quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Antoine Doinel

Recentemente, tive a oportunidade de assistir, em sequência, aos cinco filmes que Truffaut filmou sobre a trajetória do personagem Antoine Doinel, interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud. Como que realizando um desejo secreto de todo espectador/leitor, François Truffaut permite que nós respondamos aquelas perguntas que invariavelmente se levantam quando fechamos a última contracapa do livro ou somos surpreendidos no meio de uma história interessante por um letreiro escrito The End: e depois, o que acontece com ele e com ela? Como continua? E o enfant térrible Antoine Doinel, um menino que se sente estrangeiro em casa, na escola, no reformatório ou morando escondido na casa do coleguinha burguês, não deixa nada a desejar em relação aos seus primos literários Holden Caulfield, Julien Sorrel e Stephen Dedalus.

Há um intervalo de vinte anos entre o primeiro filme – Os Incompreendidos, de 1959 – e o último – Amor em Fuga, feito em 1979 – e pode-se agrupar os títulos em duas grandes categorias: de um lado, os dois primeiros, filmados em preto e branco e que tratam da juventude do protagonista, e de outro os três últimos, em que a ação orbita ao redor da personagem Christine (Claude Jade), esposa e depois ex-mulher de Doinel. O intervalo entre essas duas datas – 1959 e 1979 – corresponde a um período de intensas transformações (para melhor) na cultura, nos movimentos sociais, na moralidade pública, no sexo, no cinema e certamente pelo menos nessa última categoria Truffaut teve a sua responsabilidade. Não só ele, evidente, afinal era um período de grandes realizadores nos dois lados do Atlântico: Godard, Rohmer, Pasolini, Antonioni, Resnais, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Bergman, Glauber, Fassbinder e por aí vai. Claro que esse é um viés ocidental de periodizar e glorificar suas próprias coisas e experiências, mas acho difícil um ser humano não tirar alguma coisa de boa se se der ao trabalho de assistir a filmografia completa de pelo menos esses poucos que eu citei.

Os Incompreendidos (1959) é o primeiro longa metragem de Truffaut, então com 27 anos de idade e que filma a história (bastante autobiográfica) de um menino parisiense no período pós-segunda guerra mundial que vai sendo sistematicamente afastado do centro (aquilo que representa tudo o que é bom e verdadeiro socialmente) em direção a margem da margem da margem. Nessa trajetória, vários personagens (eles mesmos já marginalizados cada um ao seu modo) contribuem com alguns “empurrõezinhos” providenciais: a mãe, o padrasto, o amante barra chefe da mãe, o professor, o colega de classe, o diretor da escola, o delegado, a psicóloga e todas as espécies de “assistentes sociais” típicos dessas sociedades capitalistas policialescas e totalitárias que nós conhecemos tão intimamente nos livros de Foucault. Antoine Doinel empreende sua fuga em seis movimentos. Movimento número um: ao se dar conta de que esquecera de fazer o dever de casa e meio que incentivado por um colega “má companhia”, Antoine foge da escola e mata aula. Movimento número dois: por mentir para os pais afirmando que fora a escola quando cabulara aula e por mentir ao diretor da escola afirmando que faltara porque a mãe morrera, Antoine Doinel se dá conta de que a situação na casa dos pais (mãe solteira e promíscua + padrasto) tornou-se insustentável e foge de casa. Movimento número três: readmitido na casa materna, o menino decora trechos de Balzac, os utiliza num exame de redação na escola, é acusado de plágio pelo professor, bate no colega que o conduziria à diretoria e foge da escola de vez. Quarto movimento: depois de roubar uma máquina de escrever ultra-pesada e trambolhenta do escritório do padrasto e não conseguir vendê-la para um atravessador, Antoine entra furtivamente durante a noite no escritório para devolver o objeto, mas é pego pelo segurança e preso pela polícia. Quinto movimento: após se aconselharem com as autoridades, os pais decidem internar o filho numa instituição estilo Febem (francesa, lógico) e o garoto é banido das ruas de Paris. Sexto e último movimento: no meio de uma partida de futebol, Antoine Doinel foge dessa Febem e corre em direção ao mar (que nunca d´antes vira), numa das melhores cenas (disparada) do cinema nosso ocidental. Enfim, um Rimbaud/Henry Miller/Carlitos de doze anos mestre na arte do “se virar”.

Antoine e Colette (1962) não é um longa metragem e continua a história de um ponto bastante adiante daquele em que Os Incompreendidos terminara (fato que é recorrente nos cinco filmes). Nesse filme vemos um Antoine Doinel aos vinte anos, apaixonado por música clássica, morando sozinho num quartinho minúsculo depois de sair do internato e trabalhando numa fábrica de discos de vinil. Num desses concertos ele se encanta por uma garota, Colette, e investe na sua conquista. Consegue conquistar os pais dela, mas com ela fica mais na base do platonismo. Um filme cute (sem nenhum trocadilho....).

Beijos Roubados é o filme que Truffaut rodou em 1968. Para a wikipedia francesa, trata-se de um filme sobre o tema da instabilidade e do provisório. Realmente, ficamos sabendo que Antoine estava servindo ao exército e apaixonado por uma tal de Christine. Nas forças armadas ele é preso várias vezes, considerado insubordinado e depois dispensado sem qualquer carta de recomendação. De volta a velha Paris, ele obtém a ajuda dos pais de Christine (de novo o tema dos pais da namorada) para conseguir um emprego de vigia noturno em um hotel, que não dura muito tempo. Logo após, Antoine se torna funcionário de uma agência de detetives particulares, chega a exercer a profissão com empenho e boa vontade, mas é despedido depois que o chefe descobre que ele havia transado com a esposa de um comerciante que contratara a agência para investigar sua própria vida. Os beijos roubados do título (baisers volés no original) são uma referência às cenas entre os protagonistas Jean-Pierre Leaud e Claude Jade, uma vez na adega na casa dos pais de Christine e outra vez num táxi, ela dentro e ele do lado de fora da janela do veículo parado. Enfim, um filme muito interessante por diversos aspectos, num Truffaut já mais amadurecido, mas sem perder a inventividade e a sinceridade passional que se tornaram suas marcas registrada desde a estreia.

Domicílio Conjugal (1970) é o ponto alto de toda a saga Antoine Doinel. Poético e prosaico em doses muito bem conjugadas, o filme é um retrato do amor (ou da arte de amar, sei lá) tal qual sobre ele se filosofava – e sobretudo se praticava – e muito – nesse final de anos 1960. Vemos Antoine e Christine casados, construindo um projeto de vida juntos num tempo em que a Europa já estava recuperada economicamente (jamais moralmente) do impacto da segunda grande guerra e a juventude, a arte engajada, os movimentos revolucionários de todas as ordens, a pílula anticoncepcional e o ácido lisérgico botavam muitas interrogações na cabeça dos que se perguntavam o que é ser um bom cidadão burguês e como constituir uma família honrada. No começo, Antoine aposta num novo negócio um tanto ousado: ele tinge flores. Faz experiências e cria expectativas de sucesso: uma metáfora sutil e profunda sobre o que é fazer cinema: transformar rejeitadas flores brancas em vibrantes flores vermelhas, vender ilusão. Enquanto isso, Christine dá aulas de violino para uma menina prodígio, cuja mãe às vezes se esquece de pagar a professora. Surge uma oportunidade para Antoine trabalhar em uma empresa multinacional norte-americana; durante a entrevista de emprego, há um quid pro quo e, como um Homer Simpson, Doinel é contratado para um emprego de sonho: ele pilota, por controle remoto, barquinhos numa maquete de um porto. Outra metáfora sobre o fazedor de cinema: lidar com réplicas, teleguiar manequins animados numa encenação de realidade alternativa. A seguir, Antoine e Christine têm um filho: ela lida com o marido de forma ríspida na noite logo após o parto e ele registra a criança com um nome que ele queria, mas que ela não aprovara: Alphonse. Mais adiante, Antoine Doinel começa a ter um caso com uma japonesa e trai Christine pela primeira vez. “Não é uma outra mulher, é um outro continente” diz Antoine. Daí em diante o filme se torna ainda melhor: um diálogo desencontrado entre ocidente e oriente, uma mensagem da amante japonesa para seu amante francês criptografada orientalmente dentro de flores por caminhos tortos denuncia o caso para Christine. Ela se veste como uma gueixa e prepara um jantar japonês para tentar se comunicar com seu marido, mas os dois percebem que diante da hipocrisia de Antoine (um mentiroso nato desde criança) e, mais do que isso, da situação banalmente burguesa e falsa em que os dois estão imersos, de um jeito ou de outro algo contaminou a relação que eles cultivaram. As cenas que então se passam não merecem ser transcritas em comentários ou críticas: há de se assistir e concluir por si próprio. Ecos desse filme/obra de arte podem se ver num outro filme do próprio Truffaut O Homem Que Amava As Mulheres (1977) e em Cenas De Um Casamento (1973) do Ingmar Bergman que, para mim, é o melhor filme que já se fez no hemisfério ocidental.

O último filme da série é Amor Em Fuga, de 1979. Filme construído sobre flashbacks que reproduzem cenas dos outros quatro, aqui se vê um Antoine divorciado de Christine (cada um sabe ser o grande amor da vida do outro) e vivendo um romance com Sabine, que trabalha numa loja de discos. Sucessivos encontros fazem o heroi avaliar o que foi o seu passado, seus relacionamentos com a mãe e com as mulheres de sua vida. Há que se divorciar de Christine depois que os dois já estavam separados de fato: saindo do fórum, ele revê Colette (lindíssima atriz Marie-France Pisier), agora uma advogada que tem um caso com o irmão de Sabine, um vendedor de livros; desde a metade de Domicílio Conjugal, Antoine escrevia um romance, na verdade suas memórias afetivas transfiguradas. Na estação de trem, quando levava seu filho Alphonse para embarcar numa excursão, Antointe Doinel vê Colette novamente em um outro trem e se joga para dentro da composição prestes a sair. Durante a viagem, os dois fazem um balanço do que foram suas vidas, seu encontro no final da adolescência, o peso das escolhas e o talento literário de Antoine. |Conhecemos um outro ponto de vista, o de Colette, que enxergava na obsessão de Doinel agradar seus pais e, de certa maneira, “forçar a barra” para ficar com ela, inclusive se mudando para um apartamento em frente a casa dos pais dela, sinais de imaturidade. Mais adiante, as três mulheres da vida de Antoine se encontram por acaso, se reconhecem e admitem que o amaram cada uma ao seu modo e no seu tempo. O outro encontro fortuito que motiva a narrativa é com o ex-amante da mãe do menino que matava aula em Os Incompreendidos e que fornece ao heroi um novo ponto de vista sobre quem era a sua mãe: vemos uma mulher sobrecarregada pela tripla jornada de mãe, mulher da casa, trabalhadora de escritório, oprimida por um meio social limitado, que não permitia que ela desse plena vazão aos seus desejos. O ex-amante interroga Antoine sobre o motivo de ele não ter ido ao enterro da mãe e ficamos sabendo que ele não fora pois estava preso na época do exército, no começo de Beijos Roubados. Antoine sequer sabia onde a mãe estava enterrada e, então, ele e o ex-amante vão ao túmulo da mãe no cemitério. O último capítulo da saga de Antoine Doinel busca juntar as pontas de sua trajetória e vemos um movimento exatamente inverso àquele de Os Incompreendidos: se nesse filme o jovem Antoine está sempre fugindo de alguma coisa que o oprime, em Amor em Fuga trata-se de acertar as contas com o passado e buscar dar algum sentido de unidade à vida de um protagonista que sempre esteve mudando, seja de mulher, de casa ou de emprego - mas que até o fim guardou a essência do menino rebelde.

Ao final, ainda nos questionamos sobre o que aconteceria depois, afinal no último capítulo o personagem ainda tem só trinta e cinco anos. Truffaut morreu uns poucos anos depois de filmar o Amor Em Fuga e nunca rodou um filme sobre a velhice ou a maturidade. Talvez porque sejam justamente o ímpeto e a chama da juventude e seu espírito sempre contestador que animaram a vida do diretor e de sua geração. De qualquer maneira, os cinco filmes são bem amarrados e constituem uma narrativa completa em si mesma (ainda que por vezes fragmentária e descontínua), à maneira de Em Busca Do Tempo Perdido. Em resumo: do diálogo quádruplo entre diretor, ator, personagem e espectador, esse último certamente é capaz de viver uma experiência interior regeneradora ao topar assistir aos cinco filmes na sequência em que foram feitos. Ao mesmo tempo em que tudo de fundamental já estava lá em Os Incompreendidos, acompanhar a trajetória do Antoine Doinel adulto nos faz ver sob novas perspectivas as cenas desse primeiro filme. Longe de todo determinismo sociologizante mais grosseiro, a trajetória do personagem/pária é imprevisível, poética, singular e construída/reconstruída ao longo de cada etapa do caminho. Como na vida e na grande arte.

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