sábado, janeiro 28, 2012

São Paulo

A São Paulo da minha infância era cortada ao meio pelo rio Pinheiros. De um lado, o Butantã, sem trânsito e cheio de árvores, meu espaço onírico com caminhos infinitos para pipas, bicicletas e traquinagens comportadas. Porém, para se ir ao mercado, ao shopping ou à casa de algum parente era necessário atravessar a ponte e embrenhar-se pela selva de pedra que, se não era tão cinza como viria a se tornar nas duas décadas seguintes, era feia e cheia de paredes pichadas.

A São Paulo da minha adolescência tinha barulho de turbina de avião, com a imensa zona sul e seu aeroporto de Congonhas. Zona Sul que sempre teve pra mim um quê de cidade dormitório: a minha escola-zona-oeste era cheia de vilamadalenos e lindas madalenas e quando eu aprendi a andar de ônibus descobri o quanto a avenida Paulista era linda e hipnotizante em qualquer hora do dia ou da noite.

Aos dezessete, a minha São Paulo já era muito mais larga: amizades inimagináveis no Bom Retiro, na Casa Verde, na Vila Gustavo, amores e verdades em plena zona norte. Shows no Pacaembu, no Morumbi, no Anhangabaú, no Olympia ou no Ibirapuera: era uma cidade que se desenhava em seus pores-dos-sóis vistos pela janela do metrô,naquele trecho em que se cruza o Tietê entre a estação armênia e o terminal rodoviário. Fui feliz e sabia que era, por mais que a pose fosse de poeta romântico e os amores todos impossíveis.

Quando sobrevivi a virada dos vinte, retomei muito da São Paulo-zona-oeste-butantã. Era tempo de gramados verdíssimos da Praça do Relógio, na USP, jardins que são floridos e bonitos mesmo quando fica noite. Era o tempo de sinucas no largo da batata, de voltar para a casa de madrugada andando na solidão infinita de moemas e campos belos, tempo de três cidades em uma só em menos de vinte e quatro horas. Época de ouro das baladas da vila e da augusta, muitas e muitas noites dormidas só de manhã naqueles apês incríveis na região da Artur Azevedo, o espaço entre a rua João Moura e a rua Morato Coelho.

Hoje eu sou augusta por dentro e por fora. Só me sinto confortável de verdade aqui, onde a mistura dessas múltiplas São Paulos rende o seu melhor, com todos os seus estilos, todas suas pessoas bonitas, descoladas, interessadas, interessantes, onde uma madrugada nunca repete a outra por mais que a trilha sonora quase sempre faça a gente viajar para outras e muitas cidades reunidas numa esquina só. Fui buscar um amor na zona leste, como que para fechar esse rodoanel de experiências paulistaníssimas que percorrem a metrópole na velocidade de um desses pensamentos tão gostosos que aqueles que nasceram e sempre moraram neste lugar se permitem uma vez por ano, normalmente em vinte e cinco de janeiro.

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