terça-feira, junho 28, 2005

LAR

Ao redor do fogo, cercado por paredes, coberto por um teto: o lar. Verdadeiro refúgio num mundo hostil, garantia de que todas as ameaças permaneçam trancadas para o lado de fora – nos primórdios eram os animais selvagens e as catástrofes da natureza, hoje são os outros homens, o barulho da cidade, os automóveis. Habitar um lar é dotá-lo de personalidade, fazer de uma casa qualquer a sua casa específica, dar cara e voz para os objetos inanimados e para os cantos e espaços mais escondidos. Habitar é preencher. Povoar a casa com meus objetos: essa minha vida que cabe nessas tantas caixas de papelão. Objetos que também contam a minha história da mesma forma que a soma de todas as casas que morei: são presentes, achados e escolhas que semeiam lembranças de tudo aquilo que eu fui e que vim a me tornar.
Me deito sobre o chão e sinto que esses objetos querem me dizer algo. Essa mesa grande e antiga que passou por outras tantas casas e absorveu de cada pessoa que um dia se sentou ao seu redor (para comer, escrever ou jogar cartas) alguma coisa de indefinível, mas palpável. Essa mesa que me olha com autoridade e parece querer me dizer que é capaz de resistir e durar muito mais do que esses frágeis e apressados humanos que se servem dela sem lhe render as devidas homenagens. No máximo um banho de lustra-móveis uma vez por semana. Me aproximo e a toco, observo detalhes na madeira que nunca tinha visto, a olho de baixo, subo e me deito sobre ela: a mesa. Dialogo com ela, pergunto sobre seu passado de árvore, os tempos de madeireira, de vitrine de loja, quero saber das crianças que desenhavam e dos objetos que com ela conviveram mais intimamente. Será o verniz que te faz tão macia? Ou a velhice que te deixou tão rígida? Encosto meu rosto sobre o tampo e apalpo com meus dedos os caminhos abertos pelos nós da madeira. Logo mais ela se cala, estática e ereta.
No canto da sala, o pobre criado-mudo – em cima dele o abajur. Na parede, os quadros abstratos não me mostram paisagens. Uma mulher esteve aqui. Sobre a mesinha repousam estatuetas, máscaras, castiçais, flores, pequenos animais de vidro, um incenso apagado, representações vulgares de deuses hindus. Dois sofás dispostos em L, no centro um tapete e sobre o tapete um pufe. Mais além o aparelho de som, o dvd, a televisão – encaixados e dispostos de um jeito que destoa do restante do aposento. Não sou de vasculhar gavetas. Gosto da cor e do tecido das cortinas, do porta-chaves pregado na parede e do capacho escrito “bem-vindo”. No mais são só almofadas, de diversas cores, formatos e tamanhos.
Me aquieto e fico a escutar a sala. Habitar é usar – pensar e conversar podem nos levar longe demais. A garantia de intimidade e conforto vem do domínio dessa linguagem silenciosa e oblíqua que não pára nem diz, simplesmente faz. Me recuso a evocar lembranças, desisti de saber de mim pelos outros – quero me apegar aos cheiros, as formas, as cores, as marcas do tempo e do desgaste engastados nessas coisas que me cercam num afago familiar, mas não dramático. Os objetos ao meu redor desconhecem a precariedade do universo humano feito de maquiagem e teatro. Existem, são úteis na medida do possível e isso basta.
Sou feito de recortes e retalhos. Das coisas que compro, das coisas que escolho, das coisas que guardo com carinho e só mostro pra pessoas especiais em ocasiões de gala. Receber alguém em casa é como se despir: mostramos partes de nós mesmos que ficam ocultas para o mundo. É preciso saber receber presentes, saber dispor os objetos com proporção e método, de modo que eles sejam fiéis à anatomia do meu espírito e digam algo de novo para as pessoas. Que os pobres objetos sussurrem para quem ousar profanar meu recinto sagrado: EU ESTOU AQUI EM TODAS AS PARTES.

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