literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
terça-feira, novembro 21, 2006
Vermelho, Amarelo e Preto
As altas labaredas que consumiam as parcas ruínas de cimento e concreto já podiam ser vistas do outro lado do pico do Jaraguá. Antenas de TV liqüefeitas e retorcidas não eram mais capazes de transmitir ao vivo as imagens que vinham desde os helicópteros, que ora apareciam, ora se ocultavam por entre as grossas colunas de fumaça preta. O ar era espesso, tinha cheiro de gasolina e corroía a pele das crianças que tentavam pedir socorro desde as janelas dos hospitais. Ninguém ouvia ninguém: gritos, gemidos e urros cruzavam as avenidas desde a periferia até o centro e se engarrafavam aos milhões também no sentido contrário. Os mendigos olhavam para o céu e profetizavam apocalipses sem abundância nem perdão. O riacho do Anhangabaú emergiu furioso; o Tietê ardia maior que a Marginal em chamas, rios de fogo e de sujeira fediam a enxofre. Poucas pessoas em São Paulo lembravam de Dresden, Nagasaki e da década de 1940, porém o noticiário internacional não se cansava de repetir essas metáforas. Corpos explodiam mutilados. Barrancos cediam, imensas crateras fendiam o asfalto, arranha-céus tombavam mais depressa do que certos barracos de favela. Sirenes tocavam em postos da defesa civil, do corpo de bombeiros e em agências bancárias. Três ex-presidentes encontravam-se incomunicáveis e os telefones que suplicavam um DDD para Brasília eram brinquedos inúteis. Uma árvore resistia impávida na parte de trás do museu do Ipiranga. Um jardim de trepadeiras, árvores frutíferas e arbustos floridos resistiu milagrosamente no quintal de uma residência na zona leste. Três horas depois, a Casa Branca negou a possibilidade de tratar-se de um atentado terrorista. Dois aviões comerciais perderam o contato visual com a torre de Congonhas e caíram nas imediações de Moema. A Casa Branca voltou atrás e o porta-voz disse que só iria se pronunciar novamente após uma investigação mais detalhada da CIA e do Pentágono. A última medida provisória assinada pelo governador do Estado transferia a sede do poder executivo para Barueri, porém não houve tempo hábil para publicá-la no Diário Oficial. A ONU já falava em 23 milhões de mortos, poucos feridos sobreviveriam sem energia elétrica, alimentos, água encanada e os estoques de remédio foram saqueados. A OTAN, em reunião extraordinária, decidiu mandar toda sua frota naval para a região, porém o porto de Santos não comportava o desembarque de tantos navios ao mesmo tempo. Alguns desembarcaram em São Sebastião e outros só no Rio de Janeiro. Segundo fontes das Forças Armadas Brasileiras, 144 mil militares morreram durante as primeiras tentativas de salvamento, mas esse número ainda não era oficial. A CNN enviou uma equipe de reportagem ao local, mas as informações ainda eram desencontradas e fragmentárias. Uma comunidade em Guaianazes parecia obter sucesso no combate aos focos de incêndio. Ninguém viu, mas uma flor nasceu no terreno preto e carbonizado onde antes era o edifício do Banespa.
sexta-feira, novembro 17, 2006
sábado, outubro 21, 2006
sem título
Um dia eu saí de casa
e lá fora tinha uma mulher
me agarrei nas pernas dela
e decidi que não ia mais soltar.
Até que bateu a fome.
Mas por sorte, bem diante
tinha um simpático restaurante
que parecia ser chinês.
De lá fomos direto para o aeroporto
despachamos a bagagem
e nos mandamos sem nem falar tchau.
Conhecemos todas as nações com as quais o Brasil mantem relações diplomáticas.
Na volta, eu e ela costuramos os umbigos
e decidimos nunca mais desgrudar.
e lá fora tinha uma mulher
me agarrei nas pernas dela
e decidi que não ia mais soltar.
Até que bateu a fome.
Mas por sorte, bem diante
tinha um simpático restaurante
que parecia ser chinês.
De lá fomos direto para o aeroporto
despachamos a bagagem
e nos mandamos sem nem falar tchau.
Conhecemos todas as nações com as quais o Brasil mantem relações diplomáticas.
Na volta, eu e ela costuramos os umbigos
e decidimos nunca mais desgrudar.
quarta-feira, outubro 11, 2006
um Não ao amor
De manhã sou tom pastel. Convido passarinhos pro rolê, chacoalho aeronaves barulhentas e me sinto maior do que qualquer telão armado na praça em dia de jogo da seleção. Mudo de cor em cor e a melodia faz-me lembrar que o tom foi muito mais que a bossa-nova. Mais tarde fumo cigarros e corro pra feira em busca do sacro pastel de palmito pingando óleo. Meu café da manhã ao meio-dia. A fumaça na tela ouvi dizer que é carvão e automóvel. Mas eu sou mais pintura à óleo, adoro arrebentar as molduras com os dentes e me esparramar pelas paisagens mais líquidas do que qualquer débil imaginação é capaz de rascunhar. Um som pra essas horas: temple of love e os sisters of mercy. Tem dias que eu também acordo uma sister, de maquiagem roxa borrada na cara e a testa franzida de ressaca e culpa. Sou pau e sou buceta e se você me encontrar no busão e quiser vir me olhar de atravessado digo-lhe logo um foda-se e te cuspo porra na cara. Também sei chover. Pra foder a vida dos pobres formiguinhas que fogem que nem baratas alucinógenas pra debaixo da marquise. E quando tô com raiva de verdade os ratos bóiam pra fora dos bueiros. Louvo o caos: louros aos cais. Sou branco e sou preto e colorido inclusive de cinzas. Sim, assumo que já nadei num cinzeiro sujo e fui um golfinho americano a fazer passos de ballet num grande copo de cerveja meio quente e sem colarinho. Odeio canções de amor e poetas contemplativos, acredito na subversão e na inevitabilidade iminente da oitava leva da revolu. São do signo de libra as melhores e as piores almas a arder nas chamas crepitantes da estação paraíso do metrô. Além de mim, vejo Alices e diamantes.
quinta-feira, outubro 05, 2006
um terceiro dia de outubro
O ambiente do bar como um todo é que era um palco. De fora era um restaurante. De dentro possuía: plantas de mentira, teto de vidro, detalhes em madeira e bambu e um banheiro que era completamente nojento. E ainda ficava meio que debaixo de uma escada e a privada era daquelas antigas, com uma caixa de plástico pendurada na parede e aquela tradicional cordinha pra você puxar ao dar a descarga. Mas esse palco também tinha um cenário, que até que era organizado – cadeiras e mesas estrategicamente dispostas, um balcão (idéia de um arquiteto) que usava fundos de garrafa de vidro de cores diferentes encravadas no meio de cimento, mas que não funcionava muito bem; havia um espelho grande, as manjadas cortinas, um ou outro sofá e os cinzeiros de motel e os copos de --->>> cerveja, vinho, tequila, catuaba, caipirinha, whisky, guaraná schincariol, água com gás, absinto, cheios e vazios, alternadamente. A iluminação era de primeira: spots potentes de várias cores, principalmente vermelho, que era uma exigência do músico e tinha a ver com o contexto do show que ele ia fazer. Os personagens eram as pessoas mais incríveis do mundo.
terça-feira, setembro 19, 2006
Auto-ajuda para nadadoras iniciantes
Braçada e pernarda: levanta o tronco e respira. Bate o pé, faz o movimento do braço até o fim, toma bastante impulso quando for bater na parede. A mão tem que ficar como uma conchinha. Agora mergulha e abre os olhos, raspa a barriga no azulejo lá do fundo e faz que nem um sapinho.
Já aprendeu.
Já aprendeu.
segunda-feira, agosto 28, 2006
F....
Na praça onde a gente foi hoje
a grama era de cimento
e você bem que reclamou antes da gente chegar
que lá não tinha árvore
mas mesmo assim sentamos no chão
(seus beijos e as palavras inesquecíveis)
e de repente tinha um monte de crianças em volta.
Nos sentimos menino e menina na hora do recreio
e a tarde a presença minha e sua eram coisas tão perfeitas
que as crianças seguiam a gente por onde a gente ia
os pássaros voavam de propósito
e me bateu uma vontade incontrolável de ficar com você pra sempre.
a grama era de cimento
e você bem que reclamou antes da gente chegar
que lá não tinha árvore
mas mesmo assim sentamos no chão
(seus beijos e as palavras inesquecíveis)
e de repente tinha um monte de crianças em volta.
Nos sentimos menino e menina na hora do recreio
e a tarde a presença minha e sua eram coisas tão perfeitas
que as crianças seguiam a gente por onde a gente ia
os pássaros voavam de propósito
e me bateu uma vontade incontrolável de ficar com você pra sempre.
sexta-feira, agosto 11, 2006
6H54 - 11 - A Força
17H00 - diante do olhar perdido
blocos de rocha bloqueiam o horizonte
mas ele alega que enxergou
mais além que o oceano.
14H37 - saúde mental em perigo
sujeito corroído, corrompido e contaminado
invisto 25 centavos na cura do câncer infantil
ou ponho um som pra tocar na jukebox da sinuca?
3H22 - O sinal telegráfico me anuncia que ela virá.
blocos de rocha bloqueiam o horizonte
mas ele alega que enxergou
mais além que o oceano.
14H37 - saúde mental em perigo
sujeito corroído, corrompido e contaminado
invisto 25 centavos na cura do câncer infantil
ou ponho um som pra tocar na jukebox da sinuca?
3H22 - O sinal telegráfico me anuncia que ela virá.
segunda-feira, julho 10, 2006
Nunca Um Dia Nasceu Tão Belo Em São Paulo
A conclusão é que temos cara de mau. Expulsos do bar, barrados na festa, excluídos do fuzuê da high-society, só o que nos restava mesmo era aquele mesmo abrigo entre os jovens bêbados num cômodo enfumaçado, em pé e sem direito a sentar, naquele velho imóvel com leâo-de-chácara à porta na Rua Augusta. Mas nem assim nada nos desgusta ou desgosta: na minha língua de atleta somente o gosto da sua suave boca, que é a mesma e é a outra, misturadas entre o vão e a parede. Dessa vez D.J. acertou ao mandar uma sequência eletronificada para bem viajar: estávamos e não estávamos, ali e mais além, eu não sou eu nem sou o outro. Sherazade e água-viva, corpo com corpo em ritual de transfusão almada, viagem acelarada ao ritmo insano do desejo. Era chão e era parede, espuma anti-ruído escorando as costas tuas, perdidas as leis da gravidez e embaralhadas as oito dimensões do espaço. Que nesse espaço entre os inertes passos de mim rumo ao centro já nem tão intangível de você liquidificava tudo na penumbra, vez ou outra fugazmente iluminada pela chama de algum isqueiro aceso pelos zumbis que celebravam em volta alguma coreografia que talvez lembrasse thriller e Michael Jackson. Beijo sem fim. Vagando em grude seu até as cinco da manhã, quando finalmente os mortos embalsamados de cachaça despertaram de seus sofás-tumbas e rumaram em bando incerto até a fila do caixa para pagar suas comandas, o singelo óbulo de Caronte. Naquela altura o sofá parecia uma piscina neón e cristalina, maciez necessária aos corpos que lutaram tanto e que então já podiam se encaixar com perfeita comodidade, como um herói no colo da mãe ao retornar de Tróia. Não fossem os últimos remanescentes das gangues barra-pesada que circulam pelo centro ali em volta da gente (ameaçando atirar pelo ar cadeiras, garrafas, pedaços de madeira, dentes de animais selvagens ou o que mais estivesse ao alcance de sua fúria animal) e tudo seria silêncio com ruídos de beijos. A sobriedade me permitia enxergar o reverso sombrio desses espécimes juvenis em tudo iguais ao mim de outrora. Mas ali eu tinha um escudo, um porto e a minha salvação: amor de menina crescida. Boca, bochecha e o resto de um corpo que eu podia vestir como se fosse o meu. Os últimos cocainômanos atenderam ao chamado do galo e também rumaram para esse sótão onírico às seis horas da manhâ: era hora da gente partir. Dessa vez sem café-da-mahã, muito melhor levar na boca o seu gosto, F. E o dia nasceu de sol azul, feliz por causa da gente. O mundo inteiro acordou sem inveja enquanto, cheio de poesia, eu adormecia outra vez pensando na maravilha que é compartilhar pedações da minha vida com, para e por você. Nasceu paixão, de parto normal, três quilos e quatrocentas gramas e uma vontade irresistível de morrer e renascer a cada minuto em seu ventre esplêndido, oh flor das madrugadas. Aventuras assim, dessas que só acontecem comigo e com você, F.
quinta-feira, julho 06, 2006
uma casa muito engraçada
“Você sempre surge em minha mente
Sempre você e ninguém mais”
- Wander Wildner
Vamos inventar um lugar. Feito de música, de cor, de fumaça cheirosa, de parede pintada, de almofada no chão, de tapete felpudo pra gente rolar em cima. Um lugar cheio de amigos, eletricidade pingando das tomadas, espelhos antigos, flores escuras e narcisos. Onde se possa simplesmente pegar um livro qualquer na estante de mármore e começar a recitar uma poesia pornográfica pela janela como quem estoura um rojão em dia de jogo do Brasil. Um lugar cheio de gatos vira-latas. Com vizinhos libertários e a rua Augusta passando no meio da sala. Que o chão seja de areia, mas que essa areia venha dos cinco continentes e se misture com a água do mar que na maré cheia encharca o batente da porta. Uma casa com uma televisão quebrada: Buda e Krishna convivendo lado a lado em cima da geladeira. A ordem de cada dia será: amor amor amor. Ninfas e faunos fazem mitologia ao vivo sobre a cama. Dionisio: nosso dj particular e jardineiro do absoluto. E que a casa seja um mundo, seja um templo, seja de planta e aberta para quase todo mundo.
Sempre você e ninguém mais”
- Wander Wildner
Vamos inventar um lugar. Feito de música, de cor, de fumaça cheirosa, de parede pintada, de almofada no chão, de tapete felpudo pra gente rolar em cima. Um lugar cheio de amigos, eletricidade pingando das tomadas, espelhos antigos, flores escuras e narcisos. Onde se possa simplesmente pegar um livro qualquer na estante de mármore e começar a recitar uma poesia pornográfica pela janela como quem estoura um rojão em dia de jogo do Brasil. Um lugar cheio de gatos vira-latas. Com vizinhos libertários e a rua Augusta passando no meio da sala. Que o chão seja de areia, mas que essa areia venha dos cinco continentes e se misture com a água do mar que na maré cheia encharca o batente da porta. Uma casa com uma televisão quebrada: Buda e Krishna convivendo lado a lado em cima da geladeira. A ordem de cada dia será: amor amor amor. Ninfas e faunos fazem mitologia ao vivo sobre a cama. Dionisio: nosso dj particular e jardineiro do absoluto. E que a casa seja um mundo, seja um templo, seja de planta e aberta para quase todo mundo.
segunda-feira, julho 03, 2006
Um Sonho
No meu sonho o objetivo era voltar pra casa. Me encontrava do outro lado do rio (um rio Pinheiros de água e sonho), daquele outro lado onde estão guardadas as lembranças todas da infância perdida e dos anos de aprendizados incompletos no monastério do saber. Além de mim, um casal de amigos (o rapaz é cabeludo) me acompanhava na jornada, porém nenhum de nós possuía automóvel, o que impossibilitava o uso da avenida marginal, já que fatalmente seríamos atropelados caso tentássemos transitar por onde não havia acostamento nem calçada, como de fato é a pista ali pela região do Jóquei Clube. Assim, precisávamos inventar um outro e novo caminho, trilhando nosso trajeto pelas pedras e pela mata que ainda cobriam aquela região da São Paulo do sonho. A primeira parte da aventura transcorreu sem maiores sobressaltos, porém ao aproximarmo-nos da ponte que daria acesso ao outro lado do rio, o caminho se tornava impossível. Subi na frente dos outros uma grande parede de pedra que terminava num abismo íngreme, pois de lá podia-se observar todo o entorno para melhor avaliar as possibilidades de continuidade da empreitada. Do lado esquerdo havia água e mais além somente mata fechada. Um dos meus companheiros tentou entrar na água para testar se dava pé, porém constatou que era funda, como o poço de uma cachoeira. Para meu desespero, minha amiga que chegava ao local onde estávamos não sabia dessa informação e caiu com tudo dentro desse poço, mergulhando em pé e de uma vez só. Não a vi emergir novamente, mas sei que ela não morreu afogada. Sentei sobre uma pedra grande, porém a mesma estava solta e rolou na direção de um de meus amigos que se encontrava logo abaixo de mim. Tentei avisá-lo, mas a comunicação não chegou a tempo e a pedra passou por cima da cabeça dele. Felizmente, não morreu nem se feriu. Depois sentei sobre uma pedra menor, a qual também estava solta e rolou perigosamente sobre a minha gatinha branca de estimação, Molly. A pedra chegou a curvar sua frágil coluna vertebral e encobrir o felino por inteiro. Temi por ela e já entrava em desespero, quando percebi que ela também sobrevivera ao acidente sem maiores danos e que sua coluna vertebral podia facilmente voltar a posição original, como se fosse um elástico. Naquele ponto, decidi que eu deveria tentar descer a escarpa sozinho e deixei minha mochila com meus companheiros. A descida nem era assim tão perigosa quanto eu imaginava, porém exigia cuidados. Continuei pelo caminho e notei que do outro lado da avenida marginal, entre a via e o rio, pessoas bem vestidas realizavam importantes trabalhos junto com mendigos e catadores de papelão que ali habitavam e que todos estavam felizes e entusiasmados com a empreitada solidária. A sensação que me veio foi de que não se tratava de um mero trabalho assistencialista e interessado, mas que as pessoas estavam realmente envolvidas com a coisa e trocando experiências valiosíssimas. Me deu vontade de ir até lá e participar, porém era impossível atravessar a avenida. Continuei e cheguei até a ponte, porém ali também era impossível continuar, pois o terreno era acidentado e havia uma pedra muito grande obstruindo a passagem dos pedestres. Nesse momento, meu telefone celular tocou e era minha avó materna. Ela então passou a enumerar todos os meus erros, segredos, mentiras e tramóias cometidas desde o fim da minha adolescência, como se minha máscara tivesse caído toda de uma vez só e ela pudesse me ver tal qual eu sou. Eu tentava me justificar desesperadamente, relatando todas as iniciativas que eu venho tomando recentemente para corrigir o curso da minha vida, porém nada parecia acalmá-la. Me senti completamente desamparado e comecei a voltar para trás, em busca da minha mochila e de meus companheiros, porém sem o mesmo entusiasmo de antes, sem a confiança que eu tinha de que conseguiríamos encontrar o caminho de casa. Nesse caminho de volta, optei por seguir pela mata e notei um grupo de homens primitivos, cabeludos e sem camisa do meu lado esquerdo, numa clareira. A primeira impressão que eu tive foi a de que se tratavam de hippies (alguns tinham mostruários de pano toscos com anéis, colares e bijuterias) e logo me vi no meio deles, tentando entender o que faziam ali, pois alguns deles dançavam e entoavam cânticos misteriosos em alguma linguagem estranha. Porém, pareceu que eles nem deram pela minha presença e todas as tentativas que eu fiz para estabelecer comunicação foram inúteis. Resignado, prossegui até a alta parede de pedra onde estavam meus companheiros e pedi que jogassem minha mochila. Eu me sentia confuso e sabia que já não podia mais liderar aquele grupo. Vesti a mochila, desliguei o telefone celular e acordei.
Café com Angústia
Carrego um pequeno recipiente de plástico, com formato de garrafa de água mineral. A transparência do líquido que está contido não é capaz de disfarçar o peso do objeto, que olhado contra a luz possui certos tons azulados. É no peito que as angústias humanas habitam? Nessas horas de crise, sinto angústia escorrer por cada fibra, pedaço de mim, pele ou tecido que sou eu. Tenho amigos, música agradável, ambiente à meia-luz, a mulher que eu quero próxima, entorpecentes à vontade, travesseiros e almofadas. Tenho o emprego e o título do consórcio, todos os certificados e papéis que passaportam um ser humano para a ilha felicidade. Tenho, possuo, acumulo e me orgulho. Mas não enlaço, não abraço, não desfaço os nós e o script de um destino que era meu já não me flui, estanca e atravanca. O líquido espesso transborda da garrafa e os olhos não estão mais secos. Sofro por ser e estar e habitar. E a angústia que me toma faz o veludo da cortina se fechar e eu sonhar com a sensação de morrer. Mas existe um você. Remédio mesmo seria viver de te amar, F.
terça-feira, maio 23, 2006
Aos Insanos Leitores - I
Uma Auto-Entrevista
Caros amigos: agradeço sinceramente a todos que perdem seus minutos vasculhando os porões da internet e vez ou outra param ao se depararem com os posts que eu publico (de vez em nunca) aqui neste meu blog.
Vivemos numa época de grandes transformações nas mais variadas áreas e seria ingênuo pensar que a introdução da informática no campo da literatura seria somente um fenômeno periférico, que não implicaria em uma radical transformação no conteúdo dessa literatura que é feita agora, no início deste século XXI. Porque muito embora a função do blog seja “publicar” escritos que foram escritos com papel e caneta (pelo menos no meu caso é como antigamente), as possibilidades de difusão de material literário por meios eletrônicos vão muito além de um facilitamento no contato entre o autor e o leitor. Hoje, o escritor tem em suas mãos ferramentas que podem ajudá-lo a editar, corrigir, trocar a fonte, usar imagens, sons, interagir com outras pessoas, etc. o que torna o fazer literário uma atividade da qual o público usufrui quase que em “tempo real”. Se por um lado isso é bom porque torna a literatura uma arte também performática (as artes performáticas: que se fazem, que se constróem, que se movimentam. Estão muito em voga em nossa sociedade do espetáculo), dando ao autor novos recursos expressivos que permitem um maior alcance sensorial dos “efeitos” literários (literatura é causar efeitos nos outros) por outro lado é uma coisa perigosa, na medida em que pode distrair tanto o autor quanto o leitor daquilo que é principal e sem o qual a brincadeira-literatura não pode existir: um bom texto, arquitetado com belas palavras, tecido com idéias finas, temperado no molho da fantasia e servido à mesa junto com um cálice da melhor safra de imaginação.
Não, não acredito que o livro eletrônico um dia vá substituir o livro de papel. Pelo menos não enquanto eu estiver vivo e os eucaliptos continuarem dominando o mundo. O livro de papel é portátil, é elegante, é sinal de status, é o formato do poder. Acima de tudo: o livro de papel é fetiche. Pessoas colecionam e se apaixonam.
Se a poesia será um dia acessível às massas? Para mim, as massas têm suas próprias poesias, receitas de nhoque, recados anotados do telefone e bilhetinhos de mãe para filha. Gostar da poesia aristocrática e canônica que as elites fazem desde sempre como se fosse palavras cruzadas, exigiria que as pessoas fossem outras e não essas pessoas que são e existem no mundo. Ou seja: exigiria um futuro. Conhecer Homero, Baudelaire, Pessoa, Shakespeare, Rimbaud, Safo e Dante é necessário? É e não é, dependendo do tipo de pessoa que você almeja ser na vida e do papel que você quer representar na comédia humana. Mesmo sendo necessária, a poesia pode se tornar um fardo pesado demais para quem quer carregá-lo, por já ter nascido com a vocação. Em nosso país é quase uma mania exótica e meio pervertida. Coisa de colecionador, aficcionado, hobby, coisa que se faz nas horas livres. Perda de tempo. Sorte que ainda haja gente que semeie todo seu tempo para depois perdê-lo.
Caros amigos: agradeço sinceramente a todos que perdem seus minutos vasculhando os porões da internet e vez ou outra param ao se depararem com os posts que eu publico (de vez em nunca) aqui neste meu blog.
Vivemos numa época de grandes transformações nas mais variadas áreas e seria ingênuo pensar que a introdução da informática no campo da literatura seria somente um fenômeno periférico, que não implicaria em uma radical transformação no conteúdo dessa literatura que é feita agora, no início deste século XXI. Porque muito embora a função do blog seja “publicar” escritos que foram escritos com papel e caneta (pelo menos no meu caso é como antigamente), as possibilidades de difusão de material literário por meios eletrônicos vão muito além de um facilitamento no contato entre o autor e o leitor. Hoje, o escritor tem em suas mãos ferramentas que podem ajudá-lo a editar, corrigir, trocar a fonte, usar imagens, sons, interagir com outras pessoas, etc. o que torna o fazer literário uma atividade da qual o público usufrui quase que em “tempo real”. Se por um lado isso é bom porque torna a literatura uma arte também performática (as artes performáticas: que se fazem, que se constróem, que se movimentam. Estão muito em voga em nossa sociedade do espetáculo), dando ao autor novos recursos expressivos que permitem um maior alcance sensorial dos “efeitos” literários (literatura é causar efeitos nos outros) por outro lado é uma coisa perigosa, na medida em que pode distrair tanto o autor quanto o leitor daquilo que é principal e sem o qual a brincadeira-literatura não pode existir: um bom texto, arquitetado com belas palavras, tecido com idéias finas, temperado no molho da fantasia e servido à mesa junto com um cálice da melhor safra de imaginação.
Não, não acredito que o livro eletrônico um dia vá substituir o livro de papel. Pelo menos não enquanto eu estiver vivo e os eucaliptos continuarem dominando o mundo. O livro de papel é portátil, é elegante, é sinal de status, é o formato do poder. Acima de tudo: o livro de papel é fetiche. Pessoas colecionam e se apaixonam.
Se a poesia será um dia acessível às massas? Para mim, as massas têm suas próprias poesias, receitas de nhoque, recados anotados do telefone e bilhetinhos de mãe para filha. Gostar da poesia aristocrática e canônica que as elites fazem desde sempre como se fosse palavras cruzadas, exigiria que as pessoas fossem outras e não essas pessoas que são e existem no mundo. Ou seja: exigiria um futuro. Conhecer Homero, Baudelaire, Pessoa, Shakespeare, Rimbaud, Safo e Dante é necessário? É e não é, dependendo do tipo de pessoa que você almeja ser na vida e do papel que você quer representar na comédia humana. Mesmo sendo necessária, a poesia pode se tornar um fardo pesado demais para quem quer carregá-lo, por já ter nascido com a vocação. Em nosso país é quase uma mania exótica e meio pervertida. Coisa de colecionador, aficcionado, hobby, coisa que se faz nas horas livres. Perda de tempo. Sorte que ainda haja gente que semeie todo seu tempo para depois perdê-lo.
segunda-feira, maio 22, 2006
Escritos Parisienses - IV
Para Mariana e Jerome
Porque também existe a alegria sentada nos metrôs do inverno em Paris. E ela se revela por entre casacos de pele e na timidez do olhar em pedra viva e preciosa, que pode ser azul, verde esmeralda ou cinza, como eu vi naquele sonho. E no flash que dura pouco menos de um milisegundo eu enxergo a cor que a alma de uma ninfa tem quando o poeta safado e boquiaberto se põe a lhe admirar. E os olhos, que são ilhas num oceano de peles rosadas, maciez, cabelos loiros e finos, encrostados por piercins de centenas e centenas de quilates, esses olhos também bebem cerveja e vinho tinto. E sussurram palavras estrangeiras sobre a incoveniência do rapaz que tão insistentemente se mete a lhes olhar assim. Porque ela não sabe, mas ele já descobriu, que as criaturas femininas mais preciosas do mundo podem estar singelamente sentadas sobre um banco de um vagão de metrô ou num café em Paris. E o rapaz dos sorrisos raros e difíceis pensa consigo mesmo num relance: eu descobri o amor da minha vida. Agora é só uma questão de aprender as quatro ou cinco palavras da língua francesa que me vão servir pra te conquistar.
Porque também existe a alegria sentada nos metrôs do inverno em Paris. E ela se revela por entre casacos de pele e na timidez do olhar em pedra viva e preciosa, que pode ser azul, verde esmeralda ou cinza, como eu vi naquele sonho. E no flash que dura pouco menos de um milisegundo eu enxergo a cor que a alma de uma ninfa tem quando o poeta safado e boquiaberto se põe a lhe admirar. E os olhos, que são ilhas num oceano de peles rosadas, maciez, cabelos loiros e finos, encrostados por piercins de centenas e centenas de quilates, esses olhos também bebem cerveja e vinho tinto. E sussurram palavras estrangeiras sobre a incoveniência do rapaz que tão insistentemente se mete a lhes olhar assim. Porque ela não sabe, mas ele já descobriu, que as criaturas femininas mais preciosas do mundo podem estar singelamente sentadas sobre um banco de um vagão de metrô ou num café em Paris. E o rapaz dos sorrisos raros e difíceis pensa consigo mesmo num relance: eu descobri o amor da minha vida. Agora é só uma questão de aprender as quatro ou cinco palavras da língua francesa que me vão servir pra te conquistar.
Escritos Parisienses - III

O sol nasce sempre tarde demais em Paris. Não existe por aqui nenhuma das infinitas possibilidades da noite - pelo menos enquanto ainda é inverno - e só resta ao poeta cavar sua toca no solo do aconchego, se entregando por horas à fio ao perverso prazer da leitura. Não há mais jogos adultos, divertimentos ou companhias -foi-se já o tempo em que as grandes senhoras elegantes recebiam a nata da intelectualidade mundial em seus salões para fazer nada e tomar largos baldes de chá. Hoje o violoncelo só toca por moedas num corredor tortuoso do metrô. Por isso deixei um bilhete de ódio sobre o túmulo do sr. Charles Baudelaire. Por isso tantas pessoas se matam durante o inverno europeu, se atirando de braços abertos sobre a linha do trem ou o que for. A solidão da gente faz eco quando se passa um fim de Janeiro em Paris. E a beleza vigiada, escondida dentro dos museus, faz a gente querer morrer logo e de um jeito bem quente; o palhaço equilibrista de um livro do Nietzsche escapou por um triz. Ou fugiu com uma atriz de cabaré. Porque não existe nada de vermelho na paisagem de Paris (o moinho do moulin rouge) e o preço que custa um porre faz a gente delirar num copo d´água. Mas mesmo a água é suja, pingando antes de cair sobre a sarjeta já virou gelo. Tudo no mundo conspira para o ódio, detesto a sensação gelatinosa do meu corpo parando de funcionar por causa do frio. Pedi um abraço e só me deram um sorriso sarcástico de troco - não entendo a linguagem enrolada pela qual se manifesta a legião de Satanás.
Au revoir!
Escritos Parisienses - II

Porque também existirá a tristeza enrolada nos cachecóis e sentada na mesa de um café em Paris. E mesmo o menino que nunca quis saber de falar com ninguém nesse instante vai sentir vontade de escutar qualquer voz dizendo bobagens naquela linguagem cifrada que ficou esquecida no outro lado desse pequeno oceano de chopp. E vai querer retornar pra casa com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. E vai desejar vestir de novo a fantasia cor de laranja e roxa do pierrot embriagado, a máscara de monstro de desenho do Walt Disney e vai querer ser o motivo da piada mais tosca e infantil de mais esse domingo de carnaval. Embora ele saiba muito bem que hoje não existam mais razões para cruzar essa porta e perambular pelas ruas sentindo todo o frio do mundo corroendo suas orelhas de abano, ele vai sim descer as escadarias do inferno (que um dia foi do Rimbaud) e tomar inadivertidamente todas as linhas do metrô que levam, sem pressa, para lugar nenhum. Pra quem sabe depois emergir numa pracinha de paralelepípedos em Montmartre pra fazer retratos em carvão dos estrangeiros e um dia ganhar um diploma de salvador dali. Ou quem sabe emergir na avenida dos Champs-Elysées transformado num japonês compulsivo por fotografias do Arco do Triunfo. Ou ainda subir à tona pelo bueiro que dá de fronte de um café no Quartier Latin, cujas poltronas velhas ainda guardam o cheiro azedo do esperma do Hemingway ou do Sartre, filtrados e com uma plaquinha embaixo pra turista imbecil filmar. Como também pode ser que estejamos caindo lá do alto, três segundos antes da Torre Eiffel começar a chover estrelas. Pode ser que ele se perca entre os labirintos e catacumbas dos tantos cemitérios e lápides em que esta cidade se transformou. Embora, para falar a verdade, (mesmo que seja tudo de mentira) nessa hora ingrata da parte final da minha vida, tudo o que eu queria mesmo era me transformar numa figura luminosa, perdida em um terceiro plano de uma tela qualquer de um artista pouco ou nada conhecido numa sala periférica do porão do museu D´Orsay. Só pra olhar essas tantas pessoas que se espremem como bois que vão pro curral, guardando da palidez do meu olhar e da sisudez do meu sorriso um segredo que as gerações que se sucederem pelo século XXII a fora jamais saberão decifrar.
Também existe a tristeza sentada na mesa de um café em Paris e é bom tomar cuidado: ela pode se atirar nos trilhos do trem bem diante de você. E te levar pro inferno com um abraço. Convém levar um lenço branco, azul e vermelho para enxugar o sangue e os pedaços do intestino delgado e do encéfalo que em seu rosto possam vir a se alojar.
sexta-feira, maio 19, 2006
Pequeno Sermão Carinhoso
(uma praça. Pode ser o Vale do Anhangabaú ao meio-dia. O PREGADOR-FILÓSOFO traja como os antigos da Grécia e fala com voz grave e solene para a pequena multidão que se reúne em volta)
PREGADOR-FILÓSOFO: (olhando para o céu) Longe de mim querer julgar alguém. (olhando em torno) Penso que todo ser humano nos reserva ensinamentos preciosos, (pausa) desde que consigamos olhá-lo livres de todos os nossos preconceitos. (incisivo) Conhecer pessoas, travar contato com a diversidade de personalidades, carcteres, cores, formas ou jeitos de ser de cada mulher (pausa) e de cada homem que já existiu ou ainda existe no mundo (pausa) é a ciência suprema, o aprendizado do absoluto, (visivelmente emocionado) é a alquimia (dançando e gargalhando) e a hermenêutica. (longa pausa. Professoral) Nesse percurso investigativo, entretanto, não podemos nos colocar como um observador pasivo da natureza, (fazendo gestos com a mão) assim como um botânico ao descrever uma flor. (falando mais alto) O caminho que vai de um ser humano até o outro é uma rua de mão dupla. (pausa) A simples presença de duas pessoas numa sala, uma assim de frente para a outra, (puxando duas pessoas da multidão e fazendo com que elas fiquem de frente uma para a outra, o PREGADOR-FILÓSOFO fala ora para uma, ora para outra) já implica o aparecimento de atrações, ódios, repulsões, amores, julgamentos de valor, relações de poder, (pausa) entre tantos e tantos fenômenos. (pausa) O conhecimento do outro é uma ciência (com ódio) suja (pausa) que só pode existir a partir do momento em que conhecemos e aceitamos as nossas fraquezas (pausa) e também as nossas limitações, (dando ênfase em cada sílaba) inventando um... (com sarcasmo)um falso distanciamento crítico para fins única e tão somente (fazendo um certo suspense, como se procurasse a palavra mais adequada) operacionais.(Longa pausa. Taxativo) O julgamento sumário do outro é o preconceito posto em ação. (pausa) Apontamos nos outros os defeitos que não queremos enxergar em nós mesmos. (resignado) Infelizmente, a mair porção da humanidade prefere comprar tudo pronto (aponta para as sacolas e bolsas que as mulheres em volta carregam) ao invés de fabricar por si mesma. (pausa) Daí o desprezo pelos livros, pelas artes e pelas atividades do espírito e do corpo que requerem (alongando cada palavra) tempo, paciência e maturidade. (pausa) Em geral, se prefere comprar uma moral barata, (com nojo) de filme ou novela ruim, e aplicá-la indiscriminadamente em todas as situações da vida: (pausa) é mais confortável (rindo) e é conveniente também. (empolgado) É sempre mais fácil ser membro de uma igreja que já existe do que inventar uma filosofia original e inédita a cada novo dia. (matemático) Porque é da natureza das igrejas e é da natureza das filosofias, que as igrejas perdurem e que as filosofias se reinventem sempre. (profético) A história ensina pra quem quiser aprender que a verdade nem sempre está com a maioria (pausa) e que o caminho mais curto e rápido (glorioso) quase nunca é o caminho que chega em casa.
PREGADOR-FILÓSOFO: (olhando para o céu) Longe de mim querer julgar alguém. (olhando em torno) Penso que todo ser humano nos reserva ensinamentos preciosos, (pausa) desde que consigamos olhá-lo livres de todos os nossos preconceitos. (incisivo) Conhecer pessoas, travar contato com a diversidade de personalidades, carcteres, cores, formas ou jeitos de ser de cada mulher (pausa) e de cada homem que já existiu ou ainda existe no mundo (pausa) é a ciência suprema, o aprendizado do absoluto, (visivelmente emocionado) é a alquimia (dançando e gargalhando) e a hermenêutica. (longa pausa. Professoral) Nesse percurso investigativo, entretanto, não podemos nos colocar como um observador pasivo da natureza, (fazendo gestos com a mão) assim como um botânico ao descrever uma flor. (falando mais alto) O caminho que vai de um ser humano até o outro é uma rua de mão dupla. (pausa) A simples presença de duas pessoas numa sala, uma assim de frente para a outra, (puxando duas pessoas da multidão e fazendo com que elas fiquem de frente uma para a outra, o PREGADOR-FILÓSOFO fala ora para uma, ora para outra) já implica o aparecimento de atrações, ódios, repulsões, amores, julgamentos de valor, relações de poder, (pausa) entre tantos e tantos fenômenos. (pausa) O conhecimento do outro é uma ciência (com ódio) suja (pausa) que só pode existir a partir do momento em que conhecemos e aceitamos as nossas fraquezas (pausa) e também as nossas limitações, (dando ênfase em cada sílaba) inventando um... (com sarcasmo)um falso distanciamento crítico para fins única e tão somente (fazendo um certo suspense, como se procurasse a palavra mais adequada) operacionais.(Longa pausa. Taxativo) O julgamento sumário do outro é o preconceito posto em ação. (pausa) Apontamos nos outros os defeitos que não queremos enxergar em nós mesmos. (resignado) Infelizmente, a mair porção da humanidade prefere comprar tudo pronto (aponta para as sacolas e bolsas que as mulheres em volta carregam) ao invés de fabricar por si mesma. (pausa) Daí o desprezo pelos livros, pelas artes e pelas atividades do espírito e do corpo que requerem (alongando cada palavra) tempo, paciência e maturidade. (pausa) Em geral, se prefere comprar uma moral barata, (com nojo) de filme ou novela ruim, e aplicá-la indiscriminadamente em todas as situações da vida: (pausa) é mais confortável (rindo) e é conveniente também. (empolgado) É sempre mais fácil ser membro de uma igreja que já existe do que inventar uma filosofia original e inédita a cada novo dia. (matemático) Porque é da natureza das igrejas e é da natureza das filosofias, que as igrejas perdurem e que as filosofias se reinventem sempre. (profético) A história ensina pra quem quiser aprender que a verdade nem sempre está com a maioria (pausa) e que o caminho mais curto e rápido (glorioso) quase nunca é o caminho que chega em casa.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Em vez de flores: o poema
Era óbvio demais. Uma soma de desejos rarefeitos, carências sinuosas, carinhos com esse olhar insinuante, risadas de boca cheia e outros tantos apelos cifrados (indiretas?) que jamais poderiam levar a outra conclusão. Incrível o poder que um sofá tem de absorver e aconchegar, me atirando pra cima de você como se eu fosse uma almofada bordada numa brincadeira de criança. Eu diria que se trata de algo entre a sua pele e seus pelos, de uma finíssima camada de energia luminosa e térmica que aquece, ilumina e liga meu corpo como se fosse uma tomada de duzentos e vinte volts. Dá arrepio de lembrar, mas é inevitável não associar os sentimentos bons que se guardam na lembrança com essas sensações estranhas e no começo um tanto incômodas de arrepio, aflição e ligeiro desconforto. A cena das garras da felina raspando, lixando e polindo a minha pele que era tão branca. Porque gestos assim, quando vem de você para mim, me fazem ser vermelho e vermelho. O sangue se aquece, se alvoroça, circula em alta velocidade acionando todos os mecanismos mirabolantes que gritam pro meu cérebro e guiam meu corpo com a força irrefreável da vontade que surge íntegra à luz do dia sem dar nem tempo de pensar em conseqüências. Porque a conseqüência desses casos todo mundo sabe que nome tem, embora a cada vez que eu experimente coisas assim junto contigo sempre role algo de inédito e inacreditável que me faz sentir adolescendo outra vez. Gosto disso, de como ficar com você me faz experimentar meu ser menino outra vez, pairando sobre um céu muito além das meras convenções adultas, rotineiras e banais. Te entrego meu controle remoto, te entrego meu controle próximo, só eu é que não me controlo mais. Um quilo de coração embrulhado em papel prateado: todinho pra vc, meu amor.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
O Amor e a Cidade
Mas como do amor na hora de pagar a conta
Nenhum trocado ou bala de hortelã interessa
Pedimos outra xícara de café sem leite condensado
E fumamos gostoso mais um cigarro sem pressa.
Porque em horas assim a cidade toda reza ajoelhada
Implorando por sinais de fumaça na linha do horizonte
E vê o grande felino que desponta urrando sobre o monte
Enquanto as senhoras católicas lamentam tantas catástrofes.
E os mendigos se arrastam aos nossos pés, maltrapilhos
Porque os burgueses sempre se escondem atrás de vidros
E avançam apressados por sobre os meus velhos esconderijos.
Nessa hora tão fria eu admiro a sua falta de diplomacia
E o seu jeito de caminhar seguro me vem e me vale uma tarde
Sim: eu sou o lado escuro e você a aurora que me invade.
Nenhum trocado ou bala de hortelã interessa
Pedimos outra xícara de café sem leite condensado
E fumamos gostoso mais um cigarro sem pressa.
Porque em horas assim a cidade toda reza ajoelhada
Implorando por sinais de fumaça na linha do horizonte
E vê o grande felino que desponta urrando sobre o monte
Enquanto as senhoras católicas lamentam tantas catástrofes.
E os mendigos se arrastam aos nossos pés, maltrapilhos
Porque os burgueses sempre se escondem atrás de vidros
E avançam apressados por sobre os meus velhos esconderijos.
Nessa hora tão fria eu admiro a sua falta de diplomacia
E o seu jeito de caminhar seguro me vem e me vale uma tarde
Sim: eu sou o lado escuro e você a aurora que me invade.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Escritos Parisienses - I
Uma cidade que se mede pelo esplendor dos seus cemitérios. Um lugar em que as casas são tão velhas e feitas de pedra que saindo pela rua de noite a gente tem a viva impressão de estar mesmo dentro de um cemitério. E nas lápides de mármore lêem-se meus nomes familiares: Baudelaire, Oscar Wilde, Proust, Sartre, James Douglas Morrison, Simone de Beauvoir. Mas onde a maioria dos túmulos e casas pertence à gente anônima e sem nenhum significado literário que me evoque alguma genealogia torta. Nunca em minhas veias se encontrará qualquer miligrama perverso do sangue francês, nenhum resquício de qualquer passado europeu ou ocidental. Minha raça é índia e mestiça – não me reduzirei depois de morto e desenterrado a nenhum monumento babaca de mármore com letras em alto relevo que ficam parecendo com a fachada de um condomínio de classe média – antes almejo a destruição total dos tecidos que resulta em alguns litros de sangue e um resto de osso em pó. Ou menos que isso, quem sabe por que não num desastre imbecil de avião. Me dá preguiça de viver quando o mundo faz tão frio. E o silêncio dos cemitérios que se espalham pelas ruas e tomam conta da velha capital é antes um prelúdio para o vento cortante que te fatia em cada esquina. Alguém esqueceu uma cova aberta no meio da noite: caberá nela uma lua ao avesso?
segunda-feira, janeiro 09, 2006
É, eu sei disso que você tá me falando
É, eu sei disso que você tá me falando. Não, isso é porque no fundo eu também cresci dentro de um quarto que tinha videogame, aparelho de som três em um, revista de História em quadrinhos, tv a cores, videocassete, uma porrada de revista de mulher pelada e um tênis nike sujo e esburacado jogado em cima de um canto. Não tem nada a ver com eu ser ou não ser filhinho de papai, tem coisas que eu cuido da cabeça pra dentro e não é porque neguinha saia por aí falando que eu pareço com isso ou parecço com aquilo que na verdade eu sou. Eu sei muito bem de que São-Paulo-Palanque eu tô falando, sei que a realidade do Brasil é outra, sei que eu não pertenço aos pobres e os ricos e os burgueses e os classe média do caralho tão cagando e andando pra cima de mim. Assim como eu estou cagando e andando pra cima deles também, quer saber. Porque meu negócio é viver meu eu e tudo o que está ao redor dele - inclusive você, meu. Viver as experiências que dá pra viver vivendo à margem e ao mesmo tempo dentro da parada, circulando por dentro e por fora do padrão. Brincando de esconde-esconde com a polícia, no Brasil todo mundo que brinca de polícia e ladrão prefere mil vezes ser ladrão, por que será? Um dia eu ainda vou ter minha carabina calibre doze e um canhão no quintal de casa que nem o Serafim Ponte Grande. Pena que eu moro em Alphaville e se eu atirasse não ia ter pra onde errar.
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