A tecnologia não se resume a obsessão pelo novo que fascina as pessoas diante da vitrine de uma loja de "shopping center". A expansão do domínio da racionalidade técnica a quase todos os aspectos da vida teve como consequências de um lado o declínio da subjetividade e de outro a despolitização das massas. A ciência e a técnica, ao configurarem-se como ideologias, cumprem um papel fundamental na reprodução e também no sentido que tomam as transformações de um mundo que segue a passos largos para um cenário de crescente desigualdade social e catástrofe ecológica.
Nas sociedades pré-capitalistas, a articulação entre o conhecimento científico e suas aplicações não se dava de forma imediata, ou seja, só esporadicamente (e quase que por um acaso) alguma descoberta científica resultava numa inovação prática ou no aperfeiçoamento de algum processo ligado ao ambiente de trabalho. Nos dias de hoje, ao contrário, a ciência e a técnica estão tão intimamente associadas, que praticamente toda pesquisa científica é concebida tendo em vista suas possibilidades de aplicação na guerra ou na indústria.
O encanto pelas "melhorias do mundo moderno" e a imagem do homem solitário sentado numa poltrona em um apartamento e cercado de todos os lados por equipamentos eletrônicos "de última geração" ilustram bem o poder de sedução dos produtos de uma tecnologia que se desenvolve com uma velocidade espantosa. Porém, ao mesmo tempo são sintomas de um comportamento individualista, do declínio das relações inter-subjetivas e da despolitização das pessoas, que caracterizam tão bem a nossa época. Possuímos cada vez mais coisas materiais e cada vez menos vivências memoráveis e particulares que nos fazem únicos.
Hoje é muito comum ouvir dizer que o estado tornou-se o lar dos tecnocratas. As relações entre o estado e a técnica são complexas e variadas, mas convém destacar ao menos dois pontos. Em primeiro lugar, os governos dos países mais ricos alocam generosos recursos orçamentários em pesquisas científicas e universidades. O critério utilizado para definir quais as linhas de pesquisa que receberão os maiores aportes de dinheiro é justamente o potencial desse conhecimento converter-se em tecnologia num período curto de tempo. Um outro aspecto importante: em nossos dias, o debate democrático reduziu-se a uma "escolha" (fundamentada no que conseguimos digerir dos meios de comunicação de massa) de um entre dois burocratas de carreira invariavelmente discursando sobre seu respectivo "projeto" para a nação e afirmando categoricamente que ele "sabe fazer melhor" do que o seu adversário do partido oposto. De um lado a tecnocracia e de outro o estado como agente do desenvolvimento das forças produtivas.
Também é verdade que a evolução da tecnologia acompanha a história da humanidade desde sempre. Entretanto, a hegemonia da racionalidade técnica em detrimento do pensamento crítico e voltado para os assuntos propriamente humanos é uma característica desta era capitalista tardia. Já é tempo de falar mais sobre e, sobretudo, de fazer mais política. E sem controle remoto.
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