raras de sonhadores que o Século XIX inventou. O primeiro tipo é o sonhador que quer transformar o mundo (Flora), um sonhador que, imbuído de ideias valorativas sobre o potencial do ser humano para a justiça e inquieto com as degradantes condições sociais que a Revolução Burguesa e a religião engendraram, luta incessantemente para mobilizar as pessoas a construírem um mundo diferente. Revolucionários ou não, eles povoaram o século e fizeram suas vozes ecoar pelas grandes cidades... Nesse grupo, sem dúvida estão Marx, Engels, Bakunin, Proudhom, Owen, Fourier, Saint-Simon, mas também poderíamos pensar em certas facetas de Nietzsche, Victor Hugo, Zola, Tolstói, Joaquim Nabuco, Thoreau. Digamos que se trata do grupo de sonhadores que vê seu paraíso realizado num tempo futuro. Do outro lado, junto com Paul Gauguin, temos esses sonhadores que buscaram viajar pelo mundo em busca de algum precioso não-lugar. São os sonhadores do espaço (chamemo-los assim por ora), dentre os quais poderíamos destacar Tocqueville, Camilo Pessanha, Burckhardt, Stendhal, Dr. Livingstone e tantos e tantos anônimos, de artistas de circo, marinheiros e exploradores até os milhões de europeus que vieram fazer a América. Penso que Rimbaud é uma figura que sintetiza as duas tendências e, nesse sentido, proponho elegê-lo como o arquétipo do sonhador do Século XIX.
Século XIX... Ali se definiu todo um vocabulário, toda uma gramática do sonhador que o Século XX não fez mais do que repetir e refazer usando os mesmos elementos. Com a experiência do totalitarismo e do terror de Estado praticado por figuras tão sinistras quanto Mussolini, Stálin, Hitler, Truman, Eisenhower, Kennedy, Salazar, Pinochet, Franco ou Médici, os sonhadores foram brutalmente perseguidos e assassinados por todos os cantos do mundo, dos dois lados do muro de Berlim. Penso aqui, por exemplo, em Charles Chaplin, em Walter Benjamin, em Hannah Arendt, em García Lorca, Maiakóvski, John Lennon, Brecht, Che Guevara... O século XX fez questão de cortar o sonho pela raiz, usando armas nucleares, perseguição política, tortura e cultura de massa toda vez que foi “necessário”. Foi uma época em que sonhar era, já de cara, uma sentença de morte: é preciso estar atento e forte. E toda publicidade mal-intencionada do mundo aproveitou a onda da queda do Muro de Berlim para, na base da força, jogar uma última pá de cal em cima daquilo que todos esses nomes que eu citei aqui e no parágrafo anterior deram a vida para erguer e dar forma. Mas penso que sonho não é dessas coisas que se possam enterrar nem extinguir por lei ou decreto, de modo que eles continuam aqui, cultivados cada vez por menos gente e cada vez mais escondidos, mas cultivados sim e renovados sempre. Eu resisto, grita o jovem, grita a mulher, grita o operário, grita o artista, grita o ciclista, grita o cabeludo, grita o tatuado, grita o indígena, gritamos todos.
Voltando ao livro. Nele eu vejo um espelho do que eu queria ser. Primeiro como escritor, artista, buscando meu ponto de fuga numa batalha quixotesca contra os produtos da Revolução Industrial e seus entusiastas. Me vejo aí, minha poética de Gabriel Corrêa, anos e anos me aprofundando em saber ler livros cada vez melhor, escrevendo esporadicamente e falando aquilo que ninguém quer nem gosta de ouvir. Segundo como ativista, devorador de ciências humanas, envolvido em grandes e pequenas causas, odiando automóveis e me intrometendo nas relações internacionais, feminista e anarquista convicto. As duas faces se misturam, talvez não naquilo que eu seja neste instante (ainda e sempre em construção), mas com certeza nesse horizonte do que eu quero ser, esse velho horizonte que dá dois passos quando eu dou um passo, que dá oito passos quando eu dou quatro passos... Os colegas de caminhada estão por aí, muitos deles hoje espalhados pelo mundo. Distantes, articulados, fazendo, gritando, botando o dedo na cara e falando grosso com quem merece. Não creio que exista alguma diferença fundamental ou substantiva entre os anseios de Flora Tristán e Paul Gauguin (como descritos no livro de Vargas-Llosa) e aquilo que eu sinto lá no fundo e que me faz rejeitar ser aquilo que querem que eu seja. São Paulo de 2012 é em tudo semelhante à Londres de 1844. Meu coração quer justiça, meu estômago também tem fome, mas meu espírito... Bem, meu espírito sonha cada vez mais alto e os sonhos que ele sonha ninguém jamais vai conseguir tirar de mim. Não sou o que eu faço, não sou o que eu penso, não sou o que eu tenho, não sou o que eu quero. Sou só aquilo que eu sonho.
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
quarta-feira, março 21, 2012
terça-feira, março 20, 2012
Senhor Motorista
Era uma pessoa andando de bicicleta.
O assassino dirigia sua arma com pressa.
Matou e alegou que não viu.
Era um filho seu atravessando a rua.
A assassina dirigia sua arma distraída.
Culpou a vítima e ganhou a causa na justiça.
Era pobre: no lugar errado, na hora errada.
O assassino não bebeu, mas, ainda assim, dirigia armado e com pressa.
Matou e no mês seguinte comprou um automóvel mais rápido.
Era um ser humano como outro qualquer.
Por não gostar de quem gosta de automóvel
Foi morto e esquartejado em pleno meio fio.
O assassino dirigia sua arma com pressa.
Matou e alegou que não viu.
Era um filho seu atravessando a rua.
A assassina dirigia sua arma distraída.
Culpou a vítima e ganhou a causa na justiça.
Era pobre: no lugar errado, na hora errada.
O assassino não bebeu, mas, ainda assim, dirigia armado e com pressa.
Matou e no mês seguinte comprou um automóvel mais rápido.
Era um ser humano como outro qualquer.
Por não gostar de quem gosta de automóvel
Foi morto e esquartejado em pleno meio fio.
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