sábado, agosto 01, 2009

UMA CARTA DE SUICIDA

Psicodelia e cervejas, estamos indo embora dos anos dois mil. Astronauta e libertário, o futuro parece mais uma massa cinzenta de desejos por eletro-eletrônicos, coisas, coisas, coisas inúteis como a prestação da casa própria e o oficial de justiça que nos flagrou nus naquele dia de trabalho pouco após o pico de morfina. Troco o LCD pela vitrola, agulha, 76 rotações por minuto e o que meu vizinho tem de ouvir as quatro e quatorze da manhã quando me dá na telha é mutantes, jupiter maçã e raul seixas. As coisas por aqui vão mal, se enchendo de pó e lodo por culpa dos cupins. Os mesmos cupins que buzinam e dirigem automóveis colocando minha vida em risco todos os dias pela necessidade de parecerem burgueses. Celular e automóvel: não se dá dois brinquedos que não podem ser brincados ao mesmo tempo para crianças de seis anos. Porque elas vão rir de você e tentar te atropelar. E a vida escorre cinco vezes por semana, das dez às seis, já segredei bem alto para todos que eu não quero interpretar esse papel de ser o chefe. Dos trinta aos oito em dois milissegundos, essa nostalgia do que eu julgava podre (eu dos sete aos dezoito) faz deprimir meu sábado de faxina e reflexão. Ô ô ô seu moço, do disco voador – por algum motivo a música me diz alguma coisa de essencial e por dentro dá aquela vontade de chorar e encher a cara. Por que não fui ser artista? Por que não fui raul seixas, por que não fui arnaldo baptista, por que não fui oswald de andrade, por que nasci em mil novecentos e oitenta? Alguém haveria de estar aqui neste apartamento agora, provavelmente um arquiteto ou publicitário, e não haveria a iminência do vencimento do aluguel e essas lamentações idiotas de quem se desiludiu até com o poder dessa fonte da juventude – rua augusta. As discussões sobre a revolução e o poder público perderam a graça. Os direitos humanos e o combate à homofobia perderam a graça. A gana de lutar pelo mundo se foi, talvez numa transfusão para o menino de dezessete anos que quer fazer ciências sociais na puc, mas não consigo deixar de olhar pra ele com aquela cara de esse filme eu já vi e isso não vai dar em nada. Odiar os pais e evitar por todos os métodos anticoncepcionais a possibilidade de fazer filhos. Somos o ponto final de um sonho? Morreremos e os nossos pequenos segredos não estarão gravados nem nos nossos túmulos nem nos nossos livros jamais editados. O cheiro de feijão cozinhando no apartamento de baixo me abriu o apetite mas a coisa aqui tá feia. Necessidade de fazer a barba, cortar a costeleta e comprar uma roupa de adulto nova. Aproveito que a cerveja acabou e saio por aí torrando esse dinheiro colorido que terá a cara do fernando henrique bordada numa cédula do futuro, antes fossem keynes e marshall a sumir dos livros de história pra não ter de me aporrinhar numa aula de macroeconomia sexta-feira as onze e tanto da noite. Troco meu cartão do banco com você, se quiser também posso te dar meu título de eleitor e errigê – vai lá e vive essa vida bandida por mim. Quer meu salário, meu sexo, meu status, meu diploma de contabilidade? Pega e leva tudo com você pra mil novecentos e noventa e três. Eu vou morar no ar. Abra que eu quero voar o mais alto que eu puder. Um dia eu vou sair – vou morar no ar. Digo adeus aos anos dois mil: adeus velha utopia. Adeus juventude. Adeus rimbaud. Dentro do mambo e da consciência está o segredo do universo. Hoje eu sou cantor de mambo. Mam-bô.