<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792</id><updated>2012-01-28T01:26:14.631-02:00</updated><title type='text'>Album E-zutique</title><subtitle type='html'>literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>115</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1630238084019304095</id><published>2012-01-28T01:25:00.000-02:00</published><updated>2012-01-28T01:26:14.641-02:00</updated><title type='text'>São Paulo</title><content type='html'>A São Paulo da minha infância era cortada ao meio pelo rio Pinheiros. De um lado, o Butantã, sem trânsito e cheio de árvores, meu espaço onírico com caminhos infinitos para pipas, bicicletas e traquinagens comportadas. Porém, para se ir ao mercado, ao shopping ou à casa de algum parente era necessário atravessar a ponte e embrenhar-se pela selva de pedra que, se não era tão cinza como viria a se tornar nas duas décadas seguintes, era feia e cheia de paredes pichadas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A São Paulo da minha adolescência tinha barulho de turbina de avião, com a imensa zona sul e seu aeroporto de Congonhas. Zona Sul que sempre teve pra mim um quê de cidade dormitório: a minha escola-zona-oeste era cheia de vilamadalenos e lindas madalenas e quando eu aprendi a andar de ônibus descobri o quanto a avenida Paulista era linda e hipnotizante em qualquer hora do dia ou da noite.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Aos dezessete, a minha São Paulo já era muito mais larga: amizades inimagináveis no Bom Retiro, na Casa Verde, na Vila Gustavo, amores e verdades em plena zona norte. Shows no Pacaembu, no Morumbi, no Anhangabaú, no Olympia ou no Ibirapuera: era uma cidade que se desenhava em seus pores-dos-sóis vistos pela janela do metrô,naquele trecho em que se cruza o Tietê entre a estação armênia e o terminal rodoviário. Fui feliz e sabia que era, por mais que a pose fosse de poeta romântico e os amores todos impossíveis.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando sobrevivi a virada dos vinte, retomei muito da São Paulo-zona-oeste-butantã. Era tempo de gramados verdíssimos da Praça do Relógio, na USP, jardins que são floridos e bonitos mesmo quando fica noite. Era o tempo de sinucas no largo da batata, de voltar para a casa de madrugada andando na solidão infinita de moemas e campos belos, tempo de três cidades em uma só em menos de vinte e quatro horas. Época de ouro das baladas da vila e da augusta, muitas e muitas noites dormidas só de manhã naqueles apês incríveis na região da Artur Azevedo, o espaço entre a rua João Moura e a rua Morato Coelho.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Hoje eu sou augusta por dentro e por fora. Só me sinto confortável de verdade aqui, onde a mistura dessas múltiplas São Paulos rende o seu melhor, com todos os seus estilos, todas suas pessoas bonitas, descoladas, interessadas, interessantes, onde uma madrugada nunca repete a outra por mais que a trilha sonora quase sempre faça a gente viajar para outras e muitas cidades reunidas numa esquina só. Fui buscar um amor na zona leste, como que para fechar esse rodoanel de experiências paulistaníssimas que percorrem a metrópole na velocidade de um desses pensamentos tão gostosos que aqueles que nasceram e sempre moraram neste lugar se permitem uma vez por ano, normalmente em vinte e cinco de janeiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1630238084019304095?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1630238084019304095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1630238084019304095&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1630238084019304095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1630238084019304095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2012/01/sao-paulo.html' title='São Paulo'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-6619738025349488531</id><published>2011-12-15T21:46:00.000-02:00</published><updated>2011-12-15T21:47:37.504-02:00</updated><title type='text'>Impressões sobre "A Privataria Tucana"</title><content type='html'>É um livro escrito por um jornalista para pessoas acostumadas a se informarem e formarem suas opiniões a partir de relatos jornalísticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	A impressão que me ficou ao terminar de ler o livro é a de que o autor poderia ter se concentrado mais sobre os acontecimentos relacionados com as privatizações, faltou uma amarração no enredo. Dessa forma, os capítulos em que o autor/jornalista figura como personagem principal da narrativa têm um detalhamento e um tratamento estilístico muito mais apurado do que os capítulos em que se descreve a época do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Os capítulos em que Amaury Ribeiro Jr. é o personagem de uma narrativa em terceira pessoa estão no começo e no final do livro: no capítulo 1, talvez o mais bem sucedido literariamente do livro,  Amaury conta como sofreu um atentado em um bar em uma cidade satélite de Brasília (ou em Goiás, não me lembro), quando investigava o “crime organizado” dessa região e procurava desvendar o que estava por trás do surto de homicídios de jovens no “faroeste caboclo”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Já nos capítulos finais, vemos Amaury como o pivô de um (suposto) grande escândalo durante as eleições para presidente em 2010. Nessa parte, o autor deixa muitos fios soltos e exagera o impacto da grande mídia sobre a formação de opiniões políticas na sociedade: exagera, por exemplo, o papel da revista Veja, do jornal Folha de São Paulo e dele mesmo sobre o que aconteceu entre julho e novembro de 2010. Eu, por exemplo, considero que a aliança estratégica, cínica e homicida dos dois candidatos em prol da interferência das igrejas fundamentalistas cristãs sobre a legislação machista brasileira sobre o aborto foi um episódio infinitamente mais relevante, que pôs em evidência o que realmente estava em jogo naquelas eleições, do que um suposto embate entre PSDB e PT para provar quem havia sido menos corrupto quando estava no poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Tanto assim que anulei meu voto no segundo turno e considero que o governo Dilma se mostra covarde e reacionário toda vez que emergem conflitos entre fundamentalismos, de um lado, e direitos humanos, de outro. Comissão da Verdade e prisão de torturadores sem dúvida são causas que estão na ordem do dia, mas estancar o massacre de mulheres, em geral negras, nordestinas, faveladas, analfabetas, excluídas do mercado de trabalho e da previdência social, violentadas dentro e fora de casa, seja nos grandes centros urbanos ou nos sertões mais brutalizados deveria ser o problema político mais importante a ser enfrentado pelo governo que aí está. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Ao mesmo tempo em que o Brasil inclui novas levas de pessoas na economia de mercado e dá oportunidade de classemedialização a tanta gente, só vemos crescer os preconceitos, a influência de seitas e religiões fundamentalistas, certos consensos sobre a distribuição de riquezas e bem-estar conforme desígnios divinos e leis imutáveis da natureza. Crescem as ideologias, a reificação, a alienação e os discursos nacionalistas, xenófobos, racistas, machistas, homofóbicos, etnocêntricos, neoliberais, claros, objetivos e impessoais como uma reportagem de jornal ou de revista, publicada na Veja, na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo, na TV mercantilista-evangélica Record ou na TV fundamentalista-católica Rede Globo - torturadora e militar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Voltando ao livro: nos capítulos mais propriamente substanciais do volume, o autor se utiliza da seguinte estratégia: circunscreve a ação a certos personagens umbilicalmente ligados ao núcleo duro do PSDB (o tesoureiro da campanha de FHC Ricardo Sérgio, seu sócio, a filha de José Serra e seu marido), delineia o modo como essas pessoas enviavam recursos para uma empresa de fachada nas Ilhas Virgens Britânicas e depois repatriavam esses valores. É no mínimo estranho como o autor não faz qualquer menção que pudesse responsabilizar outros figurões do “partidão”: nenhuma acusação sobre FHC, sobre ACM, sobre Aécio Neves, sobre Paulo Renato, sobre Sérgio Motta e nem sobre os tecnocratas do BC e do ministério da fazenda. Tudo se limita ao clã Serra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	A insistência do autor/jornalista em dizer que obteve todas as suas provas em cartórios brasileiros também soa um pouco ingênua. Cartórios, gostem os formados em direito ou não, são concessões vitalícias completamente anacrônicas e inúteis, ainda que tremendamente lucrativas para as pessoas de pele branca que os possuem. A mim, pelo menos, afirmar que obteve as provas em cartórios não é algo que corrobore para a seriedade ou validade dessas provas, muito pelo contrário. A corrupção e o patrimonialismo marcam a existência de todo e qualquer cartório desde os tempos das capitanias hereditárias (dos quais são o principal resquício até os dias de hoje).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Ponto dois: fica, da leitura do livro, o tempo todo uma impressão de que o autor poderia ter ido mais fundo, mas preferiu não fazê-lo por conveniência ou medo. Conveniência: falar mal do clã Serra é chutar cachorro morto, afinal, ele mesmo, ao longo de toda sua trajetória pública, fez toda questão do mundo de se sabotar. Desde a época em que era presidente da UNE no governo João Goulart – a propaganda política dele coloca isso como um “plus”, mas não conta que ele era presidente porque chefiava a facção CATÓLICA do movimento estudantil, então hegemônica na entidade. Os mesmos católicos que foram os principais apoiadores do golpe de 64. Mais recentemente: ao ser eleito prefeito de São Paulo, registrou um documento em cartório (de novo em cartório) afirmando que não abandonaria o mandato para perseguir projetos políticos megalomaníacos e pessoais. Não deu outra: jogou a prefeitura de São Paulo no colo do malufista Kassab, assim como já tinha jogado o governo do estado no colo do ultrarreacionário apoiador de torturadores Alberto Goldman. Por fim, já no desespero da derrota eleitoral em 2010, o capítulo mais triste de sua famigerada biografia: a aliança macabra e assassina com os fundamentalistas em nome da bandeira da criminalização e marginalização das mulheres que são obrigadas, pelas circunstâncias desta sociedade patriarcal e machista, a praticarem o aborto. Como sua esposa, no Chile. Por que Serra, ao abraçar essa causa neonazista, não entregou sua própria mulher para que a polícia a colocasse na cadeia? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Medo: o autor é jornalista. Seu ganha-pão depende de satisfazer os anseios das poucas famílias que monopolizam todos os jornais e redes de televisão do Brasil. O autor é jornalista. Se escrevesse um livro que comprometesse figuras que são adoradas pela mídia e pela opinião pública, poderia não ter seu livro editado nem levado a sério, mesmo que o Serra não se prestasse ao ridículo de querer censurar sua publicação nem comprar os estoques da Livraria Cultura. O autor é jornalista. Tem medo de não encontrar lugar para exercer sua profissão se o sistema que aí está desmoronar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Dicas para uma segunda edição revista e ampliada: seria fundamental se aprofundar no que realmente importa, ou seja, a “privataria” em si. Caberia, no lugar de todas essas reproduções fac-símiladas de documentos de cartório, colocar gráficos, tabelas e mapas em que se pudessem ver o que foi, de um modo abrangente, a privatização das empresas estatais no primeiro governo FHC. Assim: empresa X, cujo faturamento e patrimônio no ano anterior era Y, foi vendida por Z para fulano de tal, com W de financiamento do BNDES. A partir disso, investigar de verdade quem ganhou o quê, como e quando, esclarecendo para onde foram as propinas e em quanto o Estado brasileiro foi roubado desde então. Tarefa grande demais para um jornalista? Nada que um historiador não possa ajudar, ainda mais se a pesquisa for realizada em alguma universidade ou organização estrangeira, bem longe dos matadores de aluguel do planalto central.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Resumo da ópera: o livro é interessante, mas é um livro de jornalista, que não se preocupa em pôr as coisas em perspectiva ou se aprofundar naquilo que se propõe. Mais interessante, a meu ver, são as questões que o autor propositalmente evita e deixa no ar. Mexer com os fundamentos do regime democrático-representativista implantado pelas elites políticas e econômicas com tanto carinho em meados dos anos 1980 seria cutucar um vespeiro enorme. Não tenho dúvidas de que se trata de coisa que um jornalista que trabalhou a vida inteira para grupos da grande mídia seria incapaz de fazer, de novo por medo ou por conveniência. “Privataria Tucana”, portanto, seria propaganda enganosa? Em certa medida sim. Vai abalar as estruturas do PSDB e liquidar a trajetória política desse marginal-assassino-fundamentalista-terrorista chamado José Serra? Não creio. O cinismo e a desinformação estão aí e o eleitor paulista já cansou de eleger pessoas que se tornaram cada vez mais célebre a medida em que eram taxados pela mídia como corruptos. Adhemar de Barros, Paulo Maluf, Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin são alguns exemplos históricos. Igualar FHC a Collor é um primeiro passo; igualar Lula e Dilma aos outros dois é um segundo, mas enterrar esse regime político escroto que aí está é um terceiro passo que ainda está muito além do que a elite branca do país gostaria. Que ela aguarde a sua hora! &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-6619738025349488531?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/6619738025349488531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=6619738025349488531&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6619738025349488531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6619738025349488531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/12/impressoes-sobre-privataria-tucana.html' title='Impressões sobre &quot;A Privataria Tucana&quot;'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-3950023694106992496</id><published>2011-11-26T23:08:00.001-02:00</published><updated>2011-11-26T23:11:00.980-02:00</updated><title type='text'>Estado e Constituição no Brasil</title><content type='html'>O tempo é de dogmatismo em matéria de política. Se nos 70 e nos 80, havia a possibilidade de unificar todos os setores progressistas da sociedade civil e da comunidade política para combater um inimigo comum – o regime militar autoritário e tecnocrático – a partir dos 90 todas as organizações de massa passaram a concorrer por seu quinhão de poder na Nova República Brasileira. Nesse cenário, a Constituição de 1988 tem sido unanimemente caracterizada como o texto sagrado e inviolável que garante as liberdades civis e aponta os caminhos para uma futura consolidação dos direitos humanos de “terceira geração” no país: sistemas públicos e universais de saúde e educação e políticas para erradicação das enormes desigualdades materiais que desde sempre caracterizaram a sociedade brasileira. O diagnóstico chega a ser enfadonho: a constituição é o script que, se efetivamente implantado nas políticas públicas de todo e qualquer governo, fará despertar o gigante adormecido em berço esplêndido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	A carta constitucional de 1988 descreve minuciosamente qual a forma do Estado (suas divisões internas e as relações de hierarquia e subordinação entre os diferentes poderes e agências estatais) e define, entre outras coisas, as regras para a ocupação dos cargos públicos eletivos. A assembleia constituinte que redigiu esse documento transcorreu numa época que se falava em ampla reconciliação nacional e buscou contemplar os interesses tanto dos apoiadores quanto dos inimigos do regime autoritário, um pouco na mesma linha de “compensação histórica” da Lei da Anistia. No fim das contas, o que estava em jogo erar zerar o que havia ocorrido nos vinte anos anteriores e preparar o caminho para um novo pacto social, com uma outra qualidade de relação entre sociedade e estado. Fruto de sua época, a Constituição de 88 trouxe sim enormes avanços em direção a um modelo de regime político republicano, democrático e, quase diria, de bem-estar social ao feitio europeu. Ainda assim, persistem no texto alguns mecanismos e dispositivos autoritários que raras vezes são questionados ou debatidos enquanto tais. Como citado acima, a Constituição é o texto sagrado e inviolável da Nova República Brasileira. Alguns exemplos: a manutenção de um aparato de repressão militarizado e, em ampla medida, autônomo do controle civil (polícias militares estaduais) e um sistema judiciário absurdamente elitista e reacionário (com direito a postos públicos vitalícios, indicação de cargos “pelos pares”, prisão “especial” para portadores de diplomas universitários e uma prática de jurisprudência racista, machista, homofóbica, católica, discriminatória e que funda a esmagadora maioria das suas decisões na condição econômica das partes em litígio).  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Sem dúvida que esses resquícios de autoritarismo são nefastos, podem e devem ser eliminados. Mas talvez o que mais incomode sejam justamente as dimensões progressistas dessa Constituição. Explico: será que esse modelo de Estado importado ipsis litteris das constituições europeias do pós-Segunda Guerra é exequível em outro tempo e lugar (América Latina de fins do século XX e início do XXI)? Existirão formas políticas universalmente válidas e que possam persistir em tempos históricos cujas transformações sociais, tecnológicas, científicas e comportamentais sejam tão rápidas e profundas como o nosso? Mesmo admitindo que sim e que não há espaço para qualquer criatividade institucional no Estado-Nação contemporâneo, já que seu perfil foi delimitado de uma vez e para sempre nas Revoluções Americana e Francesa no Século XVIII, ainda assim há que se fazer uma avaliação se esse modelo efetivamente funcionou no Brasil. Mesmo que não se tenha em mente nenhum outro projeto alternativo ao regime republicano e democrático, isso não invalida a análise crítica do funcionamento das instituições existentes. Nada impede que, caso essa avaliação seja negativa e aponte deficiências estruturais profundas, o regime seja transformado – em qual direção, de que forma e que cara o novo regime terá são problemas a serem respondidos na prática concreta de desmanche do regime atual e não há como (e nem se deve) prever os resultados a partir de uma perspetiva utópica ou teórica. Foi assim nas grandes Revoluções do Século XVIII e, em certa medida, ainda que com muito menor contundência, também foi o caso na “Primavera Árabe” e na transição do autoritarismo para a democracia nos Brasil dos 80: certamente aqueles que derrubaram o regime não desejavam que na futura sociedade brasileira persistissem práticas de tortura, discriminação racial, corrupção e assassinatos praticados por agentes do Estado, mas os jornais escrevem sobre esses assuntos todos os dias e sabe-se, por vivência ou por ouvir dizer, que existe muito mais crimes dessa espécie no mundo do que aquilo que aquilo que porventura é publicado no jornal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Formulação típica no Brasil: é proibido ser contra a liberdade de expressão e contra os outros direitos civis ou individuais, quais sejam: o direito de ter sua própria propriedade privada, o direito de você poder falar o que quiser, direito de se reunir para falar sobre política com quem você quiser e direito/dever de votar em um daqueles nomes e partidos que estão concorrendo numa dada eleição. Além de ser proibido ser contra a liberdade de expressão, também é proibido ser contra a democracia. Entende-se: a elite política que ocupa os cargos com poder para tomar decisões no Brasil de hoje teve a sua formação intelectual e como pessoa no período da Guerra Fria, em que o raciocínio que predominava tinha um caráter dualista: ou se era a favor do liberalismo e da democracia ou se era a favor do comunismo e dos regimes autoritários. Ser contra a democracia é automaticamente ser a favor da ditadura: não existe a possibilidade lógica de uma terceira alternativa. Uma vez escolhido o “lado” em que você está nessa batalha ideológica, todas as demais opções já estão dadas e não há margem para qualquer criatividade ou veleidade individual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Volto a frase inicial deste ensaio: o tempo é de dogmatismo em matéria de política. O modelo de estado já está dado, o sistema político e a estrutura partidária já estão dados, as ideias pelas quais se vive e se morre também já estão dadas.  No contexto contemporâneo, mesmo que alguns já tenham chegado a conclusão de que os conceitos de democracia representativa, república federativa, separação de poderes conforme o livro de Montesquieu, cidadania e amor a pátria já não signifiquem na prática coisa nenhuma, paira um consenso tácito de que é mais prudente não pensar sobre certas coisas, não falar em voz alta sobre certos temas e evitar querer que o nosso pobre Estado-Nação se comprometa a fazer ou “gastar” com coisas que ele não é nem pode ser capaz de fazer. Pensar que a democracia não é a melhor forma de governo que já existiu ou que possa vir a existir no mundo é heresia, utopia e loucura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	No limite, há de se implodir o modelo de estado subentendido no texto da Constituição brasileira de 1988 e escrever uma outra constituição com outros fundamentos políticos e práticos. Reformar o estado não é o fim em si, mas é um passo importante para iniciar alguma transformação na esfera do mundo do trabalho: a médio prazo, puxar o tapete das elites econômicas que aí estão, já que é principalmente dentro das empresas e em horário comercial que se reproduzem algumas das práticas de exclusão e violência mais contundentes: é na entrevista de emprego que o negro sofre racismo, é na hora de decidir uma promoção que aquele que preza concepções políticas reacionárias e conservadoras é privilegiado, é no ambiente de trabalho que a mulher recebe um salário menor para fazer o mesmo trabalho que um homem, é lá que um nordestino, um ex-presidiário ou alguém que não tem endereço fixo não tem qualquer chance, é dentro das firmas que  aqueles que têm cabelo comprido, tatuagens ou filhos, os que não se sentem bem trajando terno e gravata e que repudiam a hierarquia ou andam de cadeira de rodas são excluídos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-3950023694106992496?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/3950023694106992496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=3950023694106992496&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3950023694106992496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3950023694106992496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/11/estado-e-constituicao-no-brasil.html' title='Estado e Constituição no Brasil'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-5679841417981085326</id><published>2011-09-01T13:53:00.001-03:00</published><updated>2011-09-01T13:54:01.692-03:00</updated><title type='text'>Spleen e Melancolia</title><content type='html'>  “Melancolia”, filme de Lars Von Trier, se divide, grosso modo, em três partes: um prólogo, poético e arrebatador, que é veiculado ainda antes dos créditos iniciais do filme, uma “parte 1”, em que é narrada a festa de casamento da protagonista Justine e, finalmente, uma “parte 2”, na qual se conta a história da perspectiva da personagem Claire, irmã de Justine, e como esse universo de pessoas vive a experiência do fim do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  O prólogo faz alguma referência ao clássico “2001” ao representar a dança dos planetas no espaço sideral ao som de música clássica. Entre esses quadros, são exibidas cenas que mais parecem quadros, fotografias ou cartas de tarot: numa, vemos Kirsten Durst num cenário apocalíptico erguendo lentamente as mãos para cima e raios saindo das pontas de seus dedos em direção ao céu; noutra se mostra, também em câmera “super-lenta”, um cavalo negro e belíssimo tombando em primeiro plano e sozinho, já em outra vemos a protagonista em pose de morta de Nelson Rodrigues, flutuando de costas para as águas de um rio cristalino (Ofélia?), assim como, em outro momento, assistimos a uma chuva de pássaros mortos. Dessa forma, em poucos segundos ou minutos, o espectador é apresentado a todo um universo pictórico e onírico. A mim, a imagem que mais chamou a atenção foi um quadro em que no céu apareciam três luas (ou três sóis) e, no primeiro plano, duas mulheres e uma criança. A música, por alguma razão, me lembrou Debussy: tanto a música, discreta na maior parte do tempo, quanto as artes plásticas, são dois símbolos fortes que serão retomados ao longo de todo o filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  A chamada “parte 1”, que ocupa a maior parte do filme, descreve a noite da festa de casamento de Justine. Aqui o que está em jogo é aquilo que o cinema europeu é capaz de figurar como nenhum outro: a tensão entre a “persona”, ou seja, a máscara social que todos têm de envergar ao entrarem no mundo do “social”, de um lado, e aquilo que as pessoas (ou ao menos uma parte das pessoas) são e sentem “no fundo”. Como Bergman, Fellini ou Woody Allen, Lars Von Trier sabe encenar esse tipo de situação em que “la borgeoisie” e seu status quo deixam mostrar os fundamentos podres e hipócritas de suas instituições e valores mais caros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  O casamento impõe os papéis que devem ser desempenhados pelo noivo e pela noiva e delimitam as expectativas e normas que ditam o comportamento daqueles que desempenham esses papéis. Tudo é impecavelmente preparado e planejado para que a noiva (ou será a mulher?) seja feliz, sinta-se plenamente realizada e viva o momento mais importante da sua vida. Toleram-se certos desvios, certas peculiaridades, certos vícios, mas  outros não. À mulher, cabe, apesar do nervosismo e das incertezas que marcam esse ritual, estar sempre sorrindo, sempre parecendo estar insuportavelmente feliz: nessa hora parecer é mais importante do que qualquer outra coisa. Mas Justine é um espírito que não faz parte desse mundo burguês e é absolutamente incapaz de parecer contente, por mais que ela tente representar. Então ela faz tudo de errado: foge da festa inúmeras vezes, se tranca no banheiro quando deveria comparecer para cortar o bolo, abandona o noivo em plena noite de núpcias, trepa com o convidado mais inexpressivo da festa (um relações públicas que é reputado por não ter absolutamente nenhuma qualificação educacional), se demite do emprego que o sogro lhe oferecera, faz cara de choro, está sempre distante e com aquele olhar triste e embaçado dos melancólicos. No fim das contas, é repreendida e expulsa desse meio social ao qual ela pertencia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Numa época em que, para se conseguir um emprego ou sucesso na carreira profissional, é necessário estar sempre sorrindo, sempre alegre, acordar todos os dias de bom-humor, encarnar o espírito dos livros de auto-ajuda, ser dinâmico, pró-ativo, comunicativo, freqüentar academia e rir o riso do idiota, essa personagem é uma tremenda provocação. Ela não sabe fingir o sorriso neutro da operadora de telemarketing. Não é capaz de viver a vida com “leveza”, “pensar positivo”, “mentalizar coisas boas” nem ambicionar o sucesso nesse mundo em que os sorrisos são nada mais do que o resultado de cirurgias plásticas que, por meio do Botox, põe uma prega no meio da bochecha das pessoas que, de tão esticadas, aparecem sempre como um personagem dos Simpsons com a boca fossilizada num formato de banana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Diante desse contexto, Justine (não consegui traçar nenhum paralelo muito claro com a heroína de Sade) surge no filme como uma encarnação de uma paixão do século XIX que há muito deixou de ser pertinente ao mundo do século XXI. Em nosso tempo, todos têm (em tese) o direito de escolherem serem felizes ou infelizes, mas ninguém tem o direito de parecer infeliz o tempo inteiro. Nesses casos, não só a pessoa é excluída do círculo daqueles que “são sucesso” como também é tratada como doente. Afinal, não querer pertencer à elite, não querer ser famoso, não querer consumir, não querer juntar dinheiro, não querer a felicidade da família do comercial de margarina são comportamentos inaceitáveis. No século XXI, o destino do melancólico é ser tratado com prozac e fluoxetina para que se torne grogue o suficiente para conformar-se e fingir sorrisos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Inevitável não empatizar com a personagem Justine, interpretada por Kirsten Durst. Até porque quem costuma ver um filme de Von Trier quer se alimentar de arte. Até porque a grande arte do século XIX (mas também do século XX) é feita disso: Rimbaud, Baudelaire, Truffaut, Almodóvar, Proust, Thomas Mann, Dostoievski, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e por aí vai: são Hamlet, são Julien Sorel, são K, são pessoas que não nasceram para nascer neste mundo. E num lance que prenuncia a segunda parte do filme, Justine é a única que consegue pressentir e saber como será o fim do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Aqui cabe um parêntese: o tratamento do espaço no filme todo e, em especial, nessa primeira parte. O longa é todo ele rodado em uma espécie de castelo, em cujo entorno se tem rio, floresta, lago e uma varanda deslumbrante. O proprietário desse lugar mágico é o cunhado de Justine, um personagem que representa aquele que tem uma fé cega na ciência e no “mundo dos negócios”: na primeira parte, chega a ser irritante o fato de, sempre que esse personagem entra em cena, está falando de dinheiro (que ele tem aos montes). Trata-se do avarento de Molière. Enfim: na primeira parte do filme, toda vez que se filmam os ambientes internos, ou seja, os salões em que se desenrola a festa de casamento, a filmagem é em primeira pessoa, a câmera treme, circula de um lado para o outro, num clima algo angustiante que já havíamos visto em Dançando No Escuro, por exemplo. Nessas tomadas, o burlesco do elenco escolhido a dedo para representar os convidados e familiares (elenco digno de Fellini ou Pasolini) torna as cenas engraçadas – em especial, as que retratam o pai de Justine, um “engaçalhão” que causa pena e riso e a mãe, uma mulher dominadora, bipolar, que “pensa por si própria”, mas, assim como a filha, em certa altura também resolve abandonar a festa e se trancar no banheiro, o que o genro acha um tremendo desaforo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  E são justamente as “fugas” da noiva que rendem as cenas mais divertidas dessa “parte 1” e guiam a narrativa não só para os espaços externos do castelo, como o campo de golfe em que ela percebe que existe uma estrela próxima demais da terra e, mais tarde no filme, transa com o convidado-relações-públicas, mas também para espaços que, mesmo situados no interior da construção monumental, de certa forma são o seu oposto: o quarto onde dorme o pequeno sobrinho de Justine, o quarto da mãe da noiva ou escritórios e gabinetes onde o noivo e a irmã encontram fugazmente a noiva que logo escapa para qualquer devaneio: “me dê um instante, por favor”. Também do lado exterior do castelo, justamente na estrada que dá entrada ao lugar, existe uma curva fechada demais para que uma limusine pudesse passar, logo na cena inicial da primeira parte do filme. Não por acaso, a curvatura dessa estrada se assemelhava à órbita do planeta melancolia – planeta ou lua ou estrela que se chocaria contra a Terra e poria fim a vida tal a conhecemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  E a “parte 2” do filme trata exatamente disso: a chegada do planeta melancolia e sua colisão com a Terra causando o fim do mundo. A primeira parte se chama “Justine” e a segunda “Claire”, que é o nome da irmã da protagonista. E começa com a volta de Justine ao castelo, onde seu casamento naufragara e todos a repreenderam por sua conduta melancólica. Ela chega como uma doente, alguém que é marginalizado da sociedade e tratado como aberração. Nessa parte, talvez estejam as cenas que eu considero as mais bem executadas do ponto de vista propriamente teatral: Justine mal consegue falar ou andar ou pegar um táxi sozinha e o marido de Claire ironiza e crítica essa situação. Logo depois, Claire tenta levar Justine para um banho, mas a irmã está incapaz de erguer uma perna para entrar na banheira ou dar um passo, paralisada pelo medo e pelo trauma desse mundo de pessoas vivas e más.  Os cavalos são outro símbolo importante que ajuda a compor esse filme, tão alegórico quanto Dogville ou Europa. Os astros e a maneira pela qual os seres humanos se relacionam com os astros, seja por meio de telescópios e modelos científicos ou por meio da intuição, do feminino, da arte e das previsões são um outro símbolo forte. Nesse ponto, a personagem Justine está muito mais afinada com os cavalos e insetos que se alvoroçam por instinto com a chegada do fim dos tempos do que com os demais habitantes de casa, a irmã, o cunhado e o sobrinho, que ainda tentam organizar o mundo recorrendo a qualquer pseudo-ciência ou explicação razoável para o que está sucedendo e estocando lanternas e previsões para as catástrofes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Como se a segunda parte do filme fosse o oposto da primeira: no início, a melancólica-desajustada-poeta era quem estava deslocada no meio de um ritual de iniciação ao universo do consumo de massas e da democracia representativa. Já no final, são os burgueses-previsíveis-metódicos que não sabem lidar com um evento que está tão além de seus limitados entendimentos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  O marido de Claire, o mais burguês e cientificista do filme, é o primeiro a se suicidar quando tem a certeza que o mundo vai mesmo se acabar, embora até aquele instante ele insistisse na hipótese do happy end e do “tudo vai terminar bem, querida” na ideia de proteger e iludir a esposa e o filho. Já a própria Claire, quando vê que o fim está próximo, sugere que todos o esperem na varanda, tomando uma taça de vinho. Justine mostra o quanto essa intenção é ridícula e sai com Leo, seu sobrinho, para recolher gravetos na floresta. Quando o fim do mundo finalmente chega, os três estão numa espécie de cabana construída por Justine, os três de mãos dadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  O que amarra as três partes do filme é a imagem de um corpo estranho e errático que surge inesperadamente e destroi uma harmonia pré-existente. Na parte 1, esse corpo estranho é a figura da noiva Justine, que é incapaz de representar o papel que dela se espera, não por não querer ou não aceitar os fundamentos da sociedade burguesa, mas por ser incapaz de negar sua natureza profunda. Um natureza que se sente muito mais à vontade no meio dos animais, dos astros ou na solidão do que entre pessoas e não lamenta, antes se regozija, com o fim desse mundo humano de aparências e maldade. Já na parte 2, o corpo estranho, numa leitura mais direta, é esse planeta sugestivamente batizado de melancolia, que vem a colidir com a Terra. Talvez, seguindo uma outra linha de raciocínio, o corpo estranho seja a própria vida na Terra, o próprio mundo que construímos e em que vivemos. Será esse o sentido profundo da melancolia? Será ela uma certeza de que a vida humana não é um valor, não é algo bom em si mesmo e que o universo estaria melhor sem nós? Assim, é por perceber a nossa fugacidade e a nossa finitude como coisas positivas que nos vem a sensação de completo vazio e de completo desamparo que chamamos melancolia. É algo que vai muito além de não conseguir parecer feliz, de se sentir sem par neste mundo, de viver em depressão e na solidão: melancolia é um esvaziamento de horizontes, mas também uma erosão do chão em que pisamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Um clássico contemporâneo do meu diretor predileto. Saí do cinema uma pessoa diferente daquela que entrou. Mais vazio, mais melancólico e mais desamparado, com certeza. Será que o grande cinema é isso? O oposto das pílulas de fluoxetina?&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-5679841417981085326?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/5679841417981085326/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=5679841417981085326&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5679841417981085326'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5679841417981085326'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/09/spleen-e-melancolia_01.html' title='Spleen e Melancolia'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-3062855700520957283</id><published>2011-07-25T22:26:00.000-03:00</published><updated>2011-07-25T22:29:04.854-03:00</updated><title type='text'>Nome de Doença</title><content type='html'>É o mal cujo sintoma é uma atração por objetos de metal&lt;br /&gt;de preferência barulhentos e fumegantes&lt;br /&gt;a dureza do aço não combina com carnes e peles&lt;br /&gt;e termina por debilitar o pleno gozo da faculdade mental&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acomete populações urbanas desde a tenra infância&lt;br /&gt;explica concessionárias, quartéis e usinas siderúrgicas&lt;br /&gt;o universo viril dos produtos pesados da revolução industrial&lt;br /&gt;mesmo que sejam feitos de plástico e com design catalão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trambolhos recheados de transistores e microchip´s,&lt;br /&gt;gruas, guindastes, escavadeiras e válvulas hidráulicas&lt;br /&gt;outro nome para tanque de guerra, canhão e bomba nuclear&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se o doente não só com banho de sol e caminhadas na praia&lt;br /&gt;como também com água da cachoeira, ar fresco e escalada:&lt;br /&gt;cura definitiva só para aquele conseguir declamar três poemas&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-3062855700520957283?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/3062855700520957283/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=3062855700520957283&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3062855700520957283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3062855700520957283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/07/nome-de-doenca.html' title='Nome de Doença'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' 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chão&lt;br /&gt;empurrar o sofá e a mesinha de canto para o canto&lt;br /&gt;recolher papéis, manuscritos, folhetos&lt;br /&gt;prender o cachorro e os outros animais de estimação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São exatamente dezenove e trinta e sete e o primeiro convidado ainda não tocou a campainha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-526653977597284832?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/526653977597284832/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=526653977597284832&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/526653977597284832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/526653977597284832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/07/festim-da-rua-augusta.html' title='FESTIM DA RUA AUGUSTA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1287255967990017391</id><published>2011-02-24T14:58:00.005-03:00</published><updated>2011-02-24T15:07:37.395-03:00</updated><title type='text'>O Segundo Incêndio de Cartago</title><content type='html'>O ano de 1989 é aceito como o marco do fim da Guerra Fria, pelo gesto simbólico da derrubada do Muro de Berlim e pela implosão do sistema internacional organizado a partir das sociedades do Leste Europeu. No entanto, quase 22 anos após esses acontecimentos, muitos lugares do mundo ainda são governados de acordo com a lógica do sistema bipolar. É o caso de Cuba, Coreia do Norte, do partido único chinês e também do sistema político bipartidário e militarista norte-americano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Desde fins de 2010, a imprensa ocidental vem noticiando com regularidade o que é descrito como uma onda democrática no mundo árabe, dando especial enfoque às manifestações de rua contra os governos ditatoriais no Egito, Tunísia, Iêmen, Bahrein, Irã e Líbia. Por mais cômodo que possa ser juntar todos esses movimentos em um mesmo saco e rotulá-los como uma “grande onda democrática”, há de se considerar as especificidades de cada caso particular e entendê-los sob uma perspectiva histórica. Se uma certa narrativa social ainda hoje afirma que os EUA foram os vencedores da Guerra Fria e que a dissolução do império soviético representou uma inquestionável vitória dos princípios consagrados da democracia representativa, da economia capitalista, da Igreja Cristã e do individualismo burguês sobre o ateísmo marxista, o declínio constante do império norte-americano desde os anos 1970 está aí para comprovar que a história social não deve ser enquadrada em esquemas simplistas e maniqueístas, que têm muito mais cara de propaganda de um certo regime que justifica desigualdades e de um determinado estilo de vida do que de ciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Pensemos um instante. Quais foram os regimes e grupos sociais apoiados pelos norte-americanos na metade de século posterior à Segunda Guerra Mundial? Em que esses grupos se identificam com o tripé ideológico do “mundo livre” (economia capitalista, democracia representativa e Cristianismo)? A resposta à primeira questão é fartamente documentada: o chileno Augusto Pinochet, o xá iraniano Reza Pahlavi, o ditador indonésio Suharto, os ditadores brasileiros Médici, Costa e Silva, etc., o ditador vietnamita Ngo Dinh Diem, grupos fascistas e anti-comunistas na Europa Ocidental, o ditador Somoza na Nicarágua, os mafiosos que tentaram assassinar Fidel Castro inúmeras vezes, Hosni Mubarak no Egito, os monarquistas gregos, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Israel, etc. Dessa simples enumeração a resposta à segunda questão resulta óbvia: nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   O que essa chamada “onda democrática no mundo árabe” e os atentados de 11 de Setembro têm em comum? Ambos são frutos tardios de escolhas estrategicamente erradas feitas pelo Estado norte-americano e suas agências durante a Guerra Fria. No afã de patrocinar toda e qualquer iniciativa anti-soviética e imaginando que combatiam uma potência imperialista que aspirava a dominação mundial, os norte-americanos foram responsáveis diretos e indiretos por genocídios, ditaduras, assassinatos e todo tipo de violação dos direitos humanos no Terceiro Mundo. Em muitos casos, atrasaram em décadas a possibilidade de desenvolvimento autônomo de regiões inteiras do globo: é o caso da América Latina, do mundo árabe, da África e do Sudeste Asiático. As demonstrações públicas que hoje assistimos pela CNN são tentativas de derrubar governantes que foram empossados com dinheiro e armas contrabandeados pela CIA. Até que ponto são manifestações legítimas de aspirações populares e até que ponto são manobras patrocinadas pelo mundo ocidental é algo difícil de definir nesse momento, dado que o noticiário de hoje (ainda) tem muito mais caráter de propaganda do que de informação. Toda forma de democracia é por  definição melhor do que qualquer outra forma de governo? Na sociedade em que vivemos, é possível falar em “liberdade de expressão”? Em direitos políticos plenos? Liberdade de expressão existe para defender a grande mídia ou como um direito de todos? Nós, ocidentais e cristãos do outro lado do mundo, sabemos qual a melhor forma de governo para o mundo árabe? Temos direito de opinar e apoiar determinado grupo a milhares de quilômetros de distância? Devemos condenar o Irã por ter um programa de desenvolvimento da bomba atômica e ao mesmo tempo aplaudir Israel? Sob um ponto de vista moral, é possível defender a existência do Estado de Israel? São os países árabes e o povo palestino que ameaçam Israel ou é a criação de um Estado artificial patrocinado pelas potências ocidentais que ameaça a existência dos povos árabes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Durante a semana que passou, mais uma vez os EUA vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que repudiava as colônias judaicas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Tal fato ficou em segundo plano, uma vez que na Líbia o exército matava centenas de manifestantes. Quantos palestinos foram mortos direta e indiretamente pela aliança EUA/Israel desde o começo deste ano? O que faz a Human Rights Watch que sempre denuncia países não-alinhados com o Ocidente mas se cala sobre Israel, Guatánamo, operação Condor e os abusos de todas as ordens promovidos pelos EUA e pela OTAN no Iraque, no Afeganistão e outras regiões do mundo? Os ocidentais têm “mais” direitos humanos do que os árabes? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Talvez o que mais tenha irritado os etnocêntricos jornalistas ocidentais nessa crise da Líbia é a impossibilidade de enviar correspondentes de guerra ao local e a censura à internet. Será que se ocorresse uma guerra civil nos EUA de hoje o governo oficial permitiria que os manifestantes utilizassem a internet para se organizar e a imprensa internacional para chamar a atenção sobre os crimes promovidos pelo Estado? Existe liberdade de expressão na Faixa de Gaza e na Cisjordânia? Por mais repugnante que seja a figura de Muammar Khadafi, certamente ele assassinou muito menos gente do que Eisenhower, Kennedy, Nixon, Reagan, Carter e companhia. Pra não falar de novo em Pinochet, Médici, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Suharto, etc. Pra nós, genocida é o que mora na África ou na Ásia, Stálin e Mao é que eram ditadores e democracia é o que existe nos EUA. Democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século? É, democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Esse texto foi feito para levantar questões. A democracia é o melhor sistema de governo possível? (definitivamente não). O ocidente é melhor do que o oriente? (não) O Norte é melhor do que o Sul? (não) O branco é melhor do que o não-branco? (não) O cristão é melhor que o muçulmano? (não) O homem é melhor do que a mulher? (não) O heterossexual é melhor do que o homossexual? (não) O velho é melhor do que o jovem? (não) O meu é melhor do que o seu? (não). Aos que concordam com as respostas entre parênteses, cabe questionar o que vem sendo noticiado como verdade, o modo como os Estados estão organizados, a maneira como o trabalho é trabalhado e o mundo em que vivemos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1287255967990017391?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1287255967990017391/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1287255967990017391&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1287255967990017391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1287255967990017391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/02/o-segundo-incendio-de-cartago.html' title='O Segundo Incêndio de Cartago'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-4435756034541077396</id><published>2011-02-17T14:53:00.003-02:00</published><updated>2011-02-18T14:57:12.707-02:00</updated><title type='text'>Brasileiro e Estrangeiro</title><content type='html'>Até certo ponto da mesma maneira que com todas as ciências sociais no Brasil, a área de relações internacionais se desenvolveu a partir da incorporação de esquemas teóricos importados por pesquisadores brasileiros que cursaram programas de pós-graduação nos grandes centros universitários na Europa e nos Estados Unidos. Há um  consenso de que se trata de um fenômeno inevitável e natural, tendo em vista que se trata de um campo de estudos que só muito recentemente passou a ser abordado nas universidades daqui. Cientes de que essa é uma fase passageira, os próprios acadêmicos reconhecem que linhas de pesquisas mais “adequadas” para compreender as relações internacionais a partir de uma perspectiva brasileira deverão ganhar espaço num futuro próximo, desde que os investimentos em pesquisa sejam aumentados e a expansão de novos cursos de graduação e pós continue no mesmo ritmo das últimas duas décadas. Isso posto, cabe indagar quais são as possíveis limitações das aplicações desses modelos teóricos “importados” quando confrontados com os problemas característicos da sociedade brasileira e que “cara” deveria ter um estudo de relações internacionais enfocado a partir de nossa perspectiva local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Neste ensaio, tratarei da maneira pela qual os problemas relacionados ao contexto internacional são tratados no Brasil, dando especial enfoque ao noticiário veiculado pelos meios de comunicação. Por uma própria limitação da erudição do autor, me abstenho de sistematizar a produção acadêmica sobre relações internacionais no Brasil e apenas mencionarei, quando for o caso, certos autores pinçados um pouco que por acaso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; De um modo geral, é comum ouvir dizer que a opinião pública brasileira dá pouca ou nenhuma importância para os problemas de política internacional, uma vez que o país não apresenta conflitos de fronteira com seus vizinhos, não padece de divergências muito sérias entre minorias étnicas/religiosas/lingüísticas e não é um ator internacional – tanto em termos econômicos quanto militares – capaz de influir em áreas do mundo além de seu entorno imediato, ou seja, a América do Sul. Essa percepção um tanto difusa pode até encontrar certos fundamentos na história e na realidade atual, porém carece de um fundamento mais sólido como variável determinante para explicar esse suposto desinteresse do cidadão médio brasileiro pelo que se passa em outros países do mundo. Costuma-se apelar então a um certo pendor provinciano (talvez herdado dos nossos pais portugueses...) para fundamentar argumentos como o de que “um pequeno alagamento no bairro vizinho para mim é mais importante do que um tsunami na Ásia” e extrapola-se a questão dizendo que para os habitantes do Sul do país também há muito pouco interesse em saber o que se passa no Norte, no Nordeste ou no Centro-Oeste. Por último, esse discurso com um quê de demagogia finaliza afirmando que as condições de educação básica no país são precárias (não que não sejam realmente), que o povo é ignorante muito por escolha própria e muito por não saber “escolher” os políticos mais honestos e que, portanto, não se pode exigir que a população conheça outros países, outras culturas e problemas de alcance global se ela não teve acesso nem ao básico em português e em matemática. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Não creio que o brasileiro seja um sujeito desinterssado pelas questões internacionais. Até mesmo nas salas de aula das escolas públicas tais temas se tornaram recorrentes e não por acaso: são, de certa forma, um reflexo da presença mais intensa de elementos estrangeiros no dia-a-dia dos moradores das cidades, seja na forma de mercadorias importadas e companhias multinacionais, seja na obrigatoriedade de possuir um curso de inglês para procurar um emprego ou no número cada vez maior de questões sobre relações internacionais nos vestibulares e concursos públicos. Desde a chamada “abertura” econômica iniciada no governo Collor de Melo, seguindo o receituário neo-liberal do FMI, esse fenômeno com certeza tomou novas proporções, embora tenha permeado a história do país desde os seus primórdios. Afinal, somos uma nação inventada a partir de uma empreitada colonial voltada para o mercado externo e de um encontro de pessoas (escravos, colonizadores e imigrantes) provenientes de todas as partes do mundo. Faz parte do próprio ser-brasileiro situar-se numa encruzilhada de culturas, etnias, linguagens e maneiras de enxergar o mundo que nem sempre se harmonizaram tão pacificamente quanto fazem crer nossos mitos de origem da nação cunhados na época do romantismo e que desde então foram repisados exaustivamente até fazerem as vezes de verdade histórica inquestionável.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Essa marca de origem híbrida implica que a afirmação da nacionalidade não se resume aqui a uma simples negação do estrangeiro, mas sim da sua incorporação num todo muitas vezes contraditório e incoerente. Esse foi sem dúvida o tema central da arte modernista e dos clássicos do pensamento social brasileiro da primeira metade do século XX. Pode-se traçar uma linha de continuidade nessa discussão que vai desde a Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade até, digamos,  O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro – passando, evidentemente, por Raízes do Brasil, Macunaíma, o cinema novo, a tropicália, etc. Longe de resolver essa contradição numa síntese pura do que é o brasileiro, todas essas manifestações da arte e do pensamento social reafirmaram o caráter problemático e precário do nosso ethos nacional. Em que medida as diferentes culturas que se cruzaram nesse trecho do hemisfério ocidental foram assimiladas à cultura do Brasil e em que medida a cultura brasileira foi reinventada e transformada pelo contato com cada uma dessas outras culturas é uma questão, por sua própria natureza, insolúvel. Seguindo essa trilha dialética, talvez seja justamente quando falamos sobre o estrangeiro (ou dessa relação de pátria versus exílio) que consigamos dizer as coisas mais profundas sobre o que é nascer e ser brasileiro. Não é à toa que um João Cabral de Melo Neto e um Vinicius de Moraes cantaram a pátria muitas vezes vivendo no estrangeiro. Não é por acaso que trechos de um poema chamado Canção do Exílio façam parte da letra do hino nacional. Daí a importância e a urgência de pensarmos as relações internacionais tomando como ponto de partida o Brasil e, de modo reverso, pensarmos o Brasil tomando como ponto de partida as relações internacionais.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Até agora sugerimos que o brasileiro não é e nem pode ser um sujeito alheio ao internacional. Entretanto, o que pensamos sobre o mundo? Como o pensamos e nos pensamos em relação ao que se passa lá fora? Mesmo em uma época de internet, comunicação transcontinental em tempo real e todo tipo de tecnologia da informação que prolifera dia após dia, engana-se quem pensa que o encontro com o estrangeiro dá-se de forma direta e pessoal. Na prática, o que temos quase sempre é uma relação mediada por duas instâncias: a linguagem universal do business e a mídia. No primeiro caso, o código dinheiro serve como intermediário para uma série de contatos entre o nacional e o internacional na esfera do mundo do trabalho: trata-se das empresas globalizadas, das viagens de negócios, do comércio internacional, dos contratos de câmbio, das redes internacionais de sindicatos e movimentos sociais, do fluxo de capitais e investimentos, etc. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Já no segundo caso, a mídia cumpre um papel de filtrar aquilo que de mais “relevante” ocorre em outros países e servir-nos um cardápio diário de notícias sob o rótulo “internacional”. Talvez por falta de pessoal qualificado para refletir sobre e selecionar o que é efetivamente “relevante” no noticiário dos outros países e continentes, o que temos é uma cobertura de mídia internacional que se restringe a  assuntos internos de países estrangeiros e muitas vezes simplesmente reproduz um certo conteúdo fornecido por agências como Reuters, CNN ou BBC. A verdade é que falta a essa cobertura aspectos propriamente internacionais: é comum vermos correspondentes desses veículos em países em guerra ou crise (como no caso do Egito, mais recentemente), porém não há uma preocupação maior em dar um enfoque que fuja muito daquilo que é veiculado nos e para os Estados Unidos e Europa. Mais raro ainda é se deparar com um artigo ou matéria que esboce algum tipo de análise que vá além de elencar grosseiramente e de maneira etnocêntrica os principais atores sociais de um dado país (subentendendo-se que uns são bonzinhos e outros são mauzinhos) e fazer um resumo de alguns acontecimentos históricos que se relacionem mais ou menos com a crise atual, a chamada “bola da vez”. Quase impossível então é ler ou ver algo sobre a atuação das organizações internacionais que fuja do mais banal lugar-comum. Resumindo: o contato com o estrangeiro por meio da mídia normalmente tende a ser uma experiência mais empobrecedora do que enriquecedora, na medida em que reforça preconceitos, se pauta por critérios de validade discutível e raramente ultrapassa um nível meramente superficial de análise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Há quem afirme que a fraqueza e a vilania da mídia não se restringiriam ao noticiário internacional, mas seriam um mal do jornalismo de um modo geral, porém quero crer que essa cobertura poderia ser feita de uma maneira mais adequada, mesmo levando em conta as características de urgência, superficialidade e necessidade de “traduzir” o mundo para uma linguagem que “qualquer idiota entenda” tão típicas dos meios de comunicação de massa. Em todo caso, são poucos os brasileiros que podem ler em outros idiomas e menos ainda os que se dispõe a garimpar fontes de informação alternativas, de modo que o que é pautado pela mídia influencia sim, e de modo direto, aquilo que as pessoas comentam e pensam sobre os assuntos internacionais em seu cotidiano. De modo que penso ser válida uma discussão que mobilize os editores e donos de jornais, sites e televisões a qualificar a maneira como se fala sobre “mundo” na mídia brasileira, um pouco na mesma linha do que já foi feito com o noticiário de economia, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Numa discussão como essa, a inteligentsia deve rejeitar ser convocada a se pronunciar na imprensa somente para exercer a função de um especialista que é consultado quando é necessário entender algum fenômeno extremamente específico e complicado. Completamente fora do determinado contexto em que foram criados, as palavras e os jargões técnicos do cientista adquirem conotações imprevistas e causam reações de espanto e admiração no espectador. Se a idéia é aprofundar, mesmo que seja só um pouco, o noticiário e a maneira como ele se relaciona com a opinião pública, a maneira como se faz a coisa hoje resulta no contrário: distancia a vida cotidiana das pessoas dos temas de relações internacionais, na medida em que envolve o conhecimento numa aura e faz crer que tudo no mundo deve ser repartido em compartimentos estanques em função de uma lógica cartesiana. Talvez seja o caso de difundir o conhecimento e todos seus rituais iniciáticos por caminhos alternativos à grande mídia, buscando infiltrar o sistema pelos seus subterrâneos. Mas os livros são caros, inacessíveis, impublicáveis e as revistas são lidas somente por aqueles que já tinham um interesse mais imediato nessa área do saber. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Além dos especialistas e pesquisadores, há os funcionários públicos que ocupam cargos na diplomacia, os quais muito mais raramente ainda são ouvidos pela mídia sobre algum tema espinhoso – em geral somente quando esse tal tema expõe alguma divergência entre posições partidárias da política interna que respingue nesse galho do Estado. Ainda muito mais do que os cientistas que trabalham nas universidades públicas, os diplomatas são, no imaginário popular, membros muitos seletos de uma maçonaria. Possuem poderes especiais para viajar, imunidades e tratamento diferenciado – são vistos como o crème de la crème da elite nacional. Além do mais, esperar que um funcionário público deixe de se ocupar da difusão da propaganda oficial e abra mão voluntariamente do monopólio que goza para tratar dos temas internacionais de um modo que possa ameaçar seu status, sua carreira ou sua perspectiva de se aposentar ganhando bem somente em nome do adensamento da discussão sobre relações internacionais na opinião pública brasileira, seria acreditar em atos de abnegação e desprendimento que estão muito além dos limites do que mesmo os mais otimistas consideram ser da natureza humana.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-4435756034541077396?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/4435756034541077396/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=4435756034541077396&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/4435756034541077396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/4435756034541077396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/02/brasileiro-e-estrangeiro.html' title='Brasileiro e Estrangeiro'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-842439466735885230</id><published>2011-02-08T03:35:00.002-02:00</published><updated>2011-02-08T03:59:24.734-02:00</updated><title type='text'>Quem Subsidia Quem No Transporte Coletivo Em São Paulo?</title><content type='html'>Comecemos este texto pela aritmética, afinal são os números, cifras e porcentagens que respaldam todo e qualquer argumento de natureza técnico-científica digno de respeito neste século XXI. A prefeitura municipal de São Paulo prevê, em seu orçamento para o ano fiscal de 2011, R$ 600.000.000,00 em subsídios às empresas de ônibus. Tomando como base o ano de 2010, o número total de passageiros transportados em um ano é de 2.914.030.714, o que resultaria numa receita bruta com cobrança de passagens de R$ 8.742.092.142,00, levando em conta o valor atual da viagem, que é de R$ 3,00. Num cálculo grosseiro, podemos dividir a somatória da receita bruta mais os subsídios pelo número de ônibus da frota e chegaremos a conclusão de cada veículo custa em média R$ 582.806,15 para circular por um ano. Abstraindo passeios e eventualidades, podemos considerar que cada passageiro costuma fazer duas viagens por dia e que, em média, por conta da integração com o bilhete único, ele utiliza dois ônibus por viagem, donde resulta um número hipotético de 6.398.693 de pessoas utilizando ônibus todos os dias (na verdade o número é maior, pois aos fins de semana e feriados o movimento é ínfimo e o número de ônibus circulando chega a ser 50% menor do que em dias úteis). Em São Paulo, existem 1.340 linhas de ônibus, o que dá uma média de 11 ônibus por linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O número de automóveis na cidade é de 5.093.169 e o de motocicletas 875.887, de modo que podemos presumir que 5.969.056 utilizam o transporte individual para se locomoverem de casa para o trabalho, uma vez que é raríssima a presença de mais de uma pessoa em cada automóvel e as famílias burguesas costumam ter mais de um automóvel por pessoa (fica elas por elas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De cara, que conclusões podemos tirar desses números?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, que há mais pessoas que utilizam transporte coletivo (e aqui nem se levou em conta o trem e o metrô) do que transporte individual. Em segundo lugar, que o custo do sistema de transporte coletivo “gerido” pela prefeitura é altíssimo, sob qualquer ponto de vista, e causa indignação se levarmos em conta que os ônibus invariavelmente circulam superlotados e numa velocidade média inferior a de uma bicicleta. Transporte coletivo caro e de péssima qualidade, como pode atestar qualquer famigerado “usuário” que já tenha se aventurado a subir num ônibus numa sexta-feira a tarde com ou sem chuva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crer no que a mídia vem publicando desde o último reajuste de tarifa no começo deste ano, trata-se de um problema crônico, em parte decorrente da má gestão dos administradores públicos e em parte decorrente da saturação das principais vias de tráfico da cidade (que, como as chuvas de verão ou a seca do Nordeste é um fenômeno da natureza). Segundo os “especialistas” de plantão, a solução seria investir em metrô para que, posteriormente, as classes médias e burguesas julguem que o transporte coletivo atende às suas necessidades de conforto e rapidez e abandonem voluntariamente o uso dos automóveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Números e especialistas de plantão com lugar cativo na mídia tratam a realidade social com frieza e objetividade. Um passo adiante no nosso argumento seria olhar mais atentamente essas cifras e nos perguntarmos o que números e especialistas de plantão querem esconder quando dizem que o transporte coletivo em São Paulo é inviável (cada ônibus custaria meio milhão de reais por ano) e que uma solução de médio prazo depende da boa vontade das classes mais abastadas em abandonarem voluntariamente seus automóveis para se enfiarem num metrô confortável, estilo Paris ou New York.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecemos por uma observação empírica: a saturação das principais vias de tráfico da cidade de São Paulo não é um fenômeno da natureza. Ao contrário da maioria dos fatos sociais, aqui é fácil perceber que existe uma relação de causa e efeito: se 5.093.169 de veículos saem ao mesmo tempo para transportar seus donos engravatados todos os dias um pouco antes das oito e um pouco depois das dezoito, inevitavelmente os 17.000 km de ruas da cidade ficarão saturados. De onde se conclui que: o trânsito de São Paulo é causado por uma minoria de pessoas que utiliza o automóvel como meio de transporte e por mais ninguém. E por que o sistema de ônibus da cidade é lento, deficitário e de má qualidade? Resposta idêntica: uma minoria de pessoas utiliza o automóvel como meio de transporte. Evidente: se são necessários 11 ônibus em cada linha circulando numa velocidade lenta, caso não houvesse trânsito o mesmo número de pessoas poderia ser transportado com, digamos, metade dessa frota, uma vez que grande parte do custo operacional dessas linhas é fixo (salário de cobradores e motoristas, encargos, impostos, etc.). Se um ônibus X vai do ponto A ao ponto B em três horas, um ônibus Y que vá do ponto A ao ponto B em uma hora pode fazer o mesmo serviço de três ônibus X. Sem automóvel na rua, o sistema de transporte coletivo não é deficitário, não demanda subsídios e é capaz de transportar o mesmo número de passageiros com muito mais conforto e rapidez. Simples assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro passo no nosso argumento: pessoas não são simplesmente pessoas, cidadãos genéricos, “usuários” do sistema. Pessoas têm diferenças e a primeira grande diferença que chama nossa atenção é que algumas têm mais poder do que outras: poder de mandar em outras pessoas, poder de ter mais dinheiro, poder de poder comprar mais coisas, poder de optar por empregos melhores, poder de escolher se querem ir pro trabalho a pé, de ônibus, de carro ou de helicóptero. E aqui mais uma vez, por mais incrível que possa parecer, também não se trata de um fenômeno da natureza, não se trata de “Deus criou o mundo assim”, não se trata de ser bem nascido, de ter as melhores oportunidades, de estudar em escola particular ou de fazer as escolhas certas na vida. A apropriação desigual da riqueza socialmente produzida entre as diferentes classes sociais é um fenômeno muito bem estudado e comprovado empiricamente desde o século XIX (pelo menos). Qualquer aspirante a estudante de introdução à sociologia é capaz de caracterizar a sociedade capitalista (e outras sociedades também) como dotada de uma infra-estrutura econômica que propicia que a riqueza socialmente produzida, seja na forma de dinheiro ou mercadoria, seja apropriada de maneira desigual pelas diferentes classes sociais. Os mecanismos para que isso aconteça são vários e têm nomes diferentes segundo cada autor e cada escola de pensamento, mas podemos resumir grosso modo assim: separação entre o trabalhador, os meios de produção e o produto do seu trabalho; valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual; concentração de capital e terras nas mãos de umas poucas famílias; leis, normas e um sistema judicial e penitenciário moldados para garantir a propriedade privada, os mecanismos de herança e a reprodução da desigualdade; diferenças no valor do salário em função de sexo, etnia, idade, origem social e local de residência (fenômeno que os liberais chamam de “produtividade do trabalho”), etc. etc. etc.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Toda essa volta para chegar numa segunda conclusão empírica: aqueles que andam de automóvel não são simplesmente uma minoria dentro de um todo difuso, mas contém dentro de si os limites de uma classe social muito bem definida: os que podem mais. Para não falar em burguesia, proletariado, classe média ou outros conceitos que se tornaram ocos pelo uso excessivo, falemos de forma bem clara: toda a elite de São Paulo usa automóvel como seu meio de transporte rotineiro. Claro que pessoas de origem humilde, que moram lá em Taboão da Serra ou Itaquaquecetuba também têm seus carrinhos populares e o governo Lula permitiu que muitos deles pudessem enfim realizar esse sonho de infância, mas isso não invalida o nosso argumento: todos os membros da elite de São Paulo (exceção aos que voam de helicóptero) usam automóvel todos os dias. Enfim chegamos ao ponto: o uso de transporte individual é um problema de natureza política, em tudo oposto a um fenômeno natural. Levando em conta que dos 513 deputados eleitos, ao menos 220 declararam possuir mais de R$ 1.000.000,00 em patrimônio (esses são os que declaram, veja bem), sabemos que esse problema jamais será colocado pelos políticos de plantão nos termos aqui tratados, uma vez que praticamente todos os membros da elite política brasileira são ao mesmo tempo membro dessa elite econômica que só vai pensar em deixar o conforto do automóvel quando o metrô de São Paulo for confortável como o de New York e Paris. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um argumento torto e um círculo vicioso. O argumento torto: mesmo em New York e Paris, muitas pessoas andam de automóvel e não julgam que o metrô é capaz de fornecer a privacidade e o conforto a que elas acreditam fazer jus. O círculo vicioso: políticos que poderiam investir verbas públicas em um metrô que ficaria pronto daqui a duas gerações preferem destinar recursos a construção de rodovias, largas avenidas, subsídios a montadoras multinacionais e grandes obras de impacto tocadas por aquelas mesmas poucas empreiteiras de sempre (Odebrecht, Camargo Corrêa), uma vez que se trata de angariar apoio público (e privado) para tentar uma nova reeleição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concluímos, portanto, que não se pode esperar da elite política uma mudança de enfoque com relação ao transporte de indivíduos nas grandes cidades. Entretanto, numa democracia como a nossa, ainda há esperanças: uma grande mobilização da sociedade civil, das organizações não-governamentais ou o barulho da imprensa são maneiras de pelo menos dar o ponta pé inicial em uma grande transformação qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, olhando mais de perto o que é a mídia no Brasil já perdemos uma perna desse tripé, afinal as montadoras de automóvel tornaram-se as grandes investidoras no mercado publicitário de uns anos pra cá, ocupando um espaço que já foi da propaganda de cigarro. Basta dar uma sapeada por qualquer canal para notar que pelo menos três em cada cinco anúncios no horário nobre de qualquer grande emissora de televisão são de montadoras multinacionais. E não é por acaso que a Fátima Bernardes abre seu belo sorriso e comemora com entusiasmo quando a ANFAVEA divulga que o país bateu mais um recorde na produção e comercialização de veículos automotores destinados ao transporte individual. Para alguém em algum lugar isso deve ser uma notícia boa. E se o Jornal Nacional diz assim, assim deve ser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse tripé meio capenga também é incapaz de se sustentar sobre as organizações da sociedade civil. Por uma razão muito singela: os donos de “ONGs”, os ecologistas do greenpeace e do wwf, os que votaram na Marina Silva, quem se preocupa com sustentabilidade e em construir um mundo melhor, toda essa gente idealista e comprometida com o social e o ambiental são tão membros dessa elite econômica que anda de automóvel quanto nossos políticos. E não serei eu que tentarei desemaranhar esse nó de contradições embebido num idealismo de segunda categoria que caracteriza o movimento verde no mundo de hoje. Querem a sustentabilidade sem abrir mão dos privilégios, sem mexer na estrutura de dominação, sem nem sequer questionar os fundamentos da economia industrial sobre a qual se assenta o capitalismo tardio. Resumindo a ópera: os ecologistas acham que desenvolvendo novas tecnologias e mudando “detalhezinhos” sem importância nos hábitos de consumo dessa massa informe que é a sociedade contemporânea podemos criar um “mundo melhor” para as plantas, animais e pessoas (não necessariamente nessa ordem). Claro que isso implica em fazer automóveis movidos a energia solar ou sei lá o quê, pois assim se evita o efeito estufa e o aquecimento global. Pro problema que estamos tratando aqui, enfim, trata-se de manter tudo como está. Ou piorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mobilização de massas seria uma última e desesperada alternativa. Quem pode se mobilizar tendo filhos pra criar, patrão cobrando resultados, necessidades de consumo para serem satisfeitas e a prestação da casa própria para vencer? Restou mais uma vez para os jovens. E eles até que foram às ruas (em número irrisório) protestar contra o aumento de passagem nesse começo de ano. Sintomaticamente, foram reprimidos com violência pelo aparato policial do Estado, já que estavam tentando bloquear avenidas importantes da cidade e (pasmém) prejudicando o direito de ir e vir daqueles “pobres” e desavisados motoristas de automóvel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de tudo isso, é preciso em primeiro lugar reconhecer que a condição precária da circulação de pessoas nas grandes cidades é um problema político e como problema político deve ser formulado e pensado. Lutar contra as grandes corporações multinacionais fabricantes de automóveis e seus poderosos lobbies parece uma tarefa um tanto ingrata, mas há de se colocar a questão em termos de sobrevivência da cidade como organismo vivo e de garantia da sanidade mental e física dos habitantes que nela residem. As companhias de tabaco também já foram maiores e mais poderosas do que são. Ponto dois: há de se introduzir, por algum meio, no debate político medidas que, embora paliativas, possam ao menos amenizar esse problema da circulação a curto prazo: sim ao pedágio urbano, sim à ampliação do rodízio de veículos, sim às restrições a fabricação, comércio e utilização de meios de transporte individual nas grandes cidades. Se isso soa impopular, não rende voto ou pesquisas de opinião demonstram ser inviável, que ao menos algum partido minúsculo de extrema esquerda assuma de forma clara esse discurso de desautomobilização da sociedade. De tanto repetir e argumentar, algo há de se infiltrar pelos tortuosos caminhos da política, da mídia ou da opinião pública. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondendo a pergunta do início: em São Paulo, nós, passageiros de um sistema de transporte coletivo de péssima qualidade é que subsidiamos o suposto direito de uma elite imbecil optar por utilizar o seu transporte individual para ir do trabalho para casa. Que ao menos se faça como na periferia de Paris e comece-se a queimar automóveis todos as noites. Já seria um primeiro sinal de vida em uma sociedade moribunda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-842439466735885230?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/842439466735885230/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=842439466735885230&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/842439466735885230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/842439466735885230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/02/quem-subsidia-quem-no-transporte.html' title='Quem Subsidia Quem No Transporte Coletivo Em São Paulo?'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-2905606945827848542</id><published>2011-02-02T15:33:00.007-02:00</published><updated>2011-02-02T16:07:42.118-02:00</updated><title type='text'>Antoine Doinel</title><content type='html'>Recentemente, tive a oportunidade de assistir, em sequência, aos cinco filmes que Truffaut filmou sobre a trajetória do personagem Antoine Doinel, interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud. Como que realizando um desejo secreto de todo espectador/leitor, François Truffaut permite que nós respondamos aquelas perguntas que invariavelmente se levantam quando fechamos a última contracapa do livro ou somos surpreendidos no meio de uma história interessante por um letreiro escrito The End: e depois, o que acontece com ele e com ela? Como continua? E o enfant térrible Antoine Doinel, um menino que se sente estrangeiro em casa, na escola, no reformatório ou morando escondido na casa do coleguinha burguês, não deixa nada a desejar em relação aos seus primos literários Holden Caulfield, Julien Sorrel e Stephen Dedalus.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um intervalo de vinte anos entre o primeiro filme – Os Incompreendidos, de 1959 – e o último – Amor em Fuga, feito em 1979 – e pode-se agrupar os títulos em duas grandes categorias: de um lado, os dois primeiros, filmados em preto e branco e que tratam da juventude do protagonista, e de outro os três últimos, em que a ação orbita ao redor da personagem Christine (Claude Jade), esposa e depois ex-mulher de Doinel. O intervalo entre essas duas datas – 1959 e 1979 – corresponde a um período de intensas transformações (para melhor) na cultura, nos movimentos sociais, na moralidade pública, no sexo, no cinema e certamente pelo menos nessa última categoria Truffaut teve a sua responsabilidade. Não só ele, evidente, afinal era um período de grandes realizadores nos dois lados do Atlântico: Godard, Rohmer, Pasolini, Antonioni, Resnais, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Bergman, Glauber, Fassbinder e por aí vai. Claro que esse é um viés ocidental de periodizar e glorificar suas próprias coisas e experiências, mas acho difícil um ser humano não tirar alguma coisa de boa se se der ao trabalho de assistir a filmografia completa de pelo menos esses poucos que eu citei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Incompreendidos (1959) é o primeiro longa metragem de Truffaut, então com 27 anos de idade e que filma a história (bastante autobiográfica) de um menino parisiense no período pós-segunda guerra mundial que vai sendo sistematicamente afastado do centro (aquilo que representa tudo o que é bom e verdadeiro socialmente) em direção a margem da margem da margem. Nessa trajetória, vários personagens (eles mesmos já marginalizados cada um ao seu modo) contribuem com alguns “empurrõezinhos” providenciais: a mãe, o padrasto, o amante barra chefe da mãe, o professor, o colega de classe, o diretor da escola, o delegado, a psicóloga e todas as espécies de “assistentes sociais” típicos dessas sociedades capitalistas policialescas e totalitárias que nós conhecemos tão intimamente nos livros de Foucault. Antoine Doinel empreende sua fuga em seis movimentos. Movimento número um: ao se dar conta de que esquecera de fazer o dever de casa e meio que incentivado por um colega “má companhia”, Antoine foge da escola e mata aula. Movimento número dois: por mentir para os pais afirmando que fora a escola quando cabulara aula e por mentir ao diretor da escola afirmando que faltara porque a mãe morrera, Antoine Doinel se dá conta de que a situação na casa dos pais (mãe solteira e promíscua + padrasto) tornou-se insustentável e foge de casa. Movimento número três: readmitido na casa materna, o menino decora trechos de Balzac, os utiliza num exame de redação na escola, é acusado de plágio pelo professor, bate no colega que o conduziria à diretoria e foge da escola de vez. Quarto movimento: depois de roubar uma máquina de escrever ultra-pesada e trambolhenta do escritório do padrasto e não conseguir vendê-la para um atravessador, Antoine entra furtivamente durante a noite no escritório para devolver o objeto, mas é pego pelo segurança e preso pela polícia. Quinto movimento: após se aconselharem com as autoridades, os pais decidem internar o filho numa instituição estilo Febem (francesa, lógico) e o garoto é banido das ruas de Paris. Sexto e último movimento: no meio de uma partida de futebol, Antoine Doinel foge dessa Febem e corre em direção ao mar (que nunca d´antes vira), numa das melhores cenas (disparada) do cinema nosso ocidental. Enfim, um Rimbaud/Henry Miller/Carlitos de doze anos mestre na arte do “se virar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antoine e Colette (1962) não é um longa metragem e continua a história de um ponto bastante adiante daquele em que Os Incompreendidos terminara (fato que é recorrente nos cinco filmes). Nesse filme vemos um Antoine Doinel aos vinte anos, apaixonado por música clássica, morando sozinho num quartinho minúsculo depois de sair do internato e trabalhando numa fábrica de discos de vinil. Num desses concertos ele se encanta por uma garota, Colette, e investe na sua conquista. Consegue conquistar os pais dela, mas com ela fica mais na base do platonismo. Um filme cute (sem nenhum trocadilho....).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijos Roubados é o filme que Truffaut rodou em 1968. Para a wikipedia francesa, trata-se de um filme sobre o tema da instabilidade e do provisório. Realmente, ficamos sabendo que Antoine estava servindo ao exército e apaixonado por uma tal de Christine. Nas forças armadas ele é preso várias vezes, considerado insubordinado e depois dispensado sem qualquer carta de recomendação. De volta a velha Paris, ele obtém a ajuda dos pais de Christine (de novo o tema dos pais da namorada) para conseguir um emprego de vigia noturno em um hotel, que não dura muito tempo. Logo após, Antoine se torna funcionário de uma agência de detetives particulares, chega a exercer a profissão com empenho e boa vontade, mas é despedido depois que o chefe descobre que ele havia transado com a esposa de um comerciante que contratara a agência para investigar sua própria vida. Os beijos roubados do título (baisers volés no original) são uma referência às cenas entre os protagonistas Jean-Pierre Leaud e Claude Jade, uma vez na adega na casa dos pais de Christine e outra vez num táxi, ela dentro e ele do lado de fora da janela do veículo parado. Enfim, um filme muito interessante por diversos aspectos, num Truffaut já mais amadurecido, mas sem perder a inventividade e a sinceridade passional que se tornaram suas marcas registrada desde a estreia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Domicílio Conjugal (1970) é o ponto alto de toda a saga Antoine Doinel. Poético e prosaico em doses muito bem conjugadas, o filme é um retrato do amor (ou da arte de amar, sei lá) tal qual sobre ele se filosofava – e sobretudo se praticava – e muito – nesse final de anos 1960. Vemos Antoine e Christine casados, construindo um projeto de vida juntos num tempo em que a Europa  já estava recuperada economicamente (jamais moralmente) do impacto da segunda grande guerra e a juventude, a arte engajada, os movimentos revolucionários de todas as ordens, a pílula anticoncepcional e o ácido lisérgico botavam muitas interrogações na cabeça dos que se perguntavam o que é ser um bom cidadão burguês e como constituir uma família honrada. No começo, Antoine aposta num novo negócio um tanto ousado: ele tinge flores. Faz experiências e cria expectativas de sucesso: uma metáfora sutil e profunda sobre o que é fazer cinema: transformar rejeitadas flores brancas em vibrantes flores vermelhas, vender ilusão. Enquanto isso, Christine dá aulas de violino para uma menina prodígio, cuja mãe às vezes se esquece de pagar a professora. Surge uma oportunidade para Antoine trabalhar em uma empresa multinacional norte-americana;   durante a entrevista de emprego, há um quid pro quo e, como um Homer Simpson, Doinel é contratado para um emprego de sonho: ele pilota, por controle remoto, barquinhos numa maquete de um porto. Outra metáfora sobre o fazedor de cinema: lidar com réplicas, teleguiar manequins animados numa encenação de realidade alternativa. A seguir, Antoine e Christine têm um filho: ela lida com  o marido de forma ríspida na noite logo após o parto e ele registra a criança com um nome que ele queria, mas que ela não aprovara: Alphonse. Mais adiante, Antoine Doinel começa a ter um caso com uma japonesa e trai Christine pela primeira vez. “Não é uma outra mulher, é um outro continente” diz Antoine. Daí em diante o filme se torna ainda melhor: um diálogo desencontrado entre ocidente e oriente, uma mensagem da amante japonesa para seu amante francês criptografada orientalmente dentro de flores por caminhos tortos denuncia o caso para Christine. Ela se veste  como uma gueixa e prepara um jantar japonês para tentar se comunicar com seu marido, mas os dois percebem que diante da hipocrisia de Antoine (um mentiroso nato desde criança) e, mais do que isso, da situação banalmente burguesa e falsa em que os dois estão imersos, de um jeito ou de outro algo contaminou a relação que eles cultivaram. As cenas que então se passam não merecem ser transcritas em comentários ou críticas: há de se assistir e concluir por si próprio. Ecos desse filme/obra de arte podem se ver num outro filme do próprio Truffaut O Homem Que Amava As Mulheres (1977) e em Cenas De Um Casamento (1973) do Ingmar Bergman que, para mim, é o melhor filme que já se fez no hemisfério ocidental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último filme da série é Amor Em Fuga, de 1979. Filme construído sobre flashbacks que reproduzem cenas dos outros quatro, aqui se vê um Antoine divorciado de Christine (cada um sabe ser o grande amor da vida do outro) e vivendo um romance com Sabine, que trabalha numa loja de discos. Sucessivos encontros fazem o heroi avaliar o que foi o seu passado, seus relacionamentos com a mãe e com as mulheres de sua vida. Há que se divorciar de Christine depois que os dois já estavam separados de fato: saindo do fórum, ele revê Colette (lindíssima atriz Marie-France Pisier), agora uma advogada que tem um caso com o irmão de Sabine, um vendedor de livros; desde a metade de Domicílio Conjugal, Antoine escrevia um romance, na verdade suas memórias afetivas transfiguradas. Na estação de trem, quando levava seu filho Alphonse para embarcar numa excursão, Antointe Doinel vê Colette novamente em um outro trem e se joga para dentro da composição prestes a sair. Durante a viagem, os dois fazem um balanço do que foram suas vidas, seu encontro no final da adolescência, o peso das escolhas e o talento literário de Antoine. |Conhecemos um outro ponto de vista, o de Colette, que enxergava na obsessão de Doinel agradar seus pais e, de certa maneira, “forçar a barra” para ficar com ela, inclusive se mudando para um apartamento em frente a casa dos pais dela, sinais de imaturidade. Mais adiante, as três mulheres da vida de Antoine se encontram por acaso, se reconhecem e admitem que o amaram cada uma ao seu modo e no seu tempo. O outro encontro fortuito que motiva a narrativa é com o ex-amante da mãe do menino que matava aula em Os Incompreendidos e que fornece ao heroi um novo ponto de vista sobre quem era a sua mãe: vemos uma mulher sobrecarregada pela tripla jornada de mãe, mulher da casa, trabalhadora de escritório, oprimida por um meio social limitado, que não permitia que ela desse plena vazão aos seus desejos. O ex-amante interroga Antoine sobre o motivo de ele não ter ido ao enterro da mãe e ficamos sabendo que ele não fora pois estava preso na época do exército, no começo de Beijos Roubados. Antoine sequer sabia onde a mãe estava enterrada e, então, ele e o ex-amante vão ao túmulo da mãe no cemitério. O último capítulo da saga de Antoine Doinel busca juntar as pontas de sua trajetória e vemos um movimento exatamente inverso àquele de Os Incompreendidos: se nesse filme o jovem Antoine está sempre fugindo de alguma coisa que o oprime, em Amor em Fuga trata-se de acertar as contas com o passado e buscar dar algum sentido de unidade à vida de um protagonista que sempre esteve mudando, seja de mulher, de casa ou de emprego - mas que até o fim guardou a essência do menino rebelde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final, ainda nos questionamos sobre o que aconteceria depois, afinal no último capítulo o personagem ainda tem só trinta e cinco anos. Truffaut morreu uns poucos anos depois de filmar o Amor Em Fuga e nunca rodou um filme sobre a velhice ou a maturidade. Talvez porque sejam justamente o ímpeto e a chama da juventude e seu espírito sempre contestador que animaram a vida do diretor e de sua geração. De qualquer maneira, os cinco filmes são bem amarrados e constituem uma narrativa completa em si mesma (ainda que por vezes fragmentária e descontínua), à maneira de Em Busca Do Tempo Perdido. Em resumo: do diálogo quádruplo entre diretor, ator, personagem e espectador, esse último certamente é capaz de viver uma experiência interior regeneradora ao topar assistir aos cinco filmes na sequência em que foram feitos. Ao mesmo tempo em que tudo de fundamental já estava lá em Os Incompreendidos, acompanhar a trajetória do Antoine Doinel adulto nos faz ver sob novas perspectivas as cenas desse primeiro filme. Longe de todo determinismo sociologizante mais grosseiro, a trajetória do personagem/pária é imprevisível, poética, singular e construída/reconstruída ao longo de cada etapa do caminho. Como na vida e na grande arte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-2905606945827848542?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/2905606945827848542/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=2905606945827848542&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2905606945827848542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2905606945827848542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2011/02/antoine-doinel.html' title='Antoine Doinel'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-943604162070800922</id><published>2010-12-23T16:02:00.005-02:00</published><updated>2010-12-23T18:40:56.999-02:00</updated><title type='text'>A Glória de Hades</title><content type='html'>Não eram rios de lágrimas e nem correntezas de chuva&lt;br /&gt;os primeiros sinais que precederam a chegada da morte vinda do horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para conquistadores desterrados a vida é que é cor de cinza&lt;br /&gt;o manto que veste a morte cheira muito mais multicolorido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canções cuja melodia havia se perdido na poeira do tempo&lt;br /&gt;ainda ontem ressurgiam repaginadas em sinfonias de assovios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa sala de cinema completamente deserta&lt;br /&gt;o homem de chapéu preto na primeira fileira cai em convulsão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda ontem, naquela esquina ali, existia um casarão de 1919 que,&lt;br /&gt;por abrigar moradores de rua e sem-tetos, foi demolido a marretadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a morte de alguém, vai embora uma maneira singular de ver a vida:&lt;br /&gt;ou vai pra nenhum lugar ou pode ser que volte pro caos d´onde tudo isso veio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São as cidades oníricas que compõem a minha alucinação&lt;br /&gt;num transporte pleno às dimensões paralelas que não são ficção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma paisagem do meu tempo de infância, da rua onde eu morava&lt;br /&gt;somente restaram algumas manchas opacas na memória de uma velha cega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para melhorar a circulação dos vapores na zona urbana&lt;br /&gt;convém transpôr os cemitérios para além dos muros da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a moça fantasiada de enfermeira vier de novo ao quarto&lt;br /&gt;peça-lhe que cubra o meu rosto e ponha um chumaço de algodão nas minhas narinas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-943604162070800922?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/943604162070800922/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=943604162070800922&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/943604162070800922'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/943604162070800922'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2010/12/gloria-de-hades.html' title='A Glória de Hades'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-6034410079087377431</id><published>2010-12-17T02:04:00.000-02:00</published><updated>2010-12-17T02:05:22.431-02:00</updated><title type='text'>Dever Ser</title><content type='html'>O telejornal prescreve detalhadamente&lt;br /&gt; a maneira como a vida do consumidor deve ser:&lt;br /&gt; poupar sempre parte do salário para as eventualidades&lt;br /&gt; investir no sonho da casa própria financiada em suaves 300 prestações&lt;br /&gt; trocar o modelo do automóvel velho todo fim de ano&lt;br /&gt; só gastar o mínimo necessário para ser considerado consumista&lt;br /&gt; não ter mais do que dois cartões de crédito&lt;br /&gt; separar uma grana pras despesas fixas de se sobreviver&lt;br /&gt; e cortar tudo o que for supérfluo, dos vinhos importados&lt;br /&gt; a toda e qualquer forma transgressiva de lazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O chefe prescreve detalhadamente&lt;br /&gt; a maneira como a vida do escravo deve ser:&lt;br /&gt; o homem que mora na rua não escreve&lt;br /&gt; a tia vende suas entranhas cruas pra se sustentar&lt;br /&gt; são as cerimônias públicas de suplício e expiação&lt;br /&gt; em nome de um ideal de higiene e pseudo-moralidade&lt;br /&gt; hoje pra ver um enforcamento bom, só mesmo se for pela televisão&lt;br /&gt; pastores evangélicos berram salmos cuspidos em plena praça&lt;br /&gt; nessa cidade os exorcistas também têm seu próprio sindicato&lt;br /&gt; catequese, pelourinho, pãozinho de queijo e a santa inquisição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O poder público prescreve minuciosamente&lt;br /&gt; a maneira como a vida do cidadão deve ser:&lt;br /&gt; em busca da concessão de um cartório vitalício&lt;br /&gt; é direito e dever defender o princípio da democracia&lt;br /&gt; reconhecer que existiria em tese um estado de direito&lt;br /&gt; saber que as instituições saem fortalecidas dos escândalos de corrupção&lt;br /&gt; bater palmas pra polícia que invade o morro&lt;br /&gt; não se pode ser contra o interesse nacional e a liberdade de expressão&lt;br /&gt; o que resta é escolher entre dois que já foram escolhidos&lt;br /&gt; nada de desobediência civil nem de tentar fazer justiça com as próprias mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O imperialismo cultural prescreve minuciosamente&lt;br /&gt; a maneira como a vida do espectador deve ser:&lt;br /&gt; sentado e quieto torna-se mais poroso e conformado&lt;br /&gt; vitrines de shopping que também funcionam como espelhos&lt;br /&gt; o legal do cinema é se lambuzar de pipocas e dar uns amassos&lt;br /&gt; não saber se está sendo filmado para um curta ou para um documentário&lt;br /&gt; as câmeras do circuito interno estavam dormindo quando o crime sucedeu&lt;br /&gt; na rede mundial de computadores sua existência foi deletada&lt;br /&gt; e agora é questão de tempo para a sua geração ser suplantada&lt;br /&gt; o velho método de se inventar histórias jamais se perdeu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-6034410079087377431?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/6034410079087377431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=6034410079087377431&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6034410079087377431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6034410079087377431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2010/12/dever-ser.html' title='Dever Ser'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-7161295874385823118</id><published>2010-12-15T14:54:00.004-02:00</published><updated>2010-12-15T19:13:34.012-02:00</updated><title type='text'>O que eu produzo?</title><content type='html'>O que eu produzo do meu dia em vinte e quatro horas?&lt;br /&gt; fezes e arrotos&lt;br /&gt; mercadorias materiais e imateriais&lt;br /&gt; por que tanta pressa&lt;br /&gt; se já não há o que fazer?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Camisas de colarinho e salto alto desfilam no passeio&lt;br /&gt; a reprodução mecânica dos gestos de almoçar&lt;br /&gt; embrulha-se o estômago de quem passa fome&lt;br /&gt; e se serve com molho branco na mesa de jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Capitalistas suspenderam os benefícios da classe trabalhadora&lt;br /&gt; o sistema financeiro quebrou &lt;br /&gt; uma bolha de bosta estourou a tubulação de esgoto&lt;br /&gt; terroristas-traficantes comemoraram o ramadã com rajadas de fuzil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A rua augusta não oculta os conflitos:&lt;br /&gt; cidades sobrepostas se confrontam dos dois lados da muralha&lt;br /&gt; cercas eletrificadas, molotov e lacrimogênio&lt;br /&gt; um banho de banha fervente deforma o rosto de mais uma travesti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O que eu produzo do meu dia em vinte e quatro horas?&lt;br /&gt; repetição e paranoia&lt;br /&gt; literatura é trabalho voluntário&lt;br /&gt; servidão voluntária e mais-valia não paga&lt;br /&gt; glória &lt;span style="font-style:italic;"&gt;post-mortem&lt;/span&gt; pode render algum direito autoral.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-7161295874385823118?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/7161295874385823118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=7161295874385823118&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7161295874385823118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7161295874385823118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2010/12/o-que-eu-produzo.html' title='O que eu produzo?'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-193818746488820448</id><published>2010-10-16T22:58:00.001-03:00</published><updated>2010-10-16T23:12:14.608-03:00</updated><title type='text'>GEORGE W. BUSH, OU O PRÓXIMO PRESIDENTE DO BRASIL</title><content type='html'>A política oficial, que se torna visível à força no aparelho midiático na iminência de uma eleição, é o espetáculo mais deprimente em um tempo em que os espetáculos deprimentes mais diversos se sucedem e se copiam ininterruptamente diante das nossas retinas. Passada a euforia do dever cívico dominical feito de qualquer jeito e mais por ser obrigatório do que por parecer uma coisa legal, a eleição para presidente foi cooptada pelos setores fundamentalistas e mais hipocritamente conservadores de uma sociedade desde sempre messiânica e cuja maioria da população é ainda moralmente mais sugestionável do que uma horda de cordeiros hipnotizados. Em face da desconfiança silenciosa perante uma candidata situacionista de perfil tecnocrata e gerencial e das similaridades programáticas das duas coalizões que pleiteiam a mudança para manter a continuidade em todos os pontos críticos da agenda estatal, as pessoas que poderiam pensar uma solução inovadora qualquer sentem que não fazem a menor diferença no cálculo final (e suspeitosamente tão rápido) da manipulação das cifras democráticas que a justiça eleitoral executa por meio das urnas eletrônicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É hora de reconhecer que as igrejas – evangélicas e católicas, todas elas – tornaram-se os atores políticos que pretendem levar adiante o legado dos militares e clientes do regime político que vigorou por aqui entre 1964 e 2002. Detentoras de um quase monopólio da reprodução cultural e  donas únicas das verdades mais contundentes e absolutas nas periferias das grandes cidades, nos centros das cidades pequenas e em outros tantos recantos do interior e das capitais, as igrejas possuem um projeto de nação próprio e, sob os rótulos mentirosos de “família” e “defesa da vida”     , propõem uma agenda que consegue ser ainda mais reacionária do que os lemas do Estado liberal democrático de direito cientificista-positivista-tecnocrata-competentista-elitista-racista-patriarcal-escravista-burguês que desde 1800 e pouco foi hegemônico em nosso hemisfério. São rótulos mentirosos por quê? Porque defender que um punhado de células embrionárias grudado na parede do útero de uma mulher negra e pobre – coisa que a “ciência” cristã tão caracteristicamente século XX e tão caracteristicamente norte-americana da pior estirpe hoje costuma chamar de “embrião”, mas que os judeus e depois monges copistas que escreveram as bíblias durante a  Idade Média não eram capazes de saber que existia e chamavam simplesmente de “sangue menstrual” – defender que “embriões” e “sangues menstruais” são pessoas de verdade como eu e você é como confundir merda com cu. Por trás dessa mentira se esconde o óbvio: a igreja cristã tem como razão de ser e objetivo último reprimir, condenar e classificar na categoria de “pecado” o prazer sexual e toda e qualquer sensação de tesão que venha do corpo, do toque ou da excitação pela imaginação, qualquer tentativa de compartilhamento de uma experiência de plenitude por meio do sexo. Lembre-se: trata-se de uma instituição organizada transnacionalmente a coisa de 1500 anos na Europa e 500 anos nas Américas e com larga tradição de espancamentos, assassinatos, castrações, pedofilia, massacres de minorias e tortura em nome da repressão da sexualidade, especialmente repressão das mulheres e segregação dos “pervertidos”.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os debates com perguntas e respostas já pré-determinadas e devidamente ensaiadas, o horário eleitoral gratuito produzido pelos marketeiros (maconheiros?!), a cobertura estapafúrdia da nossa mídia umbilicalmente conectada nessas mesmas igrejas, assim como a conversa sobre eleições que a gente ouve no bar, na padaria e no elevador, parece que tudo já foi programado cronometricamente para acontecer do jeito medíocre que essas coisas vem acontecendo e se repetindo. E aí, o que fazer afinal? Aquela arma meio enferrujada e engatilhada para o tiro na testa desde sempre esteve à disposição, embora votar num voto nulo seja outra coisa bacana de se fazer. Que na verdade entre votar um voto que não vai valer nada em alguém e votar um outro voto que não vale nada mesmo em ninguém, de repente seria mesmo muito melhor ser governado por ninguém. Anarquia já! Embora os nossos cientistas políticos estejam sim é trabalhando numa outra modalidade de utopia pós-moderna: uma máquina de governar, capaz de cálculos precisos e instantâneos para distribuir a renda, coletar os impostos, construir as estradas, intervir no estrangeiro, gerenciar os burocratas, fazer a taxa do câmbio flutuar, administrar a previdência, a taxa de juros, conter os distúrbios no campo e urbanizar as favelas por meio da internet sem fio. Serra e Dilma existem em carne e osso ou serão já uma primeira geração, mesmo que ainda com defeitos de projeto e fabricação, desses fabulosos robôs? Ainda hoje, há quem não acredite em televisão. Utilitarismo consumista democrático direto da fábrica, versão 2.01.0.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A utilidade do seu voto é ser um número, se abstrair numa quantidade decifrada pela análise estatística. Se ir a política é como ir ao mercado, logo compra-se o direito de abstenção, um pacote de alienação e se distancia serena das paixões políticas, deixando que os ciborgues do poder se digladiem numa luta que no fundo não tem nenhum significado maior, lutas alheias ao fundamento ético da conduta humana. A opção é não participar de um falso processo político, da renovação periódica de um ritual aleatório e coletivamente suicida, um outro teatro do absurdo. O engajamento, da nossa parte, não irá para pessoas, nem para partidos, facções, coletivos, talvez nem mesmo para células terroristas islâmicas. O engajamento será pelas identidades negadas, pelas plantinhas da Amazônia, pelos direitos dos fetos, das fadas, dos santos, dos deuses, dos estelionatários, dos incorruptíveis, mas jamais para os bons administradores, nem para as figuras da mídia portadora de celebridades. Vote George W. Bush 69 e seja mais um fundamentalista cristão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-193818746488820448?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/193818746488820448/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=193818746488820448&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/193818746488820448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/193818746488820448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2010/10/george-w-bush-ou-o-proximo-presidente.html' title='GEORGE W. BUSH, OU O PRÓXIMO PRESIDENTE DO BRASIL'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-3990750397751819621</id><published>2010-05-05T03:47:00.011-03:00</published><updated>2010-05-05T17:05:37.191-03:00</updated><title type='text'>A Procura da Poesia</title><content type='html'>Em que canto da cidade posso encontrar poesia?&lt;br /&gt;Já não há quartos de hotel baratos&lt;br /&gt;e mesmo nos caros e luxuosos da alameda santos&lt;br /&gt;impossível seria uma maçã sobre a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poesia?&lt;br /&gt;Ao meio-dia são os escritórios que vomitam gentes&lt;br /&gt;o espetáculo dos esbarrões na calçada&lt;br /&gt;mas nos restaurantes por quilo e redes de fast-food ela não está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde achar poesia?&lt;br /&gt;Nos semblantes severinos desde sempre retirantes&lt;br /&gt;(hoje de ônibus, do largo treze ao itaim bibi)&lt;br /&gt;morte e vida já não entram no cálculo da estatística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é que pode me emprestar uma poesia?&lt;br /&gt;De espumas flutuantes fizeram canudo pra cheirar cocaína&lt;br /&gt;Cruz e Souza, coitado, virou marca de cigarro&lt;br /&gt;O escarro, amigo, é a véspera do outro escarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que boca, em que beco se vende poesia?&lt;br /&gt;Paulicéia mercadológica já sei teu fim:&lt;br /&gt;oswaldiandradiando pela rua augusta&lt;br /&gt;me mariodeandradearei no anhangabau.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-3990750397751819621?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/3990750397751819621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=3990750397751819621&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3990750397751819621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3990750397751819621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2010/05/procura-da-poesia.html' title='A Procura da Poesia'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-6289266239006875890</id><published>2010-04-19T01:39:00.004-03:00</published><updated>2010-04-19T02:17:28.838-03:00</updated><title type='text'>Sobre o Mesmo Tema</title><content type='html'>Uma vez por mês, invariavelmente num sábado, me proponho o problema do bilhete do suicida. Me aflige pensar nas imensas gavetas do instituto médico legal e imaginar mais uma etiqueta banal amarrada ao meu tornozelo (morto) contendo, sumariamente, uma identificação civil com nome completo, data de nascimento e óbito, cor da pele e &lt;em&gt;causa mortis&lt;/em&gt;. Etiqueta esta escrita com desdém e garranchos por uma auxiliar de papiloscopista, assitente incompetente de um insignificante médico legista, que não se dá ao mísero trabalho de dar um nó decente no barbante cinzento usado para atar o bilhete amarelo ao tornozelo esquerdo (morto) - corre-se o risco de não ligar o nome à pessoa. Muito embora a pessoa em questão (morta) já não se ligasse em nomes, números ou identidades desde uma data incerta, o conteúdo do bilhete (etiqueta?) sintetizava em quatro belas palavras um conceito chave tanto para a sociedade civil hodierna quanto para o princípio do Estado de direito. No verso da etiqueta amarela (caída ao acaso no chão frio do instituto médico legal), um sociólogo forense que fazia pesquisa de campo para a conclusão de sua rídicula tese de doutorado leu o seguinte: dignidade da pessoa humana. Tipificado como crime, o direito de morrer a própria morte subsiste à letra morta da lei humana que condena o suicídio de acordo com a cláusula ypsylon do código penal brasileiro e subsiste à lei católica que reserva alguns hectares do inferno a este e outros suicidas nem tão hereges assim. Aos mortos que se matam é reservado o direito amplo e irrestrito de se justificar por escrito. Aos que julgam, aos que choram, aos que sentem pena, aos que se danam, aos que esperavam, aos que nem suspeitavam, aos que já sabiam mesmo antes de acontecer, aos que não se conformam, aos que queriam, aos que lamentam, aos que vivem a vida, aos que se apegam ao passado e as lembranças boas, aos que enterraram, aos que descobriram o corpo, aos que só conheciam de vista, aos que alertaram as autoridades, aos que fizeram o sinal da cruz, aos que repartiram a herança, aos que vão sentir saudades, aos que seguirão o exemplo - não. Na ausência de toda poesia que a minha morte exala, a etiqueta amarela jogada no chão serve de boa antologia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-6289266239006875890?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/6289266239006875890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=6289266239006875890&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6289266239006875890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6289266239006875890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2010/04/sobre-o-mesmo-tema.html' title='Sobre o Mesmo Tema'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-3045124439554117614</id><published>2009-12-06T00:40:00.000-02:00</published><updated>2009-12-06T00:43:27.096-02:00</updated><title type='text'>capítulo um</title><content type='html'>Fazia tempo que era noite. A coluna jovem marchava pelas avenidas em busca de uma outra multidão para enfrentar. Mais além de gangues ou partidos: eram sim facções em última instância ultra-individualistas embriagadas por algum sentido de matar e destruir porque aquele era meu diferente. As fardas propuseram-se contra as hordas – gás paralisante, explosão e os demais aparatos da violência militar barra mercenária.  Os combates tão bem representados, sempre no mesmo dia, local e hora, com cadeira cativa, arquibancada e estacionamento grátis. Um buraco (cuja culpa é da companhia de águas) finca a terra e engole automóveis e a barraca com um vendedor ambulante que não morreu. Os estampidos, as minas terrestres e as granadas: chegou a vez da infantaria, da artilharia e da molecada. O enorme tambor japonês rebomba pelo cimento e pó, fazendo a placa do estabelecimento prestador de serviços gráficos do outro lado da rua oscilar pra lá e para cá. Porque faz vinte e nove anos atrás que alguém nasci e logo me acusaram de ser humano e fui sendo adestrado para virar burguês após a maioridade, que pelo menos até última vez que olhei pelo visor do relógio ainda não me tinha chegado. Correspondência extraviada. Uma bagagem tombada em plena pista do aeroporto, eu achei: calcinhas sujas, cápsulas contendo ar colorido, mudas de plantas exóticas do pacífico sul, um telefone celular riscado e sem crédito, arcadas dentárias para posterior identificação, gazes, um detonador de explosivos plásticos,  violetas e o manuscrito de um poema que podia ser só a anotação de um código confidencial. A conspiração evangélica costuma se reunir naquela catacumba que bem poderia ser comercializada como loft ou apartamento. De madrugada, o burburinho diabólico desses iniciados misturado com os cânticos em língua medieval é feito uma brisa mal-cheirosa que vente da abertura de um bueiro depois da chuva. Não importa a consequencia jurídica do ato. A foice é o instrumento mais útil nessas paisagens imbrincadas, seja para desviar de pedestres afoitos ou ceifar motociclistas desatentos – uma foice também serve para galgar escarpas e decepar aquelas desagradáveis pessoas de meia-idade: pele branca, paletó e uma imitação de gravata. No limiar de nunca mais ser qualquer coisa de valor neste mundo a escritura revelada anuncia ritmos de uma escala de tempo em tudo diferente de uma vida, embora nisso não se abrace a história de qualquer certeza. Um rolo compressor abafa o ruído das britadeiras tecnotrônicas e alisa asfaltos que sepultam crânios daqueles que não vieram pra ser. Faz parte da construção social das loucuras e taras soterradas no cascalho da vergonha pelo passado assassino e terrorista desta nação: servidão voluntária injetada pelas seringas, escravidão que se come no marmitex; o casa grande e senzala recitado todo dia junto com o terço e também o trabalho mecânico e repetido dos escritórios de são paulo. Águas varrem mais um resto de feira na praça infestada por pombos e descortina-se uma tênue cortina de fuligem, árvores pintadas de dourado, fluorescente  e rosa-choque. A presença de pessoas, qualquer pessoa,  no fim das contas só avacalha com a paisagem. Melhor se esbaldar na miséria que ao menos se assume precária e improvisa destinos a partir de pequenos destroços preferencialmente de madeira, isopor ou papelão. As pequenas cicatrizes que sangram quando se faz a besteira de barbear-se deprimido, cheio de  si e chapado, mas de nada adianta tentar evitar que o líquido escorra pelo menos uma vez na direção contrária ao ralo. Meio-ambiente envenenado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-3045124439554117614?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/3045124439554117614/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=3045124439554117614&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3045124439554117614'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3045124439554117614'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2009/12/capitulo-um.html' title='capítulo um'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-7992361492569777651</id><published>2009-08-01T15:16:00.005-03:00</published><updated>2009-08-02T01:38:12.198-03:00</updated><title type='text'>UMA CARTA DE SUICIDA</title><content type='html'>Psicodelia e cervejas, estamos indo embora dos anos dois mil. Astronauta e libertário, o futuro parece mais uma massa cinzenta de desejos por eletro-eletrônicos, coisas, coisas, coisas inúteis como a prestação da casa própria e o oficial de justiça que nos flagrou nus naquele dia de trabalho pouco após o pico de morfina. Troco o LCD pela vitrola, agulha, 76 rotações por minuto e o que meu vizinho tem de ouvir as quatro e quatorze da manhã quando me dá na telha é mutantes, jupiter maçã e raul seixas. As coisas por aqui vão mal, se enchendo de pó e lodo por culpa dos cupins. Os mesmos cupins que buzinam e dirigem automóveis colocando minha vida em risco todos os dias pela necessidade de parecerem burgueses. Celular e automóvel: não se dá dois brinquedos que não podem ser brincados ao mesmo tempo para crianças de seis anos. Porque elas vão rir de você e tentar te atropelar. E a vida escorre cinco vezes por semana, das dez às seis, já segredei bem alto para todos que eu não quero interpretar esse papel de ser o chefe. Dos trinta aos oito em dois milissegundos,  essa nostalgia do que eu julgava podre (eu dos sete aos dezoito)  faz deprimir meu sábado de faxina e reflexão. Ô ô ô seu moço, do disco voador – por algum motivo a música me diz alguma coisa de essencial e por dentro dá aquela vontade de chorar e encher a cara. Por que não fui ser artista? Por que não fui raul seixas, por que não fui arnaldo baptista, por que não fui oswald de andrade, por que nasci em mil novecentos e oitenta? Alguém haveria de estar aqui neste apartamento agora, provavelmente um arquiteto ou publicitário, e não haveria a iminência do vencimento do aluguel e essas lamentações idiotas de quem se desiludiu até com o poder dessa fonte da juventude – rua augusta. As discussões sobre a revolução e o poder público perderam a graça. Os direitos humanos e o combate à homofobia perderam a graça. A gana de lutar pelo mundo se foi, talvez numa transfusão para o menino de dezessete anos que quer fazer ciências sociais na puc, mas não consigo deixar de olhar pra ele com aquela cara de esse filme eu já vi e isso não vai dar em nada. Odiar os pais e evitar por todos os métodos anticoncepcionais a possibilidade de fazer filhos. Somos o ponto final de um sonho? Morreremos e os nossos pequenos segredos não estarão gravados nem nos nossos túmulos nem nos nossos livros jamais editados. O cheiro de feijão cozinhando no apartamento de baixo me abriu o apetite mas a coisa aqui tá feia. Necessidade de fazer a barba, cortar a costeleta e comprar uma roupa de adulto nova. Aproveito que a cerveja acabou e saio por aí torrando esse dinheiro colorido que terá a cara do fernando henrique bordada numa cédula do futuro, antes fossem keynes e marshall a sumir dos livros de história pra não ter de me aporrinhar numa aula de macroeconomia sexta-feira as onze e tanto da noite. Troco meu cartão do banco com você, se quiser também posso te dar meu título de eleitor e errigê – vai lá e vive essa vida bandida por mim. Quer meu salário, meu sexo, meu status, meu diploma de contabilidade? Pega e leva tudo com você pra mil novecentos e noventa e três. Eu vou morar no ar. Abra que eu quero voar o mais alto que eu puder. Um dia eu vou sair – vou morar no ar. Digo adeus aos anos dois mil: adeus velha utopia. Adeus juventude. Adeus rimbaud. Dentro do mambo e da consciência está o segredo do universo. Hoje eu sou cantor de mambo. Mam-bô.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-7992361492569777651?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/7992361492569777651/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=7992361492569777651&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7992361492569777651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7992361492569777651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2009/08/uma-carta-de-suicida.html' title='UMA CARTA DE SUICIDA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-2688342820067659590</id><published>2009-07-02T22:31:00.014-03:00</published><updated>2009-07-03T00:43:30.745-03:00</updated><title type='text'>le dejeuner sur l´herbe</title><content type='html'>do bolo ainda mastigo o glacê&lt;br /&gt;como a faca de viés na laringe&lt;br /&gt;soro na lata é o creme de leite&lt;br /&gt;confabulação de amoras&lt;br /&gt;como fio de metal ao redor dos rins&lt;br /&gt;a pata da mosca repousa &lt;br /&gt;sobre porcelana, caco de louça,&lt;br /&gt;morango mofado e chantili&lt;br /&gt;como uma lâmina amolada&lt;br /&gt;a consistência é láctea&lt;br /&gt;e a confeitaria da esquina logo ali&lt;br /&gt;nesta fresta o ninho de formigas&lt;br /&gt;que trucidaram meu último gomo de kiwi&lt;br /&gt;como a espada do arcano de tarô&lt;br /&gt;cerejas em calda gotejam do céu&lt;br /&gt;orbitando o vermelho mariposas &lt;br /&gt;colher de pau a bater claras em neve&lt;br /&gt;como o canivete na mão do menino&lt;br /&gt;mistura de geleia de framboesa e vespa&lt;br /&gt;bolor que transborda do frasco semi-aberto&lt;br /&gt;como o talher a retalhar carne macia&lt;br /&gt;ainda mastigo o bolo de glacê&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_EXHawvYRzcg/Sk1qpTFRdaI/AAAAAAAAAFY/CFouG8RxJsk/s1600-h/manet.bmp"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 311px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_EXHawvYRzcg/Sk1qpTFRdaI/AAAAAAAAAFY/CFouG8RxJsk/s400/manet.bmp" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5354052789742957986" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-2688342820067659590?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/2688342820067659590/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=2688342820067659590&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2688342820067659590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2688342820067659590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2009/07/le-dejeuner-sur-lherbe.html' title='le dejeuner sur l´herbe'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_EXHawvYRzcg/Sk1qpTFRdaI/AAAAAAAAAFY/CFouG8RxJsk/s72-c/manet.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1450494276716769068</id><published>2009-07-01T18:39:00.002-03:00</published><updated>2009-07-02T23:25:37.230-03:00</updated><title type='text'>Loki</title><content type='html'>Loki, na wikipedia, é descrito como um deus ou gigante da mitologia nórdica. Em outras acepções, loki é caracterizado como um gênio: e é sobre o gênio que trata o filme em cartaz atualmente nos cinemas de São Paulo. Vale ressaltar que o significado dessa palavra diluiu-se muito em nosso idioma, hoje em dia associado mais a variações de humor e a sujeitos cdfs e anti-sociais do que ao significado que a palavra tinha à época do Romantismo. Portanto, o filme trata do gênio (enquanto substância singular, universal e não encarnada) no sentido usado por Goethe: tem muito mais a ver com um certo tipo de dom, uma capacidade inquestionável de se aproximar do Universal, da Ideia hegeliana com I maiúsculo, seja por meio da arte refinada e atemporal, seja por meio de reflexões de clareza e objetividade, com mensagens de longo alcance no tempo e no espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme é um documentário biográfico organizado em ordem cronológica e recheado de entrevistas sobre a trajetória do músico Arnaldo Baptista.  Para os aficcionados pelo cara e pelos Mutantes, como é o meu caso, somente a oportunidade de ter acesso as imagens e depoimentos raros das décadas de 1960 e 1970 já vale por si só cem vezes o preço do ingresso. Mas muito além, novas luzes e perspectivas sobre a vida de Arnaldo são dádivas emanadas dos depoimentos mais atuais do cantor. Da simplicidade das suas pinturas, palavras, do lado de lá desse mundo à parte onde ele vive isolado ouvimos uma versão ligeiramente diferente sobre quem é essa figura mítica Arnaldo. Do senso comum católico e yuppie desses fãs um pouco mais velhos do que a minha geração o que se costuma ouvir é “o Arnaldo foi um cara que foi longe demais nas drogas, que não soube esquecer a Rita, que viajou no LSD e nunca mais voltou e que, de certa forma, o acidente e a vida precária que ele vem levando desde o fim dos anos 1970 é uma compensação, um castigo pela vida de excessos e ácidos dessa época dos Mutantes”. Nessa concepção, sente-se um pouco de pena (como em todo sentimento de pena: desprezo puro) por ele, que não soube virar burguês e “adaptar-se” aos novos tempos como aconteceu com a maioria daquela geração (aqui podemos enumerar a Rita Lee casada com aquele marido idiota, Gilberto Gil de gravata no ministério de Lula, Caetano cantando “sozinho” e até o Tom Zé se apresentando no programa do Raul Gil como eu vi um dia desses). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu amor pelo Arnaldo é enorme e com certeza distorce e influencia qualquer crítica. Mas a sensação que eu tive durante o filme e ao sair da sala misturava choro, vontade de entrar num ônibus pra Juiz de Fora, um desejo de sair pela avenida Paulista cantando “cê tá pensando que e sou lóki, bicho?” e uma necessidade urgente de embarcar numa nave espacial rumo a São Paulo de 1967, nessa mesma Rua Augusta onde eu moro e cujos tijolos das calçadas vibram melodias dos Mutantes. E afinal de contas, se eu ou você vamos a um cinema e assistimos a um filme o que buscamos não é isso mesmo – emoção, emocionar-se? Hoje fui trabalhar ainda inebriado com essa coisa toda. Nem quero entrar em muitos detalhes ou polêmicas sobre o filme (só pra constar: a melhor coisa é a ausência de qualquer entrevista da Rita Lee atual), vá você mesmo e tire suas próprias conclusões. Porque eu vou correndo. Buscar a glória.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1450494276716769068?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1450494276716769068/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1450494276716769068&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1450494276716769068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1450494276716769068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2009/07/loki.html' title='Loki'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-4024586300584350372</id><published>2009-06-13T00:12:00.000-03:00</published><updated>2009-06-13T00:15:04.614-03:00</updated><title type='text'>Filho Da</title><content type='html'>Eu e meus amigos causamos naquele bar. Bebi, falei alto, cantei marchinha de carnaval, criei mal-estar entre os garçons. Gatei os tubos. Segundo uma certa corrente da psiquiatria contemporânea, tudo isso porque eu não extravaso as minhas energias libidinais onde deveria extravasar. Discordo de toda psiquiatria, psicologia, psicossociopatia e também de toda “ciência” contemporânea. São meia-noite agora e lá fora faz um frio de mais ou menos onze graus: beber álcool e fumar nicotina a quatro reais e vinte e cinco o maço foram as válvulas de escape que me sobraram. Arranco o filtro do cigarro e penso nos surrealistas fugindo da SS em direção aos Pirineus – será que existiu essa outra Europa tão pior que a nossa América Cretina? Porque tudo se diluiu em consumo, vontade de ter um automóvel, a casa própria e procriar por meio de inseminação artificial? Tiraram das crianças a capacidade de imaginar, de ler Hans Cristian Andersen, de ouvir alguém narrar As Reinações de Narizinho e a Formiga e a Cigarra naqueles dez minutinhos antes de dormir. Crianças de colo embaladas por i-pods não são crianças nem são objetos orgânicos que mereçam ser carregados em qualquer colo. Fiquem longe de mim, vocês e seus filhos pequenos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-4024586300584350372?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/4024586300584350372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=4024586300584350372&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/4024586300584350372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/4024586300584350372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2009/06/filho-da.html' title='Filho Da'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-3022417412272491123</id><published>2009-05-25T19:12:00.000-03:00</published><updated>2009-05-25T19:13:16.837-03:00</updated><title type='text'>Leituras</title><content type='html'>As leituras de juventude são descobertas. Aos dezenove, vinte ou vinte e poucos eu desejava conhecer o que de melhor existia em literatura, teatro, cinema, na vida. E li bastante: quase sempre o acaso. As épocas, línguas e estilos fundiam-se numa maçaroca ininteligível e fascinante: era o desbravar de novos continentes. Faltavam mapas, faltava dinheiro, faltava esperar a estação do ano certa. E todo mundo tem que transar uma primeira vez, tem que usar droga por uma primeira vez, tem que se perder na augusta de madrugada uma primeira vez. E uma segunda, e uma terceira, e uma infinidade de eiras sem beiras...&lt;br /&gt; As segundas leituras são orientadas pelo método. Já sei que livro eu gosto, já sei as cenas preferidas, já sei os autores que me falam algo essencial. Munido de mapas traço rotas muito mais precisas: posso passar seis meses convivendo com um autor, pensando seus pensamentos, conhecendo os bares onde ele ainda bebe, viajo com muito mais calma para as cidades visíveis/invisíveis que ele inventou. &lt;br /&gt; E foi assim que mudei meu jeito de ler. Metade do ano passado – 2008 – convivi com a mulher Hannah Arendt e neste 2009 estou dado a ler Franz Kafka. Sim, eu já havia lido a metamorfose, o castelo, o processo, mas a perspectiva é outra quando se lê um livro na sequência do outro. E assim as impressões de uma leitura-mergulho dia-a-dia vão se consolidando em outras descobertas. Assim, como Rimbaud, abandonei a literatura desde algum tempo e pretendo continuar a preencher este espaço relatando impressões de minhas segundas leituras. Nada de exercícios de crítica, tudo de exercícios de leitura. Em voz alta: outras descobertas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-3022417412272491123?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/3022417412272491123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=3022417412272491123&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3022417412272491123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3022417412272491123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2009/05/leituras.html' title='Leituras'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-5620159092445218599</id><published>2008-10-21T21:03:00.003-02:00</published><updated>2008-10-22T14:22:03.028-02:00</updated><title type='text'>O INTESTINO E A GLOBALIZAÇÃO</title><content type='html'>Quem pode evitar o massacre? Dêem-me munição, um fuzil, um cantil, a mira do canhão. Branco e católico, você faz tempo já perdeu o seu poder de convencer. Homem de gravata, discurso ponderado e pausado, a velha retórica do democrata. O coronel que é filho do banqueiro, o soldado raso, sargento da PM, morreu sem lápide e todo baleado, ele era negro e era favelado, marginal, maconheiro. Quem quer fazer cessar a matança? Dê-me três por cento de comissão, taxa de juros mais correção, dê-me um alvará de soltura que eu te invisto meu capital e te faço aparecer na televisão. O velho democrata e sua falaciosa fala, lágrima de crocodilo e marqueteiro porque esse ano é ano de eleição. Um banquete regado a champanhe: vereador da base governista, promotor do ministério público, representante da bancada evangélica, investidor estrangeiro, industrial e empresário, jovens homens de negócio, um brinde ao holocausto. Quem pode legalizar o aborto, criminalizar a escravidão e a tortura, distribuir a renda, acabar com o racismo, combater a fome, diminuir a mortalidade infantil? Dê-me o controle remoto. Não existe tempo para o livro num mundo em que existem automóveis. Quero o cofre transbordante, todo o dinheiro do mundo (controle acionário marjoritário do Planeta Terra S/A). Pra comprar a força de trabalho do proletariado. Pago à vista e faço feriado, faço a suruba e o carnaval, sob o totalitarismo libertador de Orfeu e Dionisio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-5620159092445218599?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/5620159092445218599/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=5620159092445218599&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5620159092445218599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5620159092445218599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/10/o-intestino-e-globalizao.html' title='O INTESTINO E A GLOBALIZAÇÃO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-2925485880208040601</id><published>2008-10-21T20:44:00.002-02:00</published><updated>2008-10-22T14:19:42.718-02:00</updated><title type='text'>Éolo</title><content type='html'>Para onde aponta o vento, com o vento bem forte batendo na cara. Assumir o fracasso e se resignar com uma vida de pobre. O rei dos pobres no país dos miseráveis. O quarto e sala, a geladeira de segunda mão, um fogão que mal funciona. Porque a pose continua a mesma, proliferaram foram as rugas. A completa falta de destino e a ausência de perspectivas, reproduzidas geração após geração. Para mergulhos na loucura não existe qualquer referencial. De noite posso ter a campainha dos iniciados, cumprindo o ritual da bebida e feitas as devidas honras aos deuses da camaradagem. Porque as pessoas que andam pela rua já perderam completamente a audição, entupidas que estão com seus fones de ouvido de playboy ou camelô. E nessas eu corro, mas a cidade e a velha náusea me perseguem. Eu olho pro céu cor de cinza e juro que por dentro dou um grito, porém o barulho do carro que passa é mais alto e me abafa. E desse absurdo silencioso me dá medo de morrer assim desse jeito, pelo meio do caminho. É hora de extravasar cometendo um reles e vil ato de crueldade gratuito contra alguém que não tem nada a ver com a história. Só a rotina impontual do amor pode dar tempero ao personagem. Eu sou corpo ela. Ao acordar o susto pode ser muito mais grave do que não lembrar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-2925485880208040601?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/2925485880208040601/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=2925485880208040601&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2925485880208040601'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2925485880208040601'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/10/para-onde-aponta-o-vento-com-o-vento.html' title='Éolo'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-7498322636475988792</id><published>2008-10-21T11:47:00.000-02:00</published><updated>2008-10-21T12:14:54.801-02:00</updated><title type='text'>O teatro, seu Zé Pelintra e o samba</title><content type='html'>O teatro, Zé Pelintra e o samba: bolinho de bacalhau e cerveja - arrancar a pessoa dessa letargia. Me sinto cansado de argumentar, negociar, racionalizar, opinar, contabilizar. O fim do mundo é o meio da rua, a multidão que devora o tirano, pipoco e morteiro que fazem o céu de repente clarear. A vida que não acontece, um tapa na cara, dívida em avalanche na fatura do cartão de crédito. Os referenciais perdidos, antecedências revogadas, a tribo é que não aceita mais a transmissão de bens e direitos por sucesão, herança ou doação entre parentes consanguíneos, tendo ou não a mesma origem étnica. São esses os cadernos do que escrevei em mais um lugar que habitei só de passagem. Sonhei as tapeçarias e os corredores do Kastelo, mas amanheci com gosto de vinho na boca mais uma vez, sempre a mesma vez, a mesma cama dura no quarto da estalagem. Os balcões e as bancadas, névoa milk-shake de neve, um misto-quente sem nada pra beber na padaria são paulo. Impessoal é a expressão do meu rosto, um espectro de i-pod, absolutamente alheio ao frenesi das buzinas e sirenes de ambulância, a audição deficiente e perdido mais um ouvido por causa das bombas da guerra. Sonhei um helicóptero que batia e explodia quando ia pousar bem no topo daquele prédio ali.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-7498322636475988792?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/7498322636475988792/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=7498322636475988792&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7498322636475988792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7498322636475988792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/10/o-teatro-seu-z-pelintra-e-o-samba.html' title='O teatro, seu Zé Pelintra e o samba'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-3046752381669400340</id><published>2008-10-21T05:10:00.003-02:00</published><updated>2008-10-22T14:51:33.796-02:00</updated><title type='text'>Eros</title><content type='html'>Desejo interrompido ao olhar para onde não devia, ao pensar o que naquela hora não convinha. Pudor não é o nome do tapa na cara. As camadas do tecido que encobrem (que recortam) a pele. O sangue e os dejetos do amor (amor entre aspas) dão a feição algo burlesca das flores em roxo e carmim, bordado furado com bituca de cigarro em um lençol alheio. Poesia é linguagem cifrada dessa e daquela outra pequena perversão, desejo que não transgride os olhos, não ganha voz em garganta, não canta, não vaza oríficio, desejo cínico impresso em tatuagem e caligrafia gótica. Frestas entre peitos, calor de um corpo suposto (quando não imaginado), noite que se faz tão úmida que escorre pelas pernas, pelo ralo do chuveiro, pelo alçapão. Olhos que já não são mais linhas de defesa, censura que potencializa a vontade de sacanagem, daqui em diante já não se fala mais em tesão. Boca não fala: boca chupa - não assopra e arranha - boca que morde. Eu sou um corpo inteiro. Na hora da ação a vida fica devendo tanto, mas mesmo assim os vampiros voam montados nas vassouras e as bruxas e os brochas, todo mundo se reúne pontualmente na fila pra comprar um ingresso pro parque de diversão. Em literaturalândia (ou) em literaturaworld. O mundo durante o dia não existe. E eu te prometo a satisfação e o gozo. Ou dessa vez não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-3046752381669400340?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/3046752381669400340/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=3046752381669400340&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3046752381669400340'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3046752381669400340'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/10/eros.html' title='Eros'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-9208591019440096578</id><published>2008-10-21T02:59:00.003-02:00</published><updated>2008-10-22T14:46:57.188-02:00</updated><title type='text'>Solar</title><content type='html'>O que de dia é pacato. Certa tonalidade de verde no muro do prédio que se ergue a minha frente só pode ser enxergada com nitidez quando a luz do sol passa por essa outra fresta, exatamente às quatorze e quarenta e sete da tarde do dia sete de setembro de dois mil e oito na rua augusta - coração e ânus de são paulo. Os carrinhos de feira parecem resquícios de uma outra época, manobrando espaços no vão entre duas paredes altas de supermercado. Só o Iggy Pop é que berra na vastidão tão pouco ruidosa do apartamento do sétimo andar. A minha mente é que fotografa, sem lente nem máquina: paisagens interiores. O que de noite mostra seu lado malvado, em busca do corpo de alguém que morreu tão jovem e sem nem ser avisado. Ou a busca de outro corpo que faça cessar o instinto: serotonina, a difusão atômica do neurotransmissor. A tentação é o desapego de todo passado, nascimento a partir do dia em que fui conclusivamente declarado louco pelo parecer dos médicos. Por isso ainda me deixam dançar rock n´ roll sozinho no meio da sala e limpar os restos de comida cravados em minha gengiva quando as visitas estão presentes. Pela linha de sucessão da empresa, serei o próximo manager-presidente com a morte do Alberto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-9208591019440096578?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/9208591019440096578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=9208591019440096578&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/9208591019440096578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/9208591019440096578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/10/solar.html' title='Solar'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-8238997754613655012</id><published>2008-10-20T14:47:00.000-02:00</published><updated>2008-10-20T14:54:45.308-02:00</updated><title type='text'>Vital</title><content type='html'>A vida é o que não estaca diante de uma bifurcação: arrisca. É o que se lança ao abismo, adolescente em fuga, pacto com o demônio: volúpia, calafrio e irresponsabilidade. Vida é o que caminha. O que confia no que vê é o que há de mais morto, na cama se confundem choro de bebê com gemidos de prazer da mamãe: arranca teus olhos com teus próprios dedos. Líquido é o que não seca, é o que escorre pelas frestas entre o assoalho e goteja qual provocação na careca do síndico que mora no andar de baixo. Vida é o que atravessa paredes e mergulha no vazio de uma queda, vertigem multiplicada pelos seis pavimentos do edifício residencial. Porque vida ainda são os golpes de um corpo escavando o chão do jardim, vida é essa capacidade de uma cabeça entrar dentro de outras cabeças, inventar misérias, conspirar em segredo e formular estratégias para evitar a pena pelos assassinatos cometidos. Vida não é a fome, vida não é o sexo, vida não é o repetido. Antes guinadas bruscas, antes cautelas inúteis, vida é o trem sem trilhos, a nostalgia das noites estreladas, o melancólico final de um alcoólatra com câncer. Conter a pulsão anárquica que palpita no escuro da vida é já estar do lado de lá. Vida é o querer morrer muitas vezes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-8238997754613655012?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/8238997754613655012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=8238997754613655012&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/8238997754613655012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/8238997754613655012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/10/vital.html' title='Vital'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-8774127001603668460</id><published>2008-10-20T14:36:00.000-02:00</published><updated>2008-10-20T14:44:38.391-02:00</updated><title type='text'>Diário</title><content type='html'>A escolha se resumia entre voltar a morar nas cavernas ou marchar com minhas próprias pernas para o campo de concentração. Cinzas cobriam a terra ainda úmida do sereno da manhã - o encontro dos que acordam cedo demais para ir trabalhar com aqueles que viraram a noite na balada. Os policiais cercaram o prédio e eu fugi rastejando pelo esgoto. Meu desleixo com a higiene e a falta de cuidado com a aparência denotam pouco caso, logo subversão. O caso é que o terror está nas coisas mais banais, rotina, absurdo e os mesmos movimentos repetidos. A cidade sitiada: o setor de inteligência do exército mandou reforçar o armamento dos sentinelas que fazem a ronda sobre a muralha. Vista de fora, pela legião dos refugiados que nunca fizeram questão de aprender nosso idioma, era realmente um campo de concentração. Faço parte desses que por dentro sabem que estão mortos, mas por fora continuam a viver mecanicamente. A fumaça espessa e fedida parecia que saía das entranhas do próprio asfalto. Sinto a cama girar e o teto deretendo, efeito da morfina. Me penduro de ponta-cabeça na marquise para piXar motivos psicodélicos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-8774127001603668460?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/8774127001603668460/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=8774127001603668460&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/8774127001603668460'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/8774127001603668460'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/10/dirio.html' title='Diário'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-651724794171789553</id><published>2008-06-10T23:27:00.000-03:00</published><updated>2008-06-10T23:45:49.508-03:00</updated><title type='text'>RAPSÓDIA</title><content type='html'>Não existe. Trama emaranhada, raras evidências, lógica truncada. Memória repetida em prateleiras de supermercado. O grotesco de uma terça-feira, uma aparição repentina, como num filme de David Lynch: um passarinho, a estrada, roupas penduradas em cabide de osso, barbatanas fósseis de seres de outras eras geológicas, arqueologia dos baús, mapa-tesouro de piratas, a tesoura eutanásia, arma do crime, censura velada. Natural que a ordem se subvertesse em anarquia. Filmograma, cinematógrafo, o oculto criptografado, função catártica da linguagem, ressonância magnética e transição pulmonar intravenosa parassintética. Um menino pequeno mas tão... tão extrovertido, debochando do palco, debochando da câmera, ridicularizando a coisa escrita. O gesto nem é tão decisivo. Brilho nos olhos, sorriso no rosto de quem sabe querer dizer com precisão o que uma perspectiva parcial de conceber o mundo que se chama indivíduo quiser dizer. Eu pus um caderno na saída do público para que eles escrevessem suas impressões a respeito do espetáculo. Sou daquele tipo de ator pra quem um trabalho bem feito vale mais do que mil vidas vulgares que eu ou qualquer outro pudesse ter tido. Não existe. Mas faço faíscas, coisas tão palpáveis quanto essa boca que eu beijo. O corpo que eu incorporo ao meu próprio corpo, incorpóreo, pó e poros. Descobrir que as pessoas são de verdade, na hora do vamu vê, ir pra cama e transar. Gozo que neutraliza essa poesia, o tecido das palavras, mas que inaugura outras poesias, o caldo e a carne.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-651724794171789553?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/651724794171789553/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=651724794171789553&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/651724794171789553'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/651724794171789553'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/06/no-existe.html' title='RAPSÓDIA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-5276943625532476926</id><published>2008-06-10T23:08:00.000-03:00</published><updated>2008-06-10T23:27:04.083-03:00</updated><title type='text'>A volta do boêmio...</title><content type='html'>Eu acordo de manhã no cruzamento mais barulhento da cidade. O dever e a náusea, não necessariamente nessa ordem, fazem o corpo levantar, vestir, sair caminhando. No trabalho as horas que passam, repetição. No meu caso nem chega a ser alienação. A cabeça é o anexo do windows, eu tenho pensamentos de computador. Saio exausto e de algum modo misterioso a alma entra em mim junto com a fumaça do cigarro. Na hora qualquer em que como o almoço ou ao final do expediente, os pensamentos perigosos que me perseguem. O ódio cozido aos poucos e em silêncio, a vontade de exterminar certas humanidades - a começar por mim. Daí o medo do saco de ter que encontrar no elevador um fulano que vai te achar com cara e jeito de louco e você ter que vomitar pelo menos um bom dia, os últimos dois vocábulos que sobreviveram da solidariedade e da civilização que outrora existiram. Ou pior ainda, o ódio destilado e mudo voltado integralmente contra um desses folgados com quem se tem o prazer de deparar ao menos duzentas e quinze vezes por dia. Que diferença quando um rosto já antes visto se aproxima e tudo faz sentido, um convite pra beber, conversar, o mundo e suas cores. Perefeição é o recolhimento, a solidão com livros, a hora em que sou eu, minhas caretas mais secretas. Viver o sentido ritual da vida, a carne e a cerveja, por mais que os rituais vazios de uma vida tão banal sejam desprovidos de todo sentido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-5276943625532476926?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/5276943625532476926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=5276943625532476926&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5276943625532476926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5276943625532476926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/06/volta-do-bomio.html' title='A volta do boêmio...'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-2517357226621160831</id><published>2008-03-10T00:35:00.001-03:00</published><updated>2008-03-10T00:35:48.772-03:00</updated><title type='text'>É, eu sei disso que você tá me falando...</title><content type='html'>É, eu sei disso que você tá me falando. Não, isso é porque no fundo eu também cresci dentro de um quarto que tinha videogame, aparelho de som três em um, revista de História em quadrinhos, tv a cores, videocassete, uma porrada de revista de mulher pelada e um tênis nike sujo e esburacado jogado em cima de um canto. Não tem nada a ver com eu ser ou não ser filhinho de papai, tem coisas que eu cuido da cabeça pra dentro e não é porque neguinha saia por aí falando que eu pareço com isso ou parecço com aquilo que na verdade eu sou. Eu sei muito bem de que São-Paulo-Palanque eu tô falando, sei que a realidade do Brasil é outra, sei que eu não pertenço aos pobres e os ricos e os burgueses e os classe média do caralho tão cagando e andando pra cima de mim. Assim como eu estou cagando e andando pra cima deles também, quer saber. Porque meu negócio é viver meu eu e tudo o que está ao redor dele - inclusive você, meu. Viver as experiências que dá pra viver vivendo à margem e ao mesmo tempo dentro da parada, circulando por dentro e por fora do padrão. Brincando de esconde-esconde com a polícia, no Brasil todo mundo que brinca de polícia e ladrão prefere mil vezes ser ladrão, por que será? Um dia eu ainda vou ter minha carabina calibre doze e um canhão no quintal de casa que nem o Serafim Ponte Grande. Pena que eu moro em Alphaville e se eu atirasse não ia ter pra onde errar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-2517357226621160831?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/2517357226621160831/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=2517357226621160831&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2517357226621160831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2517357226621160831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/03/eu-sei-disso-que-voc-t-me-falando.html' title='É, eu sei disso que você tá me falando...'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1976911672747631269</id><published>2008-03-10T00:34:00.001-03:00</published><updated>2008-03-10T00:34:43.779-03:00</updated><title type='text'>Fun, babe, fun!</title><content type='html'>Só eu sei o quanto é difícil penetrar nesse universo paralelo e estranho em que as garotas pensam, vivem e me julgam. Sim, porque a questão toda no fundo é julgamento e por mais que eu também seja um cara normalzinho e viva dando opiniões a torto e a direito sobre o modo de existir de qualquer fulano ou fulana que cruze o meu caminho, pelo menos eu tento me policiar. Não saio armado por aí etiquetando rótulos e disparando contra as tribos a troco de me sentir mais poderoso e mais in do que esses pobres adolescentes com camisetinhas de banda de rock neo-gótico. Eu cresci. E desde muito novo já circulava por entre as várias tendências e estranhezas que uma sociedade anárquica e pós-moderna pode oferecer pra alguém que tinha naquela época não mais do que quinze anos e adorava subir e descer pelas escadas rolantes (que não rolavam) da galeria do rock do centrão de São Paulo, ali ao lado do teatro municipal (seu burguês otário). Porque no teatro municipal mesmo eu só fui entrar lá depois de muito mais velho, já com a pose do intelectual decadente que não conseguiu ter saco pra aturar toda a enxurrada de burocracia que precede o solene ritual de entrega dos diplomas de graduação em letras e ciências anti-sociais. No colégio eu era amigo dos hippies, comia uma tiazinha com pinta de pin-up, tinha amigos entre os punks, freqüentava as festas da gaviões da fiel e pagava um pau pra turminha do black. Mas em lugar algum eu me sentia bem, sempre deslocado e blasé, com as latas todas de cerveja circulando pelo meu corpo entre um gole e outra gorfada na fila do banheiro –nunca tive pinta pra ser amante latino, desses que arrasam com o baile e ganham todas as loiras com um golpe bem dado de tacape na cabeça e depois carregam suas vítimas dentro de uma caçamba de pick-up rumo ao motel mais barato da rodovia raposo tavares. Meu negócio vai muito além de ter ou não ter estilo, de estar ou não estar na sua modinha, de seguir ou não seguir seus conselhozinhos de bacana que lê folha ilustrada. Comigo você vai ter que aprender novos idiomas, novos costumes, novos jeitos de fazer cada mínima coisa que você está acostumada a fazer nessa sua vidinha confortável e medíocre. Uh babe... Uh babe... Me dá um acorde em lá e se prepare pra se reinventar completamente. Bem-vinda ao mundo encantado dos que não consomem literatura por lazer. Dos que são feitos de tinta e papel e são literatura mais do que carne. Marquei uma reuniãozinha nas quebradas da rua augusta pra você conhecer minha galerinha e ir se enturmando logo no começo pra depois não dizer que eu faço você se sentir uma estranha. Porque pra ficar comigo vai ser desse jeito, por mais que doa e incomode. Estou aqui nesse mundo pra fazer doer e fazer incomodar. Fazer doer e fazer incomodar... Três e quarenta então? Naquela esquina suja entre as putas e os playboys da zona leste que se entopem oito ou nove dentro de um fiat um quatro sete e ainda racham a grana pra conseguir um mísero boquete de travesti sem dente? E no fim ainda fazem um sorteio (roleta russa com trinta e dois enferrujado de numeração raspada) pra saber quem será o felizardo desta noite. Estarei lá com meu compadre Artur, o junkie. E com o gordo do Jack. E com a piranha da Anais, com o velhinho do condomínio do Rubem, com o Leminksi, com o imbecil do Truman Capote, com a minha querida Clarice, com o deus supremo Oswaldo, com Cortazar, com Caio Fernando Abreu, com o pai do Luis Fernando Veríssimo. Estaremos ali ouvindo um violão do Kurt Cobain, quem sabe vendo um filme do Kubrick ou escrevendo e-mails com vírus pra algum Jean-Luc Godard que não saiba ler. Punhetando intelectualidades, como é característico dos autores que se escrevem por São Paulo. Entre um pico e outro de droga, pedir pro Iggy Pop dixavar mais um baseado, dar uns amassos e umas dedadas na mulher do Bowie e lamber a orelha da minha ex-atriz preferida: podia ser Anna Karina, podia ser Isabelle Huppert (por isso nos amamos e trepamos e fodemos em francês, língua porca e depravada). Sempre preferi a baixa boemia, sempre admirei como o maior dom divinal ou humano que se pode conceder a alguém essa capacidade de se manter invisível por detrás de uma coluna, só espiando e remoendo risadinhas sarcásticas. Mas voltarei ao palco pra fazer aquela cena de sexo explícito que o Nelson Rodrigues guardou só pra mim e pra você. Com direito a sangue e mordidas e manchas roxas sobre tua pele branca. Vem comigo por esse buraco, vamos escavar subterrâneos e vasculhar as passagens secretas e calabouços que nos levem para muito além desse mundo de ratos que se amontoam num sofá velho e rasgado pra assistir a novela das oito por detrás do reflexo da vitrine da loja de tevê. Eu odeio o seu amor, odeio essa sua maneira panaca de ser fina e meiga. Mas desejo seu corpo, preciso de um corpo jovem para dar prosseguimento ao macabro ritual – quero sobre o capô de um carro, encostada contra o poste toda arreganhada, seu bum-bum apoiadinho no mictório de uma balada podre, brutalidade e cheiros sobre o tampo do esgoto, eu, você e o que sobrar de nossas almas quando a aurora finalmente amanhecer. Quero conhecer na minha veia o HIV. Saltar etapas e me santificar por uma editora de pequeno porte, deixando aqui pra vocês somente uma pequena amostra (grátis o caralho) do que eu poderia fazer se tivesse vontade de ser um escritor que escreve pra qualquer rede globo. Só uma trepada assim (é, como você ta imaginando e querendo, assim mesmo, garota: uma trepada do caralho) e depois repouso eterno e o tédio enlatado pra curar da ressaca. Que venha o tiro e o pico e o carro desgovernado e a cama do hospital público senador nove de junho com sondas e cabos e tubos entrando e saindo pelo meu corpo magro. Que me amarrem e me amordacem e me mumifiquem ao lado do Lênin. Nunca fui mesmo mais do que um cadáver quando examinado do ponto de vista das garotas. Mas assim como as desprezo, queridas, as amo todas vocês. Nem só das noites de desamparo e solidão vive o desejo de um homem divergente pelas mulheres convencionais. Até porque agora a essa hora do ano tudo o que eu não quero é que você me convença. Beija primeiro e reclama depois.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1976911672747631269?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1976911672747631269/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1976911672747631269&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1976911672747631269'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1976911672747631269'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/03/fun-babe-fun.html' title='Fun, babe, fun!'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1403205796277600217</id><published>2008-03-10T00:33:00.001-03:00</published><updated>2008-03-10T00:33:20.754-03:00</updated><title type='text'>DIÁRIO SEM DATA - II</title><content type='html'>Ainda dessa vez eu tomaria aquele ônibus Jardim Jamorítimo e não eram nem nove e meia da noite, meu corpo cheirava a óleo de cozinha. Celulares tocavam sem parar e meninas que vinham de qualquer periferia atendiam: alô, meu amor, onde cê tá, já tô chegando, tô aqui na faria lima. Eu olhava pela janelinha embaçada de suja aquela paisagem repetida que eu sabia inteirinha de cor: uma vez eu comentei com uma amiga que eu tinha a impressão que se um dia eu virasse por uma outra rua qualquer que saísse do itinerário eu me sentiria completamente desamparado. E naquela hora eu me sentia exatamente assim e minha consciência voava até o dia longínquo e esfumaçado da minha infância em que ainda existia em mim o germe de um ser humano que poderia vingar na vida. Não sei bem quando, mas essa promessa falhou e hoje só recolho cacos e junto objetos miúdos numa caixa como quem acorda de um sonho ruim numa manhã de quinta-feira e se dá conta de que se passaram vinte anos desde a noite em que você foi dormir. E o mais triste é que eu me esqueci como eu sou quando não estou bêbado nem chapado ou a procura de e que jamais terei coragem de mudar minha postura e encontrar qualquer ponto de equilíbrio que me garanta um mínimo de harmonia com as pessoas que estão ao meu redor. Me engano com pequenos prazeres e conversas meramente superficiais, mas em breve nem isso minha saúde frágil me permitirá mais. Sinto lá no fundo uma necessidade palidamente humana de me aproximar e compartilhar minha vida com alguém, mas fraqujo e desconfio de todos. Sou tenso e incapaz de me relacionar afetivamente, portador assumido de neuroses para as quais não vejo possibilidade de solução. Minha doença, dizem, chama-se depressão. Antes de descer deste ônibus eu quero muito me matar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1403205796277600217?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1403205796277600217/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1403205796277600217&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1403205796277600217'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1403205796277600217'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/03/dirio-sem-data-ii.html' title='DIÁRIO SEM DATA - II'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-7275813618708707973</id><published>2008-03-10T00:32:00.001-03:00</published><updated>2008-03-10T00:32:43.874-03:00</updated><title type='text'>DIARIO SEM DATA - I</title><content type='html'>A velhice vem vindo e o tesão acabou. Só fui me dar conta de que o saldo de uma adolescência saudável é ter construído uma máscara de personagem de si mesmo tarde demais. Agora já não se pode reconhecer qualquer expressão humana nas rugas precoces que enfeiam a minha face. Cativo em denso casulo, sou insensível a todo e qualquer apelo, do racional ao afetivo. Me esquivo passageiro de ônibus nas multidões de São Paulo e maquino silenciosamente planos de ataques terroristas que matassem Motoristas de automóvel. Explodir uma ponte, uma dessa pontes da marginal, quem sabe. A fraqueza me paraliza e o medo me impede de começar o dia. Momentos felizes? Certas noites de orgia, cocaína e bebedeira. Disso eu entendo, entendo tanto que até já enjoei e agora eu queria o controle do meu destino de volta. Sonharam meus sonhos enquanto eu hibernava? Reconheço que em 99% do tempo me faltou força de vontade e amor no coração, mas só agora, depois de velho, é que eu consegui aceitar que o papel que eu vim representar aqui neste planeta não é o de ser um cara bonzinho. Vou dizer e fazer e escrever coisas que incomodam muita gente, mas eu não perco a chance de experimentar uma maneira de pensar o destino e a vida que seja original, transgressiva e perversa. Meu lugar é um pouco para lá da linha que separa as pessoas que se dão bem na vida e se guiam pelo bom senso do resto: os fodidos, bandidos, drogados, loucos e excêntricos. Meu grande defeito até agora foi conspirar em silêncio e acumular toda a energia ruim que eu recolho do mundo no meu corpo, mas agora eu estou finalmente aprendendo a me lavar. Quero me banhar na fonte mais límpida, mergulhar com os peixinhos do rio, secar sob o sol do Equador. Das águas emergiu um homem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-7275813618708707973?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/7275813618708707973/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=7275813618708707973&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7275813618708707973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7275813618708707973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/03/diario-sem-data-i.html' title='DIARIO SEM DATA - I'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-5574633089729684651</id><published>2008-03-06T10:52:00.001-03:00</published><updated>2008-03-10T00:24:38.439-03:00</updated><title type='text'>ANÚNCIO</title><content type='html'>Sou um homem com desejo de engravidar&lt;br /&gt;Apelo ao pai-de-santo, apelo à ciência&lt;br /&gt;Perco a paciência, quero ter outro corpo&lt;br /&gt;Quero um corpo loiro e alto e forte e de olhos azuis&lt;br /&gt;Que transmita logo de cara a mensagem do que eu sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um homem não tão sadio mas em idade de procriar&lt;br /&gt;Por isso botei um anúncio no jornal de domingo:&lt;br /&gt;"Pai solteiro e branco procura mãe de aluguel adolescente".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher ideal que está tão longe agora...&lt;br /&gt;Talvez no interior da Escócia, com uma atriz de cinema&lt;br /&gt;Eu seria mais feliz se morasse num outro país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu seria mais feliz mesmo se voltasse aos dezesseis&lt;br /&gt;Agora é que eu não tenho mais chances&lt;br /&gt;Porque encontrar a mulher com quem eu sonho há mais de dez anos&lt;br /&gt;Tornou-se uma questão de honra, uma questão de sobrevivência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-5574633089729684651?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/5574633089729684651/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=5574633089729684651&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5574633089729684651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/5574633089729684651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/03/anncio.html' title='ANÚNCIO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-7205413574986728176</id><published>2008-03-06T10:39:00.000-03:00</published><updated>2008-03-06T10:44:22.925-03:00</updated><title type='text'>MULHER</title><content type='html'>Mulher: você é uma invenção do poeta.&lt;br /&gt;Você é o que está além dos adjetivos e metáforas&lt;br /&gt;Aquilo que escapa às previsões e cartas de tarot&lt;br /&gt;O impondeerável transfigurado em enigma e redenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher: você é a autora dos meus sonhos mais contundentes.&lt;br /&gt;É a muralha defronte a qual eu paro e me deparo&lt;br /&gt;Seu jeito de ser e andar que me desvia do acordado&lt;br /&gt;E meus olhos só imploram por um olhar de compreensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher: você é a desrazão de todas as minhas insônias.&lt;br /&gt;É o que em mim palpita gaita em desespero&lt;br /&gt;Você é a certeza definitiva de que não sou deste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher: você é o tempero secreto em meu caldeirão.&lt;br /&gt;Você é a insegurança que assegura a minha ereção,&lt;br /&gt;Você é a paixão, você é o tesão, você é o que eu queria ser, por que não?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-7205413574986728176?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/7205413574986728176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=7205413574986728176&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7205413574986728176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7205413574986728176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/03/mulher.html' title='MULHER'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1979314495727638775</id><published>2008-03-04T14:55:00.000-03:00</published><updated>2008-03-04T14:58:13.733-03:00</updated><title type='text'>DESEJO E OBJETO</title><content type='html'>Tire o objeto do lugar. Jogue-o contra a parede, para que se espatife todo em cacos. Tire-a do lugar de objeto. Você pode brincar e manipular, mas a pessoa ali nunca será seu objeto. Reconheça a dialética e você se verá como a engrenagem mais fraca. Uma peça menor de um mecanismo que é muito mais do que mecânico. Veja-se no pôster de sunguinha, colorindo a parede de uma oficina onde se consertam estranhos veículos automotores. Veículos sem espelhos, sem fumaça, sem motor, sem óleo, sem graxa, veículos que circulam movidos a perfume de flores. Em uma oficina mecânica onde as mulheres trabalham de bermuda e não se importam de ficar de pernas abertas nem se algum otário está olhando pra minha bunda. Reinvente seu discurso político sem mexer nos pronomes pessoais. Somente troque as pessoas de lugar, burguês vestido de padre, pobre vestido de terno de linho branco, drag queen vestida de tomara-que-caia, vale qualquer carne em qualquer carnaval, desde que não seja fevereiro. Jogue os livros de marketing e administração de empresas nas mãos do traficante e comece a escrever poesia, sem esquecer de pixá-las nos muros e prédios onde ainda houver espaço. Diga não ao seu país, ao senhor seu presidente, ao síndico, ao guarda, ao banqueiro, ao cara de sucesso, ao pobre coitado que toma pinga no bar e espanca a esposa, ao idiota que você foi um dia, ao que resta de rambo em você, diga não ao deputado, ao padre, ao juiz, ao playboy, ao filhinho do playboy, ao punheteiro que assina a playboy, ao cantor, ao diretor de cinema, ao escritor, ao pai, ao irmão. Tenha coragem, faça o que ninguém nunca quis fazer. Tenha orgulho se alguém te apontar na rua e disser: “olha, lá vai outro homossexual”. O riso desse que aponta é a maior prova de que você está no caminho certo. E pra amar uma mulher de verdade ninguém mais precisa de tacape – ninguém precisa divulgar estupidez e provas de força física e violência gratuita. Fique em casa e prepare o almoço dessa vez, porque ela está combatendo uma outra guerra. Deixe de querer viver em casal e se envolva com todas as elas, com todos os eles, com todos os gêneros, cheiros, tipos, raças, classes, castas. A vida neste século é Dionísio. Não seja um porco no jantar das bacantes. Eu fiz tudo errado na minha vida, mas ganho meu pão fabricando conselhos. A maioria provoca, mas espero que algum desperte ou faça pensar. Queria nascer mulher e ser lésbica. Quem inventou a poesia foi Safo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1979314495727638775?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1979314495727638775/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1979314495727638775&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1979314495727638775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1979314495727638775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/03/desejo-e-objeto.html' title='DESEJO E OBJETO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-6793047713264417378</id><published>2008-01-19T22:45:00.000-02:00</published><updated>2008-01-19T23:19:21.415-02:00</updated><title type='text'>AFORISMOS DA RUA AUGUSTA</title><content type='html'>Vi como o seu corpo trepidava tímido diantes das minhas batidas com guitarra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era o Paul McCartney atravessando a rua descalço na capa do Abbey Road.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui eu quem apagou a luz naquela noite em que você trepava consigo mesma num banheiro de hotel na rua Amaral Gurgel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode rir, mas o Roberto Piva plagiou todos os meus poemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mau desse lugar é que ninguém mais acredita no que os bêbados falam. Quero te comer porque te desejo, ok?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Troco o meu status por esse piercing de pérola que você pendura no seu nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de estranho em ser uma tatuagem que salta de ombro em braço e de braço em ombro descendo pela rua Augusta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que o vermelho desbotou e borrou a sua pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não venha choramingar que vai ser difícil permanecer mais dezessete anos da sua vida sem ver a luz do sol, eu te conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheço como ninguém esses ossinhos salientes que marcam os cantos do seu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu beijo já teve sabor de marlboro hard e por incrível que pareça eu também já dormi engarrafado num casco de vidro marrom de uma cerveja skol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava lá da primeira vez que os seus olhinhos azuis se abriram para a miséria deslumbrante do underground.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes dos quatorze eu era um anjo. Existe limite para o tombo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda dessa vez, começar outra vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me apaixono por toda garota que senta no bar pra beber cerveja sozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase nos trinta e foda-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glória, glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que um dia existirá um paulistano do lado de dentro da burca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais comunicação e menos fingimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impressionar para mim não basta: Assombrar! Assombrar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é dia trinta e seis. Roadhouse Blues no karaokê. Action ladies.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me dá o contato dessa boca na Liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já fiz uns bicos de ator antes de ser famoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I need your love. Not games.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não adianta porque eu vou tombar e atear fogo em todos os automóveis que se meterem a besta de querer estacionar nessa vaga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu cabelo é assim mesmo, por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do pescoço pra baixo é válido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só aceito oferendas de conhaque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefiro a calça jeans.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nome dela é Miss Lexotan 6 Mg.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camelos ou formigas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O plano é juntar capital suficiente para abrir um bordel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lado impoderável que existe em toda mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto das jóias que elas fincam no corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me pergunta porque eu não estou cheirando bem hoje. Mais pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atear fogo em uma viatura de polícia por dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus antecedentes são mais que criminais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A trilha sonora não acompanha este volume em livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corroer a realidade com ácido e depois sorvê-la aos golinhos, como se fosse cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as pessoas passam tão perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As garotas são o meu infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chegar até o primeiro passo é que é o meu problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida não escapa com vida da rua Augusta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de outro jeito, mas é só por fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me sedaram com tanto oxigênio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cabelo cresceu e enrolou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não escuta o que eu escrevo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Álcool é fichinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim toda de preto eu quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fumar faz mal, mas ser imbecil mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei porque você existe e eu existo só para você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lambo mas não basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu chupo e ainda por cima te amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você foi embora mas seu cheiro fica pra sempre em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não aguento esperar. Muito menos até amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esquece. Não pensa mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero uma franja dessas assim pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que eu posso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu plano é observar cada mulher que existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das características todas que tenho visto, as que eu ainda prefiro são os seios volumosos e bem desenhados e o rostinho de bebê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mistérios que a alma esconde: tua feição esquiva os revelam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me faz fazer o que eu já queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero a fase da descoberta, os primeiros três meses. O resto eu não suporto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sexo é o de menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os lagartos me ensinaram o jeito de percorrer com as mãos o seu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer amor é eletricidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O triste é que a idade da cabeça e a idade do corpo são inversamente proporcionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franjas contam pontos a favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cintura é a medida do universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu alugo um continente. Se for para morar com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me apaixono e dura três segundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas vão me ler e eu vou ser um brocha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuro alguém na distância entre o-que-é-que-eu-sou e o-que-ela-quer-que-eu-seja,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos poetas demais. Vamos morrer sozinhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-6793047713264417378?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/6793047713264417378/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=6793047713264417378&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6793047713264417378'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/6793047713264417378'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2008/01/aforismos-da-rua-augusta.html' title='AFORISMOS DA RUA AUGUSTA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-627850698631401555</id><published>2007-12-21T19:21:00.000-02:00</published><updated>2007-12-21T19:48:21.363-02:00</updated><title type='text'>SOBRE O TEMPO</title><content type='html'>Só percebemos a passagem do tempo porque vemos que os outros estão mais velhos este ano. A impressão que dá é que a velocidade com que o tempo passa quando somos adultos é infinitamente maior do que quando somos jovens. Para quem tá chegando ou já passou dos trinta, um natal sucede o outro mais ou menos como os dias em que passamas seis, sete ou oito horas preocupados só em trabalhar e de repente olhamos em volta e já ficou de noite. A sensação de que somos perecíveis gera uma espécie bem particular de angústia, como que uma saudade de nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já aquelas experiências que consideramos definitivas e catalogamos entre as mais decisivas para a constituição do nosso eu situam-se numa escala de tempo bem diferente dessa que se mede pela distância entre um natal e outro. Para a maioria, uma grande parte dessas experiências está na infância. Entretanto, por suas peculiaridades, preferimos considerar que a nossa infância transcorreu num terceiro tipo de tempo, com suas características todas próprias em que passado, futuro e presente não significavam a mesma coisa. Já as nossas experiências memoráveis da juventude e da idade adulta se dão preferencialmente à noite, de madrugada, aos sábados, durante as férias ou naquele dia que nós não lembramos mais se era uma terça ou uma quarta. Trata-se de um tempo em que a sensação que temos é de novidade e surpresa, ao contrário do tempo do cotidiano, cujo formato é o da circularidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelas atividades que repetimos muitas vezes (mas nem tantas quanto gostaríamos...) e com as quais temos uma relação afetiva também possuem o seu tempo dentro do tempo da nossa vida. E assim podemos falar na história ilustrada dos nossos amores, num roteiro das nossas leituras, numa saga dos nossos instantes de solidão profunda, de uma genealogia dos nossos sonhos. Pensarmos esses tempos em separado e traçarmos uma trajetória particular para cada um deles faz com que descubramos uma porção de coisas sobre a totalidade do nosso ser, pois distinguimos, em meio ao turbilhão do tempo sem filtro do dia-a-dia, desenhos regulares e situações que na essência são idênticas emboram no instante em que se passam pareçam radicalmente diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também existem os instantes em que sentimos o tempo como uma coisa física. Por exemplo: quando estamos no cinema vendo um filme e não sabemos se já é cedo ou muito tarde, se a história está do começo para o meio ou do meio para o final. Essa maneira de sentirmos o tempo como um estado em suspensão costuma ser ainda mais contundente quando ouvimos música ou passamos horas e horas dançando numa balada. E nessas horas qualquer desvio que atraia nossa atenção de volta para o tempo do relógio é percebido como um choque, como um susto, como uma interrupção. A sensação de que o tempo é uma coisa física também pode ser desencadeada por uma pergunta singela, do tipo: "que horas são?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enumeramos aqui somente alguns aspectos dos tempos e ritmos com quem vivemos a nossa breve vida. O tempo do cotidiano, o tempo das experiências memoráveis, o tempo visto nos outros, o tempo da infância, o tempo do sonho, o tempo do amor e o tempo em suspensão são apenas algumas dentre as inúmeras maneiras dessa divindade se manifestar na vida dos mortais. Mas sobre o tempo da eternidade não podemos falar. Até quando?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-627850698631401555?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/627850698631401555/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=627850698631401555&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/627850698631401555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/627850698631401555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/12/sobre-o-tempo.html' title='SOBRE O TEMPO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-2619108688431879147</id><published>2007-12-21T18:56:00.001-02:00</published><updated>2007-12-21T19:19:14.992-02:00</updated><title type='text'>PIRATININGA, ANO 454 DA DEGLUTIÇÃO DO BISPO SARDINHA</title><content type='html'>Desde o fato traumático original. Navegadores: homens brancos, europeus e católicos. Acharam uma terra e divisaram ao longe os contornos de uma praia nunca antes vista por um ser humano do continente deles. E os habitantes daquela praia, por sua vez, depararam-se com pessoas (será que eram mesmo?) muito diferentes de tudo o que eles já tinham visto ou sonhado alguma vez na vida. Mas não viram nem pensaram essa experiência incrível com essas palavras que eu uso para descrevê-los em português: pensaram num idioma outro, pois existiam em uma cultura outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À maravilha da descoberta recíproca, sucederam-se o estranhamento, a incompreensão e o genocídio. Os povos indígenas resistiram como puderam ao ímpeto etnocida dos brancos, seja fugindo cada vez mais sertão adentro, seja morrendo voluntariamente para não tornarem-se escravos. Mas apesar de tudo, a catástrofe dizimou quase todas essas humanidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o fato traumático original repetiu-se nos embates entre outras populações igualmente irreconciliáveis postas frente a frente e travando entre si um combate mortal, em que só uma delas pode sair viva. Quase sempre a população vencedora provém da raça dos navegadores homens, brancos, cristãos e europeus. Mas às vezes o outro lado também obtém sucesso em suas investidas. E assim surgem propostas alternativas de organizar o mundo, as quais invariavelmente terminam reprimidas com violência e crueldade exemplares por parte do poder oficial. Alguns poucos monumentos dessas vitórias esporádicas ficaram documentados na historiografia canônica: a deglutição do bispo Sardinha, Palmares, Canudos, as greves operárias, a luta armada contra a ditadura militar, a revolta da chibata, Eldorado dos Carajás. Uma profusão de mártires.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vítima dessa dinâmica perversa, a América Latina é o continente das contradições que não se resolvem. Nos grandes centros urbanos, a tensão entre os opostos faz-se presente por todos os lados e pode ser observada, por exemplo, nos condomínios de luxo protegidos por altas muralhas, cercas elétricas e vigilantes armados, que convivem lado a lado na mesma paisagem com enormes favelas e algomerados de moradias populares sem nenhum recurso de infra-estrutura. E tais conflitos seguem sempre o mesmo trajeto: do estranhamento à incompreensão, desdobrando-se em franca hostilidade e todas as formas de violência conhecidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje é bastante comum ouvir algum político ou algum jornalista comentando qualquer fato social ignorando o óbvio, a saber: nossas nações estão à beira do abismo e em constante ebulição. Os anos 2000, especialmente, parecem ignorar a quantidade sempre maior de repressão e violência necessárias a cada dia para que a engrenagem reproduza-se a si mesma, encobrindo, mais ou menos descaradamente, o que ela tem de injusto e desigual. Os oprimidos retornam e reivindicam a redenção do trauma original.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-2619108688431879147?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/2619108688431879147/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=2619108688431879147&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2619108688431879147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2619108688431879147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/12/piratininga-ano-454-da-deglutio-do.html' title='PIRATININGA, ANO 454 DA DEGLUTIÇÃO DO BISPO SARDINHA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-3680371189746782917</id><published>2007-12-19T20:04:00.000-02:00</published><updated>2007-12-21T18:54:53.739-02:00</updated><title type='text'>O DESCOBRIMENTO DO BRASIL</title><content type='html'>É posível conceber um paralelo entre o significado do trauma do nascimento para a psicanálise e o que significa o achamento do Brasil pelos portugueses para a história do Brasil. Esse encontro traumático entre duas humanidades, frontalmente opostas em quase tudo, desdobrou-se, num primeiro momento, no extermínio etnocida dos povos indígenas. Mais tarde, a cena repete-se com outro grupos em outros contextos, porém sempre retomando o embate arquetípico entre linhagens humanas desiguais e irreconciliáveis. E desde sempre, sobretudo no pólo mais europeizado, mais esbranquiçado e cristianizado da relação, o encontro pauta-se em posturas etnocêntricas, violentas e intolerantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura brasileira utilizou-se desde sempre dessa poderosa imagem poética do encontro entre as populações indígenas e os navegadores portugueses. "Iracema" conta essa história em forma de mito, ao pintar em cores românticas a gênese da nação brasileira, embora sonegue o componente  genocida da colonização e filie-se (como a quase totalidade dos documentos) à visão de mundo do lado vencedor. Já a antropofagia de Oswald de Andrade relativiza o etnocentrismo de seus predecessores e apropria-se da perspectiva do índio a fim de constituir um ponto de vista diverso do cânone europeu importado e no fim das contas opera como um contraponto deste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cinema, também é recorrente a figuração dos conflitos entre humanidades em choque, ou seja, entre os extremos de uma sociedade sem coesão e rachada ao meio por contradições insolúveis. Basta lembrar "terra em transe" de Glauber, "o bandido da luz vermelha" de Rogério Sganzerla, ou mesmo "cidade de deus" de Fernando Meirelles e "tropa de elite" de José Padilha. Os exemplos são inumeráveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje assistimos, senão por experiência própria ao menos pelo que é veiculado nos meios de comunicação, à repetição desse embate traumático e mortal entre os diferentes que se cobrem numa mesma bandeira de Brasil, principalmente nos fronts da guerra civil urbana. E, incapazes de aprendizado e amadurecimento a partir das experiências do passado, nós, brasileiros e brasileiras de todos os jeitos, continuamos a fundamentar nossa fala a respeito desse outro tão próximo em máximas etnocêntricas, em raciocínios enviesados e em preconceitos deslavados. Reproduzimos o que nos faz inviáveis e que chacina nossas crianças, nossos índios, nossas mulheres, nossos negros, nossos favelados, nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haverá alguma brecha nesse mecanismo por onde possa germinar a solidariedade? No panorama de um modo de produção capitalista pós-industrial que só veio para reforçar os impulsos que atiram os indivíduos e agrupamentos humanos uns contra os outros, essa hipótese soa cada vez mais improvável. Porém convém não perder a fé nas ações ainda incipientes e pouco coordenadas daqueles que se impuseram o desafio de erigir um mundo do e para o diferente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-3680371189746782917?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/3680371189746782917/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=3680371189746782917&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3680371189746782917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/3680371189746782917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/12/o-descobrimento-do-brasil.html' title='O DESCOBRIMENTO DO BRASIL'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-2690587706652833571</id><published>2007-12-18T19:26:00.000-02:00</published><updated>2007-12-18T20:18:39.628-02:00</updated><title type='text'>TECNOLOGIA E POLÍTICA</title><content type='html'>A tecnologia não se resume a obsessão pelo novo que fascina as pessoas diante da vitrine de uma loja de "shopping center". A expansão do domínio da racionalidade técnica a quase todos os aspectos da vida teve como consequências de um lado o declínio da subjetividade e de outro a despolitização das massas. A ciência e a técnica, ao configurarem-se como ideologias, cumprem um papel fundamental na reprodução e também no sentido que tomam as transformações de um mundo que segue a passos largos para um cenário de crescente desigualdade social e catástrofe ecológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Nas sociedades pré-capitalistas, a articulação entre o conhecimento científico e suas aplicações não se dava de forma imediata, ou seja, só esporadicamente (e quase que por um acaso) alguma descoberta científica resultava numa inovação prática ou no aperfeiçoamento de algum processo ligado ao ambiente de trabalho. Nos dias de hoje, ao contrário, a ciência e a técnica estão tão intimamente associadas, que praticamente toda pesquisa científica é concebida tendo em vista suas possibilidades de aplicação na guerra ou na indústria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O encanto pelas "melhorias do mundo moderno" e a imagem do homem solitário sentado numa poltrona em um apartamento e cercado de todos os lados por equipamentos eletrônicos "de última geração" ilustram bem o poder de sedução dos produtos de uma tecnologia que se desenvolve com uma velocidade espantosa. Porém, ao mesmo tempo são sintomas de um comportamento individualista, do declínio das relações inter-subjetivas e da despolitização das pessoas, que caracterizam tão bem a nossa época. Possuímos cada vez mais coisas materiais e cada vez menos vivências memoráveis e particulares que nos fazem únicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Hoje é muito comum ouvir dizer que o estado tornou-se o lar dos tecnocratas. As relações entre o estado e a técnica são complexas e variadas, mas convém destacar ao menos dois pontos. Em primeiro lugar, os governos dos países mais ricos alocam generosos recursos orçamentários em pesquisas científicas e universidades. O critério utilizado para definir quais as linhas de pesquisa que receberão os maiores aportes de dinheiro é justamente o potencial desse conhecimento converter-se em tecnologia num período curto de tempo. Um outro aspecto importante: em nossos dias, o debate democrático reduziu-se a uma "escolha" (fundamentada no que conseguimos digerir dos meios de comunicação de massa) de um entre dois burocratas de carreira invariavelmente discursando sobre seu respectivo &lt;strong&gt;"projeto"&lt;/strong&gt; para a nação e afirmando categoricamente que ele &lt;strong&gt;"sabe fazer melhor"&lt;/strong&gt; do que o seu adversário do partido oposto. De um lado a tecnocracia e de outro o estado como agente do desenvolvimento das forças produtivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Também é verdade que a evolução da tecnologia acompanha a história da humanidade desde sempre. Entretanto, a hegemonia da racionalidade técnica em detrimento do pensamento crítico e voltado para os assuntos propriamente humanos é uma característica desta era capitalista tardia. Já é tempo de falar mais sobre e, sobretudo, de fazer mais política. E sem controle remoto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-2690587706652833571?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/2690587706652833571/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=2690587706652833571&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2690587706652833571'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/2690587706652833571'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/12/tecnologia-e-poltica.html' title='TECNOLOGIA E POLÍTICA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1094564296490889194</id><published>2007-12-05T18:23:00.000-02:00</published><updated>2007-12-05T18:43:18.818-02:00</updated><title type='text'>A VOLTA DO BOÊMIO</title><content type='html'>Tarde da tarde. Eu procuro um meio de escapar do turbilhão que ronca e se move, porém para qualquer direção que eu vire o rosto, tudo o que eu vejo são repetidos e repetidos automóveis. Um hipócrita me dirige a palavra e eu baixo a cabeça ou o rabo entre as pernas, como quem pressente a frase jamais dita que vai te custar a colocação e o emprego. Engulo a seco. Peço mais licença e me escuso: hoje me recuso a telefonar para qualquer criatura com tendências burguesas ou capitalistas. Odeio e rumino em silêncio, maldizendo na memória aquela esganiçada voz loira e os respectivos gestos coreografados que a etiqueta prescreve sem nem saber bem para quê. Percebo que estou vestido com um deles e desejo aquela nudez que só é permitida aos loucos em estado de internação irreversível. Sinto vontade de poder. Ou de escutar aquele tremendo grito que um dia eu fui capaz de gritar, naquela época em que as sessões diárias de tortura infringidas aos pequenos burocratas que clamavam por anarquia ainda eram uma novidade. Procuro auxílio na magia negra e nos terreiros de candomblé. Fico sabendo que ainda devo resguardar em mim aquela fração do meu ser que é capaz da mentira e do ódio. Ganhei um amuleto. Mas mesmo assim não foi dessa vez que roubei todo dinheiro que existe no mundo. Esse mártir não sou eu. Sou só aquele carinha que reclama e sofre, bebendo a cerveja dos otários e fumando o cigarro de uma vida que já passou do seu auge. Morrer de uma vez só não dói, mas definhar, definhar, definhar... é destino de quem nasceu fraco e punição pra covardia de quem escolheu o caminho mais fácil que é ser poeta. Fique aí de bobeira cultivando um espírito ilustrado que tudo o que você vai ganhar são oito anos numa cadeira de rodas, trinta sessões de psicanálise e descarrego, um tumor bem feio na laringe e cinco filhos pra criar. Não existe camisinha pra vida. Daquele menino quieto e míope no fundo da classe só restou insubordinação. Dizem que o mercado está péssimo para os brasileiros que fazem questão de não querer viver nesse brasil. Nesse canil. Nesse vazio. Nesse quarto de UTI em que nem a puta mais puta pariu. Jesus, o homem santo, é o autêntico filho da puta. E nem um greencard no mercado negro ele não conseguiu. Eu tô fodido. Hoje já é dia trinta e seis e o meu salário não caiu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1094564296490889194?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1094564296490889194/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1094564296490889194&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1094564296490889194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1094564296490889194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/12/volta-do-bomio.html' title='A VOLTA DO BOÊMIO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-7279718422812123754</id><published>2007-06-14T21:38:00.000-03:00</published><updated>2007-06-14T21:39:05.460-03:00</updated><title type='text'>CONCEBA E EXECUTE</title><content type='html'>CONCEBA E EXECUTE&lt;br /&gt;SAIA POR AÍ E VIVA&lt;br /&gt;CONHEÇA AS PESSOAS&lt;br /&gt;GOSTE DELAS PELO QUE ELAS PENSAM&lt;br /&gt;AME E DISCORDE DO QUE ELAS FALAM&lt;br /&gt;ESCOLHA ALGUÉM PARA TRANSAR HOJE A NOITE&lt;br /&gt;VIVA TUDO O QUE PUDER VIVER NESSAS HORAS&lt;br /&gt;TESÃO É A COISA PRINCIPAL NA NOSSA VIDA&lt;br /&gt;CONSCIÊNCIA TAMBÉM É ALGO QUE É IMPORTANTE TER POR PERTO.&lt;br /&gt;MAS NA HORA LÁ QUEM FALA MAIS ALTO É O DESEJO&lt;br /&gt;EU E VOCÊ PODEMOS TRANSAR E CORRER CERTOS RISCOS&lt;br /&gt;DE ENGRAVIDAR OU DE CONTRAIR UM DESSES VÍRUS QUE TEM POR AÍ&lt;br /&gt;TODO MUNDO JÁ DEU ALGUMA VACILADA E FICOU COM CULPA DEPOIS&lt;br /&gt;CONTRA O DESEJO NÃO EXISTE NENHUM REMÉDIO&lt;br /&gt;E AINDA BEM QUE É ASSIM&lt;br /&gt;MAS PRA CERTAS VACILADAS E RELAÇÕES SEXUAIS DESPROTEGIDAS&lt;br /&gt;SAIBA QUE AGORA JÁ INVENTARAM UMA PÍLULA&lt;br /&gt;USE A CAMISINHA E A PÍLULA DO DIA SEGUINTE&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-7279718422812123754?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/7279718422812123754/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=7279718422812123754&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7279718422812123754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/7279718422812123754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/06/conceba-e-execute.html' title='CONCEBA E EXECUTE'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-1546332121553293002</id><published>2007-06-14T21:35:00.001-03:00</published><updated>2007-06-14T21:38:01.638-03:00</updated><title type='text'>DIÁRIO DE UM BANCÁRIO</title><content type='html'>Cláudio César Baptista, matrícula 1984-1977, logo pela manhã se dirigiu para a agência do banco onde ele trabalha. Logo pela manhã atendeu a uma porção de telefonemas: trinta e sete pessoas físicas, sete pessoas jurídicas e uma instituição religiosa sem fins não-lucrativos. &lt;br /&gt;    As dez e dezenove, exatos vinte e sete minutos após a abertura da agência para o público comum, uma mulher morena alta e que parecia ter origem sírio-libanesa, vestindo óculos escuros de lentes enormes, um lenço lilás com bolinhas prateadas de tamanhos diversos ao redor do rosto e um vestido despudoradamente curto e decotado, sentou-se à mesa de Cláudio César. Ela recusou água e café e disse eu preciso urgentemente de cem mil reais. Dividido entre o dever profissional e a atração física que ele sentia por aquela mulher naquele momento, Cláudio César Baptista ofereceu uma contraproposta de sete mil, trezentos e noventa e cinco reais e onze centavos à vista e o restante em suaves prestações a perder de vista e entregou para ela um desses cartões de visita onde antes ele tinha escrito atrás uns garranchos obcenos e escrito um número determinado de telefone celular. A mulher aceitou somente o cartão e foi embora com um jeito mais do que especial de dizer tchau. &lt;br /&gt;     Cláudio César Baptista, matrícula 1759-1969, parecia invadido por um furor de fazer coisas com a mão: carimbou duzentos versos de cheques endossados, assinou seu nome porcamente em setecentos e oitenta e dois formulários, contratos, duplicatas, ofícios, comunicados, relatórios, dossiês, entre tantos outros papéis timbrados ou não, carregou pilhas de processos para o arquivo morto escada acima, trocou componentes de hardware de seu próprio terminal de computador e se comunicou por gestos com a colega que estava do lado de lá do guichê do caixa. &lt;br /&gt;      Voltando ao seu posto, Cláudio se deu conta de que os montes de pastas e papéis sobre a sua mesa se erguiam como uma verdadeira muralha e que do lado de lá alguém chamava pelo seu nome, embora ele não tivesse muita certeza disso. O funcionário cuja matrícula é 8419-7719 levantou de sua mesa e notou um microempresário bem rente ao chão. O filho do ilustre seu Baptista da vila nova cachoeirinha deu a volta e se agachou, já que o seu interlocutor não tinha mais do que quarenta e dois centímetros de altura; o microempresário foi direto ao ponto e dali em diante passou a metralhar todo um arsenal de impropérios e imprecações direcionados ao senhor seu Cláudio César Baptista e a senhora sua mãe. César havia feito um negócio de risco com o anão alguns meses atrás, porém a queda das ações dos fabricantes de playmobil e comandos-em-ação na bolsa de valores de Pequim levou a bancarrota todo esse ramo de atividade da indústria nacional. O bancário escutou em silêncio tudo o que o seu cliente disse e ao final pronunciou – num tom de voz entre jocoso, dionisíaco e sarcástico – a palavra não. A cena que acabamos de presenciar foi apontada pelo psiquiatra forense dr reginaldo do cu da cunha como a deflagradora direta do acesso de demência e insanidade que se abateu sobre o senhor juvenal moreira, o microempresário do ramo de bonecos de plástico em miniatura que descrevemos a pouco. Embora nesse meio tempo Cláudio César ainda tenha conseguido vender um seguro de vida, um plano de previdência privada e um título de capitalização para o senhor juvenal moreira, seu cliente de tantos anos. &lt;br /&gt;     Cláudio César Baptista almoçou num restaurante por quilo e fumou dois cigarros seguidos. &lt;br /&gt;     Ao retornar deparou com o diabo. Cláudio César estava sereno, porém intrigado, mas logo sacou sua adaga em formato de caneta momblã e o diabo fez aparecer pilhas de notas de cédulas de dinheiros. O diabo molhava a pena no tinteiro de nanquim, quando Cláudio César lhe ofereceu em troca uma polpuda soma como adiantamento. Assim que assinaram, o diabo se desmaterializou numa nuvem de fumaça preta, deixando no arum cheiro ruim de enxofre. As câmeras do circuito interno de tevê chegaram a flagrar a figura diabólica em pessoa, porém ninguém jamais soube do paradeiro daquela fita vhs. &lt;br /&gt;     Dois minutos inteiros se passaram sem que nada de mais extraordinário sucedesse, até que um toque diferenciado no ramal do telefone de Cláudio César indicava – sem sombra de dúvida – que ele estava sendo convocado a comparecer junto às instâncias superiores da corporação. Cláudio subiu os degraus da escada que levavam até o andar de cima e se encaminhou para a mesa onde trabalhava a chefa daquela repartição. Conversou com ela de uma maneira amena e ponderada e pôde inclusive expor com calma algumas situações delicadas de sua vida pessoal que estavam interferindo de forma negativa em sua rotina diária de trabalho. A chefa ouviu tudo com atenção e ofereceu doses generosas de conselhos sábios e palavras de conforto. Cláudio César sentiu que era exatamente essa a motivação que ele precisava para prosseguir, ainda retornou para o seu posto de sentinela, fez alguns telefonemas e mandou uma porção de e-mails. &lt;br /&gt;       Foi embora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-1546332121553293002?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/1546332121553293002/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=1546332121553293002&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1546332121553293002'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/1546332121553293002'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/06/dirio-de-um-bancrio.html' title='DIÁRIO DE UM BANCÁRIO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-117261677706136322</id><published>2007-02-27T19:49:00.000-03:00</published><updated>2007-02-27T19:57:34.133-03:00</updated><title type='text'>(sem título)</title><content type='html'>Que porra é essa que&lt;br /&gt;Que porra é essa aqui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem jorra pra fora da jarra&lt;br /&gt;Quem joga marola na praia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cadê meus juros? no casulo&lt;br /&gt;Quem vê meu futuro? eu furo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais tralhas eu trago do trampo&lt;br /&gt;Quais trilhos meus cílios eu tranço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qué sabê de tudo? eu nem ajudo&lt;br /&gt;Qué pulá do muro? eu te empurro&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-117261677706136322?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/117261677706136322/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=117261677706136322&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/117261677706136322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/117261677706136322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/02/sem-ttulo.html' title='&lt;span style=&quot;font-style:italic;&quot;&gt;(sem título)&lt;/span&gt;'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-117261630020432747</id><published>2007-02-27T19:41:00.000-03:00</published><updated>2007-02-27T19:46:02.603-03:00</updated><title type='text'>O sonâmbulo</title><content type='html'>Eu ia dormir&lt;br /&gt;mas decidi que deste dia&lt;br /&gt;alguma coisa deveria ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vizinhos antípodas&lt;br /&gt;escavam buracos&lt;br /&gt;para se evadir pelo subsolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há matéria orgânica&lt;br /&gt;nos vastos terrenos&lt;br /&gt;delimitados pela cerca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lagartos se esfregam&lt;br /&gt;nas peças de carne seca&lt;br /&gt;expostas num varal ao sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a lagosta de entoca&lt;br /&gt;numa apertada fresta&lt;br /&gt;entre a pedra e a parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me deito mas não penso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-117261630020432747?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/117261630020432747/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=117261630020432747&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/117261630020432747'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/117261630020432747'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/02/o-sonmbulo.html' title='O sonâmbulo'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-117261541283055290</id><published>2007-02-27T19:29:00.000-03:00</published><updated>2007-02-27T19:47:09.353-03:00</updated><title type='text'>Gráfico</title><content type='html'>O empuxo que transgride o fragmento&lt;br /&gt;inertes maxilares num corpo morto&lt;br /&gt;rochas que penetram rasgando o oceano&lt;br /&gt;um estojo de metal com lápis de cor dentro&lt;br /&gt;a escuridão eu pinto de cinza&lt;br /&gt;faço um retrato falado de feições cubistas&lt;br /&gt;sonho com a ópera e acordo na fila do pão&lt;br /&gt;compasso, régua e transferidor&lt;br /&gt;a beira da praia lembra um dia lá na cachoeira&lt;br /&gt;meu banquete grego com ânforas e almofadas&lt;br /&gt;o traçado, a silhueta e a figura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-117261541283055290?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/117261541283055290/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=117261541283055290&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/117261541283055290'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/117261541283055290'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/02/grfico.html' title='Gráfico'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-116769744916325320</id><published>2007-01-01T22:23:00.000-02:00</published><updated>2007-01-01T22:24:09.180-02:00</updated><title type='text'>1º de Janeiro</title><content type='html'>No quarto desarrumado&lt;br /&gt;Um colchão ao lado do outro&lt;br /&gt;Fazem como os ponteiros de um relógio&lt;br /&gt;Que marcasse vinte pras sete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tecidos desenhados pelo vento. &lt;br /&gt;Lençóis: fugazes fósseis de outros corpos.&lt;br /&gt;Os travesseiros que esculpem beijos&lt;br /&gt;Emoldurados na idade da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O calor e os odores condensados&lt;br /&gt;São vestígios de negação da ausência:&lt;br /&gt;Ouço barulho da pia fechando no banheiro ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sabor me escorre vivo da boca&lt;br /&gt;Ou será destilado de lembrança?&lt;br /&gt;Fecho os olhos e mastigo mais um pedaço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-116769744916325320?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/116769744916325320/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=116769744916325320&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116769744916325320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116769744916325320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2007/01/1-de-janeiro.html' title='1º de Janeiro'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-116412265273859733</id><published>2006-11-21T13:23:00.000-02:00</published><updated>2006-11-21T13:24:12.750-02:00</updated><title type='text'>Vermelho, Amarelo e Preto</title><content type='html'>As altas labaredas que consumiam as parcas ruínas de cimento e concreto já podiam ser vistas do outro lado do pico do Jaraguá. Antenas de TV liqüefeitas e retorcidas não eram mais capazes de transmitir ao vivo as imagens que vinham desde os helicópteros, que ora apareciam, ora se ocultavam por entre as grossas colunas de fumaça preta. O ar era espesso, tinha cheiro de gasolina e corroía a pele das crianças que tentavam pedir socorro desde as janelas dos hospitais. Ninguém ouvia ninguém: gritos, gemidos e urros cruzavam as avenidas desde a periferia até o centro e se engarrafavam aos milhões também no sentido contrário. Os mendigos olhavam para o céu e profetizavam apocalipses sem abundância nem perdão. O riacho do Anhangabaú emergiu furioso; o Tietê ardia maior que a Marginal em chamas, rios de fogo e de sujeira fediam a enxofre. Poucas pessoas em São Paulo lembravam de Dresden, Nagasaki e da década de 1940, porém o noticiário internacional não se cansava de repetir essas metáforas. Corpos explodiam mutilados. Barrancos cediam, imensas crateras fendiam o asfalto, arranha-céus tombavam mais depressa do que certos barracos de favela. Sirenes tocavam em postos da defesa civil, do corpo de bombeiros e em agências bancárias. Três ex-presidentes encontravam-se incomunicáveis e os telefones que suplicavam um DDD para Brasília eram brinquedos inúteis. Uma árvore resistia impávida na parte de trás do museu do Ipiranga. Um jardim de trepadeiras, árvores frutíferas e arbustos floridos resistiu milagrosamente no quintal de uma residência na zona leste. Três horas depois, a Casa Branca negou a possibilidade de tratar-se de um atentado terrorista. Dois aviões comerciais perderam o contato visual com a torre de Congonhas e caíram nas imediações de Moema. A Casa Branca voltou atrás e o porta-voz disse que só iria se pronunciar novamente após uma investigação mais detalhada da CIA e do Pentágono. A última medida provisória assinada pelo governador do Estado transferia a sede do poder executivo para Barueri, porém não houve tempo hábil para publicá-la no Diário Oficial. A ONU já falava em 23 milhões de mortos, poucos feridos sobreviveriam sem energia elétrica, alimentos, água encanada e os estoques de remédio foram saqueados. A OTAN, em reunião extraordinária, decidiu mandar toda sua frota naval para a região, porém o porto de Santos não comportava o desembarque de tantos navios ao mesmo tempo. Alguns desembarcaram em São Sebastião e outros só no Rio de Janeiro. Segundo fontes das Forças Armadas Brasileiras, 144 mil militares morreram durante as primeiras tentativas de salvamento, mas esse número ainda não era oficial. A CNN enviou uma equipe de reportagem ao local, mas as informações ainda eram desencontradas e fragmentárias. Uma comunidade em Guaianazes parecia obter sucesso no combate aos focos de incêndio. Ninguém viu, mas uma flor nasceu no terreno preto e carbonizado onde antes era o edifício do Banespa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-116412265273859733?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/116412265273859733/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=116412265273859733&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116412265273859733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116412265273859733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/11/vermelho-amarelo-e-preto.html' title='Vermelho, Amarelo e Preto'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-116378517627000418</id><published>2006-11-17T15:38:00.000-02:00</published><updated>2006-11-17T15:39:36.280-02:00</updated><title type='text'>Janelas Opacas</title><content type='html'>Aguarde...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Poema está sendo inicializado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-116378517627000418?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/116378517627000418/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=116378517627000418&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116378517627000418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116378517627000418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/11/janelas-opacas.html' title='Janelas Opacas'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-116145524368736405</id><published>2006-10-21T15:23:00.000-03:00</published><updated>2006-10-21T15:27:23.696-03:00</updated><title type='text'>sem título</title><content type='html'>Um dia eu saí de casa&lt;br /&gt;e lá fora tinha uma mulher&lt;br /&gt;me agarrei nas pernas dela&lt;br /&gt;e decidi que não ia mais soltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que bateu a fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por sorte, bem diante&lt;br /&gt;tinha um simpático restaurante&lt;br /&gt;que parecia ser chinês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De lá fomos direto para o aeroporto&lt;br /&gt;despachamos a bagagem&lt;br /&gt;e nos mandamos sem nem falar tchau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecemos todas as nações com as quais o Brasil mantem relações diplomáticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na volta, eu e ela costuramos os umbigos&lt;br /&gt;e decidimos nunca mais desgrudar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-116145524368736405?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/116145524368736405/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=116145524368736405&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116145524368736405'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116145524368736405'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/10/sem-ttulo.html' title='sem título'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-116057925234917501</id><published>2006-10-11T12:07:00.000-03:00</published><updated>2006-10-11T13:26:23.390-03:00</updated><title type='text'>um Não ao amor</title><content type='html'>De manhã sou tom pastel. Convido passarinhos pro rolê, chacoalho aeronaves barulhentas e me sinto maior do que qualquer telão armado na praça em dia de jogo da seleção. Mudo de cor em cor e a melodia faz-me lembrar que o tom foi muito mais que a bossa-nova. Mais tarde fumo cigarros e corro pra feira em busca do sacro pastel de palmito pingando óleo. Meu café da manhã ao meio-dia. A fumaça na tela ouvi dizer que é carvão e automóvel. Mas eu sou mais pintura à óleo, adoro arrebentar as molduras com os dentes e me esparramar pelas paisagens mais líquidas do que qualquer débil imaginação é capaz de rascunhar. Um som pra essas horas: temple of love e os sisters of mercy. Tem dias que eu também acordo uma sister, de maquiagem roxa borrada na cara e a testa franzida de ressaca e culpa. Sou pau e sou buceta e se você me encontrar no busão e quiser vir me olhar de atravessado digo-lhe logo um foda-se e te cuspo porra na cara. Também sei chover. Pra foder a vida dos pobres formiguinhas que fogem que nem baratas alucinógenas pra debaixo da marquise. E quando tô com raiva de verdade os ratos bóiam pra fora dos bueiros. Louvo o caos: louros aos cais. Sou branco e sou preto e colorido inclusive de cinzas. Sim, assumo que já nadei num cinzeiro sujo e fui um golfinho americano a fazer passos de ballet num grande copo de cerveja meio quente e sem colarinho. Odeio canções de amor e poetas contemplativos, acredito na subversão e na inevitabilidade iminente da oitava leva da revolu. São do signo de libra as melhores e as piores almas a arder nas chamas crepitantes da estação paraíso do metrô. Além de mim, vejo Alices e diamantes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-116057925234917501?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/116057925234917501/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=116057925234917501&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116057925234917501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116057925234917501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/10/um-no-ao-amor.html' title='um Não ao amor'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-116057872669408848</id><published>2006-10-11T11:55:00.000-03:00</published><updated>2006-10-11T11:58:46.696-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/1600/P1010095.jpg"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/400/P1010095.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-116057872669408848?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/116057872669408848/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=116057872669408848&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116057872669408848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116057872669408848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/10/blog-post.html' title=''/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-116009392663878949</id><published>2006-10-05T21:14:00.000-03:00</published><updated>2006-10-05T21:20:27.356-03:00</updated><title type='text'>um terceiro dia de outubro</title><content type='html'>O ambiente do bar como um todo é que era um palco. De fora era um restaurante. De dentro possuía: plantas de mentira, teto de vidro, detalhes em madeira e bambu e um banheiro que era completamente nojento. E ainda ficava meio que debaixo de uma escada e a privada era daquelas antigas, com uma caixa de plástico pendurada na parede e aquela tradicional cordinha pra você puxar ao dar a descarga. Mas esse palco também tinha um cenário, que até que era organizado – cadeiras e mesas estrategicamente dispostas, um balcão (idéia de um arquiteto) que usava fundos de garrafa de vidro de cores diferentes encravadas no meio de cimento, mas que não funcionava muito bem; havia um espelho grande, as manjadas cortinas, um ou outro sofá e os cinzeiros de motel e os copos de ---&gt;&gt;&gt; cerveja, vinho, tequila, catuaba, caipirinha, whisky, guaraná schincariol, água com gás, absinto, cheios e vazios, alternadamente. A iluminação era de primeira: spots potentes de várias cores, principalmente vermelho, que era uma exigência do músico e tinha a ver com o contexto do show que ele ia fazer. Os personagens eram as pessoas mais incríveis do mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-116009392663878949?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/116009392663878949/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=116009392663878949&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116009392663878949'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/116009392663878949'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/10/um-terceiro-dia-de-outubro.html' title='um terceiro dia de outubro'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115871536016724039</id><published>2006-09-19T22:21:00.000-03:00</published><updated>2006-09-19T22:22:40.180-03:00</updated><title type='text'>Auto-ajuda para nadadoras iniciantes</title><content type='html'>Braçada e pernarda: levanta o tronco e respira. Bate o pé, faz o movimento do braço até o fim, toma bastante impulso quando for bater na parede. A mão tem que ficar como uma conchinha. Agora mergulha e abre os olhos, raspa a barriga no azulejo lá do fundo e faz que nem um sapinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já aprendeu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115871536016724039?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115871536016724039/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115871536016724039&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115871536016724039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115871536016724039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/09/auto-ajuda-para-nadadoras-iniciantes.html' title='Auto-ajuda para nadadoras iniciantes'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115681718126604807</id><published>2006-08-28T22:59:00.000-03:00</published><updated>2006-08-28T23:12:59.876-03:00</updated><title type='text'>F....</title><content type='html'>Na praça onde a gente foi hoje&lt;br /&gt;a grama era de cimento&lt;br /&gt;e você bem que reclamou antes da gente chegar&lt;br /&gt;que lá não tinha árvore&lt;br /&gt;mas mesmo assim sentamos no chão&lt;br /&gt;(seus beijos e as palavras inesquecíveis)&lt;br /&gt;e de repente tinha um monte de crianças em volta.&lt;br /&gt;Nos sentimos menino e menina na hora do recreio&lt;br /&gt;e a tarde a presença minha e sua eram coisas tão perfeitas&lt;br /&gt;que as crianças seguiam a gente por onde a gente ia&lt;br /&gt;     os pássaros voavam de propósito&lt;br /&gt;     e me bateu uma vontade incontrolável de ficar com você pra sempre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115681718126604807?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115681718126604807/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115681718126604807&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115681718126604807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115681718126604807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/08/f.html' title='F....'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115531626743565484</id><published>2006-08-11T14:06:00.000-03:00</published><updated>2006-08-11T14:14:02.726-03:00</updated><title type='text'>6H54 - 11 - A Força</title><content type='html'>17H00 - diante do olhar perdido&lt;br /&gt;blocos de rocha bloqueiam o horizonte&lt;br /&gt;mas ele alega que enxergou&lt;br /&gt;mais além que o oceano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14H37 - saúde mental em perigo&lt;br /&gt;sujeito corroído, corrompido e contaminado&lt;br /&gt;invisto 25 centavos na cura do câncer infantil&lt;br /&gt;ou ponho um som pra tocar na jukebox da sinuca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3H22 - O sinal telegráfico me anuncia que ela virá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115531626743565484?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115531626743565484/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115531626743565484&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115531626743565484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115531626743565484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/08/6h54-11-fora.html' title='6H54 - 11 - A Força'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115256076724062412</id><published>2006-07-10T16:45:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T17:02:45.663-03:00</updated><title type='text'>Nunca Um Dia Nasceu Tão Belo Em São Paulo</title><content type='html'>A conclusão é que temos cara de mau. Expulsos do bar, barrados na festa, excluídos do fuzuê da high-society, só o que nos restava mesmo era aquele mesmo abrigo entre os jovens bêbados num cômodo enfumaçado, em pé e sem direito a sentar, naquele velho imóvel com leâo-de-chácara à porta na Rua Augusta. Mas nem assim nada nos desgusta ou desgosta: na minha língua de atleta somente o gosto da sua suave boca, que é a mesma e é a outra, misturadas entre o vão e a parede. Dessa vez D.J. acertou ao mandar uma sequência eletronificada para bem viajar: estávamos e não estávamos, ali e mais além, eu não sou eu nem sou o outro. Sherazade e água-viva, corpo com corpo em ritual de transfusão almada, viagem acelarada ao ritmo insano do desejo. Era chão e era parede, espuma anti-ruído escorando as costas tuas, perdidas as leis da gravidez e embaralhadas as oito dimensões do espaço. Que nesse espaço entre os inertes passos de mim rumo ao centro já nem tão intangível de você liquidificava tudo na penumbra, vez ou outra fugazmente iluminada pela chama de algum isqueiro aceso pelos zumbis que celebravam em volta alguma coreografia que talvez lembrasse thriller e Michael Jackson. Beijo sem fim. Vagando em grude seu até as cinco da manhã, quando finalmente os mortos embalsamados de cachaça despertaram de seus sofás-tumbas e rumaram em bando incerto até a fila do caixa para pagar suas comandas, o singelo óbulo de Caronte. Naquela altura o sofá parecia uma piscina neón e cristalina, maciez necessária aos corpos que lutaram tanto e que então já podiam se encaixar com perfeita comodidade, como um herói no colo da mãe ao retornar de Tróia. Não fossem os últimos remanescentes das gangues barra-pesada que circulam pelo centro ali em volta da gente (ameaçando atirar pelo ar cadeiras, garrafas, pedaços de madeira, dentes de animais selvagens ou o que mais estivesse ao alcance de sua fúria animal) e tudo seria silêncio com ruídos de beijos. A sobriedade me permitia enxergar o reverso sombrio desses espécimes juvenis em tudo iguais ao mim de outrora. Mas ali eu tinha um escudo, um porto e a minha salvação: amor de menina crescida. Boca, bochecha e o resto de um corpo que eu podia vestir como se fosse o meu. Os últimos cocainômanos atenderam ao chamado do galo e também rumaram para esse sótão onírico às seis horas da manhâ: era hora da gente partir. Dessa vez sem café-da-mahã, muito melhor levar na boca o seu gosto, F. E o dia nasceu de sol azul, feliz por causa da gente. O mundo inteiro acordou sem inveja enquanto, cheio de poesia, eu adormecia outra vez pensando na maravilha que é compartilhar pedações da minha vida com, para e por você. Nasceu paixão, de parto normal, três quilos e quatrocentas gramas e uma vontade irresistível de morrer e renascer a cada minuto em seu ventre esplêndido, oh flor das madrugadas. Aventuras assim, dessas que só acontecem comigo e com você, F.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115256076724062412?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115256076724062412/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115256076724062412&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115256076724062412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115256076724062412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/07/nunca-um-dia-nasceu-to-belo-em-so.html' title='Nunca Um Dia Nasceu Tão Belo Em São Paulo'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115221671868177108</id><published>2006-07-06T17:10:00.000-03:00</published><updated>2006-07-06T18:02:46.260-03:00</updated><title type='text'>uma casa muito engraçada</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“Você sempre surge em minha mente&lt;br /&gt;Sempre você e ninguém mais”&lt;br /&gt;- Wander Wildner&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos inventar um lugar. Feito de música, de cor, de fumaça cheirosa, de parede pintada, de almofada no chão, de tapete felpudo pra gente rolar em cima. Um lugar cheio de amigos, eletricidade pingando das tomadas, espelhos antigos, flores escuras e narcisos. Onde se possa simplesmente pegar um livro qualquer na estante de mármore e começar a recitar uma poesia pornográfica pela janela como quem estoura um rojão em dia de jogo do Brasil. Um lugar cheio de gatos vira-latas. Com vizinhos libertários e a rua Augusta passando no meio da sala. Que o chão seja de areia, mas que essa areia venha dos cinco continentes e se misture com a água do mar que na maré cheia encharca o batente da porta. Uma casa com uma televisão quebrada: Buda e Krishna convivendo lado a lado em cima da geladeira. A ordem de cada dia será: amor amor amor. Ninfas e faunos fazem mitologia ao vivo sobre a cama. Dionisio: nosso dj particular e jardineiro do absoluto. E que a casa seja um mundo, seja um templo, seja de planta e aberta para quase todo mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115221671868177108?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115221671868177108/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115221671868177108&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115221671868177108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115221671868177108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/07/uma-casa-muito-engraada.html' title='uma casa muito engraçada'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115197990731053079</id><published>2006-07-03T23:24:00.000-03:00</published><updated>2006-07-03T23:25:07.310-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/1600/COREA_BRASILPERDEDOR%20118.jpg"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/320/COREA_BRASILPERDEDOR%20118.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115197990731053079?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115197990731053079/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115197990731053079&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115197990731053079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115197990731053079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/07/blog-post.html' title=''/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115194821296112192</id><published>2006-07-03T14:35:00.000-03:00</published><updated>2006-07-03T15:03:53.700-03:00</updated><title type='text'>Um Sonho</title><content type='html'>No meu sonho o objetivo era voltar pra casa. Me encontrava do outro lado do rio (um rio Pinheiros de água e sonho), daquele outro lado onde estão guardadas as lembranças todas da infância perdida e dos anos de aprendizados incompletos no monastério do saber. Além de mim, um casal de amigos (o rapaz é cabeludo) me acompanhava na jornada, porém nenhum de nós possuía automóvel, o que impossibilitava o uso da avenida marginal, já que fatalmente seríamos atropelados caso tentássemos transitar por onde não havia acostamento nem calçada, como de fato é a pista ali pela região do Jóquei Clube. Assim, precisávamos inventar um outro e novo caminho, trilhando nosso trajeto pelas pedras e pela mata que ainda cobriam aquela região da São Paulo do sonho. A primeira parte da aventura transcorreu sem maiores sobressaltos, porém ao aproximarmo-nos da ponte que daria acesso ao outro lado do rio, o caminho se tornava impossível. Subi na frente dos outros uma grande parede de pedra que terminava num abismo íngreme, pois de lá podia-se observar todo o entorno para melhor avaliar as possibilidades de continuidade da empreitada. Do lado esquerdo havia água e mais além somente mata fechada. Um dos meus companheiros tentou entrar na água para testar se dava pé, porém constatou que era funda, como o poço de uma cachoeira. Para meu desespero, minha amiga que chegava ao local onde estávamos não sabia dessa informação e caiu com tudo dentro desse poço, mergulhando em pé e de uma vez só. Não a vi emergir novamente, mas sei que ela não morreu afogada. Sentei sobre uma pedra grande, porém a mesma estava solta e rolou na direção de um de meus amigos que se encontrava logo abaixo de mim. Tentei avisá-lo, mas a comunicação não chegou a tempo e a pedra passou por cima da cabeça dele. Felizmente, não morreu nem se feriu. Depois sentei sobre uma pedra menor, a qual também estava solta e rolou perigosamente sobre a minha gatinha branca de estimação, Molly. A pedra chegou a curvar sua frágil coluna vertebral e encobrir o felino por inteiro. Temi por ela e já entrava em desespero, quando percebi que ela também sobrevivera ao acidente sem maiores danos e que sua coluna vertebral podia facilmente voltar a posição original, como se fosse um elástico. Naquele ponto, decidi que eu deveria tentar descer a escarpa sozinho e deixei minha mochila com meus companheiros. A descida nem era assim tão perigosa quanto eu imaginava, porém exigia cuidados. Continuei pelo caminho e notei que do outro lado da avenida marginal, entre a via e o rio, pessoas bem vestidas realizavam importantes trabalhos junto com mendigos e catadores de papelão que ali habitavam e que todos estavam felizes e entusiasmados com a empreitada solidária. A sensação que me veio foi de que não se tratava de um mero trabalho assistencialista e interessado, mas que as pessoas estavam realmente envolvidas com a coisa e trocando experiências valiosíssimas. Me deu vontade de ir até lá e participar, porém era impossível atravessar a avenida. Continuei e cheguei até a ponte, porém ali também era impossível continuar, pois o terreno era acidentado e havia uma pedra muito grande obstruindo a passagem dos pedestres. Nesse momento, meu telefone celular tocou e era minha avó materna. Ela então passou a enumerar todos os meus erros, segredos, mentiras e tramóias cometidas desde o fim da minha adolescência, como se minha máscara tivesse caído toda de uma vez só e ela pudesse me ver tal qual eu sou. Eu tentava me justificar desesperadamente, relatando todas as iniciativas que eu venho tomando recentemente para corrigir o curso da minha vida, porém nada parecia acalmá-la. Me senti completamente desamparado e comecei a voltar para trás, em busca da minha mochila e de meus companheiros, porém sem o mesmo entusiasmo de antes, sem a confiança que eu tinha de que conseguiríamos encontrar o caminho de casa. Nesse caminho de volta, optei por seguir pela mata e notei um grupo de homens primitivos, cabeludos e sem camisa do meu lado esquerdo, numa clareira. A primeira impressão que eu tive foi a de que se tratavam de hippies (alguns tinham mostruários de pano toscos com anéis, colares e bijuterias) e logo me vi no meio deles, tentando entender o que faziam ali, pois alguns deles dançavam e entoavam cânticos misteriosos em alguma linguagem estranha. Porém, pareceu que eles nem deram pela minha presença e todas as tentativas que eu fiz para estabelecer comunicação foram inúteis. Resignado, prossegui até a alta parede de pedra onde estavam meus companheiros e pedi que jogassem minha mochila. Eu me sentia confuso e sabia que já não podia mais liderar aquele grupo. Vesti a mochila, desliguei o telefone celular e acordei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115194821296112192?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115194821296112192/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115194821296112192&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115194821296112192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115194821296112192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/07/um-sonho.html' title='Um Sonho'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-115189762592513041</id><published>2006-07-03T00:33:00.000-03:00</published><updated>2006-07-03T00:48:39.426-03:00</updated><title type='text'>Café com Angústia</title><content type='html'>Carrego um pequeno recipiente de plástico, com formato de garrafa de água mineral. A transparência do líquido que está contido não é capaz de disfarçar o peso do objeto, que olhado contra a luz possui certos tons azulados. É no peito que as angústias humanas habitam? Nessas horas de crise, sinto angústia escorrer por cada fibra, pedaço de mim, pele ou tecido que sou eu. Tenho amigos, música agradável, ambiente à meia-luz, a mulher que eu quero próxima, entorpecentes à vontade, travesseiros e almofadas. Tenho o emprego e o título do consórcio, todos os certificados e papéis que passaportam um ser humano para a ilha felicidade. Tenho, possuo, acumulo e me orgulho. Mas não enlaço, não abraço, não desfaço os nós e o script de um destino que era meu já não me flui, estanca e atravanca. O líquido espesso transborda da garrafa e os olhos não estão mais secos. Sofro por ser e estar e habitar. E a angústia que me toma faz o veludo da cortina se fechar e eu sonhar com a sensação de morrer. Mas existe um você. Remédio mesmo seria viver de te amar, F.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-115189762592513041?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/115189762592513041/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=115189762592513041&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115189762592513041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/115189762592513041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/07/caf-com-angstia.html' title='Café com Angústia'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-114843028951560541</id><published>2006-05-23T21:23:00.000-03:00</published><updated>2006-05-24T19:12:25.116-03:00</updated><title type='text'>Aos Insanos Leitores - I</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Uma Auto-Entrevista&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caros amigos: agradeço sinceramente a todos que perdem seus minutos vasculhando os porões da internet e vez ou outra param ao se depararem com os posts que eu publico (de vez em nunca) aqui neste meu blog. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos numa época de grandes transformações nas mais variadas áreas e seria ingênuo pensar que a introdução da informática no campo da literatura seria somente um fenômeno periférico, que não implicaria em uma radical transformação no conteúdo dessa literatura que é feita agora, no início deste século XXI. Porque muito embora a função do blog seja “publicar” escritos que foram escritos com papel e caneta (pelo menos no meu caso é como antigamente), as possibilidades de difusão de material literário por meios eletrônicos vão muito além de um facilitamento no contato entre o autor e o leitor. Hoje, o escritor tem em suas mãos ferramentas que podem ajudá-lo a editar, corrigir, trocar a fonte, usar imagens, sons, interagir com outras pessoas, etc. o que torna o fazer literário uma atividade da qual o público usufrui quase que em “tempo real”. Se por um lado isso é bom porque torna a literatura uma arte também performática (as artes performáticas: que se fazem, que se constróem, que se movimentam. Estão muito em voga em nossa sociedade do espetáculo), dando ao autor novos recursos expressivos que permitem um maior alcance sensorial dos “efeitos” literários (literatura é causar efeitos nos outros) por outro lado é uma coisa perigosa, na medida em que pode distrair tanto o autor quanto o leitor daquilo que é principal e sem o qual a brincadeira-literatura não pode existir: um bom texto, arquitetado com belas palavras, tecido com idéias finas, temperado no molho da fantasia e servido à mesa junto com um cálice da melhor safra de imaginação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não acredito que o livro eletrônico um dia vá substituir o livro de papel. Pelo menos não enquanto eu estiver vivo e os eucaliptos continuarem dominando o mundo. O livro de papel é portátil, é elegante, é sinal de status, é o formato do poder. Acima de tudo: o livro de papel é fetiche. Pessoas colecionam e se apaixonam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Se a poesia será um dia acessível às massas? Para mim, as massas têm suas próprias poesias, receitas de nhoque, recados anotados do telefone e bilhetinhos de mãe para filha. Gostar da poesia aristocrática e canônica que as elites fazem desde sempre como se fosse palavras cruzadas, exigiria que as pessoas fossem outras e não essas pessoas que são e existem no mundo. Ou seja: exigiria um futuro. Conhecer Homero, Baudelaire, Pessoa, Shakespeare, Rimbaud, Safo e Dante é necessário? É e não é, dependendo do tipo de pessoa que você almeja ser na vida e do papel que você quer representar na comédia humana. Mesmo sendo necessária, a poesia pode se tornar um fardo pesado demais para quem quer carregá-lo, por já ter nascido com a vocação. Em nosso país é quase uma mania exótica e meio pervertida. Coisa de colecionador, aficcionado, hobby, coisa que se faz nas horas livres. Perda de tempo. Sorte que ainda haja gente que semeie todo seu tempo para depois perdê-lo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-114843028951560541?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/114843028951560541/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=114843028951560541&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114843028951560541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114843028951560541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/05/aos-insanos-leitores-i.html' title='Aos Insanos Leitores - I'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-114832462475404745</id><published>2006-05-22T15:52:00.001-03:00</published><updated>2006-05-22T19:36:17.473-03:00</updated><title type='text'>Escritos Parisienses - IV</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Para Mariana e Jerome&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque também existe a alegria sentada nos metrôs do inverno em Paris. E ela se revela por entre casacos de pele e na timidez do olhar em pedra viva e preciosa, que pode ser azul, verde esmeralda ou cinza, como eu vi naquele sonho. E no flash que dura pouco menos de um milisegundo eu enxergo a cor que a alma de uma ninfa tem quando o poeta safado e boquiaberto se põe a lhe admirar. E os olhos, que são ilhas num oceano de peles rosadas, maciez, cabelos loiros e finos, encrostados por piercins de centenas e centenas de quilates, esses olhos também bebem cerveja e vinho tinto. E sussurram palavras estrangeiras sobre a incoveniência do rapaz que tão insistentemente se mete a lhes olhar assim. Porque ela não sabe, mas ele já descobriu, que as criaturas femininas mais preciosas do mundo podem estar singelamente sentadas sobre um banco de um vagão de metrô ou num café em Paris. E o rapaz dos sorrisos raros e difíceis pensa consigo mesmo num relance: eu descobri o amor da minha vida. Agora é só uma questão de aprender as quatro ou cinco palavras da língua francesa que me vão servir pra te conquistar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-114832462475404745?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/114832462475404745/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=114832462475404745&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114832462475404745'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114832462475404745'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/05/escritos-parisienses-iv_22.html' title='Escritos Parisienses - IV'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-114832370731322724</id><published>2006-05-22T15:38:00.000-03:00</published><updated>2006-05-22T20:10:37.460-03:00</updated><title type='text'>Escritos Parisienses - III</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/1600/baudelaire3.0.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/320/baudelaire3.0.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O sol nasce sempre tarde demais em Paris. Não existe por aqui nenhuma das infinitas possibilidades da noite - pelo menos enquanto ainda é inverno - e só resta ao poeta cavar sua toca no solo do aconchego, se entregando por horas à fio ao perverso prazer da leitura. Não há mais jogos adultos, divertimentos ou companhias -foi-se já o tempo em que as grandes senhoras elegantes recebiam a nata da intelectualidade mundial em seus salões para fazer nada e tomar largos baldes de chá. Hoje o violoncelo só toca por  moedas num corredor tortuoso do metrô. Por isso deixei um bilhete de ódio sobre o túmulo do sr. Charles Baudelaire. Por isso tantas pessoas se matam durante o inverno europeu, se atirando de braços abertos sobre a linha do trem ou o que for. A solidão da gente faz eco quando se passa um fim de Janeiro em Paris. E a beleza vigiada, escondida dentro dos museus, faz a gente querer morrer logo e de um jeito bem quente; o palhaço equilibrista de um livro do Nietzsche escapou por um triz. Ou fugiu com uma atriz de cabaré. Porque não existe nada de vermelho na paisagem de Paris (o moinho do moulin rouge) e o preço que custa um porre faz a gente delirar num copo d´água. Mas mesmo a água é suja, pingando antes de cair sobre a sarjeta já virou gelo. Tudo no mundo conspira para o ódio, detesto a sensação gelatinosa do meu corpo parando de funcionar por causa do frio. Pedi um abraço e só me deram um sorriso sarcástico de troco - não entendo a linguagem enrolada pela qual se manifesta a legião de Satanás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Au revoir!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-114832370731322724?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/114832370731322724/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=114832370731322724&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114832370731322724'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114832370731322724'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/05/escritos-parisienses-iii.html' title='Escritos Parisienses - III'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-114832273397909970</id><published>2006-05-22T15:14:00.000-03:00</published><updated>2006-05-22T20:20:46.953-03:00</updated><title type='text'>Escritos Parisienses - II</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/1600/cafe1.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/320/cafe1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Porque também existirá a tristeza enrolada nos cachecóis e sentada na mesa de um café em Paris. E mesmo o menino que nunca quis saber de falar com ninguém nesse instante vai sentir vontade de escutar qualquer voz dizendo bobagens naquela linguagem cifrada que ficou esquecida no outro lado desse pequeno oceano de chopp. E vai querer retornar pra casa com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. E vai desejar vestir de novo a fantasia cor de laranja e roxa do pierrot embriagado, a máscara de monstro de desenho do Walt Disney e vai querer ser o motivo da piada mais tosca e infantil de mais esse domingo de carnaval. Embora ele saiba muito bem que hoje não existam mais razões para cruzar essa porta e perambular pelas ruas sentindo todo o frio do mundo corroendo suas orelhas de abano, ele vai sim descer as escadarias do inferno (que um dia foi do Rimbaud) e tomar inadivertidamente todas as linhas do metrô que levam, sem pressa, para lugar nenhum. Pra quem sabe depois emergir numa pracinha de paralelepípedos em Montmartre pra fazer retratos em carvão dos estrangeiros e um dia ganhar um diploma de salvador dali. Ou quem sabe emergir na avenida dos Champs-Elysées transformado num japonês compulsivo por fotografias do Arco do Triunfo. Ou ainda subir à tona pelo bueiro que dá de fronte de um café no Quartier Latin, cujas poltronas velhas ainda guardam o cheiro azedo do esperma do Hemingway ou do Sartre, filtrados e com uma plaquinha embaixo pra turista imbecil filmar. Como também pode ser que estejamos caindo lá do alto, três segundos antes da Torre Eiffel começar a chover estrelas. Pode ser que ele se perca entre os labirintos e catacumbas dos tantos cemitérios e lápides em que esta cidade se transformou. Embora, para falar a verdade, (mesmo que seja tudo de mentira) nessa hora ingrata da parte final da minha vida, tudo o que eu queria mesmo era me transformar numa figura luminosa, perdida em um terceiro plano de uma tela qualquer de um artista pouco ou nada conhecido numa sala periférica do porão do museu D´Orsay. Só pra olhar essas tantas pessoas que se espremem como bois que vão pro curral, guardando da palidez do meu olhar e da sisudez do meu sorriso um segredo que as gerações que se sucederem pelo século XXII a fora jamais saberão decifrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também existe a tristeza sentada na mesa de um café em Paris e é bom tomar cuidado: ela pode se atirar nos trilhos do trem bem diante de você. E te levar pro inferno com um abraço. Convém levar um lenço branco, azul e vermelho para enxugar o sangue e os pedaços do intestino delgado e do encéfalo que em seu rosto possam vir a se alojar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-114832273397909970?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/114832273397909970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=114832273397909970&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114832273397909970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114832273397909970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/05/escritos-parisienses-ii.html' title='Escritos Parisienses - II'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-114806793278966533</id><published>2006-05-19T16:20:00.002-03:00</published><updated>2006-05-19T17:34:56.243-03:00</updated><title type='text'>Pequeno Sermão Carinhoso</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(uma praça. Pode ser o Vale do Anhangabaú ao meio-dia. O PREGADOR-FILÓSOFO traja como os antigos da Grécia e fala com voz grave e solene para a pequena multidão que se reúne em volta)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PREGADOR-FILÓSOFO: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(olhando para o céu)&lt;/span&gt; Longe de mim querer julgar alguém. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(olhando em torno)&lt;/span&gt; Penso que todo ser humano nos reserva ensinamentos preciosos, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; desde que consigamos olhá-lo livres de todos os nossos preconceitos. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(incisivo)&lt;/span&gt; Conhecer pessoas, travar contato com a diversidade de personalidades, carcteres, cores, formas ou jeitos de ser de cada mulher &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; e de cada homem que já existiu ou ainda existe no mundo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; é a ciência suprema, o aprendizado do absoluto, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(visivelmente emocionado)&lt;/span&gt; é a alquimia &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(dançando e gargalhando)&lt;/span&gt; e a hermenêutica. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(longa pausa. Professoral)&lt;/span&gt; Nesse percurso investigativo, entretanto, não podemos nos colocar como um observador pasivo da natureza, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(fazendo gestos com a mão)&lt;/span&gt; assim como um botânico ao descrever uma flor. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(falando mais alto)&lt;/span&gt; O caminho que vai de um ser humano até o outro é uma rua de mão dupla. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; A simples presença de duas pessoas numa sala, uma assim de frente para a outra, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(puxando duas pessoas da multidão e fazendo com que elas fiquem de frente uma para a outra, o PREGADOR-FILÓSOFO fala ora para uma, ora para outra)&lt;/span&gt; já implica o aparecimento de atrações, ódios, repulsões, amores, julgamentos de valor, relações de poder, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; entre tantos e tantos fenômenos. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; O conhecimento do outro é uma ciência &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(com ódio)&lt;/span&gt; suja &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; que só pode existir a partir do momento em que conhecemos e aceitamos as nossas fraquezas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; e também as nossas limitações, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(dando ênfase em cada sílaba)&lt;/span&gt; inventando um... &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(com sarcasmo&lt;/span&gt;)um falso distanciamento crítico para fins única e tão somente &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(fazendo um certo suspense, como se procurasse a palavra mais adequada)&lt;/span&gt; operacionais.&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(Longa pausa. Taxativo)&lt;/span&gt; O julgamento sumário do outro é o preconceito posto em ação. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; Apontamos nos outros os defeitos que não queremos enxergar em nós mesmos. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(resignado)&lt;/span&gt; Infelizmente, a mair porção da humanidade prefere comprar tudo pronto &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(aponta para as sacolas e bolsas que as mulheres em volta carregam)&lt;/span&gt; ao invés de fabricar por si mesma. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; Daí o desprezo pelos livros, pelas artes e pelas atividades do espírito e do corpo que requerem &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(alongando cada palavra)&lt;/span&gt; tempo, paciência e maturidade. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; Em geral, se prefere comprar uma moral barata, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(com nojo)&lt;/span&gt; de filme ou novela ruim, e aplicá-la indiscriminadamente em todas as situações da vida: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; é mais confortável &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(rindo)&lt;/span&gt; e é conveniente também. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(empolgado)&lt;/span&gt; É sempre mais fácil ser membro de uma igreja que já existe do que inventar uma filosofia original e inédita a cada novo dia. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(matemático)&lt;/span&gt; Porque é da natureza das igrejas e é da natureza das filosofias, que as igrejas perdurem e que as filosofias se reinventem sempre. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(profético)&lt;/span&gt; A história ensina pra quem quiser aprender que a verdade nem sempre está com a maioria &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(pausa)&lt;/span&gt; e que o caminho mais curto e rápido &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(glorioso)&lt;/span&gt; quase nunca é o caminho que chega em casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-114806793278966533?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/114806793278966533/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=114806793278966533&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114806793278966533'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114806793278966533'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/05/pequeno-sermo-carinhoso_114806793278966533.html' title='Pequeno Sermão Carinhoso'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-114054368183393787</id><published>2006-02-21T14:40:00.000-03:00</published><updated>2006-02-21T15:35:21.006-03:00</updated><title type='text'>Em vez de flores: o poema</title><content type='html'>Era óbvio demais. Uma soma de desejos rarefeitos, carências sinuosas, carinhos com esse olhar insinuante, risadas de boca cheia e outros tantos apelos cifrados (indiretas?) que jamais poderiam levar a outra conclusão. Incrível o poder que um sofá tem de absorver e aconchegar, me atirando pra cima de você como se eu fosse uma almofada bordada numa brincadeira de criança. Eu diria que se trata de algo entre a sua pele e seus pelos, de uma finíssima camada de energia luminosa e térmica que aquece, ilumina e liga meu corpo como se fosse uma tomada de duzentos e vinte volts. Dá arrepio de lembrar, mas é inevitável não associar os sentimentos bons que se guardam na lembrança com essas sensações estranhas e no começo um tanto incômodas de arrepio, aflição e ligeiro desconforto. A cena das garras da felina raspando, lixando e polindo a minha pele que era tão branca. Porque gestos assim, quando vem de você para mim, me fazem ser vermelho e vermelho. O sangue se aquece, se alvoroça, circula em alta velocidade acionando todos os mecanismos mirabolantes que gritam pro meu cérebro e guiam meu corpo com a força irrefreável da vontade que surge íntegra à luz do dia sem dar nem tempo de pensar em conseqüências. Porque a conseqüência desses casos todo mundo sabe que nome tem, embora a cada vez que eu experimente coisas assim junto contigo sempre role algo de inédito e inacreditável que me faz sentir adolescendo outra vez. Gosto disso, de como ficar com você me faz experimentar meu ser menino outra vez, pairando sobre um céu muito além das meras convenções adultas, rotineiras e banais. Te entrego meu controle remoto, te entrego meu controle próximo, só eu é que não me controlo mais. Um quilo de coração embrulhado em papel prateado: todinho pra vc, meu amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-114054368183393787?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/114054368183393787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=114054368183393787&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114054368183393787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/114054368183393787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/02/em-vez-de-flores-o-poema.html' title='Em vez de flores: o poema'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-113993948644624746</id><published>2006-02-14T15:50:00.000-02:00</published><updated>2006-02-14T17:03:59.706-02:00</updated><title type='text'>O Amor e a Cidade</title><content type='html'>Mas como do amor na hora de pagar a conta&lt;br /&gt;Nenhum trocado ou bala de hortelã interessa&lt;br /&gt;Pedimos outra xícara de café sem leite condensado&lt;br /&gt;E fumamos gostoso mais um cigarro sem pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque em horas assim a cidade toda reza ajoelhada&lt;br /&gt;Implorando por sinais de fumaça na linha do horizonte&lt;br /&gt;E vê o grande felino que desponta urrando sobre o monte &lt;br /&gt;Enquanto as senhoras católicas lamentam tantas catástrofes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os mendigos se arrastam aos nossos pés, maltrapilhos&lt;br /&gt;Porque os burgueses sempre se escondem atrás de vidros&lt;br /&gt;E avançam apressados por sobre os meus velhos esconderijos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa hora tão fria eu admiro a sua falta de diplomacia&lt;br /&gt;E o seu jeito de caminhar seguro me vem e me vale uma tarde&lt;br /&gt;Sim: eu sou o lado escuro e você a aurora que me invade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-113993948644624746?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/113993948644624746/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=113993948644624746&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113993948644624746'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113993948644624746'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/02/o-amor-e-cidade.html' title='O Amor e a Cidade'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-113985429979537936</id><published>2006-02-13T16:11:00.000-02:00</published><updated>2006-02-13T16:12:59.880-02:00</updated><title type='text'>Escritos Parisienses - I</title><content type='html'>Uma cidade que se mede pelo esplendor dos seus cemitérios. Um lugar em que as casas são tão velhas e feitas de pedra que saindo pela rua de noite a gente tem a viva impressão de estar mesmo dentro de um cemitério. E nas lápides de mármore lêem-se meus nomes familiares: Baudelaire, Oscar Wilde, Proust, Sartre, James Douglas Morrison, Simone de Beauvoir. Mas onde a maioria dos túmulos e casas pertence à gente anônima e sem nenhum significado literário que me evoque alguma genealogia torta. Nunca em minhas veias se encontrará qualquer miligrama perverso do sangue francês, nenhum resquício de qualquer passado europeu ou ocidental. Minha raça é índia e mestiça – não me reduzirei depois de morto e desenterrado a nenhum monumento babaca de mármore com letras em alto relevo que ficam parecendo com a fachada de um condomínio de classe média – antes almejo a destruição total dos tecidos que resulta em alguns litros de sangue e um resto de osso em pó. Ou menos que isso, quem sabe por que não num desastre imbecil de avião. Me dá preguiça de viver quando o mundo faz tão frio. E o silêncio dos cemitérios que se espalham pelas ruas e tomam conta da velha capital é antes um prelúdio para o vento cortante que te fatia em cada esquina. Alguém esqueceu uma cova aberta no meio da noite: caberá nela uma lua ao avesso?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-113985429979537936?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/113985429979537936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=113985429979537936&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113985429979537936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113985429979537936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/02/escritos-parisienses-i.html' title='Escritos Parisienses - I'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-113684100288082419</id><published>2006-01-09T19:00:00.000-02:00</published><updated>2006-01-09T19:13:59.766-02:00</updated><title type='text'>É, eu sei disso que você tá me falando</title><content type='html'>É, eu sei disso que você tá me falando. Não, isso é porque no fundo eu também cresci dentro de um quarto que tinha videogame, aparelho de som três em um, revista de História em quadrinhos, tv a cores, videocassete, uma porrada de revista de mulher pelada e um tênis nike sujo e esburacado jogado em cima de um canto. Não tem nada a ver com eu ser ou não ser filhinho de papai, tem coisas que eu cuido da cabeça pra dentro e não é porque neguinha saia por aí falando que eu pareço com isso ou parecço com aquilo que na verdade eu sou. Eu sei muito bem de que São-Paulo-Palanque eu tô falando, sei que a realidade do Brasil é outra, sei que eu não pertenço aos pobres e os ricos e os burgueses e os classe média do caralho tão cagando e andando pra cima de mim. Assim como eu estou cagando e andando pra cima deles também, quer saber. Porque meu negócio é viver meu eu e tudo o que está ao redor dele - inclusive você, meu. Viver as experiências que dá pra viver vivendo à margem e ao mesmo tempo dentro da parada, circulando por dentro e por fora do padrão. Brincando de esconde-esconde com a polícia, no Brasil todo mundo que brinca de polícia e ladrão prefere mil vezes ser ladrão, por que será? Um dia eu ainda vou ter minha carabina calibre doze e um canhão no quintal de casa que nem o Serafim Ponte Grande. Pena que eu moro em Alphaville e se eu atirasse não ia ter pra onde errar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-113684100288082419?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/113684100288082419/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=113684100288082419&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113684100288082419'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113684100288082419'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2006/01/eu-sei-disso-que-voc-t-me-falando.html' title='É, eu sei disso que você tá me falando'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-113448446814129870</id><published>2005-12-13T12:34:00.000-02:00</published><updated>2005-12-14T12:04:31.223-02:00</updated><title type='text'>Fun, Babe, Fun!</title><content type='html'>Só eu sei o quanto é difícil penetrar nesse universo paralelo e estranho em que as garotas pensam, vivem e me julgam. Sim, porque a questão toda no fundo é julgamento e por mais que eu também seja um cara normalzinho e viva dando opiniões a torto e a direito sobre o modo de existir de qualquer fulano ou fulana que cruze o meu caminho, pelo menos eu tento me policiar. Não saio armado por aí etiquetando rótulos e disparando contra as tribos a troco de me sentir mais poderoso e mais in do que esses pobres adolescentes com camisetinhas de banda de rock neo-gótico. Eu cresci. E desde muito novo já circulava por entre as várias tendências e estranhezas que uma sociedade anárquica e pós-moderna pode oferecer pra alguém que tinha naquela época não mais do que quinze anos e adorava subir e descer pelas escadas rolantes (que não rolavam) da galeria do rock do centrão de São Paulo, ali ao lado do teatro municipal (seu burguês otário). Porque no teatro municipal mesmo eu só fui entrar lá depois de muito mais velho, já com a pose do intelectual decadente que não conseguiu ter saco pra aturar toda a enxurrada de burocracia que precede o solene ritual de entrega dos diplomas de graduação em letras e ciências anti-sociais. No colégio eu era amigo dos hippies, comia uma tiazinha com pinta de pin-up, tinha amigos entre os punks, freqüentava as festas da gaviões da fiel e pagava um pau pra turminha do black. Mas em lugar algum eu me sentia bem, sempre deslocado e blasé, com as latas todas de cerveja circulando pelo meu corpo entre um gole e outra gorfada na fila do banheiro –nunca tive pinta pra ser amante latino, desses que arrasam com o baile e ganham todas as loiras com um golpe bem dado de tacape na cabeça e depois carregam suas vítimas dentro de uma caçamba de pick-up rumo ao motel mais barato da rodovia raposo tavares. Meu negócio vai muito além de ter ou não ter estilo, de estar ou não estar na sua modinha, de seguir ou não seguir seus conselhozinhos de bacana que lê folha ilustrada. Comigo você vai ter que aprender novos idiomas, novos costumes, novos jeitos de fazer cada mínima coisa que você está acostumada a fazer nessa sua vidinha confortável e medíocre. Uh babe... Uh babe... Me dá um acorde em lá e se prepare pra se reinventar completamente. Bem-vinda ao mundo encantado dos que não consomem literatura por lazer. Dos que são feitos de tinta e papel e são literatura mais do que carne. Marquei uma reuniãozinha nas quebradas da rua augusta pra você conhecer minha galerinha e ir se enturmando logo no começo pra depois não dizer que eu faço você se sentir uma estranha. Porque pra ficar comigo vai ser desse jeito, por mais que doa e incomode. Estou aqui nesse mundo pra fazer doer e fazer incomodar. Fazer doer e fazer incomodar... Três e quarenta então? Naquela esquina suja entre as putas e os playboys da zona leste que se entopem oito ou nove dentro de um fiat um quatro sete e ainda racham a grana pra conseguir um mísero boquete de travesti sem dente? E no fim ainda fazem um sorteio (roleta russa com trinta e dois enferrujado de numeração raspada) pra saber quem será o felizardo desta noite. Estarei lá com meu compadre Artur, o junkie. E com o gordo do Jack. E com a piranha da Anais, com o velhinho do condomínio do Rubem, com o Leminksi, com o imbecil do Truman Capote, com a minha querida Clarice, com o deus supremo Oswaldo, com Cortazar, com Caio Fernando Abreu, com o pai do Luis Fernando Veríssimo. Estaremos ali ouvindo um violão do Kurt Cobain, quem sabe vendo um filme do Kubrick ou escrevendo e-mails com vírus pra algum Jean-Luc Godard que não saiba ler. Punhetando intelectualidades, como é característico dos autores que se escrevem por São Paulo. Entre um pico e outro de droga, pedir pro Iggy Pop dixavar mais um baseado, dar uns amassos e umas dedadas na mulher do Bowie e lamber a orelha da minha ex-atriz preferida: podia ser Anna Karina, podia ser Isabelle Huppert (por isso nos amamos e trepamos e fodemos em francês, língua porca e depravada). Sempre preferi a baixa boemia, sempre admirei como o maior dom divinal ou humano que se pode conceder a alguém essa capacidade de se manter invisível por detrás de uma coluna, só espiando e remoendo risadinhas sarcásticas. Mas voltarei ao palco pra fazer aquela cena de sexo explícito que o Nelson Rodrigues guardou só pra mim e pra você. Com direito a sangue e mordidas e manchas roxas sobre tua pele branca. Vem comigo por esse buraco, vamos escavar subterrâneos e vasculhar as passagens secretas e calabouços que nos levem para muito além desse mundo de ratos que se amontoam num sofá velho e rasgado pra assistir a novela das oito por detrás do reflexo da vitrine da loja de tevê. Eu odeio o seu amor, odeio essa sua maneira panaca de ser fina e meiga. Mas desejo seu corpo, preciso de um corpo jovem para dar prosseguimento ao macabro ritual – quero sobre o capô de um carro, encostada contra o poste toda arreganhada, seu bum-bum apoiadinho no mictório de uma balada podre, brutalidade e cheiros sobre o tampo do esgoto, eu, você e o que sobrar de nossas almas quando a aurora finalmente amanhecer. Quero conhecer na minha veia o HIV. Saltar etapas e me santificar por uma editora de pequeno porte, deixando aqui pra vocês somente uma pequena amostra (grátis o caralho) do que eu poderia fazer se tivesse vontade de ser um escritor que escreve pra qualquer rede globo. Só uma trepada assim (é, como você ta imaginando e querendo, assim mesmo, garota: uma trepada do caralho) e depois repouso eterno e o tédio enlatado pra curar da ressaca. Que venha o tiro e o pico e o carro desgovernado e a cama do hospital público senador nove de junho com sondas e cabos e tubos entrando e saindo pelo meu corpo magro. Que me amarrem e me amordacem e me mumifiquem ao lado do Lênin. Nunca fui mesmo mais do que um cadáver quando examinado do ponto de vista das garotas. Mas assim como as desprezo, queridas, as amo todas vocês. Nem só das noites de desamparo e solidão vive o desejo de um homem divergente pelas mulheres convencionais. Até porque agora a essa hora do ano tudo o que eu não quero é que você me convença. Beija primeiro e reclama depois.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-113448446814129870?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/113448446814129870/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=113448446814129870&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113448446814129870'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113448446814129870'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/12/fun-babe-fun.html' title='Fun, Babe, Fun!'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-113318661730375879</id><published>2005-11-28T12:03:00.000-02:00</published><updated>2005-11-28T13:49:42.816-02:00</updated><title type='text'>No fun, my babe, no fun!</title><content type='html'>Ele veio. Ato, presença e atitude – nada de poses pra sua fotografia amarela. Gestos de feiticeiro, imprevisivelmente hipnótico, o senhor de todas as festas. Que ninguém mais se atreva a subir num palco impunemente e tomar o microfone do rock n´roll pra berrar suas letrinhas de criança. O microfone é dele, o palco é dele, louvemos e profanemos. A energia escorre e nenhum recipiente, nenhuma área delimitada, nenhum espaço aberto ou fechado entre o céu e os infernos é capaz de conter e dar forma a essa explosão de sentidos e cores e sons. Um homem que dança. O homem que canta sobre um palco, o mesmo palco em cada país, em cada geração, em cada universo paralelo. Ele que com um olhar ou um sussurro já seria capaz de cometer um assassinato em massa, mas que grita, se acaba, rola pelo chão e atropela qualquer protocolo, qualquer lembrança fugaz daquele mundo capitalista ou daqueles valores burgueses que existiam antes de eu me deparar, numa noite palidamente mágica, com tal ser iluminado. A ordem existe enquanto pretexto para desfragmentar, fazer ruínas, passar por cima e erigir a fúria. Um monumento a fúria, ao Dionísio reencarnado e imortal que no breve intervalo de uma hora bombardeou São Paulo e transformou tudo em chamas de purificação. Um ritual sem hierarquia, todas as bacantes reunidas em comunhão com o sacerdote. Toda uma multidão paralisada e inerte dentro da palma da mão de um semi-deus. Semi-satã. Porque cada iniciado que deixou o templo após aquela noite de orgia sabe que não se trata de diversão. Os casais convencionais e as pessoas sempre corretas que fiquem com seu entretenimento babaca, alinhados em filas monótonas pra entupir cada lugar que poderia ser habitável num fim de semana. Trata-se de algo além. Vida ou morte. Ouvir Iggy &amp; Stooges tocando tão perto é algo pra mudar sua vida e te fazer ser outra pessoa. Ou algo mais que uma pessoa. Muito mais que religião, que ideologia, que paixão ou passatempo, muito, mas muito mais do que uma mente normal e domesticada poderia conceber. É olhar a morte nos olhos, é abraçar a vida inteira de uma vez, é querer congelar o tempo e deixar as pulsões represadas ao longo de uma existência extravasarem num único gesto definitivo e contundente. É o  rock n´roll (sinto ter de ser eu a lhe dizer isso, babe) e vale bem mais do que a soma de todo o resto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-113318661730375879?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/113318661730375879/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=113318661730375879&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113318661730375879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113318661730375879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/11/no-fun-my-babe-no-fun.html' title='No fun, my babe, no fun!'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-113276681190990168</id><published>2005-11-23T15:20:00.000-02:00</published><updated>2005-11-23T16:58:37.753-02:00</updated><title type='text'>Claro que não é só o rock</title><content type='html'>O primeiro que chegou foi o boato. Como em todo início de ano pop, vestindo trajes tropicais e usando óculos de sol com lentes enormes e castanhas, ele veio desde o hemisfério norte a bordo de seu hidroavião da década de 1940, que, como quase sempre, teve que fazer um pouso forçado de emergência à beira do Rio Paraguai. Boato sentou-se à mesa do nosso bar particular e soprou-nos nos ouvidos adolescidos sete nomes de conjuntos de rock: três da Grã-Bretanha, três dos Estados-Unidos da América e um da Austrália. Boato fala inglês com um sotaque forte de eslavo, mas tampouco nós, jovens educados em escolas públicas de classe média e que já passáramos com louvor pelo muro do vestibular, saberíamos decifrar alguma sílaba ou fonema do tal idioma anglo-saxão em meio à gritaria e ao barulho das faixas do CD gravado e sujo de cinzas e manchas de bebida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; E assim ele se foi, levando nossas drogas, nossa fé e nosso amor-próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; E o tempo passou sem sobressaltos sobre São Paulo. Dias de trabalho e dias de lazer noturno, poucas novidades tecnológicas e nenhum apoio a tendências estéticas ou políticas que pudessem porventura se mostrar ideológicas. E ao show se sucedia outro show, outra discotecagem, outro DJ. Eu e ela nos sentimos envelhecidos e fora do contexto em algumas ocasiões e Mário de Andrade já dizia que todo apogeu já é o início do declínio. Eu e ela que não damos certo juntos e nos amamos aos coices e cenas sem ciúmes, desfilando com cara de monstro e hálito de absinto pelas imediações da Paulista, às X e pouco da manhã. Porque foram tantas as manhãs abortadas em sono profundo sobre o sofá de um apartamento, que sempre foi tão útil pra absorver meus fracassos, esquecimentos e outros foras (de mim comigo mesmo: eu, eu, eu). Eu e ela que sempre nos embananamos ao cantar as letras berradas daquele triste dinossauro e entramos fora do tempo e fomos à aula de geometria só pra perder o compasso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia de bobeira, com certeza devia ser domingo e fazia algum sol: a gente tinha acabado de acordar. Eu, ela e outros eles sentados à volta de uma mesinha de boteco, almoçando cerveja e sanduíche, alguns x-salada outros x-frango com salada. Foi quando nossa amiga chegou. Sempre sorrisos e pernas de fora, elegante mesmo despenteada e de maquiagem borrada, ela veio, beijou um por um, puxou uma cadeira de plástico amarela e também se sentou. Nossa amiga Notícia. Acabara de vir do aeroporto após uma longa e sexual temporada em Paris. Notícia não queria saber de nada do Brasil nem fez muito suspense, daí logo entregou: sim, as sete bandas de rock, três dos Estados Unidos da América, uma da Austrália e três do Reino Unido, sim, as sete bandas que por toda vida esperávamos; nós, pobres fãs de música com guitarra num país de terceiro mundo, as sete bandas anunciadas pelas profecias impressas nos papiros do Egito, as sete bandas malditas viriam fazer um orgiástico festival na zona oeste de São Paulo. Notícia até confirmou as datas e tomou um copo americano e meio de cerveja com a gente (não lembrou de pagar a conta), mas partiu sem se despedir transformando-se numa ave de médio porte que alçou vôo pelos céus de São Paulo e se perdeu na imensidão cor de ferrugem do horizonte que não víamos, pois havia muitos prédios tapando nosso campo de visão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  No dia seguinte fomos à fila, compramos ingresso e entramos para uma nova seita tibetana que estava abrindo uma franquia no Brasil. Hoje, esperamos inertes e trocamos arquivos mp3, numa tentativa de aliviar a angústia de uma inútil contagem regressiva. Aprendi de cor quatro letras de música, mas espero não poder cantá-las no dia do festival porque, até esse show que eu tanto sonhei ver começar, eu já quero estar completamente sem voz. Eu e ela, tão incongruentes e assimétricos, um dia da nossa vida quem sabe desaguaremos num mínimo divisor comum. Sem voz, em êxtase, em comunhão. Eu e ela, sempre tão avessos ao padrão médio dessa sociedade burguesa, um dia estaremos ali junto a toda a meia dúzia de outros que pensam e sentem como nós. Seremos, de alguma forma, uma maioria por algumas horas e com certeza vamos aproveitar cada instante desse dia mágico pra desafogar tantos rios de opressão e tédio. Eu, ela, nosso palco calcado na grama do chão e o barulho capaz de preencher toda a imensidão do céu (jamais azul) de São Paulo. Seremos feitos de rock &amp; roll. Amor é uma palavra pequena e insignificante. Pro nosso caso, só mesmo uma terapia a base de doses cavalares de morfina com paixão. Definitivamente, é algo além.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-113276681190990168?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113276681190990168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/113276681190990168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/11/claro-que-no-s-o-rock.html' title='Claro que não é só o rock'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112956660183963075</id><published>2005-10-17T14:02:00.000-02:00</published><updated>2005-10-18T13:00:03.190-02:00</updated><title type='text'>Sobre o Referendo do Desarmamento</title><content type='html'>Não entrarei aqui no mérito da discussão de mocinhos e bandidos nem nos argumentos patéticos e superficiais mostrados na televisão. Assumo aqui um ponto de vista outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil discute o fetiche de um objeto estritamente relacionado a morte: uma arma de fogo. Ao longo do século XX, as tecnologias e variedades desse gênero de artefatos proliferaram de forma prodigiosa e as máquinas de matar gente assumiram um papel cada vez mais relevante na cultura e no imaginário dos povos. Três dentre tal classe de objetos alcançaram praticamente todos os confins do planeta e desempenham uma função determinante para a reprodução da dominação social: as armas de fogo (desde o rojão até a bomba atômica), o automóvel e o cinema. Por razões de ordem prática, este ensaio abordará somente as armas.&lt;br /&gt;A finalidade assassina do porte, comercialização ou uso de qualquer arma de fogo é clara e evidente, porém mascara o essencial: um revólver ou uma espingarda são, antes de tudo, instrumentos de intimidação, ou seja, a simples presença de um ser humano com uma arma, em qualquer recinto ou ambiente, já estabelece por si uma situação de temor e apreensão e confere a tal indivíduo um poder que alguns ingênuos crêem ser absoluto. Brincar de ser o poderoso - é o que exclama o cidadão que empunha um trinta e oito carregado e o depoista com macheza sobre o balcão de um boteco de periferia. Ou depois de uma fechada num cruzamento de avenidas em São Paulo, ou num bar de playboy na Vila Olímpia. Instrumento de intimidação por excelência, a arma é um prato cheio pra pessoas (sem muita psicanálise) com problemas para se afirmarem e portadoras de alguma carência emotiva que transborda e grita pelos seus subconscientes (embora elas finjam que não a reconheçam). &lt;br /&gt;A arma de fogo também está relacionada ao campo semântico do masculino, remete ao arquétipo do guerreiro, embora Rambo aponte para uma ruptura se comparado a figuras como Aquiles ou o rei Artur. Infelizmente ruptura pra pior: diluição e empobrecimento do arquétipo. Apesar disso, o fascínio exercido pela arma de fogo e o espetáculo de destruição que ela pode proporcionar deram origem a um sem número de manifestações artísticas de primeira grandeza, dos futuristas italianos ao cinema de Hollywood.&lt;br /&gt;No caso específico da formação histórica dos povos do continente americano, a arma de fogo foi o fator decisivo que permitiu a invasão e o posterior estabelecimento de populações de origem européia ou sob o domínio de europeus.&lt;br /&gt;Em todos os casos se pode detectar que a arma de fogo é uma das principais ferramentas que os grupos dominantes utilizam para se reproduzirem enquanto classe e se perpetuarem no poder. Sua manipulação ou comercialização por indivíduos desimportantes e individualistas, o ponto central desse reverendo feito por e para engravatados, passa ao largo da questão fundamental, que é o monopólio da violência pelo estado burguês (polícia, exército, segurança particular, advogado, traficante) como forma de garantia da manutenção do status quo. No Brasil, status quo quer dizer níveis crônicos de desigualdade econômica, estado de direito, democracia representativa, dependência cultural, atraso tecnológico, guerra civil, ignorância, miséria, luta de classes, hipocrisia, crueldade, cinismo e confusão entre ação, palavra e pensamento. E isso tudo se articula em torno de nosso processo de formação histórica de povo colonizado e escravagista, de uma sociedade fundada sobre a violência e imensos abismos  separando grupos de indivíduos (que ontem se diferenciavam pela cor da pele e hoje pode ser que pela roupa ou pelo saldo da conta bancária). Daí advém o inevitável retorno do reprimido, todas as pulsões e traumas convergindo num gigantesco manancial de energia represada e acumulada ao longo dos séculos e varrida para debaixo do tapete como um efeito colateral da constituição da eterna e desigual configuração social brasileira. O que explica porque aqui no Brasil se morra mais por arma de fogo do que no Iraque ou nos EUA. Apelar para um revólver para resolver seus problemas psíquicos é uma solução fácil e covarde. E como um gesto mínimo (muito mais simbólico do que efetivo), eu votarei sim, votarei contra a comercialização de armas de fogo nesse tal reverendo. Quero a reversão de certas engrenagens que estruturam essa máquina chamada civilização brasileira e penso que podemos liquidar algumas questões legadas por nosso passado e inventar um outro país sobre bases bem diferentes das aque até aqui nos sustentaram. Banir as armas e optar por canalizar o instinto de morte para atividades artísticas, lúdicas ou intelectuais seria um bom começo. Sem querer imitar a Europa nem os Estados Unidos nem ninguém, o Brasil pode inventar. Inventar ao invés de imitar. E é pra desamarrar meu país de certas obsessões de seu passado que eu voto sim e ficaria muito feliz se esse tal estatuto fosse aprovado e (o que é uma pena, mas infinitamente mais difícil) posto em prática.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112956660183963075?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112956660183963075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112956660183963075&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112956660183963075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112956660183963075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/10/sobre-o-referendo-do-desarmamento.html' title='Sobre o Referendo do Desarmamento'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112810093241303342</id><published>2005-09-30T14:20:00.000-03:00</published><updated>2005-09-30T14:23:39.730-03:00</updated><title type='text'>o eclipse de sorvete</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/1600/IMGP0428.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7129/808/320/IMGP0428.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112810093241303342?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112810093241303342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112810093241303342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/09/o-eclipse-de-sorvete.html' title='o eclipse de sorvete'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112774753982382677</id><published>2005-09-26T12:05:00.000-03:00</published><updated>2005-09-26T14:34:55.333-03:00</updated><title type='text'>CEREBRIDADE</title><content type='html'>Sou avesso ao método:&lt;br /&gt;detesto me compartimentar em rotinas&lt;br /&gt;não sirvo para tomar conta de nada&lt;br /&gt;nem me preocupo comigo mesmo a ponto de.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um artista, logo preciso de um empresário&lt;br /&gt;de uma secretária (bilíngue / gostosa)&lt;br /&gt;que me organize como uma agenda&lt;br /&gt;de alguém que faça minha faxina&lt;br /&gt;preciso de uma musa inspiradora&lt;br /&gt;e é imprescindível que me deixem dormir até mais tarde&lt;br /&gt;e que não me atormentem com assuntos mundanos (leia-se: prosaicos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero ser um artista famoso, dos que chocam a burguesia&lt;br /&gt;portanto não vou poder ir ao shopping&lt;br /&gt;e nem fazer as coisas que uma pessoa normal faz&lt;br /&gt;porque um guarda-costas me acompanhará 24 horas por dia&lt;br /&gt;e só circularei pelas ruas a bordo de um carro blindado&lt;br /&gt;ou na pior das hipóteses de um helicóptero com insulfilm&lt;br /&gt;porque atualmente é consenso que artista que se preza vive na ponte aérea LONDRES - SÃO PAULO - LAS VEGAS - CASABLANCA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no ano passado e por enquanto&lt;br /&gt;eu só sei que sou (e sempre serei)&lt;br /&gt;uma estrela do rock n´ roll &lt;br /&gt;ho-ho-ho&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112774753982382677?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112774753982382677/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112774753982382677&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112774753982382677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112774753982382677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/09/cerebridade.html' title='CEREBRIDADE'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112774608629557240</id><published>2005-09-26T11:38:00.000-03:00</published><updated>2005-09-26T11:52:14.296-03:00</updated><title type='text'>Diário sem data - II</title><content type='html'>A velhice vem vindo e o tesão acabou. Só fui me dar conta de que o saldo de uma adolescência saudável é ter construído uma máscara de personagem de si mesmo tarde demais. Agora já não se pode reconhecer qualquer expressão humana nas rugas precoces que enfeiam a minha face. Cativo em denso casulo, sou insensível a todo e qualquer apelo, do racional ao afetivo. Me esquivo passageiro de ônibus nas multidões de São Paulo e maquino silenciosamente planos de ataques terroristas que matassem motoristas de automóvel. Explodir uma ponte, uma dessa pontes da marginal, quem sabe. A fraqueza me paraliza e o medo me impede de começar o dia. Momentos felizes? Certas noites de orgia, cocaína e bebedeira. Disso eu entendo, entendo tanto que até já enjoei e agora eu queria o controle do meu destino de volta. Sonharam meus sonhos enquanto eu hibernava? Reconheço que em 99% do tempo me faltou força de vontade e amor no coração, mas só agora, depois de velho, é que eu consegui aceitar que o papel que eu vim representar aqui neste planeta não é o de ser um cara bonzinho. Vou dizer e fazer e escrever coisas que incomodam muita gente, mas eu não perco a chance de experimentar uma maneira de pensar o destino e a vida que seja original, transgressiva e perversa. Meu lugar é um pouco para lá da linha que separa as pessoas que se dão bem na vida e se guiam pelo bom senso do resto: os fodidos, bandidos, drogados, loucos e excêntricos. Meu grande defeito até agora foi conspirar em silêncio e acumular toda a energia ruim que eu recolho do mundo no meu corpo, mas agora eu estou finalmente aprendendo a me lavar. Quero me banhar na fonte mais límpida, mergulhar com os peixinhos do rio, secar sob o sol do Equador. Das águas emergiu um homem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112774608629557240?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112774608629557240/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112774608629557240&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112774608629557240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112774608629557240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/09/dirio-sem-data-ii.html' title='Diário sem data - II'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112774459420926877</id><published>2005-09-26T11:12:00.000-03:00</published><updated>2005-09-26T11:38:01.600-03:00</updated><title type='text'>Diário sem data - I</title><content type='html'>Ainda dessa vez eu tomaria aquele ônibus Jardim Jamorítimo e não eram nem nove e meia da noite, meu corpo cheirava a óleo de cozinha. Celulares tocavam sem parar e meninas que vinham de qualquer periferia atendiam: alô, meu amor, onde cê tá, já tô chegando, tô aqui na faria lima. Eu olhava pela janelinha embaçada de suja aquela paisagem repetida que eu sabia inteirinha de cor: uma vez eu comentei com uma amiga que eu tinha a impressão que se um dia eu virasse por uma outra rua qualquer que saísse do itinerário eu me sentiria completamente desamparado. E naquela hora eu me sentia exatamente assim e minha consciência voava até o dia longínquo e esfumaçado da minha infância em que ainda existia em mim o germe de um ser humano que poderia vingar na vida. Não sei bem quando, mas essa promessa falhou e hoje só recolho cacos e junto objetos miúdos numa caixa como quem acorda de um sonho ruim numa manhã de quinta-feira e se dá conta de que se passaram vinte anos desde a noite em que você foi dormir. E o mais triste é que eu me esqueci como eu sou quando não estou bêbado nem chapado ou a procura de e que jamais terei coragem de mudar minha postura e encontrar qualquer ponto de equilíbrio que me garanta um mínimo de harmonia com as pessoas que estão ao meu redor. Me engano com pequenos prazeres e conversas meramente superficiais, mas em breve nem isso minha saúde frágil me permitirá mais. Sinto lá no fundo uma necessidade palidamente humana de me aproximar e compartilhar minha vida com alguém, mas fraqujo e desconfio de todos. Sou tenso e incapaz de me relacionar afetivamente, portador assumido de neuroses para as quais não vejo possibilidade de solução. Minha doença, dizem, chama-se depressão. Antes de descer deste ônibus eu quero muito me matar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112774459420926877?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112774459420926877/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112774459420926877&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112774459420926877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112774459420926877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/09/dirio-sem-data-i.html' title='Diário sem data - I'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112723959037830604</id><published>2005-09-20T15:06:00.000-03:00</published><updated>2005-09-20T15:06:30.393-03:00</updated><title type='text'>O Fazer</title><content type='html'>Fazer é um verbo coringa. O significado de fazer é qualquer verbo, todos os verbos, tudo aquilo que seja ação, isto é, fazer é uma palavra que descreve todo e qualquer acontecimento, transformação ou abalo que modifique a configuração atual do espaço-tempo. Tanto é assim que em português podemos substituir praticamente qualquer verbo de ação pelo verbo fazer, da seguinte maneira: comprar = fazer compra, caminhar = fazer uma caminhada, telefonar = fazer um telefonema, limpar = fazer uma limpeza, construir = fazer uma construção, etc. Nesse sentido, o fazer pode ser entendido como a expressão verbal de toda ação do sujeito humano sobre o meio e sobre si mesmo. E uma das marcas da ação do sujeito humano sobre o mundo e sobre si mesmo é que, antes de agir, tal sujeito projeta, ou seja, antecipa as conseqüências, obstáculos e custos que a realização da ação acarretará, seja para si mesmo seja para o mundo. Projetar a ação significa pesar de um lado o desejo, ou seja, o fazer configurado enquanto intencionalidade e vontade de consumar a ação, e, de outro, as conseqüências, quer dizer, as re-ações e contra-ações que a ação inicial pode causar no tecido do espaço/tempo e das relações inter-pessoais e que, vez por outra, podem se voltar contra o próprio sujeito ou frustrar as expectativas iniciais. Projetar também implica realizar a melhor escolha possível dos meios, do modo, dos instrumentos empregados, do lugar, da hora, do ritmo e da intensidade, visando à exeqüibilidade e a maior margem de probabilidade de sucesso possível para a ação.     &lt;br /&gt; A semiótica de Greimas afirma que o sujeito se constitui enquanto tal a partir do momento em que efetivamente faz, atua. A função do actante sujeito é partir em busca do objeto e essa busca tem o nome de ação, fazer ou performance. Para tanto, o sujeito necessariamente precisa estar de posse das competências para fazer, a saber: querer-fazer, poder-fazer, dever-fazer e saber-fazer. &lt;br /&gt; Exemplos: &lt;br /&gt; 1) Final de uma copa do mundo de futebol. Pênalti para o Brasil. De nada vale a seleção brasileira contar com um centroavante talentoso, em plenas condições físicas (poder-fazer), que durante os treinos sempre acerta suas cobranças (saber-fazer) e que foi escolhido pelo treinador para ser o cobrador oficial (dever-fazer), se na hora de realizar a cobrança esse centroavante olhar para a bola, olhar para o goleiro, olhar para o resto do time e não se sentir confiante para realizar o chute, não manifestar vontade alguma de cobrar o pênalti (querer-fazer). &lt;br /&gt; 2) Uma cantora lírica tem uma apresentação marcada para dali a algumas horas, mas durante a passagem de som percebe que está sem voz. Apesar de normalmente possuir todas as competências para executar a ação (saber cantar, querer cantar e dever cantar), a cantora não se apresentará porque não dispõe, nesse dia em especial, de seu instrumento de trabalho em plenas condições, ou seja, não pode fazer a ação de cantar música lírica, pois lhe faltam os meios (poder-fazer). &lt;br /&gt; 3) Um funcionário de um alto ministério descobre que seu superior está por trás de um esquema de corrupção. Mesmo sendo amigo de um jornalista que poderia divulgar o caso e tendo vontade de conceder uma entrevista bombástica (saber-fazer, poder-fazer e querer-fazer), esse funcionário decide manter-se calado para não trair a confiança de uma pessoa que o ajudou em outros momentos e que lhe colocou no cargo que ele hoje ocupa. Em seu íntimo, tal funcionário sabe que denunciar seu chefe seria violar o código de honra em vigor no tal ministério e causaria o mal de uma pessoa próxima, a quem ele está ligado por um contrato de confiança. Assim, ao recusar a entrevista, ele o faz para não violar um compromisso de honra (dever-fazer). &lt;br /&gt; 4) Um técnico em informática é contratado para solucionar um problema num computador de uma empresa. Ao chegar ao local, munido de todas as ferramentas necessárias para o conserto, (poder-fazer, querer-fazer, dever-fazer) ele se dá conta de que não domina a linguagem de programação usada na configuração da máquina avariada. Nesse caso, o técnico não pode realizar o conserto, pois lhe falta a competência saber-fazer.&lt;br /&gt; Resumindo: o verbo fazer é capaz de cumprir a função de qualquer outro verbo de ação. Na semiótica de Greimas, o sujeito só se constitui enquanto tal a partir do momento em que faz e, para fazer, ele precisa possuir as seguintes quatro competências: querer-fazer, poder-fazer, dever-fazer e saber-fazer. Em outras palavras: o fazer pressupõe um sujeito possuidor dessas quatro competências. O fazer também pode ser descrito como o momento da busca do objeto pelo sujeito e, nesse sentido, é sinônimo de ação e performance.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112723959037830604?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112723959037830604/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112723959037830604&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112723959037830604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112723959037830604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/09/o-fazer.html' title='O Fazer'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112178569477002910</id><published>2005-07-19T12:08:00.000-03:00</published><updated>2005-07-19T12:08:14.773-03:00</updated><title type='text'>DA FUNÇÃO DE HABITAR - PRÓLOGO</title><content type='html'>PRÓLOGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Compreender a natureza e as características da função de habitar é de grande valia para aqueles que se interessam pelos assuntos humanos. É possível pensar a casa que abriga o homem e a mulher como um duplo da psique, na medida em que se podem reconstituir certos elementos da vida espiritual humana a partir de uma análise de seu habitat e das marcas inscritas nele ao longo do tempo. A casa possui a capacidade de materializar aspectos da mente e da existência humanas, ao torna-los sensíveis para aqueles que se empenham em decifrá-la: preserva vestígios do cotidiano e do jeito de ser do habitante mesmo tempos depois do ser humano em questão ter deixado de ocupar o espaço doméstico. Isso explica o porquê de tantas casas habitadas por pessoas célebres e importantes do passado virem a ser tombadas, transformadas em museus e locais de peregrinação. Aquele que visita à casa de alguém que admira, espera lá encontrar preservados alguns traços da pessoa admirada.&lt;br /&gt; É importante frisar que a função de habitar nem sempre se confunde com o ato de habitar a casa concretamente. Vai além dele, na medida em que não pressupõe a presença física e nem se reduz aos momentos em que efetivamente estamos habitando a casa: podemos exercer a função de habitar sonhando com uma casa que gostaríamos de ter, evocando uma casa passada que não existe mais ou compartilhando da experiência de alguém que habitou uma casa através de narrativas, filmes, histórias, etc. Desse modo, devemos entender a função de habitar como a faculdade do espírito humano responsável por tudo aquilo que se refere ao ser em seu espaço de intimidade: sejam as ações e sensações envolvidas nos atos de administrar, governar, gerir, desfrutar e “usar” a casa, sejam os devaneios, sonhos, recordações, narrativas ou pensamentos que evoquem o ser em seu espaço de intimidade ou tratem de aspectos da casa entendida como um arquétipo, ou seja, um ser constituído ao mesmo tempo por uma face concreta, visível, localizada no tempo e no espaço e uma outra face intangível, a qual muitas vezes nos remete ao imemorial e ao eterno.  &lt;br /&gt; Tratar dos aspectos sensíveis da casa e de como estes se transformam ao longo do tempo é tarefa para arquitetos, antropólogos e historiadores. Nesse tipo de estudo, caberia uma análise comparativa entre diferentes civilizações e épocas para se compreender como cada uma delas materializou, sob a forma de habitações, aspectos de seu imaginário, de sua organização social e de sua cultura, levando em conta fatores geográficos, tecnológicos, econômicos, climáticos e outros que possam vir a interferir na constituição da casa. Trataremos desses assuntos de passagem e somente a título de contextualização, já que o foco de nossas pesquisas é compreender a função de habitar sob a perspectiva do sujeito, ou seja, de como o habitante pensa, sonha, deseja, convive e cria raízes na casa. Entendida antes de tudo como um ser complexo e múltiplo, a casa também pode ser interpretada levando em conta suas implicações para a psicologia dos seres que a habitam – e é justamente isso que intentamos. Assim, buscaremos compreender a casa enquanto espelho da alma humana e pouca importância daremos às variáveis que distinguem uma casa da outra, buscando entre essas diferenças uma síntese capaz de dar conta da função universal de habitar.&lt;br /&gt;  Mas afinal: o que é a casa? Ou melhor dizendo em outras palavras: o que a casa significa? Como aprender a decifrá-la? Podemos olhá-la, fotografa-la, medi-la, toca-la, escuta-la, passear por ela, estudar sua história, seus diversos proprietários, seu projeto ou sua escritura, mas nada disso, por si só, responderá às questões colocadas acima. A primeira parte deste estudo se constituirá  de um breve apanhado histórico a respeito dos habitats humanos e suas transformações ao longo do tempo. A seguir, buscaremos definir o conceito de espaço da intimidade, recolhendo materiais da mitologia grega e da análise que Jean Pierre Vernant faz das figuras de Hermes e Héstia, duas divindades relacionadas, cada uma a sua maneira, ao espaço doméstico. Por fim, a discussão do que venha a ser a função de habitar se dará tomando como base estudos publicados pelo filósofo Gaston Bachelard em seu livro “A Poética do Espaço”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112178569477002910?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112178569477002910/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112178569477002910&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178569477002910'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178569477002910'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/07/da-funo-de-habitar-prlogo.html' title='DA FUNÇÃO DE HABITAR - PRÓLOGO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112178553579833446</id><published>2005-07-19T12:05:00.000-03:00</published><updated>2005-07-19T12:05:35.803-03:00</updated><title type='text'>DA FUNÇÃO DE HABITAR - I</title><content type='html'>I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A função de habitar precede a própria existência da espécie homo sapiens sapiens. Nossos antepassados, caçadores-coletores nômades, já se refugiavam em cavernas e outros abrigos naturais durante o período em que se estabeleciam num determinado local. Cada comunidade autônoma era responsável pela confecção de seus próprios utensílios e ferramentas, se valendo das matérias-primas disponíveis na região, em geral madeira, argila, pedra, palha, ossos e chifres. &lt;br /&gt; A revolução agrícola, que propiciaria o nascimento de uma humanidade sedentária, se deu por volta de 10.000 anos atrás, primeiramente na região de Jericó, na Cisjordânia, num grande oásis junto ao Mar Morto e depois se espalhou, através de difusão ou de movimentos independentes, para a Índia (há 8.000 anos), China (7.000), Europa (6.500), África Tropical (5.000) e Américas (4.500). Foi um processo longo e que não se deu da maneira uniforme e definitiva, num primeiro momento, como o uso dos termos “revolução agrícola” ou “revolução neolítica” faz supor: “Com o advento da agricultura, os grupos podiam ser maiores, desde que dentro de limites estabelecidos pela fertilidade do solo, quantidade de terra disponível e estrutura organizacional da tribo. Quando o crescimento do grupo entrava em contradição com qualquer um desses fatores, ocorria uma cissiparidade, procurando a tribo derivada - e às vezes até a de origem - outro local. Este processo intenso de subdivisões e deslocamentos iria provocar uma onda de difusão da agricultura e da atividade pastoril. Acredita-se, portanto, que durante muito tempo a atividade agrícola não fixou em definitivo o homem ao solo; apenas o deixou mais sedentário do que quando coletor e caçador”. &lt;br /&gt; Durante a pré-História surgem os primeiros monumentos e o homem começa a dominar a técnica de trabalhar as pedras. O nascimento da arquitetura está associado à idéia de abrigo. O abrigo, construção predominante nas sociedades primitivas, será o elemento principal da organização espacial de diversos povos. Este tipo de construção ainda pode ser observado em sociedades não totalmente integradas à civilização ocidental, como os povos ameríndios, africanos, aborígenes, etc. A presença do abrigo no inconsciente coletivo destes povos é tão forte que ela marcará a cultura de diversas sociedades posteriores: vários teóricos da arquitetura, em momentos diversos da história (Vitrúvio, na Antiguidade, Alberti na Renascença, Joseph Rykwert, mais recentemente) evocarão o mito da cabana primitiva. Este mito, variando de acordo com a fonte, conta que o ser humano recebeu dos deuses a sabedoria para a construção de seu abrigo, configurado como uma construção de madeira composta por quatro paredes e um telhado de duas águas.&lt;br /&gt; A necessidade de empenhar uma grande parte da força de trabalho da comunidade para realizar ações como construção de canais, diques, reservatórios de água e alimentos, é apontada como o fator mais importante para explicar o surgimento das primeiras cidades, no sul do Egito e na Mesopotâmia, há 5.000 anos. Aos poucos, surgem funções cada vez mais especializadas: guerreiros, administradores, sacerdotes e comerciantes, esses últimos sendo diretamente responsáveis pela difusão da urbanização no Oriente Próximo, ao estabelecerem redes comerciais e expandirem as culturas egípcia e mesopotâmica para regiões antes ocupadas por aldeias e tribos de agricultores e pastores. As principais construções remanescentes das civilizações egípcia e mesopotâmica são de caráter religioso: assim os templos babilônios conhecidos como zigurates (dos quais a Torre de Babel bíblica é um exemplo) e as famosas pirâmides do Egito, apontadas, já na Antiguidade, como uma das sete maravilhas do mundo. &lt;br /&gt; A arquitetura e o urbanismo praticados pelos gregos e romanos destacava-se bastante dos egípcios e babilônios, na medida em que a vida cívica passava a ganhar importância. A cidade tornara-se o elemento principal da vida política e social destes povos: os gregos desenvolveram-se em cidades-estado e o Império Romano surgiu a partir da expansão de uma única cidade. O arquiteto grego Hipódamo de Mileto é considerado o primeiro urbanista da história. Enquanto os povos anteriores desenvolveram apenas as arquiteturas militar, religiosa e residencial, os gregos e romanos foram responsáveis pelo desenvolvimento de espaços próprios à manifestação da cidadania e dos afazeres cotidianos: assim, a ágora grega definia-se como um grande espaço livre e público, destinado à realização de assembléias. &lt;br /&gt; Do ponto de vista da constituição dos espaços da intimidade, o surgimento das cidades e seu posterior desenvolvimento em Grécia e Roma foi um acontecimento capital. Se antes o habitat era sobretudo um refúgio contra as intempéries da natureza, com a urbanização o espaço da casa passa a ser considerado por oposição ao espaço público. Ainda que na Antiguidade não houvesse um sujeito autônomo e senhor de seus próprios destino e escolhas (tal qual se configurará na Modernidade), é durante esse período que assistimos ao nascimento da família e da propriedade privada. Do Egito e Mesopotâmia, passando pelos Gregos e chegando aos Romanos, podemos acompanhar o surgimento de instituições e práticas cada vez mais sofisticadas para garantir a diferenciação entre o que é próprio à comunidade como um todo e o que pertence ao grupamento familiar, destacado e isolado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112178553579833446?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112178553579833446/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112178553579833446&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178553579833446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178553579833446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/07/da-funo-de-habitar-i.html' title='DA FUNÇÃO DE HABITAR - I'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112178551340774464</id><published>2005-07-19T12:04:00.001-03:00</published><updated>2005-07-19T12:05:13.413-03:00</updated><title type='text'>DA FUNÇÃO DE HABITAR - II</title><content type='html'>II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na religião da Grécia Antiga, dois deuses eram celebrados dentro do espaço da casa: Héstia e Hermes. A primeira se confundia com a própria lareira-altar que se situava no centro de cada habitação, enquanto que o segundo estava localizado junto à porta que separava a casa do espaço público. Jean Pierre Vernant, em seu ensaio “Héstia-Hermes. Sobre a expressão religiosa do espaço e do movimento entre os gregos” analisa a relação entre essas duas divindades e sua importância para a concepção arcaica do espaço. Da nossa perspectiva, interessa sobretudo compreender que, na raiz da distinção das funções complementares de Héstia e Hermes, pode-se vislumbrar o que viria a ser a separação entre o espaço da intimidade (a casa) em oposição ao espaço público (a rua, o universo).  &lt;br /&gt; No início de seu ensaio, J.P. Vernant se debruça sobre a representação dos doze deuses que compõem o panteão grego, agrupados em casais, pelo escultor Fídias. O autor, a seguir, se debruça sobre um casal específico, Hermes e Héstia, que parece não obedecer à mesma lógica que preside o emparelhamento dos outros casais: não são marido e mulher (como Zeus e Hera, Posidão e Anfitrite), nem irmão e irmã (como Apolo e Ártemis), nem tampouco mãe e filho (como Afrodite e Eros), assim como não são protetora e protegido (como Atena e Héracles). Por que então agrupar Hermes e Héstia como um casal? “Não se poderia alegar uma fantasia pessoal do escultor. Quando executa uma obra sagrada, o artista antigo empenha-se em conformar-se a certos modelos: sua iniciativa se exerce no quadro dos esquemas impostos pela tradição”. Ficando descartada a hipótese de arbitrariedade do escultor, resta-nos buscar uma teoria capaz de explicar o agrupamento dessas duas divindades. “Héstia – nome próprio de uma deusa, mas também nome comum que designa a lareira, prestava-se menos que os outros deuses à representação antropomórfica. Raramente nós a vemos figurada. Quando ela é figurada, aparece frequentemente formando par com Hermes (...) A associação Hermes-Héstia, regular na arte plástica, reveste-se, pois, de um significado propriamente religioso. Ela deve exprimir uma estrutura definida do panteão grego”.&lt;br /&gt; Se são raras as representações de Héstia nas artes plásticas, mais raras ainda são suas aparições nas narrativas míticas. Isso se deve à sua imobilidade, já que a deusa permanece fixa no centro de cada lar, de cada cidade (a chamada Héstia comum) e do próprio Olimpo, assim como opta por manter-se em estado virginal. O que se conhece sobre ela e suas relações com Hermes se deve, em grande parte, aos poucos versos conservados do Hino Homérico a Héstia, o qual remonta ao século VIII a.C.. “Por duas vezes o poeta insiste nos sentimentos de amizade que Hermes e Héstia nutrem um em relação ao outro. (...) Essa afeição recíproca não se baseia nos laços de sangue, nem do casamento, nem de dependência pessoal. Ela corresponde a uma afinidade de função: as duas forças divinas, presentes nos mesmos lugares, desenvolvem lado a lado funções complementares. (...) Com efeito, tanto um como outro referem-se à extensão terrestre, ao hábitat de uma humanidade sedentária”.&lt;br /&gt; A associação de Héstia ao universo do lar nos parece bastante evidente. Situada “no meio do mégaron quadrangular, a lareira micênica, de forma arredondada, marca o centro do hábitat humano. (...) Fixada no solo, a lareira circular é como que o umbigo que enraíza a casa na terra. (...) Ponto fixo, centro a partir do qual o espaço humano se orienta e organiza, Héstia pode, para os poetas e filósofos, identificar-se com a terra imóvel no centro do cosmo”. Já Hermes está ligado ao hábitat humano e, de um modo mais geral, à extensão da superfície terrestre, de uma maneira diferente. Trata-se de um deus próximo, que freqüenta este mundo e serve de intermediário entre o Olimpo e os mortais. “Mas, se ele se manifesta assim na superfície da terra, se habita, com Héstia, as casas dos mortais, Hermes o faz à maneira de mensageiro, como um viajante que vem de longe e que já se apressa a partir. (...) Ele representa, no espaço e no mundo humano, o movimento, a passagem, a mudança de estado, as transições, os contatos entre elementos estranhos. Na casa, o seu lugar é junto à porta, protegendo a soleira, afastando os ladrões porque ele próprio é o Ladrão”. Resumindo: “a Héstia, o interior, o recinto, o fixo, a intimidade do grupo em si mesmo; a Hermes, o exterior, a abertura, a mobilidade, o contato com o outro. Pode-se dizer que o casal Hermes-Héstia exprime, em sua polaridade, a tensão que se observa na representação arcaica do espaço: o espaço exige um centro, um ponto fixo, com valor privilegiado, a partir do qual se possam orientar e definir direções, todas diferentes qualitativamente, o espaço porém se apresenta, ao mesmo tempo, como lugar do movimento, o que implica uma possibilidade de transição e de passagem de qualquer ponto a um outro”.&lt;br /&gt; Mais adiante, o autor se aprofunda na caracterização da polaridade expressa pela relação Hermes-Héstia: “o espaço doméstico, espaço fechado, com um teto (protegido), tem, para os gregos, uma conotação feminina. O espaço de fora, do exterior, tem conotação masculina. (...) Essa “permanência” de Héstia não é de natureza apenas espacial. Como ela confere a casa o centro que a fixa no espaço, Héstia assegura ao grupo doméstico a sua perenidade no tempo”.&lt;br /&gt; O ponto central da investigação de Jean Pierre Vernant está situado nas seguintes linhas: “em cada etapa da nossa análise, reconhecemos, entre o fixo e o móvel, o fechado e o aberto, o interior e o exterior, uma polaridade que não só é atestada no jogo das instituições domésticas (divisão das tarefas, casamento, filiação, refeição), mas que se inscreve até na natureza do homem e da mulher. Encontramos essa mesma polaridade, ao nível das forças divinas, em uma estrutura do panteão. Com efeito, nem Hermes nem Héstia podem ser colocados isoladamente. Eles assumem as suas funções sob a forma de um casal, a existência de um implicando a do outro, na qual ele repercute como a sua contrapartida necessária. Mais ainda, essa própria complementação das duas divindades pressupõe, em cada uma delas, uma oposição ou uma tensão interior que confere à sua personalidade de deus um caráter fundamental de ambigüidade”.&lt;br /&gt; Algumas páginas adiante, Vernant desenvolve esse tema da ambigüidade enraizada na personalidade de Héstia: “Para exercer sua função de força que confere ao espaço doméstico o seu centro, sua permanência, sua delimitação, Héstia, como já dissemos, deve enraizar a casa humana na terra. Tal é o significado da lareira micênica, esse altar-lareira fixo. Daí um aspecto propriamente ctônico na deusa “epictônica” que reside na superfície da terra. Por meio dela, a casa e o grupo familiar entram em contato com o mundo subterrâneo.(...) E há mais ainda. No mégaron micênico, a lareira circular soldada ao solo inscreve-se no centro de um espaço retangular delimitado por quatro colunas. Elevando-se até o alto da peça, essas pilastras dispõem no teto uma clarabóia aberta por onde sai a fumaça. Quando se queima o incenso na lareira, quando se consome a carne das vítimas ou se assa, durante a refeição, a porção dos alimentos consagrada aos deuses, na chama acesa sobre o seu altar doméstico, Héstia faz com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos. (...) Para o grupo doméstico, o centro que Héstia patrocina representa também, e solidariamente, o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”.&lt;br /&gt;Como pudemos perceber da análise comparativa entre Hermes e Héstia, a mitologia grego já fazia a distinção entre aquilo que no espaço é permanência e imobilidade daquilo que é movimento e transição. Mais tarde, diversos filósofos viriam a se ocupar dessas questões, tais como Anaximandro, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Zenão, Platão e Aristóteles – alguns tomando partido do movimento como o princípio fundamental de organização do espaço (é o caso de Heráclito), outros da permanência (Zenão, Parmênides) e outros ainda buscando uma síntese entre os dois princípios.&lt;br /&gt;Do ponto de vista de nosso estudo, o mais importante é perceber que, para os gregos, já havia a distinção entre o espaço privado, reservado à intimidade, cujos principais atributos são o fechado, o feminino, a sombra e a imutabilidade e o espaço público, caracterizado por elementos como o masculino, a luz do sol, a perpétua transformação e o aberto. No mundo clássico, a oposição já não era (como em sociedades mais primitivas) entre a casa e a natureza, mas sim entre a casa e a rua – ou seja, a diferenciação já não se dava mais entre o plano humano e o plano natural, mas entre um plano humano-familiar e um plano humano não-familiar. Tal caracterização persiste até os dias de hoje e é importante na medida em que impõe a cada grupamento familiar o dever de se diferenciar dos demais, os quais são vistos ora como concidadãos, aliados e companheiros, ora como competidores, hostis e estranhos. Para além da cultura comum que agrega todos os habitantes da polis sob os mesmos costumes, existem também elementos que caracterizam cada grupamento familiar em oposição aos demais. A partir daí, o espaço da intimidade se tornou cada vez mais reduzido e restrito às dependências da casa da família, ao mesmo tempo em que se tornou mais complexo e singular. Na modernidade, com a emancipação do sujeito burguês e a decadência da instituição familiar, tal processo viria a se intensificar ainda mais, de modo que hoje o espaço da casa se confunde cada vez mais com o espaço ocupado por um único indivíduo em sua solidão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112178551340774464?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112178551340774464/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112178551340774464&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178551340774464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178551340774464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/07/da-funo-de-habitar-ii.html' title='DA FUNÇÃO DE HABITAR - II'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112178547980538524</id><published>2005-07-19T12:04:00.000-03:00</published><updated>2005-07-19T12:04:39.810-03:00</updated><title type='text'>DA FUNÇÃO DE HABITAR - III</title><content type='html'>III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudar fenomenologicamente os valores de intimidade do espaço interior é a meta de Gaston Bachelard no capítulo “A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana”, contido no livro “A poética do espaço”. Para tanto, a casa é eleita como objeto privilegiado de pesquisa, desde que tomada em sua complexidade e em sua unidade, buscando integrar os valores particulares num valor fundamental: a função de habitar. “Através das lembranças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas em que já desejamos morar, podemos isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificativa para o valor singular que atribuímos a todas as nossas imagens de intimidade protegida? Eis o problema central”. Recusando o ponto de vista que toma a casa como mero objeto para uma descrição objetiva, o autor quer “encontrar a concha inicial em toda moradia, mesmo no castelo (...) A casa nos permitirá evocar luzes fugidias de devaneio que clareiam a síntese do imemorial e da lembrança. Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar”. Mais adiante, afirma que “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz” e, mais do que isso, “os lugares onde se viveu o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio”. Os aspectos acolhedor e centralizador da casa se expressam em passagens como: “a casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. (...) Antes de ser “atirado no mundo”, como o professam os metafísicos apressados, o homem é colocado no berço da casa”.&lt;br /&gt; Qual o papel dos espaços privilegiados que abrigam a intimidade para a constituição da memória? “É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas e se a casa se complica um pouco, se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. (...) Às vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando vai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. O espaço serve para isso. (...) Todos os espaços de nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são em nós indeléveis. E é o ser precisamente que não quer apagá-los. Ele sabe por instinto que os espaços da sua solidão são constitutivos. (...) Esses redutos têm valor de concha”.&lt;br /&gt; A seguir, Bachelard busca separar seu objeto de pesquisa daquele da psicanálise, afirmando que para esta última interessa, sobretudo, o ser que se projeta para fora de si mesmo e exterioriza sua intimidade, enquanto que para o primeiro, trata-se de flagrar o ser e o inconsciente “tranquilamente instalados”, desfrutando da intimidade em seu refúgio mais perfeito. “O inconsciente normal sabe estar à vontade em qualquer lugar. A psicanálise ajuda os inconscientes deslocados, inconscientes brutalmente ou insidiosamente deslocados. Mas a psicanálise prefere colocar o ser em movimento a tranqüilizá-lo. Ela convida o ser a viver fora dos abrigos do inconsciente, a entrar nas aventuras da vida, a sair de si. E, naturalmente, sua ação é salutar. Uma vez que também é preciso dar um destino de exterior ao ser do interior. Para acompanhar a psicanálise nessa ação salutar, seria preciso empreender uma topoanálise de todos os espaços que nos chamam fora de nós mesmos”. Porém, o autor reafirma que “é à região da intimidade que consagramos nossas pesquisas. Ao poder de atração de todas as regiões de intimidade. Não há intimidade verdadeira que afaste. Todos os espaços de intimidade se caracterizam por uma atração. Repitamos uma vez mais que seu ser é o bem-estar”.&lt;br /&gt; Na passagem seguinte, o autor se debruça mais atentamente sobre a evocação da casa natal pelo devaneio, não sem antes comentar a representação dos espaços de intimidade pela poesia e pela literatura. “Os valores de abrigo são tão simples, tão profundamente enraizados no inconsciente, que os encontramos mais facilmente por uma simples evocação do que por uma descrição minuciosa. (...) A casa primeira e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra. (...) Só eu, nas minhas lembranças de outro século, posso abrir o armário que guarda ainda, só para mim, o cheiro único, o cheiro das uvas que secam sobre a sebe. O cheiro das uvas! Cheiro-limite, é preciso muita imaginação para senti-lo. Mas já falei demais sobre ele. Se eu disser mais, o leitor não abriria, em seu quarto de novo revelado, o armário único, o armário com cheiro único, que assinala sua intimidade. Para evocar os valores da intimidade, é preciso, paradoxalmente, induzir o leitor ao estado de leitura suspensa. É no momento em que os olhos do leitor deixam o livro que a evocação do meu quarto pode transformar-se num limite de onirismo para outrem. (...) Há um sentido em dizer, no plano de uma filosofia da literatura e da poesia em que nos colocamos, que se “escreve um quarto”, que se “lê um quarto”, que se “lê uma casa”. Assim, rapidamente, desde as primeiras palavras, à primeira abertura poética, o leitor que “leu meu quarto” suspende sua leitura e começa a pensar em qualquer antiga morada. (...) Os valores de intimidade são tão absorventes que o leitor não lê mais meu quarto: revê o quarto dele”. &lt;br /&gt; O que é a casa natal? “A casa natal está fisicamente inscrita em nós. (...) As casas sucessivas que habitamos mais tarde tornaram banais os nossos gestos. Mas ficamos surpreendidos quando voltamos à velha casa, depois de décadas de odisséia, com que os gestos mais hábeis, os gestos primeiros fiquem vivos, perfeitos para sempre. Em suma, a casa natal inscreveu em nós a hierarquia das diversas funções de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa e todas as outras não são mais que variações de um tema fundamental. (...) A casa natal, mais que um protótipo de casa, é um corpo de sonhos. (...) Se damos a todos esses retiros sua função que foi abrigar sonhos, podemos dizer que existe em cada um de nós uma casa onírica, uma casa de lembrança-sonho, perdida na sombra de um além do passado verdadeiro. Essa casa onírica é, dizia eu então, a cripta da casa natal. (...) Para explicar, pela vida afora, nossa atração pela casa natal, o sonho é mais poderoso que o pensamento. (...) Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança, é viver na casa desaparecida como nós sonhamos. (...) Assim, além de todos os valores positivos de proteção, na casa natal se estabelecem valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais”.&lt;br /&gt; No trecho seguinte, Gaston Bachelard enuncia: “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. (...) Para por em ordem essas imagens, é preciso, acreditamos, enfocar dois temas principais de ligação: 1-) A casa é imaginada como um ser vertical. Ela se eleva. Ela se diferencia no sentido de sua verticalidade. 2-) A casa e imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade”.&lt;br /&gt;Para tratar do tema da verticalidade da casa, o autor se vale da polaridade que se estabelece entre o sótão e o porão: “pode-se opor a racionalidade do telhado à irracionalidade do porão. (...) O telhado revela imediatamente sua razão de ser: cobre o homem que tem medo da chuva e do sol. (...) Todos os pensamentos que se ligam ao telhado são claros”. Em contrapartida, o porão “é, em primeiro lugar, o ser obscuro da casa, o ser que participa das potências subterrâneas”. Mas adiante, o autor toma de empréstimo uma imagem de C. G. Jung, contida no livro O Homem na Descoberta de Sua Alma: “a consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se no porão”. Continuando com Bachelard: “no sótão, os medos se “racionalizam” facilmente. No porão, mesmo para um ser mais corajoso que o homem evocado por Jung, a “racionalização” é menos rápida e menos clara; não é nunca definitiva”. &lt;br /&gt;Adiante, o autor trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. (...) Nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. (...) A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. (...) À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”. &lt;br /&gt; O trecho final desse capítulo é dedicado à investigação da casa imaginada como um ser concentrado: “é preciso procurar na casa múltipla centros de simplicidade. (...) Em sua própria casa, na sala familiar, um sonhador dos refúgios sonha com a cabana, com o ninho, com os cantos em que gostaria de se encolher como um animal em seu buraco”. A seguir, o autor transcreve um trecho do livro Le Serviteur, de Henri Bachelin, que lança luzes sobre o tema da cabana inscrita na casa: “Eram horas em que com força, juro, eu nos sentia como que eliminados da cidadezinha, da França e do mundo. E eu me enchia de prazer – guardava para mim as minhas sensações – quando nos imaginava vivendo no meio dos bosques numa cabana de carvoeiros bem aquecida: eu gostaria de ter ouvido os lobos aguçarem as unhas no granito sem fim da soleira da nossa porta. Nossa casa fazia para mim as vezes de cabana. Nela eu me sentia seguro contra a fome e contra a sede. Se eu tremia, era só de bem-estar”. E Bachelard comenta: “a cabana, na página de Bachelin, aparece como a raiz que sustenta a função de habitar. Ela é a planta humana mais simples, aquela que não precisa de ramificações para subsistir. É tão simples que não pertence mais às lembranças, às vezes demasiadamente cheias de imagens. Pertence às lendas. É um centro de lendas. Diante de uma luz longínqua, perdida na noite, quem não sonhou com a palhoça, quem não sonhou, mais comprometido ainda com as lendas, com a cabana do eremita? (...) A cabana é uma solidão centrada. (...) Ela tem uma feliz intensidade de pobreza. A cabana do eremita é uma glória da pobreza. De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio”. E, tecendo considerações mais gerais sobre o devaneio e as imagens, acrescenta: “as grandes imagens têm ao mesmo tempo uma história e uma pré-história. São sempre lembrança e lenda ao mesmo tempo. (...) No reino da imaginação absoluta, somos jovens muito tarde. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo verdadeiramente, para vivê-lo na realidade de suas imagens, na sublimação absoluta que transcende qualquer paixão”. &lt;br /&gt; Das análises de Bachelard, é importante retermos cinco pontos fundamentais: &lt;br /&gt; 1-) a casa é um ser evocado e sonhado, logo não redutível a uma análise fria e racional;&lt;br /&gt; 2-) a casa é o espaço do refúgio, da intimidade e da solidão; do ponto de vista fenomenológico, seu ser é o bem-estar; &lt;br /&gt; 3-) todas as casas que habitamos ao longo da vida repercutem a casa natal e é a partir das lembranças oriundas dela que elaboramos a casa sonhada;&lt;br /&gt; 4-) A casa é imaginada como um ser vertical; &lt;br /&gt; 5-) A casa é imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade. &lt;br /&gt; Os pontos 4 e 5 nos remetem a dois temas que abordamos no primeiro capítulo, quando tratamos da figura de Héstia. Assim, a afirmação de Bachelard de que a casa é um ser vertical, desdobrada na análise que o autor faz do sótão e do porão, corresponde, em certo sentido, ao que Jean Pierre Vernant chamou de “caráter fundamental de ambigüidade” presente na figura de Héstia. Essa divindade, ao mesmo tempo em que permanece fixa e imóvel sobre a superfície terrestre, no centro da casa (ponto 5), atua também como o “o lugar de passagem por excelência, o caminho pelo qual se efetua a circulação entre níveis cósmicos, separados e isolados”, de um lado ligando a casa com as potências subterrâneas e “enraizando a casa no mundo” e de outro, fazendo com que as oferendas familiares subam até a morada dos deuses olímpicos, na forma da fumaça que sai da lareira (ponto 4). Sótão e porão, Olimpo e deuses ctônicos – a associação entre esses dois grupos de imagens, tiradas da mitologia grega e do que poderíamos chamar de uma filosofia da imaginação, nos leva a caracterizar a casa ao mesmo tempo como o refúgio, abrigo isolado que protege a solidão e o repouso, que confere um centro à existência humana e como o local privilegiado que une a superfície terrestre tanto ao mundo das profundezas subterrâneas, quanto ao mundo celestial, morada dos deuses. Não seria nenhum absurdo afirmar que a casa é dotada de um id e de um ego, assim como os seres humanos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112178547980538524?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112178547980538524/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112178547980538524&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178547980538524'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178547980538524'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/07/da-funo-de-habitar-iii.html' title='DA FUNÇÃO DE HABITAR - III'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112178544292041607</id><published>2005-07-19T12:03:00.000-03:00</published><updated>2005-07-19T12:04:02.923-03:00</updated><title type='text'>DA FUNÇÃO DE HABITAR - IV</title><content type='html'>IV&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; O capítulo seguinte do livro de Bachelard, “Casa e Universo” tem como propósito fundamental “ler” alguns quartos e casas escritos por grandes autores da literatura universal, embora também dê continuidade ao estudo de alguns dos temas presentes no capítulo anterior.&lt;br /&gt; Num dado trecho, o autor retoma a discussão da adequação de uma abordagem racional para se apreender a casa e relaciona as dimensões humanas às formas da casa: “com efeito, a casa é, à primeira vista, um objeto que possui uma geometria rígida. Somos tentados a analisá-la racionalmente. Sua realidade primeira é visível e tangível. É feita de sólidos bem talhados, de vigas bem encaixadas. A linha reta é dominante. O fio de prumo deixa-lhe a marca de sua sabedoria, de seu equilíbrio. Tal objeto geométrico deveria resistir a metáforas que acolhem o corpo humano, a alma humana. Mas a transposição ao humano se faz imediatamente, desde que se tome a casa como um espaço de conforto e intimidade, como um espaço que deve condensar e defender a intimidade. Abre-se então, fora de toda racionalidade, o campo do onirismo”. &lt;br /&gt; A problemática da dialética entre o castelo e a cabana é retomada na seqüência: “George Sand diz que se podem classificar os homens segundo queiram viver numa choupana ou num palácio. Mas a questão é mais complexa: quem tem um palácio sonha com uma choupana, quem tem uma choupana sonha com um palácio. Melhor, cada um de nós tem suas horas de choupana e suas horas de palácio. Descemos para morar perto da terra, sobre o solo da choupana e depois, em alguns castelos da Espanha, desejaríamos dominar o horizonte. E, quando a leitura nos deu tantos lugares habitados, sabemos fazer ecoar em nós a dialética da choupana e do castelo”.&lt;br /&gt; Na continuação, Gaston Bachelard fala a respeito dos “devaneios que acompanham a ação de governar a casa”. “Assim, quando um poeta limpa um móvel, quando põe um paninho de lã, que esquenta tudo que toca, um pouco de cera aromática em sua mesa, cria um objeto novo, aumenta a dignidade humana de um objeto, inscreve o objeto no estado civil da casa humana. (...) Os objetos assim acariciados nascem realmente de uma luz íntima; chegam a um nível de realidade mais elevado que os objetos indiferentes, que os objetos definidos pela realidade geométrica. Propagam uma nova realidade do ser. Tomam lugar não só numa ordem, mas numa comunhão de ordens. (...) Se vamos até o limite em que o sonho se exagera, sentimos uma espécie de consciência de construir a casa nos cuidados que temos em mantê-la em vida, em dar-lhe toda a claridade do ser. Parece que a casa luminosa de cuidados é reconstituída pelo seu interior, que é nova pelo interior”. E o autor evoca algumas passagens de Rilke que dizem respeito aos pequenos atos de limpar, conservar e arrumar a casa, se detendo longamente nas sugestões e devaneios suscitados por tal matéria. “Chegamos aqui ao paradoxo que tem o começo de uma ação muito costumeira. Pelos cuidados com a casa, é dada a casa não tanto a sua originalidade, mas sua origem. Ah, que vida longa se, na casa, cada manhã, todos os objetos pudessem ser refeitos por nossas próprias mãos, “sair” de nossas mãos!”.&lt;br /&gt; Finalizando esse capítulo, Bachelard nos conta algo a respeito dos desenhos de casa feitos por crianças: “toda grande imagem é reveladora de um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é um “estado de alma”. Mesmo reproduzida em seu aspecto exterior, fala de uma intimidade. Psicólogos, em particular Françoise Minkowska, e os trabalhadores que ela soube treinar, estudaram os desenhos de casa feitos por crianças. (...) Quando a casa é feliz, a fumaça alegre paira docemente sobre o telhado. Se a criança é infeliz, a casa traz a marca das angústias do desenhista. Françoise Minkowska expôs uma coleção particularmente comovente de desenhos de crianças polonesas ou judias que sofreram as sevícias da ocupação alemã durante a última guerra. A criança que viveu escondida, ao menor grito de alerta, num armário, desenha por muito tempo depois das horas malditas casas estreitas, frias e fechadas. (...) É medindo essas sutilezas que nos transformamos, como Françoise Minkowska, em psicólogo da casa”.&lt;br /&gt; Esse último parágrafo é especialmente importante, pois nos mostra a grande importância que a casa e tudo o que a ela se relaciona têm para a psicologia humana. As lembranças, representações, evocações, devaneios, projetos, sonhos e recordações ligados a casa constituem o que Bachelard chama de um “corpo de sonhos” e não há exagero nenhum em afirmar, como ele o faz, que sem a casa o homem seria “um ser disperso”. O poder de concentração e a noção de centralidade conferidos pela existência da casa na vida de todos nós, garantem que nosso ser permaneça íntegro e em harmonia com o cosmos, mesmo em meio às tempestades e catástrofes que ameaçam o processo de individuação e a própria existência. Mais do que isso: como afirmamos no prólogo, a casa pode ser imaginada como um duplo do homem, na medida em que, pela sua própria conformação e organização, é capaz de dizer algo sobre nós mesmos que jamais tomaríamos conhecimento de outra forma. Encontrar correspondências entre determinados lugares privilegiados da casa e elementos da nossa constituição psíquica, como fazem Bachelard e C. G. Jung ao comparar o sótão ao ego e o porão ao id, não é somente elaborar uma metáfora ou um modelo para se compreender a mente humana. Assim, podemos dizer que ao vasculhar os confins da mente humana, lá encontraremos imagens provenientes da casa, da mesma maneira que quando nos debruçamos sobre a casa, nos deparamos com elementos da mente humana. São grandezas intercambiáveis.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112178544292041607?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112178544292041607/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112178544292041607&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178544292041607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178544292041607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/07/da-funo-de-habitar-iv.html' title='DA FUNÇÃO DE HABITAR - IV'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-112178540877980285</id><published>2005-07-19T12:02:00.000-03:00</published><updated>2005-07-19T12:03:28.786-03:00</updated><title type='text'>DA FUNÇÃO DE HABITAR - EPÍLOGO</title><content type='html'>EPÍLOGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Numa das passagens do ensaio de Bachelard, o filósofo afirma que o surgimento das grandes metrópoles acarretou um decréscimo dos valores de intimidade. Retomemos o trecho, que trata das casas “oniricamente incompletas”: “Em Paris, não há casas. Em caixas superpostas vivem os habitantes da grande cidade: “Nosso quarto parisiense”, diz Paul Claudel, “entre suas quatro paredes, é uma espécie de lugar geométrico, um buraco convencional que mobiliamos com imagens, com bibelôs e armários dentro de um armário”. O número da rua, o algarismo do andar, fixam a localização de nosso “buraco convencional”, mas nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. “Sobre o solo, as casas se fixam com o asfalto para não afundarem na terra”. A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. Da calçada até o teto, os cômodos se acumulam e a tenda de um céu sem horizontes encerra a cidade inteira. Os edifícios só têm na cidade uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já quase não há mérito em morar perto do céu. E o em nossa casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta aos diferentes cômodos um abrigo num canto do andar, um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores de intimidade. À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmicidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados”.&lt;br /&gt; Diante dos obstáculos enumerados por Bachelard, coloca-se a questão: como estabelecer e criar espaços de intimidade numa metrópole? Será que seremos obrigados a recorrer aos livros e ao pouco que restou das residências do passado e da zona rural para empreender nossos devaneios e sonhos da casa? Sabemos que a exigüidade de espaços para grandes construções e o alto valor dos terrenos nas grandes cidades inviabilizariam qualquer tentativa de retorno à arquitetura de casas com porão, sótão, quintal, jardim, escadarias e longos corredores. E ainda mais preocupante do que isso: nos dias de hoje o espaço da intimidade se vê cada vez mais invadido por aparelhos e tecnologias que prometem trazer o mundo para dentro de casa, como o rádio, o jornal, a televisão e a internet. É comum as pessoas realizarem suas refeições diante da TV e a decadência da instituição familiar pode ser auferida a partir de qualquer estatística que mostre o crescimento vertiginoso do número de divórcios. O panorama, para os defensores do valor dos espaços de intimidade, é definitivamente desalentador.&lt;br /&gt; Mas existe uma outra face dessa questão. Parece consenso entre uma corrente de sociólogos que o tempo gasto pelos seres humanos com atividades relacionadas ao trabalho tende a diminuir no futuro – o que implicaria num acréscimo de tempo dedicado a atividades de construção dos espaços de intimidade. Outro fenômeno bastante atual é o loft: trata-se de uma edificação que conjuga o espaço doméstico ao espaço de trabalho, o que evita o desgaste causado pelos longos deslocamentos automobilísticos tão comuns nas metrópoles. O conceito de loft surgiu nos Estados Unidos, quando alguns artistas optaram por alugar antigos galpões para transformá-los em moradias e ateliês. Não que o loft seja um caminho para se retomar os valores perdidos dos antigos espaços de intimidade: pelo contrário, o que seu conceito propõe é uma reavaliação da idéia de intimidade levando em conta parâmetros dos dias de hoje. &lt;br /&gt; E se durante o século XX vimos os chamados eletrodomésticos tomarem conta das habitações, povoando-as de máquinas, luzes, fios, plástico e metal, hoje já se nota a preferência de boa parte dos consumidores por objetos que carreguem em si marcas humanizadoras, dotados da aura e da beleza que falta inteiramente aos utensílios high-tech. E certamente povoar nossa casa com objetos mais humanos é uma forma de erigir nosso espaço de intimidade como uma barreira frente à onipresença das máquinas que ameaçam nos transformar em coisas e dos noticiários e estatísticas que nos reduzem a números e casos particulares. Acreditamos que cada ser humano é único e insubstituível: assim devem ser também nossas casas e os objetos que a povoam, seja no nosso dia-a-dia, em nossos devaneios ou em nossos sonhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-112178540877980285?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/112178540877980285/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=112178540877980285&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178540877980285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/112178540877980285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/07/da-funo-de-habitar-eplogo.html' title='DA FUNÇÃO DE HABITAR - EPÍLOGO'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111997950105586963</id><published>2005-06-28T14:24:00.000-03:00</published><updated>2005-06-29T16:38:52.546-03:00</updated><title type='text'>LAR</title><content type='html'>Ao redor do fogo, cercado por paredes, coberto por um teto: o lar. Verdadeiro refúgio num mundo hostil, garantia de que todas as ameaças permaneçam trancadas para o lado de fora – nos primórdios eram os animais selvagens e as catástrofes da natureza, hoje são os outros homens, o barulho da cidade, os automóveis. Habitar um lar é dotá-lo de personalidade, fazer de uma casa qualquer a sua casa específica, dar cara e voz para os objetos inanimados e para os cantos e espaços mais escondidos. Habitar é preencher. Povoar a casa com meus objetos: essa minha vida que cabe nessas tantas caixas de papelão. Objetos que também contam a minha história da mesma forma que a soma de todas as casas que morei: são presentes, achados e escolhas que semeiam lembranças de tudo aquilo que eu fui e que vim a me tornar.&lt;br /&gt; Me deito sobre o chão e sinto que esses objetos querem me dizer algo. Essa mesa grande e antiga que passou por outras tantas casas e absorveu de cada pessoa que um dia se sentou ao seu redor (para comer, escrever ou jogar cartas) alguma coisa de indefinível, mas palpável. Essa mesa que me olha com autoridade e parece querer me dizer que é capaz de resistir e durar muito mais do que esses frágeis e apressados humanos que se servem dela sem lhe render as devidas homenagens. No máximo um banho de lustra-móveis uma vez por semana. Me aproximo e a toco, observo detalhes na madeira que nunca tinha visto, a olho de baixo, subo e me deito sobre ela: a mesa. Dialogo com ela, pergunto sobre seu passado de árvore, os tempos de madeireira, de vitrine de loja, quero saber das crianças que desenhavam e dos objetos que com ela conviveram mais intimamente. Será o verniz que te faz tão macia? Ou a velhice que te deixou tão rígida? Encosto meu rosto sobre o tampo e apalpo com meus dedos os caminhos abertos pelos nós da madeira. Logo mais ela se cala, estática e ereta.&lt;br /&gt; No canto da sala, o pobre criado-mudo – em cima dele o abajur. Na parede, os quadros abstratos não me mostram paisagens. Uma mulher esteve aqui. Sobre a mesinha repousam estatuetas, máscaras, castiçais, flores, pequenos animais de vidro, um incenso apagado, representações vulgares de deuses hindus. Dois sofás dispostos em L, no centro um tapete e sobre o tapete um pufe. Mais além o aparelho de som, o dvd, a televisão – encaixados e dispostos de um jeito que destoa do restante do aposento. Não sou de vasculhar gavetas. Gosto da cor e do tecido das cortinas, do porta-chaves pregado na parede e do capacho escrito “bem-vindo”. No mais são só almofadas, de diversas cores, formatos e tamanhos. &lt;br /&gt; Me aquieto e fico a escutar a sala. Habitar é usar – pensar e conversar podem nos levar longe demais. A garantia de intimidade e conforto vem do domínio dessa linguagem silenciosa e oblíqua que não pára nem diz, simplesmente faz. Me recuso a evocar lembranças, desisti de saber de mim pelos outros – quero me apegar aos cheiros, as formas, as cores, as marcas do tempo e do desgaste engastados nessas coisas que me cercam num afago familiar, mas não dramático. Os objetos ao meu redor desconhecem a precariedade do universo humano feito de maquiagem e teatro. Existem, são úteis na medida do possível e isso basta.&lt;br /&gt; Sou feito de recortes e retalhos. Das coisas que compro, das coisas que escolho, das coisas que guardo com carinho e só mostro pra pessoas especiais em ocasiões de gala. Receber alguém em casa é como se despir: mostramos partes de nós mesmos que ficam ocultas para o mundo. É preciso saber receber presentes, saber dispor os objetos com proporção e método, de modo que eles sejam fiéis à anatomia do meu espírito e digam algo de novo para as pessoas. Que os pobres objetos sussurrem para quem ousar profanar meu recinto sagrado: EU ESTOU AQUI EM TODAS AS PARTES.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111997950105586963?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111997950105586963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111997950105586963&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111997950105586963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111997950105586963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/06/lar.html' title='LAR'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111842382680478442</id><published>2005-06-10T14:16:00.000-03:00</published><updated>2005-06-10T14:17:06.810-03:00</updated><title type='text'>NOVIDADES</title><content type='html'>Gilberto esqueceu de acordar de manhã. Maria Cláudia sabia de tudo desde o começo, mas preferiu omitir certas passagens picantes da narrativa para não molestar a saúde frágil do velho patriarca. Luis Flávio comprou um par de algemas, duas caixas de calcinhas comestíveis, um pote de cinco litros de gel ky, inúmeras camisinhas com sabores sortidos de frutas e um par de óculos com lentes cor-de-rosa. Samara percorreu setenta e dois quilômetros montada no lombo de um jumento só para ser a primeira a chegar à grande liquidação de queima de estoques das casas afonso josé. Quinze manifestantes palestinos foram presos quando faziam algazarra e guerra de comida dentro da praça de alimentação de um shopping center de São Paulo. O avô da senhorita Cathy teve alta do pronto-socorro após engolir um coelho vivo. Maria Cláudia não está, pois foi fazer depilação com cera quente e tratar da cutícula infeccionada. Leonardo Braga arrematou uma cobertura com heliponto nos jardins após fazer um lance que deixou todos na sala de leilão boquiabertos: quatrocentos e vinte e sete milhões trezentos e vinte e dois mil e quarenta e sete reais à vista. E quinze centavos, fora a caixinha. Um amigo meu que mora na Bahia perdeu as chaves do apartamento e teve que dormir na casinha do cachorro. A Coréia do Norte foi parar no meio do oceano índico após uma revisão nos atlas da sociedade britânica de geografia política e terrorismo. A literatura universal completou ontem seis mil, oitocentos e vinte e três anos de idade em grande estilo, numa festança que se estendeu madrugada a dentro e reuniu a nata da marginalidade suburbana numa casa de massagens na rua augusta, esquina com a )...(. Maria Cláudia arremessou o telefone celular no vaso sanitário após uma crise de histeria. Gilberto se esqueceu dos compromissos do período vespertino e preferiu continuar a dormir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111842382680478442?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111842382680478442/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111842382680478442&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111842382680478442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111842382680478442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/06/novidades.html' title='NOVIDADES'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111841552268638589</id><published>2005-06-10T11:58:00.000-03:00</published><updated>2005-06-10T11:58:42.693-03:00</updated><title type='text'>A INTRÉPIDA FAMÍLIA</title><content type='html'>A família toda reunida para o jantar, coisa que não acontecia desde o enterro de tia Ildegarda e acho que isso foi em 91, se não me engano. A mais velha das filhas, Elizabete, foi morar nos Estados Unidos e era a primeira vez que voltava para o Brasil – pelo menos era o que o pai pensava – e o Joca, sobrinho da Rute, dava risadinhas para o primo quando a Bete se punha a falar daquele jeito engraçado, com um sotaque esquisito, puxando todos os erres e colocando as palavras mais estranhas no meio das frases mais triviais:&lt;br /&gt;- Como é mesmo que chama aquele negócio que a gente põe no coffe pra ficar doce?&lt;br /&gt;O cachorro não dava sossego para a avó, se esfregando pelas pernas dela com o rabo como se fosse um gatinho siamês. O tio Wilson, como sempre, implicava com a televisão e dizia todo bravinho que não tinha cabimento todos desperdiçarem a primeira (e talvez a última) oportunidade de se encontrarem depois de quase vinte anos assistindo essas porcarias de programas de auditório. A avó não escutava, mas Rute respondia que ele era um exagerado, ora essa, afinal não tinha nada demais e ajudava a distrair as crianças e além do mais daqui a pouco ia começar o seriado que a avó gostava de assistir, aquele com o homem que tinha uma capa azul e uma mulher que ficava invisível. E a mãe logo vinha correndo lá do fogão com o avental todo desbotado, empunhando uma escumadeira e querendo apartar toda e qualquer rusga que pudesse comprometer o sucesso daquele almoço, que um dia antes ela qualificara com o adjetivo de histórico. Mas no que ela virava as costas, as piadinhas todas voltavam.&lt;br /&gt;Rubens lia o jornal e fazia caretas para as notícias de economia, as crianças corriam atrás do cachorro tentando grudar um pedaço de fita crepe no rabo dele e o pai fumava cachimbo e tentava atrair a atenção do tio Wilson com comentários sobre a última rodada do futebol. O marido da Rute quis se meter no meio deles, mas o pai não levava minimamente a sério suas opiniões – o marido da Rute era palmeirense roxo e não tinha nenhum interlocutor para assuntos futebolísticos naquela sala de jantar que parecia pequena demais pra tanta gente ali naquele momento. Os homens se serviram de um aperitivo: vodca sem limão e uns canapezinhos para beliscar enquanto a comida não saía. O Joca-sobrinho-da-Rute reclamava para todas as mulheres da sala que estava com fome, mas não tinha coragem de ir até a cozinha e expor seu drama diretamente à mãe. Ninguém tinha pena dele e depois de insistir (mas nem tanto assim) desistiu e foi olhar a sessão de quadrinhos do jornal.&lt;br /&gt;Elizabete se queixou do calor. Rubens se queixou do dólar. Tio Wilson reclamou da zaga do Corinthians. A Rute, coitada, teve que repreender o sobrinho duramente em público pela oitava vez em menos de vinte minutos porque ele queria jogar os bibelôs da avó dentro do aquário. O pai não se queixava de nada específico, mas fazia cara feia cada vez que alguém falava alguma coisa sem esperar o consentimento dos olhos e do intelecto privilegiado dele. O primo do Joca queria puxar o pano que cobria a mesa sem derrubar os copos nem os pratos, que nem ele tinha visto num filme na noite anterior. A mãe queimou o dedo de leve na panela de arroz.&lt;br /&gt;E o almoço, enfim, foi servido.&lt;br /&gt;Almoço não: jantar.&lt;br /&gt;Durante a entrada, Elizabete teve um infarto e quatro pessoas se encarregaram de tentar reanima-la e leva-la com vida até o hospital mais próximo, que na realidade ficava bem longe. As crianças, depois de uma meia-hora, foram as primeiras a sentirem os sintomas da intoxicação alimentar. Tio Rubens morreu ali mesmo na rede, cochilando e ninguém nem deu bola até o dia seguinte. A Rute, coitada, pegou uma infecção hospitalar nisso de levar a Elizabete e depois já voltar, pegar as crianças, ir pro hospital de novo, perceber que não tem mais vagas, ir pra outro hospital ainda mais longe, etc. A mãe morreu de desgosto umas poucas horinhas depois e o cachorro fugiu pelo portão da frente, que ficou aberto no meio daquela correria toda. A avó morreu de causas naturais, segundo o relatório do médico legista.&lt;br /&gt;E o pai, verdadeiro herói grego, herdou todos os bens da família: quatro notas promissórias e a conta de tantos caixões, velórios e jazigos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111841552268638589?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111841552268638589/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111841552268638589&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111841552268638589'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111841552268638589'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/06/intrpida-famlia.html' title='A INTRÉPIDA FAMÍLIA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111470663458971723</id><published>2005-04-28T13:41:00.000-03:00</published><updated>2005-04-28T13:43:54.590-03:00</updated><title type='text'>Encontros Improváveis</title><content type='html'>Encontros improváveis: da janela do meu msn te vejo peladinha derramando iogurte desnatado sobre certos pêlos que se confundem com as estampas traiçoeiras do sofá, cantando uma antiga balada provençal que eu te ensinei numa noite dessas de bebedeira sem fim pelas ruas mais negras do quase-centro de são paulo. Em vão eu vomito caracteres e dedilho meu mouse querendo chamar sua atenção. Como você mesma me ensinou num desses domingos cor de açafrão de miséria e ressaca, para mulheres como você a questão não se resume a saber teclar um botão. São todas essas palavras inúteis que não se confundem com nossos gestos e na hora H geram toda aquela confusão: falar pra quê?  Inútil eu ficar te olhando e desejando esses pontos luminosos sobre a tela, mais vale a modelo nua do que o pintor com a brocha na mão. Só te peço duas coisas por hoje: uma filha menina com o seu jeito safada-mas-santinha de olhar e que, pelo amor de D, você jogue essa webcam no chão (nada mais cruel prum homem do que ficar iludindo com miragens essa louca tentação).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111470663458971723?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111470663458971723/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111470663458971723&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111470663458971723'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111470663458971723'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/04/encontros-improvveis.html' title='Encontros Improváveis'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111384704592203852</id><published>2005-04-18T14:56:00.000-03:00</published><updated>2005-04-18T15:54:54.500-03:00</updated><title type='text'>Gramado e piscina</title><content type='html'>Gramado e piscina (valem mais que um jardim nos jardins): crianças, nada de jogar bituca de cigarro no chão. Uma ponta ou outra, ok, afinal papel de seda é biodegradável. Eu pelo menos degrado umas várias por noite de balada. Latinhas, latinhas, latinhas que se juntar tudo valem uma puta grana. Ou não. Vale mais o líquido dentro do corpo, se acumulando mais de um lado que do outro, quem sabe por isso que eu tombo e tropeço e tropico tanto quando ando cambaleante em direção ao isopor. Como assim não tem mais uma? Sempre tem mais (bocas). E pelas bocas e bocadas é que nós vivemos e bebemos e nos batemos e beijamos. Sim, podis crer. Bebeijamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111384704592203852?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111384704592203852/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111384704592203852&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111384704592203852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111384704592203852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/04/gramado-e-piscina.html' title='Gramado e piscina'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111367632753262827</id><published>2005-04-16T15:31:00.000-03:00</published><updated>2005-04-16T15:32:07.533-03:00</updated><title type='text'>Vila das Marias e Madalenas</title><content type='html'>Vila das Marias e Madalenas, pontuais penteadas aos bandos, tantas mesas feitas de calçada, alegria feita de vinho e os outros tantos engradados (engraçados) de cervejas esquecidas de pagar, penduradas insuspensas debaixo de qualquer cadeiramesa plástica pixada qual a parede oblíqua de um banheiro improvisado entre os fumadores de beques e pontas e meias camisa dez escorre o líquido mijosanguebrejaporrababa. Alucinígenas.&lt;br /&gt; É, nada além de uma mesma sexta-feira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111367632753262827?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111367632753262827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111367632753262827&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111367632753262827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111367632753262827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/04/vila-das-marias-e-madalenas.html' title='Vila das Marias e Madalenas'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111142523328765199</id><published>2005-03-21T14:12:00.000-03:00</published><updated>2005-03-21T14:19:30.593-03:00</updated><title type='text'>Receita de Milênio</title><content type='html'>É preciso confiar menos nos cálculos&lt;br /&gt;Não inferir verdades de gráficos e estatísticas&lt;br /&gt;Ler menos jornal, deixar de freqüentar a igreja&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É preciso escutar menos os professores&lt;br /&gt;Não se deixar enganar pelo encanto da publicidade&lt;br /&gt;Ir menos ao shopping, andar mais a pé&lt;br /&gt;Comer menos comida pronta, parar de olhar tanto pro espelho&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É preciso desconfiar dos médicos, tomar menos cuidados&lt;br /&gt;Anular seu voto, abandonar o emprego&lt;br /&gt;Dar mais ouvidos ao que dizem as crianças&lt;br /&gt;Rasgar dinheiro, apedrejar agências bancárias&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É preciso lutar contra a fabricação de armas de fogo&lt;br /&gt;Pela desmobilização dos exércitos e contingentes policiais&lt;br /&gt;Abolir fronteiras, demolir muralhas, facilitar acessos&lt;br /&gt;Acabar com o sistema judiciário e com a democracia representativa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso ser menos obsessivo, menos compulsivo&lt;br /&gt;Menos mesquinho e menos autoritário com nossos parceiros&lt;br /&gt;Aprender a lição do amor que não é posse&lt;br /&gt;Em busca de algum valor humanista no embate diário contra a barbárie&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111142523328765199?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111142523328765199/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111142523328765199&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111142523328765199'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111142523328765199'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/03/receita-de-milnio.html' title='Receita de Milênio'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111142423117269238</id><published>2005-03-21T13:55:00.000-03:00</published><updated>2005-03-21T13:57:11.173-03:00</updated><title type='text'>No mundo de hoje</title><content type='html'>No mundo de hoje&lt;br /&gt; A Razão só existe como racionalização:&lt;br /&gt; As velhas e as novas desculpas&lt;br /&gt; Embora a culpa não seja nem do pensamento &lt;br /&gt;                                nem da linguagem&lt;br /&gt; Mas no que eles têm de limitado e de redução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os cientistas querem ver no raciocínio abstrato o grande ápice da evolução&lt;br /&gt; Mas a gente que aprendeu do poeta sabe&lt;br /&gt; Que existe o reverso sombrio em cada boa intenção&lt;br /&gt; O irracional é a madeira podre e a razão é o verniz&lt;br /&gt; De nada valem doutorados e tecnologias sofisticadas&lt;br /&gt; Se a ciência só faz fomentar miséria e alienação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; No plano pessoal, fechamos os olhos e nos enganamos voluntariamente&lt;br /&gt; E das esferas coletivas nos omitimos desde sempre&lt;br /&gt;        - Ah, como o ser humano gosta de ser pisado!&lt;br /&gt;        - E viva o mercado e viva o ministério da boa educação!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111142423117269238?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111142423117269238/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111142423117269238&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111142423117269238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111142423117269238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/03/no-mundo-de-hoje.html' title='No mundo de hoje'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-111108212718072597</id><published>2005-03-17T14:47:00.000-03:00</published><updated>2005-03-21T14:16:21.016-03:00</updated><title type='text'>MANIFESTO, O FILME</title><content type='html'>Teatro filmado.&lt;br /&gt; Calcado no exagero e na poesia.&lt;br /&gt; O grotesco dos berros despropositados, vida que pulsa para além do aparato, cenas gigantes que não cabem no olho da câmera.&lt;br /&gt; A falta de acabamento e precisão apontando para aquilo que não tem medida nem fim.&lt;br /&gt; O lugar do feio, da dicção confusa e truncada, da fala errada sem ninguém pra editar.&lt;br /&gt; O vídeo caseiro, a webcam e as filmagens de batizado e casamento.&lt;br /&gt; Experimentar o tremor do cinegrafista e se regozijar no que não foi filmado mas estava logo ali ao lado.&lt;br /&gt; Multidão, bagunça e auê.&lt;br /&gt; Político e jocoso.&lt;br /&gt; A busca do momento que não se repete, lamento monótono da arte.&lt;br /&gt; O ato de filmar em primeiro lugar.&lt;br /&gt; O filme pronto e o bem-estar do telespectador em último.&lt;br /&gt; Rompendo o tecido do bom-gosto só pra não perder a piada.&lt;br /&gt; O trash com conteúdo.&lt;br /&gt; O prazer de estar junto e fazer arte do happening, da balada e das estréias na vida.&lt;br /&gt; Teatro falado mas bem feito.&lt;br /&gt; Mal filmado mas direto ao ponto.&lt;br /&gt; A poesia, o teatro e o cinema em pé de igualdade no filme.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-111108212718072597?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/111108212718072597/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=111108212718072597&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111108212718072597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/111108212718072597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/03/manifesto-o-filme.html' title='MANIFESTO, O FILME'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-110961297649472436</id><published>2005-02-28T14:48:00.000-03:00</published><updated>2005-02-28T14:49:36.500-03:00</updated><title type='text'>O BRASIL E A VIOLÊNCIA</title><content type='html'>O discurso sobre a violência é hegemônico em nossos dias. Domina a retórica dos políticos de todos os partidos, as páginas dos jornais, a ação das ONGs, a conversa dos pastores, das donas de casa e mesmo o imaginário dos cineastas; influencia até na escolha do lugar onde o cidadão almeja morar: os objetos de desejo nos dias de hoje são carros blindados e mansões de muros altos em condomínios fechados protegidas por mercenários muito bem armados.&lt;br /&gt; Porém, quando invoca a violência como justificativa para tais atos insanos de paranóia e auto-defesa, o brasileiro médio faz uso de uma fraseologia oca, bastante cara às camadas dominantes do país, a qual supõe o comportamento violento como algo inerente e exclusivo a determinados maus indivíduos. Um grupo, aliás, não muito fácil de definir, já que nem todos são oriundos da miséria, tiveram poucos anos de escolaridade ou uma estrutura familiar precária. Genericamente denominados como bandidos e marginais, esses “outros” seriam em tudo distinto de “nós”, cidadãos de bem. Embora não sejam os únicos responsáveis pela onda avassaladora de violência que assola a cidade e o campo, são de fato os únicos que podem ser culpados e presos, já que não convém supor que fatores abstratos, tais como a desigualdade social e a falta de educação, cultura e infra-estrutura material, possam ser resolvidos da noite para o dia (aliás, esses fatores são vistos em nosso país mais como fenômenos da natureza do que como assuntos pertinentes aos políticos, juizes, desembargadores e policiais).&lt;br /&gt; Tal raciocínio simplista mascara o fundamental: em nosso contexto histórico e social, a violência não é uma disputa de faroeste entre mocinhos e bandidos, mas sim a face mais visível de um enfrentamento de classes inconciliáveis e antagônicas, o qual se perpetua e renova desde as primeiras tentativas de expandir a civilização européia para este continente. É a velha história: de um lado, o punhado de possuídos com todo o aparato de um estado feito desde sempre por e para eles, além de um vasto arsenal bélico e ideológico de dominação, que vai da polícia e da justiça até o sistema educacional e a novela das oito. Do outro lado, nos deparamos com a massa de despossuídos, que conta com pouco mais do que seu instinto abnegado de sobrevivência e a força de ser uma gigantesca maioria, da qual os movimentos situados na outra margem da lei, como o tráfico de drogas e o MST, recrutam seus pequenos exércitos subversivos.&lt;br /&gt; Uma luta desigual e com resultados previsíveis, mas que nem por isso deixa de ser travada diariamente, inclusive porque a dominação de classes precisa ser reafirmada a cada instante num ambiente hostil como o terceiro mundo, no qual a ordem capitalista e a correspondente ideologia burguesa (que hoje atende pelo nome de instituições democráticas), nunca se consolidaram plenamente e sem contestação.&lt;br /&gt; Desse modo, podemos compreender a violência, para além da esfera jurídica e individual estabelecida, como o produto de um embate entre sujeitos históricos coletivos, que se dá nos mais variados campos da sociedade civil. A proliferação das relações humanas pautadas pelo autoritarismo e pela vontade de poder sádica e ilimitada, é um sintoma que pode ser verificado não só na esfera do trabalho e da política, mas também na família, nas relações amorosas, no convívio entre vizinhos, na arquitetura da exclusão que monopoliza a paisagem dos grandes centros urbanos, na indústria cultural e do lazer, no sistema educacional, na mídia, nas relações entre cidadão e estado intermediadas por uma monstruosa burocracia, nas seitas, nas igrejas, na relação do homem com o meio-ambiente e praticamente em qualquer outro nicho social para o qual voltemos nossa atenção.&lt;br /&gt; Assim, chegamos a uma definição de violência bastante próxima daquela proposta pela filósofa Marilena Chauí: violento é o comportamento que transforma o outro em objeto e lhe nega a autonomia de agir como um sujeito livre. Disseminado por todos os indivíduos  e presente nos menores atos cotidianos, o mal não pode ser identificado como um atributo exclusivo de um determinado grupo, que deve ser trancafiado em penitenciárias para expurgar o corpo social dos seus elementos nocivos. Devemos transferir o problema do mal da esfera da moral para a esfera da política, esta última entendida aqui como a arena dos debates públicos e de largo alcance e não como a comédia parlamentar-presidencialista-democrática encenada a cada quatro anos pelos eleitores para consolidar e legitimar uma ordem já de antemão estabelecida.&lt;br /&gt; Tratar do problema com aqueles que se guiam pela religiosidade cega é mais complicado. De nada valem argumentos racionais para quem se orienta pelo irracional e pela revelação divina intermediada pelos pastores, médiuns e padres e que crêem sinceramente que o Mal é um problema relacionado com a influência do Demônio nesse planeta tão mal-criado por Deus. Aqui não vejo outra solução a não ser o enfrentamento aberto e escancarado: iluminismo ou morte.&lt;br /&gt; Politizar o discurso da violência, de um modo que ele possa acolher suas diferentes nuances e modalidades, é desmascarar ideologias e inventar alternativas novas para organizar os homens e mulheres em sociedade. Não abriremos mão de nossas utopias de igualdade, justiça social, liberdade e não-violência. O discurso do conformismo e do fim da história, que sempre caíram tão bem para os poderosos e estão muito em voga desde 1989, não se sustentam quando defrontados com uma análise racional honesta e que leve em conta a urgência dos fatos que maltratam nossos olhos cada vez que damos dois passos pela calçada e nos deparamos com a miséria humana espalhada por todos os lados. A história evolui em espirais e em breve a energia vital represada pela violência de cima para baixo pode de explodir numa convulsão social que derramará muito sangue. E não é isso o que queremos para o nosso futuro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-110961297649472436?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/110961297649472436/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=110961297649472436&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/110961297649472436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/110961297649472436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/02/o-brasil-e-violncia.html' title='O BRASIL E A VIOLÊNCIA'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-110883500345799891</id><published>2005-02-19T15:42:00.000-02:00</published><updated>2005-02-19T17:58:58.563-02:00</updated><title type='text'>O Deserto</title><content type='html'>Mais três passos e eu vou cair – foi o que ela pensou assim que cruzou a linha que dividia o deserto ao MEIO. O céu de puro azul que ocupava exatamente metade do seu campo de visão muito pouco significava no instante em que se ouviu o primeiro disparo, mas pouco a pouco ele passou a se tingir das cores mais improváveis – única testemunha, embora incapaz de ver, das asas do anjo que estrebuchava vermelho ali no chão. O crime sim era um desfecho razoável para a vida dela, que terminara ali: três passos adiante. A morte nivela tudo por baixo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-110883500345799891?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/110883500345799891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=110883500345799891&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/110883500345799891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/110883500345799891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/02/o-deserto.html' title='O Deserto'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10448792.post-110856754101323873</id><published>2005-02-16T13:24:00.000-02:00</published><updated>2005-02-16T13:25:41.016-02:00</updated><title type='text'>Havia flores no quarto</title><content type='html'>Havia flores no quarto, pétalas brancas se esparramando pela cama, refletindo suaves as luzes foscas do abajur. Os instrumentos de sopro, a percussão leve ao ritmo do vento, o laranja apocalíptico do céu noturno da cidade grande: a janela abria, fechava, rangia em suas juntas velhas, perdida toda memória da infância. A blusa azul que vestia a cadeira, inquieta girando a bailarina do quadro na parede, suja das manchas de vinho no tapete. O cigarro repousava no cinzeiro. E os livros que se quedavam mudos nas estantes dialogavam telepaticamente com os discos na vitrola. O homem estava morto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10448792-110856754101323873?l=gabrielcorreapoemas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/feeds/110856754101323873/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10448792&amp;postID=110856754101323873&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/110856754101323873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10448792/posts/default/110856754101323873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gabrielcorreapoemas.blogspot.com/2005/02/havia-flores-no-quarto_16.html' title='Havia flores no quarto'/><author><name>Gabriel Correa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07966783473708246961</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
