É posível conceber um paralelo entre o significado do trauma do nascimento para a psicanálise e o que significa o achamento do Brasil pelos portugueses para a história do Brasil. Esse encontro traumático entre duas humanidades, frontalmente opostas em quase tudo, desdobrou-se, num primeiro momento, no extermínio etnocida dos povos indígenas. Mais tarde, a cena repete-se com outro grupos em outros contextos, porém sempre retomando o embate arquetípico entre linhagens humanas desiguais e irreconciliáveis. E desde sempre, sobretudo no pólo mais europeizado, mais esbranquiçado e cristianizado da relação, o encontro pauta-se em posturas etnocêntricas, violentas e intolerantes.
A literatura brasileira utilizou-se desde sempre dessa poderosa imagem poética do encontro entre as populações indígenas e os navegadores portugueses. "Iracema" conta essa história em forma de mito, ao pintar em cores românticas a gênese da nação brasileira, embora sonegue o componente genocida da colonização e filie-se (como a quase totalidade dos documentos) à visão de mundo do lado vencedor. Já a antropofagia de Oswald de Andrade relativiza o etnocentrismo de seus predecessores e apropria-se da perspectiva do índio a fim de constituir um ponto de vista diverso do cânone europeu importado e no fim das contas opera como um contraponto deste.
No cinema, também é recorrente a figuração dos conflitos entre humanidades em choque, ou seja, entre os extremos de uma sociedade sem coesão e rachada ao meio por contradições insolúveis. Basta lembrar "terra em transe" de Glauber, "o bandido da luz vermelha" de Rogério Sganzerla, ou mesmo "cidade de deus" de Fernando Meirelles e "tropa de elite" de José Padilha. Os exemplos são inumeráveis.
Hoje assistimos, senão por experiência própria ao menos pelo que é veiculado nos meios de comunicação, à repetição desse embate traumático e mortal entre os diferentes que se cobrem numa mesma bandeira de Brasil, principalmente nos fronts da guerra civil urbana. E, incapazes de aprendizado e amadurecimento a partir das experiências do passado, nós, brasileiros e brasileiras de todos os jeitos, continuamos a fundamentar nossa fala a respeito desse outro tão próximo em máximas etnocêntricas, em raciocínios enviesados e em preconceitos deslavados. Reproduzimos o que nos faz inviáveis e que chacina nossas crianças, nossos índios, nossas mulheres, nossos negros, nossos favelados, nós mesmos.
Haverá alguma brecha nesse mecanismo por onde possa germinar a solidariedade? No panorama de um modo de produção capitalista pós-industrial que só veio para reforçar os impulsos que atiram os indivíduos e agrupamentos humanos uns contra os outros, essa hipótese soa cada vez mais improvável. Porém convém não perder a fé nas ações ainda incipientes e pouco coordenadas daqueles que se impuseram o desafio de erigir um mundo do e para o diferente.
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