O ano de 1989 é aceito como o marco do fim da Guerra Fria, pelo gesto simbólico da derrubada do Muro de Berlim e pela implosão do sistema internacional organizado a partir das sociedades do Leste Europeu. No entanto, quase 22 anos após esses acontecimentos, muitos lugares do mundo ainda são governados de acordo com a lógica do sistema bipolar. É o caso de Cuba, Coreia do Norte, do partido único chinês e também do sistema político bipartidário e militarista norte-americano.
Desde fins de 2010, a imprensa ocidental vem noticiando com regularidade o que é descrito como uma onda democrática no mundo árabe, dando especial enfoque às manifestações de rua contra os governos ditatoriais no Egito, Tunísia, Iêmen, Bahrein, Irã e Líbia. Por mais cômodo que possa ser juntar todos esses movimentos em um mesmo saco e rotulá-los como uma “grande onda democrática”, há de se considerar as especificidades de cada caso particular e entendê-los sob uma perspectiva histórica. Se uma certa narrativa social ainda hoje afirma que os EUA foram os vencedores da Guerra Fria e que a dissolução do império soviético representou uma inquestionável vitória dos princípios consagrados da democracia representativa, da economia capitalista, da Igreja Cristã e do individualismo burguês sobre o ateísmo marxista, o declínio constante do império norte-americano desde os anos 1970 está aí para comprovar que a história social não deve ser enquadrada em esquemas simplistas e maniqueístas, que têm muito mais cara de propaganda de um certo regime que justifica desigualdades e de um determinado estilo de vida do que de ciência.
Pensemos um instante. Quais foram os regimes e grupos sociais apoiados pelos norte-americanos na metade de século posterior à Segunda Guerra Mundial? Em que esses grupos se identificam com o tripé ideológico do “mundo livre” (economia capitalista, democracia representativa e Cristianismo)? A resposta à primeira questão é fartamente documentada: o chileno Augusto Pinochet, o xá iraniano Reza Pahlavi, o ditador indonésio Suharto, os ditadores brasileiros Médici, Costa e Silva, etc., o ditador vietnamita Ngo Dinh Diem, grupos fascistas e anti-comunistas na Europa Ocidental, o ditador Somoza na Nicarágua, os mafiosos que tentaram assassinar Fidel Castro inúmeras vezes, Hosni Mubarak no Egito, os monarquistas gregos, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Israel, etc. Dessa simples enumeração a resposta à segunda questão resulta óbvia: nada.
O que essa chamada “onda democrática no mundo árabe” e os atentados de 11 de Setembro têm em comum? Ambos são frutos tardios de escolhas estrategicamente erradas feitas pelo Estado norte-americano e suas agências durante a Guerra Fria. No afã de patrocinar toda e qualquer iniciativa anti-soviética e imaginando que combatiam uma potência imperialista que aspirava a dominação mundial, os norte-americanos foram responsáveis diretos e indiretos por genocídios, ditaduras, assassinatos e todo tipo de violação dos direitos humanos no Terceiro Mundo. Em muitos casos, atrasaram em décadas a possibilidade de desenvolvimento autônomo de regiões inteiras do globo: é o caso da América Latina, do mundo árabe, da África e do Sudeste Asiático. As demonstrações públicas que hoje assistimos pela CNN são tentativas de derrubar governantes que foram empossados com dinheiro e armas contrabandeados pela CIA. Até que ponto são manifestações legítimas de aspirações populares e até que ponto são manobras patrocinadas pelo mundo ocidental é algo difícil de definir nesse momento, dado que o noticiário de hoje (ainda) tem muito mais caráter de propaganda do que de informação. Toda forma de democracia é por definição melhor do que qualquer outra forma de governo? Na sociedade em que vivemos, é possível falar em “liberdade de expressão”? Em direitos políticos plenos? Liberdade de expressão existe para defender a grande mídia ou como um direito de todos? Nós, ocidentais e cristãos do outro lado do mundo, sabemos qual a melhor forma de governo para o mundo árabe? Temos direito de opinar e apoiar determinado grupo a milhares de quilômetros de distância? Devemos condenar o Irã por ter um programa de desenvolvimento da bomba atômica e ao mesmo tempo aplaudir Israel? Sob um ponto de vista moral, é possível defender a existência do Estado de Israel? São os países árabes e o povo palestino que ameaçam Israel ou é a criação de um Estado artificial patrocinado pelas potências ocidentais que ameaça a existência dos povos árabes?
Durante a semana que passou, mais uma vez os EUA vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que repudiava as colônias judaicas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Tal fato ficou em segundo plano, uma vez que na Líbia o exército matava centenas de manifestantes. Quantos palestinos foram mortos direta e indiretamente pela aliança EUA/Israel desde o começo deste ano? O que faz a Human Rights Watch que sempre denuncia países não-alinhados com o Ocidente mas se cala sobre Israel, Guatánamo, operação Condor e os abusos de todas as ordens promovidos pelos EUA e pela OTAN no Iraque, no Afeganistão e outras regiões do mundo? Os ocidentais têm “mais” direitos humanos do que os árabes?
Talvez o que mais tenha irritado os etnocêntricos jornalistas ocidentais nessa crise da Líbia é a impossibilidade de enviar correspondentes de guerra ao local e a censura à internet. Será que se ocorresse uma guerra civil nos EUA de hoje o governo oficial permitiria que os manifestantes utilizassem a internet para se organizar e a imprensa internacional para chamar a atenção sobre os crimes promovidos pelo Estado? Existe liberdade de expressão na Faixa de Gaza e na Cisjordânia? Por mais repugnante que seja a figura de Muammar Khadafi, certamente ele assassinou muito menos gente do que Eisenhower, Kennedy, Nixon, Reagan, Carter e companhia. Pra não falar de novo em Pinochet, Médici, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Suharto, etc. Pra nós, genocida é o que mora na África ou na Ásia, Stálin e Mao é que eram ditadores e democracia é o que existe nos EUA. Democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século? É, democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século.
Esse texto foi feito para levantar questões. A democracia é o melhor sistema de governo possível? (definitivamente não). O ocidente é melhor do que o oriente? (não) O Norte é melhor do que o Sul? (não) O branco é melhor do que o não-branco? (não) O cristão é melhor que o muçulmano? (não) O homem é melhor do que a mulher? (não) O heterossexual é melhor do que o homossexual? (não) O velho é melhor do que o jovem? (não) O meu é melhor do que o seu? (não). Aos que concordam com as respostas entre parênteses, cabe questionar o que vem sendo noticiado como verdade, o modo como os Estados estão organizados, a maneira como o trabalho é trabalhado e o mundo em que vivemos.
literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Brasileiro e Estrangeiro
Até certo ponto da mesma maneira que com todas as ciências sociais no Brasil, a área de relações internacionais se desenvolveu a partir da incorporação de esquemas teóricos importados por pesquisadores brasileiros que cursaram programas de pós-graduação nos grandes centros universitários na Europa e nos Estados Unidos. Há um consenso de que se trata de um fenômeno inevitável e natural, tendo em vista que se trata de um campo de estudos que só muito recentemente passou a ser abordado nas universidades daqui. Cientes de que essa é uma fase passageira, os próprios acadêmicos reconhecem que linhas de pesquisas mais “adequadas” para compreender as relações internacionais a partir de uma perspectiva brasileira deverão ganhar espaço num futuro próximo, desde que os investimentos em pesquisa sejam aumentados e a expansão de novos cursos de graduação e pós continue no mesmo ritmo das últimas duas décadas. Isso posto, cabe indagar quais são as possíveis limitações das aplicações desses modelos teóricos “importados” quando confrontados com os problemas característicos da sociedade brasileira e que “cara” deveria ter um estudo de relações internacionais enfocado a partir de nossa perspectiva local.
Neste ensaio, tratarei da maneira pela qual os problemas relacionados ao contexto internacional são tratados no Brasil, dando especial enfoque ao noticiário veiculado pelos meios de comunicação. Por uma própria limitação da erudição do autor, me abstenho de sistematizar a produção acadêmica sobre relações internacionais no Brasil e apenas mencionarei, quando for o caso, certos autores pinçados um pouco que por acaso.
De um modo geral, é comum ouvir dizer que a opinião pública brasileira dá pouca ou nenhuma importância para os problemas de política internacional, uma vez que o país não apresenta conflitos de fronteira com seus vizinhos, não padece de divergências muito sérias entre minorias étnicas/religiosas/lingüísticas e não é um ator internacional – tanto em termos econômicos quanto militares – capaz de influir em áreas do mundo além de seu entorno imediato, ou seja, a América do Sul. Essa percepção um tanto difusa pode até encontrar certos fundamentos na história e na realidade atual, porém carece de um fundamento mais sólido como variável determinante para explicar esse suposto desinteresse do cidadão médio brasileiro pelo que se passa em outros países do mundo. Costuma-se apelar então a um certo pendor provinciano (talvez herdado dos nossos pais portugueses...) para fundamentar argumentos como o de que “um pequeno alagamento no bairro vizinho para mim é mais importante do que um tsunami na Ásia” e extrapola-se a questão dizendo que para os habitantes do Sul do país também há muito pouco interesse em saber o que se passa no Norte, no Nordeste ou no Centro-Oeste. Por último, esse discurso com um quê de demagogia finaliza afirmando que as condições de educação básica no país são precárias (não que não sejam realmente), que o povo é ignorante muito por escolha própria e muito por não saber “escolher” os políticos mais honestos e que, portanto, não se pode exigir que a população conheça outros países, outras culturas e problemas de alcance global se ela não teve acesso nem ao básico em português e em matemática.
Não creio que o brasileiro seja um sujeito desinterssado pelas questões internacionais. Até mesmo nas salas de aula das escolas públicas tais temas se tornaram recorrentes e não por acaso: são, de certa forma, um reflexo da presença mais intensa de elementos estrangeiros no dia-a-dia dos moradores das cidades, seja na forma de mercadorias importadas e companhias multinacionais, seja na obrigatoriedade de possuir um curso de inglês para procurar um emprego ou no número cada vez maior de questões sobre relações internacionais nos vestibulares e concursos públicos. Desde a chamada “abertura” econômica iniciada no governo Collor de Melo, seguindo o receituário neo-liberal do FMI, esse fenômeno com certeza tomou novas proporções, embora tenha permeado a história do país desde os seus primórdios. Afinal, somos uma nação inventada a partir de uma empreitada colonial voltada para o mercado externo e de um encontro de pessoas (escravos, colonizadores e imigrantes) provenientes de todas as partes do mundo. Faz parte do próprio ser-brasileiro situar-se numa encruzilhada de culturas, etnias, linguagens e maneiras de enxergar o mundo que nem sempre se harmonizaram tão pacificamente quanto fazem crer nossos mitos de origem da nação cunhados na época do romantismo e que desde então foram repisados exaustivamente até fazerem as vezes de verdade histórica inquestionável.
Essa marca de origem híbrida implica que a afirmação da nacionalidade não se resume aqui a uma simples negação do estrangeiro, mas sim da sua incorporação num todo muitas vezes contraditório e incoerente. Esse foi sem dúvida o tema central da arte modernista e dos clássicos do pensamento social brasileiro da primeira metade do século XX. Pode-se traçar uma linha de continuidade nessa discussão que vai desde a Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade até, digamos, O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro – passando, evidentemente, por Raízes do Brasil, Macunaíma, o cinema novo, a tropicália, etc. Longe de resolver essa contradição numa síntese pura do que é o brasileiro, todas essas manifestações da arte e do pensamento social reafirmaram o caráter problemático e precário do nosso ethos nacional. Em que medida as diferentes culturas que se cruzaram nesse trecho do hemisfério ocidental foram assimiladas à cultura do Brasil e em que medida a cultura brasileira foi reinventada e transformada pelo contato com cada uma dessas outras culturas é uma questão, por sua própria natureza, insolúvel. Seguindo essa trilha dialética, talvez seja justamente quando falamos sobre o estrangeiro (ou dessa relação de pátria versus exílio) que consigamos dizer as coisas mais profundas sobre o que é nascer e ser brasileiro. Não é à toa que um João Cabral de Melo Neto e um Vinicius de Moraes cantaram a pátria muitas vezes vivendo no estrangeiro. Não é por acaso que trechos de um poema chamado Canção do Exílio façam parte da letra do hino nacional. Daí a importância e a urgência de pensarmos as relações internacionais tomando como ponto de partida o Brasil e, de modo reverso, pensarmos o Brasil tomando como ponto de partida as relações internacionais.
Até agora sugerimos que o brasileiro não é e nem pode ser um sujeito alheio ao internacional. Entretanto, o que pensamos sobre o mundo? Como o pensamos e nos pensamos em relação ao que se passa lá fora? Mesmo em uma época de internet, comunicação transcontinental em tempo real e todo tipo de tecnologia da informação que prolifera dia após dia, engana-se quem pensa que o encontro com o estrangeiro dá-se de forma direta e pessoal. Na prática, o que temos quase sempre é uma relação mediada por duas instâncias: a linguagem universal do business e a mídia. No primeiro caso, o código dinheiro serve como intermediário para uma série de contatos entre o nacional e o internacional na esfera do mundo do trabalho: trata-se das empresas globalizadas, das viagens de negócios, do comércio internacional, dos contratos de câmbio, das redes internacionais de sindicatos e movimentos sociais, do fluxo de capitais e investimentos, etc.
Já no segundo caso, a mídia cumpre um papel de filtrar aquilo que de mais “relevante” ocorre em outros países e servir-nos um cardápio diário de notícias sob o rótulo “internacional”. Talvez por falta de pessoal qualificado para refletir sobre e selecionar o que é efetivamente “relevante” no noticiário dos outros países e continentes, o que temos é uma cobertura de mídia internacional que se restringe a assuntos internos de países estrangeiros e muitas vezes simplesmente reproduz um certo conteúdo fornecido por agências como Reuters, CNN ou BBC. A verdade é que falta a essa cobertura aspectos propriamente internacionais: é comum vermos correspondentes desses veículos em países em guerra ou crise (como no caso do Egito, mais recentemente), porém não há uma preocupação maior em dar um enfoque que fuja muito daquilo que é veiculado nos e para os Estados Unidos e Europa. Mais raro ainda é se deparar com um artigo ou matéria que esboce algum tipo de análise que vá além de elencar grosseiramente e de maneira etnocêntrica os principais atores sociais de um dado país (subentendendo-se que uns são bonzinhos e outros são mauzinhos) e fazer um resumo de alguns acontecimentos históricos que se relacionem mais ou menos com a crise atual, a chamada “bola da vez”. Quase impossível então é ler ou ver algo sobre a atuação das organizações internacionais que fuja do mais banal lugar-comum. Resumindo: o contato com o estrangeiro por meio da mídia normalmente tende a ser uma experiência mais empobrecedora do que enriquecedora, na medida em que reforça preconceitos, se pauta por critérios de validade discutível e raramente ultrapassa um nível meramente superficial de análise.
Há quem afirme que a fraqueza e a vilania da mídia não se restringiriam ao noticiário internacional, mas seriam um mal do jornalismo de um modo geral, porém quero crer que essa cobertura poderia ser feita de uma maneira mais adequada, mesmo levando em conta as características de urgência, superficialidade e necessidade de “traduzir” o mundo para uma linguagem que “qualquer idiota entenda” tão típicas dos meios de comunicação de massa. Em todo caso, são poucos os brasileiros que podem ler em outros idiomas e menos ainda os que se dispõe a garimpar fontes de informação alternativas, de modo que o que é pautado pela mídia influencia sim, e de modo direto, aquilo que as pessoas comentam e pensam sobre os assuntos internacionais em seu cotidiano. De modo que penso ser válida uma discussão que mobilize os editores e donos de jornais, sites e televisões a qualificar a maneira como se fala sobre “mundo” na mídia brasileira, um pouco na mesma linha do que já foi feito com o noticiário de economia, por exemplo.
Numa discussão como essa, a inteligentsia deve rejeitar ser convocada a se pronunciar na imprensa somente para exercer a função de um especialista que é consultado quando é necessário entender algum fenômeno extremamente específico e complicado. Completamente fora do determinado contexto em que foram criados, as palavras e os jargões técnicos do cientista adquirem conotações imprevistas e causam reações de espanto e admiração no espectador. Se a idéia é aprofundar, mesmo que seja só um pouco, o noticiário e a maneira como ele se relaciona com a opinião pública, a maneira como se faz a coisa hoje resulta no contrário: distancia a vida cotidiana das pessoas dos temas de relações internacionais, na medida em que envolve o conhecimento numa aura e faz crer que tudo no mundo deve ser repartido em compartimentos estanques em função de uma lógica cartesiana. Talvez seja o caso de difundir o conhecimento e todos seus rituais iniciáticos por caminhos alternativos à grande mídia, buscando infiltrar o sistema pelos seus subterrâneos. Mas os livros são caros, inacessíveis, impublicáveis e as revistas são lidas somente por aqueles que já tinham um interesse mais imediato nessa área do saber.
Além dos especialistas e pesquisadores, há os funcionários públicos que ocupam cargos na diplomacia, os quais muito mais raramente ainda são ouvidos pela mídia sobre algum tema espinhoso – em geral somente quando esse tal tema expõe alguma divergência entre posições partidárias da política interna que respingue nesse galho do Estado. Ainda muito mais do que os cientistas que trabalham nas universidades públicas, os diplomatas são, no imaginário popular, membros muitos seletos de uma maçonaria. Possuem poderes especiais para viajar, imunidades e tratamento diferenciado – são vistos como o crème de la crème da elite nacional. Além do mais, esperar que um funcionário público deixe de se ocupar da difusão da propaganda oficial e abra mão voluntariamente do monopólio que goza para tratar dos temas internacionais de um modo que possa ameaçar seu status, sua carreira ou sua perspectiva de se aposentar ganhando bem somente em nome do adensamento da discussão sobre relações internacionais na opinião pública brasileira, seria acreditar em atos de abnegação e desprendimento que estão muito além dos limites do que mesmo os mais otimistas consideram ser da natureza humana.
Neste ensaio, tratarei da maneira pela qual os problemas relacionados ao contexto internacional são tratados no Brasil, dando especial enfoque ao noticiário veiculado pelos meios de comunicação. Por uma própria limitação da erudição do autor, me abstenho de sistematizar a produção acadêmica sobre relações internacionais no Brasil e apenas mencionarei, quando for o caso, certos autores pinçados um pouco que por acaso.
De um modo geral, é comum ouvir dizer que a opinião pública brasileira dá pouca ou nenhuma importância para os problemas de política internacional, uma vez que o país não apresenta conflitos de fronteira com seus vizinhos, não padece de divergências muito sérias entre minorias étnicas/religiosas/lingüísticas e não é um ator internacional – tanto em termos econômicos quanto militares – capaz de influir em áreas do mundo além de seu entorno imediato, ou seja, a América do Sul. Essa percepção um tanto difusa pode até encontrar certos fundamentos na história e na realidade atual, porém carece de um fundamento mais sólido como variável determinante para explicar esse suposto desinteresse do cidadão médio brasileiro pelo que se passa em outros países do mundo. Costuma-se apelar então a um certo pendor provinciano (talvez herdado dos nossos pais portugueses...) para fundamentar argumentos como o de que “um pequeno alagamento no bairro vizinho para mim é mais importante do que um tsunami na Ásia” e extrapola-se a questão dizendo que para os habitantes do Sul do país também há muito pouco interesse em saber o que se passa no Norte, no Nordeste ou no Centro-Oeste. Por último, esse discurso com um quê de demagogia finaliza afirmando que as condições de educação básica no país são precárias (não que não sejam realmente), que o povo é ignorante muito por escolha própria e muito por não saber “escolher” os políticos mais honestos e que, portanto, não se pode exigir que a população conheça outros países, outras culturas e problemas de alcance global se ela não teve acesso nem ao básico em português e em matemática.
Não creio que o brasileiro seja um sujeito desinterssado pelas questões internacionais. Até mesmo nas salas de aula das escolas públicas tais temas se tornaram recorrentes e não por acaso: são, de certa forma, um reflexo da presença mais intensa de elementos estrangeiros no dia-a-dia dos moradores das cidades, seja na forma de mercadorias importadas e companhias multinacionais, seja na obrigatoriedade de possuir um curso de inglês para procurar um emprego ou no número cada vez maior de questões sobre relações internacionais nos vestibulares e concursos públicos. Desde a chamada “abertura” econômica iniciada no governo Collor de Melo, seguindo o receituário neo-liberal do FMI, esse fenômeno com certeza tomou novas proporções, embora tenha permeado a história do país desde os seus primórdios. Afinal, somos uma nação inventada a partir de uma empreitada colonial voltada para o mercado externo e de um encontro de pessoas (escravos, colonizadores e imigrantes) provenientes de todas as partes do mundo. Faz parte do próprio ser-brasileiro situar-se numa encruzilhada de culturas, etnias, linguagens e maneiras de enxergar o mundo que nem sempre se harmonizaram tão pacificamente quanto fazem crer nossos mitos de origem da nação cunhados na época do romantismo e que desde então foram repisados exaustivamente até fazerem as vezes de verdade histórica inquestionável.
Essa marca de origem híbrida implica que a afirmação da nacionalidade não se resume aqui a uma simples negação do estrangeiro, mas sim da sua incorporação num todo muitas vezes contraditório e incoerente. Esse foi sem dúvida o tema central da arte modernista e dos clássicos do pensamento social brasileiro da primeira metade do século XX. Pode-se traçar uma linha de continuidade nessa discussão que vai desde a Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade até, digamos, O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro – passando, evidentemente, por Raízes do Brasil, Macunaíma, o cinema novo, a tropicália, etc. Longe de resolver essa contradição numa síntese pura do que é o brasileiro, todas essas manifestações da arte e do pensamento social reafirmaram o caráter problemático e precário do nosso ethos nacional. Em que medida as diferentes culturas que se cruzaram nesse trecho do hemisfério ocidental foram assimiladas à cultura do Brasil e em que medida a cultura brasileira foi reinventada e transformada pelo contato com cada uma dessas outras culturas é uma questão, por sua própria natureza, insolúvel. Seguindo essa trilha dialética, talvez seja justamente quando falamos sobre o estrangeiro (ou dessa relação de pátria versus exílio) que consigamos dizer as coisas mais profundas sobre o que é nascer e ser brasileiro. Não é à toa que um João Cabral de Melo Neto e um Vinicius de Moraes cantaram a pátria muitas vezes vivendo no estrangeiro. Não é por acaso que trechos de um poema chamado Canção do Exílio façam parte da letra do hino nacional. Daí a importância e a urgência de pensarmos as relações internacionais tomando como ponto de partida o Brasil e, de modo reverso, pensarmos o Brasil tomando como ponto de partida as relações internacionais.
Até agora sugerimos que o brasileiro não é e nem pode ser um sujeito alheio ao internacional. Entretanto, o que pensamos sobre o mundo? Como o pensamos e nos pensamos em relação ao que se passa lá fora? Mesmo em uma época de internet, comunicação transcontinental em tempo real e todo tipo de tecnologia da informação que prolifera dia após dia, engana-se quem pensa que o encontro com o estrangeiro dá-se de forma direta e pessoal. Na prática, o que temos quase sempre é uma relação mediada por duas instâncias: a linguagem universal do business e a mídia. No primeiro caso, o código dinheiro serve como intermediário para uma série de contatos entre o nacional e o internacional na esfera do mundo do trabalho: trata-se das empresas globalizadas, das viagens de negócios, do comércio internacional, dos contratos de câmbio, das redes internacionais de sindicatos e movimentos sociais, do fluxo de capitais e investimentos, etc.
Já no segundo caso, a mídia cumpre um papel de filtrar aquilo que de mais “relevante” ocorre em outros países e servir-nos um cardápio diário de notícias sob o rótulo “internacional”. Talvez por falta de pessoal qualificado para refletir sobre e selecionar o que é efetivamente “relevante” no noticiário dos outros países e continentes, o que temos é uma cobertura de mídia internacional que se restringe a assuntos internos de países estrangeiros e muitas vezes simplesmente reproduz um certo conteúdo fornecido por agências como Reuters, CNN ou BBC. A verdade é que falta a essa cobertura aspectos propriamente internacionais: é comum vermos correspondentes desses veículos em países em guerra ou crise (como no caso do Egito, mais recentemente), porém não há uma preocupação maior em dar um enfoque que fuja muito daquilo que é veiculado nos e para os Estados Unidos e Europa. Mais raro ainda é se deparar com um artigo ou matéria que esboce algum tipo de análise que vá além de elencar grosseiramente e de maneira etnocêntrica os principais atores sociais de um dado país (subentendendo-se que uns são bonzinhos e outros são mauzinhos) e fazer um resumo de alguns acontecimentos históricos que se relacionem mais ou menos com a crise atual, a chamada “bola da vez”. Quase impossível então é ler ou ver algo sobre a atuação das organizações internacionais que fuja do mais banal lugar-comum. Resumindo: o contato com o estrangeiro por meio da mídia normalmente tende a ser uma experiência mais empobrecedora do que enriquecedora, na medida em que reforça preconceitos, se pauta por critérios de validade discutível e raramente ultrapassa um nível meramente superficial de análise.
Há quem afirme que a fraqueza e a vilania da mídia não se restringiriam ao noticiário internacional, mas seriam um mal do jornalismo de um modo geral, porém quero crer que essa cobertura poderia ser feita de uma maneira mais adequada, mesmo levando em conta as características de urgência, superficialidade e necessidade de “traduzir” o mundo para uma linguagem que “qualquer idiota entenda” tão típicas dos meios de comunicação de massa. Em todo caso, são poucos os brasileiros que podem ler em outros idiomas e menos ainda os que se dispõe a garimpar fontes de informação alternativas, de modo que o que é pautado pela mídia influencia sim, e de modo direto, aquilo que as pessoas comentam e pensam sobre os assuntos internacionais em seu cotidiano. De modo que penso ser válida uma discussão que mobilize os editores e donos de jornais, sites e televisões a qualificar a maneira como se fala sobre “mundo” na mídia brasileira, um pouco na mesma linha do que já foi feito com o noticiário de economia, por exemplo.
Numa discussão como essa, a inteligentsia deve rejeitar ser convocada a se pronunciar na imprensa somente para exercer a função de um especialista que é consultado quando é necessário entender algum fenômeno extremamente específico e complicado. Completamente fora do determinado contexto em que foram criados, as palavras e os jargões técnicos do cientista adquirem conotações imprevistas e causam reações de espanto e admiração no espectador. Se a idéia é aprofundar, mesmo que seja só um pouco, o noticiário e a maneira como ele se relaciona com a opinião pública, a maneira como se faz a coisa hoje resulta no contrário: distancia a vida cotidiana das pessoas dos temas de relações internacionais, na medida em que envolve o conhecimento numa aura e faz crer que tudo no mundo deve ser repartido em compartimentos estanques em função de uma lógica cartesiana. Talvez seja o caso de difundir o conhecimento e todos seus rituais iniciáticos por caminhos alternativos à grande mídia, buscando infiltrar o sistema pelos seus subterrâneos. Mas os livros são caros, inacessíveis, impublicáveis e as revistas são lidas somente por aqueles que já tinham um interesse mais imediato nessa área do saber.
Além dos especialistas e pesquisadores, há os funcionários públicos que ocupam cargos na diplomacia, os quais muito mais raramente ainda são ouvidos pela mídia sobre algum tema espinhoso – em geral somente quando esse tal tema expõe alguma divergência entre posições partidárias da política interna que respingue nesse galho do Estado. Ainda muito mais do que os cientistas que trabalham nas universidades públicas, os diplomatas são, no imaginário popular, membros muitos seletos de uma maçonaria. Possuem poderes especiais para viajar, imunidades e tratamento diferenciado – são vistos como o crème de la crème da elite nacional. Além do mais, esperar que um funcionário público deixe de se ocupar da difusão da propaganda oficial e abra mão voluntariamente do monopólio que goza para tratar dos temas internacionais de um modo que possa ameaçar seu status, sua carreira ou sua perspectiva de se aposentar ganhando bem somente em nome do adensamento da discussão sobre relações internacionais na opinião pública brasileira, seria acreditar em atos de abnegação e desprendimento que estão muito além dos limites do que mesmo os mais otimistas consideram ser da natureza humana.
terça-feira, fevereiro 08, 2011
Quem Subsidia Quem No Transporte Coletivo Em São Paulo?
Comecemos este texto pela aritmética, afinal são os números, cifras e porcentagens que respaldam todo e qualquer argumento de natureza técnico-científica digno de respeito neste século XXI. A prefeitura municipal de São Paulo prevê, em seu orçamento para o ano fiscal de 2011, R$ 600.000.000,00 em subsídios às empresas de ônibus. Tomando como base o ano de 2010, o número total de passageiros transportados em um ano é de 2.914.030.714, o que resultaria numa receita bruta com cobrança de passagens de R$ 8.742.092.142,00, levando em conta o valor atual da viagem, que é de R$ 3,00. Num cálculo grosseiro, podemos dividir a somatória da receita bruta mais os subsídios pelo número de ônibus da frota e chegaremos a conclusão de cada veículo custa em média R$ 582.806,15 para circular por um ano. Abstraindo passeios e eventualidades, podemos considerar que cada passageiro costuma fazer duas viagens por dia e que, em média, por conta da integração com o bilhete único, ele utiliza dois ônibus por viagem, donde resulta um número hipotético de 6.398.693 de pessoas utilizando ônibus todos os dias (na verdade o número é maior, pois aos fins de semana e feriados o movimento é ínfimo e o número de ônibus circulando chega a ser 50% menor do que em dias úteis). Em São Paulo, existem 1.340 linhas de ônibus, o que dá uma média de 11 ônibus por linha.
O número de automóveis na cidade é de 5.093.169 e o de motocicletas 875.887, de modo que podemos presumir que 5.969.056 utilizam o transporte individual para se locomoverem de casa para o trabalho, uma vez que é raríssima a presença de mais de uma pessoa em cada automóvel e as famílias burguesas costumam ter mais de um automóvel por pessoa (fica elas por elas).
De cara, que conclusões podemos tirar desses números?
Em primeiro lugar, que há mais pessoas que utilizam transporte coletivo (e aqui nem se levou em conta o trem e o metrô) do que transporte individual. Em segundo lugar, que o custo do sistema de transporte coletivo “gerido” pela prefeitura é altíssimo, sob qualquer ponto de vista, e causa indignação se levarmos em conta que os ônibus invariavelmente circulam superlotados e numa velocidade média inferior a de uma bicicleta. Transporte coletivo caro e de péssima qualidade, como pode atestar qualquer famigerado “usuário” que já tenha se aventurado a subir num ônibus numa sexta-feira a tarde com ou sem chuva.
A crer no que a mídia vem publicando desde o último reajuste de tarifa no começo deste ano, trata-se de um problema crônico, em parte decorrente da má gestão dos administradores públicos e em parte decorrente da saturação das principais vias de tráfico da cidade (que, como as chuvas de verão ou a seca do Nordeste é um fenômeno da natureza). Segundo os “especialistas” de plantão, a solução seria investir em metrô para que, posteriormente, as classes médias e burguesas julguem que o transporte coletivo atende às suas necessidades de conforto e rapidez e abandonem voluntariamente o uso dos automóveis.
Números e especialistas de plantão com lugar cativo na mídia tratam a realidade social com frieza e objetividade. Um passo adiante no nosso argumento seria olhar mais atentamente essas cifras e nos perguntarmos o que números e especialistas de plantão querem esconder quando dizem que o transporte coletivo em São Paulo é inviável (cada ônibus custaria meio milhão de reais por ano) e que uma solução de médio prazo depende da boa vontade das classes mais abastadas em abandonarem voluntariamente seus automóveis para se enfiarem num metrô confortável, estilo Paris ou New York.
Comecemos por uma observação empírica: a saturação das principais vias de tráfico da cidade de São Paulo não é um fenômeno da natureza. Ao contrário da maioria dos fatos sociais, aqui é fácil perceber que existe uma relação de causa e efeito: se 5.093.169 de veículos saem ao mesmo tempo para transportar seus donos engravatados todos os dias um pouco antes das oito e um pouco depois das dezoito, inevitavelmente os 17.000 km de ruas da cidade ficarão saturados. De onde se conclui que: o trânsito de São Paulo é causado por uma minoria de pessoas que utiliza o automóvel como meio de transporte e por mais ninguém. E por que o sistema de ônibus da cidade é lento, deficitário e de má qualidade? Resposta idêntica: uma minoria de pessoas utiliza o automóvel como meio de transporte. Evidente: se são necessários 11 ônibus em cada linha circulando numa velocidade lenta, caso não houvesse trânsito o mesmo número de pessoas poderia ser transportado com, digamos, metade dessa frota, uma vez que grande parte do custo operacional dessas linhas é fixo (salário de cobradores e motoristas, encargos, impostos, etc.). Se um ônibus X vai do ponto A ao ponto B em três horas, um ônibus Y que vá do ponto A ao ponto B em uma hora pode fazer o mesmo serviço de três ônibus X. Sem automóvel na rua, o sistema de transporte coletivo não é deficitário, não demanda subsídios e é capaz de transportar o mesmo número de passageiros com muito mais conforto e rapidez. Simples assim.
Outro passo no nosso argumento: pessoas não são simplesmente pessoas, cidadãos genéricos, “usuários” do sistema. Pessoas têm diferenças e a primeira grande diferença que chama nossa atenção é que algumas têm mais poder do que outras: poder de mandar em outras pessoas, poder de ter mais dinheiro, poder de poder comprar mais coisas, poder de optar por empregos melhores, poder de escolher se querem ir pro trabalho a pé, de ônibus, de carro ou de helicóptero. E aqui mais uma vez, por mais incrível que possa parecer, também não se trata de um fenômeno da natureza, não se trata de “Deus criou o mundo assim”, não se trata de ser bem nascido, de ter as melhores oportunidades, de estudar em escola particular ou de fazer as escolhas certas na vida. A apropriação desigual da riqueza socialmente produzida entre as diferentes classes sociais é um fenômeno muito bem estudado e comprovado empiricamente desde o século XIX (pelo menos). Qualquer aspirante a estudante de introdução à sociologia é capaz de caracterizar a sociedade capitalista (e outras sociedades também) como dotada de uma infra-estrutura econômica que propicia que a riqueza socialmente produzida, seja na forma de dinheiro ou mercadoria, seja apropriada de maneira desigual pelas diferentes classes sociais. Os mecanismos para que isso aconteça são vários e têm nomes diferentes segundo cada autor e cada escola de pensamento, mas podemos resumir grosso modo assim: separação entre o trabalhador, os meios de produção e o produto do seu trabalho; valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual; concentração de capital e terras nas mãos de umas poucas famílias; leis, normas e um sistema judicial e penitenciário moldados para garantir a propriedade privada, os mecanismos de herança e a reprodução da desigualdade; diferenças no valor do salário em função de sexo, etnia, idade, origem social e local de residência (fenômeno que os liberais chamam de “produtividade do trabalho”), etc. etc. etc.
Toda essa volta para chegar numa segunda conclusão empírica: aqueles que andam de automóvel não são simplesmente uma minoria dentro de um todo difuso, mas contém dentro de si os limites de uma classe social muito bem definida: os que podem mais. Para não falar em burguesia, proletariado, classe média ou outros conceitos que se tornaram ocos pelo uso excessivo, falemos de forma bem clara: toda a elite de São Paulo usa automóvel como seu meio de transporte rotineiro. Claro que pessoas de origem humilde, que moram lá em Taboão da Serra ou Itaquaquecetuba também têm seus carrinhos populares e o governo Lula permitiu que muitos deles pudessem enfim realizar esse sonho de infância, mas isso não invalida o nosso argumento: todos os membros da elite de São Paulo (exceção aos que voam de helicóptero) usam automóvel todos os dias. Enfim chegamos ao ponto: o uso de transporte individual é um problema de natureza política, em tudo oposto a um fenômeno natural. Levando em conta que dos 513 deputados eleitos, ao menos 220 declararam possuir mais de R$ 1.000.000,00 em patrimônio (esses são os que declaram, veja bem), sabemos que esse problema jamais será colocado pelos políticos de plantão nos termos aqui tratados, uma vez que praticamente todos os membros da elite política brasileira são ao mesmo tempo membro dessa elite econômica que só vai pensar em deixar o conforto do automóvel quando o metrô de São Paulo for confortável como o de New York e Paris.
Um argumento torto e um círculo vicioso. O argumento torto: mesmo em New York e Paris, muitas pessoas andam de automóvel e não julgam que o metrô é capaz de fornecer a privacidade e o conforto a que elas acreditam fazer jus. O círculo vicioso: políticos que poderiam investir verbas públicas em um metrô que ficaria pronto daqui a duas gerações preferem destinar recursos a construção de rodovias, largas avenidas, subsídios a montadoras multinacionais e grandes obras de impacto tocadas por aquelas mesmas poucas empreiteiras de sempre (Odebrecht, Camargo Corrêa), uma vez que se trata de angariar apoio público (e privado) para tentar uma nova reeleição.
Concluímos, portanto, que não se pode esperar da elite política uma mudança de enfoque com relação ao transporte de indivíduos nas grandes cidades. Entretanto, numa democracia como a nossa, ainda há esperanças: uma grande mobilização da sociedade civil, das organizações não-governamentais ou o barulho da imprensa são maneiras de pelo menos dar o ponta pé inicial em uma grande transformação qualquer.
Porém, olhando mais de perto o que é a mídia no Brasil já perdemos uma perna desse tripé, afinal as montadoras de automóvel tornaram-se as grandes investidoras no mercado publicitário de uns anos pra cá, ocupando um espaço que já foi da propaganda de cigarro. Basta dar uma sapeada por qualquer canal para notar que pelo menos três em cada cinco anúncios no horário nobre de qualquer grande emissora de televisão são de montadoras multinacionais. E não é por acaso que a Fátima Bernardes abre seu belo sorriso e comemora com entusiasmo quando a ANFAVEA divulga que o país bateu mais um recorde na produção e comercialização de veículos automotores destinados ao transporte individual. Para alguém em algum lugar isso deve ser uma notícia boa. E se o Jornal Nacional diz assim, assim deve ser.
E esse tripé meio capenga também é incapaz de se sustentar sobre as organizações da sociedade civil. Por uma razão muito singela: os donos de “ONGs”, os ecologistas do greenpeace e do wwf, os que votaram na Marina Silva, quem se preocupa com sustentabilidade e em construir um mundo melhor, toda essa gente idealista e comprometida com o social e o ambiental são tão membros dessa elite econômica que anda de automóvel quanto nossos políticos. E não serei eu que tentarei desemaranhar esse nó de contradições embebido num idealismo de segunda categoria que caracteriza o movimento verde no mundo de hoje. Querem a sustentabilidade sem abrir mão dos privilégios, sem mexer na estrutura de dominação, sem nem sequer questionar os fundamentos da economia industrial sobre a qual se assenta o capitalismo tardio. Resumindo a ópera: os ecologistas acham que desenvolvendo novas tecnologias e mudando “detalhezinhos” sem importância nos hábitos de consumo dessa massa informe que é a sociedade contemporânea podemos criar um “mundo melhor” para as plantas, animais e pessoas (não necessariamente nessa ordem). Claro que isso implica em fazer automóveis movidos a energia solar ou sei lá o quê, pois assim se evita o efeito estufa e o aquecimento global. Pro problema que estamos tratando aqui, enfim, trata-se de manter tudo como está. Ou piorar.
Mobilização de massas seria uma última e desesperada alternativa. Quem pode se mobilizar tendo filhos pra criar, patrão cobrando resultados, necessidades de consumo para serem satisfeitas e a prestação da casa própria para vencer? Restou mais uma vez para os jovens. E eles até que foram às ruas (em número irrisório) protestar contra o aumento de passagem nesse começo de ano. Sintomaticamente, foram reprimidos com violência pelo aparato policial do Estado, já que estavam tentando bloquear avenidas importantes da cidade e (pasmém) prejudicando o direito de ir e vir daqueles “pobres” e desavisados motoristas de automóvel.
Diante de tudo isso, é preciso em primeiro lugar reconhecer que a condição precária da circulação de pessoas nas grandes cidades é um problema político e como problema político deve ser formulado e pensado. Lutar contra as grandes corporações multinacionais fabricantes de automóveis e seus poderosos lobbies parece uma tarefa um tanto ingrata, mas há de se colocar a questão em termos de sobrevivência da cidade como organismo vivo e de garantia da sanidade mental e física dos habitantes que nela residem. As companhias de tabaco também já foram maiores e mais poderosas do que são. Ponto dois: há de se introduzir, por algum meio, no debate político medidas que, embora paliativas, possam ao menos amenizar esse problema da circulação a curto prazo: sim ao pedágio urbano, sim à ampliação do rodízio de veículos, sim às restrições a fabricação, comércio e utilização de meios de transporte individual nas grandes cidades. Se isso soa impopular, não rende voto ou pesquisas de opinião demonstram ser inviável, que ao menos algum partido minúsculo de extrema esquerda assuma de forma clara esse discurso de desautomobilização da sociedade. De tanto repetir e argumentar, algo há de se infiltrar pelos tortuosos caminhos da política, da mídia ou da opinião pública.
Respondendo a pergunta do início: em São Paulo, nós, passageiros de um sistema de transporte coletivo de péssima qualidade é que subsidiamos o suposto direito de uma elite imbecil optar por utilizar o seu transporte individual para ir do trabalho para casa. Que ao menos se faça como na periferia de Paris e comece-se a queimar automóveis todos as noites. Já seria um primeiro sinal de vida em uma sociedade moribunda.
O número de automóveis na cidade é de 5.093.169 e o de motocicletas 875.887, de modo que podemos presumir que 5.969.056 utilizam o transporte individual para se locomoverem de casa para o trabalho, uma vez que é raríssima a presença de mais de uma pessoa em cada automóvel e as famílias burguesas costumam ter mais de um automóvel por pessoa (fica elas por elas).
De cara, que conclusões podemos tirar desses números?
Em primeiro lugar, que há mais pessoas que utilizam transporte coletivo (e aqui nem se levou em conta o trem e o metrô) do que transporte individual. Em segundo lugar, que o custo do sistema de transporte coletivo “gerido” pela prefeitura é altíssimo, sob qualquer ponto de vista, e causa indignação se levarmos em conta que os ônibus invariavelmente circulam superlotados e numa velocidade média inferior a de uma bicicleta. Transporte coletivo caro e de péssima qualidade, como pode atestar qualquer famigerado “usuário” que já tenha se aventurado a subir num ônibus numa sexta-feira a tarde com ou sem chuva.
A crer no que a mídia vem publicando desde o último reajuste de tarifa no começo deste ano, trata-se de um problema crônico, em parte decorrente da má gestão dos administradores públicos e em parte decorrente da saturação das principais vias de tráfico da cidade (que, como as chuvas de verão ou a seca do Nordeste é um fenômeno da natureza). Segundo os “especialistas” de plantão, a solução seria investir em metrô para que, posteriormente, as classes médias e burguesas julguem que o transporte coletivo atende às suas necessidades de conforto e rapidez e abandonem voluntariamente o uso dos automóveis.
Números e especialistas de plantão com lugar cativo na mídia tratam a realidade social com frieza e objetividade. Um passo adiante no nosso argumento seria olhar mais atentamente essas cifras e nos perguntarmos o que números e especialistas de plantão querem esconder quando dizem que o transporte coletivo em São Paulo é inviável (cada ônibus custaria meio milhão de reais por ano) e que uma solução de médio prazo depende da boa vontade das classes mais abastadas em abandonarem voluntariamente seus automóveis para se enfiarem num metrô confortável, estilo Paris ou New York.
Comecemos por uma observação empírica: a saturação das principais vias de tráfico da cidade de São Paulo não é um fenômeno da natureza. Ao contrário da maioria dos fatos sociais, aqui é fácil perceber que existe uma relação de causa e efeito: se 5.093.169 de veículos saem ao mesmo tempo para transportar seus donos engravatados todos os dias um pouco antes das oito e um pouco depois das dezoito, inevitavelmente os 17.000 km de ruas da cidade ficarão saturados. De onde se conclui que: o trânsito de São Paulo é causado por uma minoria de pessoas que utiliza o automóvel como meio de transporte e por mais ninguém. E por que o sistema de ônibus da cidade é lento, deficitário e de má qualidade? Resposta idêntica: uma minoria de pessoas utiliza o automóvel como meio de transporte. Evidente: se são necessários 11 ônibus em cada linha circulando numa velocidade lenta, caso não houvesse trânsito o mesmo número de pessoas poderia ser transportado com, digamos, metade dessa frota, uma vez que grande parte do custo operacional dessas linhas é fixo (salário de cobradores e motoristas, encargos, impostos, etc.). Se um ônibus X vai do ponto A ao ponto B em três horas, um ônibus Y que vá do ponto A ao ponto B em uma hora pode fazer o mesmo serviço de três ônibus X. Sem automóvel na rua, o sistema de transporte coletivo não é deficitário, não demanda subsídios e é capaz de transportar o mesmo número de passageiros com muito mais conforto e rapidez. Simples assim.
Outro passo no nosso argumento: pessoas não são simplesmente pessoas, cidadãos genéricos, “usuários” do sistema. Pessoas têm diferenças e a primeira grande diferença que chama nossa atenção é que algumas têm mais poder do que outras: poder de mandar em outras pessoas, poder de ter mais dinheiro, poder de poder comprar mais coisas, poder de optar por empregos melhores, poder de escolher se querem ir pro trabalho a pé, de ônibus, de carro ou de helicóptero. E aqui mais uma vez, por mais incrível que possa parecer, também não se trata de um fenômeno da natureza, não se trata de “Deus criou o mundo assim”, não se trata de ser bem nascido, de ter as melhores oportunidades, de estudar em escola particular ou de fazer as escolhas certas na vida. A apropriação desigual da riqueza socialmente produzida entre as diferentes classes sociais é um fenômeno muito bem estudado e comprovado empiricamente desde o século XIX (pelo menos). Qualquer aspirante a estudante de introdução à sociologia é capaz de caracterizar a sociedade capitalista (e outras sociedades também) como dotada de uma infra-estrutura econômica que propicia que a riqueza socialmente produzida, seja na forma de dinheiro ou mercadoria, seja apropriada de maneira desigual pelas diferentes classes sociais. Os mecanismos para que isso aconteça são vários e têm nomes diferentes segundo cada autor e cada escola de pensamento, mas podemos resumir grosso modo assim: separação entre o trabalhador, os meios de produção e o produto do seu trabalho; valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual; concentração de capital e terras nas mãos de umas poucas famílias; leis, normas e um sistema judicial e penitenciário moldados para garantir a propriedade privada, os mecanismos de herança e a reprodução da desigualdade; diferenças no valor do salário em função de sexo, etnia, idade, origem social e local de residência (fenômeno que os liberais chamam de “produtividade do trabalho”), etc. etc. etc.
Toda essa volta para chegar numa segunda conclusão empírica: aqueles que andam de automóvel não são simplesmente uma minoria dentro de um todo difuso, mas contém dentro de si os limites de uma classe social muito bem definida: os que podem mais. Para não falar em burguesia, proletariado, classe média ou outros conceitos que se tornaram ocos pelo uso excessivo, falemos de forma bem clara: toda a elite de São Paulo usa automóvel como seu meio de transporte rotineiro. Claro que pessoas de origem humilde, que moram lá em Taboão da Serra ou Itaquaquecetuba também têm seus carrinhos populares e o governo Lula permitiu que muitos deles pudessem enfim realizar esse sonho de infância, mas isso não invalida o nosso argumento: todos os membros da elite de São Paulo (exceção aos que voam de helicóptero) usam automóvel todos os dias. Enfim chegamos ao ponto: o uso de transporte individual é um problema de natureza política, em tudo oposto a um fenômeno natural. Levando em conta que dos 513 deputados eleitos, ao menos 220 declararam possuir mais de R$ 1.000.000,00 em patrimônio (esses são os que declaram, veja bem), sabemos que esse problema jamais será colocado pelos políticos de plantão nos termos aqui tratados, uma vez que praticamente todos os membros da elite política brasileira são ao mesmo tempo membro dessa elite econômica que só vai pensar em deixar o conforto do automóvel quando o metrô de São Paulo for confortável como o de New York e Paris.
Um argumento torto e um círculo vicioso. O argumento torto: mesmo em New York e Paris, muitas pessoas andam de automóvel e não julgam que o metrô é capaz de fornecer a privacidade e o conforto a que elas acreditam fazer jus. O círculo vicioso: políticos que poderiam investir verbas públicas em um metrô que ficaria pronto daqui a duas gerações preferem destinar recursos a construção de rodovias, largas avenidas, subsídios a montadoras multinacionais e grandes obras de impacto tocadas por aquelas mesmas poucas empreiteiras de sempre (Odebrecht, Camargo Corrêa), uma vez que se trata de angariar apoio público (e privado) para tentar uma nova reeleição.
Concluímos, portanto, que não se pode esperar da elite política uma mudança de enfoque com relação ao transporte de indivíduos nas grandes cidades. Entretanto, numa democracia como a nossa, ainda há esperanças: uma grande mobilização da sociedade civil, das organizações não-governamentais ou o barulho da imprensa são maneiras de pelo menos dar o ponta pé inicial em uma grande transformação qualquer.
Porém, olhando mais de perto o que é a mídia no Brasil já perdemos uma perna desse tripé, afinal as montadoras de automóvel tornaram-se as grandes investidoras no mercado publicitário de uns anos pra cá, ocupando um espaço que já foi da propaganda de cigarro. Basta dar uma sapeada por qualquer canal para notar que pelo menos três em cada cinco anúncios no horário nobre de qualquer grande emissora de televisão são de montadoras multinacionais. E não é por acaso que a Fátima Bernardes abre seu belo sorriso e comemora com entusiasmo quando a ANFAVEA divulga que o país bateu mais um recorde na produção e comercialização de veículos automotores destinados ao transporte individual. Para alguém em algum lugar isso deve ser uma notícia boa. E se o Jornal Nacional diz assim, assim deve ser.
E esse tripé meio capenga também é incapaz de se sustentar sobre as organizações da sociedade civil. Por uma razão muito singela: os donos de “ONGs”, os ecologistas do greenpeace e do wwf, os que votaram na Marina Silva, quem se preocupa com sustentabilidade e em construir um mundo melhor, toda essa gente idealista e comprometida com o social e o ambiental são tão membros dessa elite econômica que anda de automóvel quanto nossos políticos. E não serei eu que tentarei desemaranhar esse nó de contradições embebido num idealismo de segunda categoria que caracteriza o movimento verde no mundo de hoje. Querem a sustentabilidade sem abrir mão dos privilégios, sem mexer na estrutura de dominação, sem nem sequer questionar os fundamentos da economia industrial sobre a qual se assenta o capitalismo tardio. Resumindo a ópera: os ecologistas acham que desenvolvendo novas tecnologias e mudando “detalhezinhos” sem importância nos hábitos de consumo dessa massa informe que é a sociedade contemporânea podemos criar um “mundo melhor” para as plantas, animais e pessoas (não necessariamente nessa ordem). Claro que isso implica em fazer automóveis movidos a energia solar ou sei lá o quê, pois assim se evita o efeito estufa e o aquecimento global. Pro problema que estamos tratando aqui, enfim, trata-se de manter tudo como está. Ou piorar.
Mobilização de massas seria uma última e desesperada alternativa. Quem pode se mobilizar tendo filhos pra criar, patrão cobrando resultados, necessidades de consumo para serem satisfeitas e a prestação da casa própria para vencer? Restou mais uma vez para os jovens. E eles até que foram às ruas (em número irrisório) protestar contra o aumento de passagem nesse começo de ano. Sintomaticamente, foram reprimidos com violência pelo aparato policial do Estado, já que estavam tentando bloquear avenidas importantes da cidade e (pasmém) prejudicando o direito de ir e vir daqueles “pobres” e desavisados motoristas de automóvel.
Diante de tudo isso, é preciso em primeiro lugar reconhecer que a condição precária da circulação de pessoas nas grandes cidades é um problema político e como problema político deve ser formulado e pensado. Lutar contra as grandes corporações multinacionais fabricantes de automóveis e seus poderosos lobbies parece uma tarefa um tanto ingrata, mas há de se colocar a questão em termos de sobrevivência da cidade como organismo vivo e de garantia da sanidade mental e física dos habitantes que nela residem. As companhias de tabaco também já foram maiores e mais poderosas do que são. Ponto dois: há de se introduzir, por algum meio, no debate político medidas que, embora paliativas, possam ao menos amenizar esse problema da circulação a curto prazo: sim ao pedágio urbano, sim à ampliação do rodízio de veículos, sim às restrições a fabricação, comércio e utilização de meios de transporte individual nas grandes cidades. Se isso soa impopular, não rende voto ou pesquisas de opinião demonstram ser inviável, que ao menos algum partido minúsculo de extrema esquerda assuma de forma clara esse discurso de desautomobilização da sociedade. De tanto repetir e argumentar, algo há de se infiltrar pelos tortuosos caminhos da política, da mídia ou da opinião pública.
Respondendo a pergunta do início: em São Paulo, nós, passageiros de um sistema de transporte coletivo de péssima qualidade é que subsidiamos o suposto direito de uma elite imbecil optar por utilizar o seu transporte individual para ir do trabalho para casa. Que ao menos se faça como na periferia de Paris e comece-se a queimar automóveis todos as noites. Já seria um primeiro sinal de vida em uma sociedade moribunda.
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Antoine Doinel
Recentemente, tive a oportunidade de assistir, em sequência, aos cinco filmes que Truffaut filmou sobre a trajetória do personagem Antoine Doinel, interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud. Como que realizando um desejo secreto de todo espectador/leitor, François Truffaut permite que nós respondamos aquelas perguntas que invariavelmente se levantam quando fechamos a última contracapa do livro ou somos surpreendidos no meio de uma história interessante por um letreiro escrito The End: e depois, o que acontece com ele e com ela? Como continua? E o enfant térrible Antoine Doinel, um menino que se sente estrangeiro em casa, na escola, no reformatório ou morando escondido na casa do coleguinha burguês, não deixa nada a desejar em relação aos seus primos literários Holden Caulfield, Julien Sorrel e Stephen Dedalus.
Há um intervalo de vinte anos entre o primeiro filme – Os Incompreendidos, de 1959 – e o último – Amor em Fuga, feito em 1979 – e pode-se agrupar os títulos em duas grandes categorias: de um lado, os dois primeiros, filmados em preto e branco e que tratam da juventude do protagonista, e de outro os três últimos, em que a ação orbita ao redor da personagem Christine (Claude Jade), esposa e depois ex-mulher de Doinel. O intervalo entre essas duas datas – 1959 e 1979 – corresponde a um período de intensas transformações (para melhor) na cultura, nos movimentos sociais, na moralidade pública, no sexo, no cinema e certamente pelo menos nessa última categoria Truffaut teve a sua responsabilidade. Não só ele, evidente, afinal era um período de grandes realizadores nos dois lados do Atlântico: Godard, Rohmer, Pasolini, Antonioni, Resnais, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Bergman, Glauber, Fassbinder e por aí vai. Claro que esse é um viés ocidental de periodizar e glorificar suas próprias coisas e experiências, mas acho difícil um ser humano não tirar alguma coisa de boa se se der ao trabalho de assistir a filmografia completa de pelo menos esses poucos que eu citei.
Os Incompreendidos (1959) é o primeiro longa metragem de Truffaut, então com 27 anos de idade e que filma a história (bastante autobiográfica) de um menino parisiense no período pós-segunda guerra mundial que vai sendo sistematicamente afastado do centro (aquilo que representa tudo o que é bom e verdadeiro socialmente) em direção a margem da margem da margem. Nessa trajetória, vários personagens (eles mesmos já marginalizados cada um ao seu modo) contribuem com alguns “empurrõezinhos” providenciais: a mãe, o padrasto, o amante barra chefe da mãe, o professor, o colega de classe, o diretor da escola, o delegado, a psicóloga e todas as espécies de “assistentes sociais” típicos dessas sociedades capitalistas policialescas e totalitárias que nós conhecemos tão intimamente nos livros de Foucault. Antoine Doinel empreende sua fuga em seis movimentos. Movimento número um: ao se dar conta de que esquecera de fazer o dever de casa e meio que incentivado por um colega “má companhia”, Antoine foge da escola e mata aula. Movimento número dois: por mentir para os pais afirmando que fora a escola quando cabulara aula e por mentir ao diretor da escola afirmando que faltara porque a mãe morrera, Antoine Doinel se dá conta de que a situação na casa dos pais (mãe solteira e promíscua + padrasto) tornou-se insustentável e foge de casa. Movimento número três: readmitido na casa materna, o menino decora trechos de Balzac, os utiliza num exame de redação na escola, é acusado de plágio pelo professor, bate no colega que o conduziria à diretoria e foge da escola de vez. Quarto movimento: depois de roubar uma máquina de escrever ultra-pesada e trambolhenta do escritório do padrasto e não conseguir vendê-la para um atravessador, Antoine entra furtivamente durante a noite no escritório para devolver o objeto, mas é pego pelo segurança e preso pela polícia. Quinto movimento: após se aconselharem com as autoridades, os pais decidem internar o filho numa instituição estilo Febem (francesa, lógico) e o garoto é banido das ruas de Paris. Sexto e último movimento: no meio de uma partida de futebol, Antoine Doinel foge dessa Febem e corre em direção ao mar (que nunca d´antes vira), numa das melhores cenas (disparada) do cinema nosso ocidental. Enfim, um Rimbaud/Henry Miller/Carlitos de doze anos mestre na arte do “se virar”.
Antoine e Colette (1962) não é um longa metragem e continua a história de um ponto bastante adiante daquele em que Os Incompreendidos terminara (fato que é recorrente nos cinco filmes). Nesse filme vemos um Antoine Doinel aos vinte anos, apaixonado por música clássica, morando sozinho num quartinho minúsculo depois de sair do internato e trabalhando numa fábrica de discos de vinil. Num desses concertos ele se encanta por uma garota, Colette, e investe na sua conquista. Consegue conquistar os pais dela, mas com ela fica mais na base do platonismo. Um filme cute (sem nenhum trocadilho....).
Beijos Roubados é o filme que Truffaut rodou em 1968. Para a wikipedia francesa, trata-se de um filme sobre o tema da instabilidade e do provisório. Realmente, ficamos sabendo que Antoine estava servindo ao exército e apaixonado por uma tal de Christine. Nas forças armadas ele é preso várias vezes, considerado insubordinado e depois dispensado sem qualquer carta de recomendação. De volta a velha Paris, ele obtém a ajuda dos pais de Christine (de novo o tema dos pais da namorada) para conseguir um emprego de vigia noturno em um hotel, que não dura muito tempo. Logo após, Antoine se torna funcionário de uma agência de detetives particulares, chega a exercer a profissão com empenho e boa vontade, mas é despedido depois que o chefe descobre que ele havia transado com a esposa de um comerciante que contratara a agência para investigar sua própria vida. Os beijos roubados do título (baisers volés no original) são uma referência às cenas entre os protagonistas Jean-Pierre Leaud e Claude Jade, uma vez na adega na casa dos pais de Christine e outra vez num táxi, ela dentro e ele do lado de fora da janela do veículo parado. Enfim, um filme muito interessante por diversos aspectos, num Truffaut já mais amadurecido, mas sem perder a inventividade e a sinceridade passional que se tornaram suas marcas registrada desde a estreia.
Domicílio Conjugal (1970) é o ponto alto de toda a saga Antoine Doinel. Poético e prosaico em doses muito bem conjugadas, o filme é um retrato do amor (ou da arte de amar, sei lá) tal qual sobre ele se filosofava – e sobretudo se praticava – e muito – nesse final de anos 1960. Vemos Antoine e Christine casados, construindo um projeto de vida juntos num tempo em que a Europa já estava recuperada economicamente (jamais moralmente) do impacto da segunda grande guerra e a juventude, a arte engajada, os movimentos revolucionários de todas as ordens, a pílula anticoncepcional e o ácido lisérgico botavam muitas interrogações na cabeça dos que se perguntavam o que é ser um bom cidadão burguês e como constituir uma família honrada. No começo, Antoine aposta num novo negócio um tanto ousado: ele tinge flores. Faz experiências e cria expectativas de sucesso: uma metáfora sutil e profunda sobre o que é fazer cinema: transformar rejeitadas flores brancas em vibrantes flores vermelhas, vender ilusão. Enquanto isso, Christine dá aulas de violino para uma menina prodígio, cuja mãe às vezes se esquece de pagar a professora. Surge uma oportunidade para Antoine trabalhar em uma empresa multinacional norte-americana; durante a entrevista de emprego, há um quid pro quo e, como um Homer Simpson, Doinel é contratado para um emprego de sonho: ele pilota, por controle remoto, barquinhos numa maquete de um porto. Outra metáfora sobre o fazedor de cinema: lidar com réplicas, teleguiar manequins animados numa encenação de realidade alternativa. A seguir, Antoine e Christine têm um filho: ela lida com o marido de forma ríspida na noite logo após o parto e ele registra a criança com um nome que ele queria, mas que ela não aprovara: Alphonse. Mais adiante, Antoine Doinel começa a ter um caso com uma japonesa e trai Christine pela primeira vez. “Não é uma outra mulher, é um outro continente” diz Antoine. Daí em diante o filme se torna ainda melhor: um diálogo desencontrado entre ocidente e oriente, uma mensagem da amante japonesa para seu amante francês criptografada orientalmente dentro de flores por caminhos tortos denuncia o caso para Christine. Ela se veste como uma gueixa e prepara um jantar japonês para tentar se comunicar com seu marido, mas os dois percebem que diante da hipocrisia de Antoine (um mentiroso nato desde criança) e, mais do que isso, da situação banalmente burguesa e falsa em que os dois estão imersos, de um jeito ou de outro algo contaminou a relação que eles cultivaram. As cenas que então se passam não merecem ser transcritas em comentários ou críticas: há de se assistir e concluir por si próprio. Ecos desse filme/obra de arte podem se ver num outro filme do próprio Truffaut O Homem Que Amava As Mulheres (1977) e em Cenas De Um Casamento (1973) do Ingmar Bergman que, para mim, é o melhor filme que já se fez no hemisfério ocidental.
O último filme da série é Amor Em Fuga, de 1979. Filme construído sobre flashbacks que reproduzem cenas dos outros quatro, aqui se vê um Antoine divorciado de Christine (cada um sabe ser o grande amor da vida do outro) e vivendo um romance com Sabine, que trabalha numa loja de discos. Sucessivos encontros fazem o heroi avaliar o que foi o seu passado, seus relacionamentos com a mãe e com as mulheres de sua vida. Há que se divorciar de Christine depois que os dois já estavam separados de fato: saindo do fórum, ele revê Colette (lindíssima atriz Marie-France Pisier), agora uma advogada que tem um caso com o irmão de Sabine, um vendedor de livros; desde a metade de Domicílio Conjugal, Antoine escrevia um romance, na verdade suas memórias afetivas transfiguradas. Na estação de trem, quando levava seu filho Alphonse para embarcar numa excursão, Antointe Doinel vê Colette novamente em um outro trem e se joga para dentro da composição prestes a sair. Durante a viagem, os dois fazem um balanço do que foram suas vidas, seu encontro no final da adolescência, o peso das escolhas e o talento literário de Antoine. |Conhecemos um outro ponto de vista, o de Colette, que enxergava na obsessão de Doinel agradar seus pais e, de certa maneira, “forçar a barra” para ficar com ela, inclusive se mudando para um apartamento em frente a casa dos pais dela, sinais de imaturidade. Mais adiante, as três mulheres da vida de Antoine se encontram por acaso, se reconhecem e admitem que o amaram cada uma ao seu modo e no seu tempo. O outro encontro fortuito que motiva a narrativa é com o ex-amante da mãe do menino que matava aula em Os Incompreendidos e que fornece ao heroi um novo ponto de vista sobre quem era a sua mãe: vemos uma mulher sobrecarregada pela tripla jornada de mãe, mulher da casa, trabalhadora de escritório, oprimida por um meio social limitado, que não permitia que ela desse plena vazão aos seus desejos. O ex-amante interroga Antoine sobre o motivo de ele não ter ido ao enterro da mãe e ficamos sabendo que ele não fora pois estava preso na época do exército, no começo de Beijos Roubados. Antoine sequer sabia onde a mãe estava enterrada e, então, ele e o ex-amante vão ao túmulo da mãe no cemitério. O último capítulo da saga de Antoine Doinel busca juntar as pontas de sua trajetória e vemos um movimento exatamente inverso àquele de Os Incompreendidos: se nesse filme o jovem Antoine está sempre fugindo de alguma coisa que o oprime, em Amor em Fuga trata-se de acertar as contas com o passado e buscar dar algum sentido de unidade à vida de um protagonista que sempre esteve mudando, seja de mulher, de casa ou de emprego - mas que até o fim guardou a essência do menino rebelde.
Ao final, ainda nos questionamos sobre o que aconteceria depois, afinal no último capítulo o personagem ainda tem só trinta e cinco anos. Truffaut morreu uns poucos anos depois de filmar o Amor Em Fuga e nunca rodou um filme sobre a velhice ou a maturidade. Talvez porque sejam justamente o ímpeto e a chama da juventude e seu espírito sempre contestador que animaram a vida do diretor e de sua geração. De qualquer maneira, os cinco filmes são bem amarrados e constituem uma narrativa completa em si mesma (ainda que por vezes fragmentária e descontínua), à maneira de Em Busca Do Tempo Perdido. Em resumo: do diálogo quádruplo entre diretor, ator, personagem e espectador, esse último certamente é capaz de viver uma experiência interior regeneradora ao topar assistir aos cinco filmes na sequência em que foram feitos. Ao mesmo tempo em que tudo de fundamental já estava lá em Os Incompreendidos, acompanhar a trajetória do Antoine Doinel adulto nos faz ver sob novas perspectivas as cenas desse primeiro filme. Longe de todo determinismo sociologizante mais grosseiro, a trajetória do personagem/pária é imprevisível, poética, singular e construída/reconstruída ao longo de cada etapa do caminho. Como na vida e na grande arte.
Há um intervalo de vinte anos entre o primeiro filme – Os Incompreendidos, de 1959 – e o último – Amor em Fuga, feito em 1979 – e pode-se agrupar os títulos em duas grandes categorias: de um lado, os dois primeiros, filmados em preto e branco e que tratam da juventude do protagonista, e de outro os três últimos, em que a ação orbita ao redor da personagem Christine (Claude Jade), esposa e depois ex-mulher de Doinel. O intervalo entre essas duas datas – 1959 e 1979 – corresponde a um período de intensas transformações (para melhor) na cultura, nos movimentos sociais, na moralidade pública, no sexo, no cinema e certamente pelo menos nessa última categoria Truffaut teve a sua responsabilidade. Não só ele, evidente, afinal era um período de grandes realizadores nos dois lados do Atlântico: Godard, Rohmer, Pasolini, Antonioni, Resnais, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Bergman, Glauber, Fassbinder e por aí vai. Claro que esse é um viés ocidental de periodizar e glorificar suas próprias coisas e experiências, mas acho difícil um ser humano não tirar alguma coisa de boa se se der ao trabalho de assistir a filmografia completa de pelo menos esses poucos que eu citei.
Os Incompreendidos (1959) é o primeiro longa metragem de Truffaut, então com 27 anos de idade e que filma a história (bastante autobiográfica) de um menino parisiense no período pós-segunda guerra mundial que vai sendo sistematicamente afastado do centro (aquilo que representa tudo o que é bom e verdadeiro socialmente) em direção a margem da margem da margem. Nessa trajetória, vários personagens (eles mesmos já marginalizados cada um ao seu modo) contribuem com alguns “empurrõezinhos” providenciais: a mãe, o padrasto, o amante barra chefe da mãe, o professor, o colega de classe, o diretor da escola, o delegado, a psicóloga e todas as espécies de “assistentes sociais” típicos dessas sociedades capitalistas policialescas e totalitárias que nós conhecemos tão intimamente nos livros de Foucault. Antoine Doinel empreende sua fuga em seis movimentos. Movimento número um: ao se dar conta de que esquecera de fazer o dever de casa e meio que incentivado por um colega “má companhia”, Antoine foge da escola e mata aula. Movimento número dois: por mentir para os pais afirmando que fora a escola quando cabulara aula e por mentir ao diretor da escola afirmando que faltara porque a mãe morrera, Antoine Doinel se dá conta de que a situação na casa dos pais (mãe solteira e promíscua + padrasto) tornou-se insustentável e foge de casa. Movimento número três: readmitido na casa materna, o menino decora trechos de Balzac, os utiliza num exame de redação na escola, é acusado de plágio pelo professor, bate no colega que o conduziria à diretoria e foge da escola de vez. Quarto movimento: depois de roubar uma máquina de escrever ultra-pesada e trambolhenta do escritório do padrasto e não conseguir vendê-la para um atravessador, Antoine entra furtivamente durante a noite no escritório para devolver o objeto, mas é pego pelo segurança e preso pela polícia. Quinto movimento: após se aconselharem com as autoridades, os pais decidem internar o filho numa instituição estilo Febem (francesa, lógico) e o garoto é banido das ruas de Paris. Sexto e último movimento: no meio de uma partida de futebol, Antoine Doinel foge dessa Febem e corre em direção ao mar (que nunca d´antes vira), numa das melhores cenas (disparada) do cinema nosso ocidental. Enfim, um Rimbaud/Henry Miller/Carlitos de doze anos mestre na arte do “se virar”.
Antoine e Colette (1962) não é um longa metragem e continua a história de um ponto bastante adiante daquele em que Os Incompreendidos terminara (fato que é recorrente nos cinco filmes). Nesse filme vemos um Antoine Doinel aos vinte anos, apaixonado por música clássica, morando sozinho num quartinho minúsculo depois de sair do internato e trabalhando numa fábrica de discos de vinil. Num desses concertos ele se encanta por uma garota, Colette, e investe na sua conquista. Consegue conquistar os pais dela, mas com ela fica mais na base do platonismo. Um filme cute (sem nenhum trocadilho....).
Beijos Roubados é o filme que Truffaut rodou em 1968. Para a wikipedia francesa, trata-se de um filme sobre o tema da instabilidade e do provisório. Realmente, ficamos sabendo que Antoine estava servindo ao exército e apaixonado por uma tal de Christine. Nas forças armadas ele é preso várias vezes, considerado insubordinado e depois dispensado sem qualquer carta de recomendação. De volta a velha Paris, ele obtém a ajuda dos pais de Christine (de novo o tema dos pais da namorada) para conseguir um emprego de vigia noturno em um hotel, que não dura muito tempo. Logo após, Antoine se torna funcionário de uma agência de detetives particulares, chega a exercer a profissão com empenho e boa vontade, mas é despedido depois que o chefe descobre que ele havia transado com a esposa de um comerciante que contratara a agência para investigar sua própria vida. Os beijos roubados do título (baisers volés no original) são uma referência às cenas entre os protagonistas Jean-Pierre Leaud e Claude Jade, uma vez na adega na casa dos pais de Christine e outra vez num táxi, ela dentro e ele do lado de fora da janela do veículo parado. Enfim, um filme muito interessante por diversos aspectos, num Truffaut já mais amadurecido, mas sem perder a inventividade e a sinceridade passional que se tornaram suas marcas registrada desde a estreia.
Domicílio Conjugal (1970) é o ponto alto de toda a saga Antoine Doinel. Poético e prosaico em doses muito bem conjugadas, o filme é um retrato do amor (ou da arte de amar, sei lá) tal qual sobre ele se filosofava – e sobretudo se praticava – e muito – nesse final de anos 1960. Vemos Antoine e Christine casados, construindo um projeto de vida juntos num tempo em que a Europa já estava recuperada economicamente (jamais moralmente) do impacto da segunda grande guerra e a juventude, a arte engajada, os movimentos revolucionários de todas as ordens, a pílula anticoncepcional e o ácido lisérgico botavam muitas interrogações na cabeça dos que se perguntavam o que é ser um bom cidadão burguês e como constituir uma família honrada. No começo, Antoine aposta num novo negócio um tanto ousado: ele tinge flores. Faz experiências e cria expectativas de sucesso: uma metáfora sutil e profunda sobre o que é fazer cinema: transformar rejeitadas flores brancas em vibrantes flores vermelhas, vender ilusão. Enquanto isso, Christine dá aulas de violino para uma menina prodígio, cuja mãe às vezes se esquece de pagar a professora. Surge uma oportunidade para Antoine trabalhar em uma empresa multinacional norte-americana; durante a entrevista de emprego, há um quid pro quo e, como um Homer Simpson, Doinel é contratado para um emprego de sonho: ele pilota, por controle remoto, barquinhos numa maquete de um porto. Outra metáfora sobre o fazedor de cinema: lidar com réplicas, teleguiar manequins animados numa encenação de realidade alternativa. A seguir, Antoine e Christine têm um filho: ela lida com o marido de forma ríspida na noite logo após o parto e ele registra a criança com um nome que ele queria, mas que ela não aprovara: Alphonse. Mais adiante, Antoine Doinel começa a ter um caso com uma japonesa e trai Christine pela primeira vez. “Não é uma outra mulher, é um outro continente” diz Antoine. Daí em diante o filme se torna ainda melhor: um diálogo desencontrado entre ocidente e oriente, uma mensagem da amante japonesa para seu amante francês criptografada orientalmente dentro de flores por caminhos tortos denuncia o caso para Christine. Ela se veste como uma gueixa e prepara um jantar japonês para tentar se comunicar com seu marido, mas os dois percebem que diante da hipocrisia de Antoine (um mentiroso nato desde criança) e, mais do que isso, da situação banalmente burguesa e falsa em que os dois estão imersos, de um jeito ou de outro algo contaminou a relação que eles cultivaram. As cenas que então se passam não merecem ser transcritas em comentários ou críticas: há de se assistir e concluir por si próprio. Ecos desse filme/obra de arte podem se ver num outro filme do próprio Truffaut O Homem Que Amava As Mulheres (1977) e em Cenas De Um Casamento (1973) do Ingmar Bergman que, para mim, é o melhor filme que já se fez no hemisfério ocidental.
O último filme da série é Amor Em Fuga, de 1979. Filme construído sobre flashbacks que reproduzem cenas dos outros quatro, aqui se vê um Antoine divorciado de Christine (cada um sabe ser o grande amor da vida do outro) e vivendo um romance com Sabine, que trabalha numa loja de discos. Sucessivos encontros fazem o heroi avaliar o que foi o seu passado, seus relacionamentos com a mãe e com as mulheres de sua vida. Há que se divorciar de Christine depois que os dois já estavam separados de fato: saindo do fórum, ele revê Colette (lindíssima atriz Marie-France Pisier), agora uma advogada que tem um caso com o irmão de Sabine, um vendedor de livros; desde a metade de Domicílio Conjugal, Antoine escrevia um romance, na verdade suas memórias afetivas transfiguradas. Na estação de trem, quando levava seu filho Alphonse para embarcar numa excursão, Antointe Doinel vê Colette novamente em um outro trem e se joga para dentro da composição prestes a sair. Durante a viagem, os dois fazem um balanço do que foram suas vidas, seu encontro no final da adolescência, o peso das escolhas e o talento literário de Antoine. |Conhecemos um outro ponto de vista, o de Colette, que enxergava na obsessão de Doinel agradar seus pais e, de certa maneira, “forçar a barra” para ficar com ela, inclusive se mudando para um apartamento em frente a casa dos pais dela, sinais de imaturidade. Mais adiante, as três mulheres da vida de Antoine se encontram por acaso, se reconhecem e admitem que o amaram cada uma ao seu modo e no seu tempo. O outro encontro fortuito que motiva a narrativa é com o ex-amante da mãe do menino que matava aula em Os Incompreendidos e que fornece ao heroi um novo ponto de vista sobre quem era a sua mãe: vemos uma mulher sobrecarregada pela tripla jornada de mãe, mulher da casa, trabalhadora de escritório, oprimida por um meio social limitado, que não permitia que ela desse plena vazão aos seus desejos. O ex-amante interroga Antoine sobre o motivo de ele não ter ido ao enterro da mãe e ficamos sabendo que ele não fora pois estava preso na época do exército, no começo de Beijos Roubados. Antoine sequer sabia onde a mãe estava enterrada e, então, ele e o ex-amante vão ao túmulo da mãe no cemitério. O último capítulo da saga de Antoine Doinel busca juntar as pontas de sua trajetória e vemos um movimento exatamente inverso àquele de Os Incompreendidos: se nesse filme o jovem Antoine está sempre fugindo de alguma coisa que o oprime, em Amor em Fuga trata-se de acertar as contas com o passado e buscar dar algum sentido de unidade à vida de um protagonista que sempre esteve mudando, seja de mulher, de casa ou de emprego - mas que até o fim guardou a essência do menino rebelde.
Ao final, ainda nos questionamos sobre o que aconteceria depois, afinal no último capítulo o personagem ainda tem só trinta e cinco anos. Truffaut morreu uns poucos anos depois de filmar o Amor Em Fuga e nunca rodou um filme sobre a velhice ou a maturidade. Talvez porque sejam justamente o ímpeto e a chama da juventude e seu espírito sempre contestador que animaram a vida do diretor e de sua geração. De qualquer maneira, os cinco filmes são bem amarrados e constituem uma narrativa completa em si mesma (ainda que por vezes fragmentária e descontínua), à maneira de Em Busca Do Tempo Perdido. Em resumo: do diálogo quádruplo entre diretor, ator, personagem e espectador, esse último certamente é capaz de viver uma experiência interior regeneradora ao topar assistir aos cinco filmes na sequência em que foram feitos. Ao mesmo tempo em que tudo de fundamental já estava lá em Os Incompreendidos, acompanhar a trajetória do Antoine Doinel adulto nos faz ver sob novas perspectivas as cenas desse primeiro filme. Longe de todo determinismo sociologizante mais grosseiro, a trajetória do personagem/pária é imprevisível, poética, singular e construída/reconstruída ao longo de cada etapa do caminho. Como na vida e na grande arte.
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