
O sol nasce sempre tarde demais em Paris. Não existe por aqui nenhuma das infinitas possibilidades da noite - pelo menos enquanto ainda é inverno - e só resta ao poeta cavar sua toca no solo do aconchego, se entregando por horas à fio ao perverso prazer da leitura. Não há mais jogos adultos, divertimentos ou companhias -foi-se já o tempo em que as grandes senhoras elegantes recebiam a nata da intelectualidade mundial em seus salões para fazer nada e tomar largos baldes de chá. Hoje o violoncelo só toca por moedas num corredor tortuoso do metrô. Por isso deixei um bilhete de ódio sobre o túmulo do sr. Charles Baudelaire. Por isso tantas pessoas se matam durante o inverno europeu, se atirando de braços abertos sobre a linha do trem ou o que for. A solidão da gente faz eco quando se passa um fim de Janeiro em Paris. E a beleza vigiada, escondida dentro dos museus, faz a gente querer morrer logo e de um jeito bem quente; o palhaço equilibrista de um livro do Nietzsche escapou por um triz. Ou fugiu com uma atriz de cabaré. Porque não existe nada de vermelho na paisagem de Paris (o moinho do moulin rouge) e o preço que custa um porre faz a gente delirar num copo d´água. Mas mesmo a água é suja, pingando antes de cair sobre a sarjeta já virou gelo. Tudo no mundo conspira para o ódio, detesto a sensação gelatinosa do meu corpo parando de funcionar por causa do frio. Pedi um abraço e só me deram um sorriso sarcástico de troco - não entendo a linguagem enrolada pela qual se manifesta a legião de Satanás.
Au revoir!
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