segunda-feira, outubro 20, 2008

Vital

A vida é o que não estaca diante de uma bifurcação: arrisca. É o que se lança ao abismo, adolescente em fuga, pacto com o demônio: volúpia, calafrio e irresponsabilidade. Vida é o que caminha. O que confia no que vê é o que há de mais morto, na cama se confundem choro de bebê com gemidos de prazer da mamãe: arranca teus olhos com teus próprios dedos. Líquido é o que não seca, é o que escorre pelas frestas entre o assoalho e goteja qual provocação na careca do síndico que mora no andar de baixo. Vida é o que atravessa paredes e mergulha no vazio de uma queda, vertigem multiplicada pelos seis pavimentos do edifício residencial. Porque vida ainda são os golpes de um corpo escavando o chão do jardim, vida é essa capacidade de uma cabeça entrar dentro de outras cabeças, inventar misérias, conspirar em segredo e formular estratégias para evitar a pena pelos assassinatos cometidos. Vida não é a fome, vida não é o sexo, vida não é o repetido. Antes guinadas bruscas, antes cautelas inúteis, vida é o trem sem trilhos, a nostalgia das noites estreladas, o melancólico final de um alcoólatra com câncer. Conter a pulsão anárquica que palpita no escuro da vida é já estar do lado de lá. Vida é o querer morrer muitas vezes.

Um comentário:

Davi Araújo disse...

Evohé, Gabriel!

Que bom que está de volta. Publicando. Este texto ficou realmente muito bom, me deu coragem.

Abreijos textuais
Davis