terça-feira, junho 10, 2008

RAPSÓDIA

Não existe. Trama emaranhada, raras evidências, lógica truncada. Memória repetida em prateleiras de supermercado. O grotesco de uma terça-feira, uma aparição repentina, como num filme de David Lynch: um passarinho, a estrada, roupas penduradas em cabide de osso, barbatanas fósseis de seres de outras eras geológicas, arqueologia dos baús, mapa-tesouro de piratas, a tesoura eutanásia, arma do crime, censura velada. Natural que a ordem se subvertesse em anarquia. Filmograma, cinematógrafo, o oculto criptografado, função catártica da linguagem, ressonância magnética e transição pulmonar intravenosa parassintética. Um menino pequeno mas tão... tão extrovertido, debochando do palco, debochando da câmera, ridicularizando a coisa escrita. O gesto nem é tão decisivo. Brilho nos olhos, sorriso no rosto de quem sabe querer dizer com precisão o que uma perspectiva parcial de conceber o mundo que se chama indivíduo quiser dizer. Eu pus um caderno na saída do público para que eles escrevessem suas impressões a respeito do espetáculo. Sou daquele tipo de ator pra quem um trabalho bem feito vale mais do que mil vidas vulgares que eu ou qualquer outro pudesse ter tido. Não existe. Mas faço faíscas, coisas tão palpáveis quanto essa boca que eu beijo. O corpo que eu incorporo ao meu próprio corpo, incorpóreo, pó e poros. Descobrir que as pessoas são de verdade, na hora do vamu vê, ir pra cama e transar. Gozo que neutraliza essa poesia, o tecido das palavras, mas que inaugura outras poesias, o caldo e a carne.

Um comentário:

mauro disse...

na associação rapsódica tem um quê de filosofia e pensamento moderno.
mas na filosofia só se fala de método, e se deixa o resto no lixo. apesar dessa conturbação produtiva do caráter metódico, o lixo tem ganhado um pouco de visibilidade hoje, na contemporaneidade... A vida volta a florescer com esse insumo da bricolagem. Graças a essas novas mídias, novos meios como o que aqui usamos.


aqui quem fala é Mauro, aquele colega de Fernanda Carol, do cinema.

abraço!