quarta-feira, julho 01, 2009

Loki

Loki, na wikipedia, é descrito como um deus ou gigante da mitologia nórdica. Em outras acepções, loki é caracterizado como um gênio: e é sobre o gênio que trata o filme em cartaz atualmente nos cinemas de São Paulo. Vale ressaltar que o significado dessa palavra diluiu-se muito em nosso idioma, hoje em dia associado mais a variações de humor e a sujeitos cdfs e anti-sociais do que ao significado que a palavra tinha à época do Romantismo. Portanto, o filme trata do gênio (enquanto substância singular, universal e não encarnada) no sentido usado por Goethe: tem muito mais a ver com um certo tipo de dom, uma capacidade inquestionável de se aproximar do Universal, da Ideia hegeliana com I maiúsculo, seja por meio da arte refinada e atemporal, seja por meio de reflexões de clareza e objetividade, com mensagens de longo alcance no tempo e no espaço.

O filme é um documentário biográfico organizado em ordem cronológica e recheado de entrevistas sobre a trajetória do músico Arnaldo Baptista. Para os aficcionados pelo cara e pelos Mutantes, como é o meu caso, somente a oportunidade de ter acesso as imagens e depoimentos raros das décadas de 1960 e 1970 já vale por si só cem vezes o preço do ingresso. Mas muito além, novas luzes e perspectivas sobre a vida de Arnaldo são dádivas emanadas dos depoimentos mais atuais do cantor. Da simplicidade das suas pinturas, palavras, do lado de lá desse mundo à parte onde ele vive isolado ouvimos uma versão ligeiramente diferente sobre quem é essa figura mítica Arnaldo. Do senso comum católico e yuppie desses fãs um pouco mais velhos do que a minha geração o que se costuma ouvir é “o Arnaldo foi um cara que foi longe demais nas drogas, que não soube esquecer a Rita, que viajou no LSD e nunca mais voltou e que, de certa forma, o acidente e a vida precária que ele vem levando desde o fim dos anos 1970 é uma compensação, um castigo pela vida de excessos e ácidos dessa época dos Mutantes”. Nessa concepção, sente-se um pouco de pena (como em todo sentimento de pena: desprezo puro) por ele, que não soube virar burguês e “adaptar-se” aos novos tempos como aconteceu com a maioria daquela geração (aqui podemos enumerar a Rita Lee casada com aquele marido idiota, Gilberto Gil de gravata no ministério de Lula, Caetano cantando “sozinho” e até o Tom Zé se apresentando no programa do Raul Gil como eu vi um dia desses).

O meu amor pelo Arnaldo é enorme e com certeza distorce e influencia qualquer crítica. Mas a sensação que eu tive durante o filme e ao sair da sala misturava choro, vontade de entrar num ônibus pra Juiz de Fora, um desejo de sair pela avenida Paulista cantando “cê tá pensando que e sou lóki, bicho?” e uma necessidade urgente de embarcar numa nave espacial rumo a São Paulo de 1967, nessa mesma Rua Augusta onde eu moro e cujos tijolos das calçadas vibram melodias dos Mutantes. E afinal de contas, se eu ou você vamos a um cinema e assistimos a um filme o que buscamos não é isso mesmo – emoção, emocionar-se? Hoje fui trabalhar ainda inebriado com essa coisa toda. Nem quero entrar em muitos detalhes ou polêmicas sobre o filme (só pra constar: a melhor coisa é a ausência de qualquer entrevista da Rita Lee atual), vá você mesmo e tire suas próprias conclusões. Porque eu vou correndo. Buscar a glória.

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