Dia
desses, eu caminhava pela margem direita da avenida paulista quando
cruzei com Arthur Schopenhauer. Combinamos de tomar um chopp dali a
dois dias no bar atrás do MASP e assim aconteceu, pontualmente.
No
começo do diálogo, ele parecia um tanto incomodado pelo barulho da
avenida alguns metros acima, mas aos poucos deu a impressão de que
conseguia relaxar o ânimo. A bebida, como de costume, começou a
fazer efeito após o terceiro copo e, aos poucos, o papo evoluiu para
alguns dos seus assuntos prediletos
- Meu caro, você não estranha quando viaja para a América Latina e
se depara com toda essa desigualdade social enorme? Não te
incomoda ver tanta gente dormindo pelas ruas, pedindo esmola,
passando fome, enquanto um ou outro gato pingado se dá ao luxo de
sair por aí com segurança, carro importado e ainda fatura milhões
às custas do trabalho alheio...? – assim eu divagava, até que
ele me interrompeu bruscamente.
- Sendo muito sincero e direto com você: a mim não me incomoda nem
um pouco. Você que vive aqui, eu que vivo na Europa, os bilhões
que vivem na China... o que são? Será que existem mesmo
indivíduos soltos vagando por esse mundo louco ou tudo não passa
de um simulacro, de uma questão de ponto de vista? Quem é rico,
quem é pobre, quem acredita que é feliz, no fundo toda essa
baboseira egoísta importa muito pouco: se você se puser a
vasculhar com atenção, se tiver a paciência de enxergar através
dessas máscaras patéticas e carnavalescas que se exibem por aí e
mundo afora, no fim o que você vai concluir é que existe uma
única e mesma coisa nesta vida: dor e sofrimento
- Ok, concordo que esse mundo definitivamente não é nenhum
comercial de margarina e que de perto ninguém é muito feliz nem
realizado. Mas cá entre nós, faz uma baita diferença curtir essa
dor e esse sofrimento todos a bordo de um iate que navega pelas
ilhas gregas do que parado numa fila de hospital público com um
bando de criança berrando sem parar do teu lado e uma velha
escarrando sangue na sua frente
- Como eu disse, isso é um defeito do seu ponto de vista, sempre
querendo avaliar as coisas do mundo a partir dessa perspectiva do
indivíduo isolado. Repito: não existe e nem nunca existiu algo
como um indivíduo isolado, solto, completo por si mesmo. Pare um
instante de beber e olhe com atenção ao redor de onde estamos. O
que você vê ali embaixo?
Nisso eu me levantei da cadeira e andei alguns passos para
ter um panorama mais completo da paisagem. No primeiro plano,
eu notei que havia árvores de uma certa idade e com folhas
miúdas, um tanto sujas de fuligem e amareladas pela poluição.
Um pouco mais ao longe, passava uma rua relativamente
tranquila e, mais além ainda, eu podia ver um grande vale,
por onde corria a avenida nove de julho. Era um cenário amplo
e bonito sim, raro de se ver numa cidade como São Paulo,
porque apesar de todos os prédios, a vista podia alcançar
longe longe, até se perder na linha do horizonte. Já bem lá
no fundo da paisagem, eu consegui adivinhar até os contornos
da serra da cantareira, muito embora uma névoa indefinida
misturasse sua silhueta com o céu, este também enevoado e
sujo, como sempre costuma ser nesta cidade cinza. Pela avenida
nove de julho passavam ônibus, carros, motos e alguns
pedestres iam de um lado para o outro, saíam e entravam de
prédios ou mesmo dobravam a esquina e sumiam.
- Arthur, eu vejo muitas coisas... uma paisagem urbana de rara beleza,
um ou outro elemento de natureza, como árvores e o céu, muitos
veículos, edifícios de concreto e algumas pessoas caminhando de lá
pra cá.
- Bem, digamos que já é bom um começo. Com quinze anos de
treinamento diário intensivo e exaustivo, talvez algum dia você
venha a ser realmente um artista – ele fez troça e eu também ri.
- Onde exatamente você quer chegar?
- Meu amigo, vou contar a coisa em partes para ver se você consegue
me acompanhar. Digamos que o primeiro passo é você se desfazer
desse olhar que quer separar uma coisa da outra, que quer marcar
limite em tudo, que quer transformar cada pedaço da paisagem em
palavras com que você pretende me comunicar de maneira fiel tudo o
que vê, pensa e acredita. Abstraia os nomes, as cores, as coisas e
simplesmente... olhe a paisagem. A paisagem como se ela fosse uma
coisa só.
- Sinto que preciso de mais uma cerveja para atingir um tal estado de
espírito elevado, meu caro...
Assim eu falei e logo chamei o garçom. Bebi
meio copo de um gole só, fechei bem os olhos e depois os
abri bem devagar. Tentei não pensar em nada, com aquele
olhar vesgo que desfoca o que está perto e faz as cores e
linhas se misturarem umas com as outras. Mas eu senti que
ainda não era bem isso o que ele queria.
- Está vendo agora? Enxergou o que eu te falei, essa paisagem única
escondida por detrás dessas muitas coisas que você se preocupou
tanto em me enumerar da primeira vez?
- Sim, sim, no meio desse borrão vejo que tudo o que eu vejo é um
grande quadro, uma mesma coisa... só, como você diz.
- Ótimo. Já é um bom começo. Agora, alguma vez você já se
perguntou porque a nossa linguagem humana faz questão de juntar
muitas coisas que a gente vê em uma palavra só e, ao mesmo tempo,
separar em palavras diferentes coisas que no fundo são iguais? Por
exemplo, quando você me falou em árvore, estava se referindo a
esses três ou quatro objetos que estão ali defronte ao terraço do
bar. Agora, por que você falou só árvore e não João, José e
Maria? Ou pedra, papel e tesoura?
- Sinceramente, nunca tinha pensado nisso não. Pra mim, se a palavra
árvore existe, é porque ela dá conta de me fazer imaginar um tipo
de objeto muito bem definido, com tronco, galho e folha. Aliás, se
você for observar com mais detalhe, vai descobrir que a ciência dá
sim nomes diferentes para as árvores que são diferentes. E a
linguagem popular também... Essa é uma laranjeira, aquela ali um
eucalipto, uma outra lá longe é um olmo, enfim, existe sim um nome
para cada árvore, eu é que não conheço todos e chamo tudo só de
árvore mesmo por pura ignorância.
- Não, a coisa não é bem por aí. A ciência também faz a mesma
coisa que eu acusei a linguagem humana de fazer. Esqueça isso de
que existe um nome para cada árvore. Afinal quantos são os
eucaliptos que existem só neste país? Milhões, bilhões talvez,
sei lá. E mesmo o cara com pós-doutorado em botânica chama a
todas elas simplesmente de eucalipto ou, no máximo, de algum nome
pomposo qualquer em latim que serve para designar essa tal espécie.
- Certo, concordo. Mas que utilidade prática haveria em inventar uma
palavra nova pra cada eucalipto que existe no mundo? E quem seria
capaz de processar e absorver tanta informação de uma só vez sem
recorrer a dicionários com um tamanho infinito?
- Aí é que está. Embora eu e você saibamos que existem bilhões de
eucaliptos diferentes, individuais e únicos, concordamos que é
muito mais fácil chamá-los a todos pelo mesmo nome. E por quê?
Porque cada indivíduo, cada árvore isolada, nada mais é do que a
manifestação de uma ideia, é um exemplar reproduzido da ideia de
árvore. E o mesmo vale para tudo que existe na natureza, nisso eu e
você com certeza entraremos em acordo já já.
- Mas será assim mesmo, Arthur? Não será o contrário? Não é pelo
fato dos cientistas identificarem semelhanças e características em
comum a toda uma série de árvores individuais que eles criam uma
espécie nova e lhe dão um nome diferente?
- Se assim fosse, meu amigo, o mundo teria de ter esperado a invenção
dos cientistas para só depois começar a inventar as linguagens e
os nomes.
- Tá, que não sejam cientistas então, mas seus antepassados,
pessoas comuns, camponeses, filósofos...
- Só piorou.
- Como assim?
- Veja. O que você chama de semelhanças e características comuns?
- Bom... pra mim esses conceitos são intuitivos. Se eu, por exemplo,
vejo uma folha de uma determinada árvore, eu posso muito bem medir
o tamanho dela, determinar mais ou menos o seu formato e cor ou,
senão, ver em que quantidade e de que maneira as folhas se agrupam
em cada galho, tirar uma média...
- Certo. E o que mais?
- Com esse tipo de informação eu poderia fazer um desenho, ou tirar
uma fotografia ou até escrever um relatório para depois mandar
para a sociedade de botânica, perguntando se se trata de uma
espécie nova ou de alguma outra que já tenha sido descoberta
antes.
- E o que você acha que esses membros da sociedade de botânica vão
fazer para conseguir chegar numa conclusão a esse respeito?
- Bom, com certeza eles vão se valer dos desenhos e fotos para
comparar com todos os registros que existam por lá ou na internet.
Se acharem alguma coisa parecida, vão dizer que é uma espécie
velha. Se não acharem nada, provavelmente vão entrar em contato
com alguma outra sociedade de botânica, perguntar pra cientistas de
outros países talvez até e, no fim, depois de alguma polêmica e
burocracia, vão dizer que é uma espécie nova e me darão
inclusive a oportunidade de batizá-la como eu bem entender.
- Ótimo. Logo você terá glória e reconhecimento por toda
posteridade, uma salva de palmas e um prêmio nobel... – dessa vez
eu não achei a piadinha tão engraçada assim.
- Não fuja do assunto, Arthur. Já tínhamos concordado que não são
sempre os cientistas que criam as palavras novas pras coisas novas.
- Não concordamos não. Você é que está afirmando que palavras
novas são inventadas para dar nome a coisas novas. Mas eu vejo isso
de um ponto de vista totalmente diferente do seu. O que a palavra
nomeia não é a coisa, não é o fenômeno, não é a manifestação,
não é uma simples soma de indivíduos com características em
comum, como você muito bem descreveu.
- O que é que uma palavra nova nomeia então?
- Uma palavra nomeia uma ideia.
- Me explica isso, juro que não consigo entender o ponto, tô te
achando muito abstrato.
- Você olha para o mundo e vê coisas diferentes, múltiplas,
infinitas. Eu fecho os olhos e vejo que essas diferenças são coisa
sem importância, são mera ilusão. Acessando mentalmente a ideia
de árvore, dou conta de entender não só todas as árvores que
existem no mundo agora, por mais diferentes que sejam seus nomes e
suas formas, como também posso saber o que são todas as árvores
que já existiram no passado e foram extintas e até as árvores que
possam a vir a existir algum dia neste ou em outro planeta,
inventadas, imaginárias ou não.
- E como é que eu, pobre mortal, posso me igualar a você, nobre
filósofo, e acessar mentalmente essas tais ideias?
- A rigor, você não pode e eu também não posso.
- ???
- Ouça: eu e você somos dotados de sentidos e de razão. Os limites
da minha e da sua razão são os limites dos seus e dos meus
sentidos: em outras palavras, o princípio de razão está sempre
limitado por categorias e modos de operar que são o que chamamos de
sentidos. Assim é a noção de tempo, é a noção de espaço e a
noção de causa e efeito. Essas noções não existem soltas,
anteriores ao sujeito e ao ato de conhecer; elas são como são
porque nós somos humanos e temos esses sentidos que temos: visão,
audição, paladar, olfato e tato. Claro que além disso temos
também memória e a capacidade de antecipar certos acontecimentos,
donde formamos essas categorias que chamamos tempo e causalidade.
- Até aí entendi.
- Certo. E o que são as ideias? Nada mais do que formas,
potencialidades, relações. Elas existem antes e acima de qualquer
princípio de razão, de toda e qualquer experiência que
apreendemos pelos sentidos. Pelo caminho da ciência, dificilmente
chegaremos perto delas... Como já falei antes, o método da ciência
pretende chegar a alguma generalização a partir da soma dos muitos
casos particulares, das semelhanças, das comparações. Mas se você
se recordar bem, agora há pouco eu disse que as ideias não contêm
só todos os exemplares de um fenômeno que existem agora, neste
minuto, mas compreendem também tudo o que esses fenômenos já
foram e tudo aquilo que eles poderiam vir a ser.
- Me lembro perfeitamente, Arthur. Mas vá devagar com seus conceitos
abstratos, porque está ficando difícil de acompanhar o que você
está querendo dizer exatamente. Se não é a ciência que vai nos
levar até o conhecimento da ideia, como você disse, então como é
que podemos encontrá-las? Elas já nascem com a gente por acaso?
Quando terminei de fazer essa pergunta, o
Schopenhauer deu um longo suspiro reprovativo, sorveu um golão
de chopp e olhou na direção do museu. Com um certo cinismo no
olhar e no sorriso, apontou o prédio com o dedo e me disse:
- Óbvio que as ideias não nascem com a gente. A ciência mais
atrapalha do que ajuda, é certo... mas tem uma coisa que faz o
caminho para chegar até elas muito mais curto.
- O que é? Inspiração divina, religião?
- Claro que não, seu crédulo ingênuo. É da arte que eu estou
falando, se liga.
- Da arte?
- É, da arte.
- Mas o que arte tem a ver com ideias? Até onde eu sei, a arte é uma
cópia das coisas bonitas e feias que existem no mundo ou, no
máximo, a expressão de algum sentimento que o artista tenha e que
queira mostrar pra todo o mundo.
- Bobagens e mais bobagens. Se eu tô falando aqui de arte, eu estou
falando da grande arte, dos grandes mestres, das grandes obras da
humanidade em todos os tempos.
- E...?
- E, que a grande arte é algo capaz de fazer você, nem que seja por
alguns instantes, se esquecer de quem você é, de onde você está,
daquilo que você pensa e acha sobre tudo o que existe na Terra. Ela
te desconecta do mundo. Se você já teve a oportunidade de se
postar diante do quadro de um grande mestre ou de escutar uma
sinfonia perfeitamente executada, vai saber sobre o que eu falo.
- Certo, compreendo bem essa sensação... É o que faz a magia do
teatro e do cinema e dos livros...
- Também. Mas por que a arte de verdade tem justamente esse efeito
sobre as pessoas?
- Porque imitam a vida com perfeição?
- Bem que poderia ser, mas não é. O lance é que a arte é capaz de
transformar aquilo que é particular, individual, único em alguma
coisa que é geral, coletiva e eterna.
- Mas ela faz isso copiando o que existe no mundo, concorda?
- Até certo ponto concordo, óbvio, mas o essencial da coisa não
está aí. Está no que o artista, mesmo antes de escolher a modelo
que ele vai retratar num determinado quadro, já foi capaz de intuir
alguma coisa da ideia de mulher, nesse exemplo que eu escolhi, e
utiliza essa modelo específica e individual para pintar em cima e
através dela alguma parte dessa ideia geral e universal que esteve
desde o começo dentro dele.
- E nisso a arte é sempre superior à ciência?
- Sim, sem dúvida. A ciência se contradiz, se reforma, se altera,
mas a arte é o que permanece quando toda uma civilização já
morreu e nem do seu nome ninguém mais se recorda.
- Muito profundo o que você está dizendo. Contraria quase tudo o que
eu pensava sobre artistas... sempre tão vaidosos, fúteis, apegados
ao luxo...
- Nem todos que dizem fazer arte são artistas mesmo, reflita um
pouco. E dos artistas de verdade, em um século ou em um milênio
quiçá, você vai encontrar no máximo um ou dois que mereçam
realmente o nome de gênios, antenas da raça, seres supremos.
- Pois bem. Assim, segundo você, se eu me puser a ler todos os
grandes clássicos, visitar todos os maiores e principais museus, se
escutar as melhores orquestras executando as mais sublimes
sinfonias, no final eu descobrirei o que são as ideias e serei um
ser humano melhor e superior?
- Pior do que é agora, acho que com certeza você não ficará...!
Mas não confunda. Arte não é uma questão de você acumular um
somatório de experiências individuais para chegar a uma conclusão
geral. Isso é ciência. Na arte, muitas vezes o menos é mais,
então de repente permanecer anos e anos admirando uma só e única
escultura pode te fazer muito mais sábio do que viajar o mundo e
visitar centenas de museus, parando toda vez uns poucos minutos ou
segundos diante de cada quadro.
- Saquei.
- Mas mesmo fazendo a apologia da grande arte e do gênio ainda não
chegamos nem perto de entender a essência última do mundo... muito
embora a contemplação dessas obras monumentais seja já um
primeiro passo mais do que fundamental.
- O que mais existe além de ideias e fenômenos e manifestações
dessas ideias?
- Existir é uma palavra muito perigosa. São várias e contraditórias
as maneiras de se existir... Mas de uma coisa eu estou desde sempre
certo: tudo o que você é capaz de alcançar com os sentidos e com
a sua razão individual não passa de mera ilusão. É o tal do
mundo como representação.
- Mas tudo, tudo? Até eu e você conversando aqui e essa mesa e o céu
e as estrelas?
- Claro que sim. Sobre mesas, o princípio é o mesmo do que eu
descrevi para as árvores. Existe uma ideia de mesa e uma ideia de
árvore e ambas preexistem e estão acima de qualquer manifestação
concreta de mesas e árvores.
- Compreendo. E eu e você?
- Aí é que está. Por um lado, enquanto seres concretos, sensíveis,
com rosto, alma, personalidade, RG, CPF, residência fixa,
antecedentes criminais, enfim, como cidadãos, homens e mulheres ou
indivíduos únicos, nós também somos a representação da ideia
de pessoa humana.
- E será que existe algum outro lado num ser humano?
- Num ser humano específico não. O ser humano individual, de carne e
osso, é pura e simplesmente representação da ideia.
- Juro que não entendi bulhufas.
- Me escuta bem: lembra do início do nosso papo, quando eu te falei
que essa noção de que a sociedade humana é o somatório de seis
ou sete bilhões de indivíduos isolados e soltos era uma falácia,
não passava de uma ilusão?
- Lembro sim. Mas qual a relação disso com o que você me falou
agora?
- Simples: enquanto humanidade, enquanto coletividade e totalidade,
nós não somos só mera representação de uma ideia de homem e
mulher, nós somos a manifestação de uma vontade, de um querer.
- Vontade de quem? De deus?
- Você tá que tá com esse deus hoje, hein?
- É o hábito...
- Péssimo hábito, por sinal. Mas é óbvio que não é a vontade de
deus nenhum. A vontade é o princípio universal, é uma força
transcendente, se você assim preferir.
- Mas o que eu e todo mundo que mora na minha rua entende por vontade
não tem nada que ver com princípios universais. Vontade pra mim é
algo como uma fome que pinta de repente, o tesão que eu sinto
quando vejo uma garota passar e me leva a imaginar coisas
pervertidas, pode ser, talvez, de alguma forma, uma coisa que vem de
dentro de mim e me faz escolher: hoje eu quero sorvete de baunilha,
amanhã sorvete de morango.
- Muito bonito, mas não é sobre nada disso que eu estou falando. A
vontade transcendental não é aquilo que fulano ou sicrano deseja
ou gosta ou pensa. Ela nem cabe em linguagem humana e nem diz
respeito a esse ou aquele indivíduo. A vontade é uma coisa só,
eterna, universal, além de tudo o que existe no mundo que possa ser
absorvido pelos nossos sentidos de ser humano e que possa ser
compreendido pela nossa razão limitada de ser humano.
- E qual a relação dessa vontade com a ideia de humanidade enquanto
ser coletivo e que engloba todas as pessoas do mundo?
- Por que você acha que o ser humano existe desde dez mil anos atrás
até hoje, meu caro?
- Bom, porque como todo bom animal, o ser humano faz sexo e se
reproduz e, com isso, uma geração sucede a outra sempre.
- Tá, mas além disso você também não concorda que procriar é uma
coisa que se faz uma ou outra vez ao longo da vida e que nos
intervalos a gente tem que se alimentar, dormir, respirar e buscar a
cura pras nossas doenças?
- Sim, faz todo o sentido.
- Muito bem. Então para que a humanidade exista enquanto humanidade,
não interessa muito se um ou outro indivíduo morre na hora do
parto, se um ou outro indivíduo morre de fome ou de doença antes
da idade de casar e ter filhos, se um ou outro indivíduo escolhe
ser homossexual ou padre e abre mão de procriar.
- Certo. De um ponto de vista da espécie, bem que podemos descartar
todos esses aí e continuarmos existindo ainda, no fundo é assim
mesmo que acontece.
- Esse ponto é muito importante. Preste atenção. Para o que você
chama de espécie humana – e que eu prefiro chamar de manifestação
da vontade – o indivíduo em si não vale nada, absolutamente
porra nenhuma mesmo. O que conta é que pelo menos uma parte das
pessoas que vivem escolha comer, tratar suas doenças, viver muitos
anos e ter filhinhos fofos. Mas não todos e nem muitos nem
demais... porque senão a comida acaba, os filhos morrem e tudo
acaba indo pro saco do mesmo jeito. De modo que a morte de muitos
indivíduos pode ser tão importante para a manutenção da espécie
quanto a própria reprodução sexual.
- Ok, pode ser.
- Pode ser não, é! Como é que você me explica uma guerra, uma
epidemia, uma grande fome ou cerimônias de sacrifício humano se
não for nesses termos?
- Tá bom. Digamos que nesse ponto eu concorde mais uma vez com você.
Então, pra você, a vontade é a soma do desejo sexual, com a
vontade de comer, com a necessidade de não ficar doente, de um
lado, e com a morte e a abstinência de uma minoria do outro?
- Se assim fosse, seria um conceito filosófico não só ridículo
como inútil. Mas, pra simplificar, digamos que é assim que a
vontade aparece para os indivíduos isolados que habitam o mundo da
representação.
- Ah... Arthur, desculpa ser chato, o papo está ótimo. Mas minha
esposa já deve estar um tanto preocupada, achando que eu estou por
aí a fornicar.
- Tudo bem, meu amigo. Vamos com calma, numa outra oportunidade
continuamos a desbravar esses caminhos tortuosos da filosofia.
- Mas antes me conta: não te dói nem um pouco o coração ser tão
indiferente pelos pobres e miseráveis, que no fim sofrem muito mais
do que a gente tá sofrendo aqui neste bar?
- Não. Primeiro porque eles não sofrem mais do que ninguém porque
eles, como eu e você, não existimos enquanto realidade palpável e
verdadeira, mas existem como representação e só e nada mais. Tudo
o que existe como realidade verdadeira é a humanidade inteira e,
nesse sentido, se um indivíduo isolado sofre mais do que o outro,
não é o indivíduo isolado que está sofrendo, mas sim a
humanidade inteira ao mesmo tempo. No fim, como eu já te repeti
tantas vezes, o indivíduo é uma mentira conveniente, que foi
inventada para matar o tédio e dar uma desculpa razoável para que
tudo continue para sempre a ser aquilo que era na semana passada.
- Muito bem então. Amei esse papo. Você é o cara, Arthur!
- Disponha.
E
nisso eu pedi a conta, paguei e fui embora.