segunda-feira, abril 19, 2010

Sobre o Mesmo Tema

Uma vez por mês, invariavelmente num sábado, me proponho o problema do bilhete do suicida. Me aflige pensar nas imensas gavetas do instituto médico legal e imaginar mais uma etiqueta banal amarrada ao meu tornozelo (morto) contendo, sumariamente, uma identificação civil com nome completo, data de nascimento e óbito, cor da pele e causa mortis. Etiqueta esta escrita com desdém e garranchos por uma auxiliar de papiloscopista, assitente incompetente de um insignificante médico legista, que não se dá ao mísero trabalho de dar um nó decente no barbante cinzento usado para atar o bilhete amarelo ao tornozelo esquerdo (morto) - corre-se o risco de não ligar o nome à pessoa. Muito embora a pessoa em questão (morta) já não se ligasse em nomes, números ou identidades desde uma data incerta, o conteúdo do bilhete (etiqueta?) sintetizava em quatro belas palavras um conceito chave tanto para a sociedade civil hodierna quanto para o princípio do Estado de direito. No verso da etiqueta amarela (caída ao acaso no chão frio do instituto médico legal), um sociólogo forense que fazia pesquisa de campo para a conclusão de sua rídicula tese de doutorado leu o seguinte: dignidade da pessoa humana. Tipificado como crime, o direito de morrer a própria morte subsiste à letra morta da lei humana que condena o suicídio de acordo com a cláusula ypsylon do código penal brasileiro e subsiste à lei católica que reserva alguns hectares do inferno a este e outros suicidas nem tão hereges assim. Aos mortos que se matam é reservado o direito amplo e irrestrito de se justificar por escrito. Aos que julgam, aos que choram, aos que sentem pena, aos que se danam, aos que esperavam, aos que nem suspeitavam, aos que já sabiam mesmo antes de acontecer, aos que não se conformam, aos que queriam, aos que lamentam, aos que vivem a vida, aos que se apegam ao passado e as lembranças boas, aos que enterraram, aos que descobriram o corpo, aos que só conheciam de vista, aos que alertaram as autoridades, aos que fizeram o sinal da cruz, aos que repartiram a herança, aos que vão sentir saudades, aos que seguirão o exemplo - não. Na ausência de toda poesia que a minha morte exala, a etiqueta amarela jogada no chão serve de boa antologia.

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