É um livro escrito por um jornalista para pessoas acostumadas a se informarem e formarem suas opiniões a partir de relatos jornalísticos.
A impressão que me ficou ao terminar de ler o livro é a de que o autor poderia ter se concentrado mais sobre os acontecimentos relacionados com as privatizações, faltou uma amarração no enredo. Dessa forma, os capítulos em que o autor/jornalista figura como personagem principal da narrativa têm um detalhamento e um tratamento estilístico muito mais apurado do que os capítulos em que se descreve a época do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.
Os capítulos em que Amaury Ribeiro Jr. é o personagem de uma narrativa em terceira pessoa estão no começo e no final do livro: no capítulo 1, talvez o mais bem sucedido literariamente do livro, Amaury conta como sofreu um atentado em um bar em uma cidade satélite de Brasília (ou em Goiás, não me lembro), quando investigava o “crime organizado” dessa região e procurava desvendar o que estava por trás do surto de homicídios de jovens no “faroeste caboclo”.
Já nos capítulos finais, vemos Amaury como o pivô de um (suposto) grande escândalo durante as eleições para presidente em 2010. Nessa parte, o autor deixa muitos fios soltos e exagera o impacto da grande mídia sobre a formação de opiniões políticas na sociedade: exagera, por exemplo, o papel da revista Veja, do jornal Folha de São Paulo e dele mesmo sobre o que aconteceu entre julho e novembro de 2010. Eu, por exemplo, considero que a aliança estratégica, cínica e homicida dos dois candidatos em prol da interferência das igrejas fundamentalistas cristãs sobre a legislação machista brasileira sobre o aborto foi um episódio infinitamente mais relevante, que pôs em evidência o que realmente estava em jogo naquelas eleições, do que um suposto embate entre PSDB e PT para provar quem havia sido menos corrupto quando estava no poder.
Tanto assim que anulei meu voto no segundo turno e considero que o governo Dilma se mostra covarde e reacionário toda vez que emergem conflitos entre fundamentalismos, de um lado, e direitos humanos, de outro. Comissão da Verdade e prisão de torturadores sem dúvida são causas que estão na ordem do dia, mas estancar o massacre de mulheres, em geral negras, nordestinas, faveladas, analfabetas, excluídas do mercado de trabalho e da previdência social, violentadas dentro e fora de casa, seja nos grandes centros urbanos ou nos sertões mais brutalizados deveria ser o problema político mais importante a ser enfrentado pelo governo que aí está.
Ao mesmo tempo em que o Brasil inclui novas levas de pessoas na economia de mercado e dá oportunidade de classemedialização a tanta gente, só vemos crescer os preconceitos, a influência de seitas e religiões fundamentalistas, certos consensos sobre a distribuição de riquezas e bem-estar conforme desígnios divinos e leis imutáveis da natureza. Crescem as ideologias, a reificação, a alienação e os discursos nacionalistas, xenófobos, racistas, machistas, homofóbicos, etnocêntricos, neoliberais, claros, objetivos e impessoais como uma reportagem de jornal ou de revista, publicada na Veja, na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo, na TV mercantilista-evangélica Record ou na TV fundamentalista-católica Rede Globo - torturadora e militar.
Voltando ao livro: nos capítulos mais propriamente substanciais do volume, o autor se utiliza da seguinte estratégia: circunscreve a ação a certos personagens umbilicalmente ligados ao núcleo duro do PSDB (o tesoureiro da campanha de FHC Ricardo Sérgio, seu sócio, a filha de José Serra e seu marido), delineia o modo como essas pessoas enviavam recursos para uma empresa de fachada nas Ilhas Virgens Britânicas e depois repatriavam esses valores. É no mínimo estranho como o autor não faz qualquer menção que pudesse responsabilizar outros figurões do “partidão”: nenhuma acusação sobre FHC, sobre ACM, sobre Aécio Neves, sobre Paulo Renato, sobre Sérgio Motta e nem sobre os tecnocratas do BC e do ministério da fazenda. Tudo se limita ao clã Serra.
A insistência do autor/jornalista em dizer que obteve todas as suas provas em cartórios brasileiros também soa um pouco ingênua. Cartórios, gostem os formados em direito ou não, são concessões vitalícias completamente anacrônicas e inúteis, ainda que tremendamente lucrativas para as pessoas de pele branca que os possuem. A mim, pelo menos, afirmar que obteve as provas em cartórios não é algo que corrobore para a seriedade ou validade dessas provas, muito pelo contrário. A corrupção e o patrimonialismo marcam a existência de todo e qualquer cartório desde os tempos das capitanias hereditárias (dos quais são o principal resquício até os dias de hoje).
Ponto dois: fica, da leitura do livro, o tempo todo uma impressão de que o autor poderia ter ido mais fundo, mas preferiu não fazê-lo por conveniência ou medo. Conveniência: falar mal do clã Serra é chutar cachorro morto, afinal, ele mesmo, ao longo de toda sua trajetória pública, fez toda questão do mundo de se sabotar. Desde a época em que era presidente da UNE no governo João Goulart – a propaganda política dele coloca isso como um “plus”, mas não conta que ele era presidente porque chefiava a facção CATÓLICA do movimento estudantil, então hegemônica na entidade. Os mesmos católicos que foram os principais apoiadores do golpe de 64. Mais recentemente: ao ser eleito prefeito de São Paulo, registrou um documento em cartório (de novo em cartório) afirmando que não abandonaria o mandato para perseguir projetos políticos megalomaníacos e pessoais. Não deu outra: jogou a prefeitura de São Paulo no colo do malufista Kassab, assim como já tinha jogado o governo do estado no colo do ultrarreacionário apoiador de torturadores Alberto Goldman. Por fim, já no desespero da derrota eleitoral em 2010, o capítulo mais triste de sua famigerada biografia: a aliança macabra e assassina com os fundamentalistas em nome da bandeira da criminalização e marginalização das mulheres que são obrigadas, pelas circunstâncias desta sociedade patriarcal e machista, a praticarem o aborto. Como sua esposa, no Chile. Por que Serra, ao abraçar essa causa neonazista, não entregou sua própria mulher para que a polícia a colocasse na cadeia?
Medo: o autor é jornalista. Seu ganha-pão depende de satisfazer os anseios das poucas famílias que monopolizam todos os jornais e redes de televisão do Brasil. O autor é jornalista. Se escrevesse um livro que comprometesse figuras que são adoradas pela mídia e pela opinião pública, poderia não ter seu livro editado nem levado a sério, mesmo que o Serra não se prestasse ao ridículo de querer censurar sua publicação nem comprar os estoques da Livraria Cultura. O autor é jornalista. Tem medo de não encontrar lugar para exercer sua profissão se o sistema que aí está desmoronar.
Dicas para uma segunda edição revista e ampliada: seria fundamental se aprofundar no que realmente importa, ou seja, a “privataria” em si. Caberia, no lugar de todas essas reproduções fac-símiladas de documentos de cartório, colocar gráficos, tabelas e mapas em que se pudessem ver o que foi, de um modo abrangente, a privatização das empresas estatais no primeiro governo FHC. Assim: empresa X, cujo faturamento e patrimônio no ano anterior era Y, foi vendida por Z para fulano de tal, com W de financiamento do BNDES. A partir disso, investigar de verdade quem ganhou o quê, como e quando, esclarecendo para onde foram as propinas e em quanto o Estado brasileiro foi roubado desde então. Tarefa grande demais para um jornalista? Nada que um historiador não possa ajudar, ainda mais se a pesquisa for realizada em alguma universidade ou organização estrangeira, bem longe dos matadores de aluguel do planalto central.
Resumo da ópera: o livro é interessante, mas é um livro de jornalista, que não se preocupa em pôr as coisas em perspectiva ou se aprofundar naquilo que se propõe. Mais interessante, a meu ver, são as questões que o autor propositalmente evita e deixa no ar. Mexer com os fundamentos do regime democrático-representativista implantado pelas elites políticas e econômicas com tanto carinho em meados dos anos 1980 seria cutucar um vespeiro enorme. Não tenho dúvidas de que se trata de coisa que um jornalista que trabalhou a vida inteira para grupos da grande mídia seria incapaz de fazer, de novo por medo ou por conveniência. “Privataria Tucana”, portanto, seria propaganda enganosa? Em certa medida sim. Vai abalar as estruturas do PSDB e liquidar a trajetória política desse marginal-assassino-fundamentalista-terrorista chamado José Serra? Não creio. O cinismo e a desinformação estão aí e o eleitor paulista já cansou de eleger pessoas que se tornaram cada vez mais célebre a medida em que eram taxados pela mídia como corruptos. Adhemar de Barros, Paulo Maluf, Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin são alguns exemplos históricos. Igualar FHC a Collor é um primeiro passo; igualar Lula e Dilma aos outros dois é um segundo, mas enterrar esse regime político escroto que aí está é um terceiro passo que ainda está muito além do que a elite branca do país gostaria. Que ela aguarde a sua hora!