PRÓLOGO
Compreender a natureza e as características da função de habitar é de grande valia para aqueles que se interessam pelos assuntos humanos. É possível pensar a casa que abriga o homem e a mulher como um duplo da psique, na medida em que se podem reconstituir certos elementos da vida espiritual humana a partir de uma análise de seu habitat e das marcas inscritas nele ao longo do tempo. A casa possui a capacidade de materializar aspectos da mente e da existência humanas, ao torna-los sensíveis para aqueles que se empenham em decifrá-la: preserva vestígios do cotidiano e do jeito de ser do habitante mesmo tempos depois do ser humano em questão ter deixado de ocupar o espaço doméstico. Isso explica o porquê de tantas casas habitadas por pessoas célebres e importantes do passado virem a ser tombadas, transformadas em museus e locais de peregrinação. Aquele que visita à casa de alguém que admira, espera lá encontrar preservados alguns traços da pessoa admirada.
É importante frisar que a função de habitar nem sempre se confunde com o ato de habitar a casa concretamente. Vai além dele, na medida em que não pressupõe a presença física e nem se reduz aos momentos em que efetivamente estamos habitando a casa: podemos exercer a função de habitar sonhando com uma casa que gostaríamos de ter, evocando uma casa passada que não existe mais ou compartilhando da experiência de alguém que habitou uma casa através de narrativas, filmes, histórias, etc. Desse modo, devemos entender a função de habitar como a faculdade do espírito humano responsável por tudo aquilo que se refere ao ser em seu espaço de intimidade: sejam as ações e sensações envolvidas nos atos de administrar, governar, gerir, desfrutar e “usar” a casa, sejam os devaneios, sonhos, recordações, narrativas ou pensamentos que evoquem o ser em seu espaço de intimidade ou tratem de aspectos da casa entendida como um arquétipo, ou seja, um ser constituído ao mesmo tempo por uma face concreta, visível, localizada no tempo e no espaço e uma outra face intangível, a qual muitas vezes nos remete ao imemorial e ao eterno.
Tratar dos aspectos sensíveis da casa e de como estes se transformam ao longo do tempo é tarefa para arquitetos, antropólogos e historiadores. Nesse tipo de estudo, caberia uma análise comparativa entre diferentes civilizações e épocas para se compreender como cada uma delas materializou, sob a forma de habitações, aspectos de seu imaginário, de sua organização social e de sua cultura, levando em conta fatores geográficos, tecnológicos, econômicos, climáticos e outros que possam vir a interferir na constituição da casa. Trataremos desses assuntos de passagem e somente a título de contextualização, já que o foco de nossas pesquisas é compreender a função de habitar sob a perspectiva do sujeito, ou seja, de como o habitante pensa, sonha, deseja, convive e cria raízes na casa. Entendida antes de tudo como um ser complexo e múltiplo, a casa também pode ser interpretada levando em conta suas implicações para a psicologia dos seres que a habitam – e é justamente isso que intentamos. Assim, buscaremos compreender a casa enquanto espelho da alma humana e pouca importância daremos às variáveis que distinguem uma casa da outra, buscando entre essas diferenças uma síntese capaz de dar conta da função universal de habitar.
Mas afinal: o que é a casa? Ou melhor dizendo em outras palavras: o que a casa significa? Como aprender a decifrá-la? Podemos olhá-la, fotografa-la, medi-la, toca-la, escuta-la, passear por ela, estudar sua história, seus diversos proprietários, seu projeto ou sua escritura, mas nada disso, por si só, responderá às questões colocadas acima. A primeira parte deste estudo se constituirá de um breve apanhado histórico a respeito dos habitats humanos e suas transformações ao longo do tempo. A seguir, buscaremos definir o conceito de espaço da intimidade, recolhendo materiais da mitologia grega e da análise que Jean Pierre Vernant faz das figuras de Hermes e Héstia, duas divindades relacionadas, cada uma a sua maneira, ao espaço doméstico. Por fim, a discussão do que venha a ser a função de habitar se dará tomando como base estudos publicados pelo filósofo Gaston Bachelard em seu livro “A Poética do Espaço”.
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