quinta-feira, fevereiro 24, 2011

O Segundo Incêndio de Cartago

O ano de 1989 é aceito como o marco do fim da Guerra Fria, pelo gesto simbólico da derrubada do Muro de Berlim e pela implosão do sistema internacional organizado a partir das sociedades do Leste Europeu. No entanto, quase 22 anos após esses acontecimentos, muitos lugares do mundo ainda são governados de acordo com a lógica do sistema bipolar. É o caso de Cuba, Coreia do Norte, do partido único chinês e também do sistema político bipartidário e militarista norte-americano.

Desde fins de 2010, a imprensa ocidental vem noticiando com regularidade o que é descrito como uma onda democrática no mundo árabe, dando especial enfoque às manifestações de rua contra os governos ditatoriais no Egito, Tunísia, Iêmen, Bahrein, Irã e Líbia. Por mais cômodo que possa ser juntar todos esses movimentos em um mesmo saco e rotulá-los como uma “grande onda democrática”, há de se considerar as especificidades de cada caso particular e entendê-los sob uma perspectiva histórica. Se uma certa narrativa social ainda hoje afirma que os EUA foram os vencedores da Guerra Fria e que a dissolução do império soviético representou uma inquestionável vitória dos princípios consagrados da democracia representativa, da economia capitalista, da Igreja Cristã e do individualismo burguês sobre o ateísmo marxista, o declínio constante do império norte-americano desde os anos 1970 está aí para comprovar que a história social não deve ser enquadrada em esquemas simplistas e maniqueístas, que têm muito mais cara de propaganda de um certo regime que justifica desigualdades e de um determinado estilo de vida do que de ciência.

Pensemos um instante. Quais foram os regimes e grupos sociais apoiados pelos norte-americanos na metade de século posterior à Segunda Guerra Mundial? Em que esses grupos se identificam com o tripé ideológico do “mundo livre” (economia capitalista, democracia representativa e Cristianismo)? A resposta à primeira questão é fartamente documentada: o chileno Augusto Pinochet, o xá iraniano Reza Pahlavi, o ditador indonésio Suharto, os ditadores brasileiros Médici, Costa e Silva, etc., o ditador vietnamita Ngo Dinh Diem, grupos fascistas e anti-comunistas na Europa Ocidental, o ditador Somoza na Nicarágua, os mafiosos que tentaram assassinar Fidel Castro inúmeras vezes, Hosni Mubarak no Egito, os monarquistas gregos, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Israel, etc. Dessa simples enumeração a resposta à segunda questão resulta óbvia: nada.

O que essa chamada “onda democrática no mundo árabe” e os atentados de 11 de Setembro têm em comum? Ambos são frutos tardios de escolhas estrategicamente erradas feitas pelo Estado norte-americano e suas agências durante a Guerra Fria. No afã de patrocinar toda e qualquer iniciativa anti-soviética e imaginando que combatiam uma potência imperialista que aspirava a dominação mundial, os norte-americanos foram responsáveis diretos e indiretos por genocídios, ditaduras, assassinatos e todo tipo de violação dos direitos humanos no Terceiro Mundo. Em muitos casos, atrasaram em décadas a possibilidade de desenvolvimento autônomo de regiões inteiras do globo: é o caso da América Latina, do mundo árabe, da África e do Sudeste Asiático. As demonstrações públicas que hoje assistimos pela CNN são tentativas de derrubar governantes que foram empossados com dinheiro e armas contrabandeados pela CIA. Até que ponto são manifestações legítimas de aspirações populares e até que ponto são manobras patrocinadas pelo mundo ocidental é algo difícil de definir nesse momento, dado que o noticiário de hoje (ainda) tem muito mais caráter de propaganda do que de informação. Toda forma de democracia é por definição melhor do que qualquer outra forma de governo? Na sociedade em que vivemos, é possível falar em “liberdade de expressão”? Em direitos políticos plenos? Liberdade de expressão existe para defender a grande mídia ou como um direito de todos? Nós, ocidentais e cristãos do outro lado do mundo, sabemos qual a melhor forma de governo para o mundo árabe? Temos direito de opinar e apoiar determinado grupo a milhares de quilômetros de distância? Devemos condenar o Irã por ter um programa de desenvolvimento da bomba atômica e ao mesmo tempo aplaudir Israel? Sob um ponto de vista moral, é possível defender a existência do Estado de Israel? São os países árabes e o povo palestino que ameaçam Israel ou é a criação de um Estado artificial patrocinado pelas potências ocidentais que ameaça a existência dos povos árabes?

Durante a semana que passou, mais uma vez os EUA vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que repudiava as colônias judaicas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Tal fato ficou em segundo plano, uma vez que na Líbia o exército matava centenas de manifestantes. Quantos palestinos foram mortos direta e indiretamente pela aliança EUA/Israel desde o começo deste ano? O que faz a Human Rights Watch que sempre denuncia países não-alinhados com o Ocidente mas se cala sobre Israel, Guatánamo, operação Condor e os abusos de todas as ordens promovidos pelos EUA e pela OTAN no Iraque, no Afeganistão e outras regiões do mundo? Os ocidentais têm “mais” direitos humanos do que os árabes?

Talvez o que mais tenha irritado os etnocêntricos jornalistas ocidentais nessa crise da Líbia é a impossibilidade de enviar correspondentes de guerra ao local e a censura à internet. Será que se ocorresse uma guerra civil nos EUA de hoje o governo oficial permitiria que os manifestantes utilizassem a internet para se organizar e a imprensa internacional para chamar a atenção sobre os crimes promovidos pelo Estado? Existe liberdade de expressão na Faixa de Gaza e na Cisjordânia? Por mais repugnante que seja a figura de Muammar Khadafi, certamente ele assassinou muito menos gente do que Eisenhower, Kennedy, Nixon, Reagan, Carter e companhia. Pra não falar de novo em Pinochet, Médici, Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Suharto, etc. Pra nós, genocida é o que mora na África ou na Ásia, Stálin e Mao é que eram ditadores e democracia é o que existe nos EUA. Democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século? É, democracia com os mesmos dois partidos há mais de um século.

Esse texto foi feito para levantar questões. A democracia é o melhor sistema de governo possível? (definitivamente não). O ocidente é melhor do que o oriente? (não) O Norte é melhor do que o Sul? (não) O branco é melhor do que o não-branco? (não) O cristão é melhor que o muçulmano? (não) O homem é melhor do que a mulher? (não) O heterossexual é melhor do que o homossexual? (não) O velho é melhor do que o jovem? (não) O meu é melhor do que o seu? (não). Aos que concordam com as respostas entre parênteses, cabe questionar o que vem sendo noticiado como verdade, o modo como os Estados estão organizados, a maneira como o trabalho é trabalhado e o mundo em que vivemos.

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