Só percebemos a passagem do tempo porque vemos que os outros estão mais velhos este ano. A impressão que dá é que a velocidade com que o tempo passa quando somos adultos é infinitamente maior do que quando somos jovens. Para quem tá chegando ou já passou dos trinta, um natal sucede o outro mais ou menos como os dias em que passamas seis, sete ou oito horas preocupados só em trabalhar e de repente olhamos em volta e já ficou de noite. A sensação de que somos perecíveis gera uma espécie bem particular de angústia, como que uma saudade de nós mesmos.
Já aquelas experiências que consideramos definitivas e catalogamos entre as mais decisivas para a constituição do nosso eu situam-se numa escala de tempo bem diferente dessa que se mede pela distância entre um natal e outro. Para a maioria, uma grande parte dessas experiências está na infância. Entretanto, por suas peculiaridades, preferimos considerar que a nossa infância transcorreu num terceiro tipo de tempo, com suas características todas próprias em que passado, futuro e presente não significavam a mesma coisa. Já as nossas experiências memoráveis da juventude e da idade adulta se dão preferencialmente à noite, de madrugada, aos sábados, durante as férias ou naquele dia que nós não lembramos mais se era uma terça ou uma quarta. Trata-se de um tempo em que a sensação que temos é de novidade e surpresa, ao contrário do tempo do cotidiano, cujo formato é o da circularidade.
Aquelas atividades que repetimos muitas vezes (mas nem tantas quanto gostaríamos...) e com as quais temos uma relação afetiva também possuem o seu tempo dentro do tempo da nossa vida. E assim podemos falar na história ilustrada dos nossos amores, num roteiro das nossas leituras, numa saga dos nossos instantes de solidão profunda, de uma genealogia dos nossos sonhos. Pensarmos esses tempos em separado e traçarmos uma trajetória particular para cada um deles faz com que descubramos uma porção de coisas sobre a totalidade do nosso ser, pois distinguimos, em meio ao turbilhão do tempo sem filtro do dia-a-dia, desenhos regulares e situações que na essência são idênticas emboram no instante em que se passam pareçam radicalmente diferentes.
E também existem os instantes em que sentimos o tempo como uma coisa física. Por exemplo: quando estamos no cinema vendo um filme e não sabemos se já é cedo ou muito tarde, se a história está do começo para o meio ou do meio para o final. Essa maneira de sentirmos o tempo como um estado em suspensão costuma ser ainda mais contundente quando ouvimos música ou passamos horas e horas dançando numa balada. E nessas horas qualquer desvio que atraia nossa atenção de volta para o tempo do relógio é percebido como um choque, como um susto, como uma interrupção. A sensação de que o tempo é uma coisa física também pode ser desencadeada por uma pergunta singela, do tipo: "que horas são?".
Enumeramos aqui somente alguns aspectos dos tempos e ritmos com quem vivemos a nossa breve vida. O tempo do cotidiano, o tempo das experiências memoráveis, o tempo visto nos outros, o tempo da infância, o tempo do sonho, o tempo do amor e o tempo em suspensão são apenas algumas dentre as inúmeras maneiras dessa divindade se manifestar na vida dos mortais. Mas sobre o tempo da eternidade não podemos falar. Até quando?
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