A política oficial, que se torna visível à força no aparelho midiático na iminência de uma eleição, é o espetáculo mais deprimente em um tempo em que os espetáculos deprimentes mais diversos se sucedem e se copiam ininterruptamente diante das nossas retinas. Passada a euforia do dever cívico dominical feito de qualquer jeito e mais por ser obrigatório do que por parecer uma coisa legal, a eleição para presidente foi cooptada pelos setores fundamentalistas e mais hipocritamente conservadores de uma sociedade desde sempre messiânica e cuja maioria da população é ainda moralmente mais sugestionável do que uma horda de cordeiros hipnotizados. Em face da desconfiança silenciosa perante uma candidata situacionista de perfil tecnocrata e gerencial e das similaridades programáticas das duas coalizões que pleiteiam a mudança para manter a continuidade em todos os pontos críticos da agenda estatal, as pessoas que poderiam pensar uma solução inovadora qualquer sentem que não fazem a menor diferença no cálculo final (e suspeitosamente tão rápido) da manipulação das cifras democráticas que a justiça eleitoral executa por meio das urnas eletrônicas.
É hora de reconhecer que as igrejas – evangélicas e católicas, todas elas – tornaram-se os atores políticos que pretendem levar adiante o legado dos militares e clientes do regime político que vigorou por aqui entre 1964 e 2002. Detentoras de um quase monopólio da reprodução cultural e donas únicas das verdades mais contundentes e absolutas nas periferias das grandes cidades, nos centros das cidades pequenas e em outros tantos recantos do interior e das capitais, as igrejas possuem um projeto de nação próprio e, sob os rótulos mentirosos de “família” e “defesa da vida” , propõem uma agenda que consegue ser ainda mais reacionária do que os lemas do Estado liberal democrático de direito cientificista-positivista-tecnocrata-competentista-elitista-racista-patriarcal-escravista-burguês que desde 1800 e pouco foi hegemônico em nosso hemisfério. São rótulos mentirosos por quê? Porque defender que um punhado de células embrionárias grudado na parede do útero de uma mulher negra e pobre – coisa que a “ciência” cristã tão caracteristicamente século XX e tão caracteristicamente norte-americana da pior estirpe hoje costuma chamar de “embrião”, mas que os judeus e depois monges copistas que escreveram as bíblias durante a Idade Média não eram capazes de saber que existia e chamavam simplesmente de “sangue menstrual” – defender que “embriões” e “sangues menstruais” são pessoas de verdade como eu e você é como confundir merda com cu. Por trás dessa mentira se esconde o óbvio: a igreja cristã tem como razão de ser e objetivo último reprimir, condenar e classificar na categoria de “pecado” o prazer sexual e toda e qualquer sensação de tesão que venha do corpo, do toque ou da excitação pela imaginação, qualquer tentativa de compartilhamento de uma experiência de plenitude por meio do sexo. Lembre-se: trata-se de uma instituição organizada transnacionalmente a coisa de 1500 anos na Europa e 500 anos nas Américas e com larga tradição de espancamentos, assassinatos, castrações, pedofilia, massacres de minorias e tortura em nome da repressão da sexualidade, especialmente repressão das mulheres e segregação dos “pervertidos”.
Os debates com perguntas e respostas já pré-determinadas e devidamente ensaiadas, o horário eleitoral gratuito produzido pelos marketeiros (maconheiros?!), a cobertura estapafúrdia da nossa mídia umbilicalmente conectada nessas mesmas igrejas, assim como a conversa sobre eleições que a gente ouve no bar, na padaria e no elevador, parece que tudo já foi programado cronometricamente para acontecer do jeito medíocre que essas coisas vem acontecendo e se repetindo. E aí, o que fazer afinal? Aquela arma meio enferrujada e engatilhada para o tiro na testa desde sempre esteve à disposição, embora votar num voto nulo seja outra coisa bacana de se fazer. Que na verdade entre votar um voto que não vai valer nada em alguém e votar um outro voto que não vale nada mesmo em ninguém, de repente seria mesmo muito melhor ser governado por ninguém. Anarquia já! Embora os nossos cientistas políticos estejam sim é trabalhando numa outra modalidade de utopia pós-moderna: uma máquina de governar, capaz de cálculos precisos e instantâneos para distribuir a renda, coletar os impostos, construir as estradas, intervir no estrangeiro, gerenciar os burocratas, fazer a taxa do câmbio flutuar, administrar a previdência, a taxa de juros, conter os distúrbios no campo e urbanizar as favelas por meio da internet sem fio. Serra e Dilma existem em carne e osso ou serão já uma primeira geração, mesmo que ainda com defeitos de projeto e fabricação, desses fabulosos robôs? Ainda hoje, há quem não acredite em televisão. Utilitarismo consumista democrático direto da fábrica, versão 2.01.0.
A utilidade do seu voto é ser um número, se abstrair numa quantidade decifrada pela análise estatística. Se ir a política é como ir ao mercado, logo compra-se o direito de abstenção, um pacote de alienação e se distancia serena das paixões políticas, deixando que os ciborgues do poder se digladiem numa luta que no fundo não tem nenhum significado maior, lutas alheias ao fundamento ético da conduta humana. A opção é não participar de um falso processo político, da renovação periódica de um ritual aleatório e coletivamente suicida, um outro teatro do absurdo. O engajamento, da nossa parte, não irá para pessoas, nem para partidos, facções, coletivos, talvez nem mesmo para células terroristas islâmicas. O engajamento será pelas identidades negadas, pelas plantinhas da Amazônia, pelos direitos dos fetos, das fadas, dos santos, dos deuses, dos estelionatários, dos incorruptíveis, mas jamais para os bons administradores, nem para as figuras da mídia portadora de celebridades. Vote George W. Bush 69 e seja mais um fundamentalista cristão.
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