segunda-feira, maio 25, 2009

Leituras

As leituras de juventude são descobertas. Aos dezenove, vinte ou vinte e poucos eu desejava conhecer o que de melhor existia em literatura, teatro, cinema, na vida. E li bastante: quase sempre o acaso. As épocas, línguas e estilos fundiam-se numa maçaroca ininteligível e fascinante: era o desbravar de novos continentes. Faltavam mapas, faltava dinheiro, faltava esperar a estação do ano certa. E todo mundo tem que transar uma primeira vez, tem que usar droga por uma primeira vez, tem que se perder na augusta de madrugada uma primeira vez. E uma segunda, e uma terceira, e uma infinidade de eiras sem beiras...
As segundas leituras são orientadas pelo método. Já sei que livro eu gosto, já sei as cenas preferidas, já sei os autores que me falam algo essencial. Munido de mapas traço rotas muito mais precisas: posso passar seis meses convivendo com um autor, pensando seus pensamentos, conhecendo os bares onde ele ainda bebe, viajo com muito mais calma para as cidades visíveis/invisíveis que ele inventou.
E foi assim que mudei meu jeito de ler. Metade do ano passado – 2008 – convivi com a mulher Hannah Arendt e neste 2009 estou dado a ler Franz Kafka. Sim, eu já havia lido a metamorfose, o castelo, o processo, mas a perspectiva é outra quando se lê um livro na sequência do outro. E assim as impressões de uma leitura-mergulho dia-a-dia vão se consolidando em outras descobertas. Assim, como Rimbaud, abandonei a literatura desde algum tempo e pretendo continuar a preencher este espaço relatando impressões de minhas segundas leituras. Nada de exercícios de crítica, tudo de exercícios de leitura. Em voz alta: outras descobertas.