Só percebemos a passagem do tempo porque vemos que os outros estão mais velhos este ano. A impressão que dá é que a velocidade com que o tempo passa quando somos adultos é infinitamente maior do que quando somos jovens. Para quem tá chegando ou já passou dos trinta, um natal sucede o outro mais ou menos como os dias em que passamas seis, sete ou oito horas preocupados só em trabalhar e de repente olhamos em volta e já ficou de noite. A sensação de que somos perecíveis gera uma espécie bem particular de angústia, como que uma saudade de nós mesmos.
Já aquelas experiências que consideramos definitivas e catalogamos entre as mais decisivas para a constituição do nosso eu situam-se numa escala de tempo bem diferente dessa que se mede pela distância entre um natal e outro. Para a maioria, uma grande parte dessas experiências está na infância. Entretanto, por suas peculiaridades, preferimos considerar que a nossa infância transcorreu num terceiro tipo de tempo, com suas características todas próprias em que passado, futuro e presente não significavam a mesma coisa. Já as nossas experiências memoráveis da juventude e da idade adulta se dão preferencialmente à noite, de madrugada, aos sábados, durante as férias ou naquele dia que nós não lembramos mais se era uma terça ou uma quarta. Trata-se de um tempo em que a sensação que temos é de novidade e surpresa, ao contrário do tempo do cotidiano, cujo formato é o da circularidade.
Aquelas atividades que repetimos muitas vezes (mas nem tantas quanto gostaríamos...) e com as quais temos uma relação afetiva também possuem o seu tempo dentro do tempo da nossa vida. E assim podemos falar na história ilustrada dos nossos amores, num roteiro das nossas leituras, numa saga dos nossos instantes de solidão profunda, de uma genealogia dos nossos sonhos. Pensarmos esses tempos em separado e traçarmos uma trajetória particular para cada um deles faz com que descubramos uma porção de coisas sobre a totalidade do nosso ser, pois distinguimos, em meio ao turbilhão do tempo sem filtro do dia-a-dia, desenhos regulares e situações que na essência são idênticas emboram no instante em que se passam pareçam radicalmente diferentes.
E também existem os instantes em que sentimos o tempo como uma coisa física. Por exemplo: quando estamos no cinema vendo um filme e não sabemos se já é cedo ou muito tarde, se a história está do começo para o meio ou do meio para o final. Essa maneira de sentirmos o tempo como um estado em suspensão costuma ser ainda mais contundente quando ouvimos música ou passamos horas e horas dançando numa balada. E nessas horas qualquer desvio que atraia nossa atenção de volta para o tempo do relógio é percebido como um choque, como um susto, como uma interrupção. A sensação de que o tempo é uma coisa física também pode ser desencadeada por uma pergunta singela, do tipo: "que horas são?".
Enumeramos aqui somente alguns aspectos dos tempos e ritmos com quem vivemos a nossa breve vida. O tempo do cotidiano, o tempo das experiências memoráveis, o tempo visto nos outros, o tempo da infância, o tempo do sonho, o tempo do amor e o tempo em suspensão são apenas algumas dentre as inúmeras maneiras dessa divindade se manifestar na vida dos mortais. Mas sobre o tempo da eternidade não podemos falar. Até quando?
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
sexta-feira, dezembro 21, 2007
PIRATININGA, ANO 454 DA DEGLUTIÇÃO DO BISPO SARDINHA
Desde o fato traumático original. Navegadores: homens brancos, europeus e católicos. Acharam uma terra e divisaram ao longe os contornos de uma praia nunca antes vista por um ser humano do continente deles. E os habitantes daquela praia, por sua vez, depararam-se com pessoas (será que eram mesmo?) muito diferentes de tudo o que eles já tinham visto ou sonhado alguma vez na vida. Mas não viram nem pensaram essa experiência incrível com essas palavras que eu uso para descrevê-los em português: pensaram num idioma outro, pois existiam em uma cultura outra.
À maravilha da descoberta recíproca, sucederam-se o estranhamento, a incompreensão e o genocídio. Os povos indígenas resistiram como puderam ao ímpeto etnocida dos brancos, seja fugindo cada vez mais sertão adentro, seja morrendo voluntariamente para não tornarem-se escravos. Mas apesar de tudo, a catástrofe dizimou quase todas essas humanidades.
E o fato traumático original repetiu-se nos embates entre outras populações igualmente irreconciliáveis postas frente a frente e travando entre si um combate mortal, em que só uma delas pode sair viva. Quase sempre a população vencedora provém da raça dos navegadores homens, brancos, cristãos e europeus. Mas às vezes o outro lado também obtém sucesso em suas investidas. E assim surgem propostas alternativas de organizar o mundo, as quais invariavelmente terminam reprimidas com violência e crueldade exemplares por parte do poder oficial. Alguns poucos monumentos dessas vitórias esporádicas ficaram documentados na historiografia canônica: a deglutição do bispo Sardinha, Palmares, Canudos, as greves operárias, a luta armada contra a ditadura militar, a revolta da chibata, Eldorado dos Carajás. Uma profusão de mártires.
Vítima dessa dinâmica perversa, a América Latina é o continente das contradições que não se resolvem. Nos grandes centros urbanos, a tensão entre os opostos faz-se presente por todos os lados e pode ser observada, por exemplo, nos condomínios de luxo protegidos por altas muralhas, cercas elétricas e vigilantes armados, que convivem lado a lado na mesma paisagem com enormes favelas e algomerados de moradias populares sem nenhum recurso de infra-estrutura. E tais conflitos seguem sempre o mesmo trajeto: do estranhamento à incompreensão, desdobrando-se em franca hostilidade e todas as formas de violência conhecidas.
Ainda hoje é bastante comum ouvir algum político ou algum jornalista comentando qualquer fato social ignorando o óbvio, a saber: nossas nações estão à beira do abismo e em constante ebulição. Os anos 2000, especialmente, parecem ignorar a quantidade sempre maior de repressão e violência necessárias a cada dia para que a engrenagem reproduza-se a si mesma, encobrindo, mais ou menos descaradamente, o que ela tem de injusto e desigual. Os oprimidos retornam e reivindicam a redenção do trauma original.
À maravilha da descoberta recíproca, sucederam-se o estranhamento, a incompreensão e o genocídio. Os povos indígenas resistiram como puderam ao ímpeto etnocida dos brancos, seja fugindo cada vez mais sertão adentro, seja morrendo voluntariamente para não tornarem-se escravos. Mas apesar de tudo, a catástrofe dizimou quase todas essas humanidades.
E o fato traumático original repetiu-se nos embates entre outras populações igualmente irreconciliáveis postas frente a frente e travando entre si um combate mortal, em que só uma delas pode sair viva. Quase sempre a população vencedora provém da raça dos navegadores homens, brancos, cristãos e europeus. Mas às vezes o outro lado também obtém sucesso em suas investidas. E assim surgem propostas alternativas de organizar o mundo, as quais invariavelmente terminam reprimidas com violência e crueldade exemplares por parte do poder oficial. Alguns poucos monumentos dessas vitórias esporádicas ficaram documentados na historiografia canônica: a deglutição do bispo Sardinha, Palmares, Canudos, as greves operárias, a luta armada contra a ditadura militar, a revolta da chibata, Eldorado dos Carajás. Uma profusão de mártires.
Vítima dessa dinâmica perversa, a América Latina é o continente das contradições que não se resolvem. Nos grandes centros urbanos, a tensão entre os opostos faz-se presente por todos os lados e pode ser observada, por exemplo, nos condomínios de luxo protegidos por altas muralhas, cercas elétricas e vigilantes armados, que convivem lado a lado na mesma paisagem com enormes favelas e algomerados de moradias populares sem nenhum recurso de infra-estrutura. E tais conflitos seguem sempre o mesmo trajeto: do estranhamento à incompreensão, desdobrando-se em franca hostilidade e todas as formas de violência conhecidas.
Ainda hoje é bastante comum ouvir algum político ou algum jornalista comentando qualquer fato social ignorando o óbvio, a saber: nossas nações estão à beira do abismo e em constante ebulição. Os anos 2000, especialmente, parecem ignorar a quantidade sempre maior de repressão e violência necessárias a cada dia para que a engrenagem reproduza-se a si mesma, encobrindo, mais ou menos descaradamente, o que ela tem de injusto e desigual. Os oprimidos retornam e reivindicam a redenção do trauma original.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
É posível conceber um paralelo entre o significado do trauma do nascimento para a psicanálise e o que significa o achamento do Brasil pelos portugueses para a história do Brasil. Esse encontro traumático entre duas humanidades, frontalmente opostas em quase tudo, desdobrou-se, num primeiro momento, no extermínio etnocida dos povos indígenas. Mais tarde, a cena repete-se com outro grupos em outros contextos, porém sempre retomando o embate arquetípico entre linhagens humanas desiguais e irreconciliáveis. E desde sempre, sobretudo no pólo mais europeizado, mais esbranquiçado e cristianizado da relação, o encontro pauta-se em posturas etnocêntricas, violentas e intolerantes.
A literatura brasileira utilizou-se desde sempre dessa poderosa imagem poética do encontro entre as populações indígenas e os navegadores portugueses. "Iracema" conta essa história em forma de mito, ao pintar em cores românticas a gênese da nação brasileira, embora sonegue o componente genocida da colonização e filie-se (como a quase totalidade dos documentos) à visão de mundo do lado vencedor. Já a antropofagia de Oswald de Andrade relativiza o etnocentrismo de seus predecessores e apropria-se da perspectiva do índio a fim de constituir um ponto de vista diverso do cânone europeu importado e no fim das contas opera como um contraponto deste.
No cinema, também é recorrente a figuração dos conflitos entre humanidades em choque, ou seja, entre os extremos de uma sociedade sem coesão e rachada ao meio por contradições insolúveis. Basta lembrar "terra em transe" de Glauber, "o bandido da luz vermelha" de Rogério Sganzerla, ou mesmo "cidade de deus" de Fernando Meirelles e "tropa de elite" de José Padilha. Os exemplos são inumeráveis.
Hoje assistimos, senão por experiência própria ao menos pelo que é veiculado nos meios de comunicação, à repetição desse embate traumático e mortal entre os diferentes que se cobrem numa mesma bandeira de Brasil, principalmente nos fronts da guerra civil urbana. E, incapazes de aprendizado e amadurecimento a partir das experiências do passado, nós, brasileiros e brasileiras de todos os jeitos, continuamos a fundamentar nossa fala a respeito desse outro tão próximo em máximas etnocêntricas, em raciocínios enviesados e em preconceitos deslavados. Reproduzimos o que nos faz inviáveis e que chacina nossas crianças, nossos índios, nossas mulheres, nossos negros, nossos favelados, nós mesmos.
Haverá alguma brecha nesse mecanismo por onde possa germinar a solidariedade? No panorama de um modo de produção capitalista pós-industrial que só veio para reforçar os impulsos que atiram os indivíduos e agrupamentos humanos uns contra os outros, essa hipótese soa cada vez mais improvável. Porém convém não perder a fé nas ações ainda incipientes e pouco coordenadas daqueles que se impuseram o desafio de erigir um mundo do e para o diferente.
A literatura brasileira utilizou-se desde sempre dessa poderosa imagem poética do encontro entre as populações indígenas e os navegadores portugueses. "Iracema" conta essa história em forma de mito, ao pintar em cores românticas a gênese da nação brasileira, embora sonegue o componente genocida da colonização e filie-se (como a quase totalidade dos documentos) à visão de mundo do lado vencedor. Já a antropofagia de Oswald de Andrade relativiza o etnocentrismo de seus predecessores e apropria-se da perspectiva do índio a fim de constituir um ponto de vista diverso do cânone europeu importado e no fim das contas opera como um contraponto deste.
No cinema, também é recorrente a figuração dos conflitos entre humanidades em choque, ou seja, entre os extremos de uma sociedade sem coesão e rachada ao meio por contradições insolúveis. Basta lembrar "terra em transe" de Glauber, "o bandido da luz vermelha" de Rogério Sganzerla, ou mesmo "cidade de deus" de Fernando Meirelles e "tropa de elite" de José Padilha. Os exemplos são inumeráveis.
Hoje assistimos, senão por experiência própria ao menos pelo que é veiculado nos meios de comunicação, à repetição desse embate traumático e mortal entre os diferentes que se cobrem numa mesma bandeira de Brasil, principalmente nos fronts da guerra civil urbana. E, incapazes de aprendizado e amadurecimento a partir das experiências do passado, nós, brasileiros e brasileiras de todos os jeitos, continuamos a fundamentar nossa fala a respeito desse outro tão próximo em máximas etnocêntricas, em raciocínios enviesados e em preconceitos deslavados. Reproduzimos o que nos faz inviáveis e que chacina nossas crianças, nossos índios, nossas mulheres, nossos negros, nossos favelados, nós mesmos.
Haverá alguma brecha nesse mecanismo por onde possa germinar a solidariedade? No panorama de um modo de produção capitalista pós-industrial que só veio para reforçar os impulsos que atiram os indivíduos e agrupamentos humanos uns contra os outros, essa hipótese soa cada vez mais improvável. Porém convém não perder a fé nas ações ainda incipientes e pouco coordenadas daqueles que se impuseram o desafio de erigir um mundo do e para o diferente.
terça-feira, dezembro 18, 2007
TECNOLOGIA E POLÍTICA
A tecnologia não se resume a obsessão pelo novo que fascina as pessoas diante da vitrine de uma loja de "shopping center". A expansão do domínio da racionalidade técnica a quase todos os aspectos da vida teve como consequências de um lado o declínio da subjetividade e de outro a despolitização das massas. A ciência e a técnica, ao configurarem-se como ideologias, cumprem um papel fundamental na reprodução e também no sentido que tomam as transformações de um mundo que segue a passos largos para um cenário de crescente desigualdade social e catástrofe ecológica.
Nas sociedades pré-capitalistas, a articulação entre o conhecimento científico e suas aplicações não se dava de forma imediata, ou seja, só esporadicamente (e quase que por um acaso) alguma descoberta científica resultava numa inovação prática ou no aperfeiçoamento de algum processo ligado ao ambiente de trabalho. Nos dias de hoje, ao contrário, a ciência e a técnica estão tão intimamente associadas, que praticamente toda pesquisa científica é concebida tendo em vista suas possibilidades de aplicação na guerra ou na indústria.
O encanto pelas "melhorias do mundo moderno" e a imagem do homem solitário sentado numa poltrona em um apartamento e cercado de todos os lados por equipamentos eletrônicos "de última geração" ilustram bem o poder de sedução dos produtos de uma tecnologia que se desenvolve com uma velocidade espantosa. Porém, ao mesmo tempo são sintomas de um comportamento individualista, do declínio das relações inter-subjetivas e da despolitização das pessoas, que caracterizam tão bem a nossa época. Possuímos cada vez mais coisas materiais e cada vez menos vivências memoráveis e particulares que nos fazem únicos.
Hoje é muito comum ouvir dizer que o estado tornou-se o lar dos tecnocratas. As relações entre o estado e a técnica são complexas e variadas, mas convém destacar ao menos dois pontos. Em primeiro lugar, os governos dos países mais ricos alocam generosos recursos orçamentários em pesquisas científicas e universidades. O critério utilizado para definir quais as linhas de pesquisa que receberão os maiores aportes de dinheiro é justamente o potencial desse conhecimento converter-se em tecnologia num período curto de tempo. Um outro aspecto importante: em nossos dias, o debate democrático reduziu-se a uma "escolha" (fundamentada no que conseguimos digerir dos meios de comunicação de massa) de um entre dois burocratas de carreira invariavelmente discursando sobre seu respectivo "projeto" para a nação e afirmando categoricamente que ele "sabe fazer melhor" do que o seu adversário do partido oposto. De um lado a tecnocracia e de outro o estado como agente do desenvolvimento das forças produtivas.
Também é verdade que a evolução da tecnologia acompanha a história da humanidade desde sempre. Entretanto, a hegemonia da racionalidade técnica em detrimento do pensamento crítico e voltado para os assuntos propriamente humanos é uma característica desta era capitalista tardia. Já é tempo de falar mais sobre e, sobretudo, de fazer mais política. E sem controle remoto.
Nas sociedades pré-capitalistas, a articulação entre o conhecimento científico e suas aplicações não se dava de forma imediata, ou seja, só esporadicamente (e quase que por um acaso) alguma descoberta científica resultava numa inovação prática ou no aperfeiçoamento de algum processo ligado ao ambiente de trabalho. Nos dias de hoje, ao contrário, a ciência e a técnica estão tão intimamente associadas, que praticamente toda pesquisa científica é concebida tendo em vista suas possibilidades de aplicação na guerra ou na indústria.
O encanto pelas "melhorias do mundo moderno" e a imagem do homem solitário sentado numa poltrona em um apartamento e cercado de todos os lados por equipamentos eletrônicos "de última geração" ilustram bem o poder de sedução dos produtos de uma tecnologia que se desenvolve com uma velocidade espantosa. Porém, ao mesmo tempo são sintomas de um comportamento individualista, do declínio das relações inter-subjetivas e da despolitização das pessoas, que caracterizam tão bem a nossa época. Possuímos cada vez mais coisas materiais e cada vez menos vivências memoráveis e particulares que nos fazem únicos.
Hoje é muito comum ouvir dizer que o estado tornou-se o lar dos tecnocratas. As relações entre o estado e a técnica são complexas e variadas, mas convém destacar ao menos dois pontos. Em primeiro lugar, os governos dos países mais ricos alocam generosos recursos orçamentários em pesquisas científicas e universidades. O critério utilizado para definir quais as linhas de pesquisa que receberão os maiores aportes de dinheiro é justamente o potencial desse conhecimento converter-se em tecnologia num período curto de tempo. Um outro aspecto importante: em nossos dias, o debate democrático reduziu-se a uma "escolha" (fundamentada no que conseguimos digerir dos meios de comunicação de massa) de um entre dois burocratas de carreira invariavelmente discursando sobre seu respectivo "projeto" para a nação e afirmando categoricamente que ele "sabe fazer melhor" do que o seu adversário do partido oposto. De um lado a tecnocracia e de outro o estado como agente do desenvolvimento das forças produtivas.
Também é verdade que a evolução da tecnologia acompanha a história da humanidade desde sempre. Entretanto, a hegemonia da racionalidade técnica em detrimento do pensamento crítico e voltado para os assuntos propriamente humanos é uma característica desta era capitalista tardia. Já é tempo de falar mais sobre e, sobretudo, de fazer mais política. E sem controle remoto.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
A VOLTA DO BOÊMIO
Tarde da tarde. Eu procuro um meio de escapar do turbilhão que ronca e se move, porém para qualquer direção que eu vire o rosto, tudo o que eu vejo são repetidos e repetidos automóveis. Um hipócrita me dirige a palavra e eu baixo a cabeça ou o rabo entre as pernas, como quem pressente a frase jamais dita que vai te custar a colocação e o emprego. Engulo a seco. Peço mais licença e me escuso: hoje me recuso a telefonar para qualquer criatura com tendências burguesas ou capitalistas. Odeio e rumino em silêncio, maldizendo na memória aquela esganiçada voz loira e os respectivos gestos coreografados que a etiqueta prescreve sem nem saber bem para quê. Percebo que estou vestido com um deles e desejo aquela nudez que só é permitida aos loucos em estado de internação irreversível. Sinto vontade de poder. Ou de escutar aquele tremendo grito que um dia eu fui capaz de gritar, naquela época em que as sessões diárias de tortura infringidas aos pequenos burocratas que clamavam por anarquia ainda eram uma novidade. Procuro auxílio na magia negra e nos terreiros de candomblé. Fico sabendo que ainda devo resguardar em mim aquela fração do meu ser que é capaz da mentira e do ódio. Ganhei um amuleto. Mas mesmo assim não foi dessa vez que roubei todo dinheiro que existe no mundo. Esse mártir não sou eu. Sou só aquele carinha que reclama e sofre, bebendo a cerveja dos otários e fumando o cigarro de uma vida que já passou do seu auge. Morrer de uma vez só não dói, mas definhar, definhar, definhar... é destino de quem nasceu fraco e punição pra covardia de quem escolheu o caminho mais fácil que é ser poeta. Fique aí de bobeira cultivando um espírito ilustrado que tudo o que você vai ganhar são oito anos numa cadeira de rodas, trinta sessões de psicanálise e descarrego, um tumor bem feio na laringe e cinco filhos pra criar. Não existe camisinha pra vida. Daquele menino quieto e míope no fundo da classe só restou insubordinação. Dizem que o mercado está péssimo para os brasileiros que fazem questão de não querer viver nesse brasil. Nesse canil. Nesse vazio. Nesse quarto de UTI em que nem a puta mais puta pariu. Jesus, o homem santo, é o autêntico filho da puta. E nem um greencard no mercado negro ele não conseguiu. Eu tô fodido. Hoje já é dia trinta e seis e o meu salário não caiu.
quinta-feira, junho 14, 2007
CONCEBA E EXECUTE
CONCEBA E EXECUTE
SAIA POR AÍ E VIVA
CONHEÇA AS PESSOAS
GOSTE DELAS PELO QUE ELAS PENSAM
AME E DISCORDE DO QUE ELAS FALAM
ESCOLHA ALGUÉM PARA TRANSAR HOJE A NOITE
VIVA TUDO O QUE PUDER VIVER NESSAS HORAS
TESÃO É A COISA PRINCIPAL NA NOSSA VIDA
CONSCIÊNCIA TAMBÉM É ALGO QUE É IMPORTANTE TER POR PERTO.
MAS NA HORA LÁ QUEM FALA MAIS ALTO É O DESEJO
EU E VOCÊ PODEMOS TRANSAR E CORRER CERTOS RISCOS
DE ENGRAVIDAR OU DE CONTRAIR UM DESSES VÍRUS QUE TEM POR AÍ
TODO MUNDO JÁ DEU ALGUMA VACILADA E FICOU COM CULPA DEPOIS
CONTRA O DESEJO NÃO EXISTE NENHUM REMÉDIO
E AINDA BEM QUE É ASSIM
MAS PRA CERTAS VACILADAS E RELAÇÕES SEXUAIS DESPROTEGIDAS
SAIBA QUE AGORA JÁ INVENTARAM UMA PÍLULA
USE A CAMISINHA E A PÍLULA DO DIA SEGUINTE
SAIA POR AÍ E VIVA
CONHEÇA AS PESSOAS
GOSTE DELAS PELO QUE ELAS PENSAM
AME E DISCORDE DO QUE ELAS FALAM
ESCOLHA ALGUÉM PARA TRANSAR HOJE A NOITE
VIVA TUDO O QUE PUDER VIVER NESSAS HORAS
TESÃO É A COISA PRINCIPAL NA NOSSA VIDA
CONSCIÊNCIA TAMBÉM É ALGO QUE É IMPORTANTE TER POR PERTO.
MAS NA HORA LÁ QUEM FALA MAIS ALTO É O DESEJO
EU E VOCÊ PODEMOS TRANSAR E CORRER CERTOS RISCOS
DE ENGRAVIDAR OU DE CONTRAIR UM DESSES VÍRUS QUE TEM POR AÍ
TODO MUNDO JÁ DEU ALGUMA VACILADA E FICOU COM CULPA DEPOIS
CONTRA O DESEJO NÃO EXISTE NENHUM REMÉDIO
E AINDA BEM QUE É ASSIM
MAS PRA CERTAS VACILADAS E RELAÇÕES SEXUAIS DESPROTEGIDAS
SAIBA QUE AGORA JÁ INVENTARAM UMA PÍLULA
USE A CAMISINHA E A PÍLULA DO DIA SEGUINTE
DIÁRIO DE UM BANCÁRIO
Cláudio César Baptista, matrícula 1984-1977, logo pela manhã se dirigiu para a agência do banco onde ele trabalha. Logo pela manhã atendeu a uma porção de telefonemas: trinta e sete pessoas físicas, sete pessoas jurídicas e uma instituição religiosa sem fins não-lucrativos.
As dez e dezenove, exatos vinte e sete minutos após a abertura da agência para o público comum, uma mulher morena alta e que parecia ter origem sírio-libanesa, vestindo óculos escuros de lentes enormes, um lenço lilás com bolinhas prateadas de tamanhos diversos ao redor do rosto e um vestido despudoradamente curto e decotado, sentou-se à mesa de Cláudio César. Ela recusou água e café e disse eu preciso urgentemente de cem mil reais. Dividido entre o dever profissional e a atração física que ele sentia por aquela mulher naquele momento, Cláudio César Baptista ofereceu uma contraproposta de sete mil, trezentos e noventa e cinco reais e onze centavos à vista e o restante em suaves prestações a perder de vista e entregou para ela um desses cartões de visita onde antes ele tinha escrito atrás uns garranchos obcenos e escrito um número determinado de telefone celular. A mulher aceitou somente o cartão e foi embora com um jeito mais do que especial de dizer tchau.
Cláudio César Baptista, matrícula 1759-1969, parecia invadido por um furor de fazer coisas com a mão: carimbou duzentos versos de cheques endossados, assinou seu nome porcamente em setecentos e oitenta e dois formulários, contratos, duplicatas, ofícios, comunicados, relatórios, dossiês, entre tantos outros papéis timbrados ou não, carregou pilhas de processos para o arquivo morto escada acima, trocou componentes de hardware de seu próprio terminal de computador e se comunicou por gestos com a colega que estava do lado de lá do guichê do caixa.
Voltando ao seu posto, Cláudio se deu conta de que os montes de pastas e papéis sobre a sua mesa se erguiam como uma verdadeira muralha e que do lado de lá alguém chamava pelo seu nome, embora ele não tivesse muita certeza disso. O funcionário cuja matrícula é 8419-7719 levantou de sua mesa e notou um microempresário bem rente ao chão. O filho do ilustre seu Baptista da vila nova cachoeirinha deu a volta e se agachou, já que o seu interlocutor não tinha mais do que quarenta e dois centímetros de altura; o microempresário foi direto ao ponto e dali em diante passou a metralhar todo um arsenal de impropérios e imprecações direcionados ao senhor seu Cláudio César Baptista e a senhora sua mãe. César havia feito um negócio de risco com o anão alguns meses atrás, porém a queda das ações dos fabricantes de playmobil e comandos-em-ação na bolsa de valores de Pequim levou a bancarrota todo esse ramo de atividade da indústria nacional. O bancário escutou em silêncio tudo o que o seu cliente disse e ao final pronunciou – num tom de voz entre jocoso, dionisíaco e sarcástico – a palavra não. A cena que acabamos de presenciar foi apontada pelo psiquiatra forense dr reginaldo do cu da cunha como a deflagradora direta do acesso de demência e insanidade que se abateu sobre o senhor juvenal moreira, o microempresário do ramo de bonecos de plástico em miniatura que descrevemos a pouco. Embora nesse meio tempo Cláudio César ainda tenha conseguido vender um seguro de vida, um plano de previdência privada e um título de capitalização para o senhor juvenal moreira, seu cliente de tantos anos.
Cláudio César Baptista almoçou num restaurante por quilo e fumou dois cigarros seguidos.
Ao retornar deparou com o diabo. Cláudio César estava sereno, porém intrigado, mas logo sacou sua adaga em formato de caneta momblã e o diabo fez aparecer pilhas de notas de cédulas de dinheiros. O diabo molhava a pena no tinteiro de nanquim, quando Cláudio César lhe ofereceu em troca uma polpuda soma como adiantamento. Assim que assinaram, o diabo se desmaterializou numa nuvem de fumaça preta, deixando no arum cheiro ruim de enxofre. As câmeras do circuito interno de tevê chegaram a flagrar a figura diabólica em pessoa, porém ninguém jamais soube do paradeiro daquela fita vhs.
Dois minutos inteiros se passaram sem que nada de mais extraordinário sucedesse, até que um toque diferenciado no ramal do telefone de Cláudio César indicava – sem sombra de dúvida – que ele estava sendo convocado a comparecer junto às instâncias superiores da corporação. Cláudio subiu os degraus da escada que levavam até o andar de cima e se encaminhou para a mesa onde trabalhava a chefa daquela repartição. Conversou com ela de uma maneira amena e ponderada e pôde inclusive expor com calma algumas situações delicadas de sua vida pessoal que estavam interferindo de forma negativa em sua rotina diária de trabalho. A chefa ouviu tudo com atenção e ofereceu doses generosas de conselhos sábios e palavras de conforto. Cláudio César sentiu que era exatamente essa a motivação que ele precisava para prosseguir, ainda retornou para o seu posto de sentinela, fez alguns telefonemas e mandou uma porção de e-mails.
Foi embora.
As dez e dezenove, exatos vinte e sete minutos após a abertura da agência para o público comum, uma mulher morena alta e que parecia ter origem sírio-libanesa, vestindo óculos escuros de lentes enormes, um lenço lilás com bolinhas prateadas de tamanhos diversos ao redor do rosto e um vestido despudoradamente curto e decotado, sentou-se à mesa de Cláudio César. Ela recusou água e café e disse eu preciso urgentemente de cem mil reais. Dividido entre o dever profissional e a atração física que ele sentia por aquela mulher naquele momento, Cláudio César Baptista ofereceu uma contraproposta de sete mil, trezentos e noventa e cinco reais e onze centavos à vista e o restante em suaves prestações a perder de vista e entregou para ela um desses cartões de visita onde antes ele tinha escrito atrás uns garranchos obcenos e escrito um número determinado de telefone celular. A mulher aceitou somente o cartão e foi embora com um jeito mais do que especial de dizer tchau.
Cláudio César Baptista, matrícula 1759-1969, parecia invadido por um furor de fazer coisas com a mão: carimbou duzentos versos de cheques endossados, assinou seu nome porcamente em setecentos e oitenta e dois formulários, contratos, duplicatas, ofícios, comunicados, relatórios, dossiês, entre tantos outros papéis timbrados ou não, carregou pilhas de processos para o arquivo morto escada acima, trocou componentes de hardware de seu próprio terminal de computador e se comunicou por gestos com a colega que estava do lado de lá do guichê do caixa.
Voltando ao seu posto, Cláudio se deu conta de que os montes de pastas e papéis sobre a sua mesa se erguiam como uma verdadeira muralha e que do lado de lá alguém chamava pelo seu nome, embora ele não tivesse muita certeza disso. O funcionário cuja matrícula é 8419-7719 levantou de sua mesa e notou um microempresário bem rente ao chão. O filho do ilustre seu Baptista da vila nova cachoeirinha deu a volta e se agachou, já que o seu interlocutor não tinha mais do que quarenta e dois centímetros de altura; o microempresário foi direto ao ponto e dali em diante passou a metralhar todo um arsenal de impropérios e imprecações direcionados ao senhor seu Cláudio César Baptista e a senhora sua mãe. César havia feito um negócio de risco com o anão alguns meses atrás, porém a queda das ações dos fabricantes de playmobil e comandos-em-ação na bolsa de valores de Pequim levou a bancarrota todo esse ramo de atividade da indústria nacional. O bancário escutou em silêncio tudo o que o seu cliente disse e ao final pronunciou – num tom de voz entre jocoso, dionisíaco e sarcástico – a palavra não. A cena que acabamos de presenciar foi apontada pelo psiquiatra forense dr reginaldo do cu da cunha como a deflagradora direta do acesso de demência e insanidade que se abateu sobre o senhor juvenal moreira, o microempresário do ramo de bonecos de plástico em miniatura que descrevemos a pouco. Embora nesse meio tempo Cláudio César ainda tenha conseguido vender um seguro de vida, um plano de previdência privada e um título de capitalização para o senhor juvenal moreira, seu cliente de tantos anos.
Cláudio César Baptista almoçou num restaurante por quilo e fumou dois cigarros seguidos.
Ao retornar deparou com o diabo. Cláudio César estava sereno, porém intrigado, mas logo sacou sua adaga em formato de caneta momblã e o diabo fez aparecer pilhas de notas de cédulas de dinheiros. O diabo molhava a pena no tinteiro de nanquim, quando Cláudio César lhe ofereceu em troca uma polpuda soma como adiantamento. Assim que assinaram, o diabo se desmaterializou numa nuvem de fumaça preta, deixando no arum cheiro ruim de enxofre. As câmeras do circuito interno de tevê chegaram a flagrar a figura diabólica em pessoa, porém ninguém jamais soube do paradeiro daquela fita vhs.
Dois minutos inteiros se passaram sem que nada de mais extraordinário sucedesse, até que um toque diferenciado no ramal do telefone de Cláudio César indicava – sem sombra de dúvida – que ele estava sendo convocado a comparecer junto às instâncias superiores da corporação. Cláudio subiu os degraus da escada que levavam até o andar de cima e se encaminhou para a mesa onde trabalhava a chefa daquela repartição. Conversou com ela de uma maneira amena e ponderada e pôde inclusive expor com calma algumas situações delicadas de sua vida pessoal que estavam interferindo de forma negativa em sua rotina diária de trabalho. A chefa ouviu tudo com atenção e ofereceu doses generosas de conselhos sábios e palavras de conforto. Cláudio César sentiu que era exatamente essa a motivação que ele precisava para prosseguir, ainda retornou para o seu posto de sentinela, fez alguns telefonemas e mandou uma porção de e-mails.
Foi embora.
terça-feira, fevereiro 27, 2007
(sem título)
Que porra é essa que
Que porra é essa aqui
Quem jorra pra fora da jarra
Quem joga marola na praia
Cadê meus juros? no casulo
Quem vê meu futuro? eu furo
Quais tralhas eu trago do trampo
Quais trilhos meus cílios eu tranço
Qué sabê de tudo? eu nem ajudo
Qué pulá do muro? eu te empurro
Que porra é essa aqui
Quem jorra pra fora da jarra
Quem joga marola na praia
Cadê meus juros? no casulo
Quem vê meu futuro? eu furo
Quais tralhas eu trago do trampo
Quais trilhos meus cílios eu tranço
Qué sabê de tudo? eu nem ajudo
Qué pulá do muro? eu te empurro
O sonâmbulo
Eu ia dormir
mas decidi que deste dia
alguma coisa deveria ficar.
Vizinhos antípodas
escavam buracos
para se evadir pelo subsolo.
Não há matéria orgânica
nos vastos terrenos
delimitados pela cerca.
Lagartos se esfregam
nas peças de carne seca
expostas num varal ao sol.
E a lagosta de entoca
numa apertada fresta
entre a pedra e a parede.
Eu me deito mas não penso.
mas decidi que deste dia
alguma coisa deveria ficar.
Vizinhos antípodas
escavam buracos
para se evadir pelo subsolo.
Não há matéria orgânica
nos vastos terrenos
delimitados pela cerca.
Lagartos se esfregam
nas peças de carne seca
expostas num varal ao sol.
E a lagosta de entoca
numa apertada fresta
entre a pedra e a parede.
Eu me deito mas não penso.
Gráfico
O empuxo que transgride o fragmento
inertes maxilares num corpo morto
rochas que penetram rasgando o oceano
um estojo de metal com lápis de cor dentro
a escuridão eu pinto de cinza
faço um retrato falado de feições cubistas
sonho com a ópera e acordo na fila do pão
compasso, régua e transferidor
a beira da praia lembra um dia lá na cachoeira
meu banquete grego com ânforas e almofadas
o traçado, a silhueta e a figura.
inertes maxilares num corpo morto
rochas que penetram rasgando o oceano
um estojo de metal com lápis de cor dentro
a escuridão eu pinto de cinza
faço um retrato falado de feições cubistas
sonho com a ópera e acordo na fila do pão
compasso, régua e transferidor
a beira da praia lembra um dia lá na cachoeira
meu banquete grego com ânforas e almofadas
o traçado, a silhueta e a figura.
segunda-feira, janeiro 01, 2007
1º de Janeiro
No quarto desarrumado
Um colchão ao lado do outro
Fazem como os ponteiros de um relógio
Que marcasse vinte pras sete.
Tecidos desenhados pelo vento.
Lençóis: fugazes fósseis de outros corpos.
Os travesseiros que esculpem beijos
Emoldurados na idade da cama.
O calor e os odores condensados
São vestígios de negação da ausência:
Ouço barulho da pia fechando no banheiro ao lado.
O sabor me escorre vivo da boca
Ou será destilado de lembrança?
Fecho os olhos e mastigo mais um pedaço.
Um colchão ao lado do outro
Fazem como os ponteiros de um relógio
Que marcasse vinte pras sete.
Tecidos desenhados pelo vento.
Lençóis: fugazes fósseis de outros corpos.
Os travesseiros que esculpem beijos
Emoldurados na idade da cama.
O calor e os odores condensados
São vestígios de negação da ausência:
Ouço barulho da pia fechando no banheiro ao lado.
O sabor me escorre vivo da boca
Ou será destilado de lembrança?
Fecho os olhos e mastigo mais um pedaço.
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