Segundo a historiografia corrente, o ponto de inflexão fundamental
das relações entre Igreja e Estado no Brasil pode ser identificado
na transição do regime imperial para a república, em fins do
século XIX. Ao longo do período colonial e do império, o
catolicismo romano desfrutava do status de credo oficial e tinha ao
seu alcance os meios para limitar a difusão das outras vertentes
judaico cristãs – quando muito toleradas a uma certa distância e
rigorosamente vigiadas – e combater, muitas vezes com o emprego
aberto de violência, as religiões de origem africana ou indígena.
Além do acesso direto aos círculos mais altos do poder, a igreja
católica cumpria diversas outras funções sociais de grande
importância, exercendo o monopólio sobre o casamento e o registro
de pessoas nascidas e mortas em cada localidade, por exemplo. Tudo
mudou de figura com a ascensão da República Velha: formalmente, há
a proclamação da separação entre igreja e estado e promulgam-se
uma infinidade de leis para assegurar a liberdade de credo, proteger
os locais de culto e criminalizar as práticas de discriminação
religiosa. Pode-se afirmar que esse movimento foi relativamente bem
sucedido e se consolidou ao ponto das leis sobre liberdade religiosa
terem sobrevivido relativamente incólumes aos inúmeros golpes,
ditaduras, reformas constitucionais e alternâncias de poder que se
sucederam no país e na América Latina ao longo dos últimos cem
anos. No plano formal das leis, portanto, a controvérsia fundamental
teve mais a ver com a distinção entre o que deve ser entendido como
uma religião, de um lado, e o que são práticas de “feitiçaria”,
“curandeirismo” e “charlatanice”, de outro. Uma vez que tal
ou qual prática fosse reconhecida publicamente como religião, ao
Estado caberia estender a ela sua proteção integral, sem qualquer
distinção. No entanto, como o critério para definir o que é e o
que não é uma religião tem como paradigma o cristianismo, essa
ambiguidade conceitual serviu (e ainda serve) como justificativa para
a continuidade da marginalização pública das religiões de origem
afro, por exemplo.
Em “secularização e espaço público: a reinvenção do
pluralismo religioso no Brasil”, Paula Montero defende uma tese
bastante interessante: para a autora, a pluralidade de religiões que
hoje vigora no país pode ser entendida, em grande medida, como uma
construção do regime republicano. Resumindo muito grosseiramente,
Montero traça um paralelo entre o contexto da secularização do
estado na França e no Brasil: se no primeiro caso, a pluralidade de
religiões precedeu a separação entre igreja e estado, no segundo
se deu exatamente o oposto. Ao separar uma esfera propriamente civil
e política de uma outra esfera particular e privada e, nesse
movimento, confinar a religião exclusivamente à segunda,
incidentalmente o estado brasileiro abriu uma brecha para que as
diferentes facções e tendências que antes eram obrigadas a se
abrigar sob o guarda-chuva da igreja de Roma pudessem, pouco a pouco,
se organizar, diferenciar e constituir-se como novas denominações e
seitas. Nesse aspecto, a garantia da proteção aos locais de culto e
a isenção de taxas e impostos (subsídio indireto?) foram dois
incentivos estatais de fundamental importância.
Mais recentemente, tornou-se lugar-comum falar na religião como um
mercado ou sobre a mercadorização das religiões. Segundo esse
ponto de vista, paralelamente à consolidação do capitalismo
industrial e do processo de urbanização no Brasil – entre a
primeira ditadura, de Getúlio Vargas, e a segunda, civil-militar,
nos anos 1960, 1970 e 1980 – emergiu um sem número de novas
denominações cristãs, sejam elas cismas pentecostais, neo
pentecostais, protestantes, espíritas, etc. ou até mesmo facções
de dentro da própria igreja católica, como a teologia da libertação
ou os carismáticos, entre tantas outras. Em face dessa
multiplicidade de opções, caberia ao fiel desempenhar o papel de um
consumidor que escolhe “livremente” a mercadoria mais adequada às
suas preferências, de acordo com uma racionalidade cujo conteúdo se
resume ao princípio utilitarista da maximização dos ganhos e
minimização das perdas em um plano meramente individual. Nesse
cenário, a posse de meios de comunicação em massa que permitem
viabilizar a difusão da publicidade religiosa se torna talvez a
ferramenta mais poderosa nas mãos das empresas... digo, igrejas. A
meu ver, esse diagnóstico do mercado religioso é útil, já que
possibilita um mapa mínimo para nos situarmos frente ao problema,
porém insuficiente, por ser um modelo que simplifica demais a
realidade e, nesse lance, nos faz perder de vista certas nuances
importantes. Por isso, proponho aqui o conceito provocativo de
religião de conveniência, como uma maneira de desenvolver ideias
implícitas no paradigma de mercado religioso, embora sem qualquer
pretensão de esgotar o debate ou fornecer respostas definitivas.
Para isso, teólogos e pastores se bastam.
O termo conveniência nos remete quase que imediatamente ao universo
semântico do circunstancial, de algo que é adequado aos fins a que
se propõe e, forçando um pouco, talvez a uma ideia de uma não-ação
que, via de regra, nos leva sem muito esforço até aquilo que
desejáramos desde o início. Nesse sentido, ser conveniente se
relaciona, de alguma forma mais ou menos obscura, com poupar
recursos, seja tempo, dinheiro, esforço físico, trabalho mental ou
o que for. Há também um significado enviesado de um certo egoísmo
e de uma certa preguiça quando nomeamos os atos de outrem como
convenientes. Penso aqui em alguma briga de casal, por exemplo,
quando a mulher hipotética se vira e diz: – ah, é muito
conveniente da sua parte ficar aí no sofá assistindo ao jogo de
futebol enquanto eu tenho que me virar com as tarefas domésticas!
Resumindo o ponto: a locução adjetiva ´de conveniência` será
entendida ao mesmo tempo como algo que funciona para atingir os fins
a que se propõe (uma ação eficaz) e como um meio eficiente para
poupar recursos, cortar custos e abreviar caminhos. Dadas duas
estratégias de ação igualmente qualificadas para atingir um
determinado objetivo, será mais conveniente aquela que empregar um
mínimo de recursos para a sua consecução.
De que maneira a escolha de uma religião entre outras se relaciona
com a ideia de conveniência que eu acabei de expor? Antes de abordar
esse problema, convém indagar qual é o contexto histórico e
social em que ocorre a escolha do consumidor/fiel. Muito
superficialmente, do ponto de vista da esfera da produção, trata-se
de uma nação latino-americana não muito diferente das demais, cujo
processo de industrialização, permeado por altos e baixos, avanços
e recuos, se completou quase que integralmente há coisa de uns
trinta ou quarenta anos, cuja economia ainda é bastante dependente
de outros centros de acumulação capitalista, seja para a aquisição
de tecnologias de produção e bens de consumo, seja pela necessidade
da atração constante de capital financeiro para suprir a ausência
de uma poupança interna consistente e cujo índice de urbanização
provavelmente já chegou ao seu ápice, com enorme concentração
demográfica em algumas poucas metrópoles situadas quase que
exclusivamente na faixa litorânea. Já no que diz respeito à esfera
das trocas simbólicas, o Brasil tem como algumas de suas principais
marcas identitárias a escravidão, o cristianismo, a violência, a
tropicalidade, a valorização do corpo em detrimento do espírito, a
síndrome de vira-lata, o carnaval, a ideia de uma natureza pródiga
e exuberante, etc. – tudo isso e muito mais que, num plano mais
científico e formal, redundou em ideologias como a democracia
racial, o homem cordial e a noção vaga de país do futuro, entre
muitas outras.
Do longínquo para o próximo: o contexto dos anos 1990 em diante é
marcado por uma ampla reforma do aparelho de estado, marcada pela
criação de novas e inéditas instituições e mecanismos
supostamente democráticos e liberais: uma corte constitucional (o
STF), um banco central autônomo, agências governamentais para
regulamentação de atividades de interesse público desempenhadas
por entes privados, desmanche do aparato burocrático do Estado
desenvolvimentista (em especial por meio da prática da privataria),
uma política alfandegária nada protecionista, a ascensão de uma
agenda de integração comercial com os países vizinhos e uma
polarização do campo político em dois partidos centrais ao redor
dos quais orbitam todas as outras forças secundárias e marginais.
Some-se a isso políticas públicas de massiva distribuição de
renda e a coexistência de uma dualidade estrutural no provimento dos
direitos sociais “clássicos”: ao lado do sistema público de
educação, criou-se o mercado de escolas privadas; ao lado de um
sistema público e universal de saúde, formou-se o mercado de planos
e seguros de saúde; ao lado de um sistema público de aposentadoria
e previdência social, emergiu o mercado dos planos de previdência
privada complementar. Esses e outros mercados só puderam se
desenvolver como uma função dos incentivos diretos e indiretos do
Estado, principalmente por meio da dedução desses gastos do imposto
de renda recolhido pelas classes médias e elites (financiamento
indireto dos bens públicos providos pela esfera privada). Nessa
perspectiva da dualidade estrutural, não é de estranhar que, pouco
a pouco, cristalizou-se a ideologia de que ao Estado competiria o
provimento dos direitos sociais somente e tão somente aos estratos
sociais sem capacidade para acessar o mercado privado de bens
públicos como consumidores competentes e diferenciados. E assim
pereceu a ideia de um estado de bem-estar no Brasil. Ideia essa que
jamais foi muito mais do que uma ideia, um projeto ou uma boa
intenção para a imensa maioria dos brasileiros desde sempre
alijados da economia de mercado.
Deixando o país um pouco de lado, cabe indagar qual seria a função
social da religião. No período colonial não há muita discórdia:
o catolicismo foi a ideologia que sustentou toda a empresa
colonialista, seja ao legitimar a escravidão dos africanos e todas
as práticas de tortura, marginalização e violência a ela
associadas, seja ao justificar o genocídio dos povos indígenas, ou
ainda por exercer um rígido controle social também sobre as
minorias brancas por meio de mecanismos como a inquisição, o
monopólio da educação e do saber, ou, até mesmo, pela própria
condição material da igreja, desde sempre grande proprietária de
terra, metais preciosos e meios de produção social. Já no período
pós-independência, é um pouco mais difícil avaliar o quanto as
religiões se tornaram mais ou menos importantes vis-à-vis
à sociedade. Por um lado, mesmo no Estado dito laico, as igrejas
continuaram a desempenhar um papel político de primeira importância,
normalmente alinhadas com os interesses das elites mais
conservadoras, como os episódios do golpe de 1964 e a eleição de
Fernando Collor tão bem demonstraram. No campo do saber, embora a
religião tenha tido que enfrentar a “concorrência” de outras
visões de mundo totalizadoras, em especial a epistemologia
cientificista de viés positivista, é inegável que seu prestígio
continuou e continua em alta, até mesmo dentro das universidades.
Num plano mais alto de abstração,
cumpre reconhecer que a religião desempenha diversas funções úteis
àqueles que nela depositam sua fé. Em primeiro lugar, há o
componente ideológico: toda religião fornece um “esquema mental”
fácil, simples e acessível para uma compreensão imediata da
totalidade da experiência humana. Além disso, ao transpor para um
plano sobrenatural e inacessível categorias de dominação
socialmente construídas e vividas, tais como a dominação do homem
sobre a mulher, do rei sobre seus súditos, do rico sobre os pobres
ou do pai sobre os filhos, a religião monoteísta naturaliza e
justifica certas práticas sociais perversas e, assim, impede que as
mesmas sejam submetidas à crítica da razão ou transformadas pela
ação política. Por outro lado, num plano micro, a religião serve
como um elo de ligação entre o indivíduo e o meio social em que
ele vive: primeiro, por fortalecer os laços de solidariedade e
identidade comunitária e, segundo, por funcionar como um parâmetro
para avaliar o quanto a conduta individual se desvia ou se conforma
ao que o grupo (supostamente) espera desse indivíduo.
Saindo do plano meramente individual, as religiões de matriz cristãs desde sempre
estiveram diretamente vinculadas à produção social da miséria. É
quase que uma associação imediata: ao imaginarmos a edificação de
uma igreja católica qualquer, seja num vilarejo medieval ou numa
cidade contemporânea, logo vem a mente a figura grotesca do séquito
de mendigos pedindo esmolas ao redor dessa igreja. Os próprios
fundamentos da moral cristã se assentam nessas bases, afinal, como
seria possível a caridade, as boas ações ou o amor ao próximo sem
a existência de uma classe de despossuídos à qual essas ações
pudessem ser dirigidas? Formulando em outros termos: a toda ideologia
de caráter assistencialista necessariamente corresponde algum
mecanismo de reforço dos instrumentos sociais pelos quais a exclusão
e a miséria se perpetuam no tempo e se difundem no espaço.
Consciente ou inconscientemente, com intenção manifesta ou como
mero subproduto de práticas bem intencionadas, o resultado é
inegável: sociedades submetidas ao domínio espiritual do
cristianismo são sociedades não somente desiguais, como também
produtoras de miséria. O miserável, o doente, o louco e o
não-europeu são o Outro do cristianismo: pensar em uma coisa
pressupõe reconhecer a existência concomitante da outra. Resumindo
o teorema: onde existir cristianismo com certeza também existirá
miséria. Daí se pode concluir que o cristianismo é um dos
responsáveis pela produção e reprodução social da miséria? A
resposta, sem sombra de dúvidas, é afirmativa.
Retorno ao conceito de religião de conveniência. Quais as
motivações que levam um determinado indivíduo a optar por uma
determinada religião e não outra? Evidentemente, a frente de todas
as demais explicações figura o convívio familiar. Filhos nascidos
de pais cristãos têm uma alta probabilidade de também contraírem
a mesma síndrome, embora os meios pelos quais ela seja transmitida
sejam vários e diversos: desde a persuasão mais sutil por meio do
exemplo que redunda em imitação até as maneiras mais coercitivas e
violentas de forçar crianças a frequentarem cultos e se submeterem
ao mecanismo de poder que toda igreja possui para fabricar a lealdade
de crianças e jovens aos seus dogmas e, dessa forma, programar seus
cérebros de acordo com uma visão teológica do mundo. Não é por
acaso que família (enquanto utopia) e igreja estejam sempre tão
intimamente associados nos mais diferentes tipos de discurso. É uma
relação de mão dupla: se, de um lado, a família é a condição
para que as igrejas se reproduzam no tempo, por outro lado, o
conteúdo da ideologia judaico cristã garante ao pai uma legitimação
para o seu domínio sobre os demais membros do grupo familiar, uma
vez que isenta todas as suas possíveis condutas violentas de
responsabilidade, já que situa a origem dessa relação de poder num
plano sobrenatural que e é, por sua própria natureza
transcendental, algo absolutamente inquestionável, dado e externo à
vontade livre do sujeito.
No caso específico do Brasil, essa configuração do pluralismo
religioso como um subproduto de incentivos provenientes do Estado é
um elemento bastante importante. Dado que a transmissão da religião
nem sempre se dá de forma linear e sem resistências no interior da
família e dado que as novas seitas, denominações e igrejas
proliferam-se num ritmo infinitamente mais veloz do que aquele pelo
qual uma geração sucede à outra, configura-se uma situação sui
generis: a lealdade com que uma
criança ou jovem adere a uma religião se dirige muito mais a um
conteúdo de caráter um tanto genérico – um cristianismo mínimo
e sua moral – do que propriamente a uma denominação religiosa
específica. Assim, não é nada incomum o sujeito migrar de uma
religião para outra ao longo de seu tempo de vida ou mesmo pertencer
simultaneamente a mais de um credo. As raízes históricas desse
fenômeno certamente estão relacionadas com as formas pelas quais a
religião popular se articulou com a “igreja oficial” durante o
período colonial, com a interpenetração e confusão de diferentes
ritos e práticas religiosas nos sincretismos tão caros aos
historiadores, como é o caso do candomblé. Mas o mesmo raciocínio
também é válido para o espiritismo, por exemplo, com a sua
pretensão (um tanto ridícula) de introduzir a possibilidade do
diálogo direto com pessoas mortas sob uma fachada de cristianismo.
Colocando em outros termos: se
durante o período em que o catolicismo exercia seu monopólio esse
catolicismo nunca foi o que acreditava ser ou o que acreditava que
deveria ser, ou seja, abrigava dentro de si práticas e crenças
absolutamente estranhas e contraditórias entre si, configurava-se
como um “catolicismo de fachada” (a melhor descrição desse
fenômeno está na passagem de “Dom Casmurro” em que Machado de
Assis descreve o desfecho da promessa que a mãe de Bentinho fizera
quando do nascimento do protagonista), com o fim do monopólio, a
aparente multiplicidade de novas seitas e religiões na prática
jamais conseguiu extrapolar a órbita de uma moral, em seu cerne,
noventa e oito por cento católica. Se antes o múltiplo e o plural
estavam escondidos dentro do único, agora é o pensamento único que
se esconde por trás de uma aparente pluralidade. Digamos assim: o
catolicismo brasileiro desde sempre esteve esvaziado de muitos de
seus conteúdos originais, até como uma maneira de acomodar dentro
de si alguns elementos das culturas negras e indígenas, de modo a
viabilizar o desempenho de seu papel primordial no projeto
colonialista de limpeza étnica e conversão religiosa por meio da
violência. Dessa forma, esse catolicismo frouxo tornou-se quase que
uma gramática, um arcabouço, uma estrutura com algum grau de
abstração à qual poderiam aderir conteúdos os mais diversos. Com
a passagem para o período republicano, as outras denominações
religiosas não fizeram mais do que se apropriar desse
catolicismo-gramática e preenchê-lo com determinados conteúdos
mínimos que permitissem alguma diferenciação superficial, embora
suficiente para se poder falar em novas igrejas. Eis a receita do
pluralismo brasileiro, que está na raiz da ideologia de que a nossa
nação é o protótipo da perfeita convivência democrática entre
diferentes credos e exemplo de tolerância para o mundo.
Essas ideias que eu acabei de expor
são fundamentais para entender porque a religiosidade contemporânea
pode ser descrita como uma religiosidade de conveniência. À família
caberia a introdução das crianças e jovens nesse conteúdo mínimo
de cristianismo que constitui a gramática com a qual se produzem
todas as linguagens e narrativas do cristianismo brasileiro. Mais
tarde, esse indivíduo é incentivado a buscar o discurso específico
com o qual ele mais se identifica ou que mais vantagens sociais e
materiais lhe pode proporcionar. Nesse processo, a transição por
diferentes igrejas é uma etapa fundamental, que corresponde à mesma
racionalidade com a qual um consumidor que vai comprar roupas
experimenta os mais diferentes modelos para poder concluir qual lhe
cai melhor, qual se ajusta melhor ao seu corpo. Lembremos o que está
contido na ideia de conveniência: dadas duas estratégias capazes de
atingir um mesmo fim, será mais conveniente aquela que implicar em
menores custos, aquela que mais for capaz de poupar recursos.
Por fim, uma breve reflexão sobre
o meio ambiente social em que a religião de conveniência existe.
Nada de muito novo aqui: trata-se, sobretudo, das periferias das
grandes cidades e das cidades do interior do país. Entre as elites,
embora não seja de todo incomum a prática da religião de
conveniência – e penso aqui em certos cristãos que, doentes e à
beira da morte, se convertem ao espiritismo como um meio de fantasiar
que a personalidade individual de um ser humano poderia existir
destacada de seu substrato corporal e, com essa bobagem em mente, se
agarrar ferozmente ao seu individualismo egoísta até o último
suspiro – o mais usual ainda é o apego a alguma forma de
catolicismo mínimo, sem a necessária frequência aos ritos, missas
e cerimoniais. E como afirmei acima, ao contribuir para a produção
e reprodução social da miséria, o cristianismo, ao mesmo tempo, legitima e faz a
sua parte para que as elites continuem a se reproduzir enquanto
elites. Apoiar a ordem política e econômica estabelecida, pouco
importando qual conteúdo ou propósito essa ordem tenha, nunca
representou nenhum dilema moral para a alta cúpula da igreja, muito
pelo contrário: Pio XII, João Paulo II e Ratzinger que o digam!
Que cara tem essa população que vive nas periferias e pratica a
religiosidade de conveniência? Em primeiro lugar, trata-se de uma
fração importante da classe trabalhadora, boa parte dela tendo
emigrado de outras regiões do país – ou filhos desses imigrantes
– e cujas famílias vivenciaram a experiência da mudança do meio
rural para o meio urbano há não muito tempo atrás. No que diz
respeito à dimensão espacial dessas periferias, são zonas de
ocupação muito recente e desprovidas de recursos mínimos de
infraestrutura urbana. Nesse contexto, não seria de todo impróprio
utilizar o conceito durkheimiano de anomia para descrever, ainda que
em linhas muito gerais, a situação de abandono material e confusão
espiritual em que subsistem essas pessoas. No plano da relação
entre o indivíduo e seu ambiente, portanto, a religiosidade de
conveniência é o meio mais adequado para fornecer ao sujeito uma
receita pronta de visão de mundo que seja compatível com as suas
aspirações mais imediatas e, de quebra, permita o estabelecimento
de laços mínimos de solidariedade e identidade comunitária em um
ambiente (supostamente) hostil. Já no que diz respeito a sua função
social, as igrejas instaladas nas periferias podem também
desempenhar o papel de provedoras de certos bens públicos –
valendo-se, para isso, da linguagem do assistencialismo – em
regiões onde a presença do Estado e suas instituições é mínima,
quando não inexistente. Dessa forma, as igrejas capitalizam para si
uma imagem positiva junto às comunidades e, assim, reforçam sua
pretensão de se apresentarem como um discurso alternativo e
qualitativamente superior ao político e ao científico.
Como conclusão, lanço uma ideia no ar. Neste contexto atual de
ascensão de forças políticas conservadoras proto-fascistas que se
apoiam no discurso e na propaganda política veiculada dentro das
igrejas de conveniência que dominam os bairros e as periferias, a
pergunta é: será que esse exército de zumbis recrutado dentro dos
templos cristãos fundamentalistas será capaz de se articular
publicamente para impor sobre a totalidade da sociedade a sua visão
estreita de mundo e instaurar uma ordem política teocrática? Em
outras palavras: o pluralismo religioso brasileiro, filho natural da
instauração da república e da separação entre estado e igreja,
será ele o agente que porá fim a essa separação e nos lançará a
todos numa nova Idade Média?
Com a palavra, a bancada evangélica no congresso, os donos de
emissoras de televisão e o candidato a prefeito Celso Russomanno...
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