Era
uma manhã gelada, sim, mas nada que fizesse um alemão
queixar-se do destino. Em função do barulho de
automóveis, motocicletas e ônibus, mal se ouvia o
badalar dos sinos da catedral. Aliás, poucos dos que
atravessavam a grande praça com pressa, cortando o formigueiro
em linhas diagonais e parabólicas, poucos dos que adentravam a
porta do inferno da estação do metrô se davam ao
mínimo trabalho de erguer os olhos e ver que, de fato, ainda
havia uma catedral ali. O alemão destoava de todo esse quadro,
caminhava lento e sem destino por entre engraxates, auxiliares
administrativos, operadoras de telemarketing e usuários de
crack, por entre pastores maltrapilhos, mulheres crentes de cabelos
longos, mendigos nus, advogados de terno e policiais fardados.
Ao
lado da grande igreja, as prostitutas vindas do sul ainda dormiam
profundamente em camas de hotel sem lençol. Algumas delas
sonhavam com coisas do sul. De um lado, a praça antiga dava
acesso à avenida da liberdade, mas o alemão pressentia
não ser o momento de visitá-la ainda. Por
outro, despontavam ruelas estreitas por onde se chegaria às
cátedras da virtude; o alemão não hesitou e
escolheu a direção oposta, rumando pelo coração
financeiro da metrópole em busca de alguma informação
sobre como chegar ao gigantesco mercado de que ouvira falar em outros
tempos. Para quem perguntar? Os rapazes vestiam bonés que lhe
cobriam os olhos e usavam estranhos aparelhos plásticos para
tapar o canal do ouvido; já as moças, essas tinham o
olhar assustadiço de uma ave selvagem e faziam clac-clac-clac
com os pés quando passavam em alta velocidade pelo calçamento,
apertando com toda a força certas bolsas para junto ao próprio
corpo. Dos dois lados da rua havia grandes espelhos e nas poucas
frestas que os edifícios se permitiam abrir para a rua, homens
armados vigiavam a entrada e saída de papéis e
mercadorias. No meio da larga e irregular calçada, o alemão
avistou um senhor de aparência doentia, vestindo uma espécie
de boina surrada pelo tempo, sentado sobre um latão de tinta
virado do avesso e segurando algo como um estandarte, em que se podia
ler a cobiça pelo ouro alheio. Ao se aproximar e indagar o
caminho, o homem, muito a contragosto, coçou o nariz pelo lado
de dentro com o dedo do meio, depois ergueu ambos os ombros e fez um
gesto com a mão apontando algum ponto atrás de onde ele
estava. Não disse palavra. Assim o alemão prosseguiu
errante.
Na
esquina seguinte, vinha uma enorme corrente de pessoas cabisbaixas
pela rua transversal, não seria fácil atravessar para
prosseguir em linha reta. Inquieto, o alemão tentou uma e duas
vezes e, após quatro ou cinco esbarrões, optou por
seguir o fluxo daquela cadavérica procissão e dobrou a
esquina à direita, mais levado do que por pernas próprias,
como se navegasse um rio turbulento de correnteza forte. Voltou a
grande praça e tossiu três vezes por inalar
inadvertidamente uma golfada grossa de fumaça preta.
Dessa
segunda vez, tomou outro rumo e se encaminhou para uma barraca de
acampamento alojada sobre um dos muitos canteiros de cimento que
havia no lugar. Não seria uma cigana, embora usasse panos no
cabelo, mas sim uma vidente aquela que ali embaralhava cartas muito
sujas e antigas. Ela o fitou com um sorriso malicioso no olhar e
estendeu a mão aguardando que nela o alemão depositasse
uma moeda de ouro. Ele hesitou, revirou os bolsos e se fez de
desentendido. Por meio de uma gramática estranha de gestos
bruscos, a vidente intensificava a tentativa de sedução
e, por fim, ficou selado um acordo por meio do qual ele daria seu
relógio a ela em troca de uma partida de baralho. Os dois
adentraram a barraca de acampamento, mas mesmo lá dentro o
barulho da rua ainda podia ser ouvido da mesma maneira do que do lado
de fora. Pelo menos não havia o vento, assim ele se consolou.
A vidente acendeu um incenso e um cigarro e suas pulseiras com moedas
furadas tilintavam ao movimento de suas mãos embaralhando as
cartas antigas. Ela disse: faça uma pergunta sobre o seu
destino, mas não a fale em voz alta para mim. O alemão,
verdadeiro iniciado no universo do tarô, soube ler depressa o
que aquele jogo só com arcanos menores significava. Ficou
perplexo ao escutar a interpretação da vidente, que
insistia em enumerar perigos, desafios e personagens ocultos, quando
ele bem sabia que nada disso estava expresso ali. No começo
ele não se irritou e só fez uma menção
casual ao correto significado místico do dez de espadas. Ela o
observou ressabiada e continuou na mesma linha de raciocínio,
no que ele a chamou de charlatã e exigiu rudemente seu relógio
de volta. O impasse durou um minuto interminável. Ao
fim, ela não resistiu ao olhar dele, que a prescrutava
incisivo no âmago do fundo dos seus olhos, com uma seriedade e
um sentimento de revolta que só os alemães sabem
demonstrar. Derrotada, ela tirou o relógio de dentro do
soutien bege que usava e o devolveu. O alemão não teve
muita pressa para sair e percebeu que os ponteiros desse relógio
estavam girando ao contrário.
Saiu da barraca e continuou caminhando à esmo pela grande
praça. Pelas suas costas, a vidente correu na direção
de um policial fardado para denunciar a trapaça do alemão.
Correu porque sabia que muito depressa ele sumiria no meio daquela
multidão. Correu porque tinha sede de vingança. E no
meio dessa corrida, com a roupa amarrotada e os cabelos em desalinho,
o salto de seu sapato quebrou e ela foi ao solo. Uma motocicleta que
vinha em alta velocidade passou bem por cima do seu pescoço.
Gritos. Sangue. Decapitada: morte instantânea. Em breve,
barulho de sirene de ambulância. Os sinos da catedral ressoaram
de novo, mas dessa vez muitos foram os que ouviram.
Mesmo
com tudo isso, o alemão não voltou o olhar para trás
nem se abalou, seguiu seu caminho como se esse tipo de espetáculo
fosse coisa corriqueira no lugar de onde ele vinha. Sem grande
dificuldade, ele atravessou a praça toda caminhando no mesmo
ritmo arrastado e compassado de sempre. Na borda oposta, observou que
um homem vestindo farrapos arrastava com enorme dificuldade um
carrinho cheio de papelão, madeira, carcaças e outras
modalidades de lixo. O suor escorria pelas suas têmporas, um ônibus
atrás dele buzinava para que ele desse passagem, mas o homem,
a muito custo, mal era capaz de se sustentar em pé. Na outra calçada,
atravessava a rua uma moça loira bonita, vestida com traje de
corrida e trazendo um cachorro enorme pela coleira. Assim que o
semáforo de pedestre abriu, ela avançou e teve que
contornar o homem com o carrinho de lixo: foi nesse instante que o
cão latiu alto e saltou na direção do tal homem.
A mulher tentou ainda segurar a coleira com as duas mãos,
chamou o cachorro pelo nome com voz incisiva umas três vezes,
mas era inevitável. O cão abocanhou a perna dele de uma
vez só, o que fez com que o homem soltasse um berro seco e
descomunal, como se alguma entidade misteriosa tivesse se apossado de
seus pulmões e se alimentado da sua fome para energizar o som
que pela garganta saía e contaminava de medo tudo ao seu
redor. Todos na praça se quedaram imóveis por um ou
dois instantes e voltaram seus olhos naquela direção:
além do sangue grosso que escorria em direção a
sarjeta, viram um homem ser devorado vivo por um animal.
A coisa de dez passos de onde o alemão estava, havia uma família de mendigos, cabelos sujos e roupas gastas, uma mulher que dava de mamar e um moleque barrigudinho que, todo pelado, fazia xixi numa plantinha e se maravilhava com o escorrer do líquido pelo chão. Sem que a mãe percebesse, o garoto desembestou na direção do cachorro assassino, fascinado com uma visão tão crua da vida. Alguém no meio da multidão ainda gritou: segura essa criança, pelo amor de deus! Mas em vão. Foi coisa de segundos para o menino estar diante do cão que ainda mastigava as entranhas do catador de papelão que, a essa altura, já nem gritava mais. Horrorizado, o motorista do ônibus que vinha atrás tentava desesperadamente se desvencilhar do cinto de segurança para correr e acudir o menino. Não deu tempo. A criança ergueu a mão e, placidamente, começou a acariciar a cabeça do animal. O cão, por sua vez, obedeceu, parou de atacar o catador de papelão e voltou mansinho para a coleira de sua dona.
A coisa de dez passos de onde o alemão estava, havia uma família de mendigos, cabelos sujos e roupas gastas, uma mulher que dava de mamar e um moleque barrigudinho que, todo pelado, fazia xixi numa plantinha e se maravilhava com o escorrer do líquido pelo chão. Sem que a mãe percebesse, o garoto desembestou na direção do cachorro assassino, fascinado com uma visão tão crua da vida. Alguém no meio da multidão ainda gritou: segura essa criança, pelo amor de deus! Mas em vão. Foi coisa de segundos para o menino estar diante do cão que ainda mastigava as entranhas do catador de papelão que, a essa altura, já nem gritava mais. Horrorizado, o motorista do ônibus que vinha atrás tentava desesperadamente se desvencilhar do cinto de segurança para correr e acudir o menino. Não deu tempo. A criança ergueu a mão e, placidamente, começou a acariciar a cabeça do animal. O cão, por sua vez, obedeceu, parou de atacar o catador de papelão e voltou mansinho para a coleira de sua dona.
Satisfeito,
o alemão aplaudiu o gesto de coragem e inocência. Os
demais transeuntes que observavam começaram a cochichar
explicações sobre o ocorrido para a pessoa ao lado e a
mãe do menino aos poucos ficou mais calma e voltou a dar de
mamar ao bebê. O alemão comprou uma passagem para a estação liberdade e embarcou no último trem.
Assim
falava Zaratustra.
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