segunda-feira, maio 22, 2006

Escritos Parisienses - II


Porque também existirá a tristeza enrolada nos cachecóis e sentada na mesa de um café em Paris. E mesmo o menino que nunca quis saber de falar com ninguém nesse instante vai sentir vontade de escutar qualquer voz dizendo bobagens naquela linguagem cifrada que ficou esquecida no outro lado desse pequeno oceano de chopp. E vai querer retornar pra casa com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. E vai desejar vestir de novo a fantasia cor de laranja e roxa do pierrot embriagado, a máscara de monstro de desenho do Walt Disney e vai querer ser o motivo da piada mais tosca e infantil de mais esse domingo de carnaval. Embora ele saiba muito bem que hoje não existam mais razões para cruzar essa porta e perambular pelas ruas sentindo todo o frio do mundo corroendo suas orelhas de abano, ele vai sim descer as escadarias do inferno (que um dia foi do Rimbaud) e tomar inadivertidamente todas as linhas do metrô que levam, sem pressa, para lugar nenhum. Pra quem sabe depois emergir numa pracinha de paralelepípedos em Montmartre pra fazer retratos em carvão dos estrangeiros e um dia ganhar um diploma de salvador dali. Ou quem sabe emergir na avenida dos Champs-Elysées transformado num japonês compulsivo por fotografias do Arco do Triunfo. Ou ainda subir à tona pelo bueiro que dá de fronte de um café no Quartier Latin, cujas poltronas velhas ainda guardam o cheiro azedo do esperma do Hemingway ou do Sartre, filtrados e com uma plaquinha embaixo pra turista imbecil filmar. Como também pode ser que estejamos caindo lá do alto, três segundos antes da Torre Eiffel começar a chover estrelas. Pode ser que ele se perca entre os labirintos e catacumbas dos tantos cemitérios e lápides em que esta cidade se transformou. Embora, para falar a verdade, (mesmo que seja tudo de mentira) nessa hora ingrata da parte final da minha vida, tudo o que eu queria mesmo era me transformar numa figura luminosa, perdida em um terceiro plano de uma tela qualquer de um artista pouco ou nada conhecido numa sala periférica do porão do museu D´Orsay. Só pra olhar essas tantas pessoas que se espremem como bois que vão pro curral, guardando da palidez do meu olhar e da sisudez do meu sorriso um segredo que as gerações que se sucederem pelo século XXII a fora jamais saberão decifrar.

Também existe a tristeza sentada na mesa de um café em Paris e é bom tomar cuidado: ela pode se atirar nos trilhos do trem bem diante de você. E te levar pro inferno com um abraço. Convém levar um lenço branco, azul e vermelho para enxugar o sangue e os pedaços do intestino delgado e do encéfalo que em seu rosto possam vir a se alojar.

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