É um livro escrito por um jornalista para pessoas acostumadas a se informarem e formarem suas opiniões a partir de relatos jornalísticos.
A impressão que me ficou ao terminar de ler o livro é a de que o autor poderia ter se concentrado mais sobre os acontecimentos relacionados com as privatizações, faltou uma amarração no enredo. Dessa forma, os capítulos em que o autor/jornalista figura como personagem principal da narrativa têm um detalhamento e um tratamento estilístico muito mais apurado do que os capítulos em que se descreve a época do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.
Os capítulos em que Amaury Ribeiro Jr. é o personagem de uma narrativa em terceira pessoa estão no começo e no final do livro: no capítulo 1, talvez o mais bem sucedido literariamente do livro, Amaury conta como sofreu um atentado em um bar em uma cidade satélite de Brasília (ou em Goiás, não me lembro), quando investigava o “crime organizado” dessa região e procurava desvendar o que estava por trás do surto de homicídios de jovens no “faroeste caboclo”.
Já nos capítulos finais, vemos Amaury como o pivô de um (suposto) grande escândalo durante as eleições para presidente em 2010. Nessa parte, o autor deixa muitos fios soltos e exagera o impacto da grande mídia sobre a formação de opiniões políticas na sociedade: exagera, por exemplo, o papel da revista Veja, do jornal Folha de São Paulo e dele mesmo sobre o que aconteceu entre julho e novembro de 2010. Eu, por exemplo, considero que a aliança estratégica, cínica e homicida dos dois candidatos em prol da interferência das igrejas fundamentalistas cristãs sobre a legislação machista brasileira sobre o aborto foi um episódio infinitamente mais relevante, que pôs em evidência o que realmente estava em jogo naquelas eleições, do que um suposto embate entre PSDB e PT para provar quem havia sido menos corrupto quando estava no poder.
Tanto assim que anulei meu voto no segundo turno e considero que o governo Dilma se mostra covarde e reacionário toda vez que emergem conflitos entre fundamentalismos, de um lado, e direitos humanos, de outro. Comissão da Verdade e prisão de torturadores sem dúvida são causas que estão na ordem do dia, mas estancar o massacre de mulheres, em geral negras, nordestinas, faveladas, analfabetas, excluídas do mercado de trabalho e da previdência social, violentadas dentro e fora de casa, seja nos grandes centros urbanos ou nos sertões mais brutalizados deveria ser o problema político mais importante a ser enfrentado pelo governo que aí está.
Ao mesmo tempo em que o Brasil inclui novas levas de pessoas na economia de mercado e dá oportunidade de classemedialização a tanta gente, só vemos crescer os preconceitos, a influência de seitas e religiões fundamentalistas, certos consensos sobre a distribuição de riquezas e bem-estar conforme desígnios divinos e leis imutáveis da natureza. Crescem as ideologias, a reificação, a alienação e os discursos nacionalistas, xenófobos, racistas, machistas, homofóbicos, etnocêntricos, neoliberais, claros, objetivos e impessoais como uma reportagem de jornal ou de revista, publicada na Veja, na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo, na TV mercantilista-evangélica Record ou na TV fundamentalista-católica Rede Globo - torturadora e militar.
Voltando ao livro: nos capítulos mais propriamente substanciais do volume, o autor se utiliza da seguinte estratégia: circunscreve a ação a certos personagens umbilicalmente ligados ao núcleo duro do PSDB (o tesoureiro da campanha de FHC Ricardo Sérgio, seu sócio, a filha de José Serra e seu marido), delineia o modo como essas pessoas enviavam recursos para uma empresa de fachada nas Ilhas Virgens Britânicas e depois repatriavam esses valores. É no mínimo estranho como o autor não faz qualquer menção que pudesse responsabilizar outros figurões do “partidão”: nenhuma acusação sobre FHC, sobre ACM, sobre Aécio Neves, sobre Paulo Renato, sobre Sérgio Motta e nem sobre os tecnocratas do BC e do ministério da fazenda. Tudo se limita ao clã Serra.
A insistência do autor/jornalista em dizer que obteve todas as suas provas em cartórios brasileiros também soa um pouco ingênua. Cartórios, gostem os formados em direito ou não, são concessões vitalícias completamente anacrônicas e inúteis, ainda que tremendamente lucrativas para as pessoas de pele branca que os possuem. A mim, pelo menos, afirmar que obteve as provas em cartórios não é algo que corrobore para a seriedade ou validade dessas provas, muito pelo contrário. A corrupção e o patrimonialismo marcam a existência de todo e qualquer cartório desde os tempos das capitanias hereditárias (dos quais são o principal resquício até os dias de hoje).
Ponto dois: fica, da leitura do livro, o tempo todo uma impressão de que o autor poderia ter ido mais fundo, mas preferiu não fazê-lo por conveniência ou medo. Conveniência: falar mal do clã Serra é chutar cachorro morto, afinal, ele mesmo, ao longo de toda sua trajetória pública, fez toda questão do mundo de se sabotar. Desde a época em que era presidente da UNE no governo João Goulart – a propaganda política dele coloca isso como um “plus”, mas não conta que ele era presidente porque chefiava a facção CATÓLICA do movimento estudantil, então hegemônica na entidade. Os mesmos católicos que foram os principais apoiadores do golpe de 64. Mais recentemente: ao ser eleito prefeito de São Paulo, registrou um documento em cartório (de novo em cartório) afirmando que não abandonaria o mandato para perseguir projetos políticos megalomaníacos e pessoais. Não deu outra: jogou a prefeitura de São Paulo no colo do malufista Kassab, assim como já tinha jogado o governo do estado no colo do ultrarreacionário apoiador de torturadores Alberto Goldman. Por fim, já no desespero da derrota eleitoral em 2010, o capítulo mais triste de sua famigerada biografia: a aliança macabra e assassina com os fundamentalistas em nome da bandeira da criminalização e marginalização das mulheres que são obrigadas, pelas circunstâncias desta sociedade patriarcal e machista, a praticarem o aborto. Como sua esposa, no Chile. Por que Serra, ao abraçar essa causa neonazista, não entregou sua própria mulher para que a polícia a colocasse na cadeia?
Medo: o autor é jornalista. Seu ganha-pão depende de satisfazer os anseios das poucas famílias que monopolizam todos os jornais e redes de televisão do Brasil. O autor é jornalista. Se escrevesse um livro que comprometesse figuras que são adoradas pela mídia e pela opinião pública, poderia não ter seu livro editado nem levado a sério, mesmo que o Serra não se prestasse ao ridículo de querer censurar sua publicação nem comprar os estoques da Livraria Cultura. O autor é jornalista. Tem medo de não encontrar lugar para exercer sua profissão se o sistema que aí está desmoronar.
Dicas para uma segunda edição revista e ampliada: seria fundamental se aprofundar no que realmente importa, ou seja, a “privataria” em si. Caberia, no lugar de todas essas reproduções fac-símiladas de documentos de cartório, colocar gráficos, tabelas e mapas em que se pudessem ver o que foi, de um modo abrangente, a privatização das empresas estatais no primeiro governo FHC. Assim: empresa X, cujo faturamento e patrimônio no ano anterior era Y, foi vendida por Z para fulano de tal, com W de financiamento do BNDES. A partir disso, investigar de verdade quem ganhou o quê, como e quando, esclarecendo para onde foram as propinas e em quanto o Estado brasileiro foi roubado desde então. Tarefa grande demais para um jornalista? Nada que um historiador não possa ajudar, ainda mais se a pesquisa for realizada em alguma universidade ou organização estrangeira, bem longe dos matadores de aluguel do planalto central.
Resumo da ópera: o livro é interessante, mas é um livro de jornalista, que não se preocupa em pôr as coisas em perspectiva ou se aprofundar naquilo que se propõe. Mais interessante, a meu ver, são as questões que o autor propositalmente evita e deixa no ar. Mexer com os fundamentos do regime democrático-representativista implantado pelas elites políticas e econômicas com tanto carinho em meados dos anos 1980 seria cutucar um vespeiro enorme. Não tenho dúvidas de que se trata de coisa que um jornalista que trabalhou a vida inteira para grupos da grande mídia seria incapaz de fazer, de novo por medo ou por conveniência. “Privataria Tucana”, portanto, seria propaganda enganosa? Em certa medida sim. Vai abalar as estruturas do PSDB e liquidar a trajetória política desse marginal-assassino-fundamentalista-terrorista chamado José Serra? Não creio. O cinismo e a desinformação estão aí e o eleitor paulista já cansou de eleger pessoas que se tornaram cada vez mais célebre a medida em que eram taxados pela mídia como corruptos. Adhemar de Barros, Paulo Maluf, Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin são alguns exemplos históricos. Igualar FHC a Collor é um primeiro passo; igualar Lula e Dilma aos outros dois é um segundo, mas enterrar esse regime político escroto que aí está é um terceiro passo que ainda está muito além do que a elite branca do país gostaria. Que ela aguarde a sua hora!
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
quinta-feira, dezembro 15, 2011
sábado, novembro 26, 2011
Estado e Constituição no Brasil
O tempo é de dogmatismo em matéria de política. Se nos 70 e nos 80, havia a possibilidade de unificar todos os setores progressistas da sociedade civil e da comunidade política para combater um inimigo comum – o regime militar autoritário e tecnocrático – a partir dos 90 todas as organizações de massa passaram a concorrer por seu quinhão de poder na Nova República Brasileira. Nesse cenário, a Constituição de 1988 tem sido unanimemente caracterizada como o texto sagrado e inviolável que garante as liberdades civis e aponta os caminhos para uma futura consolidação dos direitos humanos de “terceira geração” no país: sistemas públicos e universais de saúde e educação e políticas para erradicação das enormes desigualdades materiais que desde sempre caracterizaram a sociedade brasileira. O diagnóstico chega a ser enfadonho: a constituição é o script que, se efetivamente implantado nas políticas públicas de todo e qualquer governo, fará despertar o gigante adormecido em berço esplêndido.
A carta constitucional de 1988 descreve minuciosamente qual a forma do Estado (suas divisões internas e as relações de hierarquia e subordinação entre os diferentes poderes e agências estatais) e define, entre outras coisas, as regras para a ocupação dos cargos públicos eletivos. A assembleia constituinte que redigiu esse documento transcorreu numa época que se falava em ampla reconciliação nacional e buscou contemplar os interesses tanto dos apoiadores quanto dos inimigos do regime autoritário, um pouco na mesma linha de “compensação histórica” da Lei da Anistia. No fim das contas, o que estava em jogo erar zerar o que havia ocorrido nos vinte anos anteriores e preparar o caminho para um novo pacto social, com uma outra qualidade de relação entre sociedade e estado. Fruto de sua época, a Constituição de 88 trouxe sim enormes avanços em direção a um modelo de regime político republicano, democrático e, quase diria, de bem-estar social ao feitio europeu. Ainda assim, persistem no texto alguns mecanismos e dispositivos autoritários que raras vezes são questionados ou debatidos enquanto tais. Como citado acima, a Constituição é o texto sagrado e inviolável da Nova República Brasileira. Alguns exemplos: a manutenção de um aparato de repressão militarizado e, em ampla medida, autônomo do controle civil (polícias militares estaduais) e um sistema judiciário absurdamente elitista e reacionário (com direito a postos públicos vitalícios, indicação de cargos “pelos pares”, prisão “especial” para portadores de diplomas universitários e uma prática de jurisprudência racista, machista, homofóbica, católica, discriminatória e que funda a esmagadora maioria das suas decisões na condição econômica das partes em litígio).
Sem dúvida que esses resquícios de autoritarismo são nefastos, podem e devem ser eliminados. Mas talvez o que mais incomode sejam justamente as dimensões progressistas dessa Constituição. Explico: será que esse modelo de Estado importado ipsis litteris das constituições europeias do pós-Segunda Guerra é exequível em outro tempo e lugar (América Latina de fins do século XX e início do XXI)? Existirão formas políticas universalmente válidas e que possam persistir em tempos históricos cujas transformações sociais, tecnológicas, científicas e comportamentais sejam tão rápidas e profundas como o nosso? Mesmo admitindo que sim e que não há espaço para qualquer criatividade institucional no Estado-Nação contemporâneo, já que seu perfil foi delimitado de uma vez e para sempre nas Revoluções Americana e Francesa no Século XVIII, ainda assim há que se fazer uma avaliação se esse modelo efetivamente funcionou no Brasil. Mesmo que não se tenha em mente nenhum outro projeto alternativo ao regime republicano e democrático, isso não invalida a análise crítica do funcionamento das instituições existentes. Nada impede que, caso essa avaliação seja negativa e aponte deficiências estruturais profundas, o regime seja transformado – em qual direção, de que forma e que cara o novo regime terá são problemas a serem respondidos na prática concreta de desmanche do regime atual e não há como (e nem se deve) prever os resultados a partir de uma perspetiva utópica ou teórica. Foi assim nas grandes Revoluções do Século XVIII e, em certa medida, ainda que com muito menor contundência, também foi o caso na “Primavera Árabe” e na transição do autoritarismo para a democracia nos Brasil dos 80: certamente aqueles que derrubaram o regime não desejavam que na futura sociedade brasileira persistissem práticas de tortura, discriminação racial, corrupção e assassinatos praticados por agentes do Estado, mas os jornais escrevem sobre esses assuntos todos os dias e sabe-se, por vivência ou por ouvir dizer, que existe muito mais crimes dessa espécie no mundo do que aquilo que aquilo que porventura é publicado no jornal.
Formulação típica no Brasil: é proibido ser contra a liberdade de expressão e contra os outros direitos civis ou individuais, quais sejam: o direito de ter sua própria propriedade privada, o direito de você poder falar o que quiser, direito de se reunir para falar sobre política com quem você quiser e direito/dever de votar em um daqueles nomes e partidos que estão concorrendo numa dada eleição. Além de ser proibido ser contra a liberdade de expressão, também é proibido ser contra a democracia. Entende-se: a elite política que ocupa os cargos com poder para tomar decisões no Brasil de hoje teve a sua formação intelectual e como pessoa no período da Guerra Fria, em que o raciocínio que predominava tinha um caráter dualista: ou se era a favor do liberalismo e da democracia ou se era a favor do comunismo e dos regimes autoritários. Ser contra a democracia é automaticamente ser a favor da ditadura: não existe a possibilidade lógica de uma terceira alternativa. Uma vez escolhido o “lado” em que você está nessa batalha ideológica, todas as demais opções já estão dadas e não há margem para qualquer criatividade ou veleidade individual.
Volto a frase inicial deste ensaio: o tempo é de dogmatismo em matéria de política. O modelo de estado já está dado, o sistema político e a estrutura partidária já estão dados, as ideias pelas quais se vive e se morre também já estão dadas. No contexto contemporâneo, mesmo que alguns já tenham chegado a conclusão de que os conceitos de democracia representativa, república federativa, separação de poderes conforme o livro de Montesquieu, cidadania e amor a pátria já não signifiquem na prática coisa nenhuma, paira um consenso tácito de que é mais prudente não pensar sobre certas coisas, não falar em voz alta sobre certos temas e evitar querer que o nosso pobre Estado-Nação se comprometa a fazer ou “gastar” com coisas que ele não é nem pode ser capaz de fazer. Pensar que a democracia não é a melhor forma de governo que já existiu ou que possa vir a existir no mundo é heresia, utopia e loucura.
No limite, há de se implodir o modelo de estado subentendido no texto da Constituição brasileira de 1988 e escrever uma outra constituição com outros fundamentos políticos e práticos. Reformar o estado não é o fim em si, mas é um passo importante para iniciar alguma transformação na esfera do mundo do trabalho: a médio prazo, puxar o tapete das elites econômicas que aí estão, já que é principalmente dentro das empresas e em horário comercial que se reproduzem algumas das práticas de exclusão e violência mais contundentes: é na entrevista de emprego que o negro sofre racismo, é na hora de decidir uma promoção que aquele que preza concepções políticas reacionárias e conservadoras é privilegiado, é no ambiente de trabalho que a mulher recebe um salário menor para fazer o mesmo trabalho que um homem, é lá que um nordestino, um ex-presidiário ou alguém que não tem endereço fixo não tem qualquer chance, é dentro das firmas que aqueles que têm cabelo comprido, tatuagens ou filhos, os que não se sentem bem trajando terno e gravata e que repudiam a hierarquia ou andam de cadeira de rodas são excluídos.
A carta constitucional de 1988 descreve minuciosamente qual a forma do Estado (suas divisões internas e as relações de hierarquia e subordinação entre os diferentes poderes e agências estatais) e define, entre outras coisas, as regras para a ocupação dos cargos públicos eletivos. A assembleia constituinte que redigiu esse documento transcorreu numa época que se falava em ampla reconciliação nacional e buscou contemplar os interesses tanto dos apoiadores quanto dos inimigos do regime autoritário, um pouco na mesma linha de “compensação histórica” da Lei da Anistia. No fim das contas, o que estava em jogo erar zerar o que havia ocorrido nos vinte anos anteriores e preparar o caminho para um novo pacto social, com uma outra qualidade de relação entre sociedade e estado. Fruto de sua época, a Constituição de 88 trouxe sim enormes avanços em direção a um modelo de regime político republicano, democrático e, quase diria, de bem-estar social ao feitio europeu. Ainda assim, persistem no texto alguns mecanismos e dispositivos autoritários que raras vezes são questionados ou debatidos enquanto tais. Como citado acima, a Constituição é o texto sagrado e inviolável da Nova República Brasileira. Alguns exemplos: a manutenção de um aparato de repressão militarizado e, em ampla medida, autônomo do controle civil (polícias militares estaduais) e um sistema judiciário absurdamente elitista e reacionário (com direito a postos públicos vitalícios, indicação de cargos “pelos pares”, prisão “especial” para portadores de diplomas universitários e uma prática de jurisprudência racista, machista, homofóbica, católica, discriminatória e que funda a esmagadora maioria das suas decisões na condição econômica das partes em litígio).
Sem dúvida que esses resquícios de autoritarismo são nefastos, podem e devem ser eliminados. Mas talvez o que mais incomode sejam justamente as dimensões progressistas dessa Constituição. Explico: será que esse modelo de Estado importado ipsis litteris das constituições europeias do pós-Segunda Guerra é exequível em outro tempo e lugar (América Latina de fins do século XX e início do XXI)? Existirão formas políticas universalmente válidas e que possam persistir em tempos históricos cujas transformações sociais, tecnológicas, científicas e comportamentais sejam tão rápidas e profundas como o nosso? Mesmo admitindo que sim e que não há espaço para qualquer criatividade institucional no Estado-Nação contemporâneo, já que seu perfil foi delimitado de uma vez e para sempre nas Revoluções Americana e Francesa no Século XVIII, ainda assim há que se fazer uma avaliação se esse modelo efetivamente funcionou no Brasil. Mesmo que não se tenha em mente nenhum outro projeto alternativo ao regime republicano e democrático, isso não invalida a análise crítica do funcionamento das instituições existentes. Nada impede que, caso essa avaliação seja negativa e aponte deficiências estruturais profundas, o regime seja transformado – em qual direção, de que forma e que cara o novo regime terá são problemas a serem respondidos na prática concreta de desmanche do regime atual e não há como (e nem se deve) prever os resultados a partir de uma perspetiva utópica ou teórica. Foi assim nas grandes Revoluções do Século XVIII e, em certa medida, ainda que com muito menor contundência, também foi o caso na “Primavera Árabe” e na transição do autoritarismo para a democracia nos Brasil dos 80: certamente aqueles que derrubaram o regime não desejavam que na futura sociedade brasileira persistissem práticas de tortura, discriminação racial, corrupção e assassinatos praticados por agentes do Estado, mas os jornais escrevem sobre esses assuntos todos os dias e sabe-se, por vivência ou por ouvir dizer, que existe muito mais crimes dessa espécie no mundo do que aquilo que aquilo que porventura é publicado no jornal.
Formulação típica no Brasil: é proibido ser contra a liberdade de expressão e contra os outros direitos civis ou individuais, quais sejam: o direito de ter sua própria propriedade privada, o direito de você poder falar o que quiser, direito de se reunir para falar sobre política com quem você quiser e direito/dever de votar em um daqueles nomes e partidos que estão concorrendo numa dada eleição. Além de ser proibido ser contra a liberdade de expressão, também é proibido ser contra a democracia. Entende-se: a elite política que ocupa os cargos com poder para tomar decisões no Brasil de hoje teve a sua formação intelectual e como pessoa no período da Guerra Fria, em que o raciocínio que predominava tinha um caráter dualista: ou se era a favor do liberalismo e da democracia ou se era a favor do comunismo e dos regimes autoritários. Ser contra a democracia é automaticamente ser a favor da ditadura: não existe a possibilidade lógica de uma terceira alternativa. Uma vez escolhido o “lado” em que você está nessa batalha ideológica, todas as demais opções já estão dadas e não há margem para qualquer criatividade ou veleidade individual.
Volto a frase inicial deste ensaio: o tempo é de dogmatismo em matéria de política. O modelo de estado já está dado, o sistema político e a estrutura partidária já estão dados, as ideias pelas quais se vive e se morre também já estão dadas. No contexto contemporâneo, mesmo que alguns já tenham chegado a conclusão de que os conceitos de democracia representativa, república federativa, separação de poderes conforme o livro de Montesquieu, cidadania e amor a pátria já não signifiquem na prática coisa nenhuma, paira um consenso tácito de que é mais prudente não pensar sobre certas coisas, não falar em voz alta sobre certos temas e evitar querer que o nosso pobre Estado-Nação se comprometa a fazer ou “gastar” com coisas que ele não é nem pode ser capaz de fazer. Pensar que a democracia não é a melhor forma de governo que já existiu ou que possa vir a existir no mundo é heresia, utopia e loucura.
No limite, há de se implodir o modelo de estado subentendido no texto da Constituição brasileira de 1988 e escrever uma outra constituição com outros fundamentos políticos e práticos. Reformar o estado não é o fim em si, mas é um passo importante para iniciar alguma transformação na esfera do mundo do trabalho: a médio prazo, puxar o tapete das elites econômicas que aí estão, já que é principalmente dentro das empresas e em horário comercial que se reproduzem algumas das práticas de exclusão e violência mais contundentes: é na entrevista de emprego que o negro sofre racismo, é na hora de decidir uma promoção que aquele que preza concepções políticas reacionárias e conservadoras é privilegiado, é no ambiente de trabalho que a mulher recebe um salário menor para fazer o mesmo trabalho que um homem, é lá que um nordestino, um ex-presidiário ou alguém que não tem endereço fixo não tem qualquer chance, é dentro das firmas que aqueles que têm cabelo comprido, tatuagens ou filhos, os que não se sentem bem trajando terno e gravata e que repudiam a hierarquia ou andam de cadeira de rodas são excluídos.
quinta-feira, setembro 01, 2011
Spleen e Melancolia
“Melancolia”, filme de Lars Von Trier, se divide, grosso modo, em três partes: um prólogo, poético e arrebatador, que é veiculado ainda antes dos créditos iniciais do filme, uma “parte 1”, em que é narrada a festa de casamento da protagonista Justine e, finalmente, uma “parte 2”, na qual se conta a história da perspectiva da personagem Claire, irmã de Justine, e como esse universo de pessoas vive a experiência do fim do mundo.
O prólogo faz alguma referência ao clássico “2001” ao representar a dança dos planetas no espaço sideral ao som de música clássica. Entre esses quadros, são exibidas cenas que mais parecem quadros, fotografias ou cartas de tarot: numa, vemos Kirsten Durst num cenário apocalíptico erguendo lentamente as mãos para cima e raios saindo das pontas de seus dedos em direção ao céu; noutra se mostra, também em câmera “super-lenta”, um cavalo negro e belíssimo tombando em primeiro plano e sozinho, já em outra vemos a protagonista em pose de morta de Nelson Rodrigues, flutuando de costas para as águas de um rio cristalino (Ofélia?), assim como, em outro momento, assistimos a uma chuva de pássaros mortos. Dessa forma, em poucos segundos ou minutos, o espectador é apresentado a todo um universo pictórico e onírico. A mim, a imagem que mais chamou a atenção foi um quadro em que no céu apareciam três luas (ou três sóis) e, no primeiro plano, duas mulheres e uma criança. A música, por alguma razão, me lembrou Debussy: tanto a música, discreta na maior parte do tempo, quanto as artes plásticas, são dois símbolos fortes que serão retomados ao longo de todo o filme.
A chamada “parte 1”, que ocupa a maior parte do filme, descreve a noite da festa de casamento de Justine. Aqui o que está em jogo é aquilo que o cinema europeu é capaz de figurar como nenhum outro: a tensão entre a “persona”, ou seja, a máscara social que todos têm de envergar ao entrarem no mundo do “social”, de um lado, e aquilo que as pessoas (ou ao menos uma parte das pessoas) são e sentem “no fundo”. Como Bergman, Fellini ou Woody Allen, Lars Von Trier sabe encenar esse tipo de situação em que “la borgeoisie” e seu status quo deixam mostrar os fundamentos podres e hipócritas de suas instituições e valores mais caros.
O casamento impõe os papéis que devem ser desempenhados pelo noivo e pela noiva e delimitam as expectativas e normas que ditam o comportamento daqueles que desempenham esses papéis. Tudo é impecavelmente preparado e planejado para que a noiva (ou será a mulher?) seja feliz, sinta-se plenamente realizada e viva o momento mais importante da sua vida. Toleram-se certos desvios, certas peculiaridades, certos vícios, mas outros não. À mulher, cabe, apesar do nervosismo e das incertezas que marcam esse ritual, estar sempre sorrindo, sempre parecendo estar insuportavelmente feliz: nessa hora parecer é mais importante do que qualquer outra coisa. Mas Justine é um espírito que não faz parte desse mundo burguês e é absolutamente incapaz de parecer contente, por mais que ela tente representar. Então ela faz tudo de errado: foge da festa inúmeras vezes, se tranca no banheiro quando deveria comparecer para cortar o bolo, abandona o noivo em plena noite de núpcias, trepa com o convidado mais inexpressivo da festa (um relações públicas que é reputado por não ter absolutamente nenhuma qualificação educacional), se demite do emprego que o sogro lhe oferecera, faz cara de choro, está sempre distante e com aquele olhar triste e embaçado dos melancólicos. No fim das contas, é repreendida e expulsa desse meio social ao qual ela pertencia.
Numa época em que, para se conseguir um emprego ou sucesso na carreira profissional, é necessário estar sempre sorrindo, sempre alegre, acordar todos os dias de bom-humor, encarnar o espírito dos livros de auto-ajuda, ser dinâmico, pró-ativo, comunicativo, freqüentar academia e rir o riso do idiota, essa personagem é uma tremenda provocação. Ela não sabe fingir o sorriso neutro da operadora de telemarketing. Não é capaz de viver a vida com “leveza”, “pensar positivo”, “mentalizar coisas boas” nem ambicionar o sucesso nesse mundo em que os sorrisos são nada mais do que o resultado de cirurgias plásticas que, por meio do Botox, põe uma prega no meio da bochecha das pessoas que, de tão esticadas, aparecem sempre como um personagem dos Simpsons com a boca fossilizada num formato de banana.
Diante desse contexto, Justine (não consegui traçar nenhum paralelo muito claro com a heroína de Sade) surge no filme como uma encarnação de uma paixão do século XIX que há muito deixou de ser pertinente ao mundo do século XXI. Em nosso tempo, todos têm (em tese) o direito de escolherem serem felizes ou infelizes, mas ninguém tem o direito de parecer infeliz o tempo inteiro. Nesses casos, não só a pessoa é excluída do círculo daqueles que “são sucesso” como também é tratada como doente. Afinal, não querer pertencer à elite, não querer ser famoso, não querer consumir, não querer juntar dinheiro, não querer a felicidade da família do comercial de margarina são comportamentos inaceitáveis. No século XXI, o destino do melancólico é ser tratado com prozac e fluoxetina para que se torne grogue o suficiente para conformar-se e fingir sorrisos.
Inevitável não empatizar com a personagem Justine, interpretada por Kirsten Durst. Até porque quem costuma ver um filme de Von Trier quer se alimentar de arte. Até porque a grande arte do século XIX (mas também do século XX) é feita disso: Rimbaud, Baudelaire, Truffaut, Almodóvar, Proust, Thomas Mann, Dostoievski, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e por aí vai: são Hamlet, são Julien Sorel, são K, são pessoas que não nasceram para nascer neste mundo. E num lance que prenuncia a segunda parte do filme, Justine é a única que consegue pressentir e saber como será o fim do mundo.
Aqui cabe um parêntese: o tratamento do espaço no filme todo e, em especial, nessa primeira parte. O longa é todo ele rodado em uma espécie de castelo, em cujo entorno se tem rio, floresta, lago e uma varanda deslumbrante. O proprietário desse lugar mágico é o cunhado de Justine, um personagem que representa aquele que tem uma fé cega na ciência e no “mundo dos negócios”: na primeira parte, chega a ser irritante o fato de, sempre que esse personagem entra em cena, está falando de dinheiro (que ele tem aos montes). Trata-se do avarento de Molière. Enfim: na primeira parte do filme, toda vez que se filmam os ambientes internos, ou seja, os salões em que se desenrola a festa de casamento, a filmagem é em primeira pessoa, a câmera treme, circula de um lado para o outro, num clima algo angustiante que já havíamos visto em Dançando No Escuro, por exemplo. Nessas tomadas, o burlesco do elenco escolhido a dedo para representar os convidados e familiares (elenco digno de Fellini ou Pasolini) torna as cenas engraçadas – em especial, as que retratam o pai de Justine, um “engaçalhão” que causa pena e riso e a mãe, uma mulher dominadora, bipolar, que “pensa por si própria”, mas, assim como a filha, em certa altura também resolve abandonar a festa e se trancar no banheiro, o que o genro acha um tremendo desaforo.
E são justamente as “fugas” da noiva que rendem as cenas mais divertidas dessa “parte 1” e guiam a narrativa não só para os espaços externos do castelo, como o campo de golfe em que ela percebe que existe uma estrela próxima demais da terra e, mais tarde no filme, transa com o convidado-relações-públicas, mas também para espaços que, mesmo situados no interior da construção monumental, de certa forma são o seu oposto: o quarto onde dorme o pequeno sobrinho de Justine, o quarto da mãe da noiva ou escritórios e gabinetes onde o noivo e a irmã encontram fugazmente a noiva que logo escapa para qualquer devaneio: “me dê um instante, por favor”. Também do lado exterior do castelo, justamente na estrada que dá entrada ao lugar, existe uma curva fechada demais para que uma limusine pudesse passar, logo na cena inicial da primeira parte do filme. Não por acaso, a curvatura dessa estrada se assemelhava à órbita do planeta melancolia – planeta ou lua ou estrela que se chocaria contra a Terra e poria fim a vida tal a conhecemos.
E a “parte 2” do filme trata exatamente disso: a chegada do planeta melancolia e sua colisão com a Terra causando o fim do mundo. A primeira parte se chama “Justine” e a segunda “Claire”, que é o nome da irmã da protagonista. E começa com a volta de Justine ao castelo, onde seu casamento naufragara e todos a repreenderam por sua conduta melancólica. Ela chega como uma doente, alguém que é marginalizado da sociedade e tratado como aberração. Nessa parte, talvez estejam as cenas que eu considero as mais bem executadas do ponto de vista propriamente teatral: Justine mal consegue falar ou andar ou pegar um táxi sozinha e o marido de Claire ironiza e crítica essa situação. Logo depois, Claire tenta levar Justine para um banho, mas a irmã está incapaz de erguer uma perna para entrar na banheira ou dar um passo, paralisada pelo medo e pelo trauma desse mundo de pessoas vivas e más. Os cavalos são outro símbolo importante que ajuda a compor esse filme, tão alegórico quanto Dogville ou Europa. Os astros e a maneira pela qual os seres humanos se relacionam com os astros, seja por meio de telescópios e modelos científicos ou por meio da intuição, do feminino, da arte e das previsões são um outro símbolo forte. Nesse ponto, a personagem Justine está muito mais afinada com os cavalos e insetos que se alvoroçam por instinto com a chegada do fim dos tempos do que com os demais habitantes de casa, a irmã, o cunhado e o sobrinho, que ainda tentam organizar o mundo recorrendo a qualquer pseudo-ciência ou explicação razoável para o que está sucedendo e estocando lanternas e previsões para as catástrofes.
Como se a segunda parte do filme fosse o oposto da primeira: no início, a melancólica-desajustada-poeta era quem estava deslocada no meio de um ritual de iniciação ao universo do consumo de massas e da democracia representativa. Já no final, são os burgueses-previsíveis-metódicos que não sabem lidar com um evento que está tão além de seus limitados entendimentos.
O marido de Claire, o mais burguês e cientificista do filme, é o primeiro a se suicidar quando tem a certeza que o mundo vai mesmo se acabar, embora até aquele instante ele insistisse na hipótese do happy end e do “tudo vai terminar bem, querida” na ideia de proteger e iludir a esposa e o filho. Já a própria Claire, quando vê que o fim está próximo, sugere que todos o esperem na varanda, tomando uma taça de vinho. Justine mostra o quanto essa intenção é ridícula e sai com Leo, seu sobrinho, para recolher gravetos na floresta. Quando o fim do mundo finalmente chega, os três estão numa espécie de cabana construída por Justine, os três de mãos dadas.
O que amarra as três partes do filme é a imagem de um corpo estranho e errático que surge inesperadamente e destroi uma harmonia pré-existente. Na parte 1, esse corpo estranho é a figura da noiva Justine, que é incapaz de representar o papel que dela se espera, não por não querer ou não aceitar os fundamentos da sociedade burguesa, mas por ser incapaz de negar sua natureza profunda. Um natureza que se sente muito mais à vontade no meio dos animais, dos astros ou na solidão do que entre pessoas e não lamenta, antes se regozija, com o fim desse mundo humano de aparências e maldade. Já na parte 2, o corpo estranho, numa leitura mais direta, é esse planeta sugestivamente batizado de melancolia, que vem a colidir com a Terra. Talvez, seguindo uma outra linha de raciocínio, o corpo estranho seja a própria vida na Terra, o próprio mundo que construímos e em que vivemos. Será esse o sentido profundo da melancolia? Será ela uma certeza de que a vida humana não é um valor, não é algo bom em si mesmo e que o universo estaria melhor sem nós? Assim, é por perceber a nossa fugacidade e a nossa finitude como coisas positivas que nos vem a sensação de completo vazio e de completo desamparo que chamamos melancolia. É algo que vai muito além de não conseguir parecer feliz, de se sentir sem par neste mundo, de viver em depressão e na solidão: melancolia é um esvaziamento de horizontes, mas também uma erosão do chão em que pisamos.
Um clássico contemporâneo do meu diretor predileto. Saí do cinema uma pessoa diferente daquela que entrou. Mais vazio, mais melancólico e mais desamparado, com certeza. Será que o grande cinema é isso? O oposto das pílulas de fluoxetina?
O prólogo faz alguma referência ao clássico “2001” ao representar a dança dos planetas no espaço sideral ao som de música clássica. Entre esses quadros, são exibidas cenas que mais parecem quadros, fotografias ou cartas de tarot: numa, vemos Kirsten Durst num cenário apocalíptico erguendo lentamente as mãos para cima e raios saindo das pontas de seus dedos em direção ao céu; noutra se mostra, também em câmera “super-lenta”, um cavalo negro e belíssimo tombando em primeiro plano e sozinho, já em outra vemos a protagonista em pose de morta de Nelson Rodrigues, flutuando de costas para as águas de um rio cristalino (Ofélia?), assim como, em outro momento, assistimos a uma chuva de pássaros mortos. Dessa forma, em poucos segundos ou minutos, o espectador é apresentado a todo um universo pictórico e onírico. A mim, a imagem que mais chamou a atenção foi um quadro em que no céu apareciam três luas (ou três sóis) e, no primeiro plano, duas mulheres e uma criança. A música, por alguma razão, me lembrou Debussy: tanto a música, discreta na maior parte do tempo, quanto as artes plásticas, são dois símbolos fortes que serão retomados ao longo de todo o filme.
A chamada “parte 1”, que ocupa a maior parte do filme, descreve a noite da festa de casamento de Justine. Aqui o que está em jogo é aquilo que o cinema europeu é capaz de figurar como nenhum outro: a tensão entre a “persona”, ou seja, a máscara social que todos têm de envergar ao entrarem no mundo do “social”, de um lado, e aquilo que as pessoas (ou ao menos uma parte das pessoas) são e sentem “no fundo”. Como Bergman, Fellini ou Woody Allen, Lars Von Trier sabe encenar esse tipo de situação em que “la borgeoisie” e seu status quo deixam mostrar os fundamentos podres e hipócritas de suas instituições e valores mais caros.
O casamento impõe os papéis que devem ser desempenhados pelo noivo e pela noiva e delimitam as expectativas e normas que ditam o comportamento daqueles que desempenham esses papéis. Tudo é impecavelmente preparado e planejado para que a noiva (ou será a mulher?) seja feliz, sinta-se plenamente realizada e viva o momento mais importante da sua vida. Toleram-se certos desvios, certas peculiaridades, certos vícios, mas outros não. À mulher, cabe, apesar do nervosismo e das incertezas que marcam esse ritual, estar sempre sorrindo, sempre parecendo estar insuportavelmente feliz: nessa hora parecer é mais importante do que qualquer outra coisa. Mas Justine é um espírito que não faz parte desse mundo burguês e é absolutamente incapaz de parecer contente, por mais que ela tente representar. Então ela faz tudo de errado: foge da festa inúmeras vezes, se tranca no banheiro quando deveria comparecer para cortar o bolo, abandona o noivo em plena noite de núpcias, trepa com o convidado mais inexpressivo da festa (um relações públicas que é reputado por não ter absolutamente nenhuma qualificação educacional), se demite do emprego que o sogro lhe oferecera, faz cara de choro, está sempre distante e com aquele olhar triste e embaçado dos melancólicos. No fim das contas, é repreendida e expulsa desse meio social ao qual ela pertencia.
Numa época em que, para se conseguir um emprego ou sucesso na carreira profissional, é necessário estar sempre sorrindo, sempre alegre, acordar todos os dias de bom-humor, encarnar o espírito dos livros de auto-ajuda, ser dinâmico, pró-ativo, comunicativo, freqüentar academia e rir o riso do idiota, essa personagem é uma tremenda provocação. Ela não sabe fingir o sorriso neutro da operadora de telemarketing. Não é capaz de viver a vida com “leveza”, “pensar positivo”, “mentalizar coisas boas” nem ambicionar o sucesso nesse mundo em que os sorrisos são nada mais do que o resultado de cirurgias plásticas que, por meio do Botox, põe uma prega no meio da bochecha das pessoas que, de tão esticadas, aparecem sempre como um personagem dos Simpsons com a boca fossilizada num formato de banana.
Diante desse contexto, Justine (não consegui traçar nenhum paralelo muito claro com a heroína de Sade) surge no filme como uma encarnação de uma paixão do século XIX que há muito deixou de ser pertinente ao mundo do século XXI. Em nosso tempo, todos têm (em tese) o direito de escolherem serem felizes ou infelizes, mas ninguém tem o direito de parecer infeliz o tempo inteiro. Nesses casos, não só a pessoa é excluída do círculo daqueles que “são sucesso” como também é tratada como doente. Afinal, não querer pertencer à elite, não querer ser famoso, não querer consumir, não querer juntar dinheiro, não querer a felicidade da família do comercial de margarina são comportamentos inaceitáveis. No século XXI, o destino do melancólico é ser tratado com prozac e fluoxetina para que se torne grogue o suficiente para conformar-se e fingir sorrisos.
Inevitável não empatizar com a personagem Justine, interpretada por Kirsten Durst. Até porque quem costuma ver um filme de Von Trier quer se alimentar de arte. Até porque a grande arte do século XIX (mas também do século XX) é feita disso: Rimbaud, Baudelaire, Truffaut, Almodóvar, Proust, Thomas Mann, Dostoievski, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e por aí vai: são Hamlet, são Julien Sorel, são K, são pessoas que não nasceram para nascer neste mundo. E num lance que prenuncia a segunda parte do filme, Justine é a única que consegue pressentir e saber como será o fim do mundo.
Aqui cabe um parêntese: o tratamento do espaço no filme todo e, em especial, nessa primeira parte. O longa é todo ele rodado em uma espécie de castelo, em cujo entorno se tem rio, floresta, lago e uma varanda deslumbrante. O proprietário desse lugar mágico é o cunhado de Justine, um personagem que representa aquele que tem uma fé cega na ciência e no “mundo dos negócios”: na primeira parte, chega a ser irritante o fato de, sempre que esse personagem entra em cena, está falando de dinheiro (que ele tem aos montes). Trata-se do avarento de Molière. Enfim: na primeira parte do filme, toda vez que se filmam os ambientes internos, ou seja, os salões em que se desenrola a festa de casamento, a filmagem é em primeira pessoa, a câmera treme, circula de um lado para o outro, num clima algo angustiante que já havíamos visto em Dançando No Escuro, por exemplo. Nessas tomadas, o burlesco do elenco escolhido a dedo para representar os convidados e familiares (elenco digno de Fellini ou Pasolini) torna as cenas engraçadas – em especial, as que retratam o pai de Justine, um “engaçalhão” que causa pena e riso e a mãe, uma mulher dominadora, bipolar, que “pensa por si própria”, mas, assim como a filha, em certa altura também resolve abandonar a festa e se trancar no banheiro, o que o genro acha um tremendo desaforo.
E são justamente as “fugas” da noiva que rendem as cenas mais divertidas dessa “parte 1” e guiam a narrativa não só para os espaços externos do castelo, como o campo de golfe em que ela percebe que existe uma estrela próxima demais da terra e, mais tarde no filme, transa com o convidado-relações-públicas, mas também para espaços que, mesmo situados no interior da construção monumental, de certa forma são o seu oposto: o quarto onde dorme o pequeno sobrinho de Justine, o quarto da mãe da noiva ou escritórios e gabinetes onde o noivo e a irmã encontram fugazmente a noiva que logo escapa para qualquer devaneio: “me dê um instante, por favor”. Também do lado exterior do castelo, justamente na estrada que dá entrada ao lugar, existe uma curva fechada demais para que uma limusine pudesse passar, logo na cena inicial da primeira parte do filme. Não por acaso, a curvatura dessa estrada se assemelhava à órbita do planeta melancolia – planeta ou lua ou estrela que se chocaria contra a Terra e poria fim a vida tal a conhecemos.
E a “parte 2” do filme trata exatamente disso: a chegada do planeta melancolia e sua colisão com a Terra causando o fim do mundo. A primeira parte se chama “Justine” e a segunda “Claire”, que é o nome da irmã da protagonista. E começa com a volta de Justine ao castelo, onde seu casamento naufragara e todos a repreenderam por sua conduta melancólica. Ela chega como uma doente, alguém que é marginalizado da sociedade e tratado como aberração. Nessa parte, talvez estejam as cenas que eu considero as mais bem executadas do ponto de vista propriamente teatral: Justine mal consegue falar ou andar ou pegar um táxi sozinha e o marido de Claire ironiza e crítica essa situação. Logo depois, Claire tenta levar Justine para um banho, mas a irmã está incapaz de erguer uma perna para entrar na banheira ou dar um passo, paralisada pelo medo e pelo trauma desse mundo de pessoas vivas e más. Os cavalos são outro símbolo importante que ajuda a compor esse filme, tão alegórico quanto Dogville ou Europa. Os astros e a maneira pela qual os seres humanos se relacionam com os astros, seja por meio de telescópios e modelos científicos ou por meio da intuição, do feminino, da arte e das previsões são um outro símbolo forte. Nesse ponto, a personagem Justine está muito mais afinada com os cavalos e insetos que se alvoroçam por instinto com a chegada do fim dos tempos do que com os demais habitantes de casa, a irmã, o cunhado e o sobrinho, que ainda tentam organizar o mundo recorrendo a qualquer pseudo-ciência ou explicação razoável para o que está sucedendo e estocando lanternas e previsões para as catástrofes.
Como se a segunda parte do filme fosse o oposto da primeira: no início, a melancólica-desajustada-poeta era quem estava deslocada no meio de um ritual de iniciação ao universo do consumo de massas e da democracia representativa. Já no final, são os burgueses-previsíveis-metódicos que não sabem lidar com um evento que está tão além de seus limitados entendimentos.
O marido de Claire, o mais burguês e cientificista do filme, é o primeiro a se suicidar quando tem a certeza que o mundo vai mesmo se acabar, embora até aquele instante ele insistisse na hipótese do happy end e do “tudo vai terminar bem, querida” na ideia de proteger e iludir a esposa e o filho. Já a própria Claire, quando vê que o fim está próximo, sugere que todos o esperem na varanda, tomando uma taça de vinho. Justine mostra o quanto essa intenção é ridícula e sai com Leo, seu sobrinho, para recolher gravetos na floresta. Quando o fim do mundo finalmente chega, os três estão numa espécie de cabana construída por Justine, os três de mãos dadas.
O que amarra as três partes do filme é a imagem de um corpo estranho e errático que surge inesperadamente e destroi uma harmonia pré-existente. Na parte 1, esse corpo estranho é a figura da noiva Justine, que é incapaz de representar o papel que dela se espera, não por não querer ou não aceitar os fundamentos da sociedade burguesa, mas por ser incapaz de negar sua natureza profunda. Um natureza que se sente muito mais à vontade no meio dos animais, dos astros ou na solidão do que entre pessoas e não lamenta, antes se regozija, com o fim desse mundo humano de aparências e maldade. Já na parte 2, o corpo estranho, numa leitura mais direta, é esse planeta sugestivamente batizado de melancolia, que vem a colidir com a Terra. Talvez, seguindo uma outra linha de raciocínio, o corpo estranho seja a própria vida na Terra, o próprio mundo que construímos e em que vivemos. Será esse o sentido profundo da melancolia? Será ela uma certeza de que a vida humana não é um valor, não é algo bom em si mesmo e que o universo estaria melhor sem nós? Assim, é por perceber a nossa fugacidade e a nossa finitude como coisas positivas que nos vem a sensação de completo vazio e de completo desamparo que chamamos melancolia. É algo que vai muito além de não conseguir parecer feliz, de se sentir sem par neste mundo, de viver em depressão e na solidão: melancolia é um esvaziamento de horizontes, mas também uma erosão do chão em que pisamos.
Um clássico contemporâneo do meu diretor predileto. Saí do cinema uma pessoa diferente daquela que entrou. Mais vazio, mais melancólico e mais desamparado, com certeza. Será que o grande cinema é isso? O oposto das pílulas de fluoxetina?
segunda-feira, julho 25, 2011
Nome de Doença
É o mal cujo sintoma é uma atração por objetos de metal
de preferência barulhentos e fumegantes
a dureza do aço não combina com carnes e peles
e termina por debilitar o pleno gozo da faculdade mental
Acomete populações urbanas desde a tenra infância
explica concessionárias, quartéis e usinas siderúrgicas
o universo viril dos produtos pesados da revolução industrial
mesmo que sejam feitos de plástico e com design catalão
Trambolhos recheados de transistores e microchip´s,
gruas, guindastes, escavadeiras e válvulas hidráulicas
outro nome para tanque de guerra, canhão e bomba nuclear
Trata-se o doente não só com banho de sol e caminhadas na praia
como também com água da cachoeira, ar fresco e escalada:
cura definitiva só para aquele conseguir declamar três poemas
de preferência barulhentos e fumegantes
a dureza do aço não combina com carnes e peles
e termina por debilitar o pleno gozo da faculdade mental
Acomete populações urbanas desde a tenra infância
explica concessionárias, quartéis e usinas siderúrgicas
o universo viril dos produtos pesados da revolução industrial
mesmo que sejam feitos de plástico e com design catalão
Trambolhos recheados de transistores e microchip´s,
gruas, guindastes, escavadeiras e válvulas hidráulicas
outro nome para tanque de guerra, canhão e bomba nuclear
Trata-se o doente não só com banho de sol e caminhadas na praia
como também com água da cachoeira, ar fresco e escalada:
cura definitiva só para aquele conseguir declamar três poemas
segunda-feira, julho 18, 2011
FESTIM DA RUA AUGUSTA
Ao despertar no meio da tarde
os movimentos serão lentos e precisos:
enfeitar-se a si e a casa onde vive
preparar bolo com cobertura de chocolate e brigadeiro
colocar os cedês nas caixinhas correspondentes
dar um tapa na área e no banheiro
encher de bebidas o carrinho de supermercado
endireitar seu velho retrato de marinheiro
tirar o pó
montar a aparelhagem de som e as luzes coloridas
água nas plantas, incensos no vazio dos cinzeiros
fazer torradinhas e de azeitona preta um patê
esconder todas as roupas sujas jogadas no chão
empurrar o sofá e a mesinha de canto para o canto
recolher papéis, manuscritos, folhetos
prender o cachorro e os outros animais de estimação.
São exatamente dezenove e trinta e sete e o primeiro convidado ainda não tocou a campainha.
os movimentos serão lentos e precisos:
enfeitar-se a si e a casa onde vive
preparar bolo com cobertura de chocolate e brigadeiro
colocar os cedês nas caixinhas correspondentes
dar um tapa na área e no banheiro
encher de bebidas o carrinho de supermercado
endireitar seu velho retrato de marinheiro
tirar o pó
montar a aparelhagem de som e as luzes coloridas
água nas plantas, incensos no vazio dos cinzeiros
fazer torradinhas e de azeitona preta um patê
esconder todas as roupas sujas jogadas no chão
empurrar o sofá e a mesinha de canto para o canto
recolher papéis, manuscritos, folhetos
prender o cachorro e os outros animais de estimação.
São exatamente dezenove e trinta e sete e o primeiro convidado ainda não tocou a campainha.
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
O Segundo Incêndio de Cartago
O ano de 1989 é aceito como o marco do fim da Guerra Fria, pelo gesto simbólico da derrubada do Muro de Berlim e pela implosão do sistema internacional organizado a partir das sociedades do Leste Europeu. No entanto, quase 22 anos após esses acontecimentos, muitos lugares do mundo ainda são governados de acordo com a lógica do sistema bipolar. É o caso de Cuba, Coreia do Norte, do partido único chinês e também do sistema político bipartidário e militarista norte-americano.
Desde fins de 2010, a imprensa ocidental vem noticiando com regularidade o que é descrito como uma onda democrática no mundo árabe, dando especial enfoque às manifestações de rua contra os governos ditatoriais no Egito, Tunísia, Iêmen, Bahrein, Irã e Líbia. Por mais cômodo que possa ser juntar todos esses movimentos em um mesmo saco e rotulá-los como uma “grande onda democrática”, há de se considerar as especificidades de cada caso particular e entendê-los sob uma perspectiva histórica. Se uma certa narrativa social ainda hoje afirma que os EUA foram os vencedores da Guerra Fria e que a dissolução do império soviético representou uma inquestionável vitória dos princípios consagrados da democracia representativa, da economia capitalista, da Igreja Cristã e do individualismo burguês sobre o ateísmo marxista, o declínio constante do império norte-americano desde os anos 1970 está aí para comprovar que a história social não deve ser enquadrada em esquemas simplistas e maniqueístas, que têm muito mais cara de propaganda de um certo regime que justifica desigualdades e de um determinado estilo de vida do que de ciência.
Pensemos um instante. Quais foram os regimes e grupos sociais apoiados pelos norte-americanos na metade de século posterior à Segunda Guerra Mundial? Em que esses grupos se identificam com o tripé ideológico do “mundo livre” (economia capitalista, democracia representativa e Cristianismo)? A resposta à primeira questão é fartamente documentada: o chileno Augusto Pinochet, o xá iraniano Reza Pahlavi, o ditador indonésio Suharto, os ditadores brasileiros Médici, Costa e Silva, etc., o ditador vietnamita Ngo Dinh Diem, grupos fascistas e anti-comunistas na Europa Ocidental, o ditador Somoza na Nicarágua, os mafiosos que tentaram assassinar Fidel Castro inúmeras vezes, Hosni Mubarak no Egito, os monarquistas gregos, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Israel, etc. Dessa simples enumeração a resposta à segunda questão resulta óbvia: nada.
O que essa chamada “onda democrática no mundo árabe” e os atentados de 11 de Setembro têm em comum? Ambos são frutos tardios de escolhas estrategicamente erradas feitas pelo Estado norte-americano e suas agências durante a Guerra Fria. No afã de patrocinar toda e qualquer iniciativa anti-soviética e imaginando que combatiam uma potência imperialista que aspirava a dominação mundial, os norte-americanos foram responsáveis diretos e indiretos por genocídios, ditaduras, assassinatos e todo tipo de violação dos direitos humanos no Terceiro Mundo. Em muitos casos, atrasaram em décadas a possibilidade de desenvolvimento autônomo de regiões inteiras do globo: é o caso da América Latina, do mundo árabe, da África e do Sudeste Asiático. As demonstrações públicas que hoje assistimos pela CNN são tentativas de derrubar governantes que foram empossados com dinheiro e armas contrabandeados pela CIA. Até que ponto são manifestações legítimas de aspirações populares e até que ponto são manobras patrocinadas pelo mundo ocidental é algo difícil de definir nesse momento, dado que o noticiário de hoje (ainda) tem muito mais caráter de propaganda do que de informação. Toda forma de democracia é por definição melhor do que qualquer outra forma de governo? Na sociedade em que vivemos, é possível falar em “liberdade de expressão”? Em direitos políticos plenos? Liberdade de expressão existe para defender a grande mídia ou como um direito de todos? Nós, ocidentais e cristãos do outro lado do mundo, sabemos qual a melhor forma de governo para o mundo árabe? Temos direito de opinar e apoiar determinado grupo a milhares de quilômetros de distância? Devemos condenar o Irã por ter um programa de desenvolvimento da bomba atômica e ao mesmo tempo aplaudir Israel? Sob um ponto de vista moral, é possível defender a existência do Estado de Israel? São os países árabes e o povo palestino que ameaçam Israel ou é a criação de um Estado artificial patrocinado pelas potências ocidentais que ameaça a existência dos povos árabes?
Durante a semana que passou, mais uma vez os EUA vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que repudiava as colônias judaicas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Tal fato ficou em segundo plano, uma vez que na Líbia o exército matava centenas de manifestantes. Quantos palestinos foram mortos direta e indiretamente pela aliança EUA/Israel desde o começo deste ano? O que faz a Human Rights Watch que sempre denuncia países não-alinhados com o Ocidente mas se cala sobre Israel, Guatánamo, operação Condor e os abusos de todas as ordens promovidos pelos EUA e pela OTAN no Iraque, no Afeganistão e outras regiões do mundo? Os ocidentais têm “mais” direitos humanos do que os árabes?
Talvez o que mais tenha irritado os etnocêntricos jornalistas ocidentais nessa crise da Líbia é a impossibilidade de enviar correspondentes de guerra ao local e a censura à internet. Será que se ocorresse uma guerra civil nos EUA de hoje o governo oficial permitiria que os manifestantes utilizassem a internet para se organizar e a imprensa internacional para chamar a atenção sobre os crimes promovidos pelo Estado? Existe liberdade de expressão na Faixa de Gaza e na Cisjordânia? Por mais repugnante que seja a figura de Muammar Khadafi, certamente ele assassinou muito menos gente do que Eisenhower, Kennedy, Nixon, Reagan, Carter e companhia. Pra não falar de novo em Pinochet, Médici, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Suharto, etc. Pra nós, genocida é o que mora na África ou na Ásia, Stálin e Mao é que eram ditadores e democracia é o que existe nos EUA. Democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século? É, democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século.
Esse texto foi feito para levantar questões. A democracia é o melhor sistema de governo possível? (definitivamente não). O ocidente é melhor do que o oriente? (não) O Norte é melhor do que o Sul? (não) O branco é melhor do que o não-branco? (não) O cristão é melhor que o muçulmano? (não) O homem é melhor do que a mulher? (não) O heterossexual é melhor do que o homossexual? (não) O velho é melhor do que o jovem? (não) O meu é melhor do que o seu? (não). Aos que concordam com as respostas entre parênteses, cabe questionar o que vem sendo noticiado como verdade, o modo como os Estados estão organizados, a maneira como o trabalho é trabalhado e o mundo em que vivemos.
Desde fins de 2010, a imprensa ocidental vem noticiando com regularidade o que é descrito como uma onda democrática no mundo árabe, dando especial enfoque às manifestações de rua contra os governos ditatoriais no Egito, Tunísia, Iêmen, Bahrein, Irã e Líbia. Por mais cômodo que possa ser juntar todos esses movimentos em um mesmo saco e rotulá-los como uma “grande onda democrática”, há de se considerar as especificidades de cada caso particular e entendê-los sob uma perspectiva histórica. Se uma certa narrativa social ainda hoje afirma que os EUA foram os vencedores da Guerra Fria e que a dissolução do império soviético representou uma inquestionável vitória dos princípios consagrados da democracia representativa, da economia capitalista, da Igreja Cristã e do individualismo burguês sobre o ateísmo marxista, o declínio constante do império norte-americano desde os anos 1970 está aí para comprovar que a história social não deve ser enquadrada em esquemas simplistas e maniqueístas, que têm muito mais cara de propaganda de um certo regime que justifica desigualdades e de um determinado estilo de vida do que de ciência.
Pensemos um instante. Quais foram os regimes e grupos sociais apoiados pelos norte-americanos na metade de século posterior à Segunda Guerra Mundial? Em que esses grupos se identificam com o tripé ideológico do “mundo livre” (economia capitalista, democracia representativa e Cristianismo)? A resposta à primeira questão é fartamente documentada: o chileno Augusto Pinochet, o xá iraniano Reza Pahlavi, o ditador indonésio Suharto, os ditadores brasileiros Médici, Costa e Silva, etc., o ditador vietnamita Ngo Dinh Diem, grupos fascistas e anti-comunistas na Europa Ocidental, o ditador Somoza na Nicarágua, os mafiosos que tentaram assassinar Fidel Castro inúmeras vezes, Hosni Mubarak no Egito, os monarquistas gregos, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Israel, etc. Dessa simples enumeração a resposta à segunda questão resulta óbvia: nada.
O que essa chamada “onda democrática no mundo árabe” e os atentados de 11 de Setembro têm em comum? Ambos são frutos tardios de escolhas estrategicamente erradas feitas pelo Estado norte-americano e suas agências durante a Guerra Fria. No afã de patrocinar toda e qualquer iniciativa anti-soviética e imaginando que combatiam uma potência imperialista que aspirava a dominação mundial, os norte-americanos foram responsáveis diretos e indiretos por genocídios, ditaduras, assassinatos e todo tipo de violação dos direitos humanos no Terceiro Mundo. Em muitos casos, atrasaram em décadas a possibilidade de desenvolvimento autônomo de regiões inteiras do globo: é o caso da América Latina, do mundo árabe, da África e do Sudeste Asiático. As demonstrações públicas que hoje assistimos pela CNN são tentativas de derrubar governantes que foram empossados com dinheiro e armas contrabandeados pela CIA. Até que ponto são manifestações legítimas de aspirações populares e até que ponto são manobras patrocinadas pelo mundo ocidental é algo difícil de definir nesse momento, dado que o noticiário de hoje (ainda) tem muito mais caráter de propaganda do que de informação. Toda forma de democracia é por definição melhor do que qualquer outra forma de governo? Na sociedade em que vivemos, é possível falar em “liberdade de expressão”? Em direitos políticos plenos? Liberdade de expressão existe para defender a grande mídia ou como um direito de todos? Nós, ocidentais e cristãos do outro lado do mundo, sabemos qual a melhor forma de governo para o mundo árabe? Temos direito de opinar e apoiar determinado grupo a milhares de quilômetros de distância? Devemos condenar o Irã por ter um programa de desenvolvimento da bomba atômica e ao mesmo tempo aplaudir Israel? Sob um ponto de vista moral, é possível defender a existência do Estado de Israel? São os países árabes e o povo palestino que ameaçam Israel ou é a criação de um Estado artificial patrocinado pelas potências ocidentais que ameaça a existência dos povos árabes?
Durante a semana que passou, mais uma vez os EUA vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que repudiava as colônias judaicas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Tal fato ficou em segundo plano, uma vez que na Líbia o exército matava centenas de manifestantes. Quantos palestinos foram mortos direta e indiretamente pela aliança EUA/Israel desde o começo deste ano? O que faz a Human Rights Watch que sempre denuncia países não-alinhados com o Ocidente mas se cala sobre Israel, Guatánamo, operação Condor e os abusos de todas as ordens promovidos pelos EUA e pela OTAN no Iraque, no Afeganistão e outras regiões do mundo? Os ocidentais têm “mais” direitos humanos do que os árabes?
Talvez o que mais tenha irritado os etnocêntricos jornalistas ocidentais nessa crise da Líbia é a impossibilidade de enviar correspondentes de guerra ao local e a censura à internet. Será que se ocorresse uma guerra civil nos EUA de hoje o governo oficial permitiria que os manifestantes utilizassem a internet para se organizar e a imprensa internacional para chamar a atenção sobre os crimes promovidos pelo Estado? Existe liberdade de expressão na Faixa de Gaza e na Cisjordânia? Por mais repugnante que seja a figura de Muammar Khadafi, certamente ele assassinou muito menos gente do que Eisenhower, Kennedy, Nixon, Reagan, Carter e companhia. Pra não falar de novo em Pinochet, Médici, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Suharto, etc. Pra nós, genocida é o que mora na África ou na Ásia, Stálin e Mao é que eram ditadores e democracia é o que existe nos EUA. Democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século? É, democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século.
Esse texto foi feito para levantar questões. A democracia é o melhor sistema de governo possível? (definitivamente não). O ocidente é melhor do que o oriente? (não) O Norte é melhor do que o Sul? (não) O branco é melhor do que o não-branco? (não) O cristão é melhor que o muçulmano? (não) O homem é melhor do que a mulher? (não) O heterossexual é melhor do que o homossexual? (não) O velho é melhor do que o jovem? (não) O meu é melhor do que o seu? (não). Aos que concordam com as respostas entre parênteses, cabe questionar o que vem sendo noticiado como verdade, o modo como os Estados estão organizados, a maneira como o trabalho é trabalhado e o mundo em que vivemos.
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Brasileiro e Estrangeiro
Até certo ponto da mesma maneira que com todas as ciências sociais no Brasil, a área de relações internacionais se desenvolveu a partir da incorporação de esquemas teóricos importados por pesquisadores brasileiros que cursaram programas de pós-graduação nos grandes centros universitários na Europa e nos Estados Unidos. Há um consenso de que se trata de um fenômeno inevitável e natural, tendo em vista que se trata de um campo de estudos que só muito recentemente passou a ser abordado nas universidades daqui. Cientes de que essa é uma fase passageira, os próprios acadêmicos reconhecem que linhas de pesquisas mais “adequadas” para compreender as relações internacionais a partir de uma perspectiva brasileira deverão ganhar espaço num futuro próximo, desde que os investimentos em pesquisa sejam aumentados e a expansão de novos cursos de graduação e pós continue no mesmo ritmo das últimas duas décadas. Isso posto, cabe indagar quais são as possíveis limitações das aplicações desses modelos teóricos “importados” quando confrontados com os problemas característicos da sociedade brasileira e que “cara” deveria ter um estudo de relações internacionais enfocado a partir de nossa perspectiva local.
Neste ensaio, tratarei da maneira pela qual os problemas relacionados ao contexto internacional são tratados no Brasil, dando especial enfoque ao noticiário veiculado pelos meios de comunicação. Por uma própria limitação da erudição do autor, me abstenho de sistematizar a produção acadêmica sobre relações internacionais no Brasil e apenas mencionarei, quando for o caso, certos autores pinçados um pouco que por acaso.
De um modo geral, é comum ouvir dizer que a opinião pública brasileira dá pouca ou nenhuma importância para os problemas de política internacional, uma vez que o país não apresenta conflitos de fronteira com seus vizinhos, não padece de divergências muito sérias entre minorias étnicas/religiosas/lingüísticas e não é um ator internacional – tanto em termos econômicos quanto militares – capaz de influir em áreas do mundo além de seu entorno imediato, ou seja, a América do Sul. Essa percepção um tanto difusa pode até encontrar certos fundamentos na história e na realidade atual, porém carece de um fundamento mais sólido como variável determinante para explicar esse suposto desinteresse do cidadão médio brasileiro pelo que se passa em outros países do mundo. Costuma-se apelar então a um certo pendor provinciano (talvez herdado dos nossos pais portugueses...) para fundamentar argumentos como o de que “um pequeno alagamento no bairro vizinho para mim é mais importante do que um tsunami na Ásia” e extrapola-se a questão dizendo que para os habitantes do Sul do país também há muito pouco interesse em saber o que se passa no Norte, no Nordeste ou no Centro-Oeste. Por último, esse discurso com um quê de demagogia finaliza afirmando que as condições de educação básica no país são precárias (não que não sejam realmente), que o povo é ignorante muito por escolha própria e muito por não saber “escolher” os políticos mais honestos e que, portanto, não se pode exigir que a população conheça outros países, outras culturas e problemas de alcance global se ela não teve acesso nem ao básico em português e em matemática.
Não creio que o brasileiro seja um sujeito desinterssado pelas questões internacionais. Até mesmo nas salas de aula das escolas públicas tais temas se tornaram recorrentes e não por acaso: são, de certa forma, um reflexo da presença mais intensa de elementos estrangeiros no dia-a-dia dos moradores das cidades, seja na forma de mercadorias importadas e companhias multinacionais, seja na obrigatoriedade de possuir um curso de inglês para procurar um emprego ou no número cada vez maior de questões sobre relações internacionais nos vestibulares e concursos públicos. Desde a chamada “abertura” econômica iniciada no governo Collor de Melo, seguindo o receituário neo-liberal do FMI, esse fenômeno com certeza tomou novas proporções, embora tenha permeado a história do país desde os seus primórdios. Afinal, somos uma nação inventada a partir de uma empreitada colonial voltada para o mercado externo e de um encontro de pessoas (escravos, colonizadores e imigrantes) provenientes de todas as partes do mundo. Faz parte do próprio ser-brasileiro situar-se numa encruzilhada de culturas, etnias, linguagens e maneiras de enxergar o mundo que nem sempre se harmonizaram tão pacificamente quanto fazem crer nossos mitos de origem da nação cunhados na época do romantismo e que desde então foram repisados exaustivamente até fazerem as vezes de verdade histórica inquestionável.
Essa marca de origem híbrida implica que a afirmação da nacionalidade não se resume aqui a uma simples negação do estrangeiro, mas sim da sua incorporação num todo muitas vezes contraditório e incoerente. Esse foi sem dúvida o tema central da arte modernista e dos clássicos do pensamento social brasileiro da primeira metade do século XX. Pode-se traçar uma linha de continuidade nessa discussão que vai desde a Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade até, digamos, O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro – passando, evidentemente, por Raízes do Brasil, Macunaíma, o cinema novo, a tropicália, etc. Longe de resolver essa contradição numa síntese pura do que é o brasileiro, todas essas manifestações da arte e do pensamento social reafirmaram o caráter problemático e precário do nosso ethos nacional. Em que medida as diferentes culturas que se cruzaram nesse trecho do hemisfério ocidental foram assimiladas à cultura do Brasil e em que medida a cultura brasileira foi reinventada e transformada pelo contato com cada uma dessas outras culturas é uma questão, por sua própria natureza, insolúvel. Seguindo essa trilha dialética, talvez seja justamente quando falamos sobre o estrangeiro (ou dessa relação de pátria versus exílio) que consigamos dizer as coisas mais profundas sobre o que é nascer e ser brasileiro. Não é à toa que um João Cabral de Melo Neto e um Vinicius de Moraes cantaram a pátria muitas vezes vivendo no estrangeiro. Não é por acaso que trechos de um poema chamado Canção do Exílio façam parte da letra do hino nacional. Daí a importância e a urgência de pensarmos as relações internacionais tomando como ponto de partida o Brasil e, de modo reverso, pensarmos o Brasil tomando como ponto de partida as relações internacionais.
Até agora sugerimos que o brasileiro não é e nem pode ser um sujeito alheio ao internacional. Entretanto, o que pensamos sobre o mundo? Como o pensamos e nos pensamos em relação ao que se passa lá fora? Mesmo em uma época de internet, comunicação transcontinental em tempo real e todo tipo de tecnologia da informação que prolifera dia após dia, engana-se quem pensa que o encontro com o estrangeiro dá-se de forma direta e pessoal. Na prática, o que temos quase sempre é uma relação mediada por duas instâncias: a linguagem universal do business e a mídia. No primeiro caso, o código dinheiro serve como intermediário para uma série de contatos entre o nacional e o internacional na esfera do mundo do trabalho: trata-se das empresas globalizadas, das viagens de negócios, do comércio internacional, dos contratos de câmbio, das redes internacionais de sindicatos e movimentos sociais, do fluxo de capitais e investimentos, etc.
Já no segundo caso, a mídia cumpre um papel de filtrar aquilo que de mais “relevante” ocorre em outros países e servir-nos um cardápio diário de notícias sob o rótulo “internacional”. Talvez por falta de pessoal qualificado para refletir sobre e selecionar o que é efetivamente “relevante” no noticiário dos outros países e continentes, o que temos é uma cobertura de mídia internacional que se restringe a assuntos internos de países estrangeiros e muitas vezes simplesmente reproduz um certo conteúdo fornecido por agências como Reuters, CNN ou BBC. A verdade é que falta a essa cobertura aspectos propriamente internacionais: é comum vermos correspondentes desses veículos em países em guerra ou crise (como no caso do Egito, mais recentemente), porém não há uma preocupação maior em dar um enfoque que fuja muito daquilo que é veiculado nos e para os Estados Unidos e Europa. Mais raro ainda é se deparar com um artigo ou matéria que esboce algum tipo de análise que vá além de elencar grosseiramente e de maneira etnocêntrica os principais atores sociais de um dado país (subentendendo-se que uns são bonzinhos e outros são mauzinhos) e fazer um resumo de alguns acontecimentos históricos que se relacionem mais ou menos com a crise atual, a chamada “bola da vez”. Quase impossível então é ler ou ver algo sobre a atuação das organizações internacionais que fuja do mais banal lugar-comum. Resumindo: o contato com o estrangeiro por meio da mídia normalmente tende a ser uma experiência mais empobrecedora do que enriquecedora, na medida em que reforça preconceitos, se pauta por critérios de validade discutível e raramente ultrapassa um nível meramente superficial de análise.
Há quem afirme que a fraqueza e a vilania da mídia não se restringiriam ao noticiário internacional, mas seriam um mal do jornalismo de um modo geral, porém quero crer que essa cobertura poderia ser feita de uma maneira mais adequada, mesmo levando em conta as características de urgência, superficialidade e necessidade de “traduzir” o mundo para uma linguagem que “qualquer idiota entenda” tão típicas dos meios de comunicação de massa. Em todo caso, são poucos os brasileiros que podem ler em outros idiomas e menos ainda os que se dispõe a garimpar fontes de informação alternativas, de modo que o que é pautado pela mídia influencia sim, e de modo direto, aquilo que as pessoas comentam e pensam sobre os assuntos internacionais em seu cotidiano. De modo que penso ser válida uma discussão que mobilize os editores e donos de jornais, sites e televisões a qualificar a maneira como se fala sobre “mundo” na mídia brasileira, um pouco na mesma linha do que já foi feito com o noticiário de economia, por exemplo.
Numa discussão como essa, a inteligentsia deve rejeitar ser convocada a se pronunciar na imprensa somente para exercer a função de um especialista que é consultado quando é necessário entender algum fenômeno extremamente específico e complicado. Completamente fora do determinado contexto em que foram criados, as palavras e os jargões técnicos do cientista adquirem conotações imprevistas e causam reações de espanto e admiração no espectador. Se a idéia é aprofundar, mesmo que seja só um pouco, o noticiário e a maneira como ele se relaciona com a opinião pública, a maneira como se faz a coisa hoje resulta no contrário: distancia a vida cotidiana das pessoas dos temas de relações internacionais, na medida em que envolve o conhecimento numa aura e faz crer que tudo no mundo deve ser repartido em compartimentos estanques em função de uma lógica cartesiana. Talvez seja o caso de difundir o conhecimento e todos seus rituais iniciáticos por caminhos alternativos à grande mídia, buscando infiltrar o sistema pelos seus subterrâneos. Mas os livros são caros, inacessíveis, impublicáveis e as revistas são lidas somente por aqueles que já tinham um interesse mais imediato nessa área do saber.
Além dos especialistas e pesquisadores, há os funcionários públicos que ocupam cargos na diplomacia, os quais muito mais raramente ainda são ouvidos pela mídia sobre algum tema espinhoso – em geral somente quando esse tal tema expõe alguma divergência entre posições partidárias da política interna que respingue nesse galho do Estado. Ainda muito mais do que os cientistas que trabalham nas universidades públicas, os diplomatas são, no imaginário popular, membros muitos seletos de uma maçonaria. Possuem poderes especiais para viajar, imunidades e tratamento diferenciado – são vistos como o crème de la crème da elite nacional. Além do mais, esperar que um funcionário público deixe de se ocupar da difusão da propaganda oficial e abra mão voluntariamente do monopólio que goza para tratar dos temas internacionais de um modo que possa ameaçar seu status, sua carreira ou sua perspectiva de se aposentar ganhando bem somente em nome do adensamento da discussão sobre relações internacionais na opinião pública brasileira, seria acreditar em atos de abnegação e desprendimento que estão muito além dos limites do que mesmo os mais otimistas consideram ser da natureza humana.
Neste ensaio, tratarei da maneira pela qual os problemas relacionados ao contexto internacional são tratados no Brasil, dando especial enfoque ao noticiário veiculado pelos meios de comunicação. Por uma própria limitação da erudição do autor, me abstenho de sistematizar a produção acadêmica sobre relações internacionais no Brasil e apenas mencionarei, quando for o caso, certos autores pinçados um pouco que por acaso.
De um modo geral, é comum ouvir dizer que a opinião pública brasileira dá pouca ou nenhuma importância para os problemas de política internacional, uma vez que o país não apresenta conflitos de fronteira com seus vizinhos, não padece de divergências muito sérias entre minorias étnicas/religiosas/lingüísticas e não é um ator internacional – tanto em termos econômicos quanto militares – capaz de influir em áreas do mundo além de seu entorno imediato, ou seja, a América do Sul. Essa percepção um tanto difusa pode até encontrar certos fundamentos na história e na realidade atual, porém carece de um fundamento mais sólido como variável determinante para explicar esse suposto desinteresse do cidadão médio brasileiro pelo que se passa em outros países do mundo. Costuma-se apelar então a um certo pendor provinciano (talvez herdado dos nossos pais portugueses...) para fundamentar argumentos como o de que “um pequeno alagamento no bairro vizinho para mim é mais importante do que um tsunami na Ásia” e extrapola-se a questão dizendo que para os habitantes do Sul do país também há muito pouco interesse em saber o que se passa no Norte, no Nordeste ou no Centro-Oeste. Por último, esse discurso com um quê de demagogia finaliza afirmando que as condições de educação básica no país são precárias (não que não sejam realmente), que o povo é ignorante muito por escolha própria e muito por não saber “escolher” os políticos mais honestos e que, portanto, não se pode exigir que a população conheça outros países, outras culturas e problemas de alcance global se ela não teve acesso nem ao básico em português e em matemática.
Não creio que o brasileiro seja um sujeito desinterssado pelas questões internacionais. Até mesmo nas salas de aula das escolas públicas tais temas se tornaram recorrentes e não por acaso: são, de certa forma, um reflexo da presença mais intensa de elementos estrangeiros no dia-a-dia dos moradores das cidades, seja na forma de mercadorias importadas e companhias multinacionais, seja na obrigatoriedade de possuir um curso de inglês para procurar um emprego ou no número cada vez maior de questões sobre relações internacionais nos vestibulares e concursos públicos. Desde a chamada “abertura” econômica iniciada no governo Collor de Melo, seguindo o receituário neo-liberal do FMI, esse fenômeno com certeza tomou novas proporções, embora tenha permeado a história do país desde os seus primórdios. Afinal, somos uma nação inventada a partir de uma empreitada colonial voltada para o mercado externo e de um encontro de pessoas (escravos, colonizadores e imigrantes) provenientes de todas as partes do mundo. Faz parte do próprio ser-brasileiro situar-se numa encruzilhada de culturas, etnias, linguagens e maneiras de enxergar o mundo que nem sempre se harmonizaram tão pacificamente quanto fazem crer nossos mitos de origem da nação cunhados na época do romantismo e que desde então foram repisados exaustivamente até fazerem as vezes de verdade histórica inquestionável.
Essa marca de origem híbrida implica que a afirmação da nacionalidade não se resume aqui a uma simples negação do estrangeiro, mas sim da sua incorporação num todo muitas vezes contraditório e incoerente. Esse foi sem dúvida o tema central da arte modernista e dos clássicos do pensamento social brasileiro da primeira metade do século XX. Pode-se traçar uma linha de continuidade nessa discussão que vai desde a Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade até, digamos, O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro – passando, evidentemente, por Raízes do Brasil, Macunaíma, o cinema novo, a tropicália, etc. Longe de resolver essa contradição numa síntese pura do que é o brasileiro, todas essas manifestações da arte e do pensamento social reafirmaram o caráter problemático e precário do nosso ethos nacional. Em que medida as diferentes culturas que se cruzaram nesse trecho do hemisfério ocidental foram assimiladas à cultura do Brasil e em que medida a cultura brasileira foi reinventada e transformada pelo contato com cada uma dessas outras culturas é uma questão, por sua própria natureza, insolúvel. Seguindo essa trilha dialética, talvez seja justamente quando falamos sobre o estrangeiro (ou dessa relação de pátria versus exílio) que consigamos dizer as coisas mais profundas sobre o que é nascer e ser brasileiro. Não é à toa que um João Cabral de Melo Neto e um Vinicius de Moraes cantaram a pátria muitas vezes vivendo no estrangeiro. Não é por acaso que trechos de um poema chamado Canção do Exílio façam parte da letra do hino nacional. Daí a importância e a urgência de pensarmos as relações internacionais tomando como ponto de partida o Brasil e, de modo reverso, pensarmos o Brasil tomando como ponto de partida as relações internacionais.
Até agora sugerimos que o brasileiro não é e nem pode ser um sujeito alheio ao internacional. Entretanto, o que pensamos sobre o mundo? Como o pensamos e nos pensamos em relação ao que se passa lá fora? Mesmo em uma época de internet, comunicação transcontinental em tempo real e todo tipo de tecnologia da informação que prolifera dia após dia, engana-se quem pensa que o encontro com o estrangeiro dá-se de forma direta e pessoal. Na prática, o que temos quase sempre é uma relação mediada por duas instâncias: a linguagem universal do business e a mídia. No primeiro caso, o código dinheiro serve como intermediário para uma série de contatos entre o nacional e o internacional na esfera do mundo do trabalho: trata-se das empresas globalizadas, das viagens de negócios, do comércio internacional, dos contratos de câmbio, das redes internacionais de sindicatos e movimentos sociais, do fluxo de capitais e investimentos, etc.
Já no segundo caso, a mídia cumpre um papel de filtrar aquilo que de mais “relevante” ocorre em outros países e servir-nos um cardápio diário de notícias sob o rótulo “internacional”. Talvez por falta de pessoal qualificado para refletir sobre e selecionar o que é efetivamente “relevante” no noticiário dos outros países e continentes, o que temos é uma cobertura de mídia internacional que se restringe a assuntos internos de países estrangeiros e muitas vezes simplesmente reproduz um certo conteúdo fornecido por agências como Reuters, CNN ou BBC. A verdade é que falta a essa cobertura aspectos propriamente internacionais: é comum vermos correspondentes desses veículos em países em guerra ou crise (como no caso do Egito, mais recentemente), porém não há uma preocupação maior em dar um enfoque que fuja muito daquilo que é veiculado nos e para os Estados Unidos e Europa. Mais raro ainda é se deparar com um artigo ou matéria que esboce algum tipo de análise que vá além de elencar grosseiramente e de maneira etnocêntrica os principais atores sociais de um dado país (subentendendo-se que uns são bonzinhos e outros são mauzinhos) e fazer um resumo de alguns acontecimentos históricos que se relacionem mais ou menos com a crise atual, a chamada “bola da vez”. Quase impossível então é ler ou ver algo sobre a atuação das organizações internacionais que fuja do mais banal lugar-comum. Resumindo: o contato com o estrangeiro por meio da mídia normalmente tende a ser uma experiência mais empobrecedora do que enriquecedora, na medida em que reforça preconceitos, se pauta por critérios de validade discutível e raramente ultrapassa um nível meramente superficial de análise.
Há quem afirme que a fraqueza e a vilania da mídia não se restringiriam ao noticiário internacional, mas seriam um mal do jornalismo de um modo geral, porém quero crer que essa cobertura poderia ser feita de uma maneira mais adequada, mesmo levando em conta as características de urgência, superficialidade e necessidade de “traduzir” o mundo para uma linguagem que “qualquer idiota entenda” tão típicas dos meios de comunicação de massa. Em todo caso, são poucos os brasileiros que podem ler em outros idiomas e menos ainda os que se dispõe a garimpar fontes de informação alternativas, de modo que o que é pautado pela mídia influencia sim, e de modo direto, aquilo que as pessoas comentam e pensam sobre os assuntos internacionais em seu cotidiano. De modo que penso ser válida uma discussão que mobilize os editores e donos de jornais, sites e televisões a qualificar a maneira como se fala sobre “mundo” na mídia brasileira, um pouco na mesma linha do que já foi feito com o noticiário de economia, por exemplo.
Numa discussão como essa, a inteligentsia deve rejeitar ser convocada a se pronunciar na imprensa somente para exercer a função de um especialista que é consultado quando é necessário entender algum fenômeno extremamente específico e complicado. Completamente fora do determinado contexto em que foram criados, as palavras e os jargões técnicos do cientista adquirem conotações imprevistas e causam reações de espanto e admiração no espectador. Se a idéia é aprofundar, mesmo que seja só um pouco, o noticiário e a maneira como ele se relaciona com a opinião pública, a maneira como se faz a coisa hoje resulta no contrário: distancia a vida cotidiana das pessoas dos temas de relações internacionais, na medida em que envolve o conhecimento numa aura e faz crer que tudo no mundo deve ser repartido em compartimentos estanques em função de uma lógica cartesiana. Talvez seja o caso de difundir o conhecimento e todos seus rituais iniciáticos por caminhos alternativos à grande mídia, buscando infiltrar o sistema pelos seus subterrâneos. Mas os livros são caros, inacessíveis, impublicáveis e as revistas são lidas somente por aqueles que já tinham um interesse mais imediato nessa área do saber.
Além dos especialistas e pesquisadores, há os funcionários públicos que ocupam cargos na diplomacia, os quais muito mais raramente ainda são ouvidos pela mídia sobre algum tema espinhoso – em geral somente quando esse tal tema expõe alguma divergência entre posições partidárias da política interna que respingue nesse galho do Estado. Ainda muito mais do que os cientistas que trabalham nas universidades públicas, os diplomatas são, no imaginário popular, membros muitos seletos de uma maçonaria. Possuem poderes especiais para viajar, imunidades e tratamento diferenciado – são vistos como o crème de la crème da elite nacional. Além do mais, esperar que um funcionário público deixe de se ocupar da difusão da propaganda oficial e abra mão voluntariamente do monopólio que goza para tratar dos temas internacionais de um modo que possa ameaçar seu status, sua carreira ou sua perspectiva de se aposentar ganhando bem somente em nome do adensamento da discussão sobre relações internacionais na opinião pública brasileira, seria acreditar em atos de abnegação e desprendimento que estão muito além dos limites do que mesmo os mais otimistas consideram ser da natureza humana.
terça-feira, fevereiro 08, 2011
Quem Subsidia Quem No Transporte Coletivo Em São Paulo?
Comecemos este texto pela aritmética, afinal são os números, cifras e porcentagens que respaldam todo e qualquer argumento de natureza técnico-científica digno de respeito neste século XXI. A prefeitura municipal de São Paulo prevê, em seu orçamento para o ano fiscal de 2011, R$ 600.000.000,00 em subsídios às empresas de ônibus. Tomando como base o ano de 2010, o número total de passageiros transportados em um ano é de 2.914.030.714, o que resultaria numa receita bruta com cobrança de passagens de R$ 8.742.092.142,00, levando em conta o valor atual da viagem, que é de R$ 3,00. Num cálculo grosseiro, podemos dividir a somatória da receita bruta mais os subsídios pelo número de ônibus da frota e chegaremos a conclusão de cada veículo custa em média R$ 582.806,15 para circular por um ano. Abstraindo passeios e eventualidades, podemos considerar que cada passageiro costuma fazer duas viagens por dia e que, em média, por conta da integração com o bilhete único, ele utiliza dois ônibus por viagem, donde resulta um número hipotético de 6.398.693 de pessoas utilizando ônibus todos os dias (na verdade o número é maior, pois aos fins de semana e feriados o movimento é ínfimo e o número de ônibus circulando chega a ser 50% menor do que em dias úteis). Em São Paulo, existem 1.340 linhas de ônibus, o que dá uma média de 11 ônibus por linha.
O número de automóveis na cidade é de 5.093.169 e o de motocicletas 875.887, de modo que podemos presumir que 5.969.056 utilizam o transporte individual para se locomoverem de casa para o trabalho, uma vez que é raríssima a presença de mais de uma pessoa em cada automóvel e as famílias burguesas costumam ter mais de um automóvel por pessoa (fica elas por elas).
De cara, que conclusões podemos tirar desses números?
Em primeiro lugar, que há mais pessoas que utilizam transporte coletivo (e aqui nem se levou em conta o trem e o metrô) do que transporte individual. Em segundo lugar, que o custo do sistema de transporte coletivo “gerido” pela prefeitura é altíssimo, sob qualquer ponto de vista, e causa indignação se levarmos em conta que os ônibus invariavelmente circulam superlotados e numa velocidade média inferior a de uma bicicleta. Transporte coletivo caro e de péssima qualidade, como pode atestar qualquer famigerado “usuário” que já tenha se aventurado a subir num ônibus numa sexta-feira a tarde com ou sem chuva.
A crer no que a mídia vem publicando desde o último reajuste de tarifa no começo deste ano, trata-se de um problema crônico, em parte decorrente da má gestão dos administradores públicos e em parte decorrente da saturação das principais vias de tráfico da cidade (que, como as chuvas de verão ou a seca do Nordeste é um fenômeno da natureza). Segundo os “especialistas” de plantão, a solução seria investir em metrô para que, posteriormente, as classes médias e burguesas julguem que o transporte coletivo atende às suas necessidades de conforto e rapidez e abandonem voluntariamente o uso dos automóveis.
Números e especialistas de plantão com lugar cativo na mídia tratam a realidade social com frieza e objetividade. Um passo adiante no nosso argumento seria olhar mais atentamente essas cifras e nos perguntarmos o que números e especialistas de plantão querem esconder quando dizem que o transporte coletivo em São Paulo é inviável (cada ônibus custaria meio milhão de reais por ano) e que uma solução de médio prazo depende da boa vontade das classes mais abastadas em abandonarem voluntariamente seus automóveis para se enfiarem num metrô confortável, estilo Paris ou New York.
Comecemos por uma observação empírica: a saturação das principais vias de tráfico da cidade de São Paulo não é um fenômeno da natureza. Ao contrário da maioria dos fatos sociais, aqui é fácil perceber que existe uma relação de causa e efeito: se 5.093.169 de veículos saem ao mesmo tempo para transportar seus donos engravatados todos os dias um pouco antes das oito e um pouco depois das dezoito, inevitavelmente os 17.000 km de ruas da cidade ficarão saturados. De onde se conclui que: o trânsito de São Paulo é causado por uma minoria de pessoas que utiliza o automóvel como meio de transporte e por mais ninguém. E por que o sistema de ônibus da cidade é lento, deficitário e de má qualidade? Resposta idêntica: uma minoria de pessoas utiliza o automóvel como meio de transporte. Evidente: se são necessários 11 ônibus em cada linha circulando numa velocidade lenta, caso não houvesse trânsito o mesmo número de pessoas poderia ser transportado com, digamos, metade dessa frota, uma vez que grande parte do custo operacional dessas linhas é fixo (salário de cobradores e motoristas, encargos, impostos, etc.). Se um ônibus X vai do ponto A ao ponto B em três horas, um ônibus Y que vá do ponto A ao ponto B em uma hora pode fazer o mesmo serviço de três ônibus X. Sem automóvel na rua, o sistema de transporte coletivo não é deficitário, não demanda subsídios e é capaz de transportar o mesmo número de passageiros com muito mais conforto e rapidez. Simples assim.
Outro passo no nosso argumento: pessoas não são simplesmente pessoas, cidadãos genéricos, “usuários” do sistema. Pessoas têm diferenças e a primeira grande diferença que chama nossa atenção é que algumas têm mais poder do que outras: poder de mandar em outras pessoas, poder de ter mais dinheiro, poder de poder comprar mais coisas, poder de optar por empregos melhores, poder de escolher se querem ir pro trabalho a pé, de ônibus, de carro ou de helicóptero. E aqui mais uma vez, por mais incrível que possa parecer, também não se trata de um fenômeno da natureza, não se trata de “Deus criou o mundo assim”, não se trata de ser bem nascido, de ter as melhores oportunidades, de estudar em escola particular ou de fazer as escolhas certas na vida. A apropriação desigual da riqueza socialmente produzida entre as diferentes classes sociais é um fenômeno muito bem estudado e comprovado empiricamente desde o século XIX (pelo menos). Qualquer aspirante a estudante de introdução à sociologia é capaz de caracterizar a sociedade capitalista (e outras sociedades também) como dotada de uma infra-estrutura econômica que propicia que a riqueza socialmente produzida, seja na forma de dinheiro ou mercadoria, seja apropriada de maneira desigual pelas diferentes classes sociais. Os mecanismos para que isso aconteça são vários e têm nomes diferentes segundo cada autor e cada escola de pensamento, mas podemos resumir grosso modo assim: separação entre o trabalhador, os meios de produção e o produto do seu trabalho; valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual; concentração de capital e terras nas mãos de umas poucas famílias; leis, normas e um sistema judicial e penitenciário moldados para garantir a propriedade privada, os mecanismos de herança e a reprodução da desigualdade; diferenças no valor do salário em função de sexo, etnia, idade, origem social e local de residência (fenômeno que os liberais chamam de “produtividade do trabalho”), etc. etc. etc.
Toda essa volta para chegar numa segunda conclusão empírica: aqueles que andam de automóvel não são simplesmente uma minoria dentro de um todo difuso, mas contém dentro de si os limites de uma classe social muito bem definida: os que podem mais. Para não falar em burguesia, proletariado, classe média ou outros conceitos que se tornaram ocos pelo uso excessivo, falemos de forma bem clara: toda a elite de São Paulo usa automóvel como seu meio de transporte rotineiro. Claro que pessoas de origem humilde, que moram lá em Taboão da Serra ou Itaquaquecetuba também têm seus carrinhos populares e o governo Lula permitiu que muitos deles pudessem enfim realizar esse sonho de infância, mas isso não invalida o nosso argumento: todos os membros da elite de São Paulo (exceção aos que voam de helicóptero) usam automóvel todos os dias. Enfim chegamos ao ponto: o uso de transporte individual é um problema de natureza política, em tudo oposto a um fenômeno natural. Levando em conta que dos 513 deputados eleitos, ao menos 220 declararam possuir mais de R$ 1.000.000,00 em patrimônio (esses são os que declaram, veja bem), sabemos que esse problema jamais será colocado pelos políticos de plantão nos termos aqui tratados, uma vez que praticamente todos os membros da elite política brasileira são ao mesmo tempo membro dessa elite econômica que só vai pensar em deixar o conforto do automóvel quando o metrô de São Paulo for confortável como o de New York e Paris.
Um argumento torto e um círculo vicioso. O argumento torto: mesmo em New York e Paris, muitas pessoas andam de automóvel e não julgam que o metrô é capaz de fornecer a privacidade e o conforto a que elas acreditam fazer jus. O círculo vicioso: políticos que poderiam investir verbas públicas em um metrô que ficaria pronto daqui a duas gerações preferem destinar recursos a construção de rodovias, largas avenidas, subsídios a montadoras multinacionais e grandes obras de impacto tocadas por aquelas mesmas poucas empreiteiras de sempre (Odebrecht, Camargo Corrêa), uma vez que se trata de angariar apoio público (e privado) para tentar uma nova reeleição.
Concluímos, portanto, que não se pode esperar da elite política uma mudança de enfoque com relação ao transporte de indivíduos nas grandes cidades. Entretanto, numa democracia como a nossa, ainda há esperanças: uma grande mobilização da sociedade civil, das organizações não-governamentais ou o barulho da imprensa são maneiras de pelo menos dar o ponta pé inicial em uma grande transformação qualquer.
Porém, olhando mais de perto o que é a mídia no Brasil já perdemos uma perna desse tripé, afinal as montadoras de automóvel tornaram-se as grandes investidoras no mercado publicitário de uns anos pra cá, ocupando um espaço que já foi da propaganda de cigarro. Basta dar uma sapeada por qualquer canal para notar que pelo menos três em cada cinco anúncios no horário nobre de qualquer grande emissora de televisão são de montadoras multinacionais. E não é por acaso que a Fátima Bernardes abre seu belo sorriso e comemora com entusiasmo quando a ANFAVEA divulga que o país bateu mais um recorde na produção e comercialização de veículos automotores destinados ao transporte individual. Para alguém em algum lugar isso deve ser uma notícia boa. E se o Jornal Nacional diz assim, assim deve ser.
E esse tripé meio capenga também é incapaz de se sustentar sobre as organizações da sociedade civil. Por uma razão muito singela: os donos de “ONGs”, os ecologistas do greenpeace e do wwf, os que votaram na Marina Silva, quem se preocupa com sustentabilidade e em construir um mundo melhor, toda essa gente idealista e comprometida com o social e o ambiental são tão membros dessa elite econômica que anda de automóvel quanto nossos políticos. E não serei eu que tentarei desemaranhar esse nó de contradições embebido num idealismo de segunda categoria que caracteriza o movimento verde no mundo de hoje. Querem a sustentabilidade sem abrir mão dos privilégios, sem mexer na estrutura de dominação, sem nem sequer questionar os fundamentos da economia industrial sobre a qual se assenta o capitalismo tardio. Resumindo a ópera: os ecologistas acham que desenvolvendo novas tecnologias e mudando “detalhezinhos” sem importância nos hábitos de consumo dessa massa informe que é a sociedade contemporânea podemos criar um “mundo melhor” para as plantas, animais e pessoas (não necessariamente nessa ordem). Claro que isso implica em fazer automóveis movidos a energia solar ou sei lá o quê, pois assim se evita o efeito estufa e o aquecimento global. Pro problema que estamos tratando aqui, enfim, trata-se de manter tudo como está. Ou piorar.
Mobilização de massas seria uma última e desesperada alternativa. Quem pode se mobilizar tendo filhos pra criar, patrão cobrando resultados, necessidades de consumo para serem satisfeitas e a prestação da casa própria para vencer? Restou mais uma vez para os jovens. E eles até que foram às ruas (em número irrisório) protestar contra o aumento de passagem nesse começo de ano. Sintomaticamente, foram reprimidos com violência pelo aparato policial do Estado, já que estavam tentando bloquear avenidas importantes da cidade e (pasmém) prejudicando o direito de ir e vir daqueles “pobres” e desavisados motoristas de automóvel.
Diante de tudo isso, é preciso em primeiro lugar reconhecer que a condição precária da circulação de pessoas nas grandes cidades é um problema político e como problema político deve ser formulado e pensado. Lutar contra as grandes corporações multinacionais fabricantes de automóveis e seus poderosos lobbies parece uma tarefa um tanto ingrata, mas há de se colocar a questão em termos de sobrevivência da cidade como organismo vivo e de garantia da sanidade mental e física dos habitantes que nela residem. As companhias de tabaco também já foram maiores e mais poderosas do que são. Ponto dois: há de se introduzir, por algum meio, no debate político medidas que, embora paliativas, possam ao menos amenizar esse problema da circulação a curto prazo: sim ao pedágio urbano, sim à ampliação do rodízio de veículos, sim às restrições a fabricação, comércio e utilização de meios de transporte individual nas grandes cidades. Se isso soa impopular, não rende voto ou pesquisas de opinião demonstram ser inviável, que ao menos algum partido minúsculo de extrema esquerda assuma de forma clara esse discurso de desautomobilização da sociedade. De tanto repetir e argumentar, algo há de se infiltrar pelos tortuosos caminhos da política, da mídia ou da opinião pública.
Respondendo a pergunta do início: em São Paulo, nós, passageiros de um sistema de transporte coletivo de péssima qualidade é que subsidiamos o suposto direito de uma elite imbecil optar por utilizar o seu transporte individual para ir do trabalho para casa. Que ao menos se faça como na periferia de Paris e comece-se a queimar automóveis todos as noites. Já seria um primeiro sinal de vida em uma sociedade moribunda.
O número de automóveis na cidade é de 5.093.169 e o de motocicletas 875.887, de modo que podemos presumir que 5.969.056 utilizam o transporte individual para se locomoverem de casa para o trabalho, uma vez que é raríssima a presença de mais de uma pessoa em cada automóvel e as famílias burguesas costumam ter mais de um automóvel por pessoa (fica elas por elas).
De cara, que conclusões podemos tirar desses números?
Em primeiro lugar, que há mais pessoas que utilizam transporte coletivo (e aqui nem se levou em conta o trem e o metrô) do que transporte individual. Em segundo lugar, que o custo do sistema de transporte coletivo “gerido” pela prefeitura é altíssimo, sob qualquer ponto de vista, e causa indignação se levarmos em conta que os ônibus invariavelmente circulam superlotados e numa velocidade média inferior a de uma bicicleta. Transporte coletivo caro e de péssima qualidade, como pode atestar qualquer famigerado “usuário” que já tenha se aventurado a subir num ônibus numa sexta-feira a tarde com ou sem chuva.
A crer no que a mídia vem publicando desde o último reajuste de tarifa no começo deste ano, trata-se de um problema crônico, em parte decorrente da má gestão dos administradores públicos e em parte decorrente da saturação das principais vias de tráfico da cidade (que, como as chuvas de verão ou a seca do Nordeste é um fenômeno da natureza). Segundo os “especialistas” de plantão, a solução seria investir em metrô para que, posteriormente, as classes médias e burguesas julguem que o transporte coletivo atende às suas necessidades de conforto e rapidez e abandonem voluntariamente o uso dos automóveis.
Números e especialistas de plantão com lugar cativo na mídia tratam a realidade social com frieza e objetividade. Um passo adiante no nosso argumento seria olhar mais atentamente essas cifras e nos perguntarmos o que números e especialistas de plantão querem esconder quando dizem que o transporte coletivo em São Paulo é inviável (cada ônibus custaria meio milhão de reais por ano) e que uma solução de médio prazo depende da boa vontade das classes mais abastadas em abandonarem voluntariamente seus automóveis para se enfiarem num metrô confortável, estilo Paris ou New York.
Comecemos por uma observação empírica: a saturação das principais vias de tráfico da cidade de São Paulo não é um fenômeno da natureza. Ao contrário da maioria dos fatos sociais, aqui é fácil perceber que existe uma relação de causa e efeito: se 5.093.169 de veículos saem ao mesmo tempo para transportar seus donos engravatados todos os dias um pouco antes das oito e um pouco depois das dezoito, inevitavelmente os 17.000 km de ruas da cidade ficarão saturados. De onde se conclui que: o trânsito de São Paulo é causado por uma minoria de pessoas que utiliza o automóvel como meio de transporte e por mais ninguém. E por que o sistema de ônibus da cidade é lento, deficitário e de má qualidade? Resposta idêntica: uma minoria de pessoas utiliza o automóvel como meio de transporte. Evidente: se são necessários 11 ônibus em cada linha circulando numa velocidade lenta, caso não houvesse trânsito o mesmo número de pessoas poderia ser transportado com, digamos, metade dessa frota, uma vez que grande parte do custo operacional dessas linhas é fixo (salário de cobradores e motoristas, encargos, impostos, etc.). Se um ônibus X vai do ponto A ao ponto B em três horas, um ônibus Y que vá do ponto A ao ponto B em uma hora pode fazer o mesmo serviço de três ônibus X. Sem automóvel na rua, o sistema de transporte coletivo não é deficitário, não demanda subsídios e é capaz de transportar o mesmo número de passageiros com muito mais conforto e rapidez. Simples assim.
Outro passo no nosso argumento: pessoas não são simplesmente pessoas, cidadãos genéricos, “usuários” do sistema. Pessoas têm diferenças e a primeira grande diferença que chama nossa atenção é que algumas têm mais poder do que outras: poder de mandar em outras pessoas, poder de ter mais dinheiro, poder de poder comprar mais coisas, poder de optar por empregos melhores, poder de escolher se querem ir pro trabalho a pé, de ônibus, de carro ou de helicóptero. E aqui mais uma vez, por mais incrível que possa parecer, também não se trata de um fenômeno da natureza, não se trata de “Deus criou o mundo assim”, não se trata de ser bem nascido, de ter as melhores oportunidades, de estudar em escola particular ou de fazer as escolhas certas na vida. A apropriação desigual da riqueza socialmente produzida entre as diferentes classes sociais é um fenômeno muito bem estudado e comprovado empiricamente desde o século XIX (pelo menos). Qualquer aspirante a estudante de introdução à sociologia é capaz de caracterizar a sociedade capitalista (e outras sociedades também) como dotada de uma infra-estrutura econômica que propicia que a riqueza socialmente produzida, seja na forma de dinheiro ou mercadoria, seja apropriada de maneira desigual pelas diferentes classes sociais. Os mecanismos para que isso aconteça são vários e têm nomes diferentes segundo cada autor e cada escola de pensamento, mas podemos resumir grosso modo assim: separação entre o trabalhador, os meios de produção e o produto do seu trabalho; valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual; concentração de capital e terras nas mãos de umas poucas famílias; leis, normas e um sistema judicial e penitenciário moldados para garantir a propriedade privada, os mecanismos de herança e a reprodução da desigualdade; diferenças no valor do salário em função de sexo, etnia, idade, origem social e local de residência (fenômeno que os liberais chamam de “produtividade do trabalho”), etc. etc. etc.
Toda essa volta para chegar numa segunda conclusão empírica: aqueles que andam de automóvel não são simplesmente uma minoria dentro de um todo difuso, mas contém dentro de si os limites de uma classe social muito bem definida: os que podem mais. Para não falar em burguesia, proletariado, classe média ou outros conceitos que se tornaram ocos pelo uso excessivo, falemos de forma bem clara: toda a elite de São Paulo usa automóvel como seu meio de transporte rotineiro. Claro que pessoas de origem humilde, que moram lá em Taboão da Serra ou Itaquaquecetuba também têm seus carrinhos populares e o governo Lula permitiu que muitos deles pudessem enfim realizar esse sonho de infância, mas isso não invalida o nosso argumento: todos os membros da elite de São Paulo (exceção aos que voam de helicóptero) usam automóvel todos os dias. Enfim chegamos ao ponto: o uso de transporte individual é um problema de natureza política, em tudo oposto a um fenômeno natural. Levando em conta que dos 513 deputados eleitos, ao menos 220 declararam possuir mais de R$ 1.000.000,00 em patrimônio (esses são os que declaram, veja bem), sabemos que esse problema jamais será colocado pelos políticos de plantão nos termos aqui tratados, uma vez que praticamente todos os membros da elite política brasileira são ao mesmo tempo membro dessa elite econômica que só vai pensar em deixar o conforto do automóvel quando o metrô de São Paulo for confortável como o de New York e Paris.
Um argumento torto e um círculo vicioso. O argumento torto: mesmo em New York e Paris, muitas pessoas andam de automóvel e não julgam que o metrô é capaz de fornecer a privacidade e o conforto a que elas acreditam fazer jus. O círculo vicioso: políticos que poderiam investir verbas públicas em um metrô que ficaria pronto daqui a duas gerações preferem destinar recursos a construção de rodovias, largas avenidas, subsídios a montadoras multinacionais e grandes obras de impacto tocadas por aquelas mesmas poucas empreiteiras de sempre (Odebrecht, Camargo Corrêa), uma vez que se trata de angariar apoio público (e privado) para tentar uma nova reeleição.
Concluímos, portanto, que não se pode esperar da elite política uma mudança de enfoque com relação ao transporte de indivíduos nas grandes cidades. Entretanto, numa democracia como a nossa, ainda há esperanças: uma grande mobilização da sociedade civil, das organizações não-governamentais ou o barulho da imprensa são maneiras de pelo menos dar o ponta pé inicial em uma grande transformação qualquer.
Porém, olhando mais de perto o que é a mídia no Brasil já perdemos uma perna desse tripé, afinal as montadoras de automóvel tornaram-se as grandes investidoras no mercado publicitário de uns anos pra cá, ocupando um espaço que já foi da propaganda de cigarro. Basta dar uma sapeada por qualquer canal para notar que pelo menos três em cada cinco anúncios no horário nobre de qualquer grande emissora de televisão são de montadoras multinacionais. E não é por acaso que a Fátima Bernardes abre seu belo sorriso e comemora com entusiasmo quando a ANFAVEA divulga que o país bateu mais um recorde na produção e comercialização de veículos automotores destinados ao transporte individual. Para alguém em algum lugar isso deve ser uma notícia boa. E se o Jornal Nacional diz assim, assim deve ser.
E esse tripé meio capenga também é incapaz de se sustentar sobre as organizações da sociedade civil. Por uma razão muito singela: os donos de “ONGs”, os ecologistas do greenpeace e do wwf, os que votaram na Marina Silva, quem se preocupa com sustentabilidade e em construir um mundo melhor, toda essa gente idealista e comprometida com o social e o ambiental são tão membros dessa elite econômica que anda de automóvel quanto nossos políticos. E não serei eu que tentarei desemaranhar esse nó de contradições embebido num idealismo de segunda categoria que caracteriza o movimento verde no mundo de hoje. Querem a sustentabilidade sem abrir mão dos privilégios, sem mexer na estrutura de dominação, sem nem sequer questionar os fundamentos da economia industrial sobre a qual se assenta o capitalismo tardio. Resumindo a ópera: os ecologistas acham que desenvolvendo novas tecnologias e mudando “detalhezinhos” sem importância nos hábitos de consumo dessa massa informe que é a sociedade contemporânea podemos criar um “mundo melhor” para as plantas, animais e pessoas (não necessariamente nessa ordem). Claro que isso implica em fazer automóveis movidos a energia solar ou sei lá o quê, pois assim se evita o efeito estufa e o aquecimento global. Pro problema que estamos tratando aqui, enfim, trata-se de manter tudo como está. Ou piorar.
Mobilização de massas seria uma última e desesperada alternativa. Quem pode se mobilizar tendo filhos pra criar, patrão cobrando resultados, necessidades de consumo para serem satisfeitas e a prestação da casa própria para vencer? Restou mais uma vez para os jovens. E eles até que foram às ruas (em número irrisório) protestar contra o aumento de passagem nesse começo de ano. Sintomaticamente, foram reprimidos com violência pelo aparato policial do Estado, já que estavam tentando bloquear avenidas importantes da cidade e (pasmém) prejudicando o direito de ir e vir daqueles “pobres” e desavisados motoristas de automóvel.
Diante de tudo isso, é preciso em primeiro lugar reconhecer que a condição precária da circulação de pessoas nas grandes cidades é um problema político e como problema político deve ser formulado e pensado. Lutar contra as grandes corporações multinacionais fabricantes de automóveis e seus poderosos lobbies parece uma tarefa um tanto ingrata, mas há de se colocar a questão em termos de sobrevivência da cidade como organismo vivo e de garantia da sanidade mental e física dos habitantes que nela residem. As companhias de tabaco também já foram maiores e mais poderosas do que são. Ponto dois: há de se introduzir, por algum meio, no debate político medidas que, embora paliativas, possam ao menos amenizar esse problema da circulação a curto prazo: sim ao pedágio urbano, sim à ampliação do rodízio de veículos, sim às restrições a fabricação, comércio e utilização de meios de transporte individual nas grandes cidades. Se isso soa impopular, não rende voto ou pesquisas de opinião demonstram ser inviável, que ao menos algum partido minúsculo de extrema esquerda assuma de forma clara esse discurso de desautomobilização da sociedade. De tanto repetir e argumentar, algo há de se infiltrar pelos tortuosos caminhos da política, da mídia ou da opinião pública.
Respondendo a pergunta do início: em São Paulo, nós, passageiros de um sistema de transporte coletivo de péssima qualidade é que subsidiamos o suposto direito de uma elite imbecil optar por utilizar o seu transporte individual para ir do trabalho para casa. Que ao menos se faça como na periferia de Paris e comece-se a queimar automóveis todos as noites. Já seria um primeiro sinal de vida em uma sociedade moribunda.
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Antoine Doinel
Recentemente, tive a oportunidade de assistir, em sequência, aos cinco filmes que Truffaut filmou sobre a trajetória do personagem Antoine Doinel, interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud. Como que realizando um desejo secreto de todo espectador/leitor, François Truffaut permite que nós respondamos aquelas perguntas que invariavelmente se levantam quando fechamos a última contracapa do livro ou somos surpreendidos no meio de uma história interessante por um letreiro escrito The End: e depois, o que acontece com ele e com ela? Como continua? E o enfant térrible Antoine Doinel, um menino que se sente estrangeiro em casa, na escola, no reformatório ou morando escondido na casa do coleguinha burguês, não deixa nada a desejar em relação aos seus primos literários Holden Caulfield, Julien Sorrel e Stephen Dedalus.
Há um intervalo de vinte anos entre o primeiro filme – Os Incompreendidos, de 1959 – e o último – Amor em Fuga, feito em 1979 – e pode-se agrupar os títulos em duas grandes categorias: de um lado, os dois primeiros, filmados em preto e branco e que tratam da juventude do protagonista, e de outro os três últimos, em que a ação orbita ao redor da personagem Christine (Claude Jade), esposa e depois ex-mulher de Doinel. O intervalo entre essas duas datas – 1959 e 1979 – corresponde a um período de intensas transformações (para melhor) na cultura, nos movimentos sociais, na moralidade pública, no sexo, no cinema e certamente pelo menos nessa última categoria Truffaut teve a sua responsabilidade. Não só ele, evidente, afinal era um período de grandes realizadores nos dois lados do Atlântico: Godard, Rohmer, Pasolini, Antonioni, Resnais, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Bergman, Glauber, Fassbinder e por aí vai. Claro que esse é um viés ocidental de periodizar e glorificar suas próprias coisas e experiências, mas acho difícil um ser humano não tirar alguma coisa de boa se se der ao trabalho de assistir a filmografia completa de pelo menos esses poucos que eu citei.
Os Incompreendidos (1959) é o primeiro longa metragem de Truffaut, então com 27 anos de idade e que filma a história (bastante autobiográfica) de um menino parisiense no período pós-segunda guerra mundial que vai sendo sistematicamente afastado do centro (aquilo que representa tudo o que é bom e verdadeiro socialmente) em direção a margem da margem da margem. Nessa trajetória, vários personagens (eles mesmos já marginalizados cada um ao seu modo) contribuem com alguns “empurrõezinhos” providenciais: a mãe, o padrasto, o amante barra chefe da mãe, o professor, o colega de classe, o diretor da escola, o delegado, a psicóloga e todas as espécies de “assistentes sociais” típicos dessas sociedades capitalistas policialescas e totalitárias que nós conhecemos tão intimamente nos livros de Foucault. Antoine Doinel empreende sua fuga em seis movimentos. Movimento número um: ao se dar conta de que esquecera de fazer o dever de casa e meio que incentivado por um colega “má companhia”, Antoine foge da escola e mata aula. Movimento número dois: por mentir para os pais afirmando que fora a escola quando cabulara aula e por mentir ao diretor da escola afirmando que faltara porque a mãe morrera, Antoine Doinel se dá conta de que a situação na casa dos pais (mãe solteira e promíscua + padrasto) tornou-se insustentável e foge de casa. Movimento número três: readmitido na casa materna, o menino decora trechos de Balzac, os utiliza num exame de redação na escola, é acusado de plágio pelo professor, bate no colega que o conduziria à diretoria e foge da escola de vez. Quarto movimento: depois de roubar uma máquina de escrever ultra-pesada e trambolhenta do escritório do padrasto e não conseguir vendê-la para um atravessador, Antoine entra furtivamente durante a noite no escritório para devolver o objeto, mas é pego pelo segurança e preso pela polícia. Quinto movimento: após se aconselharem com as autoridades, os pais decidem internar o filho numa instituição estilo Febem (francesa, lógico) e o garoto é banido das ruas de Paris. Sexto e último movimento: no meio de uma partida de futebol, Antoine Doinel foge dessa Febem e corre em direção ao mar (que nunca d´antes vira), numa das melhores cenas (disparada) do cinema nosso ocidental. Enfim, um Rimbaud/Henry Miller/Carlitos de doze anos mestre na arte do “se virar”.
Antoine e Colette (1962) não é um longa metragem e continua a história de um ponto bastante adiante daquele em que Os Incompreendidos terminara (fato que é recorrente nos cinco filmes). Nesse filme vemos um Antoine Doinel aos vinte anos, apaixonado por música clássica, morando sozinho num quartinho minúsculo depois de sair do internato e trabalhando numa fábrica de discos de vinil. Num desses concertos ele se encanta por uma garota, Colette, e investe na sua conquista. Consegue conquistar os pais dela, mas com ela fica mais na base do platonismo. Um filme cute (sem nenhum trocadilho....).
Beijos Roubados é o filme que Truffaut rodou em 1968. Para a wikipedia francesa, trata-se de um filme sobre o tema da instabilidade e do provisório. Realmente, ficamos sabendo que Antoine estava servindo ao exército e apaixonado por uma tal de Christine. Nas forças armadas ele é preso várias vezes, considerado insubordinado e depois dispensado sem qualquer carta de recomendação. De volta a velha Paris, ele obtém a ajuda dos pais de Christine (de novo o tema dos pais da namorada) para conseguir um emprego de vigia noturno em um hotel, que não dura muito tempo. Logo após, Antoine se torna funcionário de uma agência de detetives particulares, chega a exercer a profissão com empenho e boa vontade, mas é despedido depois que o chefe descobre que ele havia transado com a esposa de um comerciante que contratara a agência para investigar sua própria vida. Os beijos roubados do título (baisers volés no original) são uma referência às cenas entre os protagonistas Jean-Pierre Leaud e Claude Jade, uma vez na adega na casa dos pais de Christine e outra vez num táxi, ela dentro e ele do lado de fora da janela do veículo parado. Enfim, um filme muito interessante por diversos aspectos, num Truffaut já mais amadurecido, mas sem perder a inventividade e a sinceridade passional que se tornaram suas marcas registrada desde a estreia.
Domicílio Conjugal (1970) é o ponto alto de toda a saga Antoine Doinel. Poético e prosaico em doses muito bem conjugadas, o filme é um retrato do amor (ou da arte de amar, sei lá) tal qual sobre ele se filosofava – e sobretudo se praticava – e muito – nesse final de anos 1960. Vemos Antoine e Christine casados, construindo um projeto de vida juntos num tempo em que a Europa já estava recuperada economicamente (jamais moralmente) do impacto da segunda grande guerra e a juventude, a arte engajada, os movimentos revolucionários de todas as ordens, a pílula anticoncepcional e o ácido lisérgico botavam muitas interrogações na cabeça dos que se perguntavam o que é ser um bom cidadão burguês e como constituir uma família honrada. No começo, Antoine aposta num novo negócio um tanto ousado: ele tinge flores. Faz experiências e cria expectativas de sucesso: uma metáfora sutil e profunda sobre o que é fazer cinema: transformar rejeitadas flores brancas em vibrantes flores vermelhas, vender ilusão. Enquanto isso, Christine dá aulas de violino para uma menina prodígio, cuja mãe às vezes se esquece de pagar a professora. Surge uma oportunidade para Antoine trabalhar em uma empresa multinacional norte-americana; durante a entrevista de emprego, há um quid pro quo e, como um Homer Simpson, Doinel é contratado para um emprego de sonho: ele pilota, por controle remoto, barquinhos numa maquete de um porto. Outra metáfora sobre o fazedor de cinema: lidar com réplicas, teleguiar manequins animados numa encenação de realidade alternativa. A seguir, Antoine e Christine têm um filho: ela lida com o marido de forma ríspida na noite logo após o parto e ele registra a criança com um nome que ele queria, mas que ela não aprovara: Alphonse. Mais adiante, Antoine Doinel começa a ter um caso com uma japonesa e trai Christine pela primeira vez. “Não é uma outra mulher, é um outro continente” diz Antoine. Daí em diante o filme se torna ainda melhor: um diálogo desencontrado entre ocidente e oriente, uma mensagem da amante japonesa para seu amante francês criptografada orientalmente dentro de flores por caminhos tortos denuncia o caso para Christine. Ela se veste como uma gueixa e prepara um jantar japonês para tentar se comunicar com seu marido, mas os dois percebem que diante da hipocrisia de Antoine (um mentiroso nato desde criança) e, mais do que isso, da situação banalmente burguesa e falsa em que os dois estão imersos, de um jeito ou de outro algo contaminou a relação que eles cultivaram. As cenas que então se passam não merecem ser transcritas em comentários ou críticas: há de se assistir e concluir por si próprio. Ecos desse filme/obra de arte podem se ver num outro filme do próprio Truffaut O Homem Que Amava As Mulheres (1977) e em Cenas De Um Casamento (1973) do Ingmar Bergman que, para mim, é o melhor filme que já se fez no hemisfério ocidental.
O último filme da série é Amor Em Fuga, de 1979. Filme construído sobre flashbacks que reproduzem cenas dos outros quatro, aqui se vê um Antoine divorciado de Christine (cada um sabe ser o grande amor da vida do outro) e vivendo um romance com Sabine, que trabalha numa loja de discos. Sucessivos encontros fazem o heroi avaliar o que foi o seu passado, seus relacionamentos com a mãe e com as mulheres de sua vida. Há que se divorciar de Christine depois que os dois já estavam separados de fato: saindo do fórum, ele revê Colette (lindíssima atriz Marie-France Pisier), agora uma advogada que tem um caso com o irmão de Sabine, um vendedor de livros; desde a metade de Domicílio Conjugal, Antoine escrevia um romance, na verdade suas memórias afetivas transfiguradas. Na estação de trem, quando levava seu filho Alphonse para embarcar numa excursão, Antointe Doinel vê Colette novamente em um outro trem e se joga para dentro da composição prestes a sair. Durante a viagem, os dois fazem um balanço do que foram suas vidas, seu encontro no final da adolescência, o peso das escolhas e o talento literário de Antoine. |Conhecemos um outro ponto de vista, o de Colette, que enxergava na obsessão de Doinel agradar seus pais e, de certa maneira, “forçar a barra” para ficar com ela, inclusive se mudando para um apartamento em frente a casa dos pais dela, sinais de imaturidade. Mais adiante, as três mulheres da vida de Antoine se encontram por acaso, se reconhecem e admitem que o amaram cada uma ao seu modo e no seu tempo. O outro encontro fortuito que motiva a narrativa é com o ex-amante da mãe do menino que matava aula em Os Incompreendidos e que fornece ao heroi um novo ponto de vista sobre quem era a sua mãe: vemos uma mulher sobrecarregada pela tripla jornada de mãe, mulher da casa, trabalhadora de escritório, oprimida por um meio social limitado, que não permitia que ela desse plena vazão aos seus desejos. O ex-amante interroga Antoine sobre o motivo de ele não ter ido ao enterro da mãe e ficamos sabendo que ele não fora pois estava preso na época do exército, no começo de Beijos Roubados. Antoine sequer sabia onde a mãe estava enterrada e, então, ele e o ex-amante vão ao túmulo da mãe no cemitério. O último capítulo da saga de Antoine Doinel busca juntar as pontas de sua trajetória e vemos um movimento exatamente inverso àquele de Os Incompreendidos: se nesse filme o jovem Antoine está sempre fugindo de alguma coisa que o oprime, em Amor em Fuga trata-se de acertar as contas com o passado e buscar dar algum sentido de unidade à vida de um protagonista que sempre esteve mudando, seja de mulher, de casa ou de emprego - mas que até o fim guardou a essência do menino rebelde.
Ao final, ainda nos questionamos sobre o que aconteceria depois, afinal no último capítulo o personagem ainda tem só trinta e cinco anos. Truffaut morreu uns poucos anos depois de filmar o Amor Em Fuga e nunca rodou um filme sobre a velhice ou a maturidade. Talvez porque sejam justamente o ímpeto e a chama da juventude e seu espírito sempre contestador que animaram a vida do diretor e de sua geração. De qualquer maneira, os cinco filmes são bem amarrados e constituem uma narrativa completa em si mesma (ainda que por vezes fragmentária e descontínua), à maneira de Em Busca Do Tempo Perdido. Em resumo: do diálogo quádruplo entre diretor, ator, personagem e espectador, esse último certamente é capaz de viver uma experiência interior regeneradora ao topar assistir aos cinco filmes na sequência em que foram feitos. Ao mesmo tempo em que tudo de fundamental já estava lá em Os Incompreendidos, acompanhar a trajetória do Antoine Doinel adulto nos faz ver sob novas perspectivas as cenas desse primeiro filme. Longe de todo determinismo sociologizante mais grosseiro, a trajetória do personagem/pária é imprevisível, poética, singular e construída/reconstruída ao longo de cada etapa do caminho. Como na vida e na grande arte.
Há um intervalo de vinte anos entre o primeiro filme – Os Incompreendidos, de 1959 – e o último – Amor em Fuga, feito em 1979 – e pode-se agrupar os títulos em duas grandes categorias: de um lado, os dois primeiros, filmados em preto e branco e que tratam da juventude do protagonista, e de outro os três últimos, em que a ação orbita ao redor da personagem Christine (Claude Jade), esposa e depois ex-mulher de Doinel. O intervalo entre essas duas datas – 1959 e 1979 – corresponde a um período de intensas transformações (para melhor) na cultura, nos movimentos sociais, na moralidade pública, no sexo, no cinema e certamente pelo menos nessa última categoria Truffaut teve a sua responsabilidade. Não só ele, evidente, afinal era um período de grandes realizadores nos dois lados do Atlântico: Godard, Rohmer, Pasolini, Antonioni, Resnais, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Bergman, Glauber, Fassbinder e por aí vai. Claro que esse é um viés ocidental de periodizar e glorificar suas próprias coisas e experiências, mas acho difícil um ser humano não tirar alguma coisa de boa se se der ao trabalho de assistir a filmografia completa de pelo menos esses poucos que eu citei.
Os Incompreendidos (1959) é o primeiro longa metragem de Truffaut, então com 27 anos de idade e que filma a história (bastante autobiográfica) de um menino parisiense no período pós-segunda guerra mundial que vai sendo sistematicamente afastado do centro (aquilo que representa tudo o que é bom e verdadeiro socialmente) em direção a margem da margem da margem. Nessa trajetória, vários personagens (eles mesmos já marginalizados cada um ao seu modo) contribuem com alguns “empurrõezinhos” providenciais: a mãe, o padrasto, o amante barra chefe da mãe, o professor, o colega de classe, o diretor da escola, o delegado, a psicóloga e todas as espécies de “assistentes sociais” típicos dessas sociedades capitalistas policialescas e totalitárias que nós conhecemos tão intimamente nos livros de Foucault. Antoine Doinel empreende sua fuga em seis movimentos. Movimento número um: ao se dar conta de que esquecera de fazer o dever de casa e meio que incentivado por um colega “má companhia”, Antoine foge da escola e mata aula. Movimento número dois: por mentir para os pais afirmando que fora a escola quando cabulara aula e por mentir ao diretor da escola afirmando que faltara porque a mãe morrera, Antoine Doinel se dá conta de que a situação na casa dos pais (mãe solteira e promíscua + padrasto) tornou-se insustentável e foge de casa. Movimento número três: readmitido na casa materna, o menino decora trechos de Balzac, os utiliza num exame de redação na escola, é acusado de plágio pelo professor, bate no colega que o conduziria à diretoria e foge da escola de vez. Quarto movimento: depois de roubar uma máquina de escrever ultra-pesada e trambolhenta do escritório do padrasto e não conseguir vendê-la para um atravessador, Antoine entra furtivamente durante a noite no escritório para devolver o objeto, mas é pego pelo segurança e preso pela polícia. Quinto movimento: após se aconselharem com as autoridades, os pais decidem internar o filho numa instituição estilo Febem (francesa, lógico) e o garoto é banido das ruas de Paris. Sexto e último movimento: no meio de uma partida de futebol, Antoine Doinel foge dessa Febem e corre em direção ao mar (que nunca d´antes vira), numa das melhores cenas (disparada) do cinema nosso ocidental. Enfim, um Rimbaud/Henry Miller/Carlitos de doze anos mestre na arte do “se virar”.
Antoine e Colette (1962) não é um longa metragem e continua a história de um ponto bastante adiante daquele em que Os Incompreendidos terminara (fato que é recorrente nos cinco filmes). Nesse filme vemos um Antoine Doinel aos vinte anos, apaixonado por música clássica, morando sozinho num quartinho minúsculo depois de sair do internato e trabalhando numa fábrica de discos de vinil. Num desses concertos ele se encanta por uma garota, Colette, e investe na sua conquista. Consegue conquistar os pais dela, mas com ela fica mais na base do platonismo. Um filme cute (sem nenhum trocadilho....).
Beijos Roubados é o filme que Truffaut rodou em 1968. Para a wikipedia francesa, trata-se de um filme sobre o tema da instabilidade e do provisório. Realmente, ficamos sabendo que Antoine estava servindo ao exército e apaixonado por uma tal de Christine. Nas forças armadas ele é preso várias vezes, considerado insubordinado e depois dispensado sem qualquer carta de recomendação. De volta a velha Paris, ele obtém a ajuda dos pais de Christine (de novo o tema dos pais da namorada) para conseguir um emprego de vigia noturno em um hotel, que não dura muito tempo. Logo após, Antoine se torna funcionário de uma agência de detetives particulares, chega a exercer a profissão com empenho e boa vontade, mas é despedido depois que o chefe descobre que ele havia transado com a esposa de um comerciante que contratara a agência para investigar sua própria vida. Os beijos roubados do título (baisers volés no original) são uma referência às cenas entre os protagonistas Jean-Pierre Leaud e Claude Jade, uma vez na adega na casa dos pais de Christine e outra vez num táxi, ela dentro e ele do lado de fora da janela do veículo parado. Enfim, um filme muito interessante por diversos aspectos, num Truffaut já mais amadurecido, mas sem perder a inventividade e a sinceridade passional que se tornaram suas marcas registrada desde a estreia.
Domicílio Conjugal (1970) é o ponto alto de toda a saga Antoine Doinel. Poético e prosaico em doses muito bem conjugadas, o filme é um retrato do amor (ou da arte de amar, sei lá) tal qual sobre ele se filosofava – e sobretudo se praticava – e muito – nesse final de anos 1960. Vemos Antoine e Christine casados, construindo um projeto de vida juntos num tempo em que a Europa já estava recuperada economicamente (jamais moralmente) do impacto da segunda grande guerra e a juventude, a arte engajada, os movimentos revolucionários de todas as ordens, a pílula anticoncepcional e o ácido lisérgico botavam muitas interrogações na cabeça dos que se perguntavam o que é ser um bom cidadão burguês e como constituir uma família honrada. No começo, Antoine aposta num novo negócio um tanto ousado: ele tinge flores. Faz experiências e cria expectativas de sucesso: uma metáfora sutil e profunda sobre o que é fazer cinema: transformar rejeitadas flores brancas em vibrantes flores vermelhas, vender ilusão. Enquanto isso, Christine dá aulas de violino para uma menina prodígio, cuja mãe às vezes se esquece de pagar a professora. Surge uma oportunidade para Antoine trabalhar em uma empresa multinacional norte-americana; durante a entrevista de emprego, há um quid pro quo e, como um Homer Simpson, Doinel é contratado para um emprego de sonho: ele pilota, por controle remoto, barquinhos numa maquete de um porto. Outra metáfora sobre o fazedor de cinema: lidar com réplicas, teleguiar manequins animados numa encenação de realidade alternativa. A seguir, Antoine e Christine têm um filho: ela lida com o marido de forma ríspida na noite logo após o parto e ele registra a criança com um nome que ele queria, mas que ela não aprovara: Alphonse. Mais adiante, Antoine Doinel começa a ter um caso com uma japonesa e trai Christine pela primeira vez. “Não é uma outra mulher, é um outro continente” diz Antoine. Daí em diante o filme se torna ainda melhor: um diálogo desencontrado entre ocidente e oriente, uma mensagem da amante japonesa para seu amante francês criptografada orientalmente dentro de flores por caminhos tortos denuncia o caso para Christine. Ela se veste como uma gueixa e prepara um jantar japonês para tentar se comunicar com seu marido, mas os dois percebem que diante da hipocrisia de Antoine (um mentiroso nato desde criança) e, mais do que isso, da situação banalmente burguesa e falsa em que os dois estão imersos, de um jeito ou de outro algo contaminou a relação que eles cultivaram. As cenas que então se passam não merecem ser transcritas em comentários ou críticas: há de se assistir e concluir por si próprio. Ecos desse filme/obra de arte podem se ver num outro filme do próprio Truffaut O Homem Que Amava As Mulheres (1977) e em Cenas De Um Casamento (1973) do Ingmar Bergman que, para mim, é o melhor filme que já se fez no hemisfério ocidental.
O último filme da série é Amor Em Fuga, de 1979. Filme construído sobre flashbacks que reproduzem cenas dos outros quatro, aqui se vê um Antoine divorciado de Christine (cada um sabe ser o grande amor da vida do outro) e vivendo um romance com Sabine, que trabalha numa loja de discos. Sucessivos encontros fazem o heroi avaliar o que foi o seu passado, seus relacionamentos com a mãe e com as mulheres de sua vida. Há que se divorciar de Christine depois que os dois já estavam separados de fato: saindo do fórum, ele revê Colette (lindíssima atriz Marie-France Pisier), agora uma advogada que tem um caso com o irmão de Sabine, um vendedor de livros; desde a metade de Domicílio Conjugal, Antoine escrevia um romance, na verdade suas memórias afetivas transfiguradas. Na estação de trem, quando levava seu filho Alphonse para embarcar numa excursão, Antointe Doinel vê Colette novamente em um outro trem e se joga para dentro da composição prestes a sair. Durante a viagem, os dois fazem um balanço do que foram suas vidas, seu encontro no final da adolescência, o peso das escolhas e o talento literário de Antoine. |Conhecemos um outro ponto de vista, o de Colette, que enxergava na obsessão de Doinel agradar seus pais e, de certa maneira, “forçar a barra” para ficar com ela, inclusive se mudando para um apartamento em frente a casa dos pais dela, sinais de imaturidade. Mais adiante, as três mulheres da vida de Antoine se encontram por acaso, se reconhecem e admitem que o amaram cada uma ao seu modo e no seu tempo. O outro encontro fortuito que motiva a narrativa é com o ex-amante da mãe do menino que matava aula em Os Incompreendidos e que fornece ao heroi um novo ponto de vista sobre quem era a sua mãe: vemos uma mulher sobrecarregada pela tripla jornada de mãe, mulher da casa, trabalhadora de escritório, oprimida por um meio social limitado, que não permitia que ela desse plena vazão aos seus desejos. O ex-amante interroga Antoine sobre o motivo de ele não ter ido ao enterro da mãe e ficamos sabendo que ele não fora pois estava preso na época do exército, no começo de Beijos Roubados. Antoine sequer sabia onde a mãe estava enterrada e, então, ele e o ex-amante vão ao túmulo da mãe no cemitério. O último capítulo da saga de Antoine Doinel busca juntar as pontas de sua trajetória e vemos um movimento exatamente inverso àquele de Os Incompreendidos: se nesse filme o jovem Antoine está sempre fugindo de alguma coisa que o oprime, em Amor em Fuga trata-se de acertar as contas com o passado e buscar dar algum sentido de unidade à vida de um protagonista que sempre esteve mudando, seja de mulher, de casa ou de emprego - mas que até o fim guardou a essência do menino rebelde.
Ao final, ainda nos questionamos sobre o que aconteceria depois, afinal no último capítulo o personagem ainda tem só trinta e cinco anos. Truffaut morreu uns poucos anos depois de filmar o Amor Em Fuga e nunca rodou um filme sobre a velhice ou a maturidade. Talvez porque sejam justamente o ímpeto e a chama da juventude e seu espírito sempre contestador que animaram a vida do diretor e de sua geração. De qualquer maneira, os cinco filmes são bem amarrados e constituem uma narrativa completa em si mesma (ainda que por vezes fragmentária e descontínua), à maneira de Em Busca Do Tempo Perdido. Em resumo: do diálogo quádruplo entre diretor, ator, personagem e espectador, esse último certamente é capaz de viver uma experiência interior regeneradora ao topar assistir aos cinco filmes na sequência em que foram feitos. Ao mesmo tempo em que tudo de fundamental já estava lá em Os Incompreendidos, acompanhar a trajetória do Antoine Doinel adulto nos faz ver sob novas perspectivas as cenas desse primeiro filme. Longe de todo determinismo sociologizante mais grosseiro, a trajetória do personagem/pária é imprevisível, poética, singular e construída/reconstruída ao longo de cada etapa do caminho. Como na vida e na grande arte.
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