quinta-feira, dezembro 23, 2010

A Glória de Hades

Não eram rios de lágrimas e nem correntezas de chuva
os primeiros sinais que precederam a chegada da morte vinda do horizonte.

Para conquistadores desterrados a vida é que é cor de cinza
o manto que veste a morte cheira muito mais multicolorido.

Canções cuja melodia havia se perdido na poeira do tempo
ainda ontem ressurgiam repaginadas em sinfonias de assovios.

Numa sala de cinema completamente deserta
o homem de chapéu preto na primeira fileira cai em convulsão.

Ainda ontem, naquela esquina ali, existia um casarão de 1919 que,
por abrigar moradores de rua e sem-tetos, foi demolido a marretadas.

Com a morte de alguém, vai embora uma maneira singular de ver a vida:
ou vai pra nenhum lugar ou pode ser que volte pro caos d´onde tudo isso veio.

São as cidades oníricas que compõem a minha alucinação
num transporte pleno às dimensões paralelas que não são ficção.

De uma paisagem do meu tempo de infância, da rua onde eu morava
somente restaram algumas manchas opacas na memória de uma velha cega.

Para melhorar a circulação dos vapores na zona urbana
convém transpôr os cemitérios para além dos muros da cidade.

Quando a moça fantasiada de enfermeira vier de novo ao quarto
peça-lhe que cubra o meu rosto e ponha um chumaço de algodão nas minhas narinas.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Dever Ser

O telejornal prescreve detalhadamente
a maneira como a vida do consumidor deve ser:
poupar sempre parte do salário para as eventualidades
investir no sonho da casa própria financiada em suaves 300 prestações
trocar o modelo do automóvel velho todo fim de ano
só gastar o mínimo necessário para ser considerado consumista
não ter mais do que dois cartões de crédito
separar uma grana pras despesas fixas de se sobreviver
e cortar tudo o que for supérfluo, dos vinhos importados
a toda e qualquer forma transgressiva de lazer.

O chefe prescreve detalhadamente
a maneira como a vida do escravo deve ser:
o homem que mora na rua não escreve
a tia vende suas entranhas cruas pra se sustentar
são as cerimônias públicas de suplício e expiação
em nome de um ideal de higiene e pseudo-moralidade
hoje pra ver um enforcamento bom, só mesmo se for pela televisão
pastores evangélicos berram salmos cuspidos em plena praça
nessa cidade os exorcistas também têm seu próprio sindicato
catequese, pelourinho, pãozinho de queijo e a santa inquisição.

O poder público prescreve minuciosamente
a maneira como a vida do cidadão deve ser:
em busca da concessão de um cartório vitalício
é direito e dever defender o princípio da democracia
reconhecer que existiria em tese um estado de direito
saber que as instituições saem fortalecidas dos escândalos de corrupção
bater palmas pra polícia que invade o morro
não se pode ser contra o interesse nacional e a liberdade de expressão
o que resta é escolher entre dois que já foram escolhidos
nada de desobediência civil nem de tentar fazer justiça com as próprias mãos.

O imperialismo cultural prescreve minuciosamente
a maneira como a vida do espectador deve ser:
sentado e quieto torna-se mais poroso e conformado
vitrines de shopping que também funcionam como espelhos
o legal do cinema é se lambuzar de pipocas e dar uns amassos
não saber se está sendo filmado para um curta ou para um documentário
as câmeras do circuito interno estavam dormindo quando o crime sucedeu
na rede mundial de computadores sua existência foi deletada
e agora é questão de tempo para a sua geração ser suplantada
o velho método de se inventar histórias jamais se perdeu.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

O que eu produzo?

O que eu produzo do meu dia em vinte e quatro horas?
fezes e arrotos
mercadorias materiais e imateriais
por que tanta pressa
se já não há o que fazer?

Camisas de colarinho e salto alto desfilam no passeio
a reprodução mecânica dos gestos de almoçar
embrulha-se o estômago de quem passa fome
e se serve com molho branco na mesa de jantar.

Capitalistas suspenderam os benefícios da classe trabalhadora
o sistema financeiro quebrou
uma bolha de bosta estourou a tubulação de esgoto
terroristas-traficantes comemoraram o ramadã com rajadas de fuzil.

A rua augusta não oculta os conflitos:
cidades sobrepostas se confrontam dos dois lados da muralha
cercas eletrificadas, molotov e lacrimogênio
um banho de banha fervente deforma o rosto de mais uma travesti.

O que eu produzo do meu dia em vinte e quatro horas?
repetição e paranoia
literatura é trabalho voluntário
servidão voluntária e mais-valia não paga
glória post-mortem pode render algum direito autoral.