A família toda reunida para o jantar, coisa que não acontecia desde o enterro de tia Ildegarda e acho que isso foi em 91, se não me engano. A mais velha das filhas, Elizabete, foi morar nos Estados Unidos e era a primeira vez que voltava para o Brasil – pelo menos era o que o pai pensava – e o Joca, sobrinho da Rute, dava risadinhas para o primo quando a Bete se punha a falar daquele jeito engraçado, com um sotaque esquisito, puxando todos os erres e colocando as palavras mais estranhas no meio das frases mais triviais:
- Como é mesmo que chama aquele negócio que a gente põe no coffe pra ficar doce?
O cachorro não dava sossego para a avó, se esfregando pelas pernas dela com o rabo como se fosse um gatinho siamês. O tio Wilson, como sempre, implicava com a televisão e dizia todo bravinho que não tinha cabimento todos desperdiçarem a primeira (e talvez a última) oportunidade de se encontrarem depois de quase vinte anos assistindo essas porcarias de programas de auditório. A avó não escutava, mas Rute respondia que ele era um exagerado, ora essa, afinal não tinha nada demais e ajudava a distrair as crianças e além do mais daqui a pouco ia começar o seriado que a avó gostava de assistir, aquele com o homem que tinha uma capa azul e uma mulher que ficava invisível. E a mãe logo vinha correndo lá do fogão com o avental todo desbotado, empunhando uma escumadeira e querendo apartar toda e qualquer rusga que pudesse comprometer o sucesso daquele almoço, que um dia antes ela qualificara com o adjetivo de histórico. Mas no que ela virava as costas, as piadinhas todas voltavam.
Rubens lia o jornal e fazia caretas para as notícias de economia, as crianças corriam atrás do cachorro tentando grudar um pedaço de fita crepe no rabo dele e o pai fumava cachimbo e tentava atrair a atenção do tio Wilson com comentários sobre a última rodada do futebol. O marido da Rute quis se meter no meio deles, mas o pai não levava minimamente a sério suas opiniões – o marido da Rute era palmeirense roxo e não tinha nenhum interlocutor para assuntos futebolísticos naquela sala de jantar que parecia pequena demais pra tanta gente ali naquele momento. Os homens se serviram de um aperitivo: vodca sem limão e uns canapezinhos para beliscar enquanto a comida não saía. O Joca-sobrinho-da-Rute reclamava para todas as mulheres da sala que estava com fome, mas não tinha coragem de ir até a cozinha e expor seu drama diretamente à mãe. Ninguém tinha pena dele e depois de insistir (mas nem tanto assim) desistiu e foi olhar a sessão de quadrinhos do jornal.
Elizabete se queixou do calor. Rubens se queixou do dólar. Tio Wilson reclamou da zaga do Corinthians. A Rute, coitada, teve que repreender o sobrinho duramente em público pela oitava vez em menos de vinte minutos porque ele queria jogar os bibelôs da avó dentro do aquário. O pai não se queixava de nada específico, mas fazia cara feia cada vez que alguém falava alguma coisa sem esperar o consentimento dos olhos e do intelecto privilegiado dele. O primo do Joca queria puxar o pano que cobria a mesa sem derrubar os copos nem os pratos, que nem ele tinha visto num filme na noite anterior. A mãe queimou o dedo de leve na panela de arroz.
E o almoço, enfim, foi servido.
Almoço não: jantar.
Durante a entrada, Elizabete teve um infarto e quatro pessoas se encarregaram de tentar reanima-la e leva-la com vida até o hospital mais próximo, que na realidade ficava bem longe. As crianças, depois de uma meia-hora, foram as primeiras a sentirem os sintomas da intoxicação alimentar. Tio Rubens morreu ali mesmo na rede, cochilando e ninguém nem deu bola até o dia seguinte. A Rute, coitada, pegou uma infecção hospitalar nisso de levar a Elizabete e depois já voltar, pegar as crianças, ir pro hospital de novo, perceber que não tem mais vagas, ir pra outro hospital ainda mais longe, etc. A mãe morreu de desgosto umas poucas horinhas depois e o cachorro fugiu pelo portão da frente, que ficou aberto no meio daquela correria toda. A avó morreu de causas naturais, segundo o relatório do médico legista.
E o pai, verdadeiro herói grego, herdou todos os bens da família: quatro notas promissórias e a conta de tantos caixões, velórios e jazigos.
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