quinta-feira, setembro 01, 2011

Spleen e Melancolia

“Melancolia”, filme de Lars Von Trier, se divide, grosso modo, em três partes: um prólogo, poético e arrebatador, que é veiculado ainda antes dos créditos iniciais do filme, uma “parte 1”, em que é narrada a festa de casamento da protagonista Justine e, finalmente, uma “parte 2”, na qual se conta a história da perspectiva da personagem Claire, irmã de Justine, e como esse universo de pessoas vive a experiência do fim do mundo.

O prólogo faz alguma referência ao clássico “2001” ao representar a dança dos planetas no espaço sideral ao som de música clássica. Entre esses quadros, são exibidas cenas que mais parecem quadros, fotografias ou cartas de tarot: numa, vemos Kirsten Durst num cenário apocalíptico erguendo lentamente as mãos para cima e raios saindo das pontas de seus dedos em direção ao céu; noutra se mostra, também em câmera “super-lenta”, um cavalo negro e belíssimo tombando em primeiro plano e sozinho, já em outra vemos a protagonista em pose de morta de Nelson Rodrigues, flutuando de costas para as águas de um rio cristalino (Ofélia?), assim como, em outro momento, assistimos a uma chuva de pássaros mortos. Dessa forma, em poucos segundos ou minutos, o espectador é apresentado a todo um universo pictórico e onírico. A mim, a imagem que mais chamou a atenção foi um quadro em que no céu apareciam três luas (ou três sóis) e, no primeiro plano, duas mulheres e uma criança. A música, por alguma razão, me lembrou Debussy: tanto a música, discreta na maior parte do tempo, quanto as artes plásticas, são dois símbolos fortes que serão retomados ao longo de todo o filme.

A chamada “parte 1”, que ocupa a maior parte do filme, descreve a noite da festa de casamento de Justine. Aqui o que está em jogo é aquilo que o cinema europeu é capaz de figurar como nenhum outro: a tensão entre a “persona”, ou seja, a máscara social que todos têm de envergar ao entrarem no mundo do “social”, de um lado, e aquilo que as pessoas (ou ao menos uma parte das pessoas) são e sentem “no fundo”. Como Bergman, Fellini ou Woody Allen, Lars Von Trier sabe encenar esse tipo de situação em que “la borgeoisie” e seu status quo deixam mostrar os fundamentos podres e hipócritas de suas instituições e valores mais caros.

O casamento impõe os papéis que devem ser desempenhados pelo noivo e pela noiva e delimitam as expectativas e normas que ditam o comportamento daqueles que desempenham esses papéis. Tudo é impecavelmente preparado e planejado para que a noiva (ou será a mulher?) seja feliz, sinta-se plenamente realizada e viva o momento mais importante da sua vida. Toleram-se certos desvios, certas peculiaridades, certos vícios, mas outros não. À mulher, cabe, apesar do nervosismo e das incertezas que marcam esse ritual, estar sempre sorrindo, sempre parecendo estar insuportavelmente feliz: nessa hora parecer é mais importante do que qualquer outra coisa. Mas Justine é um espírito que não faz parte desse mundo burguês e é absolutamente incapaz de parecer contente, por mais que ela tente representar. Então ela faz tudo de errado: foge da festa inúmeras vezes, se tranca no banheiro quando deveria comparecer para cortar o bolo, abandona o noivo em plena noite de núpcias, trepa com o convidado mais inexpressivo da festa (um relações públicas que é reputado por não ter absolutamente nenhuma qualificação educacional), se demite do emprego que o sogro lhe oferecera, faz cara de choro, está sempre distante e com aquele olhar triste e embaçado dos melancólicos. No fim das contas, é repreendida e expulsa desse meio social ao qual ela pertencia.

Numa época em que, para se conseguir um emprego ou sucesso na carreira profissional, é necessário estar sempre sorrindo, sempre alegre, acordar todos os dias de bom-humor, encarnar o espírito dos livros de auto-ajuda, ser dinâmico, pró-ativo, comunicativo, freqüentar academia e rir o riso do idiota, essa personagem é uma tremenda provocação. Ela não sabe fingir o sorriso neutro da operadora de telemarketing. Não é capaz de viver a vida com “leveza”, “pensar positivo”, “mentalizar coisas boas” nem ambicionar o sucesso nesse mundo em que os sorrisos são nada mais do que o resultado de cirurgias plásticas que, por meio do Botox, põe uma prega no meio da bochecha das pessoas que, de tão esticadas, aparecem sempre como um personagem dos Simpsons com a boca fossilizada num formato de banana.

Diante desse contexto, Justine (não consegui traçar nenhum paralelo muito claro com a heroína de Sade) surge no filme como uma encarnação de uma paixão do século XIX que há muito deixou de ser pertinente ao mundo do século XXI. Em nosso tempo, todos têm (em tese) o direito de escolherem serem felizes ou infelizes, mas ninguém tem o direito de parecer infeliz o tempo inteiro. Nesses casos, não só a pessoa é excluída do círculo daqueles que “são sucesso” como também é tratada como doente. Afinal, não querer pertencer à elite, não querer ser famoso, não querer consumir, não querer juntar dinheiro, não querer a felicidade da família do comercial de margarina são comportamentos inaceitáveis. No século XXI, o destino do melancólico é ser tratado com prozac e fluoxetina para que se torne grogue o suficiente para conformar-se e fingir sorrisos.

Inevitável não empatizar com a personagem Justine, interpretada por Kirsten Durst. Até porque quem costuma ver um filme de Von Trier quer se alimentar de arte. Até porque a grande arte do século XIX (mas também do século XX) é feita disso: Rimbaud, Baudelaire, Truffaut, Almodóvar, Proust, Thomas Mann, Dostoievski, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e por aí vai: são Hamlet, são Julien Sorel, são K, são pessoas que não nasceram para nascer neste mundo. E num lance que prenuncia a segunda parte do filme, Justine é a única que consegue pressentir e saber como será o fim do mundo.

Aqui cabe um parêntese: o tratamento do espaço no filme todo e, em especial, nessa primeira parte. O longa é todo ele rodado em uma espécie de castelo, em cujo entorno se tem rio, floresta, lago e uma varanda deslumbrante. O proprietário desse lugar mágico é o cunhado de Justine, um personagem que representa aquele que tem uma fé cega na ciência e no “mundo dos negócios”: na primeira parte, chega a ser irritante o fato de, sempre que esse personagem entra em cena, está falando de dinheiro (que ele tem aos montes). Trata-se do avarento de Molière. Enfim: na primeira parte do filme, toda vez que se filmam os ambientes internos, ou seja, os salões em que se desenrola a festa de casamento, a filmagem é em primeira pessoa, a câmera treme, circula de um lado para o outro, num clima algo angustiante que já havíamos visto em Dançando No Escuro, por exemplo. Nessas tomadas, o burlesco do elenco escolhido a dedo para representar os convidados e familiares (elenco digno de Fellini ou Pasolini) torna as cenas engraçadas – em especial, as que retratam o pai de Justine, um “engaçalhão” que causa pena e riso e a mãe, uma mulher dominadora, bipolar, que “pensa por si própria”, mas, assim como a filha, em certa altura também resolve abandonar a festa e se trancar no banheiro, o que o genro acha um tremendo desaforo.

E são justamente as “fugas” da noiva que rendem as cenas mais divertidas dessa “parte 1” e guiam a narrativa não só para os espaços externos do castelo, como o campo de golfe em que ela percebe que existe uma estrela próxima demais da terra e, mais tarde no filme, transa com o convidado-relações-públicas, mas também para espaços que, mesmo situados no interior da construção monumental, de certa forma são o seu oposto: o quarto onde dorme o pequeno sobrinho de Justine, o quarto da mãe da noiva ou escritórios e gabinetes onde o noivo e a irmã encontram fugazmente a noiva que logo escapa para qualquer devaneio: “me dê um instante, por favor”. Também do lado exterior do castelo, justamente na estrada que dá entrada ao lugar, existe uma curva fechada demais para que uma limusine pudesse passar, logo na cena inicial da primeira parte do filme. Não por acaso, a curvatura dessa estrada se assemelhava à órbita do planeta melancolia – planeta ou lua ou estrela que se chocaria contra a Terra e poria fim a vida tal a conhecemos.

E a “parte 2” do filme trata exatamente disso: a chegada do planeta melancolia e sua colisão com a Terra causando o fim do mundo. A primeira parte se chama “Justine” e a segunda “Claire”, que é o nome da irmã da protagonista. E começa com a volta de Justine ao castelo, onde seu casamento naufragara e todos a repreenderam por sua conduta melancólica. Ela chega como uma doente, alguém que é marginalizado da sociedade e tratado como aberração. Nessa parte, talvez estejam as cenas que eu considero as mais bem executadas do ponto de vista propriamente teatral: Justine mal consegue falar ou andar ou pegar um táxi sozinha e o marido de Claire ironiza e crítica essa situação. Logo depois, Claire tenta levar Justine para um banho, mas a irmã está incapaz de erguer uma perna para entrar na banheira ou dar um passo, paralisada pelo medo e pelo trauma desse mundo de pessoas vivas e más. Os cavalos são outro símbolo importante que ajuda a compor esse filme, tão alegórico quanto Dogville ou Europa. Os astros e a maneira pela qual os seres humanos se relacionam com os astros, seja por meio de telescópios e modelos científicos ou por meio da intuição, do feminino, da arte e das previsões são um outro símbolo forte. Nesse ponto, a personagem Justine está muito mais afinada com os cavalos e insetos que se alvoroçam por instinto com a chegada do fim dos tempos do que com os demais habitantes de casa, a irmã, o cunhado e o sobrinho, que ainda tentam organizar o mundo recorrendo a qualquer pseudo-ciência ou explicação razoável para o que está sucedendo e estocando lanternas e previsões para as catástrofes.

Como se a segunda parte do filme fosse o oposto da primeira: no início, a melancólica-desajustada-poeta era quem estava deslocada no meio de um ritual de iniciação ao universo do consumo de massas e da democracia representativa. Já no final, são os burgueses-previsíveis-metódicos que não sabem lidar com um evento que está tão além de seus limitados entendimentos.

O marido de Claire, o mais burguês e cientificista do filme, é o primeiro a se suicidar quando tem a certeza que o mundo vai mesmo se acabar, embora até aquele instante ele insistisse na hipótese do happy end e do “tudo vai terminar bem, querida” na ideia de proteger e iludir a esposa e o filho. Já a própria Claire, quando vê que o fim está próximo, sugere que todos o esperem na varanda, tomando uma taça de vinho. Justine mostra o quanto essa intenção é ridícula e sai com Leo, seu sobrinho, para recolher gravetos na floresta. Quando o fim do mundo finalmente chega, os três estão numa espécie de cabana construída por Justine, os três de mãos dadas.

O que amarra as três partes do filme é a imagem de um corpo estranho e errático que surge inesperadamente e destroi uma harmonia pré-existente. Na parte 1, esse corpo estranho é a figura da noiva Justine, que é incapaz de representar o papel que dela se espera, não por não querer ou não aceitar os fundamentos da sociedade burguesa, mas por ser incapaz de negar sua natureza profunda. Um natureza que se sente muito mais à vontade no meio dos animais, dos astros ou na solidão do que entre pessoas e não lamenta, antes se regozija, com o fim desse mundo humano de aparências e maldade. Já na parte 2, o corpo estranho, numa leitura mais direta, é esse planeta sugestivamente batizado de melancolia, que vem a colidir com a Terra. Talvez, seguindo uma outra linha de raciocínio, o corpo estranho seja a própria vida na Terra, o próprio mundo que construímos e em que vivemos. Será esse o sentido profundo da melancolia? Será ela uma certeza de que a vida humana não é um valor, não é algo bom em si mesmo e que o universo estaria melhor sem nós? Assim, é por perceber a nossa fugacidade e a nossa finitude como coisas positivas que nos vem a sensação de completo vazio e de completo desamparo que chamamos melancolia. É algo que vai muito além de não conseguir parecer feliz, de se sentir sem par neste mundo, de viver em depressão e na solidão: melancolia é um esvaziamento de horizontes, mas também uma erosão do chão em que pisamos.

Um clássico contemporâneo do meu diretor predileto. Saí do cinema uma pessoa diferente daquela que entrou. Mais vazio, mais melancólico e mais desamparado, com certeza. Será que o grande cinema é isso? O oposto das pílulas de fluoxetina?