literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
terça-feira, março 04, 2008
DESEJO E OBJETO
Tire o objeto do lugar. Jogue-o contra a parede, para que se espatife todo em cacos. Tire-a do lugar de objeto. Você pode brincar e manipular, mas a pessoa ali nunca será seu objeto. Reconheça a dialética e você se verá como a engrenagem mais fraca. Uma peça menor de um mecanismo que é muito mais do que mecânico. Veja-se no pôster de sunguinha, colorindo a parede de uma oficina onde se consertam estranhos veículos automotores. Veículos sem espelhos, sem fumaça, sem motor, sem óleo, sem graxa, veículos que circulam movidos a perfume de flores. Em uma oficina mecânica onde as mulheres trabalham de bermuda e não se importam de ficar de pernas abertas nem se algum otário está olhando pra minha bunda. Reinvente seu discurso político sem mexer nos pronomes pessoais. Somente troque as pessoas de lugar, burguês vestido de padre, pobre vestido de terno de linho branco, drag queen vestida de tomara-que-caia, vale qualquer carne em qualquer carnaval, desde que não seja fevereiro. Jogue os livros de marketing e administração de empresas nas mãos do traficante e comece a escrever poesia, sem esquecer de pixá-las nos muros e prédios onde ainda houver espaço. Diga não ao seu país, ao senhor seu presidente, ao síndico, ao guarda, ao banqueiro, ao cara de sucesso, ao pobre coitado que toma pinga no bar e espanca a esposa, ao idiota que você foi um dia, ao que resta de rambo em você, diga não ao deputado, ao padre, ao juiz, ao playboy, ao filhinho do playboy, ao punheteiro que assina a playboy, ao cantor, ao diretor de cinema, ao escritor, ao pai, ao irmão. Tenha coragem, faça o que ninguém nunca quis fazer. Tenha orgulho se alguém te apontar na rua e disser: “olha, lá vai outro homossexual”. O riso desse que aponta é a maior prova de que você está no caminho certo. E pra amar uma mulher de verdade ninguém mais precisa de tacape – ninguém precisa divulgar estupidez e provas de força física e violência gratuita. Fique em casa e prepare o almoço dessa vez, porque ela está combatendo uma outra guerra. Deixe de querer viver em casal e se envolva com todas as elas, com todos os eles, com todos os gêneros, cheiros, tipos, raças, classes, castas. A vida neste século é Dionísio. Não seja um porco no jantar das bacantes. Eu fiz tudo errado na minha vida, mas ganho meu pão fabricando conselhos. A maioria provoca, mas espero que algum desperte ou faça pensar. Queria nascer mulher e ser lésbica. Quem inventou a poesia foi Safo.
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