quinta-feira, maio 31, 2012

Zaratustra na Praça da Sé


Era uma manhã gelada, sim, mas nada que fizesse um alemão queixar-se do destino. Em função do barulho de automóveis, motocicletas e ônibus, mal se ouvia o badalar dos sinos da catedral. Aliás, poucos dos que atravessavam a grande praça com pressa, cortando o formigueiro em linhas diagonais e parabólicas, poucos dos que adentravam a porta do inferno da estação do metrô se davam ao mínimo trabalho de erguer os olhos e ver que, de fato, ainda havia uma catedral ali. O alemão destoava de todo esse quadro, caminhava lento e sem destino por entre engraxates, auxiliares administrativos, operadoras de telemarketing e usuários de crack, por entre pastores maltrapilhos, mulheres crentes de cabelos longos, mendigos nus, advogados de terno e policiais fardados.

Ao lado da grande igreja, as prostitutas vindas do sul ainda dormiam profundamente em camas de hotel sem lençol. Algumas delas sonhavam com coisas do sul. De um lado, a praça antiga dava acesso à avenida da liberdade, mas o alemão pressentia não ser o momento de visitá-la ainda. Por outro, despontavam ruelas estreitas por onde se chegaria às cátedras da virtude; o alemão não hesitou e escolheu a direção oposta, rumando pelo coração financeiro da metrópole em busca de alguma informação sobre como chegar ao gigantesco mercado de que ouvira falar em outros tempos. Para quem perguntar? Os rapazes vestiam bonés que lhe cobriam os olhos e usavam estranhos aparelhos plásticos para tapar o canal do ouvido; já as moças, essas tinham o olhar assustadiço de uma ave selvagem e faziam clac-clac-clac com os pés quando passavam em alta velocidade pelo calçamento, apertando com toda a força certas bolsas para junto ao próprio corpo. Dos dois lados da rua havia grandes espelhos e nas poucas frestas que os edifícios se permitiam abrir para a rua, homens armados vigiavam a entrada e saída de papéis e mercadorias. No meio da larga e irregular calçada, o alemão avistou um senhor de aparência doentia, vestindo uma espécie de boina surrada pelo tempo, sentado sobre um latão de tinta virado do avesso e segurando algo como um estandarte, em que se podia ler a cobiça pelo ouro alheio. Ao se aproximar e indagar o caminho, o homem, muito a contragosto, coçou o nariz pelo lado de dentro com o dedo do meio, depois ergueu ambos os ombros e fez um gesto com a mão apontando algum ponto atrás de onde ele estava. Não disse palavra. Assim o alemão prosseguiu errante.

Na esquina seguinte, vinha uma enorme corrente de pessoas cabisbaixas pela rua transversal, não seria fácil atravessar para prosseguir em linha reta. Inquieto, o alemão tentou uma e duas vezes e, após quatro ou cinco esbarrões, optou por seguir o fluxo daquela cadavérica procissão e dobrou a esquina à direita, mais levado do que por pernas próprias, como se navegasse um rio turbulento de correnteza forte. Voltou a grande praça e tossiu três vezes por inalar inadvertidamente uma golfada grossa de fumaça preta.

Dessa segunda vez, tomou outro rumo e se encaminhou para uma barraca de acampamento alojada sobre um dos muitos canteiros de cimento que havia no lugar. Não seria uma cigana, embora usasse panos no cabelo, mas sim uma vidente aquela que ali embaralhava cartas muito sujas e antigas. Ela o fitou com um sorriso malicioso no olhar e estendeu a mão aguardando que nela o alemão depositasse uma moeda de ouro. Ele hesitou, revirou os bolsos e se fez de desentendido. Por meio de uma gramática estranha de gestos bruscos, a vidente intensificava a tentativa de sedução e, por fim, ficou selado um acordo por meio do qual ele daria seu relógio a ela em troca de uma partida de baralho. Os dois adentraram a barraca de acampamento, mas mesmo lá dentro o barulho da rua ainda podia ser ouvido da mesma maneira do que do lado de fora. Pelo menos não havia o vento, assim ele se consolou. A vidente acendeu um incenso e um cigarro e suas pulseiras com moedas furadas tilintavam ao movimento de suas mãos embaralhando as cartas antigas. Ela disse: faça uma pergunta sobre o seu destino, mas não a fale em voz alta para mim. O alemão, verdadeiro iniciado no universo do tarô, soube ler depressa o que aquele jogo só com arcanos menores significava. Ficou perplexo ao escutar a interpretação da vidente, que insistia em enumerar perigos, desafios e personagens ocultos, quando ele bem sabia que nada disso estava expresso ali. No começo ele não se irritou e só fez uma menção casual ao correto significado místico do dez de espadas. Ela o observou ressabiada e continuou na mesma linha de raciocínio, no que ele a chamou de charlatã e exigiu rudemente seu relógio de volta. O impasse durou um minuto interminável. Ao fim, ela não resistiu ao olhar dele, que a prescrutava incisivo no âmago do fundo dos seus olhos, com uma seriedade e um sentimento de revolta que só os alemães sabem demonstrar. Derrotada, ela tirou o relógio de dentro do soutien bege que usava e o devolveu. O alemão não teve muita pressa para sair e percebeu que os ponteiros desse relógio estavam girando ao contrário. Saiu da barraca e continuou caminhando à esmo pela grande praça. Pelas suas costas, a vidente correu na direção de um policial fardado para denunciar a trapaça do alemão. Correu porque sabia que muito depressa ele sumiria no meio daquela multidão. Correu porque tinha sede de vingança. E no meio dessa corrida, com a roupa amarrotada e os cabelos em desalinho, o salto de seu sapato quebrou e ela foi ao solo. Uma motocicleta que vinha em alta velocidade passou bem por cima do seu pescoço. Gritos. Sangue. Decapitada: morte instantânea. Em breve, barulho de sirene de ambulância. Os sinos da catedral ressoaram de novo, mas dessa vez muitos foram os que ouviram.

Mesmo com tudo isso, o alemão não voltou o olhar para trás nem se abalou, seguiu seu caminho como se esse tipo de espetáculo fosse coisa corriqueira no lugar de onde ele vinha. Sem grande dificuldade, ele atravessou a praça toda caminhando no mesmo ritmo arrastado e compassado de sempre. Na borda oposta, observou que um homem vestindo farrapos arrastava com enorme dificuldade um carrinho cheio de papelão, madeira, carcaças e outras modalidades de lixo. O suor escorria pelas suas têmporas, um ônibus atrás dele buzinava para que ele desse passagem, mas o homem, a muito custo, mal era capaz de se sustentar em pé. Na outra calçada, atravessava a rua uma moça loira bonita, vestida com traje de corrida e trazendo um cachorro enorme pela coleira. Assim que o semáforo de pedestre abriu, ela avançou e teve que contornar o homem com o carrinho de lixo: foi nesse instante que o cão latiu alto e saltou na direção do tal homem. A mulher tentou ainda segurar a coleira com as duas mãos, chamou o cachorro pelo nome com voz incisiva umas três vezes, mas era inevitável. O cão abocanhou a perna dele de uma vez só, o que fez com que o homem soltasse um berro seco e descomunal, como se alguma entidade misteriosa tivesse se apossado de seus pulmões e se alimentado da sua fome para energizar o som que pela garganta saía e contaminava de medo tudo ao seu redor. Todos na praça se quedaram imóveis por um ou dois instantes e voltaram seus olhos naquela direção: além do sangue grosso que escorria em direção a sarjeta, viram um homem ser devorado vivo por um animal.

A coisa de dez passos de onde o alemão estava, havia uma família de mendigos, cabelos sujos e roupas gastas, uma mulher que dava de mamar e um moleque barrigudinho que, todo pelado, fazia xixi numa plantinha e se maravilhava com o escorrer do líquido pelo chão. Sem que a mãe percebesse, o garoto desembestou na direção do cachorro assassino, fascinado com uma visão tão crua da vida. Alguém no meio da multidão ainda gritou: segura essa criança, pelo amor de deus! Mas em vão. Foi coisa de segundos para o menino estar diante do cão que ainda mastigava as entranhas do catador de papelão que, a essa altura, já nem gritava mais. Horrorizado, o motorista do ônibus que vinha atrás tentava desesperadamente se desvencilhar do cinto de segurança para correr e acudir o menino. Não deu tempo. A criança ergueu a mão e, placidamente, começou a acariciar a cabeça do animal. O cão, por sua vez, obedeceu, parou de atacar o catador de papelão e voltou mansinho para a coleira de sua dona.

Satisfeito, o alemão aplaudiu o gesto de coragem e inocência. Os demais transeuntes que observavam começaram a cochichar explicações sobre o ocorrido para a pessoa ao lado e a mãe do menino aos poucos ficou mais calma e voltou a dar de mamar ao bebê. O alemão comprou uma passagem para a estação liberdade e embarcou no último trem.

Assim falava Zaratustra.

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