terça-feira, novembro 21, 2006

Vermelho, Amarelo e Preto

As altas labaredas que consumiam as parcas ruínas de cimento e concreto já podiam ser vistas do outro lado do pico do Jaraguá. Antenas de TV liqüefeitas e retorcidas não eram mais capazes de transmitir ao vivo as imagens que vinham desde os helicópteros, que ora apareciam, ora se ocultavam por entre as grossas colunas de fumaça preta. O ar era espesso, tinha cheiro de gasolina e corroía a pele das crianças que tentavam pedir socorro desde as janelas dos hospitais. Ninguém ouvia ninguém: gritos, gemidos e urros cruzavam as avenidas desde a periferia até o centro e se engarrafavam aos milhões também no sentido contrário. Os mendigos olhavam para o céu e profetizavam apocalipses sem abundância nem perdão. O riacho do Anhangabaú emergiu furioso; o Tietê ardia maior que a Marginal em chamas, rios de fogo e de sujeira fediam a enxofre. Poucas pessoas em São Paulo lembravam de Dresden, Nagasaki e da década de 1940, porém o noticiário internacional não se cansava de repetir essas metáforas. Corpos explodiam mutilados. Barrancos cediam, imensas crateras fendiam o asfalto, arranha-céus tombavam mais depressa do que certos barracos de favela. Sirenes tocavam em postos da defesa civil, do corpo de bombeiros e em agências bancárias. Três ex-presidentes encontravam-se incomunicáveis e os telefones que suplicavam um DDD para Brasília eram brinquedos inúteis. Uma árvore resistia impávida na parte de trás do museu do Ipiranga. Um jardim de trepadeiras, árvores frutíferas e arbustos floridos resistiu milagrosamente no quintal de uma residência na zona leste. Três horas depois, a Casa Branca negou a possibilidade de tratar-se de um atentado terrorista. Dois aviões comerciais perderam o contato visual com a torre de Congonhas e caíram nas imediações de Moema. A Casa Branca voltou atrás e o porta-voz disse que só iria se pronunciar novamente após uma investigação mais detalhada da CIA e do Pentágono. A última medida provisória assinada pelo governador do Estado transferia a sede do poder executivo para Barueri, porém não houve tempo hábil para publicá-la no Diário Oficial. A ONU já falava em 23 milhões de mortos, poucos feridos sobreviveriam sem energia elétrica, alimentos, água encanada e os estoques de remédio foram saqueados. A OTAN, em reunião extraordinária, decidiu mandar toda sua frota naval para a região, porém o porto de Santos não comportava o desembarque de tantos navios ao mesmo tempo. Alguns desembarcaram em São Sebastião e outros só no Rio de Janeiro. Segundo fontes das Forças Armadas Brasileiras, 144 mil militares morreram durante as primeiras tentativas de salvamento, mas esse número ainda não era oficial. A CNN enviou uma equipe de reportagem ao local, mas as informações ainda eram desencontradas e fragmentárias. Uma comunidade em Guaianazes parecia obter sucesso no combate aos focos de incêndio. Ninguém viu, mas uma flor nasceu no terreno preto e carbonizado onde antes era o edifício do Banespa.

Um comentário:

Anônimo disse...
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